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Amor de Salvação

Camilo Castelo Branco

A José Gomes Monteiro

Meu amigo.

Peço licença para inscrever o seu nome na primeira página deste livro. Esta fica sendo para mim a mais prestante obra. As outras são futilidades; porque lágrimas e alegrias de romance é tudo fútil.

No Minho, em 1864.

OBSERVAÇÃO

O leitor folheia duzentas páginas deste livro, e o amor de felicidade e bom exemplo não se lhe depara, ou vagamente lhe preluz. Três partes do romance narram desventuras do amor de desgraça e mau exemplo. A crítica, superintendente em matéria de títulos de obras, querendo abater-se a esquadrinhar a legitimidade do titulo desta, pode embicar, e ponderar - que o amor puro, o amor de salvação, vem tarde para desvanecer as impressões do amor impuro, do amor infesto.

Respondo humildemente:

Amor de salvação, em muitos casos obscuros, é o amor que excrucia e desonra. Então é que o senso intimo mostra ao coração a sua ignomínia e miséria. A consciência regenera-se, e o coração, reabilitado. avigora-se para o amor impoluto e honroso. Assim é que as enseadas serenas estão para além das vagas montuosas, que lá cospem o náufrago aferrado à sua tábua. Sem o impulso da tormenta, o náufrago pereceria no mar alto. Foi a tempestade que o salvou.

Além de que a felicidade, como história, escreve-se em poucas páginas: é idílio de curto fôlego; no sentir intraduzível da consciência é que ela encerra epopéias infinitas - enquanto que a desgraça não demarca balizas à experiência nem à imaginação.

Para o amor maldito, duzentas páginas; para o amor de salvação. as poucas restantes do livro. Volume que descrevesse um amor de bem-aventuranças terrenas seria uma fábula.

O AUTOR

Estava claro o céu, tépido o ar, e as bouças e montes floridos, O mês era de Dezembro, de 1863, em véspera de Natal.

A gente das cidades pergunta-me em que pais do mundo florescem, em Dezembro, bouças e montados.

Respondo que é em Portugal, no perpétuo jardim do mundo, no Minho, onde os inventores de deuses teriam ideado as suas teogonias, se não existisse a Grécia. No Minho, ao menos, se buscariam águas límpidas para Castálias e Hipocrenes. No Minho, a Citera para a mãe dos amores. Nos arvoredos desta região de sonhos, de poemas, e rumores de conversarem espíritos, é que os sátiros, as dríades e os silva-nos sairiam a cardumes dos troncos e regatos: que tudo aqui parece estar dizendo que a natureza tem segredos defesos ao vulgo, e como a entreabrirem-se à fantasia de poetas.

Mas que flores... quer o leitor saber que flores vestem os calvos e denegridos serros do Minho, em Portugal. São flores a festões, cachos de corolas amarelas viçosas, e aveludadas como as dos arbustos cultivados em jardins: é a florescência dos tojais, plantas repulsivas por seus espinhos, alegres de sua perpétua verdura, únicas a enfeitarem a terra quando a restante natureza vegetal amarelece, definha e morre. E desse privilégio como que o agreste arbusto se está gozando soberbamente; pois que vos mostra as suas pinhas de flores, e com os inflexíveis espinhos vos defende o despojá-lo delas.

E naquele dia 24 de Dezembro de 1863 andava eu no Minho, por aquela corda de chãs e outeiros, que abrangem quatro léguas entre Santo Tirso, Famalicão e Guimarães.

Eu, homem sem família, sem mão amiga neste mundo, há trinta anos sozinho, sem reminiscências de carícias maternais, benquisto apenas de uns cães, que pareciam amar-me com a cláusula de eu os sustentar e agasalhar; eu, que, naquele tão festivo dia da nossa terra, não tinha colmado onde me esperasse um amigo pobre para me dar entre os seus um lugar no escabelo, nem parente abastado, que de mim se lembrasse à hora dos brindes com generosos vinhos em lúcidos cristais, eu vendo-me com lágrimas em minha sombra, assim me fora a contemplar a felicidade alheia pelas chãs e outeiros do devoto Minho.

Eu caminhava a pé, guiando-me ao sabor da imaginativa ideia, que se deleitava em vestir de folhagem a árvore nua, e tristemente inclinada sobre o colmado do casalejo. Parava em frente de cada choupana, e meditava, e escutava o rumor das vozes que lá dentro, ou no ressaio da horta, se misturavam em dizeres alegres ou cantilenas alusivas ao nascimento do Deus-Menino. Diante dos portões gradeados do proprietário rico é que eu não parava nem meditava. Se lá dentro de suas salas iam alegrias, como em casa dá jornaleiro, não sei: o certo era que as paredes da habitação opulenta dão deixavam sair uma nota para o hino geral de graças e júbilo com que a pobreza saudava o Emancipador dos deserdados, o Senhor dos mundos, nascido e agasalhado nas palhinhas de um presépio.

O Sol, desnublado de vapores, como nas tardes serenas de Julho, oscilava nas montanhas do poente e azulejava as grimpas dos pinheirais, de onde eu, a contemplá-lo, me esquecera da distância a que me alongara da casa hospedeira daquela noite.

Transmontando o Sol, desceu das cumeadas um toldo pardacento a desdobrar-se pelos plainos, a confundir-se no fumo das aldeias, a identificar-se com o escuro dos arvoredos. Fez-se um silêncio progressivo e rápido em redor de mim. Começava a noite sem bafejo de vento. Nem já a rama dos pinhais rumorejava aquele seu saudoso sonido, que se me afigura sempre a inarticulada toada de mui remontadas e remotíssimas vozes de mundos que giram nas profundezas do espaço.

Tirei-me do meu enleio contemplador e retrocedi pelo mal sabido atalho, antes que a

cerração completa me tolhesse de enxergar ao longe o alvejar da casa, entre dois outeiros. Não valeu a precaução- As abas do declivoso montado, eram muitos os caminhos a cruzarem-se. Segui um à sorte; e, como prova de que a sorte nem em escolha de caminhos deixou de ser-me sempre boa, segui o pior e o mais transviado de todos. Por volta de sete horas, depois de dobrar uns cerros inabitados, achei-me numa póvoa, onde me disseram que eu, por aquele caminho, chegaria mais cedo a Roma que

ao local onde me destinava.

A pessoa que respondeu assim à minha pergunta falou-me de uma janela envidraçada, e acrescentou:

- O senhor, se não sabe o caminho, como de facto não sabe, pelo tino é incapaz de acertar. O que eu posso fazer é mandar alguém ensiná-lo; mas, se não é força ir hoje, pernoite nesta casa, e amanhã irá. Verdade é que, nesta noite, custa muito a ficar em casa estranha; porém....

- Todas as casas são estranhas para mim... - respondi eu.

- Pois então, aceite esta que se lhe oferece da melhor vontade. O portão está aberto. Lá vou abaixo recebê-lo.

Entrei num vasto pátio, contornado de arcadas semelhantes às da claustra monástica. Logo em seguida, o hospitaleiro senhor do magnífico edifício saiu do escuro da arcaria e disse-me antes de me ver de perto:

- Eu já sei quem recebo em minha casa, e o meu hóspede, se tiver memória dos seus relacionados de há quinze anos, também me vai conhecer.

- Pela voz ainda não - disse eu, encarando-o, sem vislumbres de vaga recordação.

- Ali temos luz - replicou ele. - Muito velho e desfigurado devo estar, se nem à candeia me reconhecer você!...

Examinei-o à luz atentamente; e, como nem assim me acudisse à memória semelhança de tal homem, retorqui:

- O senhor talvez esteja enganado comigo. É provável que nos vejamos agora pela primeira vez.

- Então qual de nós é o romancista? Você, que os anda a procurar, ou eu, que estou manso, quieto e estúpido em minha casa? Quererá você ir dizer em alguma novela que encontrou num recanto do Minho um visionário chamado Afonso de Teive...

- Afonso de Teive! - exclamei eu. - Afonso de Teive... o senhor!? Essas barbas... essa nutrição...

- E estes óculos... - atalhou ele.

- É verdade... esses óculos...

- E estes tamancos!...

- Pois, deveras, o senhor é Afonso de Teive... tu és Afonso... aquele que tinha em Lisboa...

- Uma casa no Campo Grande, e uma parelha de hanoverianas, e um faetonte, e uma berlinda, e cavalos árabes, e paixões ideais, e muitas paixões sem faísca de ideia...

Sou eu! E este homem gordo, intonso, de óculos, de tamancos, este lavrador que aqui vês, possuidor de um tesouro que os reis do universo disputam há dezanove séculos uns aos outros, e as nações disputam aos reis, e os indivíduos disputam às nações, e cada indivíduo disputa e destrói em si próprio e com as suas próprias mãos: sabes que tesouro

eu possuo, homem?

- A paz?

- A felicidade.

- Isso é uma história! - atalhei eu. - Pois tu achaste a felicidade?... e tu és.6 realmente Afonso de Teive?... e estes dois pequenos - perguntei eu, quando vi dois meninos entre seis e oito anos a correrem em direitura dele - são teus filhos decerto?

- São, e lá em cima não ouves o tropel que fazem os outros seis?

- Pois tens oito filhos?

- Espero o nono brevemente.

- E és...

Retive a palavra. Ia eu perguntas-lhe grosseiramente se ele era feliz com oito filhos; pergunta desculpável ao Afonso, que eu conhecera desde 1845 até 1851.

Eu tinha visto Afonso de Teive, em Coimbra, naquela primeira época, matriculado no curso filosófico. Pertencia ao circulo de literatos, criadores da Revista Académica e Trovador; e também, nas horas furtadas às palestras literárias - quase sempre controvérsias acerca da primazia de Lamartine ou Vitor Hugo - pertencia à grande tribo dos trocistas. gente arruadora e desatinada para quem as saudosas tradições do famigerado José Lobo não tinham ainda esquecido. Esta dualidade em Afonso de Teive era uma distinção, que o tomava menos agradável aos literatos circunspectos, e menos estimável também aos camaradas das assuadas e motins nocturnos. Afonso era poeta num género galhofeiro, quando queria; e dedilhava o alaúde das elegias, se lhe dava para lastimar-se, ou carpir saudades imaginárias de mulheres, suas amadas, fugidas deste lamacento globo para os piamos balsâmicos do Céu. E o que me parecera a mim.

Tinha dias de escrever jaculatórias em verso que dariam fama a uma eremita da Tebaida noutros dias, satirizava a religião, os dogmas, e a própria divindade com os apodos e a dialéctica de um desbragado discípulo de Voltaire. E o mais para assombro é que ele parecia sentir no coração o ascetismo de hoje, e a impiedade de amanhã: agora, iria após o pálio da Extrema-Unção murmurando as preces do povo; que não se peja de orar em público e alta voz; e logo bem poderia suceder que, encontrando o mesmo préstito, não levasse a mão à fronte para tirar o gorro. A um homem assim dotado de tão contraditórios espíritos fácil seria agourar-lhe grandíssimos dissabores no trajecto da existência: para os semelhantes daquele funesto modelo, as estradas comuns da humani-dade não conduzem a paragem nenhuma certa; nem o coração nem o espírito aceitam leis imutáveis; a moral é um facto, cujas condições deve e pode infringir aquele a quem elas não aproveitam; em suma, Afonso de Teive dava a prever um desgraçado, a menos que em sua índole não sobreviesse uma das raras revoluções que inopinadamente transfiguram o homem moral, se não é o abalo da mesma desgraça que opera esses prodigiosos reviramentos.

Tal conheci em 1845 em Coimbra o meu hospedeiro minhoto de 1863.

Encontrei-o, depois, no Porto em 1848.

Achei-lhe a mudança que influem os salões nos espíritos, para assim dizer, incultos da cortesania e graciosidade de que em geral carecem os mancebos saídos dos cursos escolares.

Afonso de Teive tinha fama de rico. Escutei o que diziam os almotacés dos haveres de cada sujeito admitido à sociedade portuense - pessoas que, à vista do zelo com que indagam os mínimos valores do sujeito, parecem habilitar-se para mordomizarem os bens de quem chega- e ouvi que Afonso era natural do Minho, filho único já órfão de pai e senhor da sua casa, estimada em cento e cinquenta mil cruzados.

Enquanto a costumes, dizia-se que o rapaz era dado ao namoro, borboleteava por diversos camarotes do Teatro de S. João, soprava zelos e raivas entre umas tantas senhoras nos bailes, e pouco mais digno de censura. De escândalos, não rosnava coisa importante a opinião pública. A mocidade do Porto, por despeito, ou por outro qualquer

sentimento igualmente natural, que desculpável, é que, no intento de deprimir o Tenório do Minho, divulgava, como quem diz muito secretamente a coisa, que vários maridos.7 andavam enganados com Afonso de Teive; porém, como acontecia que os maridos indigitados se satirizavam uns aos outros, observando e censurando cada um a demasiada confiança do outro, é hoje coisa dificílima de tirar a limpo se algum dos maridos se enganava, ou se todos se enganavam, ou se não se enganava nenhum. Se o leitor considera que seria curioso esquadrinhar o caso, eu de mim entendo que a humanidade não ganha com isso nada, e portanto neste, e em muitos outros artigos advenientes de moral duvidosa, ponho, e porei ponto, quando não seja preciso à contextura deste romance desvelar factos censuráveis.

Afonso saiu do Porto naquele mesmo ano de 1848, com destino à França, segundo uns, e à Turquia, segundo outros. Os desta opinião diziam que ele, convencido de que tinha uma cara oriental, ia para terra onde pudesse vestir-se de modo que o rosto lhe saísse melhor do que entre uma gravata de laçarias portentosas e um canudo de felpo lustroso. E certo era que o tipo fisionómico do cavalheiro minhoto era sobremaneira árabe, por causa do nariz fino, dos olhos coruscantes, da tez azeitonada, do espesso bigode negro e do comprimento e magreza do rosto. Se juntarmos a este composto de venturosas e aventureiras feições o estar ele sempre fumegando por cachimbo turco, dir-se-á que os Turcos é que propriamente, lá na sua terra, o andavam imitando a ele.

Se foi à Turquia, é de presumir que rivalidades com o sultão, ou - pior ainda - tentativas de invasão ao harém, o obrigaram a voltar a Portugal, onde os direitos de cada homem e de cada mulher estão muito mais razoavelmente definidos e garantidos. A verdade é que eu, no fim do ano seguinte, encontrei Afonso de Teive em Lisboa, caval-gando um donairoso alazão ao lado de uma amazona, cujo murzelo fazia admiráveis gentilezas de picaria. Deu-se este encontro no Campo Grande, numa tarde de corridas equestres. Alguém cuidaria que a soberba cavaleira, de uma formosura invejável tia Circássia, devia de ser a esposa raptada de algum grão-vizir; pessoas, porém, melhor informadas disseram-me que a esbelta dama era portuguesa do Minho, dos arrabaldes de Braga, onde os reais sensualistas do Islão mandariam subornar as suas sultanas se soubessem que nestas regiões as mulheres que, por acaso, saem feias das mãos da natureza aprendem a ser bonitas com as flores. Releve-se, este orientalismo a quem está tratando de coisas asiáticas como a cara de Afonso e o garbo peregrino de Palmira.

Palmira me disseram que se chamava a gentil criatura.

Posto que eu, em Coimbra e no Porto, me houvesse relacionado algum tanto intimamente com Afonso de Teive, ainda assim, azado o ensejo de perguntar-lhe pormenores daquela conquista - conquista se diz vulgarmente do que devera mais de siso chamar-se, farta vezes, derrota -, nada indaguei, visto que ele, com insólito resguardo, se absteve de me dar ansa a esgaravatar-lhe coisas particulares da vida - particulares, dissemos, para sustentar à palavra a fama que o dicionário faz correr; sendo aliás de toda a evidência que não há aí coisa mais nua, mais pública e assoalhada que tudo quanto se chamam particularidades da vida privada, mormente quando o divulgarem-se torna e redunda em filáucia de uns tolos célebres, que seriam invejáveis, se as próprias coroas, com que cingem as frontes, lhes não dessem muito que doer com espinhos escondidos - quero dizer em estilo espalmado: se as próprias mulheres, que lhes dão os triunfos, não fossem os instrumentos com que a justiça infinita inflige aos vangloriosos o castigo infernal do. seu orgulho.

Foi-me preciso escutar os boatos correntes à conta da mulher que Afonso de Teive me não apresentou. Observei que ninguém a julgava honestamente, e assim mesmo ninguém lhe dava um epíteto indecoroso. A civilização beneficia assim as mulheres que não podem adjectivar-se publicamente virtuosas, nem mesmo quando visitam com a esmola a mansarda do doente desvalido. Nesta especialidade, o jornalismo comporta-se louvavelmente. Quando um localista apregoa o donativo de alguns lençóis que opulenta

matrona, por variar prazeres de alma, já cansada dos transitórios gozos de outra espécie, mandou a um asilo de lázaros, e diz que a humanidade abençoa a virtuosa senhora, não nos havemos de entalar com este decreto de virtude: a humanidade manda que o engulamos. O localista tem razão: é bom que a palavra virtude sirva de piedoso visco à liberalidade de pessoas, que desejam alguma vez, ao lerem-se virtuosas, experimentar a satisfação de se verem ir à posteridade na secção do noticiário.

O noticiário! Ninguém, que me conste, aprofundou ainda o que esta palavra encerra em si de humanitário! S. Paulo, todos os evangelistas, as catequeses derramadas de ângulo a ângulo da Terra, em matéria de caridade, não se avantajaram à missão do noticiário.

Se eu não tivesse de convicção minha que as acções meritórias dos gabos do mundo, quando disparam em proveito geral, não podem desmerecer no juízo divino, havia de cuidar que a mão, aberta em fontes caudais de ouro vertido, como bálsamo, sobre as chagas sociais, bateria às portas da região pavorosa, onde o pecado da soberba, aliado da vaidade, sofre a condenação prescrita nos códigos de todas as religiões. A vaidade levanta o palácio em que se acolhem os desamparados de um tecto de palha e de uma enxerga de folha. A vaidade doura-lhe os frontais do asilo, atapeta-lhe os pórticos, ventila-lhe por janelas de luxuosa alvenaria os dormitórios, tudo lhe magnífica e opulenta em pedra e estofo: tudo lhe dá em desconto das dores da velhice alanceada de enfermidades; tudo, exceto o pão da alma, a doutrina da paciência, a comunhão santíssima, que refaz o espírito quando o corpo desfalece. Tudo lhe dá, excepto um padre, um intérprete do Cristo, que dê vida de amor ao seio traspassado e palavra de pai aos lábios roxos daquele crucificado, que lá do fundo do dormitório contempla inertemente o deslaçar-se fibra a fibra daqueles corpos, ali postos como presa disputada, por mais alguns dias à aniquilação...

- E não é isto o máximo quilate da beneficência?

Que hei-de eu responder ao leitor ilustrado, que me interrompe, assim de golpe, um discurso que lhe havia de mortificar o fôlego, pelo menos?!

Peço-lhe que me deixe contar-lhe em cinqüenta linhas, pouco mais ou menos, como eu vi, numa terra destes remos, criar-se e prosperar um asilo de pobres.

D. Elvira era uma dama casada, que não tinha por seu marido aquele amor que dá ao peito de boa esposa arnês de aço contra as frechas de um cupido estranho. O marido, minimamente confiado em seus direitos, descuidou-se. Aqui está um mal enorme de onde vamos ver brotar uma enchente de benefícios à humanidade. O paradoxo demonstra-se deste teor:

D. Elvira, desconfiada dos seus servos e servas, tomou como medianeira dos seus ilícitos amores uma octogenária, que tinha quatro irmãos velhos, um marido velho, duas cunhadas velhas e cinco sobrinhos velhos, todos mais ou menos glutões que ela e alguns muito mais ociosos e patifes. D. Elvira ocorreu por algum tempo às precisões de toda esta tribo de imorais, em obséquio à interventora indispensável. Uma vez, D. Elvira orçou as despesas anuais desta pecaminosa obrigação, e pasmou do seu desperdício. As avultadas esmolas, de mais a mais, eram secretas, porque o descobrirem-se daria rasto à suspeita. Na terra havia dois jornais, e nenhum lhe tinha ainda chamado virtuosa, ao passo que a sua presumida rival D. Benedita por mais de uma vez tinha sido abençoada pelas gazetas, em nome do género humano, em virtude ter mandado aos presos os sobejos de um jantar dado no dia natalício do marido, a quem ela estimava tanto como a mim, quando souber que eu duvidei grandemente da virtude que os jornais lhe deram.

D. Elvira, despeitada, um dia que o marido entrara de ouvir o tocante sermão de um missionário acerca de caridade, comoveu-se, o pregou também sobre a mesma virtude teologal. O marido maravilhou-se, enterneceu-se, e ouviu com lágrimas a proposta da.9

fundação de um abrigo de velhos e velhas desamparados, com as economias da esposa.

Discutido o programa, escolhido o edifício, orçadas as obras de pedra e madeira, chegou a noticia às gazetas. No dia seguinte, ambos os jornais da terra retiraram os seus artigos de fundo para darem a circunstanciada notícia do caritativo instituto da virtuosíssima Srª D. Elvira. Ambos os periódicos, à compita, lhe deram estes regalados e maviosos nomes: pomba de beneficência; anjo da caridade; sacerdotisa da lei de Jesus; mãe dos pobres; bálsamo dos aflitos; esteio da decrepidez; lâmpada do Evangelho!

Lâmpada não gostou ela que lhe chamassem, porque já a sua rival D. Benedita costumava, não sabemos bem porquê, chamar-lhe lampadário; seria talvez porque D. Elvira usava muito de vidrilhos na cabeça, os quais brilhavam e cintilavam à maneira de lustre. Seria isso, mas D. Elvira aceitou os outros nomes com muita satisfação, e com grande faina, em menos de três semanas, recolheu os doze velhos que estavam no segredo da sua caridade. O asilo tinha capacidade para vinte e quatro. Oito dias depois o número estava preenchido.

E vai depois D. Benedita, ciosa da popularidade que a sua rival vingara, combina-se com o marido, e delineia um outro asilo com capacidade para quarenta e oito velhos.

Os jornais que tinham gasto com a outra senhora os adjectivos, substantivos e pronomes, empregaram em honra de D. Benedita as interjeições. O artigo de um começava por Ah!, o artigo do outro jornal por Oh! Fundou-se o asilo de Benedita. Como na terra não havia tanto velho, alguns marmanjolas de trinta anos, inimigos do trabalho, ou encanecidos nas cadeias, apresentaram certidão de idade de sessenta, e esconderam a sua bargantice sob as asas caritativas de D. Benedita, a quem as gazetas chamavam a santa!

Aconteceu que passados quatro anos D. Elvira mudasse de residência para outro mundo, onde os necrologistas disseram que ela ia receber a palma do triunfo. A caridadedo viúvo esfriou, e veio a um acordo com o marido da santa. Transformaram-se num os dois asilos, já abundantes de esmolas de outras senhoras virtuosas, e assim chegou este humaníssimo estabelecimento a um grau de prosperidade que não deixa nada a desejar, segundo asseveram as gazetas da terra.

Agora queira o meu leitor curvar-se um pouquinho, e contemplar a raiz desta árvore evangélica, que braceja tão ridentes frondes e tantos frutos de benção! Veja que herpes, que podridão, que bicharia lá vai!

E com este episódio respondi à sua pergunta; e peço perdão de ter ultrapassado as cinqüenta linhas prometidas.

II

Sinceramente, não sei corrigir-me do vicio das divagações. Há quem defenda e demonstre que o romance filosófico deve ser assim alinhavado a exemplo de Balzac, Sainte-Beuve, Stäel, etc. Na Alemanha então dizem-me que as novelas são tratados de metafísica. Se as minhas derramadas e extraviadas divagações fossem ao menos metafísica! Ser eu, sem dar tino de mim, um escritor subtil, imperceptível, impertinente, medonho e, acima de tudo, sério! Escritor sério! quando se agarra a fama pelas orelhas, e a gente a obriga a dar pregão da nossa seriedade de escritor, a glória vai procurar os nossos livros sérios às estantes dos livreiros, e lá se fica a conversar delicias com as brochuras imóveis, enquanto a traça não dá neles e nela.

O universo, e a humanidade principalmente, ganha muito com os romances sérios: exceptuam-se da humanidade os editores. Um meu amigo publicou seis volumes de novelas de costumes morais a ponto de toda a gente dizer que não havia tais costumes em Portugal. Recebeu muito abraço de umas pessoas que tinham ouvido contar que o meu amigo aconselhava aos filhos a obediência aos pais, aos próximos o mútuo amor e à humanidade o temor de Deus. As seis novelas eram glosas aos dez mandamentos.

Esperava-se a regeneração das velhas virtudes portuguesas, logo que o espírito público se balsamificasse da unção dos seis livros. Volvidos porém uns dois anos, as estatísticas iam delatando em aumento a criminalidade pública. Espanto no meu amigo autor e desanimação melancólica nos editores! Não obstante, a gente grave continuava a dizer que o meu amigo, continuando a escrever por aquele teor e jeito, endireitaria o mundo.

Os editores, porém, observando que o mundo se entortava cada vez mais para eles, recomendaram ao escritor moralista que vendesse a eles romances e a quem quisesse os sermões. Ora, deu-se o caso de que este meu amigo era eu em pessoa.

Apesar dos baixios em que foram a pique os meus livros sérios, teimo em ir neste rumo, discorrendo oportunamente acerca das grandes coisas e dos grandes factos, como se via do anterior capítulo.

Volvendo a concluir as reminiscências que tenho do antigo Afonso de Teive, resta-me juntar que o deixei em Lisboa no ano de 1851, e vim para o Minho, onde me disseram quem era Palmira, falando eu em Afonso de Teive a um cavalheiro de Braga.

Em primeiro lugar, Palmira tinha outro nome na sua terra. Fora educada num convento; saíra do convento para casar com o filho do seu tutor, moço idiota e abominável; e saíra de sua casa para a de Afonso de Teive, o qual por um acaso a vira nos arvoredos do Senhor do Monte, e de se verem à mesma hora em que ambos, embelezados no rumorejar de árvores e fontes, pediam ao Céu, ela o homem e ele a mulher do seu destino, resultou amarem-se tanto loto ali protestaram tacitamente imolar aos deuses infernais o marido idiota-destino misérrimo que não discrimina entre idiotas e atilados. Estas informações saíram-me com o tempo inexactas em muitos acidentes.

Não adiantou mais nada o cavalheiro bracarense; e isto já não era pouco para o meu espanto.

Nessa mesma época ocasionou-se-me conhecer o marido de Teodora, melhorada em Palmira. Andava ele na feira de S. Brás, em Landim, a tantos de Fevereiro, comprando bois e vendendo cevados. Não lhe vi no semblante leve sombra de dissabor, nem osso descarnado. Vi que ele comia à tripa forra um chorumento jantar de carnes frias, em que predominavam as galináceas. A sua direita estava uma mocetona espadaúda, escarlate, alta de peitos e refractária a toda a ideia de amor fino.

Disseram-me que esta moça apreciara devidamente o coração rejeitado por Teodora e assava com perfeição as louras galinhas de que o marido abandonado hauria vigor com que resistia briosamente à sua desgraça. Vi tudo isto, e fiquei satisfeito. A gente folga de ver assim remediadas as enfermidades da natureza. Quando em casos análogos não há vitima nem algoz e as personagens se acomodam na livre prática da liberdade dos cultos, bem que o vicio não deixa de ser vicio, é contudo consolador observarmos que uma certa filosofia é a melhor ortopedia para os aleijões de nascença de que a tona humanidade coxeia à dezanove séculos.

É o que eu sabia e mais nada.

Como Afonso caiu em esquecimento, nunca me deu para perguntar que era feito dele. As minhas desventuras não me davam férias para farejar as alheias. Se alguma vez me passou pela ideia a esposa infiel do feirante de bois e cevados, imaginei-a reconciliada com o marido, e assim duramente castigada pela Providência. Enquanto ao sedutor, apostaria que ele, depois de ter desbaratado a casa, andava por Lisboa obscuramente solicitando um lugar de amanuense de secretaria ou aspirante de alfândega, se é que não tinha ido para o Brasil, com o seu diploma de bacharel em Filosofia, coleccionar conchas por conta de algum museu de história natural.

Agora vê o leitor o meu assombro justificado! É inquestionavelmente este homem gordo de barbas intonsas, óculos e tamancos, o Afonso de Teive da Palmira de Lisboa.

Ele aqui vai subindo as escadas que nos levam à primeira sala. Cá estão em redor dele e de mim os oito filhos, que fazem bulha como trinta e dois. Creio que estou no pátio

de um mestre-escola à salda da aula. Dois destes ferozes meninos tiram-me da mão o guarda-sol, abrem-no e fecham-no repetidas vezes, arremetendo contra os irmãos, que se defendem espancando a murros as varas da umbela, que gemem e entortam.

Afonso gosta dever aquilo, e eu finjo também que não desgosto, nem que receio de ser esfarrapado por aqueles inocentes. Passamos ao seguinte repartimento da casa: era a sala de visitas, mobilada de alfaias antigas, cadeiras encouradas com chapas reluzentes, grandes bancas de pausanto, com gavetas atauxiadas de frisos metálicos e de marfim.

- A decoração diz com as minhas barbas! - reflectiu o risonho Afonso. -Aqui é tudo português -acrescentou, mandando inutilmente calar a gritaria dos meninos, que, a meu ver, legitimavam a raiva infanticida de Herodes. - Até a linguagem é portuguesa de lei: olha que estou falando vernaculamente, meu amigo. Há catorze anos que tu me convidavas urbanamente a não insultar os Lucenas e os Sonsas com as minhas francesias. Vem ver a minha livraria; se não queres primeiramente ver minha mulher...

- Tenho muita honra e satisfação em ser apresentado a tua senhora-atalhei eu.

- Joaquim!-disse Afonso ao filho mais velho-, vai ver onde está tua mãe; se estiver na cozinha, diz-lhe que temos cá um hóspede, que não exige vestido de seda.

Que apareça como estiver.

O menino saiu aos saltos de cegonha e Afonso ajuntou:

- Minha mulher é um anjo, cujas asas brancas se não mancham na felugem da cozinha. Eu gosto que ela por lá se entretenha, senão bate-me nestes brejeiros, que, como vês, são digníssimos de grossa pancadaria; mas eu amo estes diabinhos, que zombam de mim, e aturo-os, porque a dizer-te a verdade já me dói a cabeça quando não ouço esta algazarra. E tu, gostas de rapazes?

- Gosto muito, acho multo galantes os teus meninos; mas, se me dás licença, dir-teei que, em doenças de enxaqueca, o teu remédio não seria tão eficaz nas minhas como nas tuas. - Bem sei - atalhou Afonso. - Falta-te cabeça de progenitor, falta-te ouvido de pai que converte em música no coração esses berreiros, que nem no Inferno se poderiam receber como orquestra.

Não se fez esperar a esposa de Afonso.

Era uma senhora para não se descrever em romances e para admirar-se entre seus filhos.

É muito difícil e requer engenho grande tirar as semelhanças de uma mulher que se apresenta simples, modesta e, logo à primeira vista, imprópria de novela.

- Aqui está, e te apresento minha mulher-disse Afonso; e tomou-lhe dos braços a criança mais nova, que lhe saltara ao pescoço apenas a vira entrar na sala.

A esposa de Afonso de Teive respondeu acanhadamente ao meu palavroso cumprimento e tomou nos braços outro filho, que marinhava pelas costas da cadeira e mostrava a cabeça sobre o alto espaldar de couro.

Como se não ajeitava outra espécie de conversação, falei nos meninos, gabando-lhes a formosura e a esperteza. Afonso, que parecia não querer outra coisa, começou a contar-me anedotas das suas crianças entusiasticamente, algumas medianamente engraçadas e outras que eu não pude ouvir, à conta da bulha que os pequenos faziam em volta da mãe. No entanto, fiz reparo nela.

A senhora teria trinta e oito anos e formosura, por força natural, já decadente.

Trajava roupas largas, talhadas sem esmero, de droga ordinária; a beleza das

formas corporais denunciava-se, apesar do trajo descuidado. Semblante assinalado de tanta doçura e bondade não sei que o haja. Poderia chamar-se tristeza de santa àquele mavioso rosto pálido, quebrantado, e não sei quê de cismador; a expressão, porém, dos olhos brandos, do sorriso quase imperceptível, do colo um pouco inclinado em postura humilde, era nela a alegria exuberante de santa, sim, mas santa como esposa, santa como mãe, santidade de coração e alma repartidos entre Deus, esposo e filhos.

Pouquíssimas palavras lhe ouvi na meia hora que se deteve connosco. Conheci-lhe a inquietação cuidadosa no relancear de olhos ao marido.

- Bem sei - disse ele. - Vai, vai, que estás a pensar nas rabanadas e nos mexidos.

E ela, sorrindo, disse:

- Ainda me não apresentaste ao teu amigo como uma sofrível intérprete da arte de cozinha.

- Intérprete! - exclamou ele. - Tu és mais! Tu inventaste a ciência da cozinha, que ê muito mais sublime que arte. A tua modéstia é que te não deixa vir à luz do mundo, deste mundo cujas aspirações confinem todas para a gastronomia, com um tratado que, ao mesmo tempo, me desse orgulho de ser teu marido, a quem tu deves esta vida retirada, sem a qual te faltaria espaço e remanso para as tuas especulações, em resultado do que vamos hoje cear as mais ambrosíacas rabanadas que ainda os deuses coaram em suas celestiais gargantas. A aldeia, meu bom amigo - continuou Afonso voltando-se para mim com solene e galhofeira seriedade-, a aldeia dispensa ao espírito investigador um curso completo de ciências. A poesia do estômago, esta mais que todas poesia humanitária, não se dá nas cidades; lá come-se materialmente, aqui dá-se ao espírito a presidência em todas as matérias assimiláveis. Estou com o nosso admirável.

Castilho nestas memorandas palavras: "Longe de mim negar puerilmente às cidades suas vantagens sociais; digo só que para a poesia se não fizeram elas; e que, se nessa frágua algum engenho poético resiste, se aí canta, nunca há-de ser tanto, nem tão bom, nem tão inocente, nem tão perfumado, como seria sem dúvida nos campos." E a poesia que é? -acudiu Afonso cortando-me o riso com que eu celebrava o desconchavo da citação-, o que é a poesia senão aquele estado diáfano e sublimado da alma, que se está engolfando e gozando num invólucro sadio, depurado de ruins vapores, e puro de toda a exalação crassa de um estômago derrancado, azedo e entumecido? Pois hás-de tu saber que um estômago limpo é a fonte de todo o saber; e que a ciência construtora dos selectos alimentos do sangue é a que mais de perto se relaciona e ata com a arte de exprimir cadentemente os afectos da alma. Logo.

A esposa tinha saído quando esta abstrusa parlenda ia em meio, com ameaças de

longo fôlego.

Eu estava ouvindo, como quem sonha, Afonso de Teive. Andavam já a formigar-me suspeitas de que o homem estava o seu tanto ou quanto embrutecido na aldeia; e posto que a defesa do paradoxal consórcio entre estômago e poesia viesse absolvida por um sorriso faceto, nem assim me descapacitei de que o espirito de Afonso havia sofrido profundas comoções que de todo em todo o transfiguraram, ou lhe transfiguraram os objectos do mundo exterior. Eu não podia convencer-me de que a felicidade alterasse daquele modo o génio e maneiras de um homem, que eu jamais ouvira preconizar as regalias do estômago. Crer que o bem-estar da alma procedia de uma brutificação dela mesma e que o encontrar esse bem obrigava a desatar-se a gente da convivência de sujeitos policiados, de mulheres inspiradoras e das magnificências da arte, enfim, de tudo que todos buscam sofregamente, parecia-me absurdeza e falsificação no carácter de Afonso de Teive.

Preparei-me, pois, para devassar o secreto reviramento que transformou em poucos anos o espírito menos propenso que eu vira à paz dos campos e ao absoluto apartamento da sociedade.

Estava a ceia na mesa. Que enorme ceia comemos e que estrondoso ruído fizeram os meninos!

III

No dia seguinte ao domingo de festa que eu passei com Afonso reaparecera o sol magnífico da véspera.

Afonso de Teive mandou aparelhar um ordinário garrano, o qual, no dizer do dono, era um luxo nas suas cavalariças, visto que Afonso raras vezes saia para além dos muros da sua quinta. Da residência do reitor veio de empréstimo uma égua aparelhada de albardão e estribos de pau que pareciam alqueires. Depois do almoço cavalgámos, embrenhámo-nos por uns quinchosos pedregosos, e saímos à estrada entre Guimarães e Famalicão. Estava destinado um passeio de duas léguas. A égua abacial era tão firme no piso que eu dei de mão às rédeas, formei de um estribo o travesseiro e deitei-me no albardão, para admirar horizontalmente a natureza, maneira de ver que eu recomendo aos curiosos que ainda não viram assim a natureza. Ao meu lado ia Afonso de Teive, corcovado sobre o pescoço do garrano, que não obedecia à rédea, nem à espora: era preciso falar-lhe rijo, ou espertá-lo à paulada. E Afonso ria-se.

- Quem te viu e quem te vê, Afonso de Teive! - exclamei eu. - Quem te viu em Lisboa naquele cavalo preto, que levantava ferozmente as patas, como para te cuspir à calçada, e as baixava humildemente e- a tremer se tu lhe murmuravas uma palavra!

Quem te viu ao lado daquela Palmira...

Mal proferi esta palavra, Afonso cravou-me os olhos súbito abra abrasados do antigo fogo. Fingiu que sorria, querendo esconder a mutação do rosto. Voltou a face para onde eu não podia ver-lha; e, passa dos alguns segundos, murmurou:

- Lá se foi a alegria do nosso passeio.

- Porquê?! - acudi eu-, perdoa-me, se involuntariamente feri tua sensibilidade...

Eu cuidei que entre ti e o teu passado estava u abismo incompreensível aos olhos da tua saudade... Pensei que ao homem feliz eram indiferentes as recordações dos bons e dos ruins tempos da mocidade.

Afonso deteve-se a encarar-me, e disse de golpe:

- Tu ignoras a minha vida desde 1850?

- Juro-te que não sei nada da tua vida - respondi.

- E dessa mulher que chamaste Palmira?

- Nada sei, senão que...

- Diz o que sabes... que hesitação é a tua?

- Apenas soube que era casada, que saíra daqui para Lisboa contigo, e mais nada.

As pessoas a quem perguntei por ti eram os teus velhos amigos, que encolhiam os ombros e diziam: "Quem sabe lá!" Desde 1856 que te esqueci completamente. Argúi, se quiseres, a minha desmemoriada amizade; mas a verdade é esta. Eu sou, pouco mais ou menos, como todos os teus amigos.

Serenou-se o aspecto de Afonso de Teive, e fomos indo silenciosos, até apearmos em Guimarães na estalagem da Joaninha, que está neste mundo a competir em graças, limpeza e poesia com a Joaninha de Almeida Garrett, nas Viagens.

Jantámos, saímos a ver a terra, que eu nunca vira em Dezembro, enxergámos à luz crepuscular umas famosas damas da velha cidade que resistiam ao frio da tarde encostadas aos peitoris das suas janelas; entrevimos galantíssimos olhos de outras através das rótulas, que ainda agora nos estão contando virtudes de outras eras, virtudes que precisavam de rótulas, como as belas flores exóticas precisam de estufa.

Voltámos à estalagem, tomámos chá e uns pastelinhos que hão-de ir futuro além relembrando o mavioso nome da Srª Joaninha. Depois pedimos duas camas num quarto, e tivemos a satisfação de ver que nos davam um quarto com cinco camas, ou coisa assim.

- Há dez anos - disse Afonso -, é esta a primeira vez que durmo fora de minha casa. Acho-me só e estranho. Penso que estou a mil léguas de minha mulher e de meus filhos.

- Eu vou mandar aparelhar as cavalgaduras - disse eu - e vamos embora, que está magnífica a noite.

- Não - redarguiu Afonso -, que preciso estar a sós contigo, uma noite. Debaixo das telhas que cobrem minha mulher, os meus lábios não proferem o nome de outra. Ela já sabe que eu fico em Guimarães. Falarei, e tu ouvirás, ou dormirás. Falarei do homem que conheceste em 1851, para explicar o homem de 1863. Hás-de ver que lamaçais atravessei, que ressacas afrontei, como eu me bati de peito com as puas de ferro da desgraça, para chegar ao abrigo onde me encontraste. Não pasmarás então da minha velhice precoce; ser-te-á assombro a minha vida. Se és infeliz, consolar-te-ás. Se o não és, recearás sê-lo.

A noite, como sabem, era de Dezembro.

As onze horas consumiu-se de todo a vela. Afonso de Teive continuou a falar às escuras. Ao rasgar da manhã, abrimos as portadas, e Afonso falava ainda.

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