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Amor de Salvação

Camilo Castelo Branco

XIV

No mesmo dia, um deputado chegado do Minho entregou a Afonso uma carta de sua mãe, incluindo outra de Mafalda. A senhora de Ruivães felicitava o filho por saber que ele procurava os passatempos da capital, admoestando-o a que procedesse honradamente no gozo dos prazeres, para que eles se não derrancassem em flagelos da consciência e infâmia. Mafalda, em poucas linhas, pedia-lhe que se não esquecesse dela e fosse fiel à promessa de estimá-la como irmã.

O deputado bracarense era sujeito que sabia as coisas para as dizer e saltava a quatro pés por cima disto que chamam delicadeza em assuntos de coração. Pelo que o expansivo deputado falou assim a Afonso:

- Ainda me lembro de V. Exª, quando rapazola estudava Retórica em Braga. Está certo de ser agarrado pelo regedor quando foi às Ursulinas atacar as freiras? Pois fui eu quem, a pedido de sua mãe, lhe vali no processo instaurado.

- Não sabia - atalhou Afonso. - Aproveito a oportunidade para agradecer a V. Exª...

- Não tem de quê. Mas com efeito -volveu o deputado, a rir de esperto - olhe V.

Exª o que fazem mulheres... ou mulherinhas... porque afinal a morgadinha da Fervença acanalhou-se até ir casar com um bruto de Tibães... Soube isto V. Exª?

- Perfeitamente. Era impossível que eu o não soubesse... - respondeu atentamente Afonso.

- Eu conheço Eleutério Romão dos Santos - continuou o informador. -O homem torce as grandes orelhas que tem, porque ela tem-lhe feito dar a água pela barbela. V. Ex. há-de saber isto...

- Não sei senão que Teodora é mulher de Eleutério.

- Então eu Lhe conto. A rapariga tem fígados e ninguém o dirá vendo aquela lesma, que parece feita de manjar branco. Assim que entrou em casa, e se viu com o sogro Romão e com a sogra Eleutéria, deu ao diabo a cardada, pôs-se nas suas tamancas, e mobilou as suas salas e os seus quartos à moderna. O Eleutério quis reguingar-lhe; mas ela, às primeiras testilhas, falou em divórcio, ou coisa pior ainda, que era, pelos modos, fugir de casa, e procurar V. Exª. O marido pôs as mãos na cabeça quando ouviu falar em divórcio. A fortuna ali é quase toda de Teodora. Se ela se levantasse com o seu casal, o velhaco do tio, que preparou semelhante desgraça de casamento, dava um estouro. Começaram a fazer-lhe todas as vontades à moça. Para que lhe há-de ela dar? Imagine V. Exª para que lhe deu na veneta?

- Eu sei cá... - disse anelante de curiosidade Afonso.

- Fez-se doutora!... Mandou comprar dois carros de livros ao Porto; fechou-se no seu escritório, que parecia uma livraria de convento, e começou a ler de noite e de dia. Lá de dia passe; mas de noite, dava isso que pensar a Eleutério, casado à face da Igreja e dono da mulher pelos seus justos cabais. Passado tempo, deu-lhe outra mania; fez-se cavaleira, e rompia a galope pelo campo de Sant'Ana em Braga, a levantar poeira que parecia um esquadrão de cavalaria! Não parou ainda aqui o desarranjo daquela cabeça!

Tomou lacaio, deu-lhe libré avivada de vermelho, e andava por essas estradas do Minho com o lacaio em correrias de doida. Uma hora viram-na em Landim, outra em Santo Tirso, depois em Leça da Palmeira... Que novidades lhe estou contando!... – concluiu sorrindo o narrador.

- E do procedimento dela que se dizia? - atalhou Afonso, vivamente empenhado nas revelações do chaníssimo legislador.

- Do procedimento dela a que respeito? -perguntou o deputado, com suspeitoso sorriso.

- Amantes, quero dizer se a opinião pública lhe dava amantes.

- Eu lhe digo: quando V. Exª estava em Leça com sua mãe, e a morgada lá foi com o marido, alguém disse que o marido era um simplório. Ora isto parece-me que alguma coisa queria dizer...

O deputado espirrou uma risada de finura velhaca e ajuntou:

- Depois, quando V. Exª esteve em Ruivães uma temporada, e Teodora saia para aqueles lados, já todo o bicho-careta dizia que o adultério estava provado por todos os artigos do código e por mais alguns que esqueceram aos corpos legisladores-Aqui deu o representante de Braga uma segunda risada, expressiva de agudeza muito mais faceta.

Afonso sorriu-se e deixou-o esvaziar a pojadura da verbosidade chula.

- Não se fala por lá demais ninguém que eu saiba-tornou o deputado. -Mas o marido!, aquele palerma, que não lhe vai à mão, e a deixa andar em filistrias de cavalo e lacaio, faz-me pena, sinceramente lho digo, porque houve alguém que me afirmou que a mulher, quando está fechada na livraria, não o admite à sua presença, e até me disseram que ela passa toda a noite a consultar os seus livros! Logo: aquele marido está numa posição critica, matrimonialmente falando. Parece-lhe isso, Sr. Afonso? Aqui expediu o sujeito terceira risada, que tinha ideia oculta a meu ver, inconciliável com o comedimento desejável numa pessoa grave... de mais a mais deputado a cortes!

- Como está ela? - perguntou Afonso. - Ainda é bonita?

- Agora é que ela está completa. Encheu muito de ombros, e tudo à proporção.

Está muito alta, e esbelta, que parece uma inglesa. E o garbo com que ela sacode um cavalo... V. Exª está a mangar comigo? -perguntou de súbito o deputado, após um instante de reflexivo silêncio.

- Se estou a mangar com V. Exª?! Que pergunta!

- Sim! pois o Sr. Afonso vem-me perguntar a mim se ela está bonita?! Quem sabe melhor que V. Exª como ela está?!... Ora, meu amigo, vá contar essas histórias aos da Lourinhã. Cá para mim vem barrado!

- Dou-lhe palavra de honra - redarguiu Afonso - que a minha pergunta foi sincera. Eu vi Teodora; mas tão de relance que não pude reparar-lhe nas feições.

- A sua palavra de honra tem para mim o peso de um Evangelho – tornou gravemente o cavalheiro de Braga. - Pois, senhor, o mundo está enganado. A voz geral dá V. Exª como amante de Teodora. Eu não me atrevia a dizer-lho tanto às escáncaras; porém, chegadas as coisas a este ponto, fique sabendo que ninguém acredita na sua inocência, excepto o Eleutério, que é muito bom homem.

E escusado dizer que o indivíduo riu de novo, esfregou as mãos e exclamou abruptamente aguilhoado pelo instinto oratório:

- Ainda há quem case! Ainda há vítimas que espontaneamente se ofereçam no altar das mulheres! Chegamos a um tempo em que ninguém pode sinceramente dizer que conhece seu pai. Os assentos dos baptismos estão todos falsificados. Os mandamentos da lei de Deus, o nono sobre todos, vai ser tirado do catecismo. Vem aí um tempo em que o artigo da lei santa há-de ser assim reformado: "Não desejarás a tua mulher para não incomodar os direitos do próximo!" Onde irá isto assim parar, Sr. Afonso de Teive?

O deputado, entre sério e risonho, prolongou por três quartos de hora, em estilo declamativo, um aranzel de lugares-comuns, entreamado de pilhérias, com referência à degeneração da sociedade, no capítulo casamento. Afonso achava picante de grosso sal a iracúndia cómica do legislador, e estimulava-lhe a veia. Afinal o deputado, contente.

de si, foi para S. Bento, mais que muito persuadido de ser ele o predestinado para levantar voz no Parlamento decretando a moralização das famílias.

Afonso ficou pensativo. As revelações lisonjeavam-no. O odioso do carácter de Teodora desvaneceu-lhe a impressão já majestosa, já condolente, do viver da morgada.

"Uma sublime desgraçada!", dizia ele consigo. "Uma sublime desgraçada, que, ligada a mim, seria a mais sublime das criaturas!"

E trabalhado por esta ideia, que pertinazmente lhe martelou no ânimo, Afonso de Teive arrependeu-se de ter queimado a carta recebida na manhã daquele dia. Queria relê-la, metê-la a beijos na retentiva do coração!

À noite foi ao teatro, e entreteve-se largo tempo com D. José de Noronha. Versou a prática sobre o aceitar benignamente os acometimentos de Teodora. D. José mostrava-se já enfastiado da imbecilidade moral do seu amigo, e, portanto, lhe pedia que de todo em

todo esquecesse a mulher, se portasse como rapaz de cena ordem; ou obedecesse ao coração, aceitando a felicidade das mãos fosse de quem fosse.

Nesta mesma noite, o moço, vencido afinal pela irresistível necessidade de ser semelhante a todos os homens, escreveu uma estirada carta. Principiava nas recorda-ções da infância de ambos: devia de ser alta e amorável poesia, como o coração a trasborda, se de um ponto negro da vida os olhos rompem as trevas, e vão lá ao longe remergulhar-se no pélago da luz, que mais não há-de raiar em nossos dias. Tristeza mais que todas magoativa!

Depois, memorava os dias de amor, desabrochado já o seio em plena florescência, com os seus desejos balbuciados em frases todas alma e enleio, dulcíssima linguagem, que era ainda a das quimeras pueris, mal desvanecidas no trajecto da infância à adolescência. Poesia ainda, flor sempre lustrosa e verdejante, porque a sua tige está continuo a medrar em lágrimas, de onde paixão nenhuma hedionda dos vindouros tempos lhe há-de extirpar a raiz.

Seguia-se o recordar as dores atrozes do abandono dela, quando o moço, em Lisboa e Ruivães, duas vezes se atirara aos braços da morte, aceitando o Inferno, se o lembrar-se o condenado da mulher que amou na Terra não era já o máximo tormento.

Afinal, após os queixumes, subiu-lhe do coração aos olhos numa lágrima o perdão. Perdão e amor: que não há aí, em alma humana, perdoar ingratidões sem beijar a mão que nos alanceou. Esquecer, sim; mas esquecer é desprezo, não é perdão.

Escrita e fechada a carta, sobresteve Afonso no remetê-la. Acaso iria ela, sem desvio, às mãos de Teodora? As injustas suspeitas não poderiam ter Eleutério desobrea-viso? E, demais, reatadas as ligações de estima, iria Afonso, contra a vontade de sua mãe, para casa, e sustentaria ali o cortejo à mulher casada?

Estes quesitos falavam à razão; porém, a pobrezinha da razão estava já escondida na consciência, e a consciência ensurdecera com a guizalhada do baile carnavalesco em que seu dono a mandara estudar os costumes do seu tempo.

Foi a carta com direcção a Braga. Era dia de feira quando ela chegou ao correio: estava ali o marido de Teodora vendendo cereais. Foi à lista postal ver se seu pai tinha carta de parentes do Brasil; e, como não se entendia bem com os nomes maiores de três sílabas, pediu que lhe lessem a lista inteira. Quando o obsequioso leitor chegou a Teodora Palmira Vilar de Sonsa, exclamou Eleutério:

- É a minha mulher! Há-de ser cana do livreiro.

Convém saber que a morgada se entendia directamente com os seus livreiros fornecedores.

Eleutério foi tirar a cana, e deu-lhe nos olhos, afora o lustre do sobrescrito, O lacre azul fechado com armas e, mais que tudo, a marca de Lisboa.

Não me atrevo a compor o solilóquio de Eleutério Romão. Sei que ele andava com a carta às voltas, entre mãos, e às vezes esfregava entre dois dedos o papel, como se pelo tacto pudesse inferir do conteúdo. Estava com ele o regedor da sua freguesia, o mesmo que lera a lista, e lhe lia na alma agora.

- Que estás a malucar, Eleutério? - disse ele. - A modo que esta cana te deu no goto!...

- A falar a verdade - respondeu o marido de Teodora -, esta letra não na conheço, nem estas armas reais!... Minha mulher não conhece ninguém em Lisboa, e estas letras, compadre, parece que rezam Lisboa.

- E como diz: Lisboa sem tirar nem pôr. E então?... achas que ela...

- Estão-me a dar guinadas de abrir isto!... Que dizes tu, compadre?

- Eu cá, se fosse comigo, já a cana estava aberta. Mulher minha a ter canas, sem eu saber de quem!...Deus me defenda!

Palavras mal eram ditas, que Eleutério quebrou o lacre, e passou a carta ao regedor, dizendo:

- Lê lá... ela é tamanha!, parece uma sentença!... Vamos ver isso, que eu já me não sinto escorreito.

O regedor tomou o manuscrito de oito páginas entre as mãos, pôs-se em atitude abrindo as pernas em circunflexo, tossiu, tomou fôlego, deu crena de saliva aos beiços, e leu engasgadamente: "De onde vem esta celestial harmonia, que a minha alma ouviu, quando o Céu me bafejava a infância, e as delícias todas da existência me eram pronunciadas nos sonhos?..."

O regedor revirou os olhos pasmados a Eleutério e disse:

- Tu percebes isto, compadre?

- Assim me Deus salve, que não percebi palavra-respondeu Eleutério Romão esbugalhando os olhos sobre a escrita cabalística.

- Português acho que é! - tornou o regedor, consultando a opinião do compadre.

- Isso é, lá português é... Ora torna a dizer.

O leitor repetiu e disse.

- Fala aqui em alma, e sonhos, e delicias. Sabes que mais? Isto, seja lá o que for, não me cheira bem!... Aqui, Deus me perdoe, há maroteira daquela casta!... Deixa-me ver mais um bocado a ver se pesco alguma coisa.

E continuando, leu:

"Sonhos de anjo, alumiados pela imagem lúcida da filha da minha alma!, volvei, volvei, orvalhai a flor requeimada, dai uma lufada de Primavera ao meu coração regelado pelos frios desta infinda noite... Oh, minhas donairosíssimas quimeras!..."

- E agora entendeste? -voltou o regedor. - Eu estou como a Felícia de Abrantes, pior que dantes. Isto, se não é latim, é o diabo por ele!

- Queres tu que se pergunte a alguém?! - acudiu Eleutério. -A gente há-de achar quem lhe explique isto cá em Braga... Fala-se aí a um padre que eu conheço, ao capelão das Ursulinas.

- Dizes bem... Tu não hás-de ir para casa sem tirar isto a limpo... Queres tu ver que aí vem o homem que nos explica o negócio?

- perguntou o magistrado administrativo. - E meu compadre Fernão de Fonte Boa.

Era Fernão de Teive, conhecido por de Fonte Boa por ser lá o seu morgadio. Com o velho fidalgo vinha Mafalda, apoiada no braço dele com doentio aspecto.

O regedor descobriu de longe a cabeça e saiu ao encontro de Fernão, que o recebeu com o agrado dos antigos fidalgos.

- Que é feito de ti, compadre, que te não vejo há cem anos? - disse o velho.- Desde que te fizeram regedor, acho que não cuidas senão em fabricar deputados e comer os salpicões dos recrutas passados pela malha! Anda lá, meu homem, que em tempos melhores havias de ganhar o posto de capitão-mor, que jeito para comer os saudosos lombos tens tu. Então que é feito, rapaz!, quem é aqueloutro? Se me não engano, é o Eleutério do Romão.

- Para servir a V. Exª - disse Eleutério com três mesuras de cabeça exageradas. - Sou eu para servir a V. Exª.

Fernão inclinou um olhar irónico sobre o ombro da filha e disse com um tal represo frouxo de riso:

- Aqui tens o marido da morgadinha da Fervença.

Mafalda escassamente lançou um olhar ao sujeito e baixou os olhos com um gesto de notável comoção.

E o regedor, tirando a carta da algibeira, disse:

- Eu queria consultar o meu Ex.mo Compadre a troco de uma carta que nem eu nem meu compadre Eleutério entendemos. Agente, como o outro que diz, o que sabe é de lavoura, e mal assina o seu nome. O caso é este: aqui o compadre achou no correio esta carta prá mulher. Teve lá seus arrepios, e abriu-a. Começamos a ler, mas nem pra trás nem pra diante. As palavras parecem portuguesas, acho eu; mas nós não sabemos o que elas rezam. Se o Sr. Compadre fizesse o favor de ler isto...

Fernão de Teive ia a tomar a carta já aberta da mão do regedor, quando sentiu extraordinário peso no braço esquerdo, olhou em sobressalto e viu Mafalda a desmaiar, com o rosto banhado de suor. Chamou-o ela, expedindo uns agudos soluços, quis em vão pendurar-se do pescoço do pai. Tomou-a o velho nos braços com tremente ansiedade e transportou-a para dentro de uma loja, pedindo a brados um facultativo.

O regedor e Eleutério seguiram Fernão, aflitos do sucesso. Na mão do regedor estava ainda a carta. O velho, sem atinar com o motivo do acidente, olhou maquinalmente para o papel e teve um repelão intuitivo, sem ainda o compreender.

Tirou com desabrimento a carta da mão do compadre, examinou-a pela luneta, leu as primeiras linhas, desviou os olhos, meditou, lançou de arremesso o papel ao chão e disse:

- Deixem-me... não sei o que é... Vão embora...

Os homens iam a sair, quando ele os chamou com frenesi, pediu a carta e desfê-la em pedacinhos, exclamando:

- Isto não é nada, nada vale, podem ir com Deus.

Eleutério estava assombrado, e o compadre abria e fechava a boca em sinal do seu espanto e compaixão. Em boa-fé, o regedor acreditou atacado de demência o velho, ao ver a filha em transes de morte. Afastaram-se em consultas, dando cada qual a sua razão do caso, bem que Eleutério ia mediocremente satisfeito da rasgadura da carta.

Quando recobrou o alento, Mafalda levou as mãos ao rosto do pai e murmurou muito carinhosa:

- Perdoe-me, por quem é! Perdoe esta fraqueza da sua infeliz filha!

- Pobre anjo! - balbuciou o velho. - Que hás-de tu fazer-lhe? Deus mandou-te aquele desengano... Recebe-o tu, reportada e humilde, de suas divinas mãos. Precisavas disto, para enfim te convenceres.

Mafalda pediu ao pai que a levasse ao primeiro templo aberto. Ajoelhou ao altar do Senhor dos Aflitos, chorou, e viu as lágrimas do velho ajoelhado à beira dela. Ergueu-se com pacifico semblante e disse:

- Estou melhor, meu pai. Deus não falta aos infelizes sem culpa, nem mesmo aos culpados... Também orei pelo primo Afonso.

- Eu não orei - disse o pai -, mas rasguei o documento da sua infâmia.

XV

Afonso de Teive contava os dias, e, no último dia, a hora é instantes em que devia receber carta de Teodora. Esperou uma semana em alvoroço, e já ao décimo dia a malograda esperança o atormentava. A incerteza da recepção aliviava-o por momentos; outros, porém, sobrevinham em que ele se considerava desconsiderado pela caprichosa ou vingativa mulher. O mais graduado oráculo do seu conselho. D. José de Noronha, racionalmente opinava que a mulher autora de tais canas por força devia responder; e do silencio concluiu que se transviara a resposta enviada. Chegou a confirmação desta hipótese na seguinte pergunta de Teodora: Instantemente te rogo que no primeiro correio me digas se me escreveste.

Sobejam-me razões para conjecturá-lo. Estou em ânsias. Esta incerteza martiriza-me mais que o teu desprezo. Responde-me depressa. Dirige a tua resposta - pedida com lágrimas - para Barcelos. Calculo o dia em que ela deve ali estar. frei pessoa/mente recebê-la.

T. P.

Lida a pergunta, Afonso abancou para responder. Posta a primeira palavra, ergueu-se de salto. Chamou o criado da cavalariça. Mandou pensar os cavalos para jornada longa. Sentou-se a escrever a D. José de Noronha. Cuidou seguidamente dos aprestos para a partida; e, duas horas antes da saída do correio, galopava na estrada do Porto. A meia jornada fraquearam os cavalos. Afonso fez remonta em Coimbra, sem discutir o preço de novas cavalgaduras, e chegou a Barcelos duas horas primeiro que o correio.

Quando apeou na estalagem de Barcelinhos, encostou a cabeça esvaída à borda de um leito e adormeceu. Rompia a manhã. A mim me contou ele que, dormindo uma hora, acordara transido do horror de um sonho. Vira Teodora em trajes de bacante, revolteando umas valsas lúbricas, e atirando-se ébria, e torpe de impudicícia, aos braços de um homem. Era um sonho; mas ao despertar, Afonso sentia abrir-se-lhe o coração a golpes de arrependimento. A prostração era invencível: adormeceu outra vez, e sonhou que via sua mãe agonizante nos braços de Mafalda. Acordou espavorido; ergueu-se arrancando a mãos frenéticas aquela imagem da fronte; o arrependimento era já lançada de remorso. Abriu o relógio: viu que era ainda tempo de fugir... Diz ele que fugiria...ai!, eu não creio que ele fugisse, não! Chamara o criado para arrear os cavalos... eis que, ao cimo da rua, soa tropel de ferraduras, e faz-se rápida paragem à porta, da estalagem.

Afonso descora, vai de encontro às vidraças, e vê apear a morgada. O quarto dele era contíguo à sala comum. Já Afonso lhe ouvira os passos escada acima, e logo a voz ordenando ao lacaio que amantasse os cavalos e fosse receber as suas ordens. Foi ele manso e manso espreitar pela fechadura. Respirava em arquejos ao avizinhar-se da porta. Curvou-se, inspirando sôfrego o ar que lhe saia a sacões do peito.

Viu-a. Estava com o braço esquerdo encostado à mesa central da sala, e a face reclinada para a mão. Com a direita chibatava, como alheada do que fazia, o pó acamado no roçagante vestido de casimira verde-escuro. Verde era o véu do chapéu, que, momentos depois, ela tirou com rápido movimento e rojou ao longo da mesa. Levou ambas as mãos às fontes, afastando os anéis dos cabelos, que se encaracolavam rosto abaixo até às espáduas. Demorou-se momentos naquela postura. Ergueu-se impaciente e passeou de um a outro lado da casa, vibrando o chicote, e tirando com força pelo trancelim de ouro do relógio. Volveu a sentar-se, com o rosto voltado em cheio contra a porta, de onde Afonso a observava. "Poucos traços lhe vi então das feições menineiras com que a deixara", me disse ele. "Da menina admirável o que ela ainda tinha era o ar angélico; mas a beleza da mulher deslumbrava as reminiscências da criança."

Venceu Afonso os ímpetos que o empuxavam para abrir a porta. Esperou, sem saber o quê; esperava o desencantamento, esperava o dom da palavra retraído ao coração.

Entrou um lacaio, que ela mandou logo ao correio com um bilhete ali escrito a lápis. Desde este momento, Afonso já sabia o que esperava: queria vê-la aflita com a falta da carta. No intervalo, Teodora chamou o criado da hospedaria e pediu café, O criado, ouvidas as ordens, dirigiu-se ao quarto de Afonso; este viu-o e afastou-se.

Aberta a porta subtilmente, perguntou o criado se Sua Excelência queria almoçar.

Afonso respondeu com um aceno negativo. Fechada a porta, perguntou Teodora:

- Quem é que está naquele quarto?

- Não sei, fidalga - respondeu o moço. Afonso repôs-se à fechadura.

Chegou o lacaio.

- Trazes? - exclamou ela como assustada.

- Não há, minha senhora.

- Não?! -bradou ela batendo o pé. - É impossível! É impossível! Deve lá estar uma carta!...

- Saberá V. Exª que eu lia lista primeiro, depois fui dentro perguntar ao homem que dá as canas - disse o lacaio, e saiu.

- Inferno! - clamou ela estortegando os dedos que estalavam nas articulações. - Maldita eu seja, que tão aviltada me tomei!

Sentou-se a arfar e a chorar, e logo depois levantou os pulsos comprimindo as fontes.

Pôs depois as mão enclavinhadas junto dos lábios, encostou a barba ao pólex da mão esquerda, abaixou a cabeça e meditou.

Entrava o criado com a bandeja. Teodora, estremecendo como atemorizada, relanceou os olhos sobre o criado e disse-lhe com desabrimento:

- Deixa ficar. Cá me sirvo, O lacaio que almoce e aparelhe.

Neste momento, Afonso abriu a porta e disse com a voz convulsa:

- Um passageiro pede uma chávena do café de V. Exª.

O leitor já sabe, por todos os romances, por todos os dramas e por todos os actos da vida real, semelhantes, muito ou pouco, a este, o que Teodora fez. Um ah! ou dois é o nariz de cera para todas as surpresas. fabricadas desde Homero, ou mais de longe.

Adão, quando viu Eva, devia dizer-lhe Ah! A Eva, quando viu a serpente, se não fugiu, eu vou jurar, sem menoscabo do historiador Moisés, que, mais ou menos nervosa, exclamou: Ah! A interjeição é coeva do homem, que nasceu cheio de espantos.

Espanto, porém, igual ao da morgada, se o houve, foi o meu, quando Afonso me disse que Teodora não expediu do seio interjeição nenhuma, nem ah! sequer.

- Pois quê?! -perguntei eu com a respiração abafada. - Que disse ela?!

- Levantou as mãos, ajuntou-as sobre o seio postas em oração; depois, caiu em joelhos, ia cair, quando eu, ajoelhado também, a recebi, a desfalecer.

- Não disse nada, portanto!... E desfaleceu sinceramente?

- Fazes-me essa pergunta como quem conheceu a mulher... - respondeu Afonso. - Asseveras-me que te estou contando factos ignorados?

- Pois eu podia saber o que se passou na estalagem de Barcelinhos?! - repliquei. - Eu ignoro dessa mulher tudo, menos o que toda a gente sabia. Vi Palmira em Lisboa contigo... mas, se tu crês que um homem, acostumado a fazer romances, é uma espécie de naturalista, que só com um osso recompõe um animal desconhecido, admite-me que eu tenha adivinhado a alma inteira de Teodora com os poucos, mas característicos, traços que me deste do seu carácter. Autorizado, pois, pela tua pergunta, afoito-me a dizer que o desmaio da amazona foi menos de teatral, porque nem sequer foi precedido da inevitável interjeição. Assim que me disseste, Afonso, que ela não desentranhou do intimo seio um estrídulo ah!, entendi que Teodora era mais artificial que o próprio artificio, mais teatral que o mesmo teatro.

- A narrativa - redarguiu Afonso de Teive - vai perdendo a seriedade que demandava o caso. Cansaço ou enojo, dir-te-ei que me sinto já constrangido nestas memórias. Acho-me um pouco identificado com a minha vida passada; repassei o Letes interposto, e olho com saudades para as margens que deixei. Se, como diz o Dante, nada há aí mais triste que recordar na miséria os tempos felizes, é pelo menos nauseabundo recordar em tempos felizes vergonhosas misérias. Todavia, como já agora inexorável romancista, me não dispensam o remate deste longo prólogo do capítulo final do meu livro - livro que eu chamaria Amor de Salvação -, concluirei a história e irei depois purificar meus lábios no rosto de meus filhos.

"Teodora - continuou Afonso -, quando quis abrir os olhos, arrancou-se dos meus braços, exclamando: "Repele-me, que eu sou indigna de ti. Agora reconheço a minha miséria, agora que te vejo, ó anjo da minha infância, que eu deixei fugir para o seio da mulher digna, da mulher pura, da criatura perfeita para quem tu nasceste!"

- Há aí muito estilo - interrompi. - A mulher compunha! Vê-se que leu e aproveitou. O deputado de Braga é que tinha olho de D. João de Maraña para as mulheres de letras. E depois?

- Eu venci o espaço que ela deixara recuando e abracei-a. Neste movimento senti nas faces o contacto dos caracóis desfeitos. Osculei-a na fronte...

- Gosto - atalhei - do comedimento honesto da palavra... Osculei-a... Sim, senhor... Assim é que um pai de oito filhos conta a história dos seus beijos. E ela também te osculou?

- Sofregamente, doidamente, segurando-me a face pelos cabelos.

- Isso também é de rigor teatral. A mulher conhecia a cena! Perdoa as interrupções. De propósito as faço para te dar azo a inspirares fôlego novo, visto que já te afadiga o conto. E vai depois...

- Rebentou-me a bolhões do peito a eloquência da paixão. Era uma alma virgem que se abria. Abria-se um tesouro intacto de onde nem sequer tirara uma palavra para mentir a outra mulher. Ela entrecortava-me, sorvendo-me as expressões dos lábios, ou abafando-mas no seio palpitante e ardente como o arquejar estuoso do vulcão. Este lance febril, de minutos no viver de meu espirito, absorvera uma hora, segundo a vida do tempo...

- E depois - acudi eu - começaram a tratar de assuntos circunspectos com discreta serenidade.

- Contou-me ela que o marido, com ar de tirano tolo...

- A frase é dela, tirano tolo? - perguntei.

- É. Desgostar-me-ia o tom zombeteiro com que ela me falava do pobre homem, se eu não estivesse...

- Corrompido - conclui. - Querias dizer isto?

- Era isso verdadeiramente. Dizia, pois, ela que o marido lhe falava em correspondências de Lisboa, mordendo o beiço, ou esgaravatando nos pavilhões dos ouvidos, costume dele, quando os ciúmes lhe faziam prurido nas orelhas.

- Disse-to assim ela? - interrompi com a mais ingénua irritação.

- Disse-mo assim, com pouca diferença, meses depois, quando eu estava mais corrompido que ela para provocá-la às originalidades da sua veia sarcástica: do que me confesso em opróbrio meu. Delineámos o nosso futuro. Foi ela quem o programou.

Iríamos para longe. Propôs Lisboa, ou Madrid, ou Paris. Quis Lisboa, no intento de requerer divórcio. A fuga teria execução antes de oito dias. Eu ficaria em Barcelos, disfarçado, oculto durante o dia. A meia-noite apearia a um oitavo de légua de Tibães.

Teodora estaria no seu gabinete de estudo, e as vidraças coariam a luz da sua lâmpada, companheira das lucubrações intelectuais, insuspeitas ao marido. Referendado o programa e rubricado com um ósculo (repara que me não descomponho) ouvi estropeada de cavalo na rua. Momentos depois...

- Querem ver que chega Eleutério! - atalhei com alvoroço e alegria párvoa, se não cruel.

- Eleutério Romão dos Santos, em pessoa, tropeando nas escadas que subiam para a sala, onde nós estávamos tranquilos como Paulo e Virgínia (perdoai-me, santas almas, a comparação!) nos rochedos da Ilha de França! Agora tu, Calíope, ensina-me a contar o sucesso estranho!... Eleutério viu ainda o desencadearam-se os braços de Teodora do meu pescoço. Parou, estacou, empederniu-se, estupidificou-se no limiar da porta.

- E Teodora? Narra-me da esposa surpreendida; que fez ela? - perguntei com inquieto empenho.

- Teodora, pendidos os braços, fitou Eleutério com sobranceria, deu dois passos, postou-se diante de mim e disse, voltada para o marido: "Que me quer? A minha alma é livre."

- Esperava outra coisa eu! Isto parece-me estupidamente imoral. É caso novo é feio esse! E tu, que fizeste tu?

- Nada.

- Dos três é quem andaste melhor. Parabéns! E ele, o marido, que fez depois? Que respondeu à Pantasileia?

- Respondeu que lhe ia dar cabo da casta, e tirou uma luzente podoa de dois gumes do bolso interior da judia.

- Uma podoa! Outra novidade! E arremeteu com ela?

- Quando ele sacou do ferro, passei para a frente de Teodora.

- Desarmado?

- Desarmado: as pistolas estavam no meu quarto. Mas a Pantasileia virgiliana, como tu apropriadamente a denominas, repeliu-me com uni braço e mostrou na extremidade do outro uma pistola abocada ao peito do marido.

- Novidade terceira! - acudi eu, quase suspeitoso da logração do conto. - Tu não estás inventando, Afonso?

- É inepta a pergunta; mas perdoável. Não invento, meu amigo. Conto verdades que me entristecem. Recordar-me agora do gesto consternado do marido dela punge-me deveras. Tremia-lhe o ferro na mão ameaçadora, e já o rosto se lhe estava banhando em lágrimas. Desceu o braço quebrantado por agonia mais lacerante que a ira e fitou em mim os olhos chamejantes. De mim, relanceou-os à mulher; e, desafogando a custo as palavras, disse: "Castigada te veja eu, e Deus me vingue!"

- Não esperava eu que ele dissesse isso. Há concisão e angústia suprema nesse apelar a Deus - reflecti eu condoído, não obstante tê-lo visto, como fica escrito, no arraial de S. Brás de Landim, anos antes, em jeito de muita felicidade, e grande frescura de Animo e coração. E continuei no meu impertinente interrogatório, tendo em vista que o leitor fosse bem informado: - Eleutério, depois, saiu, ou que fez?

- Chorou, embebeu as lágrimas no lenço, e disse: "Eu não te obriguei a ser minha mulher. Se casaste, foi porque quiseste. Se tinhas outra inclinação, não dissesses a meu pai que me querias."

- Que impressão fizeram em ti essas palavras tão simples e sinceras? - perguntei..

- Má impressão! - respondeu Afonso de Teive. - Péssima impressão! Desviei involuntariamente os olhos dela: a razão saiu por momentos do seu chiqueiro, e teve dó da alienação da minha pobre alma. Eleutério, por último, rematou assim: "Não tenho mulher. Vou para minha casa, e vai tu para a tua." E saiu. Teodora voltou-se para mim, atirando a pistola sobre a mesa, e disse: "Estou livre. Aqui me tens, Afonso. Aqui está a tua Palmira, com o virgem coração que lhe conheceste, mais valioso do que era, mais depurado dos instintos maus, graças aos trabalhos que me angustiaram a vida. Queres-me assim, Afonso?..."

- Abraçaste-a fervorosamente, convulsamente - interrompi eu.

- Não: disse-lhe com uma falsa graça no rosto: "quero-te assim; partiremos hoje mesmo para Lisboa." "E os meus fatos, as minhas jóias?", perguntou ela. "Tenho brilhantes que eram de minha mãe." "Deixa-os. Terás brilhantes, se eles forem precisos à tua felicidade!" "A minha felicidade!", exclamou Teodora, ajoelhando-se-me de mãos postas, "a minha felicidade é uma choça contigo, no ermo, no isolamento de todos os prazeres da sociedade." Ergui-a com amor. Tocou-me o contraste daquela humildade com a arrogância da resistência ao marido.

"A esta procela de comoções violentas seguiu-se um intervalo de silêncio morno, concentração porventura dolorosa em que os nossos olhares mutuamente se interrogavam. Eu via minha santa mãe e a puríssima imagem de minha prima. Teodora não sei o que via: pode ser que estivesse lendo a página negra do seu destino, voltada pela mão do Senhor. Eu de mim esforçava o contentamento no rosto: os olhos viam-na embelezados; o ambiente escaldante que ela aquecia com o seu hálito coava-me lume até às medulas dos ossos; mas o formidável grito da moral repercutia-se no senso. intimo da minha queda. Desgraçadas e atrozes ligações as que principiam assim! É que a sentença da justiça divina foi já lavrada.

"Teodora abriu a janela da sala e aspirou com força; encostou-se ao peitoril com os olhos cravados nos cabeços da serra da Tranqueira". "Em que meditas, Palmira?", perguntei-lhe eu. ""Em minha mãe, que era virtuosa como a tua", respondeu ela. "Esta dor nobre, tão singelamente revelada, fez-me bem ao coração. Comoveu-me aquele dizer de mulher, no tom da maviosa feminilidade que soa tão brando e compadecedor nas almas de rija têmpera, como era a minha. Falámos de nossas mães, e com tantas carícias de expressão saudosa, que terminámos, beijando um do outro os olhos cheios de lágrimas.

"No mesmo dia, por volta da tarde, saímos caminho de Lisboa."

XVI

Volvido um mês sobre os sucessos descritos, Afonso de Teive e Palmira – que nunca mais se chamou Teodora - viviam num palacete ao Campo Grande, por ser entrada a sazão estiva.

O interior esplêndido da casa sobreexcedia o exterior majestoso. Nas cavalariças escarvavam, arrifavam e relinchavam os cavalos de trem e de passeio. No pátio, os lacaios limpavam e bruniam os arreios e as equipagens. Sentia-se o respirar da felicidade, como escondida das invejas do mundo, naquele magnífico aposento. O dono dela gozava-se da fama de opulento fidalgo do Minho; porém, o tesouro que a pública admiração mais lhe encarecia era Palmira.

Frequentavam a casa de Afonso de Teive alguns dos amigos que D. José de Noronha lhe dera, moços da primeira fidalguia. Ao verem a mulher por quem Afonso desprezava todas, acharam e disseram, sem lisonja, que ele tinha sofrido e amado pouco. A expectativa de D. José fora surpreendida pelo excedente de uma formosura, graças a talento não imaginados. Estes gabos, porém, proferidos a medo na presença dela, eram tão respeitosos e aferidos no padrão do melindre palaciano que Afonso de Teive nem por sonhos aventou a possibilidade de uma intenção desleal do amigo.

Palmira, por sua parte, quando os seus hóspedes e convivas, no mais aceso dos brindes em lautos banquetes, lhe balanceavam o incensório dos louvores, baixava os olhos, inclinava a cabeça e mostrava aceitar resignada o incenso, em obséquio aos turibulários. Era aquela a atmosfera inebriante dos anelos da morgada da Fervença.

Lembranças de sua vida conjugal em Tibães afastava-as com repulsão.

A imagem de Eleutério fazia-lhe vergonha de si mesma. Tornou-se desnecessária a leitura ao recreio das suas noites. Preferia, à falta de teatros, passear a cavalo ao clarão da Lua, ladeada de Afonso e de D. José de Noronha, a mais intima e feliz testemunha dos prazeres de Afonso. Tinham noitadas de estenderem a Sintra os seus passeios, ora serenos e contemplativos, ora em correria vertiginosa, à vontade e capricho de Palmira, cujo cavalo negro ela denominara...

- Eleutério?! - perguntei eu, cuidando que adivinhara, quando o meu amigo chegou a esta altura da história.

- Não, nem tanto... -respondeu Afonso.- Chamava-lhe Lúcifer - Que desprezo do monarca do Inferno! Parece-me que Palmira não tinha virtudes para zombar assim da personagem que provavelmente lhe há-de pedir eternas contas da nomenclatura do quadrúpede!

Vamos rio prosseguimento desta celestial felicidade, em que o Inferno apenas lembrava em virtude do nome do cavalo.

No termo de um ano, Afonso de Teive tinha escrito, a largos prazos, pouquíssimas canas a sua mãe. Noutro relanço viria mais bem cabido o falar-se da virtuosa senhora e da angelical Mafalda; A promiscuidade faz-me susto de vituperá-las. Mas é preciso dizer que D. Eulália, em cumprimento da sua promessa, remetia ao filho as quantias avultosas que ele exigia, e o produto de uma quinta de sua legítima paterna, logo que Afonso lho determinou. Fernão de Teive comprara a quinta clandestinamente por intervenção do seu mordomo. O ouro entrava em torrentes naquela voragem, de onde retornava em carruagens, em baixelas, em festins, em sedas e brilhantes, em apostas soberbas no jogo, em extravagâncias de soada fama, em empréstimos aos comensais.

No decurso dos doze meses, apenas Fernão de Teive mandou um triste memento homo ao reboliço daqueles júbilos. Eram estas palavras unicamente:.

Lembra-te, Afonso, de teu tio-avó Cristóvão de Teive.

Afonso sorriu e perguntou a Palmira se lhe via sinais de lepra. A jovial criatura, informada da intencional alusão, cascalhou umas risadas de que muito se compraziam os ouvidos do amante, as quais, no dizer de D. José de Noronha, tinham uma alegria contagiosa, que faziam bem aos infelizes. Afonso não respondeu ao velho de Fonte Boa;

mas, numa hora de solidão em seu particular gabinete, somou as parcelas hauridas de sua casa, e espantou-se; calculou a quantia necessária para vinte anos de vida, e descobriu que no fim de dez anos devia estar morto, para não pedir esmola aos parentes.

Levantou-se pensativo desta operação aritmética; saiu do gabinete; e encontrou Palmira a lembrar-lhe a conveniência de arrematar um camarote de S. Carlos, que estava a lanços. Afonso respondeu tristemente: "Pois sim." Palmira não viu linha alguma extraordinária no rosto do amante, beijou-lhe os olhos e disse: "És um anjo!"

Desde aquele fatal dia dos cálculos sobre as despesas de vinte anos, Afonso cismava a miúdo nos dez que restritamente lhe ofereciam os seus presuntivos cabedais, contando já com o falecimento da mãe. "Infame cláusula dos meus cálculos!", dizia ele com os olhos a reverem lágrimas de remordente remorso, treze anos depois.

Palmira, afinal, deu tento da melancolia de Afonso; e antes de consultar-lhe a causa, perguntou se a não amava já. O interrogatório afligiu o moço. Reconheceu que faltavam naquela mulher as sérias qualidades de espirito para lhe escutar o motivo de suas abstracções, em meio dos favores da fortuna.

Manifestou Palmira o seu insofrido orgulho. Simulou um recolhimento de amargura cavilosa. Pranteou-se, perguntando ao Céu, em atitude trágica, se a expiação começava tão cedo. Afonso acariciou-a, já condoído dela, e revelou, com desdém de seus próprios temores, a causa mesquinha deles. Palmira observou-me que a fortuna dela, à sua parte, excedia o valor de vinte e cinco contos, e propôs-lhe requerer-se divórcio desde logo. O bizarro moço recusou a proposta, ajoelhando em espirito à generosa oferta de Palmira.

Passou a nuvem. Requintaram os gozos e as despesas. Projectaram-se passeios ao estrangeiro. D. José de Noronha era grande parte e conselheiro nestes prospectos de recrescente felicidade. Lembrou Palmira a Semana Santa em Sevilha. Foram a Sevilha, detiveram-se por Espanha dois meses até pressentirem uns longes de fastio. Voltaram a Lisboa no antegosto de planeadas excursões à Itália. Afonso de Teive entrou no seu escritório, em busca de cartas, e abriu primeiro uma das duas de Mafalda, antes que Palmira o surpreendesse a lê-las. Rezava assim a primeira:

Meu primo. A nossa mãezinha está muito adoentada e causa receios ao médico de Braga, que vem aqui todos os dias. Não me autorizou a chamar-te; mas eu, depois de consultar meu pai, resolvi participar-te isto e pedir-te que venhas ver esta santa. Ela não cessa de chorar e rogar a Deus por nós. Vem pedir-lhe que, ao sair deste desterro, continue a pedir no Céu por ti, por mim, e por todos os infelizes. Tua prima, Mafalda.

Era datada esta carta em 6 de Abril de 1852.

A outra, datada em 18 do mesmo mês, continha o seguinte:

Meu primo. Acaba de expirar tua mãe. São cinco horas da manhã. Morreu-me nos braços. Dava três horas o relógio quando ela disse que havia de expirar quando raiasse o dia. Assim foi. Falou de ti até à última e ordenou-me que te mandasse uma carta, que ela escreveu no segundo dia de sua enfermidade. Admirei que me não respondesses ao menos à que eu te escrevi então. Deus sabe o que vai na tua vida. A.santa lá está no Céu: ela conseguirá o que for melhor para ti, em conformidade com os decretos do Altíssimo. Aqui está meu pai a cuidar nestes tristes preparativos para o enterro. Já dobram os sinos. Não me deixam escrever as lágrimas. Adeus. Afonso. Tua prima, Mafalda.

Afonso, concluída a leitura desta segunda carta, bradou: "Meu Deus, meu Deus!", e caiu de joelhos, escondendo a face nos estofos de uma otomana. Acudiu Palmira aos gritos. Afonso ergueu-se, com as mãos no rosto e, abafando os soluços, pôde dizer: "Morreu minha mãe!"

- Chora no meu seio - disse ela comovida -, chora meu querido filho! Tens ainda este grande coração que te abriga na tua angústia.

Estas palavras alancearam mais a alma do meu amigo. Pareceram-lhe um sacrilégio, uma injúria à memória da mulher cuja vida fora uma enchente de virtudes.

"O coração da adúltera a dar abrigo à dor de um filho!" Era a consciência que assim lhe gritava, não era ainda o tédio. Era, talvez, a repugnância de se encostar ao seio da mulher por amar de quem deixara morrer sua mãe, esquecida, desprezada mesmo, lembrada algumas vezes como senhora medra da casa, cujo herdeiro ele era.

Afonso pediu a Palmira que o deixasse sozinho. Ferida em sua vaidade, considerando-se inútil em consolar o homem fraco, o homem debulhado em lágrimas, Palmira cruzou os braços e abanou a cabeça.

O atribulado moço não vira aquele gesto; mas ouvira as palavras que o denunciavam:

- Não basta o amor da mulher amante para consolar as saudades de uma mãe. Eu também a tinha quando te amava, e abriguei-me no teu coração. Que diferença...Afonso irou-se; mas abafou a cólera num gesto de impaciência. Palmira compreendeu-o, retirou-se lançando os olhos às duas cartas, que estavam abertas.

Encostou-se à mesa e leu-as sem lhes pôr mão. Lidas, sorriu-se, remexeu ainda na língua uma ironia infame, não ousou proferi-la, e saiu. E que a mulher impura muitas vezes espumara o pus do cancro do orgulho, que doía, na face imaculada de Mafalda, que o moço indiscreto algumas vezes, com fatuidade, relembrava como desgraçada na sua amorável dedicação.

Assim que Palmira saiu, Afonso, a tremer calafrios, deslacrou a carta de sua mãe.

Dizia assim:

Meu filho. Muito há que eu peço a Deus que me despene. Já me cansava a vida com tão aturado padecer e nenhuma esperança de remédio.

Agora espero que a misericórdia do Senhor me atenda; e, se me diz verdade o coração, é chegada a hora de eu escrever umas linhas, que te serão mandadas quando eu tiver passado.

Bem sabes tu, meu filho, que eu. cheia de terror do teu pecado, voltei para Deus a minha aflição, e nenhuma palavra de censura te escrevi, O que eu podia fazer para livrar-te estava inutilmente feito. Era tardio tudo que fizesse depois. A infeliz criatura estava já contigo. Ninguém sem ordem do Céu poderia remi-la da sua perdição. À minha presença veio o desgraçado marido de Teodora pedir-me que te movesse a influir no ânimo de sua mulher o recolher-se num mosteiro. Consultei primeiro a vontade divina e depois a razão humana. As minhas orações, se pudessem com Deus alguma coisa, lá iriam à tua alma em abalo de consciência. O Senhor não quis. As pessoas a quem pedi voto sobre escrever-te, segundo o pedido do homem de Teodora, todas me disseram que eu ia abaixar a minha dignidade num requerimento vão e desconforme à natureza da tua desgraça. Abaixar a minha dignidade não me custava nem humilhava; mas, sem esperança de te mover com as minhas pobres razões, antes quis orar, e orar sempre a quem tudo podia.

Bem sabes, meu filho, que eu, nem mesmo ao remeter-te num ano o rendimento de quatro, afora o produto da quinta vendida. nada te disse respeito à causa dos teus desperdícios, prometedora de tua inevitável pobreza.

Conheci que eu, em tua vida, já nem sequer valia para amiga. muito menos devia esperar respeito e amor à minha autoridade de mãe. Disse comigo que era irremediável a tua desgraça, e esmoreci de todo em todo.

Mandou o Senhor para o meu lado tua virtuosa prima. Chorámos ambas; mas o anjinho, mesmo em prantos, consolava a pobre que lhe via a alma em grandíssimas mortificações.

Agora, meu filho sempre querido, é tempo de te abençoar, de te perdoar as dores que me deste, e rogar-te que me vejas aos pés do Altíssimo, se a Sua misericórdia me descontar as agonias nas muitas culpas de minha vida. Não te mortifique o pesar de me haver deixado morrer sem que a tua vida se lavasse, pelo arrependimento, do desonroso crime que a disforma. A todo o tempo, se sentires o voluntário brado da consciência, escuta-o, remedeia-te e foge de ti mesmo para te encontrares na justiça benigna de perdoador de crimes iguais. Eu serei então em espírito contigo para te ajudar a reformar o teu ânimo e alentar em teus desfalecimentos.

Dos desbarates e perdimento dos teus haveres, faz muito por salvar ao menos esta casa onde nasceste e a quinta que te dará abundante pão na velhice, se Deus- ta der, como tempo de merecer o Céu. Aqui nasceu teu pai, e muitas gerações de santas e honradas pessoas. Salva esta casa, que tens nela a sepultura de teus pais e avós.

Se alguma vez voltares aqui, e tua prima for viva, estima-a, em paga dos-carinhos que lhe fico devendo, e do beijo de filha que ela me há-de dar quando eu expirar em seu seio. Aqui te lança sua derradeira bênção a tua boa mãe, Eulália.

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