Carlos relera, com sôfrega ansiedade, a singela expansão de uma alma que, talvez, nunca se abrira, se a não rasgasse o espinho de um martírio surdo. Henriqueta não escrevia assim uma carta a um homem, que pudesse consolá-la. Afeita a gemer no silêncio, e na solidão, tornava-se como egoísta das suas dores, e supunha que divulgá-las era esfolhar a mais bela flor da sua coroa de mártir. Escreveu, porque a sua carta era um mito de segredo e publicidade ; porque a sua aflição não rastejava pelos queixumes lamuriantes e triviais de um grande número de mulheres, que não choram nunca a viuvez do coração, e lastimam sempre a demora das segundas núpcias ; escreveu enfim, porque a sua dor, sem desonrar-se com uma publicidade estéril, interessava um coração, esposava uma simpatia, um sofrimento simultâneo, e, quem sabe mesmo, se uma nobre admiração ! Há mulheres vaidosas „Ÿ deixem-me assim dizer „Ÿ da fidalguia do seu sofrer. Risonhas para o mundo, é muito sublime aquela angústia represada que só pode extravasar os sobejos do seu fel em uma carta anónima. Lagrimosas para si, e fechadas no círculo estreito que a sociedade lhes traça como o compasso inexorável das conveniências, essas sim, são duas vezes anjos despenhados !
Quem pudesse receber na taça de suas lágrimas algumas que aí se choram, e que a opulência material não enxuga, experimentaria consolações de um sabor novo. O padecimento que se esconde impõe o respeito religioso do augusto mistério desta religião universal, simbolizada pelo sofrimento comum. O homem que pudesse verter uma gota de orvalho na aridez de algum coração, seria o sacerdote providencial no tabernáculo de um espírito superior, que velasse a vida da terra para que tamanhas agonias não fossem estéreis na vida do céu. Não há na terra mais gloriosa missão.
Carlos, portanto, sentiu-se feliz deste orgulho santo que enobrece a consciência do homem que recebe o privilégio de uma confidência. Esta mulher, dizia ele, é para mim um ente quase fantástico. Alívios quais são os que eu posso dar-lhe ?… Nem ao menos escrever-lhe !… E ela… Em que fará consistir o seu prazer ?! Deus o sabe ! Quem pode explicar, e mesmo explicar-se a singularidade de um proceder, às vezes, inconcebível ?
oooOOOooo
No correio próximo, recebeu Carlos a segunda carta de Henriqueta :
“Que imaginaste, Carlos, depois da leitura da minha carta ? Adivinhaste o resto, com presteza natural. Recordaste mil aventuras deste género, e amoldaste a minha história às legítimas consequências de todas as aventuras. Julgaste-me abandonada pelo homem com quem fugira, e chamaste a isto, talvez, uma dedução contida nos princípios.
Pensaste bem, amigo, a lógica da desgraça é essa, e o contrário dos teus juízos é o que se chama sofisma, porque eu estou em pensar que a virtude é o absurdo da lógica dos factos, é a heresia da religião das sociedades, é a aberração monstruosa das leis, que regem o destino do mundo. Achas-me metafísica de mais ? Não te impacientes. A dor refugia-se nas abstracções, e encontra melhor pábulo na Loucura de Erasmo, que nas sisudas deduções de Montesquieu.
Minha mãe estava reservada para uma grande provação ! Amparou-a Deus naquele golpe, e permitiu-lhe uma energia que não era de esperar. Vasco de Seabra bateu às portas de todas as igrejas de Lisboa, para me apresentar, como sua mulher, ao cura da freguesia, e achou-as fechadas. Éramos perseguidos, e Vasco não contava com a sua superioridade sobre meu irmão, que lhe fizera certa e infalível a morte, onde quer que a fortuna lho deparasse.
Fugimos de Lisboa para Espanha. Um dia entrou Vasco, alvoroçado, pálido e febril daquela febre de medo, que, realmente, era, até então, a única face prosaica do meu amante. Emalámos a toda a pressa, e partimos para Londres. É que Vasco de Seabra vira meu irmão em Madrid.
Vivemos em um bairro retirado de Londres. Vasco tranquilizou-se, porque lhe afiançaram de Lisboa a volta de meu irmão, que perdera as esperanças de encontrar-me.
Se me perguntas como era a vida íntima destes dois fugitivos, aos quais não faltava condição alguma das aventuras românticas de um rapto, dir-ta-ei em poucas linhas.
O primeiro mês das nossas núpcias de emboscada foi um sonho, uma febre, uma anarquia de sensações que, levadas ao extremo do gozo, pareciam tocar as raias do sofrimento. Vasco parecia-me um Deus, com as sedutoras fraquezas de um homem ; queimava-me com o seu fogo, divinizava-me com o seu espírito ; levava-me de mundo em mundo à região dos anjos onde a vida deve ser o êxtase, o arroubamento, a alienação com que a minha alma se derramava nas sensações ardentíssimas daquele homem.
No segundo mês, Vasco de Seabra disse-me pela primeira vez “que era muito meu amigo”. O coração pulsava-lhe vagaroso, os olhos não faiscavam electricidade, os sorrisos eram frios... Os meus beijos já os não aqueciam naqueles lábios ! ‘Sinto por ti uma sincera estima.’ Quanto isto se diz, depois de um amor vertiginoso, que não sabe as frases triviais, a paixão está morta. E estava…
Depois, Carlos, falávamos em literatura, analisávamos as óperas, discutíamos os méritos dos romances, e vivíamos em academia permanente, quando Vasco me não deixava quatro, cinco e seis horas entregue às minhas inocentes recreações científicas.
Vasco cansara-se de mim. A consciência afirmou-me esta verdade atroz. Sufoquei a indignação, as lágrimas e os gemidos. Sofri sem limites. Abrasou-se-me na alma um inferno que me coava fogo nas veias. Não houve nunca mulher assim desgraçada !
E vivemos assim dezoito meses. A palavra “casamentofoi banida de nossas curtas conversações… Vasco desquitava-se de compromissos, que ele chamava parvos. Eu mesma, de bom grado, o remia de ser o meu escravo, como ele intitulava o néscio que se deixava algemar às obscuras superstições do sétimo sacramento… Foi aí que Vasco de Seabra encontrou a Sofia que te apresentei no Real Teatro de S. João, na primeira ordem.
Comecei então a pensar em minha mãe, em meu irmão, na minha honra, na minha infância, na memória deslustrada de meu pai, na tranquilidade de minha vida até ao momento em que me atirei à lama e salpiquei com ela a face da minha família.
Peguei na pena para escrever a minha mãe. Escrevera a primeira palavra, quando compreendi o vexame, a desgradação e a vilania com que ousava apresentar-me àquela virtuosa senhora, com a face manchada de nódoas, contagiosas. Repeli com nobreza esta tentação, e desejei, naquele instante, que minha mãe me julgasse morta.
Em Londres vivíamos numa hospedaria, depois que Vasco perdeu o medo a meu irmão. Viera aí hospedar-se uma família portuguesa. Era o visconde do Prado, e sua mulher, e uma filha. O visconde relacionou-se com Vasco, e a viscondessa e sua filha visitaram-me, tratando-me como irmã de Vasco.
Agora, Carlos, esquece-te de mim, e satisfaz a tua curiosidade na história desta gente, que já conheceste no camarote da segunda ordem.
Mas não posso agora dispor de mim… Saberás, alguma vez, a razão por que não pude continuar esta carta.
Adeus, até outro dia.
“Cumpro religiosamente as minhas promessas. Tu não avalias o sacrifício que faço. Não importa. Como não quero cativar a tua gratidão, nem, mesmo ainda, mover a tua piedade, basta-me a consciência do que sou para ti, que é (medita bem) o mais que posso ser…
A história… não é assim ? Principia agora.
António Alves era um pobre amanuense do escritório de um tabelião de Lisboa. O tabelião morreu, e António Alves, privado dos escassos lucros de amanuense, lutou com a fome. A mulher por um lado com a filhinha ao colo, e ele pelo outro com as lágrimas da indigência, conseguiram algumas moedas, e com elas a passagem do pobre marido para o Rio de Janeiro.
Foi, e deixou entregues à Providência a mulher e a filha.
Josefa esperava todos os dias carta de seu marido. Nem carta, nem um indício da sua existência. Julgou-se viúva, vestiu-se de preto e viveu de esmolas, pedidas à noite na praça do Rossio.
A filha chamava-se Laura, e crescera bela, não obstante as angústias da fome, que transformam a formosura do berço.
Aos quinze anos de Laura, já sua mãe não mendigava. A desonra proporcionara-lhe abundância que uma honrosa mendicidade lhe não dera. Laura era amante de um rico, que cumpria fielmente com a mãe as condicionais estipuladas na escritura de venda da filha.
Um ano depois, Laura explorava outra mina. Josefa não sofria com as vicissitudes da filha, e continuava a gozar os fins da vida à sombra de tão fecunda árvore.
A indigência e a sociedade fizeram-lhe compreender que só há desonra na fome e na nudez.
Outro ano depois, a radiosa Laura declarou-se o prémio do cavaleiro que mais airoso entrasse no torneio.
Concorreram muitos gladiadores, e parece que todos foram premiados, porque todos esgrimiam galhardamente.
Desgraça foi para Laura, quando os melhores campeões se retiraram fatigados da liça. Os que vieram depois eram bisonhos no jogo das armas, e viram que a dama das justas já não valia a pena de perigosos botes de lança e de arreios muito custosos de pedraria e ouro.
Pobre Laura, apeada do seu pedestal, olhou-se a um espelho, viu-se ainda bela com vinte e cinco anos, e perguntou à sua consciência a baixa do preço com que corria no leilão de mulheres. A consciência respondeu-lhe que descesse da altura das suas ambições, que viesse para onde a chamava a lógica de sua vida, e continuaria a ser rainha num reino de segunda ordem, já que a exautoravam de um trono que tivera na primeira.
Laura desceu, e encontrou uma sociedade nova. Aclamaram-na soberana, reuniu-se uma corte tumultuosa na antecâmera desta odalisca fácil, e não houve grande nem pequeno a quem se baixassem os reposteiros do trono.
Laura viu-se um dia abandonada. Viera uma outra disputar-lhe a sua legitimidade. Os cortesãos voltaram-se para o sol nascente, e apedrejaram, como os Incas, o astro que se escondia para alumiar os antípodas de um outro mundo.
Os antípodas de um outro mundo eram uma sociedade inculta, sem a inteligência da arte, sem o culto à formosura, sem as opulências que o ouro cria nas altas regiões da civilização, e, finalmente, sem algum dos atributos que Laura amara tanto nos mundos onde fora soberana duas vezes.
A infeliz tinha descido ao derradeiro grau de aviltamento ; mas era bela ainda. Sua mãe, enferma num hospital, pedia a Deus, como esmola, a sua morte. A desgraçada foi punida.
No hospital, viu passar sua filha diante do seu leito ; pediu que a deitassem ao pé de si ; o enfermeiro riu-se, e entrou com ela noutra enfermaria, onde o anjo do pudor e das lágrimas cobriam o rosto na presença da úlcera mais esquálida e mas lastimosa do género humano.
Laura principiava a sondar a profundidade do abismo em que caíra.
Sua mãe recordava as fomes de outro tempo, quando sua filha, virgem ainda, chorava e suplicava, com ela, uma esmola ao passageiro.
As privações de então eram semelhantes às privações de agora, com a diferença, porém, que a Laura de hoje, desonrada e repelida, não podia já prometer o futuro da Laura de então.
Agora, Carlos, vejamos o que é o mundo, e pasmemos diante das evoluções
ginásticas dos acontecimentos.
Aparece em Lisboa um capitalista, que chama a atenção dos capitalistas, a consideração do Governo, e, por via de regra, desafia inimizades políticas e invejas, que procuram o seu princípio de vida para denegrir-lhe o luzimento da sua afrontosa opulência.
Este homem compra uma quinta na província do Minho, e, mais barato ainda, compra o título de visconde do Prado.
Um jornal de Lisboa, que traz entre os dentes venenosos da política o pobre visconde, escreve um dia um artigo, onde se acham, entre muitas, as seguintes alusões :
‘O Sr. Visconde do Prado adscreveu à imoralidade do Governo a imoralidade de sua fortuna. Como ela foi adquirida, di-lo-iam as costas de África se os sertões contassem os horrorosos dramas da escravatura, em que o Sr. Visconde foi herói
O Sr. Visconde do Prado era António Alves há 26 anos, e a pobre mulher que deixou em Portugal, com uma tenra filhinha ao colo, ninguém dirá em que rua morreu de fome sobre as lajes, ou em que água-furtada curtiam ambas as agonias da fome, enquando o Sr. Visconde medrava cinicamente na hidropisia do ouro, com que hoje vem arrotar moralidades no teatro das suas infâmias de esposo e de pai
Melhor fora que o Sr. Visconde indagasse onde repousam os ossos de sua mulher e de sua filha, e nos pusesse aí um padrão de mármore, que possa atestar ao menos o remorso de um infame contrito…’
Este insulto directo, e fundamentado, ao visconde do Prado, fez ruído em Lisboa. As edições do jornal espalharam-se, e leram-se e comentaram-se com frenética maldade.
Às mãos de Laura chegou este jornal. Sua mãe, ouvindo lê-lo, delirou. A filha cuidou que sonhava ; e a situação de ambas perderia muito se eu tentasse roubar-lhe as cores vigorosas da tua imaginação.
No dia seguinte, Josefa e Laura entravam no palacete do visconde do Prado. O porteiro respondeu que S. Exa não estava ainda a pé. Esperaram. Às 11 horas saía os visconde, e, ao saltar para a carruagem, viu duas mulheres que se aproximavam. Meteu a mão ao bolso do colete, e tirou doze vinténs que lançava na mão de uma das duas mulheres. Olhou admirado para elas, quando viu que a esmola lhe era recusada.
- Que querem„Ÿ interrompeu ele, com soberba indignação.
- Quero ver meu marido que não vejo há 26 anos…„Ÿ respondeu Josefa.
O visconde estacou ferido de um raio. O suor gotejava-lhe na testa em bagas frias. Laura aproximou-se, em atitude de beijar-lhe a mão…
- Pois quê ?…„Ÿ interpelou o visconde.
- Sou sua filha…„Ÿ respondeu Laura com humildoso respeito.
O visconde, aturdido e parvo, voltou as costas à carruagem, e mandou às duas mulheres que o seguissem.
O resto no correio seguinte. Adeus, Carlos.
“Carlos, tenho quase tocado a extrema desta minha peregrinação. A minha Ilíada está no último canto. Quero dizer-te que é esta a minha penúltima carta.
Não sou tão independente como pensava. A não serem os poetas, ninguém gosta de contar as suas mágoas ao vento. É belo dizer-se que um gemido nas asas da brisa vai da terra em dorido suspirar até ao coro dos anjos. É bonito conversar com a fonte suspirosa, e contar à avezinha gemedora os segredos do nosso pensar. Tudo isto é delicioso de uma puerilidade inofensiva ; mas eu, Carlos, não tenho alma para estas coisas, nem engenho para estes artifícios.
Vou contando as minhas penas a um homem que não pode zombar de minhas
lágrimas, sem trair a generosidade do seu coração, e
a sensibilidade do talento. Sabes qual é o meu egoísmo, o meu
estipêndio neste trabalho, nesta franqueza de alma, que ninguém
te pode disputar como único em merecê-la ? Eu te digo. Quero
uma carta tua, dirigida a Angélica Micaela. Diz-me o que a tua alma
te disse ; não tenhas pejo em denunciá-la ; associa-te um momento
à minha dor, e dize-me o que farias se tivesses sido Henriqueta.
Aqui tens o prólogo desta carta ; agora vamos espreitar o lance extraordinário daquele encontro, em que deixamos o visconde e a… Como hei-de chamar-lhe ?… A viscondessa, e a sua Exma Filha D. Laura.
- Pois é possível existires ?„Ÿ perguntava o visconde, sinceramente admirado, a sua mulher.
- Pois não me conheces, António ?„Ÿ respondia ela com estúpida naturalidade.
- Tinham -me dito que morreras…„Ÿ tornou ele com desasada hipocrisia. „Ÿ “Tinham-me dito, há dezessete anos, que tu e nossa filha tínheis sido vítimas da cólera-morbo…
- Felizmente que lhe mentiram„Ÿ interrompeu Laura com afectada meiguice. „Ÿ “Não é que lhe tínhamos rezado por alma, e nunca deixámos de pronunciar o seu nome em saudosas lágrimas.
- Como tendes vivido ?„Ÿ perguntou o visconde.
- Pobre, mas honradamente„Ÿ respondeu Josefa, dando-se uns ares austeros, e pondo os olhos em branco, como quem invoca o céu por testemunha.
- Ainda bem !„Ÿ tornou o visconde „Ÿ “mas que modo de vida tem sido o vosso ?
- O trabalho, meu querido António, o trabalho de nossa filha tem sido o amparo da sua honra e da minha velhice. Tu abandonastes-nos com tamanha crueldade !… Que mal te fizemos-nós ?
- Nenhum, mas não vos disse eu que vos considerava mortas ?„Ÿ respondeu o visconde a sua mulher, que tivera a habilidade de arrancara duas volumosas lágrimas, tanto a propósito.
- O passado, passado„Ÿ disse Laura, afagando carinhosamente as mãos paternas, e dando-se uns ares de inocência capazes de iludir S. Simão Estilista. „Ÿ “Quer o pai saber(prosseguiu ela com sentimento) “qual tem sido a minha vida ? Olhe, meu pai, não se envergonhe da posição social em que encontra sua filha… Tenho sido modista, tenho trabalhado incessantemente… Tenho lutado com as tentações da penúria, e tenho feito consistir em minhas lágrimas o meu triunfo…
- Bem, minha filha„Ÿ interrompeu o visconde com sincera contrição „Ÿ “esqueçamos o passado… De hora em diante será a abundância o prémio da tua virtude… Ora diz-me : o mundo sabe que tu és minha filha ?… Disseste a alguém que era teu marido, Josefa ?
- Não, meu pai.„Ÿ “Não, meu Antoninho.„Ÿ responderam ambas, como se tivessem previsto e calculado as perguntas e as respostas.
- Pois bem,„Ÿ continuou o visconde „Ÿ “vamos a conciliar com o mundo as nossas posições presentes, passadas e futuras. De hora avante, Laura, és minha filha, és filha do visconde do Prado, e não podes chamar-te Laura. Serás Elisa, compreendes-me ? É necessário que te chames Elisa…
- Sim, meu pai… Eu serei Elisa„Ÿ atalhou a inocente modista com impetuosa alegria.
- É necessário abandonar Lisboa„Ÿ prosseguiu o visconde.
- Sim, sim, meu pai… Vivamos num sertão… Quero gozar, sozinha, na presença de Deus a felicidade de ter pai…
- Não iremos para um sertão… Vamos para Londres ; mas… atendam-me… é preciso que ninguém as veja, nestes primeiros anos, principalmente em Lisboa… A minha posição actual é muito melindrosa. Tenho muitos inimigos, muitos invejosos, muitos infames, que procuram perder-me no conceito que pude comprar com o meu dinheiro. Estou farto de Lisboa ; partiremos nos primeiro paquete… Josefa, repara em ti, e vê que és viscondessa do Prado. Elisa, a tua educação foi desgraçadamente mesquina para te poderes mostrar qual eu quero que sejas na alta sociedade. Voltaremos um dia, e terás então suprido com a educação prática a rudeza que indispensavelmente tens.
Não progrido, neste diálogo, Carlos. O programa do visconde foi rigorosamente cumprido.
Aqui tens os precedentes que prepararam o meu encontro, em Londres, com esta família. Vasco de Seabra, quando viu, pela primeira vez, a filha do visconde atravessar um corredor do hotel, fixou-a com pasmo, e veio dizer-me que acabava de ver, elegantemente trajada, uma mulher que conhecera em Lisboa, chamada Laura.
Acrescentou várias circunstâncias da vida desta mulher, e acabou por mostrar vivos desejos de saber o tolo opulento a quem tal mulher estava associada.
Vasco pediu a lista dos hóspedes, e viu que os únicos portugueses eram Vasco de Seabra e sua irmã, e o visconde do Prado, a sua mulher, e sua filha D. Elisa Pimentel.
Redobrou o seu pasmo, e chegou a convencer-se de uma ilusão.
No seguinte dia, o visconde encontrou-se com Vasco, e alegrou-se de ter encontrado um patrício, que lhe explicasse aqueles gritos bárbaros dos serventes do hotel, que lhe davam água por vinho. Vasco não duvidou em ser intérprete do visconde, contanto que as suas luzes em língua inglesa pudessem chegar ao esconderijo donde nunca mas vira sair a suposta Laura.
Correram as coisas à medida do seu desejo. Na noite desse dia, fomos convidados para tomar chá, na saleta do visconde. Eu hesitei, sem saber ainda se Laura seria familiar do visconde. Vasco, porém, despreveniu-me deste temor, afiançando-me que se tinha iludido com a semelhança das duas mulheres.
Fui. Elisa pareceu-me uma menina bem educada. Nunca o artifício tirou maior partido das maneiras adquiridas em hábitos libertinos. Elisa era uma mulher de corte, com os ademanes fascinadores dos salões, onde a imoralidade do coração passeia de braço dado com a ilustração do espírito. O som da palavra, a escolha da frase, a compostura airosa da mímica, o tom sublime em que as suas ideias eram voluptuosamente lançadas na torrente de uma conversação animada, tudo isto me fez crer que Laura era a primeira mulher que eu tinha encontrado, talhada à feição do meu espírito.
Quando agora pergunto à minha consciência como estas transições se fazem, descreio da educação, lamento os anos consumidos no cultivo da inteligência, e chego a persuadir-me que a escola da devassidão é a antecâmara por onde mais fácil se entra no mundo da graça e da civilização.
Perdoa-me o absurdo, Carlos ; mas há mistérios na vida que só pelo absurdo se explicam.
“Li a tua carta, Carlos, com os olhos cheios de lágrimas, e o coração de reconhecimento. Não esperava tanto da tua sensibilidade. Fiz-te a injustiça de te julgar infeccionado deste marasmo de egoísmo que entorpece o espírito, e calcina o coração. E, demais, supunha-te insensível pelo facto de seres inteligente. Eis aqui um disparate, que eu não ousaria balbuciar na presença do mundo. O que vale é que as minhas cartas não serão lidas pelas mediocridades, que se acham em concílio permanente para condenar, em nome de não sei que tolas conveniências, as heresias do génio.
Deixa-me dizer-te francamente o juízo que eu formo do homem transcendente em génio, em estro, em fogo, em originalidade, finalmente em tudo isso que se inveja, que se ama, e que se detesta, muitas vezes.
O homem de talento é sempre um mau homem. Alguns conheço eu que o mundo proclama virtuosos e sábios. Deixá-los proclamar. O talento não é sabedoria. Sabedoria é o trabalho incessante do espírito sobra a ciência. O talento é a vibração convulsiva de espírito, a originalidade inventiva e rebelde à autoridade, a viagem extática pelas regiões incógnitas da ideia. Agostinho, Fénelon, Madame de Staël e Bentham são sabedorias. Lutero, Ninon de Lenclos, Voltaire e Byron são talentos. Compara as vicissitudes dessas duas mulheres e os serviços prestados à humanidade por esses homens, e terás encontrado o antagonismo social em que lutem o talento com a sabedoria.
Porque é mau o homem de talento ? Essa bela flor porque tem no seio um espinho envenenado ? Essa esplêndida taça de brilhantes e ouro porque é que contém o fel, que abrasa os lábios de quem a toca ?
Aqui tens um tema para trabalhos superiores à cabeça de uma mulher, ainda mesmo reforçada por duas dúzias de cabeças académicas !
Lembra-me ouvir dizer a um doido que sofria por ter talento. Pedi-lhe as circunstâncias do seu martírio sublime, e respondeu-me o seguinte com a mais profunda convicção, e a mais tocante solenidade filosófica : os talentos são raros, e os estúpidos são muitos. Os estúpidos guerreiam barbaramente o talento : são os vândalos do mundo espiritual. O talento não tem partido nesta peleja desigual. Foge, dispara na retirada um tiroteio de sarcasmos pungentes, e, por fim, isola-se, segrega-se do contacto do mundo, e curte em silêncio aquele fel de vingança, que, mais cedo ou mais tarde, cospe na cara de algum inimigo, que encontra desviado do corpo do exército.
Ai tem, „Ÿ acrescentou ele „Ÿ a razão por que o homem de talento é perigoso na sociedade. O ódio inspira-lhe e eloquência da tração. A mulher que lhe ouve o astucioso hino das suas apaixonadas lamúrias, acredita-o, abandona-se, perde-se, e retira-se, por fim, gritando contra o seu algoz, e pedindo à sociedade que grite com ela.
Agora, diz-me tu, Carlos, até que ponto devemos acreditar este doido. Eu por mim não me satisfaço com o seu sistema, todavia sinto-me propensa a aperfeiçoar o prisma do doido, até encontrar as cores inalteráveis do juízo.
Seja o que for, eu creio que és uma excepção e não sofra com isto a tua modéstia. A tua carta fez-me chorar, e acredito que sofrias, escrevendo-a. Hás-de continuar a visitar-me espiritualmente na minha Tebaida, sem cilícios, sim ?
Agora conclua-se a história, que leva seus visos de folhetim filosófico, moral, social, e não sei que mais por aí se diz, que não vale nada.
Contraí amizade com a filha do visconde do Prado. Não era ela, porém, tão íntima que me levasse a declarar-lhe que Vasco de Seabra não era meu irmão. Por ele me fora imposto, como preceito, o segredo de nossas relações. Bem longe estava eu de compreender este zelo de virtuosa honestidade, quando a mão de um demónio me tirou a venda dos olhos.
Vasco amava Laura !! Eu pus dois pontos de admiração, mas acredita que foi uma urgência retórica, uma composição artística, que me obrigou a admirar-me, escrevendo, de coisas que me não admiram, pensando.
Que é o que levou tão depressa este homem a aborrecer-me, pobre mulher, que desprezei o mundo, e me desprezei a mim própria para satisfazer-lhe o capricho de alguns meses ? Foi uma miséria que ainda hoje me envergonha, suposto que esta vergonha devesse ser um reflexo das faces dele… Vasco amava a filha do visconde do Prado, a Laura de alguns meses antes, porque a Elisa de hoje era a herdeira de não sei quantos centos de contos de réis.
Devo envergonhar-me de ter amado este homem, não é verdade, Carlos ? Não devo sofrer um instante a perda de um miserável, que eu vejo daqui com uma grilheta de ouro algemada a uma perna, tapando em vão os ouvidos para não ouvir-lhe o ruído… a sentença do forçado que o segue até ao fim de uma existência farta de opróbrio, e célebre de infâmias !
E não sofro, Carlos ! Tenho aqui no seio uma úlcera que não tem cura… Choro, porque é intensa a dor que ela me causa… Mas, olha, não tenho lágrimas que não sejam remorsos… Não tenho tenho remorsos que não sejam picados pela afronta que fiz a minha mãe, e a meu irmão… Não me dói o meu próprio aviltamento, não ! Se em minha alma cabe algum entusiasmo, algum desejo, é o entusiasmo da penitência, é o desejo de torturar-me…
Fugi tanto da história, meu Deus !… Desculpa estes desvios, meu paciente amigo !… Eu queria correr muito sobre o que falta, e hei-de consegui-lo, porque não posso parar, e temo de me converter em estátua, como a mulher de Loth, quando olho com atenção para o meu passado…
O visconde do Prado convidou Vasco de Seabra a ser seu genro. Vasco não sei como recebeu o convite ; o que eu sei é que os vínculos destas relações estreitaram-se muito, e Elisa, desde esse dia, expandiu-se comigo em intimidades do seu passado, todas mentirosas. Estas intimidades eram o prólogo de outra que tu avaliarás. Foi ela a própria que me disse que esperava ainda poder chamar-me irmã ! Isto é uma atrocidade sublime, Carlos ! Diante dessa dor calam-se todas as agonias possíveis ! O insulto não podia ser mais despedaçador ! O punhal não podia entrar mais dentro no virtuoso coração da pobre amante de Vasco de Seabra !… Agora, sim, que eu quero a tua admiração, meu amigo ! Tenho direito à tua compaixão, se não podes estremecer de entusiasmo diante do heroísmo de uma mártir ! Ouvi este anúncio dilacerante !… Senti fugir-me o entendimento… Aquela mulher sufocou-me a voz na garganta… Horrorizei-me não sei se dela, se dele, se de mim… Nem uma lágrima !… Acreditei-me doida… Senti-me estúpida daquele idiotismo pungente que faz chorar os estranhos, que nos vêem nos lábios um sorriso de imbecilidade…
Elisa parece que recuou aterrada da expressão da minha fisionomia… Fez-me não sei que perguntas… Não me lembro mesmo se aquela mulher permaneceu diante de mim… Basta !… Não posso prolongar esta situação…
Na tarde desse mesmo dia, chamei uma criada da hospedaria. Pedi-lhe que me vendesse algumas jóias de pouco valor que eu possuía ; eram minhas ; minhas não… Eram um roubo que eu fiz a minha mãe.
Na manhã do dia seguinte, quando Vasco, depois do almoço, visitava o visconde do Prado, escrevi estas linhas :
“Vasco de Seabra não pode gloriar-se de ter desonrado Henriqueta
de Lencastre. Esta mulher sentia-se digna de uma coroa de virgem, virgem do
coração, virgem na sua honra, quando abandonava um vilão,
que não pôde infectar da sua infâmia o coração
da mulher que arrastou ao abismo da sua lama, sem lhe salpicar a cara. Foi
a Providência que a salvou !
Deixei este escrito sobre as luvas de Vasco, e fui à estação
dos caminhos de ferro.
Dois dias depois entrava um paquete.
Ao ver a minha pátria, cobri o rosto com as mãos, e chorei… Era a vergonha e o remorso. Diante do Porto senti uma inspiração do céu. Saltei numa catraia, e pouco depois achava-me nesta terra, sem um conhecimento, sem o apoio e sem subsistência para muitos dias.
Entrei em casa de uma modista, e pedi obra. Não ma negou. Aluguei uma água-furtada, onde trabalho há quatro anos ; onde, há quatro anos, comprimo bem aos rins, segundo a linguagem antiga, os cilícios do meu remorso.
Minha mãe e meu irmão vivem. Julgam-me morta, e eu peço a Deus que não haja um indício da minha vida. Sê-me tu fiel, meu generoso amigo, não me denuncies, pela tua honra e pela sorte de tuas irmãs.
Tu sabes o resto. Ouviste, no teatro, Elisa. Foi ela a que me disse que o seu marido a abandonara, chamando-lhe Laura. Aquela está punida…
Sofia… (lembras-te de Sofia ?) Essa é uma pequena aventura, que aproveitei para tornar menos insípidas aquelas horas em que me acompanhaste… Foi uma rival que não honra ninguém… Uma Laura com os respeitos públicos, e as considerações que se barateiam a corpos ulcerosos, contando que se vistam de veludos matizados. Ainda eu era feliz, quando o infame amante dessa mulher me dava aquele anel, que viste, como oblação de sacrifício que me fazia de um rival…
Escreve-me.
Hás-de ouvir-me no próximo Carnaval.
Por último, Carlos, deixa-me fazer-ta uma pergunta : Não me achas mais defeituosa que o nariz daquela andaluza da história que te contei ?
É natural a exaltação de Carlos, depois de erguido
o véu, em que se escondiam os mistérios de Henriqueta. Alma
apaixonada pela poesia do belo e pela poesia da desgraça, Carlos não
teve nunca impressão na vida que mais lhe incendiasse uma paixão.
As cartas a Ângela Micaela eram o desafogo do seu amor sem esperança.
Os mais ferventes êxtases da sua alma de poeta, imprimiu-os naquelas
cartas escritas debaixo de uma impressão que lhe roubava a tranquilidade
do sono, e o refúgio de outros afectos.
Henriqueta respondera concisamente às explosões de um delírio que nem sequer a fazia tremer pelo seu futuro. Henriqueta não podia amar. Arrancaram-lhe pela raiz a flor do coração. Esterilizaram-lhe a árvore dos belos frutos, e envenenaram-lhe de sarcasmo e ironia os instintos do carinho brando, que acompanham a mulher até a sepultura.
Carlos não podia suportar uma repulsa nobre. Persuadira-se que havia um escalão moral para todas. Confiava no seu ascendente em não sei que mulheres, entre as quais lhe não fora penoso nunca fixar o dia do seu triunfo.
Homens assim, quando encontram um estorvo, apaixonam-se seriamente. O amor-próprio, angustiado nos apertos de uma impossibilidade invencível, adquire uma nova feição, e converte-se em paixão, como as paixões primeiras, que nos sopram a tempestade no límpido lago da adolescência.
Carlos, em último recurso, precisava saber onde morava Henriqueta. No lance extremo de um desafogo, iria ele, audacioso, humilhar-se aos pés daquela mulher, que a não poder amá-lo, choraria com ele ao menos.
Estas preciosas futilidades escaldavam-lhe a imaginação, quando lhe ocorreu a astuciosa lembrança de surpreender a morada de Henriqueta surpreendendo a pessoa que no correio lhe tirava as cartas, subscritas a Ângela Micaela.
Conseguiu o comprometimento de um empregado do correio, Carlos empregou nesta missão um vigia insuspeito.
No dia do correio, uma velha, mal trajada, pediu a carta n° 628. O que a entregou fez um sinal a um homem que passeava no corredor, e este homem seguiu de longe a velha até ao campo de Santo Ovídio. Feliz das vantagens que lucrara em tal comissão, correu a encontrar-se com Carlos. É ocioso descrever a precipitação com que o enamorado mancebo, espiritualizado por algumas libras, correu à indicada casa. Em honra de Carlos, é necessário dizer que aquelas libras representavam a eloquência com que ele tentaria mover a velha em seu favor, por isso que, à vista das informações que tivera da pobreza da casa, concluiu que não era ali a residência de Henriqueta.
Acertou.
A confidente de Henriqueta fechava a porta da sua baiúca, quando Carlos se aproximou, e muito urbanamente lhe pediu licença para dizer-lhe duas palavras.
A velha, que não podia recear alguma agressão traiçoeira aos seus virtuosos oitenta anos, franqueou os umbrais da sua pocilga, e prestou ao seu hóspede a cadeira única do seu camarim de tecto de vigas e pavimento de lajes.
Carlos principiou como devia o seu ataque. Lembrado da chave com que Bernardes manda fechar os sonetos, aplicou-a à abertura da prosa, e conheceu de pronto as vantagens de ser clássico, quando convém. A velha, quando viu cair no regaço duas libras, sentiu o que nunca sentira a mais carinhosa das mães, com dois filhinhos no colo. Luziram-lhe os olhos, e dançaram-lhe os nervos em todas as evoluções dos seus vinte e cinco anos.
Feito isto, Carlos precisou a sua missão nos seguintes termos :
“Esse pequeno donativo, que lhe faço, há-de ser repetido, se vossemecê me fizer um grande serviço, que pode fazer-me. Vossemecê recebeu, há pouco, uma carta, e vai entregá-la a uma pessoa, cuja felicidade está nas minhas mãos. Estou certo que vossemecê não há-de querer ocultar-me a morada dessa senhora, e privá-la de ser feliz. O serviço que tenho a pedir-lhe, e a pagar-lhe bem, é este ; pode fazer-mo ?
A frágil mulher, que não se sentia bastante heroína para ir de encontro à legenda que D. João V fez gravar nos cruzados, deixou-se vencer, com mais algumas reflexões e denunciou o santo asilo das lágrimas de Henriqueta, segunda vez atraiçoada por uma mulher, frágil à tentação de ouro, que lhe roubara um amante, e vem agora devassar-lhe o seu sagrado refúgio.
Poucas horas depois, Carlos entrava em uma casa da Rua dos Pelames, subia a um terceiro andar, e batia a uma porta, que lhe não foi aberta. Esperou. Momentos depois, subia um rapaz com uma caixa de chapéu de senhora : bateu ; perguntaram de dentro quem era, o rapaz falou, e a porta foi imediatamente aberta.
Henriqueta estava sem dominó na presença de Carlos.
Foi sublime esta aparição. A mulher que Carlos viu, não saberemos nós pintá-la. Era o original dessas esplêndidas iluminuras que o pincel do século XVI fazia saltar da tela, e consagrava a Deus, denominando-as Madalena, Maria Egipcíaca e Margarida de Cortona.
O homem é fraco, e sente-se mesquinho perante a majestade da beleza ! Carlos sentiu-se dobrar nos joelhos ; e a primeira palavra que balbuciou foi “Perdão!
Henriqueta não pôde receber com a firmeza que devia supor-se-lhe uma tal surpresa. Sentou-se e limpou o suor que lhe correra de improviso todo o corpo.
A coragem de Carlos desmereceu do muito em que ele a tinha. Sucumbiu, e nem ao menos lhe deixou o dom dos lugares-comuns. Silenciosos, olhavam-se com uma simplicidade infantil, indigna de ambos. Henriqueta revolvia no pensamento a indústria com que o seu segredo fora violado. Carlos invocava ao coração palavras que o salvassem daquela crise, que o materializava por ter tocado o extremo do espiritualismo.
Não nos faremos cargo de satisfazer as despóticas exigências do leitor, que pede contas das interjeições e das reticências de um diálogo.
O que podemos garantir-lhe, debaixo da nossa palavra de folhetinista, é que a musa das lamentações desceu à invocação de Carlos, que, por fim, desenvolveu toda a eloquência da paixão. Henriqueta ouviu-o com a seriedade com que uma rainha absoluta escuta um ministro da fazenda, que lhe conta os chatíssimos e maçudos negócios das finanças.
Sorria-se, às vezes, e respondia com um ressaibo de mágoa e de ressentimento, que matava, no nascedouro, os transportes do seu infeliz amante.
As suas últimas palavras, essas sim, são signas de se arquivarem para escarmento daqueles que se julgam herdeiros dos raios de Júpiter Olímpico, quando se empavonam de fulminar as mulheres que tiveram a desventura de se queimarem, como as mariposas, no lume eléctrico de seus olhos. Foram estas as suas palavras :
- Sr. Carlos ! Até hoje os nossos espíritos viveram ligados por umas núpcias que eu pensei não perturbarem a nossa cara tranquilidade, nem escandalizarem a caprichosa opinião pública. De ora em diante, um solene divórcio entre os nossos espíritos. Estou punida de mais. Fui fraca e talvez má, em prender-lhe a sua atenção num baile mascarado. Perdoe-me, que sou, por isso, mais desgraçada do que pensa. Seja meu amigo. Não me envenene esta santa obscuridade, este círculo estreito da minha vida, em que a mão de Deus tem derramado algumas flores. Se não pode avaliar o travo das minhas lágrimas, respeite cavalheiramente uma mulher que lhe pede com as mãos erguidas o favor, a piedade de a deixar sozinha com o segredo da sua desonra, que eu prometo nunca mais alargar a minha alma nestas revelações, que morreriam comigo, se eu pudesse suspeitar que atraía com elas a minha desgraça…
Henriqueta continuava, quando Carlos, com lágrimas de uma dor sincera, lhe pedia ao menos a sua estima, e lhe entregava as suas cartas, debaixo do sagrado juramento de nunca mais a procurar.
Henriqueta, entusiasmada pelo patético desta nobre rogativa, apertou ansiosamente a mão de Carlos, e despediram-se
E nunca mais se viram.
Mas o leitor tem o direito a saber mais alguma coisa.
Carlos, um mês depois, partiu para Lisboa, colheu as necessárias informações, e entrou em casa da mãe de Henriqueta. Uma senhora, vestida de luto, e encostada a duas criadas, veio encontrá-lo numa sala.
- Não tenho a honra de conhecer…„Ÿ disse a mãe de Henriqueta.
- Sou um amigo…
- De meu filho ?!…„Ÿ interrompeu ela. „Ÿ “Vem-me dar parte do triste acontecimento ?… Eu já o sei !… Meu filho é um assassino !…
E prerrompeu num choro, que a não deixava articular palavras.
- O filho de V. Exa assassino !…„Ÿ interpelou Carlos.
- Sim… Sim… Pois não sabe que ele matou em Londres o sedutor da minha desgraçada filha ?!… da minha filha… assassinada por ele…
- Assassinada, sim, mas só na sua honra„Ÿ atalhou Carlos.
- Pois minha filha vive !… Henriqueta vive !… Oh meu Deus, meu Deus, eu vos agradeço !…
A pobre senhora ajoelhou, as criadas ajoelharam com ela, e Carlos sentiu um calafrio nervoso, e uma exaltação religiosa, que quase o fizeram ajoelhar com aquele grupo de mulheres, cobertas de lágrimas
Dias depois, Henriqueta era procurada no seu terceiro andar, por seu irmão, e choravam ambos abraçados com toda a expansão de uma dor represada.
Houve aí um drama de agonias grandiosas, que a linguagem do homem não saberá descrever nunca.
Henriqueta abraçou sua mãe, e entrou num convento onde pede incessantemente a Deus a salvação de Vasco de Seabra.
Carlos é o íntimo amigo desta família, e conta este lance da sua vida como um heroísmo digno de outras épocas.
Laura, viúva de quatro meses, contrai segundas núpcias, e vive feliz com o seu segundo marido, digno dela.
Acabou o conto.
Fonte: www.bibvirt.futuro.usp.br