Facebook do Portal São Francisco Google+
+ circle
Home  Amor De Salvação Camilo Castelo Branco - Página 4  Voltar

Amor de Salvação

Camilo Castelo Branco

Neste ponto suspendi eu a leitura, tomei a respiração e disse:

- Esta senhora tem estilo, ou eu não entendo nada de estilos! Que interrogatório!

- Podes rir, que eu também cá estou mordendo os beiços para não espirrar uma casquinada na cara do antigo Afonso de Teive - disse o meu amigo.

- Mas o estilo - tornei sinceramente agradado da leitura -, o estilo aqui não pode ser a mulher: aqui há, pelo menos, a triple inteligência de três escritores de melenas sacudidas aos quatro ventos da inspiração! Por Hércules! Isto, sim, que é mulher... e "aqui há que ver", como diz o Garrett.

- E que ler - ajuntou Afonso de Teive. - Continua, se queres. Perfilei as minhas faculdades inteligentes, e segui a leitura. A contas, homem de ferro, que endureceste o teu frágil barro de outro tempo ao fogo de baixas paixões, a contas com a mulher desprezível!

Que fazias tu quando eu me estorcia de saudades de ti e dores do meu cativeiro, dentro das grades das Ursulinas?

Quando soubeste que a tirania me fechava a sete chaves numa cela e me media os átomos de ar, que eu respirava a furto, que fazias tu para resgatar os quinze anos de uma mulher que queria o sol das flores, das aves, dos mendigos, do último ver-me que se arrasta e cumpre o seu destino debaixo dos olhos de Deus?!

- Parece-me - reflecti eu - que esta senhora arredonda ambiciosamente os períodos, meu caro Afonso; e, se me dás licença, direi que há estilo de mais neste período!... Estou mono por te perguntar que impressão te fazia isto há quinze anos!...

- Lê, e no fim falaremos - disse Afonso. E eu li:

Não respondas. A vil, a abjecta, a desgraçada, é generosa. Não respondas. Ri e

escuta.

Abandonada por ti, enganada, não sei por que nem com que fim, por tua mãe, achei-me fraca para cruzar os braços e esperar a morte. À borda do abismo. vi uma tábua de salvação. Sabia que, segurando-me nela, as mãos se rasgariam em chagas incuráveis.

Sabia-o; mas agarrei-me à tábua de salvação. Escutei a desgraça; que não tinha outro anjo, nem outro demónio que me aconselhasse. Escutei-a, e aceitei o marido que ela me deu. Perdi-me para a vida da alma; mas encontrei a vida dos olhos e dos ouvidos, e do seio, onde me roía a serpente da soledade e do desabrigo.

Vi árvores, vi estrelas, ouvi os cânticos da Terra e os amorosos murmúrios da natureza festiva. No centro do mundo era eu a única mulher sem mãe, sem pai, sem amigo, sem coração que se abrisse às cinzas do meu. Não importa. Via o Sol no firmamento; e, para além do Sol, a infinita luz dos que bem-disseram a mão do Senhor, que, à sua vontade, desdobra um crepe de trevas sobre os corações, que, em inocência, não ousam interrogá-lo como Job!

- Demais a mais - reflecti eu -, lida nos livros sagrados!... Posso, sem indiscrição, perguntar se a autora desta carta morreu ou vive escorreitamente?

- Espera que a concatenação dos factos te elucide - respondeu Afonso.

Prossegui, lendo, com espanto maior que o meu costume, se acerto de topar coisas escritas por pessoas de juizo duvidoso: Transbordou um dia a amargura de minha alma. Não sabia onde me levava a vertigem. Corri léguas. As árvores que gemiam um som, as fontes que tinham uma voz, os trovões que estalavam do céu de bronze, as catadupas que bramiam no despenhadeiro, tudo me dizia o teu nome. Corri as montanhas que nos viram meninos; reconheci a fraga onde nossas mães se sentavam; orei à cruz de pedra que está na quebrada da serra. E não te vi. Dois meses te procurei, sem balbuciar o teu nome. E,. quando há um ano te avistei encostado ao ombro de tua mãe, a voz do meu orgulho de desgraçada disse-me: se ela quiser que tu te percas por ele, amanhã não terás honra, nem família, nem marido, nem criatura sobre a Terra que te não insulte.

E escrevi-te, Afonso! Aquele papel era uma renunciação, aquelas palavras queriam dizer dá-me a perdição como salvamento; dá-me a infâmia como glória; o mundo vai apedrejar-me, e eu cuidarei que ele me aclama virtuosa; todas as devassas me julgarão indigna delas; eu, contente da minha desonra, estenderei benignamente a mão a todas as miseráveis que ma cuspirem.

E tu, Afonso? Como me julgaste morta para a virtude, aproximaste-te do cadáver, puseste-lhe sobre o peito um pé, calcaste, viste-lhe nos lábios o sangue do coração, e escarraste-lhe!

Voltei do outro mundo. A mulher que viste há pouco era um fantasma. Os cabelos negros que adornaste com três flores naqueles formosos quinze anos caíram-te aos pés.

As flores vêm aradas do fogo do inferno. O fantasma voltou às suas labaredas, para nunca mais te crestar o riso dos lábios com as chamas dos seus olhos. Vai tu ao Céu e pede a Deus que me deixe adorar-te na eternidade das penas. Pede-lhe que me dê eternidade para a expiação e eternidade para o amor Adeus."

Não sei bem dizer de onde me vieram as lágrimas. Sei que terminei a leitura da carta já quando os olhos mal discriminavam as letras.

Como a gente, às vezes, chora!...

Era o estilo!

XI

Sorriu Afonso do meu melindroso sentimentalismo, retorceu distraidamente os longos bigodes por sobre a barba listrada de fascículos brancos, afogueou o seu cachimbo de barro negro e continuou:

"Eu é que verdadeiramente chorava, quando acabei de ler esse papel. Ficas sabendo a impressão que em mim fez a carta de Teodora. Não há vergonha que eu omita nesta confissão geral. Sou o juiz do homem que fui. Julguei-me e condenei-me ao opróbrio de levantar da lama o coração velho e mostrá-lo com náusea ao enojo dos que vão passando..."

- Mas eu não vejo aí coisa indecorosa de que te envergonhes!... - atalhei. - Vês, pelo menos, a baixeza do meu espirito, senão antes a crassa sandice de pensar que as acusações de Teodora estavam justificadas por essa frandulagem de palavras sonoras e apóstrofes melodramáticas. O castigo da minha misérrima estupidez virá depois... Lá chegaremos.

"Li terceira vez a carta e abri a janela do meu quarto. O vento ramalhava nas carvalheiras e o céu daquela noite não tinha uma estrela. Apeteci embrenhar-me na escuridão do arvoredo. Abri de manso a porta do meu quarto e, pé ante pé, ganhei a varanda, de onde era fácil o saltar à rua. Acabava eu de saltar, quando do escuro de uma janela contígua à varanda me surdiu a voz de Mafalda. "Não tinhas necessidade de saltar, primo", disse ela. "Chamasses, que se te abriam as portas.

""Estás a pé ainda, minha prima?", perguntei eu corrido da surpresa e algum tanto contrariado da espionagem. "Nunca me deito mais cedo", respondeu ela com brandura.

"Quando as noites são assim tristes, gosto de as ver... Está vento, primo", continuou retirando-se; "não estejas aí ao ar desamparado. Boas noites."

"E fechou rapidamente a janela. "Encaminhei-me à alameda dos banhos, na inepta esperança de ver ali os vestígios de Teodora, ou não sei se ela mesma. Não sei ao que ia. E impossível explicar o intento que nos impele em casos semelhantes, quando a gente, alguns anos depois, inquire de si mesmo o sentido das suas intenções: são actos estranhos à razão, dos quais só pode desculpar-se o delírio. A verdade é que eu fui à alameda e andei, palmo a palmo, recordando-me do local em que ela me saiu e a direcção que tomara na retirada.

Sentei-me num dos bancos de pedra e conjecturei se ela teria estado ali sentada. Cerrei ouvidos a todos os rumores para escutar o som das palavras de Teodora, que me ecoavam do intimo do coração. Atirei com a alma suplicante e desesperada àquele céu de bronze, negro como ela. Pedia a Deus o esquecimento da mulher, com a veemência do justo atribulado que pede a coroa do triunfo.

"Levantei-me e andei por as trevas, esbarrando nas árvores e refrigerando o fogo da testa e mãos nas fontes e charcos que topava. Ao raiar da manhã, estava eu nas raízes da Falperra. Senhoreou-me então um sono letárgico e invencível. Adormeci com a face encostada à raiz de uma árvore, e acordei, coberto de camarinhas de orvalho, ao calor dos primeiros raios de sol. Retrocedi pela estrada das Taipas e entrei em casa quando meu tio Fernão, admirado da minha falta, andava indagando dos criados se eu saíra de madrugada.

"Mafalda apareceu-me com o semblante pálido, os olhos raiados de muito chorar e o azul-violeta das olheiras carregado e distendido até meia face. Meu tio ligeiramente aludiu à minha falta na presença da filha. Saímos da mesa de almoço e entrámos na sala, onde Mafalda recordava as suas músicas ao piano e, algumas vezes, se acompanhava cantando. Neste dia, a adorável penitente sentou-se ao piano; e, com uma só das mãos dedilhou umas toadas monótonas, mas celestialmente saudosas e melancólicas.

O velho acenou-me, a ocultas da filha. Segui-o; saímos, e caminhámos a pé na direcção das rumas de Citânia. A meio caminho estava uma casa alagada, com uns lanços de muro ainda em pé. O velho avizinhou-se das rumas, estendeu o braço como indicador apontado e disse: "Aqueles pardieiros pertenceram a teu tio-avô Cristóvão de Teive.

Naquele tempo, os homens de vida infamada, quando os últimos Invernos lhes geavam na cabeça e os sinos, dobrando a finados, lhes atraiam os olhos para a sepultura, o remorso penetrava-os até ao âmago, e estorcia-os nas roscas das suas mil víboras, até que Deus se amerceava deles e os tomava para o seu tribunal. Teu tio-avô foi um mau desgraçado. O amor de uma mulher da corte entrou-lhe no coração e apodreceu-lho à força de lhe derramar o sangue com as torturas da perfídia. O moço empestado veio para

a província e cevou o seu ódio em quantas vitimas pôde surpreender adormecidas no regaço do seu anjo de inocência. Aos quarenta anos, pesou sobre ele a maldição de Deus. Desde a raiz dos cabelos até à raiz das unhas chagou-se-lhe o corpo de lepra. De repente, em redor dele, fez-se uma solidão horrenda. Desampararam-no todos. Nem os enjeitadinhos, indigitados como filhos dele, ousavam chegar-lhe um púcaro de água.

Cristóvão de Teive tinha esta casa, aqui afastada de vizinhos, construída não sei para que fim há três séculos. Aqui se encerrou e viveu quinze anos aquele vivo amortalhado nas úlceras da sua pele. A sua companhia era a ama, que o amamentara, e que Deus, em recompensa, preservou da terribilíssima enfermidade. Morreu desamparado, legando esta casa à mulher que lhe cerrara as pálpebras. A enfermeira foi após ele, devolvendo a casa aos herdeiros de seu amo. Cinquenta anos depois, quando eu vim aqui, encontrei estes pardieiros. Dos nossos parentes ninguém pôs pé adentro das soleiras, que ali estão, onde existiram as portas...

"Deteve-se meu tio breves instantes e concluiu: "Afonso, o divino Mestre doutrinava com parábolas: o homem destes calamitosos tempos moraliza com exemplos. Teu tio-avô começou como tu: vê tu, meu sobrinho, se vingas um correr de vida melhor que o dele. Se uma mulher te cancerou o peito, esconde-te, depura-te, faz-te bom, e depois volve ao mundo a procurar a felicidade do coração. Enquanto esse dia de regeneração não chegar, foge das mulheres puras. Eu tenho uma filha única, um tesouro que Deus me confiou. Minha filha chora por ti. Afonso, se as lágrimas dela te não resgatam das presas de uma mulher perdida, foge, e foge hoje mesmo. Agora, silêncio, Afonso..."

"Na madrugada do dia seguinte, saí das Taipas e fui para Ruivães. Dias depois, desisti do plano de me formar, e fui para o Porto. Saía um vapor para Liverpul:

embarquei, e estive na Inglaterra; passei a França; e de França fui residir na Suíça uns seis meses. O arrependimento de deixar minha mãe e a minha terra seguiu-me sempre.

Resolvi regressar por muitas vezes; mas, fatalmente, a primeira imagem que eu via, voltando em espirito à Pátria, não era a de minha mãe! Ela sempre, Teodora sempre!

"Ao cabo de um ano de expatriação, voltei para o Porto. Dava-me então como curado. A memória dela era já fria: o pulso não se acelerava, nem do coração me subia à cabeça um golfo ardente de sangue. Fui alegrar minha mãe, ao lado da qual encontrei Mafalda, que lhe assistia à convalescença de uma perigosa enfermidade. Notei sensível mudança no rosto de minha prima. Os risos do anjo tinham ascendido ao Céu no perfume de suas orações. A coruscante luz daqueles olhos tinham-na apagado os prantos. As madeixas caíam-lhe soltas sem flores, sem ornatos, como dons de quem os esquece, ou não sabe de que eles valham às venturas da existência. Porém, formosa da auréola santa da dor sem culpa. Que paixão me avassalou naqueles primeiros dias! Com que religiosidade eu beijava a mão de minha mãe aquecida pelos lábios dela! Recordome de a encontrar sozinha no pomar. Sentei-me ao lado da mulher puríssima. Tomei-lhe. com súbita sofreguidão os dedos que me ofereciam um pomo. Não ousei beijar-lhos... apenas balbuciei: "Minha querida irmã..." Mafalda respondeu-me:

"Deves assim chamar-me, porque eu já me afiz a chamar minha mãe à tua, meu primo". "A paz dos primeiros dias, aquele suave repousar do espírito, entre as duas caridosas almas, que mo distraiam com as indizíveis doçuras da domesticidade, durou menos de três semanas. Ao sentir-me fatigado da igualdade de todas as horas, angustiei-me, e cobrei horror do meu futuro. "Que abominável homem sou!", dizia eu no meu intimo senso, repelindo-me a mim próprio com uma restante força de virtude. "Se me repugna o crime, por que a não esqueço? Se a não posso esquecer, para que me devoro nestas cobardes tentativas de lhe fugir? Odeio-a, e em minha alma lhe exoro perdão deste ódio. Se me dói o coração saudoso dela, abomino-me, e recurvo sobre mim próprio as unhas desta feroz paixão."

"A fugir de mim mesmo, ia abrigar-me sob os olhos de Mafalda. Ela via nos meus

olhares a submissão imploradora e não entendia a cobarde procedência daquele fitá-la com tanta brandura. Apreciou-me erradamente. Teve-se em conta de amada. E, quando eu mais atormentado pelejava com a visão de Leça e da alameda das Caldas, Mafalda reavia do Céu os júbilos de outros dias e a púrpura do rosto. A compadecida amargura com que eu a fitava afigurara-se à ingénua menina a expressão do amor contemplativo, como ela o sentira e escondera sempre de todos, salvo de seu pai.

"Minha mãe, a ocultas da sobrinha, perguntava-me a respeito dela coisas, cujo fito estava posto no casamento. Eu respondia a verdade, como se Deus necessitasse interrogar a minha consciência. Mostrava receios de ter desbaratado as flores do coração, ao apuro de não ter já virtudes que me fizessem um digno esposo dela. Minha mãe não podia entender-me; obrigava-me suavemente a explicações e, ouvindo-me, dizia soluçante: "Não se quebrou ainda o fatal encantamento!... Deus te salve, meu desgraçado filho!"

"A quarenta passos de distância de minha casa está uma cruz de pedra tosca, sobre uma peanha de cantaria. A esta cruz se referia Teodora na carta que leste. Quando ela tinha seis anos, esteve com sua mãe uma temporada em nossa casa, e voltou ali aos nove. Algumas vezes nossas mães se sentaram nos degraus do cruzeiro enquanto nos, com vergônteas floridas de acácias e árvores de fruta, tecíamos uns desajeitados festões que pendurávamos dos braços da cruz.

"Levou-me para lá o coração dez anos depois. Sentei-me na peanha da cruz. Acaso relanceei os olhos pela pedra, que lhe formava o soco, e vi letras. Reparei, e reconheci os caracteres de Teodora. Eram duas datas: 5 de Junho de 1848, com a assinatura inicial T. P. Seguia-se a outra, em letras mais de fresco: 10 de Setembro de 1849, com as mesmas iniciais, e as seguintes palavras: Aqui veio orar a alma penada.

Eu estava então em 15 de Setembro daquele ano. Cinco dias antes, pois, aí tinha estado Teodora.

"Recolhi-me com febre. A celestial graça de Mafalda, que me saiu ao tope da escada, respondi com uma afectuosidade falsa. Importunava-me o anjo. Eu queria então uma orgia infernal. Queria arder e palpitar no deleite sequioso, que zomba dos deveres, e insulta o espantalho da moral, impassível carrasco das organizações ardentes. O aspecto mavioso de Mafalda era uma lança que me traspassava. Fugi-lhe e, por alguns dias, raras horas nos encontrámos.

"Voltei novamente ao cruzeiro. Do braço esquerdo da cruz pendia uma coroa de flores do campo; e, na base, inscrita outra data: 20 de Setembro de 1849. - Meia-noite. - O sol da manhã queimará as flores; mas o braço da cruz redentora permanecerá aberto para os desgraçados. - T. P. "Eu queria esconder de minha mãe estas inscrições, feitas a lápis. Embebi um lenço em água e desfi-las. Hei-de agora confessar-te que a pertinácia de Teodora, por algumas horas, me pareceu ridícula."

- Também a mim me está parecendo isso, ainda agora - observei eu, animado pela confissão da pessoa menos idónea para embicar no irrisório romanticismo da esposa de Eleutério Romão dos Santos.

- Mas - prosseguiu Afonso de Teive - esta judiciosa critica, no dia seguinte, converteu-se em piedade...

- Em amor - atalhei.

- Amor, sim, amor indomável, amor faminto de vê-la e de ouvi-la, de chorar com ela, de arrebatá-la ao marido, e insultar a sociedade e Deus na posse dela.

"Esporeava-me este desígnio, quando entrei em casa. Minha prima estava na primeira sala. Ergueu-se. Tomou-me com brandura a mão, levou-a ao coração arquejante, e disse-me: "Os braços da cruz redentora estão sempre abertos para os desgraçados. As palavras, embora escritas por mão criminosa, são santas. Meu pobre Afonso, já que ela te

deu a desgraça, aceita-lhe também o conselho." Beijou-me a palma da mão e saiu da sala.

"Mafalda tinha visto, primeiro que eu, as palavras de Teodora. Compreendera o mistério, resistira ao ímpeto de as tirar, e, desde aquela hora, prometera a Deus exercitar todos os recursos de seu coração para me acautelar das cavilações da mulher ardilosa.

"Que poderia fazer a simples criatura? O infinito das forças humanas fez ela em meu resgate; mas muito já por noite dentro de minha vida lhe havia de conceder o Céu um pleno domínio em minha razão.

"Logo ao outro dia, Mafalda pediu-me que saísse com ela a um passeio longe por esses pinhais fora ao mosteiro de Landim.

""Sozinhos?", lhe perguntei. "Porque não? Sozinhos, com os nossos anjos-da-guarda e o coração de tua mãe connosco, meu querido Afonso."

"Saímos. Mafalda ia taciturna. De encontro ao meu braço direito batia-lhe o coração com celeridade irregular. E eu sentia um enleio, uma constrição de alma, que não atinava com os termos comuns de uma palestra entre dois primos. No alto de um cerro, de onde havíamos de descer para umas veigas, Mafalda sentou-se e abrangeu com os olhos lagrimosos a redondeza dos horizontes. Perguntei-lhe que razão tinha para chorar. Respondeu-me que a mortificava a ideia de me ver ir talvez para sempre do lado de minha mãe e dos parentes que me estremeciam.

" Quem te disse que eu deixo minha mãe e parentes?", redargui. "Dizes-mo tu, se eu to perguntar com as mãos postas", respondeu ela, pondo as mãos em súplica. "Tartamudeei confusamente. As minhas palavras vinham falsificadas do espirito. Aqueceram-se-me as faces, porque eu não estava afeito a mentir. O coração teve quinhão deste pejo: a meiga criatura, que me interrogava, tinha uns ares de divinização, que me incutiam uma espécie de escrúpulo religioso.

"Vejo que te aflijo, meu primo", interrompeu Mafalda. "Es ainda bom, que não podes mentir à tua amiga. Queres ir ao teu destino... Vai, mas... escuta-me... "Seguiu-se um longo silêncio, que ela mesma interrompeu, exclamando em pranto desfeito: "Não posso!... A Virgem do Céu não ouviu os meus rogos!..."

"Acariciei-a com o melindre de irmão, instando-a a que falasse. Articulou ainda algumas palavras desatadas, fáceis, porém, de se ligarem em meu espírito prevenido.

Atalhei-a muito comovido, nestes termos: "Deves ter directo instinto do Céu, minha prima, porque a tua alma virginal é pura de toda a falsidade e não pode ser enganada.

Sabes que eu vou fugir, sem ter anunciado a nossa mãe este novo golpe. Fujo, minha irmã, porque entre a tua celestial dedicação e as minhas desvairadas paixões está o infinito. Tu és a criatura que ainda não sonhou o mal, sedenta de uma alma cheia das crenças da juventude. Vês a minha vida, posta em assédio pelas tentativas da mulher única do meu amor, da mulher perdida para mim e para si própria... observas isto com teus olhos inexperientes, e pasmas do poder infernal desta mulher. Oh! que Deus te livre de ainda veres o mundo despido das vestes que a tua candura lhe empresta! Deus te poupe a debruçares-te sobre o abismo de onde se tira a luz, ao clarão da qual se observam as chagas da sociedade. Esconde-te de mim e de todo o homem que viu o mundo; esconde-te, anjo do paraíso, para que nenhum homem te diga o que viu. Eu não sei como ousaria contar-te as minhas desventuras, Mafalda. A tua linguagem perdi-a, quando saí destas florestas, onde nós nos entendíamos como as avezinhas do céu se entendem. Que hei-de eu dizer-te hoje? Com que termos te mostrarei a minha indignida-de?"

"Mafalda pôs-me com muita suavidade a mão na boca e disse: "Não digas mais nada, meu irmão, que já disseste tudo... A mulher única do teu amor... a mulher única do teu amor é... ela!..." Os soluços embargaram-lhe a voz. Faleceram-me a mim espíritos com que tentasse consolá-la. Todas as palavras, sem veemência de dentro, seriam pálidas e vãs. Mentir, bem que eu pudesse, de que serviria?... O meu silêncio era angustioso. Recriminava-me por me ter exposto àquele diálogo...

"Com satisfação a vi erguer-se e dizer-me: "Voltemos, primo?... Vamos para casa. Não percas instantes da companhia de tua mãe. Vamos...

"Neste momento, à raiz da serra, onde ia a estrada de Landim, passava uma mulher cavalgando a galope. Ia sozinha. Eu não a tinha visto ainda, quando Mafalda, apontando-a com o braço trémulo, disse: "A mulher única do teu amor..."

"Neste instante, esqueci o anjo, que me estava ali chorando, não sei mesmo se desejei que Deus o chamasse para a sua pátria; e adorei o Demónio, que passava lá em baixo, com o véu esvoaçante, por entre nuvens de pó, sacudidas das patas do arremessado cavalo."

XII

Cerravam-se cada dia mais espessas as trevas em volta do perplexo ânimo de Afonso de Teive. A obsessão de Teodora não lhe dava tréguas. Nas circunvizinhanças de Ruivães já se fazia reparada a amazona, umas vezes sozinha, outras seguida do lacaio, e algumas vezes ao lado do marido, a quem ela não prestava mais atenção que ao lacaio. Afonso, enquanto a mim, resistindo à tentação, iniciava-se para consorciar-se no reino celestial com os santos da sua família, monos sob o estandarte da cruz; mas, a juizo de muita gente, muito menos beneméritos da auréola da santidade. Morrer com o céu a abrir-se além no horizonte, ouvindo já os hinos dos anjos, é glorioso e exultante; porém, morrer gotejando em lágrimas o sangue do coração, sem visões bemaventuradas, sem estímulo de predestinado, morrer do amor de uma mulher que se arrasta submissa aos pés do triunfador que a despreza e adora... sublime extravagância, se querem que lhe eu não chame santíssimo martírio!

A mãe do lastimável moço, antes de avisada da intentada partida dele, resolveu impor-lhe o seu arbítrio de mãe com severidade. Informada por Fernão de Teive, sabia que Teodora fazia miúdas investidas às redondezas de Ruivães e que Afonso não era estranho, bem que a não houvesse encontrado, aos planos da impudente mulher.

A palavra "adultério", no espírito de D. Eulália, tinha uma significação de horror, como se o crime não tivesse exemplo na humanidade, nem remorso que o contrapesasse na balança da misericórdia divina. O pavor de que um filho seu, um descendente de santos, e pelo menos honrados varões, pudesse dar ao mundo o escândalo de tamanha perversidade, acendeu-a em louvável indignação. Inesperadamente, é chamado Afonso ao quarto de sua mãe para ouvir estas pesadas e secas palavras:

- Eu preciso de morrer em paz com todo o mundo, que nunca escandalizei, penso eu, e Deus me perdoe se a minha vaidade me faz esquecer as culpas. Enquanto viva, peço-te como amiga, se não devo antes ordenar-te como mãe, que me poupes à vergonha de esconder a face quando me pedirem contas dos sentimentos de religião e honra que te insinuei na alma. Temo que me perguntem que fiz eu da herança, que teu pai fiou de mim para te eu ir entregando, assim que tivesses razão para recebê-la...

herança de virtude e probidade que tu levas em princípio de desbarate. Mando-te que te retires para longe desta terra. Vai para Lisboa, se te agrada; ou vai viajar, se antes queres. E bom que saibas os cabedais que tens. A tua casa rende seis mil cruzados: conta com eles, e com o valor das propriedades, se, para salvação de tua honra, precisares que elas se vendam. Não voltes para mim sem me poderes jurar pelas cinzas de teu pai que a lembrança pecaminosa de Teodora morreu em teu coração, Deus Nosso Senhor te abençoe, filho. A minha última oração será rogar ao Criador que te restitua à casa onde as gerações legaram umas às outras a tradição de grandes serviços a Deus ligados a grandes serviços à Pátria: religião, honra e trabalho, o nobre trabalho da espada de uns, e da ciência de outros. Tu sais da trilha de teus avós, consumindo tua mocidade

em dissabores de que ninguém, senão eu, pode compadecer-se. Vai. Se puderes, sê forte, sé homem. Se a última fraqueza te levar ao último crime, guarda ao menos uma parte da alma para a contrição no remate da vida.

Nunca, até àquela hora, Afonso vira e ouvira assim sua mãe. Mesmo na admoestação, denotara sempre o pesar com que o fazia; e para o compensar da mágoa, acudia logo com as caricias.

Por causa de Teodora, as repreensões eram sempre disfarçadas na grave mas doce persuasão do conselho. Querer afastá-lo de si, nem por sombra de palavra o indicara nunca. E agora, no semblante; na rigidez da frase, na postura do rosto e arrugado da testa, Afonso achou tanta mudança para espantar-se como afligir-se, Ia ele responder, e ela, para logo, de um gesto de silêncio, o fez calar, dizendo:

- Não te quero ouvir: Deus que te ouça; vai. Cá fico eu velando os dias desta menina, mas que teve a desventura de te amar. Consolar-nos-emos eu e ela, orando por ti. Amanhã partirás. Tua mãe ordena. Afonso, ao despedir-se de sua mãe, teve a intuição de que a não veria mais. A maior agonia da sua vida, até àquele momento, foi essa.

Ajoelhou-se a beijar-lhe as mãos, que molhou de lágrimas. E ela abençoou-o serenamente, com os olhos no crucifixo do seu oratório. Ao lado deles estava Mafalda, lívida, hirta, transida de um frio que a fazia tiritar. Não chorava. Podia comparar-se a sua atribulação à da mãe que também tinha enxutos os olhos. Porém, quando Afonso lhe estendeu a mão, e disse: "Adeus!", ela arrancou do intimo um cortante grito e lançou-se nos braços dele, debulhada em pranto.

XIII

Foi Afonso de Teive para Lisboa. Como ia desgostoso e intratável, rejeitou a aposentadoria em casa do tio desembargador. Mobilou casa no bairro de Buenos Aires, na menos frequentada das ruas. Desligou-se do trato das relações adquiridas em casa do magistrado e evitou novos conhecimentos. Vestiu de livros as paredes do seu gabinete, propondo-se o recreio do estudo e o trabalho mesmo de composição, sem o intento defazer-se conhecido no mundo literário. Enquanto o espírito se lhe entreteve nos apetrechos de casa e aconchegos de quem tencionava viver nela os dias e as noites, curtos intervalos de mágoa o assoberbaram; assim, porém, que o bulício cessou e os tapetes das elegantes salas não davam rumor de um passo, e Afonso, sentado à sua banca de estudo, ouvia apenas as cadências do pêndulo do relógio, condensaram-se-lhe em volta do espírito as nuvens torvas, que se haviam rarefeito, bafejadas pela aragem da esperança, e nunca tão compressora o sopesou a mão da tristeza. Os livros atediavam-no; o escrever acendia-lhe o espírito a um grau penoso de excitação. Todos os seus manuscritos fragmentários ou desatados, que eu vi treze anos volvidos, acusavam uma obstinada paixão, da qual o poeta hauria argumentos contra a Providência que o desamparara, na batalha consigo mesmo.

Aos vinte e dois anos, aceitar longo tempo e voluntariamente um jugo de vida assim é virtude imaginária. Para outras civilizações, lá estava o deserto do anacoreta e a Palestina do cruzado: um e outro se deixavam devorar das angústias do ermo, ou cortar do ferro islamita; e lá iam encontrar-se no Céu, a cobrarem o seu património de alegrias infindas, ganho a troco de uma hora de orgulho satisfeito - que mais não é o contentamento desta breve fugida do ventre à sepultura. Nestes tempos, porém, a tanta luz, a tanto estrondo, em tamanho desentranhar-se a terra em novos enfeites de si própria, agora, que o céu se deixa contemplar, já não como paragem de futuras vidas, senão como estrelado envoltório deste globo cujas delicias nos foram dadas em desconto do breve tempo que as saboreamos; agora, em suma, que o viver sem gozar é um triste,

se não estúpido, prelúdio da morte, em redor da sepultura, que loucura é esta de Afonso de Teive que não rompe mundo dentro, com seis mil cruzados de renda, vinte e dois anos, bizarria de fidalgo e fisionomia dotada de graças atractivas de todos os

- É certo - respondeu Afonso, quase envergonhado da confissão.

- Ó pobre José! ó malograda Hiêmpsal! Conheces bem a Hiêmpsal... a esposa do ministro de Faraó! Quantas capas tencionas assim deixar em lindas mãos!... Ai de ti, Afonso de Teive, que, afinal, saíras do inundo sem capa e coberto de lama!... Tu não sabes que estás em 1850 e que tens de alijar a carga de dois séculos, se não quiseres ir a pique, varar no ridículo inexorável com os homens da tua fortuna e da tua figura.

Origeneses fictícios, que nem sequer ressalvam com o estudo dos atributos divinos a sua ignorância dos atributos humanos... Pobre Teodora... a formosa mulher, que se rojava a teus pés, quando tu, por brio mesmo de tua vaidade ferida, devias ter ido beijar-lhe os cabelos, e não arrancar-lhos. Pobre menina, casada com um homem chamado Eleutério... que mais?

- Eleutério Romão dos Santos - disse Afonso, sorrindo no tom imitante do dizer.galhofeiro do amigo.

- Eleutério Romão!... Eu não sei - prosseguiu D. José - se amaria a esposa de um homem chamado Eleutério!... Mas, nas condições de cara e estilo em que está Teodora, amaria, quer-me parecer que amaria, Afonso, obrigando-a a promover o crisma do cônjuge... Falemos sérios, sérios como rapazes, que têm o estrito dever de não serem palermas, do contrário seremos vitimas de todos os Eleutérios. É necessário que escrevas a essa mulher; isso não te priva de escreveres a outras muitas, visto que estás aqui a ares e tens a balda de escrever meditações... Que ratão és tu, Afonso! Eu, em Coimbra, achava-te uma graça! Quando tu publicavas no Trovador umas lamúrias lamartinianas. que davam ideia de seres um desgraçado, que vivias das brisas do claro Mondego, e tu, meu patarata, enquanto fazias chorar as meninas com os versos, emborcavas torrentes de conhaque por uma catadupa esponjosa que muitas vezes receei que me apeasses do meu pedestal... Patusco!... Falemos agora sério. Escreve à Teodora, se tens algum resto de pudor... Não me digas que estás sofrendo por ela, que deixastes por ela tua mãe, que renunciaste ao amor de um anjo, por causa dela... Não me digas tal, que eu nem posso admirar-te a virtude nem a parvoíce. A virtude seria medir o espaço que separa a tua alma do coração atraiçoado de Teodora e interpor nesse espaço trinta mulheres, contanto que te não privasses da companhia de tua mãe, nem lhe desses desgostos muito menores que este. Devias adorar tua prima porque era um anjo e devias desejar a outra porque era um demónio. Que fizeste tu quando ela casou? Choraste, e com tamanho agravo dos teus brios que consentiste que o mundo te visse chorar, a ti, rapaz de vinte anos, gentil, rico! Pondera bem nesta vilipendiosa calamidade, meu caro Afonso. Salta sobre dez anos de tua existência para diante e diz-me que nojo te há-de fazer este Afonso, quando o Afonso de 1860 achar que tem o mesmo nome e quase a mesma figura!...

E continuou por largo espaço neste sentido.

Escutava o filho de Eulália o discurso de D. José, lardeado de facécias, e, por vezes, atendível por umas razões que se lhe cravavam fundas no espírito. As réplicas saíam-lhe frouxas e mesmo timoratas. Já ele se temia de responder coisa de fazer rir o amigo. Violentava sua condição para igualar na licença da ideia e, por vezes, no desbragado da frase. Sentia-se por dentro reabrir em nova primavera de alegrias para muitos amores, que se haviam de destruir uns aos outros, a bem do coração desprendido salutarmente de todos. A sua casa de Buenos Aires aborreceu-a por afastada do mundo, boa tão-somente para tolos infelizes que fiam do anjo da soledade o depenarem-se, chorando. Mudou

residência para o centro de Lisboa, entre os salões e os teatros, entre o rebuliço dos botequins e concurso dos passeios. Entrou em tudo. As primeiras impressões enjoaram-no; mas, à beira dele, estava D. José de Noronha, rodeado dos próceres da bizarria, todos porfiados em tosquiarem um dromedário provinciano que se escondera em Buenos Mies a delir em prantos uma paixão calosa, trazida lá das serranias minhotas. Ora, Afonso de Teive antes queria renegar da virtude, que já muito a medo lhe segredava os seus antigos ditames, que expor-se à irrisão de pessoas daquele quilate. E verdade que às vezes duas imagens lagrimosas se lhe antepunham: a mãe e Mafalda. Afonso desconstrangia-se das visões importunas, e a si se acusava de pueril visionário, não emancipado ainda das crendices do poeta inesperto da prosa necessária à vida.

Escrever, porém, a Teodora, não vingaram as sugestões de D. José. Porventura, outras mulheres superiormente belas, e agradecidas às suas contemplações, o traziam preocupado e algum tanto esquecido da morgada da Fervença. Mas, um dia, Afonso, numa roda de mancebos a quem dava de almoçar, recebeu esta carta de Teodora.

Compadeceu-se o senhor. Passou o furacão. Tenho a cabeça fria da beira da sepultura, de onde me ergui. Aqui estou em pé diante do mundo. Sinto o peso do coração morto no seio; mas vivo eu, Afonso. Meus lábios já não amaldiçoam, minhas mãos estão postas, meus olhos não choram. O meu cadáver ergueu-se na imobilidade da estátua do sepulcro. Agora não me temas, não me fujas. Pára aí onde estás, que as tuas alegrias devem ser muito falsas, se a voz de uma pobre mulher pode perturbá-las.

Olha... se eu hoje te visse, qual foste, ao pé de mim, anjo da minha infância, abraçavate.

Se me dissesses que a tua inocência se baqueara à voragem das paixões, repelia-te.

Eu amo a criança de há cinco anos e detesto o homem de hoje.

Serena-te, pois. Esta carta que mal pode fazer-te, Afonso? Não me respondas: mas lê. À mulher perdida relanceou o Cristo um olhar de comiseração e ouviu-a. E eu, se visse passar o Cristo, rodeado de infelizes, havia de ajoelhar e dizer-lhe: "Senhor! Senhor" é uma desgraçada que vos ajoelha e não uma perdida. Infâmias uma, só não tenho que a justiça da Terra me condene. Estou acorrentada a um dever imoral, tenho querido espedaçá-lo, mas estou pura. Dever imoral... porque não, Senhor! Vós vistes que eu era inocente; minha mãe e meu pai estavam convosco.

Abafaram-me numa jaula; eu queria amar-vos fora dos violentos ferros, deixei-me matar diante da vossa imagem por um sacerdote do vosso culto. O vosso sacerdote, Senhor Deus da Justiça, praticou uma imoralidade, levantando sobre as faculdades desta alma esmagada o patíbulo do meu coração. Foi imoral o dever, que me legislaram em vosso nome, Senhor E eu, sem vociferar contra o mundo, que me arroxeia a gonilha no pescoço, a vós ajoelho, Deus dos réprobos das alegrias deste mundo, exorando-vos que me deis um amigo. "

E o que eu diria ao Deus da adúltera e da Madalena, Afonso. E o Senhor piedoso havia de ouvir-me, e de tua alma fulminada pela inspirativa misericórdia do Justo dos justos sairia um gemido piedoso por a mulher desamparada. SÊ MEU AMIGO!

Recusava-se Afonso a deixar ver a carta: era, porém, uma descortesia sonegá-la, entre moços, que francamente haviam ali relatado, à competência, as façanhas amorosas dos últimos quinze dias.

- Homem indigno da nossa estima! -exclamava D. José de Noronha.-Orande cínico!, podes tu negar aos teus amigos dois minutos do inocente prazer de ouvirem o estilo de uma Sevigné provinciana, que, para ser mulher da época, só lhe falta afeiçoarse a um homem que lhe rasgue os horizontes de um destino esplêndido!? Venha a cana!

- A carta! a carta! - exclamaram todos, empunhando os copos.

- Um brinde à formosa das montanhas! - bradou D. José.

- Depois de lida a epístola! -emendou um comensal.

- Antes e depois!-redargiu o proponente do brinde, e ajuntou: -Â saúde de Teodora, bela e espirituosa, amada e amantíssima, pura quanto pode sê-lo a mulher que nos braços de um marido reserva para o homem amado a virgindade do coração!

- A saúde de Teodora! -conclamaram todos, exceptuando Afonso, cujo aspecto arguia tristeza.

Seguiu-se um brinde entusiástico ao ditoso Afonso, que sobrepunha a formosa minhota a quantas lisboetas de tez e olhos árabes lhe tinham oferecido a alma num sorriso. Afonso agradeceu, com um gesto de mal dissimulado dissabor. Reiteraram os convivas o pedido da carta. Afonso hesitava ainda. O mais ébrio daquela mocidade patrícia, representante dos mais ilustres apelidos da época heróica de Portugal, ousou tomar a carta de sobre a mesa e abri-la com estrondosos aplausos dos. outros. Afonso de Teive estendeu impetuosamente o braço e tirou a carta da mão do hóspede.

- Isto é um insulto a todos! - exclamou D. José de Noronha.

- Não é insulto - replicou o de Ruivães -, é preito a todas as mulheres, e com especialidade às desgraçadas.

Disse e incendiou o papel na chama do castiçal em que acendiam os charutos. O tom amargo daquelas palavras comoveu os convivas, que, por bom acerto, se encontraram todos de índole sentimental, quando as vaporações alcoólicas lhes enublavam a porção intelectual, que era neles diminuta, como de direito heráldico. D. José, compondo o rosto de uns vislumbres de rectidão e bom discurso, perorou acerca da probidade de Afonso e, em nome dos comuns amigos, agradeceu a lição e levantou novo brinde ao hospedeiro moço que tão digno era da estima dos homens como da confiança das mulheres.

Este capítulo não dispensa uma nota ilustrativa, respondendo temporariamente à critica ilustrada que me perguntar como pude eu pôr em traslado uma carta queimada à luz do castiçal, minutos depois que Afonso a lera. É porque o rascunho desta carta, escrita com entrelinhas, emendas e borrões, escrita por Teodora, estava ainda em poder de Afonso de Teive em Dezembro do ano próximo passado. Oportunamente se dirá como Afonso de Teive se apossou do rascunho. Então a crítica verá que poucas coisas sucedem na vida tão naturalmente.

Relevem-me essas demasias de escrúpulo: que eu dificilmente consentirei que a má-fé me apanhe em flagrante inverosimilhança.

Assim é que eu quisera que se escrevesse a história pátria com este timbre e rigor de verdade. Por mingua de desvelos análogos na averiguação dos factos históricos é que nós ainda não sabemos bem quantos filhos bastardos fizeram os nossos monarcas; falha que desluz algum tanto o panegírico das virtudes dos reis portugueses. Aprendam os historiadores.

voltar 1234567avançar

Sobre o Portal | Política de Privacidade | Fale Conosco | Anuncie | Indique o Portal