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Amor de Salvação

Camilo Castelo Branco

XXI

Decorridos seis meses, Fernão de Teive, perigosamente enfermo e desenganado, dialogava assim com sua filha, ajoelhada sobre o estrado do leito, com a face inclinada aos lábios requeimados dele:

- Bem to disse eu, menina. A realização da profecia, se vier, encontra-me sem vida.

- Não há-de morrer, meu pai-clamou Mafalda beijando-lhe a fronte.

- Não peças a Deus isso, que os meus padecimentos são incomportáveis... Verdade é que te deixo quase sozinha; mas aí estão teus tios de Barcelos que te levarão para a

sua companhia enquanto não puderes voltar à casa onde morre teu pai. Não chores assim, que me afliges, Mafalda... Triste coisa que um moribundo não possa falar aos seus com a presença de espírito dos que esperam viver muito... E, afinal, Deus sabe quem vive e quem morre!... Pois então, menina, que tem que conversemos placidamente...?! Bem... esse ar de conformidade está bem ao rosto angélico de minha filha... Falemos no nosso Afonso... Inventa lá tu um meio de lhe mandar recursos. Se é verdade o que soubemos por via do tio desembargador, o rapaz está mal. O jogo dos fundos arruinou-o segunda vez, ou reduziu-o a muito pouco...

- Mas as últimas cartas - atalhou Mafalda - não falam em negócios...

- Pois isso é que mais me persuade da informação do tio de Lisboa. Se Afonso prosperasse, dizia-o; ele, que se cala, é que está desgraçado.

- Oh! meu Deus! -exclamou a filha. - Diz bem, meu pai, Afonso está desgraçado... Não o confessa para que lhe não mandem alguma esmola os parentes.

- Isso mesmo; e por isso mesmo pensemos em remediá-lo com todo o melindre. Não te ocorre nada, filha?

- Manda-se-lhe o dinheiro, peço-lhe eu muito que o aceite... ele há-de condoer-se das minhas palavras...

- Não gosto desse meio: desaprovo a invenção. Aí vem padre Joaquim dar-nos aviso.

Padre Joaquim era um modelo de padres, capelão da casa, havia trinta e cinco anos; padre que se me ia fugindo deste romance por um cabelinho: o que seria novidade nos meus livros. Quando eu puder arquitectar uma novela sem padre, hei-de chamar-me romancista puxado de imaginação. O mestre dos escritores floridos, Almeida Garrett, segundo disse e provou, tinha o vezo dos frades. Ele e eu, cá muito no coice processional dos seus discípulos, havemos de fazer amar os frades e os padres, pelo menos os padres-capelães bem procedidos e venerandos como padre Joaquim, capelão da casa de Fonte Boa.

Explicou Mafalda ao padre o motivo a cujo respeito se lhe pedia aviso.

O clérigo tomou rapé, reflectiu, consolidou o seu raciocínio com outra pitada, e disse:

- A minha opinião é que a Sr.a D. Mafalda case com o Sr. Afonso. Fernão, fraco do peito para rir, tossiu uns frouxos de riso que desconcertaram a gravidade do reverendo.

Mafalda fitou os olhos em seu pai, receando que o esforço o estivesse mortificando. Padre Joaquim, voltando-se à menina, disse no tom de quem dá satisfação:

- Dar-se-ão caso que eu dissesse algum despropósito?... Parecia-me que sendo os dois contraentes primos em primeiro grau, obtida a devida dispensa, nada mais acenado para o fim de melhorar a situação apertada do Sr. Afonso...

- Não disse despropósito nenhum, padre Joaquim - acudiu Fernão de Teive. - Pelo contrário, aventou a mais moral e desejável das saídas nestes apertos. Mas o que nós queríamos era socorrê-lo sem que ninguém casasse.

- Parece-me isso justo e exequível. É mandar-lhe dinheiro por pessoa capaz - respondeu categoricamente o sacerdote.

Fernão, com prazenteiro rosto, acudiu:

- Quer o padre Joaquim ir a Paris? Não temos outra pessoa que o iguale em capacidade.

- Irei ao fim do mundo no serviço de V. Exª.

- E se o primo Afonso - disse Mafalda - rejeitar o dinheiro?

- Se rejeitar o dinheiro, volto com ele para casa; sinal é que lhe não é preciso.

- Se o rejeitar por ser de condição independente e tomar como esmola o favor do pai? - replicou Mafalda.

- Nesse caso cito-lhe os meus autores nas matérias vaidade, soberba e orgulho; e hei-de convencê-lo a aceitar o dinheiro.

- Vai o padre a Paris -disse Fernão.- Amanhã parte para o Porto: lá o dirigirão. Prepara tu, Mafalda, a bagagem do Sr. Padre Joaquim. Tira o necessário para o meu enterro e manda tudo mais que encontrares a Afonso.

- Enterro! - exclamou Mafalda, escondendo o rosto no seio do pai.Ao escurecer, recrudesceram os padecimentos de Fernão de Teive.

Por volta da meia-noite, com toda a luz da razão e clareza de voz, pediu os sacramentos, e conversou até às duas horas. Ao amanhecer dormiu um sono quieto, e acordou aflito. Pediu a extrema-unção e respondeu durante a cerimónia as palavras rituais em irrepreensível latim.

Depois chamou a filha, beijou-a e deu-lhe a beijar o crucifixo, que tinha entre

mãos, reclinou-se para o ombro dela, dizendo:

- Sobre este ombro expirou minha irmã... Se alguma vez vires o filho da santa mulher, dá-lhe um abraço... e tu, filha... adeus até ao Céu.

Mafalda rompeu em altos clamores. Fez-lhe o pai um gesto de silencio com os olhos.

Foi este o derradeiro gesto daqueles olhos, fitos já na aurora da eternidade e fechados para sempre sob os lábios de sua filha.

XXII

Eram atrozmente verdadeiras as informações comunicadas pelo desembargador Figueiroa sobre a desfortuna de Afonso de Teive em Paris.

Os quinze mil cruzados, produto suposto da quinta de Ruivães, engoliu-os a voragem do jogo de fundos, à qual o alucinado moço se atirou às cegas, contando com a vicissitude favorável, por ter sido infeliz nas outras.

Resolveu matar-se. Esta deliberação contrabalançou as agonias da pobreza desesperada. Como via a morte no leve movimento de um gatilho, deixou de encarar o futuro. Que lhe importava morrer pobre?! Encheu-se de coragem e deu graças a Deus pela fortaleza que lhe dava. Juntou os objectos de ouro e pedras que reservara para aquela hora premeditada. Chamou o criado e disse-lhe:

- Vende isso que aí está. Creio que o valor dessas coisas bastará ao pagamento do que te devo em dinheiro e soldadas: se algum resto houver a maior, leva-o para te passares à tua terra.

- E o fidalgo onde fica?! - perguntou o Tranqueira.

- Aqui! - disse Afonso.

- Pois também eu, patrão! Já agora, tenha paciência; gastei a mocidade em sua casa; a velhice por cá a levarei nesta endiabrada terra, como Deus for servido. Guarde lá o fidalgo as suas coisas, que eu não as quero, nem lhe pedi nada. Para eu viver, bastame uma carroça e um cavalo estropiado. Arranje V. Exª a sua vida, que eu cá me irei arranjando.

- Cumpre as minhas ordens, Tranqueira! - replicou Afonso com fingida severidade.

- Perdoará, Sr. Afonso... - volveu o criado. - É a primeira vez que lhe desobedeço. Eu não recebo nada enquanto o não vir com outro arranjo de vida.

- Faz o que quiseres... - redarguiu o moço, embolsando a punhados os objectos que oferecera ao criado, na intenção de sair para vendê-los.

Tranqueira desconfiou do intento suicida do amo. Apenas esta suspeita lhe saltou de repente ao ânimo, atravessou-se à porta do quarto, exclamando:

- O fidalgo não é homem, por mais que me digam! Há Deus ou não há Deus?! Então sua mãezinha esteve a criar um menino na lei de Cristo, para V. Exª dar esta saída! Pensa que eu não sei o que lá tem na cabeça? O Sr. Afonso quer dar cabo de si... Pois, ande lá por onde quiser, que eu nem de dia nem de noite o largo mais... Matar-se, por falta de dinheiro, um moço de vinte e cinco anos, que sabe ler e escrever, e em boa saúde! Isso não o faz homem nenhum no seu juízo! Quem precisa, trabalha: se não é nisto, é naquilo. E os que perdem tudo o que têm num fogo, ou no mar, matam-se? Ora, Sr. Afonso, eu dos anos que tenho ainda não topei homem tão desanimado!... Valha-o a alminha da Sr. D. Eulália! Quer o fidalgo uma coisa? Eu vou vender algum desse ouro que aí tem, e vamos para Portugal. Seu tio desembargador mostra que é seu amigo e o Sr. Fernão de Fonte Boa morreu sempre por V. Exª. Não se lhe pede dinheiro nem coisa que o valha: pede-se-lhe que o arranjem em algum emprego limpo. Trabalhar não é vergonha, é honra, fidalgo!... Que me diz? Que responde ao velho Tranqueira que o trouxe ao colo e aqui está de joelhos aos seus pés?

E abraçou-se-lhe aos joelhos, com os olhos inflamados de lágrimas.

Afonso levantou-o nos braços trementes de grata comoção e disse-lhe com transporte:

- Trabalharei, meu amigo, trabalharei... Descansa, que eu não me mato... A desgraça me irá matando..

Com referência àquelas chãs e firmes expressões do servo rústico me disse Afonso:

"Eu tinha lido na véspera daquele dia uns livros de insinuante moral, e consolação a desvalidos, pedindo-lhes crença que me esteasse na desesperada crise de homem, sem nenhum escape na ceifada negridão de sua vida. Doutrinas e exemplos de evangélica unção, factos tormentosíssimos de angústia e admiráveis de conformidade, desde Job até ao maior homem do mundo na rocha de Santa Helena, nada me impressionara, nada me demovera do suicídio. Vi uma réstia de luz instantânea reflectida no rosto de Mafalda! Pensei que era o anjo da santa melancolia a despedir-se do precito, que o repelira. Ainda o apego à existência, exprimindo-se nas frases positivas dela, me quis mostrar a felicidade possível no casamento com minha prima. Afastei com tédio de mim próprio este impudor de alma envilecida pela desgraça. O homem rico não reconhecera a virtude de Mafalda, senão para admirá-la; o homem desvalido havia de ir depois pedir à virtuosa que o aceitasse como marido!... Tive medo que outra vez me acometesse o pensamento vil. Dei-me então pressa em abreviar o termo da luta! Depois disto, como é possível que as rudes palavras de um criado me abalassem desde a profundeza de minhas convicções acerca da coragem do homem que se mata? Como logrou ele o que os livros consoladores não vingaram, nem os estímulos indecorosos a um casamento rico? Foram aquelas palavras: quem preta, trabalha, ditas pelo homem que as tirara da sua consciência, como se elas descessem do Céu, naquele momento, para me serem ditas, não pela página de um livro, mas pela boca de quem as dizia, chorando."

Afonso de Teive, com mais coragem do que a necessária para o suicídio, dirigiu-se a uma casa de comércio de judeus de procedência portuguesa, residentes em Paris.

Conhecera Afonso um mancebo desta família no concurso das pessoas bem qualificadas. Procurou-o e contou-lhe o seu estado, oferecendo-se a trabalhar no escritório, segundo sua aptidão. Os comerciantes aceitaram-no como terceiro-ajudante de guarda-livros com o ordenado de dois mil francos.

Vendeu Afonso as suas jóias e alugou uma mansarda, que mobilou consoante a escolha de Tranqueira, pobre e limpamente. O criado comprou um cavalo, a que ele chamava um milagre, e uma carroça, com que trabalhava de carrejão, nas horas ocupadas do amo. As horas convencionadas, o Tranqueira ia buscar em marmitas um jantar económico para ambos, todavia asseado e abundante. Afonso passava em casa as noites, estudando a língua inglesa para poder adiantar-se na sua carreira, até merecer os seis mil francos de primeiro-adjunto ao guarda-livros.

Se era feliz assim?

Oh! não: nem tudo que é honroso se há-de crer que seja felicidade. A degenerada natureza do homem quadra violentamente com as mudanças assim abruptas, com as quedas de tão alto! O magnificente amante de Palmira, o moço blandiciado nas salas do seu palácio do Campo Grande, reclinado por sobre coxins de seda, inventando regalias com que desanojar a sua ociosa saciedade, certamente não podia escrever odes à fortuna amiga quando saia de escrever cifrões no escritório mercantil. O reportar-se também não é ser feliz; é, no máximo das vezes, um martírio consecutivo de triunfos obscuros; porém, martírio sempre!

E, depois, Afonso entrava futuro dentro, fantasiando mudanças, quimeras, paradoxos, que o volvessem a uma felicidade, que ele bem nem mal sabia definir, ou estremar do que vulgarmente se diz que ela e. Destas vãs e ardentes consultas ao porvir voltava o moço ao refrigério do trabalho, e assim o tempo ia derivando, branqueandolhe os cabelos e quebrando-lhe os espíritos.

Em Lisboa era sabida a situação de Afonso de Teive, não que ele a contasse.

Escrevia ao tio Fernão raramente, sem de leve tocar em negócios. Respondia às cartas. de algum raro amigo que o julgava ainda em circunstâncias de lhe não pedir empréstimo para se resgatar de Clichy.

Neste tempo recebeu ele novas de Palmira, não solicitadas. Dava-lhas assim um dos seus comensais de Lisboa:

[...] A mulher surgiu aqui, vinda não sei de onde, pompeando com tanto esplendor e mais estupidez que no teu tempo, ou. melhor direi, no teu reinado.

Vi-a em São Carlos, ontem, sozinha na frisa. Disseram-me, porém, que lá, no recôncavo do camarote, estava um homem gordo, de tez bronzeada e vista de suíno.

Dizem que é brasileiro do Minho, outros diziam que o marido envergonhado. O D. José de Noronha, desde o banho da cisterna, nunca mais se endireitou do espinhaço, e vai a tísico irremissivelmente. Não há memória de uma catástrofe assim nos fastos dos Lovelaces patifes deste nosso quintal do tio Lopes. O D. António de Mascarenhas assevera-me que Palmira nunca mais teve uma palavra de consolação para o derreadoamante, O teu criado matou estes amores com tamanha ignomínia, que já não há ninguém que queira amar mulher em casa onde haja cisterna.. - Irei dizendo o que

souber da Laïs minhota [...].

Afonso leu glacialmente a carta e não respondeu ao noticiador.

- Que sentimento fez em ti essa nova? - perguntei eu.

Afonso encolheu os ombros e disse:

- O sentimento da piedade. Não podia ser amor, porque não há infâmia de alma que desça até aí. Odio também não, que o ódio quer vingança, e eu dava-me já por vingado da mulher a resvalar, no plano inclinado, não sei até que ordem de abismos. Era piedade que eu sentia, e tanta que, se me viessem dizer que Palmira, dentro de um ano, perdera a formosura, que vendia, e os bens, que herdara, e se desgraçara até à extremidade de pedir o pão de cada dia, eu faria do meu pão dois quinhões, e um mandar-lho-ia sem insulto nem palavra recordadora do passado.

Esta foi a resposta de Afonso de Teive. Eu acreditei, porque tinha visto o mundo, e

não há nada que não acredite.

XXIII

No escritório comercial onde o meu amigo trabalhava chegou, ao fim da tarde do dia 15 de Julho de 1853, um empregado da Embaixada indagando a residência do português Afonso de Teive.

Saiu com o esclarecimento em demanda de outro português, que se apresentara ao ministro, com importantes recomendações de Lisboa. A nota da residência era Rua Vivienne, 104, 5º andar, lado esquerdo; quem a recebeu da mão do encarregado foi uma senhora, que a passou logo a um sujeito de cabelos brancos, trajado de sacerdote.

O leitor não se deixa surpreender mais tarde: já se sabe que a senhora é Mafalda e o sacerdote é o capelão padre Joaquim de S. Miguel.

Padre Joaquim entrou num fiacre com o guia posto à sua ordem pelo ministro português. Apearam ao portão do prédio; perguntaram ao porteiro se o morador do quinto andar, lado esquerdo, estava em casa. Saiu do interior da loja, residência do porteiro, o criado de Afonso, o qual, reconhecendo padre Joaquim, se lançou a ele de modo que o ia afogando ao primeiro abraço.

- Ainda vives, Tranqueira? - exclamou o clérigo. - E sempre com o pequenito de Ruivães!?...

- Até à morte, Sr. Padre-Mestre!... Pois por aqui? V. Sª por estas terras?... Que é feito do Sr. Fernão? e da fidalguinha?

- Leva-me lá acima, homem, que pelos modos temos que marinhar - atalhou o padre.

- Ponha-se aqui às minhas costas, que eu levo-o lá, Sr. Padre Joaquim! - disse o Tranqueira, ajeitando-se para ser cavalgado.

- Estás doido de alegria, velho! Deixa-me ir por meu pé. Vocês cá no país da civilização já andam uns às cavaleiras dos outros?... Olha lá... - não avises teu amo. Quero ver se ele me conhece ainda.

Afonso estava escrevendo a seu tio Fernão de Teive quando o padre entrou.

- Veja se se lembra, Sr. Afonso! - disse o capelão.

- Lembro! - clamou Afonso erguendo-se a abraçar o clérigo. -Vem de Fonte Boa? Que faz em Paris, padre Joaquim?

- Podemos ficar a sós? - perguntou o clérigo. O Tranqueira saiu, e o guia, esclarecido em francês por Afonso, retirou-se.

- Eu estava a escrever a meu tio Fernão... - disse Afonso.

- No outro mundo somente se recebem orações, e não catas -atalhou o padre.

- Morreu meu tio?! - exclamou o moço.

- Lã se foi com Deus aquele justo. Pouco antes de expirar deixou-lhe um abraço ao Sr. Afonso. A Srª D. Mafalda foi a depositária do abraço...

Afonso escondera o rosto nas mãos a soluçar.

- Ele merecia-lhe essa saudade - continuou o padre -, que era muito amigo de V. Exª.

- Minha desgraçada prima! - exclamou Afonso -, que vida vai ser a dela naquela solidão, sem pai, sem uma alma que a estremeça!...

- Sua prima não está em casa... Está em Paris

- Como? em Paris!... Onde está Mafalda?!

- Na hospedaria esperando que vamos. Não se demore.

Afonso desceu a trancos as precipitosas escadas, sem dar tino de que o padre as descia apalpando com a bengala, muito de espaço, exclamando:

- Sempre será bom que pare lá no fundo para me apanhar, se eu for de rolo, ó Sr..92 Afonso.

A ansiedade do moço confundia as perguntas aceleradas de modo que o padre, no trânsito do fiacre ao hotel de Mafalda, nem tempo teve de deliciar mais que três pitadas com o sorvo cromático do seu costume.

Direitamente deve ser Afonso quem nos descreva o encontro:

"Entrei numa sala, a tempo que minha prima saia de uma câmara contígua. Caminhámos um para o outro, lavados ambos em lágrimas. Ela fitou-me com um gesto de assombro e disse:

"Tens cabelos brancos, Afonso!... E és da minha idade!... Como a tua vida terá sido amarga...

"E tu, Mafalda, tens a formosura que te deixei; preservou-te a inocência da tua santa vida!"

"Vida de muitas dores, Afonso...", atalhou ela. "Acabou-se-me tudo... Faltou-me o amparo de meu pai..." E encostou-se ao meu ombro, soluçando.

"Padre Joaquim acercou-se de nós limpando os olhos e disse:""É chorar de mais... eu cuidei que este encontro seria para alivio, e não para maiores penas. Basta, por agora, menina. Faltou-lhe o amparo de seu pai; mas o de Deus é que a ninguém faltou... A Srª D. Mafalda está aqui para se entender dom seu primo sobre um passo muito do agrado do Altíssimo: mas eu peço perdão a Deus em a contradizer, e continuarei sempre a opor-me, porque..."

"Mafalda fez-lhe um sinal de silêncio com implorante suavidade e, voltando-se para mim com sereno aspecto, disse em termos balbuciantes que desmentiam a forçada compostura do rosto:

"Meu primo, a vida para mim não promete contentamentos nenhuns. Faltou-me meu pai, e resolvi logo entrar num convento: mas a inactividade dos conventos pode ser que piorasse a minha tristeza. Ouvi dizer que está derramada pelo mundo uma grande família de mulheres devotadas ao remédio dos infelizes, por amor de Deus. São as Irmãs da Caridade. Resolvi entrar nesse instituto; meus pais abençoarão este modesto desejo de ser útil a alguém, empregando os anos de vida, que eu não sei nem posso consumir no desabrigo da casa onde nasci. Agora, meu Afonso, venho pedir-te que dirijas em Paris os meus passos para o conseguimento da minha entrada no instituto, e ao mesmo tempo rogar-te encarecidamente, e em nome de tua santa mãe, que aceites as três quintas que vendeste, e de que teu bom tio era possuidor quando morreu. Na intenção de tas restituir foi que ele as comprou. Eu cumpro a sua vontade, esperando que tu obedeças à vontade de meu pai. Aceita o que teu era, meu querido Afonso, meu bom irmão; aceita, que é meu pai e tua mãe que to pedem, e eu também, com as mãos erguidas."

"Mafalda cessou de falar, cortada a voz de soluços. Eu ajoelhei diante dela, beijando-lhe as mãos, sem poder articular palavra. E ela, abraçando-me pelo pescoço, exclamou com a meiguice infantil dos nossos afectuosos abraços dos dez anos:

"Tu fazes a vontade à tua Mafalda, não fazes, Afonso? Posso agradecer a Deus a esmola de consolação que me dás?

"Pode!", exclamou o padre Joaquim. "Pode, que o Sr. Afonso não há-de desobedecer à vontade de seu tio! Vamos!, a fidalga ainda não deu o abraço que o Sr. Fernão de Teive deixou ao filho de sua santa irmã."

"Abraçou-me Mafalda. E eu apertei-a ao seio com arrebatamento, e senti a sua face nos meus lábios.

"Agora, falo eu", disse o clérigo. "O instituto das Irmãs da Caridade é um santo instituto, nenhuma dúvida lhe ponho, pelo que tenho ouvido contar dos heroísmos de caridade que as servas de S. Vicente de Paulo praticam. Assim é; mas a conquista do.Céu consegue-se com a virtude e a virtude é uma em toda a parte e em todas as situações. As Irmãs da Caridade são benquistas do Senhor, mas muitas almas elege o Senhor, sem as submeter à prova dos sacrifícios e abnegação do santo instituto do servo de Deus. A Srª D. Eulália, que Deus tem, era uma virtuosa, e piamente creio que santa senhora. Pois a sua vida de esposa e mãe não lhe tolheu que alcançasse o Paraíso com muitas obras boas que fez, sem as andar derramando pelo mundo. A mãe da Srª D. Mafalda foi outra senhora casada e muito amante de seu esposo; pois se a virtude é a profecia infalível da bem-aventurança, as duas virtuosas senhoras lá estão com Deus. E agora lhes direi eu o Que as santas pedem ao Senhor, vendo assim os seus filhos, a ouvirem o pobre padre pregar sem encomenda do sermão. Eu lhes digo que elas estão pedindo a Deus que os case, que os encha de bênçãos e de filhos. Vamos!, eu também levanto as minhas mãos fazendo os mesmos rogos ao Senhor! Meu Deus!, permiti que a minha voz se junte à das santas que Vos pedem a felicidade destes dois filhos! Permiti que eu os veja ditosos e que estas lágrimas de velho mas enxuguem eles com a sua alegria!"

"Quando o sacerdote, majestoso pela sua postura, se voltou para nós, latejava o meu coração na face de Mafalda; e eu, inclinado sobre o rosto pálido da virgem, murmurava estas palavras:

"Sim, sim, meu Deus, ouvi as preces de nossas mães!"

"Padre Joaquim de S. Miguel aproximou-se de nós e disse com jovial aspecto:

""Eu não quero estar em Paris muito tempo, meninos. Vamos embora, cuidar da dispensa, que leva algum tempo. Temos lá o Outono do Minho à nossa espera. Diga à fidalga o que determina."

"Mafalda olhou para mim com o sorriso de santa que um escultor fantasiasse na contemplação e audição dos anjos e harmonias do Céu. O padre acudiu logo, exclamando alegremente:

"O noivo é quem decide! Sr. Afonso, quando partimos desta barafunda de Paris, que me põe os miolos a arder?.."

"Amanhã!", respondi eu.

"Amanhã!", exclamou Mafalda. "Pois sim, meu Afonso, amanhã... Temos lá as nossas árvores... a nossa infância...

"A nossa felicidade sem fim...", atalhei eu."

CONCLUSÃO

Entreluzia a manhã pelos resquícios e fendas das janelas do nosso quarto na estalagem da Sr. Joaninha de Guimarães.

Afonso de Teive disse:

- E dia: vou concluir

- Não é necessário - atalhei -, o restante sei eu –Mas não me prives por isso de ser eu o narrador da minha bem-aventurança.

Aquela mulher que eu te apresentei, negligentemente vestida, e amarrotada dos braços dos seus oito filhos, é minha prima Mafalda, a esposa da minha alma, a salvadora do meu coração, os olhos que me vêem pelos da minha mãe, a consciência da minha consciência, a retentora das minhas alegrias infantis, a mãe dos meus oito anjos, que minha santa mãe me enviou do Céu.

"Há dez anos que vejo amanhecer os meus dias como as aves, cantando o Senhor,

e adorando-o como os cenobitas.

"Minha mulher, ao abrir-me os tesouros da sua alma, revelou-me também os tesouros da fé, as delícias da religião e a taça inexaurível dos sabores da caridade.

"Mafalda desaparece-me às vezes com os filhos mais velhos: eu vou procurá-la fora de casa com os mais novos nos braços, e descubro a piedosa valedora no cardenho de algum jornaleiro, à cabeceira das palhas nuas do enfermo, ao qual ela foi levar a cobertura e o alimento. Outras vezes são os meus filhos que levam o seu fatinho velho às crianças que estalejam de frio sobre o lajedo de uma cozinha sem lume.

"Se alguma hora falei como marido austero a minha mulher, a doce criatura respondeu-me com um sorriso; os meus queixumes são sempre causados pela pertinácia de ela entender no governo da casa com zelo convizinho da mortificação - Mafalda é rica; mas tem uma máxima indestrutível: "poupar para os pobres".

"Há dez anos que vivo em Ruivães. Neste longo espaço, apenas tenho acompanhado minha mulher a observar a cultura das suas quintas, que ela teima em chamar minhas. Mafalda tem vagas ideias do que é um baile, e eu pude esquecer as ideias que tinha. Dizem que a convivência de anos entre esposos, que muito se amam, traz consigo de seu natural uns silêncios significativos do esfriamento das almas. Eu não sei o que seja esse arrefecer. O Céu e a Terra estão continuamente abertos ante meus olhos; de cada vez que os contemplo, a cada alvorecer, e fim da tarde, os maravilhosos poemas dão-me sempre a ter uma página nova, e Mafalda traduz mais pronta que eu os hieroglíficos da Divindade. Falamos de Deus e dos filhos, contemplamos o boi que nos encara soberbo, a avezinha gemente que pipila, a fonte que suspira e a catadupa do ribeiro que ruge. A natureza é a terceira voz dos nossos colóquios, umas vezes amor, outras vezes ciência, e sempre admiração e perfumes ao Eterno, que nos encheu de delícias e enflorou o caminho da velhice.

"Ecos do mundo nenhum chega ao nosso ermo. A mim, os homens que me viram consideram-me morto uns, outros porventura me lastimam embrutecido entre os meus fraguedos. Tive cartas a que não respondi; fui procurado por ociosos, a quem recebi na minha sala de visitas, com uma cerimónia que os afugentou. Afligiam-me as testemunhas do meu vilipêndio e temia que elas proferissem um nome que soaria como blasfémia no santuário de minha família.

"Aspei todos os vestígios que pudessem recordar Teodora. Entre os papéis de meu tio Fernão, numa gaveta secreta, encontrei o copiador das cartas dela. Minha mulher surpreendeu-me neste descobrimento, viu e compreendeu, sorriu-se e disse: "Meu pai nunca me deixou ver isto, bem que eu soubesse da existência deste livro - Triste sorte a desta senhora!, mal diria a mãe que tão virtuosamente a educou!" Únicas palavras que Mafalda proferiu com referência a Palmira!

"Aqui tens a minha vida, a vida dos dois homens que na curta passagem de quarenta anos tocaram as duas extremas do infortúnio pela desonra e da felicidade pela virtude. Uma mulher me perdeu; outra mulher me salvou. A salvadora está ali naquele ermo, glorificando a herança que minha mãe lhe legou: o anjo desceu a tomar o lugar da santa: a um tempo se abriu o Céu à padecente que subiu e à redentora que baixou no raio da glória dela. A mulher de perdição não sei que destino teve."

- Pois ignoras o destino de Palmira? - interrompi eu, desconsolado, como todo o romancista, que desadora invenções.

- Como queres tu que eu saiba o destino de Palmira?! - replicou Afonso de Teive.

- Quem há-de vir contar-me a Ruivães os desastres que lá vão no seio apodrentado da sociedade?!... Mas, se te rala a curiosidade de saber em que lamaçais a deves encontrar, lança a tua espionagem, diz alto e bom som, que a fama te confiou a tuba pregoeira dos escândalos, e não faltará quem te ilumine e esclareça. Do viver da mulher virtuosa é que baldadamente procurarás notícias; dá-se a virtude numa obscuridade, que chega a incomodar a atenção dos que a observam como coisa curiosa de ver-se.

- Pois não me despeço - redargui - de me ir por aí fora no encalço de Palmira, e mal

dela se a não topo, que morrerá sem ler a sua biografia, desastre comum, mas imerecido, das mulheres da sua espécie. Quantos romances, e dramas, e cantatas, aí pejam as livrarias sobre Ninon, e Marion, e Manon Lescaut? As Aspásias e Frineas tiveram por si os historiadores e os poetas gregos. Os Catulos e Ovídios eternizaram Lésbias e Corinas. Menos afrontadores da moral, os romancistas e poetas coevos nossos deificam as Gautières e fazem que as famílias honestas chorem por elas mas páginas dos livros e nas tábuas dos palcos. Palmira há-de ter um livro, ou eu mão escrevo mais nenhum depois do teu... Dá-me agora noticias do Tranqueira. Que é feito do Tranqueira?

- Está lá em casa a esta hora com um pequeno a cavalo em cada ombro e outro enganchado na barriga. Tranqueira não é meu criado. Lá em casa os meus filhos

conhecem-no pelo amigo velho. Tem o seu quarto no interior dos melhores aposentos.

Chama-se ele a si feitor; mas o que ele feitoriza é o seu reumatismo, e vive a picar rolo de tabaco para cachimbar ao sol. Comprou um pinhal e negoceia em lenha e madeiras.

Quando recebe algumas libras, vai até Braga visitar uns parentes pobres, dá-lhes metade, e vem para casa carregado de frigideiras, que me estragam o estômago dos rapazes. Se algum dos meus caseiros o faz zangar nas contas, em que ele quer ser sempre ouvido, ou no granjeio das terras, de que ele não percebe nada, mas quer ser consultado sempre, costuma ele estirar os braços trémulos e dizer: "O que tu precisas é um banho de cisterna." Imagina o Tranqueira que a sua especial vocação é dar banhos de cisterna.

- E o padre Joaquim de S. Miguel morreu?

- Tenho a satisfação de te dizer que o meu padre Joaquim está vivo e vivedouro. Não o viste lá em casa porque foi para o Alto Minho consoar com a família, tributo que ele pagou sempre; mas nunca vai que não se despeça a chorar, e nunca vem que nós o mão recebamos com grande alvoroço de alegria. E o mestre dos meus pequenos; mas os travessos escondem-lhe a tabaqueira e os óculos de modo que as lições caem em pedra árida, e o padre já diz que considera perdidos dez anos de vida naquele ensino. Que mais queres saber?

- Se poderei dormir duas horas em tua casa - respondi eu.

- Vamos partir.

- E os teus meninos costumam deixar dormir a gente de dia? Vingarão eles em mim a falta do padre? Previne-me.

Partimos.

À distância de um oitavo de légua do paraíso restaurado do meu amigo, enxergámos D. Mafalda e os filhos, e o Tranqueira com dois ao colo e outros dois pendurados das algibeiras da japona. Ao avistarem-nos, os rapazes irromperam numa grilharia bárbara, que repercutia nas quebradas dos outeiros.

- Cá vou preparando a cabeça de progenitor e ouvidos paternais - disse eu. - Seriam excelentes anjos aqueles pequerruchos se tivessem laringes mais acomodadas ao aparelho auditivo do género humano!

- São os meus filhos! - exclamou Afonso. - E minha mulher! Ali tenho tudo, o capital, o juro e a usura da felicidade que desbaratei. Ali me esperou minha mãe dois anos, e eu não voltei. Ainda assim, a virtuosa orou sempre. O jazigo estava fechado, o leito da santa vazio; mas o Céu fora o mais alto ponto onde ela voara para ver de lá a minha perdição. Ali voltei salvo pelo amor. Achei ainda as flores que eram dela; das primeiras adornei os cabelos de minha mulher; das que me deu a Primavera seguinte engrinaldei o berço do meu primeiro filho. Parece que em cada reflorescência vem minha mãe coroar o novo anjo, que minha mulher lhe oferece como a intercessora com o Altíssimo. Oh, meu amigo!, de envolta com a felicidade, a religião! Sabes tu o que é ter um Deus que nos

escuta, que nos reprova, que nos louva, que nos povoa o espaço onde a alma insaciável do homem encontra um vazio horrendo, uma respiração aflitiva".

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Aproximámo-mos do formoso grupo. Apeei: fui cortejar a mulher do amor de salvação e disse-lhe, comovido e creio mesmo que lagrimoso:

- Ao cabo de dez anos de felicidade não interrompida, minha senhora, chegou um homem a casa de V. Exª com o funesto contágio da sua má estrela! Fui eu quem primeiro ousou usurpar-lhe a convivência de seu esposo por uma noite. Deus sabe se a saudosa prima de Afonso de Teive cerrou olhos nesta infinda noite de Dezembro!...

- Também eu não! - atalhou Afonso sorrindo -, também eu não!

- Não importa, minha senhora - tomei eu. - Seu marido velava; mas que saborosa vigília! Contou-me as suas desgraças para que eu pudesse cabalmente ajuizar da felicidade perene que V. Exª, depositária dos infinitos bens do Senhor, lhe preparou com santas lágrimas e lhe está dando com santas alegrias. Eu cuidava que o contentamento de uma hora, neste mundo, era uma usurpação feita ao Céu!... Agora sei que há sobre a Terra um homem feliz há dez anos, feliz para uma longa existência. Este gozo, que nem contado pelos evangelistas eu acreditaria, sei agora que existe, abaixo do reino dos justos, entre os homens, no mundo de 1863, no AMOR DE SALVAÇÃO!

Mafalda baixou levemente a cabeça com gracioso acanhamento e disse:

- Não sou eu sozinha a felicitar meu primo: são as orações de nossas mães e o amor angélico dos nossos filhinhos.

Fonte: www.dominiopublico.gov.br

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