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Amor de Salvação

Camilo Castelo Branco

Aquietado do seu arrebatamento, Eleutério Romão dos Santos falou assim:

- Cheguei ao que desejava, graças a Deus! A pena que eu tenho é não ser tão rico como Sansão. (O padre Hilário quisera leccioná-lo em Sagrada Escritura: falou em Salomão, ao que se presume, e o rapaz, assim como odiava o soletrar palavras de três silabas, deve supor-se que também em matéria de história preferia os indivíduos de duas aos de três sílabas.)

E continuou:

- Se eu fosse tão rico como Sansão, prima Teodora...

Nisto como lhe não ocorresse ideia nenhuma com que fechar a oração condicional, levou a mão à testa e roçou a epiderme com o aro de um robusto anel que trazia no dedo indicador. Ideia magnífica! Tirou o anel e lançou-o ao regaço de Teodora. Tinha o anel um grosso topázio, engastado num circulo de pérolas- Teodora examinou o objecto e, enganada pela circunferência do aro, esteve quase a pensar que era uma pulseira.

- Faz favor de encaixar no dedo, prima - disse Eleutério.

- Não me serve - disse a menina,

- E que está magrinha das mãos... - replicou o moço. - Pois guarde-o, e quando engordar o porá no dedo. Lá que a prima há-de engordar com os ares de Tibães, isso é que não falha. Vamos a tratar da dispensa e acabar com isto. O que eu queria era ser tão rico como Sansão.

VIII

As filhas do desembargador Figueiroa rodeavam o primo Afonso de agrados, de gozos familiares e recreios, tendendo tudo a diverti-lo de sua taciturna melancolia. A senhora de Ruivães, escrevendo a seu irmão, pedia-lhe que se descuidasse em matéria de estudos e tomasse muito a peito a distracção do filho, qualquer que fosse o gasto que ela houvesse de desembolsar. Os prazeres da sociedade eram temporãos ainda para a idade de Afonso. Bailes e teatros atediavam-no só em cuidar que havia de ir afrontar-se com centenas de mulheres, entre as quais nem sequer em sombra se lhe oferecia, como agro alimento de saudade, a imagem de Teodora. O pudor dos dezassete anos, a índole nada comunicativa, o receio de ser posto a riso por suas primas, encrudesciam, na soledade silenciosa, a paixão do moço. Comprara-lhe o tio, por ordem de sua irmã, um cavalo. Afonso recebeu a dádiva com satisfação, por poder assim, quando lhe aprazia, alongar-se da cidade e refugiar-se em alguns arvoredos das quintas limítrofes de Lisboa.

O local mais atractivo do seu espirito era a quinta dos condes de Pombeiro, em Belas. Desde o reinado de el-rei D. Manuel que as gigantes árvores daquela majestosa anciã estavam frondeando, e asilando as gerações de aves, como para alegrarem com suas músicas, e agasalharem com suas sombras o moço foragido do estrondear da cidade. Por ali as horas lhe corriam plácidas, contentes nunca, bem que a tristeza de

entre os arvoredos, ao murmuroso cair de água em sonora bacia, seja uma particular tristeza, que, relembrada depois, dá rebates de saudade, saudade como a sentimos de alegrias para sempre idas com a sazão das breves e donairosas verduras da vida.

De cada vez que Afonso ia à quinta predilecta, em cada árvore nova entalhava as letras inicias dos dois nomes, que ele imaginava, apesar da distância e dos reveses, atados para sempre com aplauso de Deus. Este pagão de amor e por amor, à imitação de todos os amadores visionários, cuidava que a divindade se intromete nestas brincadeiras da terra, chamadas paixões, passatempo de muito folgar que, algumas vezes, nas suas folganças e corrimaças, esbarra na sepultura aberta e lá se atira em como, deixando cá fora a alma infernada na desonra e na execração. E querem os pobrezinhos, com o peito aberto ao abutre de suas quimeras, que Deus intervenha nos seus infernados brinquedos!

E Afonso, escondido nas sombras escuras de Belas, chorava por Teodora e, alteando o rosto ao Céu, pedia ao Senhor que lhe visse as lágrimas e houvesse piedade delas.

O desembargador inquietava-se com as longas ausências do sobrinho; mas não o contrariava. As filhas é que mais se queixavam da selvatiqueza do primo, que se ia à aldeia a conversar com arvores e penedos e deixava suas primas, que tanto se interessavam em diverti-lo. Nestes queixumes das gentis meninas transparecia um mal disfarçado despeito de todas e de cada uma. Qualquer delas, a resguardo das outras, havia pensado em ser a mais amoravelmente olhada dos olhos de Afonso, o galhardo moço, que tantas graças tinha, como se lhe não bastasse ser rico! O amador da órfã das Ursulinas, se pudesse suspeitar que suas primas conjuravam em disputar-lhe uns grãozinhos do mesmo incenso de Teodora, não faria menos que odiá-las. Estes escrúpulos são a religião, o ascetismo dos iluminados de amor, iluminados lhes chamarei eu em respeito do leitor maior de trinta anos, e compaixão de mim, que ambos nós já fomos também iluminados, e não é por nossa vontade que estamos agora atolados neste lamaçal, onde, por sobre todas as desgraças e vergonhas, ainda queremos ver na superfície lamacenta e torva espelharem as estrelas do céu da nossa mocidade!

Afonso esperava ainda. Sua mãe mentia-lhe. Seu tio, aferrado às tradições de avós, devia de tramar a quebra do casamento destinado com uma menina, apenas formosa, rica e pura, como um anjo a quisera para si. E o que Afonso pensava do silêncio da mãe e das reflexões do velho.

Estava uma tarde de Agosto, Afonso em Belas. Desde o dia anterior que não voltara a Lisboa. O tio, como ele não voltasse ao segundo dia, meteu-se à sua carruagem e foi procurá-lo e entregar-lhe cartas recebidas do Norte. Uma era de sua mãe, outra de um seu tio paterno, fidalgo de Barcelos, o mais acérrimo impugnador do casamento de um Teive Lacerda Correia Figueiroa com uma mulher da Fervença que, dizia ele, por nome não perca.

A carta da mãe dizia simplesmente: Não era digna de ti, meu filho. Deus bem mo tinha dito, e o coração estalava-me em ânsia de to dizer Agora, meu filho, ou cumpre o que o tio Fernão te pede, ou faz o que a honra te aconselhar.

E poucas mais expressões de conforto religioso; mas insinuantes como sabem dizê-las as mães, que nunca se temem de corar diante de seus filhos.

A carta de Fernão de Teive era mais prolixa, versando quase toda sobre o casamento de Teodora com Eleutério.

Parecem-me dignos de extracto uns relanços desta carta, que eu copiei do original.

Não parecem de fidalgo velho, e estranho ao estilo picaresco do folhetim: Eu estava em Braga, de visita aos primos Vasconcelos do Tanque, e acaso vi o cortejo nupcial da morgada sem morgadio. Predominavam as éguas de albardão e rabicho na parte equestre do préstito, que era luzido, porque os arreios brilhavam, principalmente as barbeias. O noivo ia desencabrestado, visto que tirara bula para isso, quando tirou dispensa do parentesco. A morgada. com a cara relambória, levava ares fulos; e

procurava as estrelas ao pino do meio-dia, pasmada de ver que elas não vinham à janela admirá-la. Eu, lembrando-me que a vergontinha da Fervença esteve a querer trepar pelos troncos de Farelães e Numães, dei louvores a Deus e parabéns aos nossos antepassados!

Perguntei quem eram os figurões do préstito. O meu sapateiro conhecia quatro.

Varreram-se-me da memória os nomes, e só me lembro que levavam cara de terem bebido em jejum à saúde da noiva. O lapuz do noivo queria montar à Marialva; mas o ginete, quando chegou à Cárcova, festejou a suciata com quatro coices que iam apanhando os jarretes da morgada, como amostra dos que ela há-de levar do marido.

Tinhas a corte celestial a pedir por ti. Afonso! Quando te deu na veneta ser marido de Teodora, enquanto a mim tinhas lido o folheto que reza de uma que era formosa e sábia. Vai às arcadas do Terreiro do Paço, que lá a encontras pendurada no cordel do livreiro cego. Teodora por Teodora, antes a do papel do mata-borrão, que estoutra é um borrão da tua mocidade, que felizmente o tempo há-de gastar.

Agora é tempo de te dizer que tens uma prima e eu tenho uma filha. Se a queres esposar. vem quando estiveres farto da capital. Está senhora e foi educada como as senhoras da nossa raça. Aos meus olhos de pai. Mafalda parece-me gentil e esbelta. Em palavras é discreta como se os cabelos, em vez de puro ouro, lhos tivesse embranquecido a experiência. Em acções creio que nenhuma ainda praticou de que me não deva honrar, e bendizer a mãe que a educou, e o sangue ilustre que lhe forma o coração.

Tua mãe compraz-se na minha resolução. Vem gozar as delicias puras de uma mocidade bem encaminhada e recebe a bênção de teu tio Fernão de Teive.

Lidas estas canas, Afonso levou o lenço ao suor da testa e às lágrimas, que lhe caíram a quatro. o tio, já avisado do sucesso de Braga, discursou largamente, de pitada no dedo e os óculos montados, na mais grave das atitudes. Afonso diz que o não ouvira longo tempo e o abominara depois que o ouvira.

Quisera o desembargador levá-lo consigo na traquitana; mas o moço rebelou-se arrogantemente contra as ordens do velho, já irritado da pertinácia do sobrinho em ficar, terceira noite, fora de casa. Afonso internou-se de corrida entre o arvoredo, num ímpeto de desesperação ou loucura. O magistrado deixou-o e foi para Lisboa, de onde participou à irmã o resultado das canas e aproveitou o ensejo para vaticinar que Afonso ia a caminho da demência a passos de gigante.

Disse-me Afonso que, naquela noite, fora ter a Mafra; e repousara, na madrugada, encostando a cabeça a um degrau do templo. Ao nascer do Sol, quis agitar-se em nova caminhada; mas o cavalo, prostrado de fadiga e fome, resistiu impassível à espora. Esta contrariedade, que faria rir o leitor, pungiu acerbamente Afonso. A mais trágica desventura tem uma fisionomia cómica, se bem lha procuramos. Escusável seria o riso de quem observasse o cavaleiro, roxo de febre e cólera, esporeando os ilhais do esbuxado cavalo, decepado de jejuns e correrias árabes pelos descampados, onde seu dono acalmava as vertigens da paixão! Que funesta sorte a do irracional que dá em poder de tal amo! O infeliz, privado do dom da palavra, nem sequer pode questionar com o dono a supremacia da sua racionalidade!

Enquanto o cavalo reparava as forças na manjedoura, Afonso escreveu a sua mãe, pedindo-lhe recursos para se ausentar de Portugal e licença para se demorar no estrangeiro até poder regressar esquecido de Teodora. Escreveu também ao tio Fernão, lastimando-se de não poder aceitar a felicidade das mãos de sua prima Mafalda.

Feito o propósito de viajar, o frenesi descaiu em sombria mas serena tristeza.

O céu negro abria-se-lhe, a instantes, em relâmpagos de luz. Atirava ele com a alma ao futuro, ao vago, ao sonho indelineável, e retraía-se com ela a uns rápidos assomos de alegria, que não eram senão rebates de esperança, esperanças tão amigas de dezoito anos! Viajar era-lhe já uma ânsia; cria-se resgatado assim das penas, e sé assim, que

nenhum outro lenitivo humano lhe poderia já valer.

Embevecido nesta esperança, voltou para Lisboa e recolheu-se tranquilo a casa do desembargador. Ninguém falou em Teodora. As primas forcejavam por distraí-lo sem mostrarem propósito disso. O velho proferia máximas, umas de Séneca, outras dele, acerca das paixões, abstendo-se, porém, de apontar o alvo onde iam bater as sentenciosas frechas. Afonso, naqueles oito dias, pudera recopilar máximas e provérbios com que, no decurso de longa existência, regesse as suas acções e repartisse ciência de bem viver por todas as pessoas transviadas do caminho direito; porém, confessa o inatento sobrinho do apotegmático desembargador que apenas se recorda de que eram em latim as máximas de Séneca, e quase latinas as do tio, em virtude do estilo graúdo e filintiano em que as compusera. O certo foi que Afonso não aproveitou nada, nem mesmo o gosto da latinidade.

Mais vernáculo mentor lhe estava reservado, como ao diante se verá.

Num dos dias em que Afonso estava esperando recursos para. se expatriar com a sua dor, chegou a Lisboa a fidalga de Ruivães. Afonso, desgostoso da surpresa, bem que as lágrimas o consolassem ao ver sua mãe, receou que ela viesse apostada, com o império dos prantos ou da autoridade, a demovê-lo de viajar. A santa senhora, entrando-lhe na alma, sorriu benignamente e disse-lhe:

- Eu vim despedir-me de ti, meu filho, já que tu, antes de sair de tua pátria, não quiseste ir abraçar tua velha mãe, e abraçá-la talvez para nunca mais a tornares a ver.

Vim eu, sabe Nosso Senhor com que fadigas aqui cheguei. Mas sempre te devo dizer, Afonso, que eu ouvi muitas vezes contar a tuas avós que era costume em nossa geração nunca saírem da Pátria para as guerras contra a Espanha os militares ainda mancebos e os generais já encanecidos, sem irem de Lisboa ao Minho despedir-se dos seus, e ora em comum diante da cruz a que suas mães tinham orado com eles tenrinhos nos braços.

Este era o uso da nossa família antiga, meu filho, e não sei porque não há-de continuar connosco tão salutar costume. Aos pés da cruz a que eles oravam também eu orei contigo, em meu seio, e lá aprendeste de minha boca as tuas primeiras orações. Sempre pensei que o meu nome ao menos - nome doce de mãe que te estremece - seria algum tanto mais em teu coração, e esse pouco bastaria a que o meu Afonso, disposto a desterrar-se sem mais outra razão que a pouca força de alma, o não havia de fazer, sem me ir dar com antecipação o abraço que eu lhe pediria nos últimos instantes da vida.

Aqui estou eu, pois, meu filho, para te abençoar e ficar pedindo a Jesus Nosso Pai que te guie e restitua aos que te ficam chorando. Enquanto a dinheiro, Afonso, tu dirás o que queres, que pronto está. Praza a Deus que ele te não sirva de ruína ou desonra.

O desembargador, que estivera ouvindo esta afectuosa e branda censura, quando a irmã concluiu, foi direito ao sobrinho, bateu-lhe no ombro com severidade e clamou:

- Acorda, coração de pedra!... Cora de pejo, e doa-te o arrependimento, filho mau!

- Meu mano - disse a senhora -, o nosso Afonso não é mau filho, nem tem acção de que deva corar. Se a tivesse, eu não seria a mãe que sou. O que ele tem é ser infeliz; mas quem o encaminhou nesta má vereda fui eu.

- Tu, Eulália?! Como assim? - perguntou o desembargador, interdito. - Eu, eu fui quem primeiro lhe falou em Teodora e lhe preparou o coração para cativar-se da filha da minha primeira amiga da mocidade. Cuidava eu que o nascimento honrado de Teodora a dispensaria de herdar fidalguia, para que ela fosse excelente esposa de meu filho e digna de o ser do filho da mais ilustre mãe. Eu enganei-me e ele foi enganado por mim. Afonso apaixonou-se; quando lhe quisemos valer, era tarde; tardiamente aconselhei; e meu filho, se não fosse um anjo, poderia ter-me obrigado a discreto silencio, quando eu, pouco há, lhe chamei fraco.

Afonso lançou-se, em pranto desfeito, aos braços de D. Eulália; e, após curtos instantes de ofegante silêncio, exclamou:

- Eu não irei viajar, se a sua vontade é essa, minha mãe. Eu tenho em sua alma um tesouro de bens e de alegrias. Viva, minha querida mãe, o que eu mais necessito é da sua vida!

- Graças vos dou, meu Criador e Redentor! - clamou a senhora, muito comovida, com as mãos postas. - Grande é o poder que dais ao coração maternal! Eu não vos merecia tanto, meu Deus!, mas a vossa misericórdia não mede os merecimentos pela aflição com que as mães vos chamam!

E volvendo o rosto ao filho, cobriu-o de beijos e tomou-o para o seio com o fervor e mimo com que o acariciava na infância.

O magistrado e as filhas solenizaram o espectáculo chorando e rindo de contentamento.

IX

Verei se posso repetir, sem inexactidão sensível, o que Afonso de Teive me contou, com seguimento aos sucessos descritos.

"Nenhum rapaz dos meus anos", dizia ele, "exerceria tão dolorosa violência sobre o seu espirito. Jurei comigo de nunca mais repetir o nome de Teodora, e mesmo convencer minha mãe de me ter esquecido dela. Eu não sabia a que porta do Inferno fora bater, sacrificando-me puerilmente a uns pontos de dignidade que homem nenhum de anos experimentados conseguiu vingar. Em presença de parentes, e relações de minha família, atava com arames em brasa a máscara da minha agonia, contra a qual minha mãe involuntariamente dardejava insultos. Quando ela me dizia: "Estás esquecido daquela louca, meu filho!, as minhas orações foram ouvidas no Céu", ou quando meu tio, com alegres gargalhadas, me aplaudia, dizendo: "Sempre entendi que eras homem, meu rapaz!”, então a minha angústia exacerbava-se, e eu, assim que as atenções me deixavam senhor meu, ia esconder-me a chorar, a chorar com as mãos postas; e, muitas vezes, deste inútil rogar à piedade divina, erguia-me para escrever a Teodora cadernos de papel, que queimava, antes de apagar a luz, ao entrar o sol no meu quarto. Que noites aquelas!”.

"Minha mãe deteve-se um mês em Lisboa. Adivinhei-lhe o desejo de me trazer consigo para a província; mas a obediência não podia levar tão longe a abnegação.Recordar estes sítios, ver além os horizontes de Braga, cuidar que ainda havia de encontrar fortuitamente Teodora, ou alguém que me falasse das felicidades dela, isto apertava-me tanto a alma que eu sentia em mim um desfalecimento de coragem, uma quase precisão de pedir a todos em altos brados que me amparassem.”

"Então pensei em ir para Coimbra, onde esperava eu que mil rapares de todas as condições e feitios me arrancariam de mim próprio e levariam em suas folias, ou me habituariam o espírito às consoladoras ocupações do estudo“.

"Minha mãe acedeu prontamente à minha vontade.”

"Fui para a Universidade, muito escasso de preparatórios, e por isso me matriculei em Filosofia. Logo aos primeiros dias conheci que fora um erro confiar nas distracções juvenis de Coimbra. Alistei-me primeiramente na roda dos moços velhos, gente ridícula; mas de uma ridiculez que não distrai ninguém. Cada um parecia que trazia dois oráculos na cabeça; antes de expenderem os seus dogmas, punham-se à escuta da inspiração; e, ao abrirem a boca, a própria Minerva das escadas latinas cuidavam eles que se apeava do soco para escutá-los. Zanguei destas criaturas infestas e fui-me inscrever na fila dos

literatos militantes, gente de pouco saber, de muitas maravilhas, questionadora por necessidade de adivinhar a discutir o que não sabia da leitura, enfim, futuras esperanças da Pátria, que bem sabiam que uma diminuta ciência, com muita ousadia, basta para atingir os pináculos sociais. Tinham estes rapazes um jornal.

Publiquei sem assinatura uma das muitas poesias que eu tinha escrito nos arvoredos de Belas, nos tempos em que a imagem lacrimosa da reclusa das Ursulinas ia lá comigo a ouvir a voz de Deus nas harmonias da Terra. A poesia Unha a religiosa suavidade de um amor que se alivia aos santos enlevos do coração virgem. Os literatos disseram que eu imitava Lamartine e que mesmo o traduzia quase literalmente em algumas estrofes. Ora eu não tinha ainda lido Lamartine: fui lê-lo, e corei de vergonha pelo grande poeta comparado comigo. Em todo o caso, desgostei-me dos meus colegas por se darem uns ares de tolice muito por aí fora dos limites razoáveis. Passados tempos, dei ao jornal uma outra poesia, fremente de paixão, arrojada, Vertiginosa, escrita depois do meu desastre. Os meus colegas avisaram-me de que a academia, lendo a minha ode,.35 declarara que eu taduzira Vitor Hugo. Fui ler depois Vitor Hugo, e lastimei que os soberanos do génio estivessem sujeitos às chufas de todo o mundo, sem excepção dos literatos meus contemporâneos da Universidade.

"Enfadado de uns sandeus, que nem mesmo eram recreativos, bandeei-me com os trocistas, iniciando-me para isso nas libações homéricas da genebra e conhaque do Troni. A primeira vez que me embriaguei, recobrando o tino, envergonhei-me; lembrou- Me minha mãe, e chorei. Não impediu isto que me aturdisse segunda vez. Os meus sócios de delírio diziam que eu, embriagado, era um moço de boa companhia, alegre, sarcástico, irónico, eloquente e mesmo espirituoso. E, em verdade, das minhas perdas de razão ficavam-me lembranças de ter visto o mundo de outra cor e de haver idealizado quimeras douradas por novas e esplêndidas auroras de outro amor. Comecei a sentir saudades da embriaguez quando, no uso integro das minhas faculdades, me acometiam os terrores da noite infinita do meu coração, horas roubadas ao tormento dos parricidas, asco acerbo a tudo que em volta de mim revelava alegria, ódio mesmo à luz que me mostrava os espectros da natureza, em que noutro tempo a minha alma toda oração, toda absorvida, se evolava em eflúvios de admiração para o Altíssimo.

"Neste perdimento de dignidade terminei o primeiro ano, com aprovação plena, e resolvi passar as férias em Lisboa."

- Com aprovação plena! -atalhara eu a Afonso de Teive.

"Por que não?", respondeu ele. "As minhas noites eram quase todas desveladas, depois que me recolhia fatigado das assuadas e distúrbios. Se o torpor me não adormecia, a visão de Teodora sentava-se em frente da minha mesa e dialogava comigo, ela no tom escarnicador da mulher ovante da sua desonra e eu no acento suplicante de quem já não tem que pedir senão piedade.

"A refugir deste suplicio, ferrava com desespero dos livros da aula, relia-os sem compreendê-los; mas esmagado o coração sob as mãos de ferro da vontade, conseguia entender, decorar e expor com clareza, uma ou outra vez, as ideias dos compêndios. Os meus créditos firmaram-se desde que me estreei vantajosamente numa lição. "Pediu-me minha mãe que a visitasse em férias, embora me demorasse poucos dias. Sem me negar aos seus desejos, consegui que ela fosse ao Porto passar comigo a estação dos banhos de mar. Anuiu a santa senhora.

"Os meus dias corriam magoados, mas serenos, em Leça da Palmeira, onde se haviam reunido alguns parentes nossos de casas muito distantes umas das outras. Meu tio Fernão concorreu com minha prima Mafalda, que o jovial pai me tinha desenhado sem encarecimento. Fora a minha companheira dos brincos infantis. Viram-na os olhos da minha razão depois à verdadeira luz. Era bela e triste. A seriedade taciturna de Mafalda,

se não fosse vaidade de raça, seria um dialogar permanente com o namorado anjo da sua inocência. "Se eu pudesse amá-la!", dizia eu a minha mãe, que se tornara para mim, naqueles dias menos oprimidos, uma segunda consciência. E minha mãe, com a suma delicadeza da sua virtude, pedia a Mafalda que me obrigasse a falar, que me fizesse ler alguns livros recreativos em voz alta. Instado por minha prima, escolhi a leitura da Noite do Castelo ou as Ciúmes do Bardo. Comecei a ler pelo livro; porém, à segunda página, dei de mão insensivelmente ao livro e declamei de cor com tamanho entusiasmo, e com a voz tão vibrante de lágrimas, que minha mãe rompeu em soluços e minha prima empalideceu de assustada da minha intimativa. Aqui tens tu um lance que eu não posso agora relembrar sem rir! O que tudo isto me parece, visto daqui, do alto dos meus tamancos, e através destes óculos de três degraus!

"Minha mãe impediu a continuação da leitura e Mafalda nunca mais desejou ouvir-me. Observei mais arrefecida, e menos atenciosa, minha prima, desde aquela explosão de ciúmes, por conta do poeta Castilho. Isto inquietou-me tão de leve que nem a vaidade me magoou.

"Estávamos em Setembro e eu já tinha entrouxado as malas para voltar a Coimbra. Fui despedir-me dos sítios onde as horas me tinham sido mais tranquilas, na soledade. Velejei num barquinho rio acima e aproei à ribanceira, de onde se avistava o arruinado e já em parte desfigurado conventinho de extintos franciscanos. À sombra de um arco manuelino, que havia sido a portaria do arrasado templo, meditei nos frades, no convento, no refúgio dos desamparados do mundo, nas lápides profanadas que mãos ímpias arrancaram de sobre as cinzas de muitos corações, extintos com o segredo de sublimes torturas. Meditei, e maldisse a civilização, que fechara os áditos da paz quando a guerra sacudia as suas serpes mais inexorável; maldisse a ilustração, que aluíra a enfermaria dos empestados do vicio, quando a peste ardia mais devoradora. A minha angústia era ainda imensa, porque eu não podia dispensar-me de Deus, e dos homens, que apontavam o caminho do melhor mundo.

"Descendo o rio, lá ficavam ainda os olhos e as saudades nas ruinarias do convento. Desembarquei na ponte, onde minha mãe me estava esperando. Detive-me a passear com ela pelo braço e a referir-lhe as minhas ideias sobre os conventos. A virtuosa senhora rejubilava-se ouvindo-me e dizia, em raptos de contentamento, que eu estava da mão do Senhor e que, apesar do mundo, havia de trilhar sempre os vestígios de meus religiosos avós, alguns dos quais tinham morrido mártires da fé nas pelejas dos soldados de Cristo contra os Maometanos. Ouvia eu aprazivelmente a crónica de meus ascendentes, gloriosamente mortos na África e no Oriente, quando vi ao longe, na estrada do porto, à saída de Matosinhos, em direcção à ponte, uma senhora cavalgando um alentado cavalo, ao lado de um cavaleiro menos cuidadoso das arremetidas garbosas do seu.

"Minha mãe assestou a luneta e murmurou: "Valha-me Nossa Senhora dos Remédios!... Se me não engano..."

""Quem é?", atalhei eu. Minha mãe demorou a resposta. Os cavaleiros, no entanto, avizinharam-se a galope. Antes de conhecê-la, adivinhou-a o coração, que me repuxou à cabeça uma onda de sangue... Era Teodora, Teodora, deslumbrante de formosura, gentil como as magnificas quimeras do pincel inspirado, visão que me não parecia para olhos turvados de verem as fealdades desta vida... Não te espante o ardor desta linguagem. Eu fiz agora pé atrás vinte e quatro anos da minha vida, e senti-me reviver naquele momento... Agora, espera um pouco... Deixa-me tomar fôlego,recordando minha mulher e meus filhinhos."

X

Afonso, passados dois minutos, continuou, demudado já o semblante da jovialidade

com que principiara: "Teodora reconheceu-me. A turbação do meu ânimo era como uma vertigem, e assim mesmo vi-lhe todos os lances dos olhos, todas as linhas alteradas daquele adorável rosto. Fitou-me. Estremeceu; vi-a estremecer na quase paragem convulsiva que fez o cavalo. E eu busquei o apoio do ombro de minha mãe e senti-me comprimido nos braços dela. E a magia satânica do olhar da bela mulher empederniu-me; arrefeci; dai a pouco era fogo vivo a minha fronte; cuidava que a via ainda; e ela tinha passado. Pus então a mão sobre o meu coração e já lá encontrei a de minha mãe.

"Caminhámos para casa e não trocámos palavra. Entrei no meu quarto, lancei-me sobre a cama, abafei o rosto nas almofadas e vinguei-me do meu infortúnio a chorar. Chorei e senti-me desoprimido. Fui ao quarto de minha mãe e achei-a de joelhos orando. Quais lágrimas me deram alivio? Seriam as dela ou as minhas? As dela, que o homem, quando chora, desafoga uma paixão e abafa noutra: a do ódio. Prantos que salvam são os da dor imerecida, os apelos das iniquidades do mundo para o tribunal da Providência. E eu, quando chorava, amaldiçoava e pedia vingança.

"No dia seguinte fui para Coimbra. "Concentrei-me com a visão da ponte de Leça. Não me deixou aquele adorado demónio recair na minha miséria da embriaguez. Para quê - dizia eu -, se tenho de voltar à razão para encontrá-la com a tenaz ardente da tortura?

"Quinze dias depois da minha chegada, abri uma carta marcada em Braga. Oscilaram-me as pernas, e cuidei ouvir dentro do peito o despegar-se-me o coração, uma dor que eu não sei se é comum de todas as organizações, dor que eu tenho tantas vezes experimentado, que já a considero aleijão dos vasos sanguíneos. A carta era de Teodora, as linhas muito poucas, e assim, se bem me lembro: Foi o mau anjo da minha vida que me levou para onde tu estavas, Afonso.”

Faltava-me o inferno de hoje. Não bastava o remorso: era necessária a fatalidade do amor, da paixão. Daqui por diante há-de rasgar-me o peito a desesperação dos réprobos, que Deus lançou de si. Arrasto-me a teus pés a pedir perdão. Não me amaldiçoes tu de hoje em diante. Se tens padecido. perdoa, e Deus te dê o triunfo na bem-aventurança; se te esqueceste, escarnece-me. Que vingança maior? Adeus. Alegrate, que eu desejo a morte e ela virá salvar a minha pobre alma deste miserável corpo.

"Que luta, meu amigo! As horas daquele dia e daquela noite foram uma continuada alternativa de alegria doida e de excruciante agonia! Começava a escreverlhe, e rasgava logo as cartas, envergonhando-me diante de minha própria consciência. A paixão ia tocando as extremas onde principia a perversão moral. Já me queria parecer que não era indignidade nenhuma responder-lhe eu, quer insultando-a, quer atirando-lhe aos pés com o meu coração infame. Ultrajá-la e adorá-la era então a despótica necessidade da minha cabeça alucinada.

"Eu carecia de um amigo, e não tinha nenhum a quem mostrasse as secretas dores, que escondera de todos. Tive ânsias de uma alma que me escutasse. Lembraram-me todos os que mais tinham convivido comigo. Sem excepção de um só, eram todos fúteis e incapazes de me pouparem à sua zombaria, se me vissem chorar. Sufoquei-me, atirei-me aos braços da minha algoz fantasia, deixei-me dilacerar pelo abutre da soberba, soberba de não ser ridículo em nenhuma das minhas desgraças.. "Passaram três dias. Na minha banca estavam três cartas fechadas e fragmentos de outras, que eu destinara a Teodora. Abri as canas, reli-as, tive pejo e tédio de mim, rasguei-as e fui embriagar-me.

"Porquê? Porque não havia eu de ser o que seria todo o homem abrasado de amor, ou sequioso de vingança? Que tinha que eu, condoendo-me ou escarnecendo-a, lhe perdoasse? Se alguém se rira de mim abandonado dela, que maior vitória queria eu senão a de fazer risível o marido da mulher castigada por sua mesma abjecção? Esta filosofia hedionda, com que se pavoneia a filáucia de muitos sujeitos, celebrados pela inveja e admiração de outros miseráveis do mesmo formato, quem me privou de a seguir, e aproveitar num caso de vida, em que a minha cura não podia esperar-se da religião, da

moral, ou da volubilidade de meu carácter? Não lhe respondi; é o que sei dizer do meu inflexível pundonor dos dezanove anos. Era uma feroz vingança que me infligia à conta do cobarde quebranto em que me deixara a aparição da mulher vil, arreiada com as pompas da felicidade.

"O meu segundo ano de Coimbra foi um continuado suicídio. Desbaratei a saúde em toda a espécie de desregramento e libertinagem. Não dei nos olhos da academia, porque, naquele ano de 1846, a fermentação da guerra civil absorvia os espíritos alvorotados dos académicos. Fechou-se a Universidade em Maio, quando eu, extenuado de insónias e empeçonhado de bebidas estimulantes, caí de cama, com o sincero desejo e alegre esperança de que me não levantaria mais.

"Escondi de minha mãe aquele estado enquanto me não assaltou o remorso de a não chamar ao meu leito e confessar-me da vileza de alma que me levara a destruir a minha vida por meios tão ignominiosos. Foi esta vergonha que me salvou. Pedi com ânsia e lágrimas aos médicos que me salvassem. Disseram-me que fosse para a Madeira recobrar vigor e viajasse depois um ano nos países temperados e arborizados. A meu ver, a ciência queria dizer no seu receituário que eu estava em vésperas de encetar uma viagem barreiras adentro da eternidade.

"Confiei na juventude, na vontade de viver, e ergui-me. Saí de Coimbra para o Porto. Tentei o meu espirito, animando-me a procurar as montanhas saudosas, os meus queridos pinheirais de Ruivães, os regatos cristalinos, orlados de verduras, em que minha mãe me via criança, a colher boninas para lhas entretecer nos cabelos. A minha alma amava então estas coisas com o transporte arroubado e sereno dos tísicos; é que o invólucro já lhe não empecia o filtrar-se nela o calor da luz ideal, aquele calmo ambiente em que se degela o sangue coalhado no coração.

"Venceu o desejo da vida. Isto que, um ano antes, se me antolhou feio e inabitável aformoseou-mo então o anelo de viver. Até a cor do céu, de onde me choveram as alegrias dos dezasseis anos, me sorria e chamava. Nem já o temor de me encontrar com Teodora pôde conter-me. Que importava? Eu cuidei que a porção de minha essência, cativa do amor dela, se tinha caldeado e vaporado ao fogo, de onde eu saíra refundido, e muito estranho ao homem do outro tempo.

"Surpreendi minha mãe, sentada à sombra da carvalheira da porta, relendo as minhas últimas cartas, escritas com a ternura da alma alumiada pela alva de um melhor dia. Ao contacto do peito da virtuosa, senti exuberância de saúde, de alegria e de unção religiosa. Então me considerei estreado em nova existência.

"Esperava eu que se abrisse a Universidade para ir a Coimbra repetir o 2º ano, cujas disciplinas nem sequer as tinha visto no índice dos compêndios. Minha mãe dissuadia-me de voltar a Coimbra, dando como desnecessária a formatura a quem não havia de ganhar a vida por ela. Eu, porém, desejava instruir-me; dava-me como necessário recolher ideias que ao depois me aligeirassem no estudo os anos de toda a vida, que eu designara passar na casa onde meu pai tinha vivido a sua, com todas as. ditas da paz. Minha boa mãe transigiu. A doce criatura, acusando-se sempre de motora da minha desgraça, obrigara-se a expiar pela abnegação e condescendência. E, demais, ela temia que, alguma hora, me reaparecesse a visão de Leça.

"Que pressentimento! "Dias antes da minha destinada partida, fui às Taipas despedir-me de meu tio Fernão, que estava em Caldas. Ao entardecer saí com minha prima Mafalda a passear na carvalheira. Já era escuro quando nos fizemos na volta de casa. Ao atravessarmos a alameda dos banhos, acercou-se de nós um vulto de mulher rebuçado numa capa alvacenta. Mafalda apertou-me o braço convulsivamente. O vulto parou em frente de nós, e disse num tom irónico: "Consintam que os contemple na sua felicidade: é um prazer dos felizes verem-se admirados."

"Reconheci a voz de Teodora. Mafalda sentiu o tremor de meu braço e reconheceu-a também de instinto. "Desviei-me do caminho trilhado para seguir avante. Teodora

deixou cair a dobra da capa, em que ocultava meio rosto, e disse num tom arrogante: "Veja, Sr. Afonso de Teive! Veja, que ainda sou formosa! O coração está esmagado; mas a face ainda conserva as graças que poderiam arrebatar maior alma que a sua."

"Deteve-se alguns segundos arquejantes; eu ouvia-lhe o latejar do alto seio no frémito de seda do comete. Depois, com um gesto de arremesso, lançou-me aos pés um volume e afastou-se a passo rápido. "Levantei o objecto arremessado e conheci que eram papéis e um objecto de mais solidez; deviam de ser as minhas canas. O restante que seria?!

"Mafalda ia murmurando: "Que mulher, Santo Deus! Que ousadia!... Eu bem desconfiava que era ela. Quando tu estavas a dormir esta tarde, vi passar esta mesma criatura, assim encapotada sobre um grande cavalo, com um criado de farda. Tua mãe tinha-me dito como a vira em Leça, e meu pai descreveu-ma tão pelo miúdo, que a adivinhei. Não to disse, e pedi a Deus que te levasse depressa daqui...." "Não receies, minha boa prima", disse eu a Mafalda, "que esta mulher na minha vida, já agora, apenas pode ser um estorvo de três minutos, quando eu passeio nas Caídas." Minha prima replicou: "Não te iludas, meu primo: esta mulher é a tua sina maldita."

"Sorri-me e fui examinar o pacote. Eram as cartas cintadas com uma fita preta, e desta fita pendia uma pequena chave; era também uma caixinha de tartaruga fechada. Entendi que a chave pertencia à caixa. Abri-a; e vi uma trança de cabelos, com três flores ressequidas compostas entre as madeixas, como se as estivessem enfeitando. Reconheci as três flores: tinha-lhas eu levado do jardim de minha mãe, em dia dos seus anos. "Tirei a trança e, insensivelmente, a contemplá-la, achei que a tinha perto dos lábios. Circunvaguei os olhos, a examinar que me não vissem. Estava sozinho e fechado... Beijei os cabelos de Teodora, meu amigo! Peço-te desculpa de não corar agora: consinto, porém, que, se alguma vez escreveres esta história, ponhas seis pontos de admiração, quando chegares aqui, e discorras o melhor que souberes e puderes acerca da miséria do bruto que chora, e beija tranças de cabelos, do bruto que ri de seu mesmo vilipêndio, do bruto, enfim, chamado homem.

"Ia depor as madeixas no cofre, receoso de alguma surpresa, e então vi um papel dobrado no fundo da caixinha. Era uma cana. Escondi-a sofregamente. fechei os cabelos, escondi o cofre e as minhas canas no saco de noite e, palpitante de comoção, saí do meu quarto e fui respirar no escuro de uma varanda, onde presumia não encontrar alguém.

"Apenas sorvi um hausto de ar, que me chegou ao coração impregnado das auras balsâmicas da minha mocidade, ouvi um respirar alto e tremente.

"Fui à extrema da varanda e vi minha prima, com as faces entre as mãos, repuxando ao seio os soluços com ansiada violência. Chamei-a carinhosamente. Interroguei-a. Quando bem a compreendi, não sei dizer-te que entranhado compungimento me cortou a alma! Caíram-me nas mãos as lágrimas de Mafalda... Perguntei-lhe porque chorava. Respondeu-me: "São as primeiras lágrimas: é por ti que as choro, meu primo. Deus deixa-te perder - -. Não há ninguém que te possa salvar daquela mulher." E, desprendendo-se das minhas mãos, fugiu a soluçar.

"Eu levantei os olhos ao Céu e disse, em meu espirito, com tenor quase infantil: "Não deixeis que eu me despenhe no mesmo abismo de onde a Vossa misericórdia não tem querido salvar-me!"

"E cuidei que o Céu se abria à minha oração com um milagre. "A imagem de Teodora passou ante mim; via-a repulsiva, abjecta, vilíssima e prostituída. Súbito, num disco luminoso, desenhou-se-me o vulto angelical de Mafalda, com a face em lágrimas, humilde como uma santa e ao mesmo tempo altiva como a virtude sem nódoa.

"Amei então minha prima; todas as estrelas do céu ma estavam bem-fadando para mim; todos os rumores da noite diziam comigo um hino ao Senhor que me descativara das ciladas da mulher fatal, que no descaro mesmo da sua audácia me fascinara e com aqueles cabelos tecera o baraço de estrangulação da minha dignidade.

"Fui, fervoroso de ternura, em busca de minha prima. Encontrei-a à cabeceira do leito de seu pai. Chamou-me o tio para os pés da sua cama. Sentei-me com inquieta alegria. O velho achou-me outro em olhar, em tom de voz, em ar de rosto. Queria saber o segredo da transformação. Perguntava a Mafalda se o sabia. A menina sorria com aquela distinta angústia que lacera a alma sorrindo, porque as lágrimas só servem para exprimir os sofrimentos comuns.

"Assisti ao chá de meu tio, pedi-lhe a bênção e recolhi-me ao meu quarto. Minha prima despediu-se de mim sem me fitar no rosto. A sua natural altivez sofria, depois que a surpreendera chorando, provavelmente. Este resguardo aumentou a divinização de Mafalda.

"Fechado na minha alcova, abri a cana de Teodora. Está neste maço lacrado, há catorze anos. Quebre-se o lacre, por amor da autenticidade da história... Aqui tens. Lê tu, enquanto eu dou folga aos pulmões. Há muito ano que não falei tanto tempo!"

Li a carta de Teodora, cujo traslado segue: Quem te disse a ti que eu tinha caído diante de mim mesma, Afonso? Quando te dei eu direito de supor que o teu silêncio, em resposta a um grito do coração, me esmagaria os brios de mulher, que, de um sopro, faz saltar de suas vestes a lama do teu desprezo? Quando eu te apareci magnífica dedicação, fizeste-te mesquinho tu. As minhas lágrimas figuraram-se-te o pus de um coração corrompido; e eram soro do mais nobre sangue.

Não pudeste chegar com a fronte à altura da minha, e apedrejaste-ma! Quem cuidas tu que és, soberbo senhor, que voltas o rosto da tua escrava. e não sabes sequer usar a misericórdia de dizer à mulher que te ama que não seja infame, amando-te?!

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