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Amor de Salvação

Camilo Castelo Branco

XVII

Encerrou-se Afonso por espaço de oito dias, inconsolável aos afagos de Palmira.

Os amigos, seus sécios de vida viciosa e soberba de sua culpa, e contubernais logrativos das suas dissipações, enfureciam-lhe o tormento do remorso. Furtava-se à vista deles, fechando-se, quando vinham, com o semblante composto de falso compadecimento, lembrar ao amigo, em luto de oito dias, que um homem de razão clara tinha obrigação de ser superior a sofrimentos-comuns e naturalíssimos, tais como a morte de uma mãe.

Palmira ia ao salão receber os pêsames e combinava-se com os cavalheiros admirados da pusilanimidade de Afonso. "Eu sofro muito", dizia ela a D. José de Noronha, alquebrando o rosto em desconfortada pena, "ao ver que a minha solicitude consoladora nada pode com. Afonso. O coração da mulher que renunciou à satisfação do dever e se imolou aos caprichos transitários de um homem deve também renunciar ao poderio de desviar de uma sepultura os olhos dele. Assim se é castigada, quando se é culpada como eu." A tais razões proferidas com os olhos no tecto, respondia D. José de Noronha: "Eu

hei-de acreditar que Afonso deixou de amar apaixonadamente V. Exª quando ele se confessar um monstro e a honra for banida neste mundo. Eu só compreendo o esquecimento da honra quando é preciso sacrificá-la a uma senhora como V. Exª. Ainda bem que há uma só, para se não adjurarem os seus deveres sociais." Ora o estilo de Afonso - digamo-lo de corrida - era muito mais lhano e correntio.

O filho de Eulália, passado o primeiro mês de luto, disse com suaves maneiras a Palmira que o seu ânimo estava passando por estranho reviramento, no tocante a prazeres falsos do mundo; que resolvia diminuir as suas relações e as suas superfluidades; que tencionava ocupar algumas horas na leitura, em que felizmente Palmira o acompanharia, revivendo a sua esquecida afeição aos livros; que aceitava como inspiração de sua santa mãe o desapegar-se de regalos vãos, deleites de mera vaidade, que perdem seu sabor ainda antes de se acabarem; finalmente concluiu Afonso:

"Vivamos como amantes que dispensam serem admirados para serem venturosos." Palmira sorriu e disse:

- Bem sei... bem sei, Afonso.

- Que sabes tu? - perguntou brandamente o moço. - Diz o que sabes, minha amiga.

- Compreendo a mola oculta do teu novo programa de vida... É o cansaço..- Já me chamas tua amiga. A mulher que ama, quando lhe dão tal nome, sabe que é coisa de pouca monta para quem lho dá. Fala-me claro; sentes o entojo de impressões novas? As cartas de tua prima é que levantaram em teu espírito essas poeiras de tardia virtude? Nada de refolhos, Afonso. A minha opinião é que nenhum de nós se constranja. As peias, impostas mesmo pelo dever, são um infortúnio muito bem conhecido. Fazes-me pena, se o experimentas. Amas tua prima, Afonso?

- Não amo minha prima - respondeu serena e pacientemente o moço. - Se amasse Mafalda, decerto não estaria ao lado de Palmira. Estimo-a como irmã; respeito-a religiosamente hoje, por saber que o último alento de minha mãe o recebeu ela nos lábios... Porém, que tens tu com minha prima? Que injustas referências são essas que continuamente lhe estás apontando? Que mal te fez a triste menina, que vive e morrerá sem outro prazer senão o da sua virtude mal remunerada neste mundo?

- Virtude!... -interrompeu Palmira franzindo os lábios no sorriso de ironia injuriosa. - Sempre a virtude de tua prima em campo para contrastar naturalmente os meus vícios M. Pouquíssima generosidade é a tua, Afonso!... Terei eu de ouvir ainda de tua boca o libelo e a condenação das minhas culpas?! Pode ser, pode ser, e eu envelhecida pela experiência de poucas semanas, não terei de que espantar-me.

- Ofendem-me as tuas injustiças-redarguiu Afonso sofreando a impaciência-Que

direito te dou para tanto?

- Direito? Queres, por acaso, dizer-me que estou em tua casa?

- Essa pergunta é aviltante, Palmira!... Onde está a tua inteligência, a tua crítica e, propriamente, a tua vaidade? - redarguiu Afonso de Teive. - Desconheço-te, estás a descer sem impulso estranho...

- A descer da tua consideração?-acudiu ela ressabiada.

- Quem o duvida? A mulher de alma nunca faz semelhantes perguntas a um homem como Afonso de Teive. Queria eu dizer que não te dava direito, ou causa a ofender-me.

- Bem! - tomou ela, amaciada a voz com falso acordo. - Aceito a explicação.

Perdoemo-nos reciprocamente e sejamos... amigos, sim?

- Como tu feriste ironicamente a palavra amigos!...

- É que me não toa bem nos ouvidos do coração - replicou Palmira risonha, chegando a face aos lábios do moço, que a beijaram friamente.

- Enquanto ao teu novo traçado de vida - volveu ela -, queres que se cumpra, em rigor, como está ordenado, sim?

- Ordenado não é o termo próprio. Consulto-te, expus em breve as minhas razões; mas se te despraz...

- Apraz-me tudo que te contenta, meu Afonso. De hoje em diante reformam-se os nossos costumes. Vendem-se os trens? Traspassa-se o camarote? Vamos habitar uma casa modesta... Queres, Afonso? Também eu.

Não escapou a Afonso o tom irónico de tais perguntas. Caiu em si de repente, e viu-se em começos de castigo. Apagaram-se muitas luzes do altar em que ele tinha o belo barro idolatrado. Fugiram-lhe para sobre o túmulo de sua mãe os olhos da alma e viram Mafalda de joelhos na lajem da capela com face apoiada no mármore do jazigo.

As luzes restantes do altar ficaram para lhe mostrar o odioso da mulher de Eleutério.

Às perguntas retrincadas não respondeu Afonso... Ergueu-se e saiu do seu quarto.

Refugiou-se no mais recôndito do palácio, para chorar a salvo do oprobrioso sorriso de

Palmira. Depois voltou ao seu escritório e escreveu a Mafalda esta carta, significativa de

mudança temporária, se não fundamental, em seu espírito:

Prima Mafalda. Vai ao pé do túmulo de minha mãe e repete-lhe as palavras desta cana. A justiça de Deus esmaga-me. Sou eu que vergo debaixo do fardo de afronta que levantei da lama com minhas próprias mãos. O arrependimento dos desvarios da mocidade não costuma atalhar tão cedo a carreira dos grandes desgraçados. Fere-me Deus tão cedo!, é porque me quer desatar deste jugo de infâmia. Auxiliem-me as orações de minha mãe, que eu sou fraco. Venham golpes de desengano, bem pungentes, para que se faça o dia da razão em minha vida. A aurora deste dia já aponta; mas o meu coração ainda está envolvido em trevas e cheio de amargura. Santas devem ser as tuas orações, Mafalda. Eu dobro o joelho ante a memória de nossa mãe, ouso invocar a sua intercessão no Céu; sei que a alma bem aventurada não repele o mau filho que a crucificou nos últimos anos, quando me ela pedia seio onde encostar as suas cãs.

Mafalda, anjo solitário, que vês com os olhos puros as estrelas da nossa infância, ora por mim, dá-me a tua piedade, que nenhuma outra me dá este mundo. Escreve-me, diz ao teu vulnerável pai que me escreva. Lembra-lhe as pardieiros das Taipas... Diz-lhe que o neto de Cristóvão de Teive sente já no coração o corroer das úlceras que carcomeram a pele do emparedado. Amai-me ambos, defendei-me de mim próprio, que o esteio da religião não pode com o peso de meus desatinos. Teu primo, Afonso..

Mandou Afonso lançar a carta na caixa postal.

Um quarto de hora depois, entrava Palmira, fremente de raiva, com a carta aberta exclamando:

- Isto é uma grande miséria e uma grande infâmia, Sr. Afonso de Teive! A minha dignidade vem pedir que esta afrontosa carta seja reformada.

Afonso lançou mão da carta e recuou horrorizado da vilania de Palmira. Secou-se-lhe a garganta e lábios ao queimar de um hálito de cólera que lhe calcinava o peito. Não pôde falar. Saiu do quarto, chamando a brados o criado a quem incumbira a remessa da carta. Já não era criado de Afonso o miserável que vendera o sigilo do seu amo pelo ouro dele mesmo; fugira bem remunerado. No entanto, Palmira esbracejava de sala em sala, soltando gritos pavorosos. Afonso, congestionadas as fontes de sangue, e o coração em arrancos no peito, fincava os dedos nas carnes da face, tapando os ouvidos para não ouvir os clamores da mulher cuja fúria recrescia à proporção do desprezo com que os próprios criados lha escutavam.

Afonso de Teive saiu aforrado como quem foge; foi lançar a carta por sua mão; divagou horas no mais desfrequentado dos arvoredos do Campo Grande. Aí sentiu orvalhos do céu esfriar-lhe o afogo da febre. Olhou ao céu com as mãos erguidas, e disse: "Oh, minha mãe!" Ao cair da noite, voltou a casa, e viu no pátio o gig de D. José de Noronha. O seu lacaio particular, antigo criado de sua mãe, acercou-se cautelosamente dele e disse:

- Fidalgo, não se aflija... Tenha ânimo, fidalgo, e não deixe fazer o ninho atrás da orelha.

O chulo da frase ofendeu-o, e a intenção misteriosa ainda mais.

- Que queres dizer, animal? - perguntou Afonso.

O criado coçou-se, fechando os olhos, e respondeu:

- Lá em cima está o Sr. D. José de Noronha.

- Que tem isso? Não o tens aqui visto tantas vezes? Responde.

- Tenho, tenho, e Deus sabe se cá por dentro me não tem dado guinadas de lhe partir na cabeça o gig.

- Porquê? Vem cá... Entra nesta loja comigo... Fala claro! - dizia Afonso com sufocada veemência. - Que desconfias tu de D. José?

- Desconfio, fidalgo, que a Srª D. Palmira não é fiel a V. Exª.

- Mentes!, mentes! - bradou Afonso. - Prova-mo, senão mato-te.

- Não há-de matar, se Deus quiser. Sr. Morgado - volveu tranquilamente o Tranqueira, nome que merece ser lembrado. - Faz favor de tomar ar e ouvir com sossego. Estes negócios hão vão assim de afogadilho. Dê tempo ao tempo.

- Não é tempo ao tempo, é já, imediatamente. Diz o que sabes, Tranqueira, que se me fende a cabeça.

- Fidalgo, aí vai o que sei. O criado que fugiu esta manhã, sem que eu lhe pudesse pôr os dez mandamentos, foi cá metido pelo lacaio da senhora e era lá muito colaço dela. Uns dias por outros, pisgava-se do serviço o rapaz, e andava por lá quatro horas.

Antes de ontem, tirei-me dos meus cuidados e fui-lhe na pista muito à socapa. Levei-o de olho até à Rua de Santa Bárbara, e lá esgueirou-se-me. "Querem vocês ver que o Diabo as arranja?", disse eu cá cos meus botões. "Estará ele metido em casa de D. José de Noronha?" Meu dito, meu feito! Dai a menos de três credos saia o malandro de casa do tal suplicante, e vinha, anda que anda, por ali fora. Saí-lhe eu de uma travessa e disse: "Tu de onde vens, António?" O patife engasgou-se, e nem pra trás nem pra diante. "Tate!", disse eu, "aqui há tratantada. Se ele fosse a coisa boa, dizia-o." Pus-me a considerar no que havia de fazer. "Eu, se lhe digo que o vi sair de casa de D. José, espanto a caça, e fico por mentiroso, dizendo o que vi a meu amo! Que hei-de eu fazer?

Embucho o que sei; tomo à minha conta espreitar a ama... - a ama!, que a leve o Diabo, que quem me paga é o fidalgo-, espreito, e se pilho a melgueira em termos, esbarronda-se o negócio, e meu amo dá cabo deste ladrão que o veio desonrar a sua casa."

Afonso, além da voz do Tranqueira, ouvia um zunido e fisgadas dentro do crânio, como se lá se contorcesse e mordesse o cérebro um enxame de vespas.

O criado continuou:

- Antes de ontem à noite apareceu aqui o D. José. Fui em palmilhas atrás dele. Vi-o entrar na sala do tapete azul, e retirei-me assim que vi V. Exª entrar também com a senhora. Desde então não tornou cá senão agora; mas como lá está com ele outro amigo, acho que não tem dúvida, e por isso vim para aqui esperar o fidalgo. Aqui está o que eu sei, meu amo. Bote lá as suas contas, e deixe-me dar uma carga de lenha no tal menino, se for preciso.

Afonso pôs a mão direita sobre o ombro do Tranqueira e disse:

- Obrigado, teu amo agradece-te os cuidados que tens com a sua honra. Recomendo-te que não digas uma palavra a tal respeito. Ouves, Tranqueira?

- Então isto fica em água de bacalhau? - perguntou o criado, abrindo e fechando as mãos.

- Já disse, nem uma palavra. Os teus cuidados agora passam para mim.

- Bem me fio eu nisso!-murmurou à lacaio na ausência do amo.

Afonso entrou no seu quarto; viu-se a um espelho; espetou que o rubor da excitação se descorasse, compôs o semblante e passou à sala onde estavam Palmira, D. José de Noronha e um particular amigo deste.

Palmira, no sofá, tinha os braços em cruz sobre o seio e a face inclinada sobre eles. D. José de Noronha folheava sobre a jardineira as Mulheres, de Walter Scott. O amigo estava sentado na poltrona contígua ao sofá. Cortejou Afonso os dois cavalheiros, depois de estender a mão a Palmira, com tão demasiada cerimónia que lhe não roçou as pontas dos dedos. Esta acção, depois da luta da manhã, pareceu naturalíssima à esposa de Eleutério. Depois, achegou-se serenamente de D. José, observou a Piora Mac-Ivor do romancista escocês, concordou com D. José na primazia da gentileza desta heroina, disse poucas mais palavras, e pediu licença para recolher-se, obrigado por uma fortíssima enxaqueca. Tudo isto com um natural irrepreensível.

Entrou Afonso no gabinete de Palmira. Havia ali uma secretária de mogno, com espelhos, cravejada de gavetinhas moldadas pelo feitio dos antigos contadores. Tiradas as gavetas da primeira série, encontravam-se uns falsos de segredo, conhecido dele, que fora o primeiro possuidor da engenhosa alfaia. Instigado pela suspeita, tirou Afonso pelos botões da gaveta central: estava fechada, e as duas laterais abertas. Concluiu que a do meio segredava uma revelação. Procurou um ferro jeitoso com que fazer saltar a fechadura: serviu-lhe a ponta de um punhal. Cedeu a frágil lingueta estalando. Tirou Afonso a gaveta, que continha jóias; levou o dedo ao imperceptível botão que abria o falso, e tirou dois macetes de cartas e uma solta. Abriu esta e leu as primeiras linhas.

Uma sombra de dúvida seria estupidez máxima- Dizia:

É preciso cuidado com o lacaio de A. Encarou-me ontem de certa maneira:..

Emprega o nosso António na espionagem de alguma suspeita. Amanhã vai comigo o D. A. M.; se for propicia a ocasião, ele sairá a tempo, etc.

Passou Afonso ao seu quarto para deliberar meditando. Que lance para meditações! Dai a pouco ouviu o rugir das sedas de Palmira. Lançou-se apressado sobre o leito, com a fronte entre as mãos..

- Estás melhor? - disse ela maviosamente.

- Não.

- Cuidei que estarias deitado. Que hás-de tomar, meu filho? - volveu ela,

inclinando-se ao rosto de Afonso. - Que tomas de ceia?

- Nada.

- Estás ainda muito irado contra mim?- replicou ameigando-o.

- Deixa-me, que me custa falar. Vai à sala, se está lá gente.

- Irei, sede nada te sirvo aqui, e de mais a mais te importuno. Ainda lá estão

aqueles maçadores.-. Logo voltarei a saber de ti.

XVIII

Voltou Palmira à sala, e, momentos depois, reapareceu no quarto de Afonso, perguntando se D. José de Noronha e D. António Mascarenhas podiam, não incomodando, visitá-lo. Afonso respondeu, sem alteração, que lhes agradecia o cuidado; mas confiado na amiga familiaridade com que o tratavam e eram recebidos, esperava que o deixassem estar em silencio, a ver se assim a dor de cabeça se mitigava. Palmira entrou bem assombrada na sala e disse a D. José: "Não há que desconfiar. São saudades de Mafalda, rebuçadas nas saudades da mãe."

Entretanto, Afonso, lançando-se do leito, examinava os fulminantes das pistolas...

Seja ele o narrador deste indescritível transe:

"Ao tempo em que eu revocava toda a minha reflexão para definir os actos sequentes ao homicídio, senti no coração uma rija pancada e, para assim dizer, quase apalpei ante meus olhos desvairados o vulto de minha mãe: Depus as pistolas e ajuntei as mãos. Ainda agora me maravilha a passagem rápida da vertigem, em que a minha honra me impunha matas o infame, para a tranquila consideração sobre a ineficácia do homicídio como vingança da perfídia. Atribuo esta mudança inverosímil, segundo a lógica das paixões, a mais forte poder que o da alma humana. Nesta suspensão, pedi ao espírito de minha mãe que me acudisse com o conselho salvador. Não ouvi resposta alguma, nem o meu entendimento concebeu algum desígnio. O que vi foi a imagem de Eleutério, na sala da estalagem de Barcelinhos, no momento em que, lavado em lágrimas, dizia à mulher: "Castigada te veja eu, e Deus me vingue!"

"Eis aqui a resposta da alma bem-aventurada; eis aqui as indiscretas respostas da Providência.

"Entendi que soara para mim a hora da expiação, anunciada pela visão do marido, cortado de angústias, superiores à minha. Faziam-se aceleradas transformações em meu ânimo; todas, porém, estranhas ao primeiro intento de matar. Lembrou-me fugir a ocultas de minha casa e esconder da infame e do mundo a explicação da minha fuga.

Acudia-me logo outra ideia, argumentando contra a miséria daquela. Lembrou-me propor a Teodora a separação, reservando a razão da proposta. Não sei quantos projectos disparatados ou irrisórios se atropelaram na minha pobre cabeça. "Serei eu um cobarde?", perguntava eu logo à minha consciência. Vinha então outra vez Eleutério postar-se ante mim e dizer à mulher, que o fitava com desprezo: "Castigada te veja eu, e Deus me vingue!"

"Desligado da menor premeditação, assaltou-me de repente uma ideia, cujo alcance e desfecho eu não me curei prever. Tirei dos bolsos as cartas de Palmira, encontradas no segredo da secretária, e dirigi-me à sala. Ao sair da porta do meu quarto, vi um vulto a sumir-se na extrema do corredor. Estuguei o passo e o vulto parou. Era o meu criado Tranqueira. Perguntei-lhe o que fazia ali. "Estou de plantão", respondeu ele.Ainda agora, ou agora verdadeiramente, é que eu posso rir da resposta e admirar o homem que a deu. Inclinou-se ao meu ouvido e continuou: "Como dei fé que o patrão se deitou, não quis deixar o negócio ao deus-dará: é o que foi". "Entrei na sala a passo mesurado, e quase a súbitas. Estava D. José ao lado de Palmira na mesma otomana. D. António folheava as Mulheres, de Walter Scott. Palmira estremeceu ao ver-me assomar debaixo do reposteiro. D. José, embrutecido pela surpresa, não se moveu dá posição denunciante da extrema familiaridade. Em minha presença, nunca ele se sentara a par de Palmira no mesmo estofo. Voltando a si da estupefacção de momentos, ia levantar-se, quando eu lhe disse:

"Não se incomode, Sr. D. José de Noronha. Está bem. Os meus amigos em minha casa são os donos dela.".

"Essas maneiras esquisitas, Afonso...", tartamudeou D. José, enquanto Palmira,perplexa ainda, manifestava sua dúvida no abrimento da boca e esgazeado das faces.

"Não respondi à banal reflexão de Noronha. Voltei-me para D. António e disse-lhe: "O Sr. Mascarenhas é de mais aqui. Se for propícia a ocasião ele sairá a tempo - diz a carta do nosso amigo D. José. V. Exª devera já ter saldo."

"Relanceei de revés um olhar a Palmira. Vi-a sobressaltada e lívida, agitando-se em convulsos movimentos, sem todavia se erguer do sofá. D. José erguera-se, apoiando-se ao espaldar de uma cadeira. D. António encarava-me com ares de pavor. Eu continuei: "A figura do Sr. Mascarenhas neste quadro é de mais. Queira sair."

"Eu vou com D. António", disse o Noronha. "Ele que o espere na rua", respondi, voltando levemente a cabeça sem o encarar.

"D. António tomou o chapéu com presteza, baixou a cabeça a Palmira e saiu, cortejando-me.

"A mulher da estalagem de Barcelinhos voltou ao corpo de Teodora. Ei-la em pé, com a serpente da soberba a enfuriar-lhe os gestos.”

"Que significa isto?", exclamou ela. "Acabemos esta situação sem grandes cenas! Que vem dizer-me o Sr. Afonso?"

"Confessarei que me senti pequeno diante deste cínico interrogatório! Que havia eu de responder à mulher que rebatera com escárnio e arrogância as moderadas agressões do marido? Com que direitos ia eu ali, desonrado, pedir contas de sua e minha honra, a ela, que estava perdida? E a infâmia era comum de ambos, porque ambos éramos criminosos. Que falsos brios tinha eu por mim a inspirar-me uma resposta digna daquelas perguntas? Somente assim posso agora dar-me conta da minha mudez de então.

"E ela, acoroçoada pelo meu espantado silêncio, prosseguiu: "Abjurei dos deveres da honra, perdi-me, atirei-me cegamente aos seus braços, Sr. Afonso de Teive. Satisfiz os seus caprichos, favoreci-lhe o orgulho de ter uma odalisca no seu palácio, prestei-me a enfeitar de falsos risos o meu semblante, mostrei-me ao mundo com o ar alegre da escrava que idolatrava a sua servidão, enquanto o Sr. Afonso, enlevado nos ideais amores de uma prima...

"Infame", atalhei eu. "Se tem de citar nomes de mulheres no seu arrazoado, procure-as, se as conhece, nas derradeiras paragens do vicio!... Não suje o nome de mulher alguma; toda a mulher, não caída na última abjecção, impõe respeito à amante de D. José de Noronha, hospedada em casa de Afonso de Teive."

"Bem!", exclamou ela. "A amante de D. José de Noronha agradece a hospedagem, promete mesmo pagá-la da altura da sua independência e vai sair, impondo silêncio ao insultador."

"Pois saia" tornei eu, "mas leve consigo o esterco com que sujou a minha casa!" E, dizendo, atirei-lhe ao rosto os macetes das cartas.

"Palmira, como se um áspide lhe mordesse um pé, deu um salto de fera enjaulada. D. José de Noronha tremia.

"E eu continuei, voltado contra ele: "A infâmia é assim; tem esses desmaios de cobardia, que desarmam o ódio e levariam à piedade se o nojo não estivesse aquém da virtude da compaixão. Sr.a D. Palmira, aqui tem um paladino, que a não há-de deixar corar sem desforço diante dos seus insultadores. Siga-o. Tem uma sege às suas ordens, se o pudor lhe não permite entrar no carro do amante. Enquanto ao Sr. D. José de Noronha, saia, e espere-a na rua."

"Palmira fugiu da sala em arremetidas de louca, D. José saiu com o rosto abatido sobre o peito. E eu caí extenuado sobre uma cadeira, cuidando morrer ali afogado de congestão de sangue no coração. Daí a momentos ouvi o gritar estridente de Palmira e

um grande reboliço no pátio. Quis debalde levantar-me. As pernas tremiam-me como se todos os nervos me estivessem golpeados.

"Abaterei agora a linguagem trágica do sucesso para te narrar o que se passava no pátio.

"O Tranqueira, posto de plantão, como ele dissera, não saiu da saia de espera, ou do próximo corredor. Momentos antes da saída de D. José, descera ele ao pátio. Quando o aturdido infame ia passando, saiu Tranqueira do seu quarto com a lanterna do serviço das cavalariças. Avizinhou-se de D. José, meteu-lhe a luz à cara e disse-lhe: "O fidalgo, se me não engano, leva a sua pontinha de febre!... Acho-o muito vermelho; e não será mau refrescar-lhe a cabeça." Disse, depôs a lanterna, sobraçou-o pela cintura, fincou-lhe a mão esquerda no gasnete, levou-o de borco sobre a cisterna do depósito de à gua para os cavalos e baldeou-o dentro exclamando: "Há-de ir fresco, há-de ir fresco, seu alfacinha!" Os outros criados ainda quiseram valer-lhe; mas Tranqueira desfizera-se do jóquei de D. José, rechaçando-o com um pontapé tangido por fúria digna de melhor adversário, O desgraçado caíra de cachapuz e lograra logo romper com a cabeça à flor de água; mas do pescoço abaixo ficou empoçado, sem poder marinhar aos bordos da cisterna, à mingua de pega onde poder fincar as unhas. O instinto da vida vencera o da vergonha. D. José gritava, e o Tranqueira, dando-lhe as boas-noites, fora para a cavalariça raçoar os cavalos. Os brados chegaram aos ouvidos de Palmira, a tempo que o jóquei se erguia do pontapé que o desintestinara, para, muito a custo, acudir ao amo.

Desceu Palmira ansiada ao pátio, no momento em que o eleito de sua alma, na boca da cisterna, sacudia as bicas de água e tiritava estalejando as maxilas.

"Fulminou-a o ridículo! Só o ridículo podia soçobrar aquela alma de têmpera,feita para reagir a todos os embates. Retrocedeu do portão para o escuro do pátio. Nem a comiseração lhe deu alentos para se aproximar do ensopado moço. Odiou-lhe talvez a cobardia naquela hora. Odiou-se talvez a si própria. Não sei. Avisaram-me que ela estava prostrada, e sem sentidos, no lajedo do pátio. Dei ordem às criadas que a transportassem ao seu leito. Minutos depois, abandonei a minha casa, levando comigo o criado que me vira nascer, o único homem diante de quem eu podia chorar.

XIX

"No dia seguinte, mandei de Sintra o criado a casa, informar-se dos sucessos decorridos... Querenas tu... agora penso que tu desejas saber como foi aquela minha noite... Passei-a na ida para Sintra. Quer-me parecer que parte de minhas faculdades morais ia atrofiada. Volteavam em redor de minha inteligência uns corpos, ora negros como o recesso dos abismos, ora ígneos como as fitas dos coriscos. Nem a memória de minha mãe se mesclava ao revolutear das minhas concepções desconsertadas. Era a febre, a procela do sangue encapelada na cabeça. O criado teve o instinto de compreender-me. Raras palavras me disse com resposta. Algumas vezes senti-me aferrado pelo seu braço; era quando eu ia despenhar-me do cavalo, sem dar tento da vertigem.

"Contava-me ele depois que eu, a intervalos longos, expedia gritos que lhe eriçavam os cabelos e vociferava insultos, esporeando freneticamente o cavalo.

"Aqui tens a minha noite: não tenho outras memórias. Apenas me recordo que aos primeiros assomos da manhã se romperam os diques das lágrimas, e chorei por muito tempo.

"O criado partiu de Sintra com ordem de colher noticias. Voltou, entregando-me um papel aberto que o escudeiro lhe dera, escrito por Palmira. Era uma declaração de divida indeterminada, ou que havia de fixar-se pela avaliação dos objectos de seu uso, que ela, ao sair de minha casa, levava consigo. Deviam ser vestidos e jóias. Palmira, portanto, havia saído na manhã daquele dia.

"Ao entardecer, quando a tristeza caia do céu, como um luto de almas não já desditosas, mas ainda raiadas do íris da esperança, confrangeram-se-me em dor inefável as fibras do coração, dor de saudade voracíssima, saudade de Palmira, desejo ardente de vê-la, não sei se para cair-lhe de joelhos aos pés, se para escarrar-lhe no rosto. Nenhum alivio pedido a todas as potências de minha imaginação, pedido a Deus, e ao amor de minha mãe, nenhum conforto experimentei. Era a desesperação, que pensa no suicídio.

Deitei-me, confiado na esperança de cair em letargia de sentidos. Revolvi-me sobre espinhos em incêndio febril. Se algum instante o sopor me desfalecia, pulava-me o coração com tamanho ímpeto que eu espertava convulso, atirando-me do leito contra a janela, em agonias de estrangulado. O máximo horror das minhas visões era ela, nos braços daquele miserável, àquela hora. As mínimas circunstâncias de um espectáculo de devassidão, as mais secretas e lúbricas minudências se me traçavam patentes a uma claridade infernal. A oração, esse divino desabafo de enormes aflições. nem esse bem me valia um relâmpago de sossego à alma. Começava orando, a ansiedade recrescia, a fé desamparava-me, e então sobrevinha o desprezo de Deus, a negação da Providência e um feroz deleite de blasfemar. Eu amava a mulher abismada, a mulher prostituída! Eu, Santo Deus, com instintos tão nobres, educação tão religiosa e respeitos tão profundos à dignidade! Pensava-o eu assim; dava-me eu então os epítetos usurpados à honra!... Eu que me enfatuara perante o mundo de acorrentar à minha vaidade a mulher formosa, em cuja fronte a moral escrevera um estigma, que eu cobria de brilhantes e flores, cuidando que a sociedade havia de respeitá-la assim, e humilhar-se diante da minha afrontadora opulência! Eu, ver-me esmagado, ousar pedir contas a Deus da iniquidade do seu arbítrio, e renegá-lo como ente inútil ao remédio da minha desgraça!...

"Mal me entreluziu a manhã, fiz aparelhar os cavalos e voltei para Lisboa sem propósito feito. Durante a caminhada, o meu velho Tranqueira, enquanto as cavalgaduras se desfadigavam, acercou-se de mim com os olhos envidrados de lágrimas e disse a medo: "Meu amo, vamos embora de Lisboa; vamos para a nossa terra, que.Deus e a Virgem Maria dará remédio." Não respondi; mas pensei. A quietação da minha aldeia convidava-me; porém, entrando em espírito no interior da minha casa de Ruivães, ouvia com pavor o som dos meus passos naquelas salas desertas; faltava-me minha mãe ali; o anjo consolador fugira antes do meu resgate. Acudia-me à lembrança a minha triste Mafalda, a irmã terna, a meiguice da virgem compadecida; porém, o meu coração, a porejar o esqualor da sua hedionda chaga, rejeitava os bálsamos de um afecto purificador.

"O tumulto das grandes cidades, com o seu engodo atraente da desordem da vida, quadrava mais à alma sedenta de não sei que filtros de lágrimas e sangue. Estava traçado o meu plano, quando cheguei a Lisboa. Qualquer resolução sacode o mais paralisado espírito. Senti-me forte para entrar em minha casa. Fui ao gabinete de Palmira e abri as suas gavetas despejadas de todas as coisas de algum valor. A minha razão logrou um momento de lucidez: afigurou-se-me rasteira a índole de uma mulher que, em conflito de tamanha vergonha, tivera ânimo para se andar por suas próprias mãos enfardando vestidos e enfeites, no intento de vestir as galas sedutoras de amantes novos. Refugi como envilecido dos aposentos de Palmira. Fui ao meu quarto. Fiz encaixotar as minhas roupas. Guardei a correspondência de minha mãe e de Mafalda.

Queimei os restantes papéis, excepto as cartas de Teodora das Ursulinas. Porquê? Nem eu sei. Queria aquelas memórias da criança que então morrera...

"Chamei os criados e despedi-os. Mandei fechar as portas ao meu Tranqueira e,

nesse mesmo dia, expedi ordens para a venda de carruagens, cavalos e mobília. Alguns amigos conseguiram rastrear a minha residência obscura num hotel inglês em Buenos Aires.

"Procuraram-me, e eu não os recebi. A minha vaidade envergonhava-se deles. Nem a despedaçadora curiosidade de saber o destino de Palmira pôde vencer o orgulho

escarnecido.

"No fim de nove dias, recebi carta de Mafalda, respondendo à minha. Ei-la aqui: Ambos te queremos do coração, Afonso. Meu pai não diz a teu respeito palavra de censura: chama-te infeliz, e mais nada. Quando tua mãe dizia em ânsias: "Perdi meu filho!", o meu bom pai ajuntava sempre: "Ele virá, minha irmã, que a sua índole é boa." Mostrei-lhe a tua carta, e vi-o chorar; pedi-lhe que te escrevesse, e. ele disse-me:

"Escreve-lhe tu, com a bênção de teu pai; diz-lhe que o amas sempre: eu dou-lhe o amor da minha Mafalda, consinto que ela o ame; é o mais que posso dar-lhe". Estas palavras escrevo-as por sua ordem, e desconfio que são inúteis para a tua felicidade.

Ainda assim, em quereres a nossa amizade, primo Afonso, nos dás grande satisfação. Vejo que vives muito amargurado, desde que morreu a nossa chorada mãe. Se te mortifica o pesar de não ter vindo assistir-lhe à morte, tranquilize-te a certeza de que ela te perdoou. Bem sabes que santinha e que mãe ela era. Eu fui ler à beira da sua sepultura a tua carta. Li-a em voz alta, cortada de gemidos. Depois orei muito, e levantei-me de ao pé dela tão desoprimida e satisfeita que tomei por instinto do Céu a minha alegria. Pode ser que esta carta vá encontrar-te no gozo do alívio que eu senti então.

Bom seria, meu primo, que tu mandasses cuidar um pouco nos negócios de tua casa. Meu pai faz o que pode, e dirige o teu procurador; mas receia de não zelar os teus interesses como queria por falta de saúde e pela distância em que vivemos de Ruivães.Adeus, meu querido irmão. Cuida em ser feliz e lembra-te com amizade da tua Mafalda.

"Respondi logo a esta carta, participando a minha prima que ia sair para Paris, no propósito de assentar ali a minha residência. Expressões afectuosas escassamente lhe disse as vulgares, as necessárias à formalidade de relações entre primos que se estimam.

E que eu via em mim o aviltado homem que estava sendo, e de Mafalda mesmo tinha eu um certo pejo, vaidade ainda, a vaidade do homem que se julga desapreciado aos olhos de uma mulher, que o vê rejeitado de outra, embora vilíssima, embora repulsada da sociedade de mulheres aptas para honestamente avaliarem o merecimento do homem desprezado. Eu não queria nem podia, coberto de infâmia por Palmira, ir acolher-me ao amor de Mafalda. E depois, e sobretudo, meu amigo, bem que eu quisesse, não poderia amá-la então como a teria amado quinze dias antes, insuspeitoso da lealdade de Palmira.

Sabem os experimentados, poderás tu sabê-lo, que é uma excepção de almas fúteis a passagem rápida de uma afeição a outra quando nos pesa o opróbrio de uma perfídia. O coração está lanhado, a fronte não ousa erguer-se para a mulher do amor de salvação, a dignidade geme sob o peso de vilipêndio, que cuidamos ler nos olhares afrontosos de todo o mundo, olhares que por vezes exprimem compaixão. Mas o que é em casos tais a piedade, senão injúria?!

"Escrevi ao meu procurador ordenando-lhe a venda de todas as minhas propriedades, salvando a casa e quinta de Ruivães. Na volta do correio, avisou-me ele de que havia comprador pronto; e, poucos dias depois, recebi ordens de pagamento de trinta mil cruzados. Com estas ordens, vinha carta de meu tio Fernão de Teive. Dizia assim:

Tua prima está enferma, por isso te não escreve; e eu, também adoentado e tristonho, mal posso escrever-te. Recebemos a nova da tua mudança para Paris. Vai com Deus, Afonso. Pode ser que a tua felicidade lá esteja. Folgo de te ver ir desligado da personagem que, segundo me dizem, foi afinal o que era rigoroso que fosse. Diante da mulher perdida todos os homens são iguais. Quereres tu o privilégio que o marido não teve seria um absurdo do teu orgulho. Teodora está em Braga promovendo o divórcio a fim de levantar-se com o seu património. O Eleutério, por intervenção de um meu compadre, quis que eu entrasse como ouvinte e conselheiro em suas coisas. Aceitei o convite como quem tem pouco que fazer, e passa as suas horas na cama a agasalhar a

gota. Sou o depositário do borrador das cartas que ela te escrevia, sedutoras em verdade, e dignas de irem à estampa. Onde foi esta mulher aprender tanta palavra?!

Estou em dizer que anda aqui muito amor de dicionário; e os sucessos posteriores levam-me à crer que era ainda pior o amor da criatura. Aqui estou eu a falar contigo à laia de rapaz! E o caso é que a dor do calcanhar esquerdo espalhou.

O teu procurador avisa-me que vendeu as tuas quintas de Leirós e Gestal. Para te não dizer coisas tristes, e evitar que torne a dor do calcanhar, ponho aqui ponto. Mas sempre te direi, como irmão de tua mãe e teu amigo deveras, que. exaurido o teu património, tens a minha casa. Se eu morrer - e ainda bem! - antes desse dia (dia, talvez. inevitável!), deixarei dito a Mafalda que seja sempre o que tua mãe e eu fomos para ti: o coração devotado sem condições. Adeus. Quando tiveres vagar, escreve-me de Paris. - Teu tio, F. de Teive.

"Alegrou-me a nova da ausência de Palmira de Lisboa. O dragão do ciúme desencravou-me as garras do peito. Que estúpida alegria! A suspensão da perfídia que importava ao desagravo do meu orgulho? Quão lastimáveis e ridículos somos, se uma vez perdemos o norte da legitima, da decente probidade! Nenhum liame de sã moral resiste a cancro do coração. Até o regenerarmo-nos tem para nós um certo ar de baixeza de ânimo, cena de comédia que faz rir o mundo.

"E eu, ansioso de um mundo novo, fui para França. Que cuidas tu que eu ia procurar em França?"

- O método mais fácil de gastar os trinta mil cruzados - respondi eu.

- Não me lembravam os trinta mil cruzados; ia procurar uma mulher; ia procurar o amor de salvação.

- E encontraste-o em França?

- Encontrei.

- Vejamos.

XX

No oitavo dia de residência em Paris, Afonso de Teive não sabia que fazer da sua pesada inércia. Fechado no quarto de um hotel, ouvia os estrondos da Babilónia e suspirava pelos silêncios da sua aldeia. Apresentara as cartas de cavalheiros de Lisboa na Embaixada portuguesa, recebera a visita dos compatriotas distintos em Paris e convivera nos primeiros dias em bailes, teatros e jantares. Saciou-se prestes aquela contrafeita sofreguidão de vida, e logo uma súbita e glacial atonia lhe enegreceu os prazeres almejados de longe, como iniciação para outros que inteiramente lhe obliterassem da memória as dores passadas.

E, no termo de oito dias, uma consolação única lhe restava: era o antegosto de voltar à casa deserta de Ruivães e esperar ali ao lado do jazigo de seus pais o breve termo de sua irremediável tristeza.

Afonso, porém, tinha vinte e quatro anos. A natureza contramina estas renunciações imtempestivas. Uns repentes impensados sacodem a alma de sua modorra e a sobreexcitam a desejos vagos, bem que efémeros. A matéria não é um impassível envoltório de corações entorpecidos. E preciso que a vida sensitiva se amorteça antes da actividade moral para que as paixões malogradas vinguem o total quebranto do homem.

Entrou Afonso na sociedade, levado pela mão da esperança, que prometia guiá-lo ao pé da mulher salvadora. Mal encaminhado ia aos salões de Paris. Os conhecedores daquele "mundo" contaram-lhe as histórias de cada mulher que tinha ares de poder salvar alguém; no geral eram criaturas que procuravam quem as salvasse das incertezas do futuro pelo casamento justificado e santificado com algumas centenas de milhares de francos. Estas eram as filhas dos generais do império, as filhas dos estadistas em começo

de fortuna, as filhas dos gentis-homens cujos apelidos contavam sua antiguidade de Carlos Magno para além. E todas estas meninas, esperançadas em salvação e em requesta de salvadores, quando encaravam no vulto melancólico de Afonso de Teive, imaginavam-no um galante moço que, ao contemplá-las, dizia magoadamente entre si: "Se eu fosse rico!..." Elas, olhando-o de soslaio com discreta reserva, diziam: "Se tu fosses rico!..."

Quando Afonso tomou a peito rectificar este juízo dos seus amigos, avizinhou-se das mais aureoladas do azul-celeste da inocência e averiguou que as mais singelas à vista eram as que menos a ponto falavam, em termos rigorosamente aritméticos, de fortunas deslumbrantes, de casamentos projectados. E se ele, com a portuguesa e bendita poesia dos nossos amores de sala, aventurava algumas frases de idílio sobreposse, as ligeiríssimas criaturas ouviam-no distraídas, como, no teatro, ouviriam música de Donizetti, e encheriam de melodias a alma, enquanto assestavam o binóculo no filho do banqueiro.

Compreendeu logo Afonso de Teive que não servia à alta sociedade parisiense.

Um forasteiro que vai a Paris com trinta mil cruzados e deixa na Pátria uma quinta que valeria menos de metade daquela quantia improdutiva deve contar que no caminho do hotel aos teatros e salas, aos festins e concertos, em menos de dois anos, com alguma parcimónia nas despesas, se lhe hão-de escoar as últimas mealhas. Os haveres de Afonso, postos à disposição da filha do marechal do império ou do marques decaído com os Bourbons, dariam uma dezena de toilettes da esposa. Esta dura verdade caloulhe no ânimo, afastando-o do concurso de mancebos que malbaratavam cada mês fortunas sobre-excedente à dele. Penoso desengano às portas do grande mundo onde ele tencionara retemperar o coração ao bafejo das primeiras mulheres da época e da França.

Tinha, portanto, que descer às inferiores camadas, abaixo mesmo da média. Nesta Mais difícil lhe seria o escolher um rosto distinto e uma alma no estado da inocência do anjo; trancava-lhe as portas a cobiça que lá vai dentro, incitando-as a elevarem-se até emparelharem com as invejadas mulheres da classe alta. Ele, cuja razão se alumiara à luz do facho do universo, à luz de Paris, viu-se qual era, correu-se da sua comparativa pobreza e refugiu dos bailes, das ceias e dos concursos em que o seu pecúlio se ia desnervando à custa de sangrias inevitáveis.

Madrugou, um dia, Afonso de Teive, ambicioso de riqueza. Nesta hora, e pelo tempo fora de oito meses, fez-se em seu coração um quietismo espantoso! Descuidou-se do esmero de trajar; era-lhe já como indiferente o reparo da mulher. Vendeu o tílburi e o cavalo. Mudou para hotel menos dispendioso. Traçou plano de batalha à fortuna e entrou no jogo de fundos, onde os felizes, a um relanço de olhos da boa fada, acumulavam enormes cabedais, facto demonstrado por milhares de exemplos.

Foi feliz nos ensaios tímidos, e em pouco. Prosperavam-lhe outros de maior risco.

Cuidou-se bem-fadado para empresas maiores. Vieram as alternativas, equilibrando-se.

Começou Afonso a estudar seriamente os mistérios daquele jogo, com entusiasmo e absoluto menosprezo de tudo mais. Dizia-se ele: "Refaça-se a fortuna, que depois se reconstruirá o coração. Dinheiro, muito dinheiro, para comprar uma alma pura em Paris, onde a raridade tornou caríssimo o género!"

Soçobrado por um revés, perde metade do seu capital. Desanima e esmorece em força moral. Vai a medo à barra do Potosi e crê que está ali um abismo a tragar-lhe o restante e depois a ele. Que fará empobrecido no extremo? Venderá a casa, a quinta, a capela e o túmulo de sua mãe? Lembra-lhe a mãe, e invoca a alma santa a coadjuvá-lo na empresa imoral. A santa infunde-lhe uma insuperável desanimação diante do perigo.

Associa-se a jogadores felizes. Balanceia-lhe a fortuna entre pequenos desastres e pequenos lucros. Ao fim de oito meses, a sociedade quebra, e Afonso de Teive tem de seu algumas libras, e cinquenta que o Tranqueira delicadamente lhe introduz na sua

gaveta, os seus ordenados e economias de muitos anos.

O criado amigo, testemunha das lágrimas e das vertigens, ousa aconselhá-lo que volte para Ruivães e se restaure limitando-se ao rendimento de sua casa. Afonso enfurecia-se contra o criado, exclamando: "Sabes O que é a minha casa de Ruivães?

São quarenta carros de pão cada ano." "E vinte pipas de vinho e uma de azeite", Ajuntou o criado. "Que vale tudo isso?", perguntou Afonso. O Tranqueira fez a conta pelos dedos e respondeu: "Feitas as despesas do granjeio, vale seiscentos mil-réis." "E hei-de eu viver com seiscentos mil-réis por ano!", exclamou Afonso. "Eu, habituado ao luxo, com vinte e cinco anos, com precisão de aturdir a minha existência nos prazeres, que só a muito dinheiro se encontram em toda a parte do mundo!"

O criado encolheu os ombros e disse entre si: "Valha-nos a alma de minha santa ama e senhora!"

Medita Afonso vender o resto do seu património; e para logo lhe ocorrem estas palavras da última carta de sua mãe moribunda: "Dos desbarates e perdimento dos teus haveres, faz muito por salvar ao menos esta casa onde nasceste e a quinta que te dará abundante pão na velhice, se Deus ta der, como tempo de merecer o Céu. Aqui nasceu teu pai, e muitas gerações de santas e honradas pessoas. Salva esta casa, que tens nela a sepultura de teus pais e avós. "

Desfalece-lhe a sacrílega coragem de negar a sua mãe o derradeiro pedido. Mas a necessidade atroz obriga-o a desviar os olhos de um túmulo para enxergar não longe a indigência em Paris, a indigência relativa com as galas do passado.

Estas agonias são as supremas de sua vida. Palmira, a memória da mulher fatal, nem por sonhos ó perturba. Aparelham-se afrontamentos maiores. A vergonha de pobre mostra-se-lhe mais aviltante que a vergonha de atraiçoado. Pensa, sonha, contorce-se,.alenta-se, desmaia, recobra-se, sempre a cismar na reabilitação pelo ouro, na reparação do seu capital; porém, de que modo, sem capital nenhum?... Salvadora ideia!... Escreve ao tio Fernão deste teor:

Perdi-me, perdi o que trouxe de Portugal, estou pobre. Eis-me mais castigado que o padecente dos pardieiros das Taipas. Ele refugiou-se aos quarenta anos, ainda rico do mundo. Eu tenho vinte e cinco anos, a honra perdida, a reabilitação impossível, aptidão para nada, o espírito derrancado no gozo de infames delícias; e, para sustentar esta vida corroída de lepra, resta-me a quinta de Ruivães. Eu sei que a fome não iria lá bater-me às portas, sei que ainda tenho de meu o talher na sua mesa, meu tio, mas Afonso de Teive antes de estender a mão à piedade mesmo dos seus há-de esconder a sua ignomínia num destes cômoros de terra onde os sepultados não têm nome. Minha mãe pediu-me que não vendesse a casa onde está o jazigo de meus avós. Os meus avós são os do meu tio Fernão de Teive. Aqui venho eu oferecer-lhe a minha quinta.

Compre-ma. meu tio, que a vontade de minha mãe está cumprida. Lá fica Mafalda, o anjo, para ajoelhar diante daquelas lápides sagradas. Compre-ma, sendo eu, de mãos postas, pedirei a minha mãe que perdoe ao réprobo, que lhe vendeu os ossos, na véspera do dia da fome. Seu sobrinho, Afonso.

Fernão, lida a carta, em presença de Mafalda, abriu os braços à filha, que parecia finar-se neles. Das ânsias e lágrimas saiu ela com uns gritos aflitíssimos, pedindo ao pai que valesse a Afonso, sem demora. Fernão, carecedor de ser consolado da desgraça do sobrinho, tinha de aquietar o alvoroço da filha prometendo e cumprindo logo tudo que fosse da vontade dela, que era também um dever dele a cumprir já com o parente, já com a memória de sua irmã. Foi instantâneo o contentamento de Mafalda.

- E depois? - exclamou ela. - E depois meu pai, em se lhe acabando o dinheiro da quinta, quem lhe acudirá?

- Nós - respondeu de alegre aspecto o pai.

- Nós? - tornou ela entre alegre e amargurada. - Mas não vê o que ele diz?

- Que diz ele, criança, que diz ele? Lê-me tu o que ele diz...

- Olhe, meu pai.. "Afonso de Teive antes de estender a mão à piedade mesmo dos seus há-de esconder a sua ignominia num destes cômoros de terra onde os sepultados não têm nome." O meu pai entende isto muito bem...

- Entendo: mas não me assusto. A gente há-de pensar; primeiro, o essencial, é mandar-lhe o dinheiro e dizer-lhe que os túmulos de Ruivães, e as casas, e as terras, são dele, como até aqui.

- E aceitará? - replicou Mafalda. - Tomará a dádiva como esmola?

- Ó mulher! - retorquiu o velho -, tu estás uma argumentadora dos meuspecados!... E o mais é que lembras com juízo essa espécie!... O doido é capaz de rejeitar, se eu dou dinheiro e quinta! Pois bem: diga-se-lhe que eu compro a quinta, e mande-se-lhe os quinze mil cruzados, que é o valor da coisa. Vou amanhã ao Porto! O dinheiro está aí. Fico sendo o proprietário de três quintas de Afonso. Cá te ficam, menina. Tu, depois, a teimares no propósito de morrer solteira, dá-lhas, se ele viver. Que mais quer a minha filha?

Mafalda ajoelhou a beijar-lhe as mãos. Ergueu-a o pai com muita ternura, enxugou-lhe as lágrimas no lenço em que embebia as dele e disse, sofreando os soluços:

- Que esperas tu deste rapaz, Mafalda? Quando virá Deus em auxilio desse tão fraco e desventurado coração? Filha... estima-o; mas não o ames assim com esse amor que te devora a mocidade! Que vinte e quatro anos os teus tão desconsolados e estranhos às menores alegrias da tua idade!... E tu não cais em ti, filha, não vês que Afonso está cada vez mais longe de te avaliar!

- Sei, meu pai - respondeu Mafalda com serenidade.

- E então?... sabes, e não te vences...

- Não posso vencer-me. Deus sabe que lhe tenho pedido auxilio, e nem assim... - As lágrimas saltaram-lhe novamente, e logo os arquejos do peito, ansioso de ar.

- Pois bem, meu amor - tomou o pai, duplicando as meiguices-, eu absolvo a tua fraqueza, já que o Altíssimo te não fortalece. Quem sabe, filha, quem sabe os segredos do porvir? Há milagres mais assombrosos. Pode ser que ele ainda venha para ti com o coração purificado e o tributo da mocidade avaramente pago. Mais bom marido será então. Que te diz lá no intimo a voz do teu anjo? Serei profeta, minha filha, serei?

Mafalda sorriu-se e murmurou:

- E não podia ser assim, meu pai?! Às vezes, sonho-o; tenho horas em que me julgo louca, no meu contentamento sem causa, sem esperança!... Três canas recebi dele em oito meses, e que frias expressões! Quando eu o considerava esquecido, por amor daquela criatura, é que ele me escrevia mais amorável; agora, que é livre, e de mais a mais infeliz, parece que nem sequer me estima! E ainda assim, meu pai, eu tenho presságios, em meu coração, alegres como a sua profecia.

- Pois então pede a Deus que mede vida para que eu os veja realizados. -- mas, filha, a realização da profecia, se vier, já me não achará vivo.

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