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Coração, cabeça e estômago

Camilo Castelo Branco

A Mulher que o Mundo Respeita

I

A minha alma olhou para o que foi e viu que os sete amores que a tinham derrancado passagei-ramente eram ridículos e indignos de serem dados como explicação de um cinismo sobremaneira satâ-nico em que eu me andava ensaiando.

Antes, porém, que eu tornasse em mim, estive seis meses a dizer ao mundo, em prosas chama-das Meditações e em versos denominados gritos de alma, que estava cético, e cínico, e que havia de engolfar no lodo em que me atascaram o coração as virgens louras com o seu amor ingênuo, e quantas virgens de diversas cores a minha libertinagem atraísse às aras de sedenta vingança. Aqui vão as cópias dos principais poemas que então fiz...

Nota

Defendo a paciência do leitor dos duros golpes que lhes estão iminentes. Ainda assim, há de le-var-me a bem que eu lhe dê, à prova, uns relanços das poesias cépticas do meu amigo Silvestre. Entro pela mais filosófica:

Ontem me riu o céu; milhões de estrelas

Me falaram d'amor.

Ontem flores a mil, e todas elas

Me davam, dos seus dons, das urnas belas,

Aroma à alma em flor!

Hoje, aí!, hoje um céu de negro, e a terra

De crepe funeral!

Hoje um peito que em si peçonha encerra;

E a alma em fogo, que precita erra

Num regiro infernal.

As seguintes coisas são menos inocentes:

Mulher!, em ânsias me esforço,

Punge-me dentro o remorso

De te não calcar aos pés!

Tinha uma crença...mataste-a!

Tinha uma luz...apagaste-a!...

Mulher!, que monstro tu és!

Esta quadra da poesia LXIX é mais raivosa

Hei de essa alma perversa estrinçar-te!

Hei de à fronte cuspir-te a peçonha

Que verteste em meu peito, e ferrete

Hei de pôr-to de eterna vergonha!

Basta isto para terror das almas e amostra da poesia contemporânea de Silvestre.

Nestas minhas confissões hei de ser modesto, e verdadeiro, como Santo Agostinho e J. J. Rous-seau; mas, ainda assim mais honesto que o santo e que o filósofo. O pejo e a natural vaidade querem pôr-me mordaça; mas eu hei de expiar as minhas parvoíces, confessando-as. Se, por miséria minha, me baralhei e confundi com tantos e tão graúdos tolos, farei agora minha distinção pondo, em letra redon-da, que ora, Não me consta que algum dos meus amigos fizesse outro tanto.

Na minha qualidade de cético, entendi que a desordem dos cabelos devia ser a imagem da mi-nha da minha alma. Comecei, pois, por dar à cabeça um ar fatal, que chamasse a atenção e aguçasse a curiosidade dum mundo já gasto em admirar cabeças não vulgares. A anarquia dos meus cabelos custa-va-me dinheiro e muito trabalho. Ia, todos os dias, ao cabeleireiro calamistrar os longos anéis que me ondeavam nas espáduas; depois desfazia as espirais, riçava-as em caprichosas ondulações, dava à fronte o máximo espaço e sacudia a cabeça para desmanchar as torcidas deletriadas da madeixa. Como quer, porém, que a testa fosse menos escampada que o preciso para significar "desordem e génio", co-mecei a barbear a testa, fazendo recuar o domínio do cabelo, a pouco e pouco, até que me criei uma fronte dilatada, e umas bossas frontais, como a natureza as não dera a Shakespeare nem a Goethe.

A minha cara ajeitava-se pouco à expressão dum vivo tormento de alma, em virtude de ser uma cara sadia, avermelhada e bem fornida de fibra musculosa. Era-me necessário remediar o infortúnio de ter saúde, sem atacar os órgãos essenciais da vida, mediante o uso de beberagens. Aconselharam-me os charutos do contrato; fumei alguns dias, sem mais resultado que uma ameaça de tubérculos, uma for-mal estupidez de espírito e não sei que profundo dissabor até da farsa em que eu a mim próprio mês estava dando em espetáculo. A cara mantinha-se na prosa ignóbil do escarlate, mais incendiada ainda pelos acessos de tosse, provocados pelo fumo. Um médico da minha íntima amizade receitou-me uma essência roxa com a qual eu devia pintar o que vulgarmente se diz "olheiras". Ao deitar-me, corria levemente algumas pinceladas sobre a cútis, que desce da pálpebra inferior até às proeminências mala-res; ao erguer-me, tinha todo o cuidado em não lavar a porção arroxada pela tinta, e com uma maçaneta de algodão em rama desbastava a pintura nos pontos em que ela estivesse demasiadamente carregada. O artístico amor com que eu fazia isto deu em resultado uma tal perfeição no colorido que até o pró-prio médico chegou a persuadir-me, de longe, que o pisado dos meus olhos era natural, e eu mesmo também me parece que cheguei à persuasão do médico. Fiz, pois, de mim uma cara entre o sentimental de Antony e o trágico de Fausto. Seria, no entanto, mais completa a minha satisfação se à raiz do ca-belo, no ponto em que eu barbeava a cabeça para aumentar a testa, me não aparecesse um diadema azulado. Era a natureza a vingar-se. Cada vez que me eu via com aquele disco na testa, experimentava a dor do poeta de Dom João contemplando o seu pé coxo, por causa do qual, e com o qual, tanto pon-tapé deu o raivoso lorde no gênero humano.

Assim amanhado de aspecto, saia de casa, à hora em que o Sol dardejava a prumo, ou quando as nuvens se rompiam em torrentes. O meu cavalo era negro, negro o meu trajar, tudo em mim e de mim refletia a negridão da alma. Cheguei a enganar-me comigo mesmo, e a remirar-me a mim próprio, com certo compadecimento e simpatia! Os grupos dos meus conhecidos viam-me passar abstraído e diziam: "Foi uma mulher que o reduziu àquilo!" Eu sabia que era corrente nos círculos da juventude a seguinte história a meu respeito: "Que eu tinha amado uma neta de reis, filha dum titular, cujos avós já tinham os retratos de vinte gerações, antes de se inventar a pintura. Que a menina, fascinada pela minha mes-ma temeridade, descera, na hora da sesta, ao jardim, e me lançara uma flor, chamada ai!, na copa do chapéu. Que o jardineiro observava o ato e o delatara ao fidalgo. Que o fidalgo chamara a filha e, ou-vida a resposta balbuciante dela, a fizera entrar no Mosteiro das Comendadeiras da Encarnação, onde se finava lentamente, e eu cá de fora lhe andava, a horas mortas, falando, mediante as estrelas do céu e os murmúrios misteriosos da noite, resolvido a morrer, logo que o anjo batesse as suas asas imortais no caminho da glória eterna. Amém."

Era isso o que se dizia; mas a verdade é outra.

II

É certo que eu, num dos meus passeios desabridos, quando o céu afuzilava relâmpagos, fui a caminho de Sintra, e vi na balaustrada de uma varanda, com os olhos postos no ocidente tempestuoso, uma mulher, que se me afigurou a pomba da boa nova ao quadragésimo dia do dilúvio. Retive as ré-deas do cavalo, sofreei a respiração, contemplei-a com petulante ternura, e ela foi-se embora.

Tornei no dia seguinte a Benfica, e vi a menina sentada na varanda a ler, com um papagaio pousado na espádua esquerda.

O papagaio tomou medo aos galões do meu cavalo, saltou-lhe do ombro para o regaço, sacu-dindo-lhe da mão o livro, o qual caiu à estrada por entre os balaústres. Descavalguei dum salto apanhei o livro e esperei que um criado o viesse receber. Entretanto, abri-o, busquei o título na primeira pági-na, e achei que era O Homem dos Três Calções. Inferi logo que a dama era uma altíssima cismadora de coisas etéreas.

Dei o livro ao criado de libré cor de canela, o qual, examinando o jarrete direito do meu cavalo, achou que ele tinha duas sobrecanas. Perguntei-lhe eu como se chamava a dona do livro, e ele respon-deu que a fidalga se chamava Paula, que era morgada, que estava para se casar, e dos costumes não disse nada.

Cavalguei, retrocedi depois dum curto passeio, e, ao passar-lhe à porta, vi Paula dando ginjas ao papagaio. Viu-me, e fez-se da cor nacarina das ginjas.

Eu carecia duma paixão que me sacudisse pelos cabelos, uma paixão que me levasse de inferno em inferno, que me impinasse ao apogeu da glória, ou me despenhasse na voragem da morte. Precisava disto, porque não tinha que fazer, e gozava robusta saúde, e alargava a testa há cinco meses, não sei para que destinos!

Amar uma menina herdeira; contratada para casar; galante; lida nos bons catecismos espiritu-ais; criada com passarinhos e flores; rodeada dos mágicos rumores das florestas: tudo isto me pareceu talhado à minha ansiedade de lutar, de sofrer, de viver com glória, ou morrer com honra. Quando cis-mava nisto, e me assaltava ao mesmo tempo a cobiça de entrar num restaurante à la carte, e pedir um pastel de pombos, corria-me de vergonha da minha viloa natureza!

Encontrei, uma vez, o criado de D. Paula a passear os cavalos no Campo Pequeno. Dialogámos acerca de raças cavalares, e dos lamparões dos mesmos, que ele sabia curar com proficiência. Encami-nhei a conversação até falarmos da fidalga, e obtive os seguintes esclarecimentos: perguntou-lhe a me-nina se eu dissera alguma coisa, quando entreguei o livro, e mostrara-se admiradíssima de eu querer saber o nome dela. Desejara muito saber se eu lera o título do livro: informação que o criado não sou-bera dar. Perguntara-lhe se me via algumas vezes na estrada, e ficara muito pensativa quando soube que eu ali parava, olhando para as janelas, quando o criado, à meia-noite, se erguia para aquietar os cavalos.

Estas revelações animaram-me a pedir ao expansivo boleeiro que me aproximasse do coração de sua ama, por intermédio de uma carta respeitosa e digna dela. O criado, vencida a ficção dos escrú-pulos, aceitou a carta, que eu escrevi numa mercearia do Campo Grande, a qual poderia entrar numa coleção de cartas para o uso dos anjos, se os amores lá de cima carecessem do favor do estilo e prospe-rassem na razão direta do arredondado do período.

Ao outro dia, fui a Benfica. Vi o papagaio, que saltou da gaiola ao peitoril da varanda, quando eu passava, e disse: "Tô carrocha" pareceu-me isto um ludibrio do pássaro, ensinado pela dona; mas a Providência é tão boa para os tolos que os compensa com o engenho de imputarem ao acaso as caçoa-das que racionalmente e acintemente os castigam.

Depois de muitas diligências malogradas, encontrei o criado, que me asseverou a entrega da carta e o rubor da menina quando a leu. Falei-lhe na resposta, e ele redargüiu que não ousava pedi-la por ser falta de respeito.

Nesta situação, tão dolorosa como ofensiva do meu orgulho, fui a um baile. Não foi de todo despressentida a minha entrada nas salas. A juventude de ambos os sexos encarou em mim com afetuo-sa benquerença. Os cabelos iam fatais e as olheiras fatalíssimas.

Às onze horas, quando eu, no salão de espera, me atirava a uma almofada, como corpo que não pode com a alma, tangeu duas vezes a sineta do pátio, e em seguida entrou Paula, pelo braço de um moço bem figurado, com outras senhoras e cavalheiros idosos no préstito.

Creio que me não viu, e, se me viu, fez o que fazem as mais inocentes e desartificiosas senho-ras quando não querem ver.

Segui-a. Avizinhei-a nas salas. Ouvi o som de sua voz. Tive indiretamente notícias do papa-gaio, pedidas por uma outra menina. Convidei-a para uma quadrilha. Vi-lhe um gesto de assentamento, e senti-me brutificar, pensando no que havia de dizer-lhe.

Destes apertos têm saído grandes tolices e grandes conceitos. Quer me parecer que não fui in-feliz falando-lhe deste teor:

- A providência dos infelizes encaminhou para aqui os meus passos. Eu não sabia que vinha aqui encontrar o anjo que fez da minha vida um suplício. Entrei nestas salas, como Dante, na região das lágrimas, como Trofônio no seu antro, donde não há mais sair com um sorriso nos lábios. V. Exa. Calca aos pés o mais devotado coração que ainda palpitou em peito de homem. Enganei-me, quando a vi, ao relumbrar dos relâmpagos, naquela tarde tempestuosa. Amei-a então, como o nauta suspiroso ama a cruz do adro da sua terra natal. Amei-a como o rouxinol a sombra dos sinceiros. Amei-a como o orvalho a flor e a aragem da tarde as asas iriadas da borboleta.

Paula fitou-me e coçou a testa com o leque.

Noutro intervalo da dança continuei:

- Por que não respondeu à minha carta?

- Era impossível. Eu já dei o meu coração. Por delicadeza lhe não devolvi a sua carta, e peço-lhe que me não escreva outra, que me compromete - respondeu ela.

Não me soou bem este galicismo dos lábios de Paula. Eu, em todas as situações da minha vida, quando vejo a língua dos Barros e dos Lucenas comprometida, dou razão ao filósofo francês que, à hora da morte, emendava um solicismo da criada, protestando defender até ao último respiro os foros da Língua. E com que admiração eu leio aquilo do gramático Dumarsais, que, em trances finais de vida, exclamava: "Hélas! Je mén vais... ou je mén vas... car je crois toujours que lún et l'autre se dit ou se disent!"

Tinha-se achegado de nós o sujeito que lhe dava o braço à entrada. No semblante de Paula co-nheci o receio de ter sido ouvida pelo cavalheiro, que a fitava com desconfiança.

Nunca mais tive a oportunidade de lhe falar. Às três horas, saiu Paula, e eu fui para o meu quarto devorar o restante da noite em repertir-me as palavras dela com tanto afecto que o próprio gali-cismo já me soava aos ouvidos como as vernaculidades do meu querido Castilho.

Eu tinha à mão a Primavera daquele autor. Abria-a ao acaso, quando os raios do sol, coados pelo transparente verde, me alumiavam alegremente o quarto. Em pouco está transfigurar-se o espírito do homem. Com a luz parece que entraram as esperanças: era o anjo delas que descera nos raios do sol. Abri à ventura a Primavera, e saíram-me como prenúncios e maiores alegrias estes versos:

Sobre as aras de Amor todas of'recem:

Os ais do adorador nenhuma ofendem,

Comprazem-se de ouvir que as chamam belas...

Se nos ouvem cruéis, se esquivas fogem,

É porque insana lei de atroz costume

Lhes ordena o fugir...

A mãe universal, ou cedo ou tarde

Vence, triunfa, e no triunfo leva

O sexo encantador já manietado:

Todas opões sabida resistência;

Mas cumpre não ceder: por nós combatem

Seu mesmo coração, e a natureza...

Fui lendo os dulcíssimos preceitos com que o mimoso poeta aconselha os amantes desditosos, e, num arraiar de alegria louca, dei nestes versos:

Começaremos ofertando às ninfas

Sobre altares campestres, levantados

Das árvores à sombra, ao pé das fontes,

Ou nas grutas do fresco, ou sobre outeiros,

Festões, grinaldas, passarinhos, frutos

E capelas de búzios e de conchas...

.....................................................................

O poeta ensina, nesta passagem, a amar as ninfas; e eu, afeitio à nomenclatura da escola arcadi-ana, pensei que ninfa era um epíteto genérico para toda a mulher que se ama.

Com este errado juízo, entendi em mandar a Paula

Festões, grinaldas, passarinhos, frutos,

E capelas de búzios e de conchas.

Acorçoado pelo Ovídio português, comprei na Praça da Figueira muita flor, de que mandei te-cer uma grinalda, muito de ver-se; num cabazinho de palha italiana dispus seis pêssegos aveludados, de cobiçável frescura; búzios não me foi possível arranjá-los, nem conchas; no tocante, porém, ao pre-ceito dos passarinhos, fui muito feliz: comprei um lindo periquito na Rua do Arsenal.

Fiz mais.

Chamei à puridade uma jovem e sécia saloia de Benfica, brindei-a com a saia escarlate listrada e um corpete de castorina amarela; enflorei-lhe os cabelos e enramalhetei-lhe o colo. Nunca vi coisa mais fresca, nem mais bucólica medianeira do amor dum sátiro urbano a uma ninfa saturada da lição de maviosos idílios, como é já notório.

Industriei a moça no modo de apresentar à fidalga

Festões, grinaldas, passarinhos, frutos.

Devia ser à hora em que ela descia ao jardim, que uma gradaria separava da estrada. Melhor do que eu antevira se ocasionou o ensejo da entrega. D. Paula reparou na esbelta saloia, que tinha em uma das mãos o cabaz e na outra a gaiola.

- Ai! Um papagaio! - exclamou a menina. - Isso é para vender?

- Não, minha senhora - disse a saloia -, é para dar à senhora fidalga.

- A mim?! Quem me manda isto?!

- Vossa Excelência verá numas letrinhas que vêm aqui entre as flores.

- Letrinhas!? Quem é que me escreve? Você não sabe o nome da pessoa?

- Não, minha senhora: mas o senhor que me cá mandou disse-me que aceitasse Vossa Exce-lência o periquito, e as flores, e os pêssegos, e, se não quisesse a carta, que a rasgasse.

- Os pêssegos! - exclamou a fidalga. - Quem é que me manda pêssegos?!

- É ele - tornou a saloia.

- Leve, leve - acudiu D. Paula -, que não aceito nada.

- Pois eu tenho ordem de deixar ficar tudo - replicou a saloia, pousando sobre a padieira duma porta interposta na gradaria o cabaz e a gaiola.

A este tempo assomou numa janela o pai da menina, perguntando o que vinha a ser o cesto e o pássaro que estava sobre a porta. D. Paula, dominando rapidamente o sobressalto da surpresa, disse que fora a prima Piedade que lhe mandara aquele periquito e o cestinho das flores. O pai, que era ami-go de periquitos, desceu ao jardim; e, no entanto, a filha escondeu a carta, que ia presa à grinalda com um laço de fita encarnada. O velho, examinada a ave, passou a espreitar o cabaz; e, como visse os con-vidativos pêssegos, que eram seis, comeu três com sôfrega delícia, deu um à filha, e guardou dois nas algibeiras do robe de chambre. Paula, para ler a carta, escondeu-se num caramanchel. A prosa vil seria descabida em cena tão eminentemente poética. Era, pois, em verso a minha carta, que, segundo os di-tames da poética de Aristóteles e Longino, devo chamar epístola e não carta. A qual epístola foi ainda o sonoro Castilho que me induziu a escrevê-la com os seguintes ditames da citada Promavera:

Formaremos cantigas, em que aos ecos

Dos campos entre a lida repitamos

As perfeições, os méritos, os nomes

Das Napeias, etc.

E noutra passagem:

Depois que pouco e pouco transformado

Se houver em confiança o pejo, o susto,

Mudaremos de estilo: em nossos versos,

E só, e de contínuo a formosura

Em fogo nos porá do estro as asas.

Hão de sorrir-se e comprazer-se, e muitas

Suspenderão em seu caminho os passos.

É a lei sem exceção; domina em todas

A sede, a glória, de chamar-se belas

Não entendi à letra o primeiro aviso, que diz: Formaremos cantigas. Pareceu-me que eu seria estranhamente recebido, se me andasse por Benfica em serenatas, que este século de ferro moteja, com bazóifia de ilustrado, ilustração oca e estéril, que funda toda em regalos corporais, despe o coração da sua poesia nativa e tira ao amante o suave desafogo de formar ao século, em vez de cantigas, poetei em verso hen decassílabo, predominando no sáfico, alternando com o alexandrino, e intercalando tudo de estribilhos de redondilha menor. Era cataplasma para fazer supurar o coração mais cru!

IV

No dia imediato fui, purpureado de cândido pejo, passar em Benfica. Este pejo é o meu elogio. Um verdadeiro amor é segunda inocência. Tal máxima, que eu atiro à circulação, deve ser a defesa de muitas senhoras de certa idade e de certos costumes, que respondem com imprevistas esquivanças às audácias de amantes, que as assediam com ares de César, cuidando que chegar, ver e vencer é tudo o mesmo. O mundo chama matreiras a essas damas; e eu, que sei mais do coração humano que o trivial, digo e juro que é uma segunda inocência com os adoráveis sustos do pudor, que as torna esquivas. Eu tenho encontrado muito disto em peitos antigos. Se eu pudesse transfundir em corpos tenros os cora-ções sensíveis que tenho conquistado em senhoras duma idade anticanônica, a felicidade não seria a sede de Tântalo. O meu erro tem sido procurar a alma amante e sisuda na mulher dos vinte anos e a formosura e a graça na de cinqüenta. A primeira é um sinal que todos me cobiçam; a segunda é um bem que ninguém me questiona. Não me serve nenhuma, por isso.

Voltando ao conto:

D. Paula de Albuquerque viu-me através das vidraças e gesticulou entre as fitas algumas das flores da grinalda. Jubilei doidamente no secreto do meu coração e compreendi o porquê de chamarem aos poetas antigos videntes, que soa como profetas. Abençoei a Primavera, meu livro de alma, e a ins-pirada voz do vate, que me ensinara o filtro amoroso dos

Festões, grinaldas, passarinhos, frutos.

O periquito estava na sua gaiola bem pudera prender a atenção da posteridade como o decanato passarinho da Lésbia, do poeta romano. Se eu publicasse as poesias, que dedilhei no plectro, com refe-rência ao periquito, o meu volume seria como um tratado ornitológico, em que os fenômenos dos amo-res das aves iriam desvendados discretamente aos olhos da juventude.

Estas delongas estão afligindo a curiosidade de quem me ler. Entro em matéria.

Paula respondeu, agradecendo a ave querida, as flores e a surpresa: só não mencionava os pês-segos, salvo se a surpresa eram os pêssegos.

Ateou-se a correspondência, e tão fervorosa de paixão, de parte a parte, que tarde voltarão a este globo degenerado duas pessoas com tanto amor e estilo ao que parecia.

Este amor tinha assumido as dimensões honestas do matrimónio; mas semelhante palavra não ousava escrevê-la o meu pulso plebeu. Tive então ódio a meus avós, que viveram estupidamente lavra-dores honrados, citando com inofensiva soberba a consideração que lhes dera o Senhor Rei D. Dinis. Nem um hábito de Cristo na minha família! Nem sequer na invasão do Junot eu tive um parente que matasse dois franceses, ao menos, e fosse depois ao Rio de Janeiro pedir um hábito de Cristo ao Se-nhor D. João VI, que dava dez hábitos à família que matasse dez franceses! Meu pai tinha tido a imo-ralidade de dar de comer e pensar as feridas a alguns soldados de Napoleão que lhe pediram abrigo! Nem sequer os deixou morrer!

Lembrei-me de arranjar uma comenda de Cristo, por me dizerem que era isso mais fácil do que descobrir quem a quisesse com direitos de mercê. Andava eu na bem agourada solicitação desta graça, quando a minha desfortuna me pôs à prova de novas decepções.

Se medito no mau desfecho deste episódio da minha vida, caio sempre na triste opinião de que D. Paula caçoou comigo.

É o caso que, indo eu uma vez a Benfica, não para vê-la, que muito alta ia a noite, mas para adorar o santuário em que ela a essas horas, devia estar sonhando com a minha imagem, vi encostado à parede fronteira de sua casa um vulto rebuçado, rebuçado amargo ao meu suspeitoso coração! (com-prazo-me de ter feito destes dois rebuçados uma elegância de estilo, que é minha, e, se alguma idêntica aparecer, sem a minha rubrica, será tida como furto, e os falsificadores serão perseguidos na conformi-dade das leis).

Perpassei pelo vulto humano e, lá ao longe, descavalguei, prendi as rédeas e retrocedi sutil-mente a espreitar o escândalo, se escândalo era. Se era, leitores pios!...

O sino do mosteiro dominicano respirava pelos seus pulmões de bronze duas horas da manhã, quando uma janela do palacete se abriu com leve rumor, e a lua, sem velar de puro pejo a face, alumi-ou aos meus olhos o rosto de Paula.

O encapotado avizinhou-se da gradaria e ciciou palavras que eu não pude ouvir, porque as mi-nhas orelhas estavam sendo como vestíbulos do inferno que me ia lá dentro na alma.

Este incomportável suplício durou uma hora, ao fim da qual era eu já um assassino programáti-co daquele homem, que viera atravessar-se ao meu amor feroz de tigre.

"Oh!", exclamava eu no recôndito das arcadas do peito. "Oh!, para que vieste tu, desgraçado, assanhar a ira do homem que tem sede do teu sangue e fome das tuas carnes! Que demônio te lançou ao meu caminho, se eu hei de pôr-te um pé no peito e sacudir-te de lá o coração à cara da perjura! Não tens velha mãe que te chore, nem pai velho, que em teus braços se ampare à borda do sepulcro? Não sabias que os teus dias estão contados, e que a autora de amanhã te verá a face morta, e que, na tua fronte, e com teu sangue escrita, o mundo lerá a tremenda palavra: 'Vingança'? Oh!, tu não sabias que Paula era minha, minha como tu já agora és dos vermes, como nós três, ela, eu, e tu, todos, ai!, todos seremos do Inferno!"

Disse, e fui procurar o cavalo. Tinha-se desprendido e estava a espolinhar-se em regaladas cambalhotas. As cilhas do selim estavam partidas; as rédeas também; a cabeçada tinha apenas duas correias úteis.

Rugi de cólera, e o cavalo, espavorido, fugiu a desapoderado galope, caminho de Lisboa.

A providência é mestra do ridículo, quando quer. O meu rancor repartiu-se entre amante de Paula e o quadrúpede fugitivo. Depois, sentei-me esbofado num degrau de escada, olhei para a lua, olhei para mim, olhei para o selim que eu trouxera debaixo do braço, e ri-me.

E o meu riso era um espirro de ferocidade, uma destas coisas que sente o Lúcifer quando saco-de a vertigem da raiva impotente contra Deus.

Eram quatro horas da manhã quando emergi do meu letargo. Vi um padeiro, que me contempla-va assustado: pedi-lhe que me levasse o selim entre a carga; e eu caminhei, admirando a impassibilida-de da natureza, que parecia zombar de mim, pela voz dos seus rouxinóis, dos seus cochichos e das suas calhandras.

V

O meu cavalo, afrontando-se com a barreira, parou. Quando eu cheguei, estava ele amarrado com um cabresto às grades da porta, e os guardas escreviam um ofício ao respectivo comandante, par-ticipando a presa que haviam feito e pedindo ordens sobre o destino do vadio.

Convenci-os de que o cavalo oficiado era meu pelo testemunho convincente da sela e dos frag-mentos d cabeçada; mas, como não quisessem perder o ofício, obrigaram-me a esperar a resposta da autoridade que houve a bem julgar-me o legal proprietário da besta. Receei que a lógica da sela não persuadisse o chefe daqueles sujeitos.

Estas miudezas podem enfastiar os espíritos frívolos; mas para mim tenho que os menores epi-sódios das vidas, predestinadas a grandes destinos, são fatos ponderáveis nos ânimos reflexivos.

Recolhi-me ao meu quarto, sondei as profundezas da minha alma, e deste mergulho à consciên-cia saí com má cara e ideias sinistras.

Eu tinha um par de pistolas de coldres, carregadas muitos meses antes. Para as carregar com a certeza de levar nelas a morte, desfechei-as contra o saguão da casa. A detonação fez grande estrondo e causou grande susto a uma senhora grávida, que perdeu os sentidos. O marido desta matrona era cu-nhado do regedor, e foi queixar-se de mim, como causa dum abalo que podia trazer as funestas conse-quências dum motivo e a perda do menino, em que ele fiava as alegrias da sua velhice. A dona do ho-tel, quando tal soube, disse que eu era muito feliz em ter contra mim as queixas de um só dos pais da-quele menino possível. Parece-me que esta mulher, com tal juízo sobre paternidades, ia de encontro às ideias que tenho sobre o fenômeno da geração.

Ora o regedor, nesse mesmo dia, fez-me intimar para ir à sua presença, e interrogou-me, dali fui com um cabo e um ofício ao administrador, que me mandou com um ofício e um cabo ao Governo Ci-vil. Aqui me foi pedida a licença de usar de pistolas; e, como eu não a tivesse, ia ser metido em pro-cesso, a não me valerem alguns amigos que podiam muito com a autoridade. Vejam que trabalhos!

O menino da mulher do meu vizinho vingou, segundo vi passados tempos. Na minha vida não há sequer o pesar dum infanticídio involuntário.

Carreguei as pistolas e fui na noite do seguinte dia a Benfica. A poucos passos distante do pala-cete de Paula apeei e fiz retroceder o criado com o cavalo a esperar-me em determinado ponto.

Soou meia-noite.

A folhagem dos álamos rumorejava nas asas das brisas. A Lua, coada por entre os dosséis de trepadeiras, mosqueava a relva dos pradozinhos ajardinados de Paula. Lá do interior vinha uma toada suave de fonte que mais parecia um gemer de saudade.

A intervalos, as lufadas da viração rolavam as folhas secas, e a cigarra e o grilo pareciam calar-se para ouvi-las.

Este ouvir e sentir refrigerou-me a febre da alma. Contemplei-me em minhas ferozes intenções, no centro dum espetáculo tão majestoso de poesia e inspirador de pensamentos afetuosos. A razão, resgatada momentaneamente pelos bons instintos e moralizadora educação que meus pais me deram, sopesou os ímpetos do coração vingativo. Desceu o anjo da paz à minha alma, e renasceu-me lá a espe-rança de encontrar alguma vez a mulher digna de mim, cuja posse me não custasse o sangue do meu semblante.

Ergui-me no intuito de abandonar para sempre à vingança da providência a mulher fementida e o vitorioso rival; ao dar, porém, os primeiros passos, relaceei os olhos ao jardim e vi um vulto vestido de branco, branco do mármore das estátuas tumulares. Estaquei, e o vulto caminhou direito à grade. "É ela", disse o meu coração em ânsias. "Que veio aqui fazer Paula? Enganar-se-ia ela comigo?"

Retirei-me a um lado para ficar encoberto pelo muro. O vulto acelerou o passo, abriu subtil-mente a grade, meteu fora a cabeça e murmurou:

- Já estão a dormir todos: podes entrar. Fiz-te esperar muito tempo?

Fiquei entre o palerma e o estupefacto.

- Anda, Caetano - tornou ela -, que estou a arrefecer! Tu não te mexes? Estás amuado?

- Vossa Mercê engana-se - disse eu, quando conheci a cozinheira ao clarão da lua.

Mal proferidas estas palavras, o vulto deu um grito de surpresa e fugiu, deixando aberta a gra-de.

A este tempo, ouvi passos na estrada, e, sem reflectir, entrei no jardim e sumi-me por entre a espessura dos arbustos. Pouco depois, vi entrar um vulto do homem no jardim, caminhar afoitamente, subir a um patim e empurrar de manso uma porta, que não se abriu. Mais tarde, correu-se uma janela superior à porta e travou-se este diálogo:

- Caetano!

- Eufémia!

- És?

- Sou. Abres?

- Não; tenho medo.

- Ora!, ainda estão a pé?

- Não é isso... Estava ali à porta do jardim um homem. Cuidei que eras tu. Não o viste?

- Isso havia de ser para a fidalga: não vi ninguém.

- Não pode ser para a fidalga.

- Pois então quem era, senão o conde?

- Não era, que esse entrou às onze horas e está cá.

- Seja quem for; abre a porta.

- Hoje não: vai-te embora. Olha... tinha-se ali um franguinho assado... queres que to dei-te?

- Então é certo que não abres?

- Estou a tremer com medo. Será alguma espera para o Sr. Conde?

- Será...

- A fidalga é uma doidivanas... Será ele o do periquito?

- Lá se avenham... Então até amanhã.

- E o frango, quer-lo?

- Bota cá.

Pouco depois, o homem saiu, e eu, com o rosto entre as mãos, fiquei o tempo que pode gastar uma alma em descer ao Inferno e voltar ao mundo com uma brasa eterna nos seios.

Sai do jardim; fitei os olhos na lua: levei a mão convulsiva à testa e exclamei: "Anátema!"

Dito isto, vim para Lisboa.

VI

Decorreram três meses, durante os quais fui à província vender uma parte da minha legítima paterna. Cuidava minha extremosa mãe que eu, dois anos ausente dela, ia enfim adoçar-lhe os últimos anos e resgatar os empenhos a que sacrificara os bens. Não a desenganei logo por compaixão; mas o aspecto melancólico da minha aldeia, o silêncio, a quietação penosa do lar doméstico e a sensaboria das práticas monótonas de quatro clérigos das partidas da minha mãe tornaram-me as saudades de Lis-boa em profundo tédio da minha terra.

Liquidada a venda de algumas propriedades, que minha boa mãe, com engenhosa compaixão de meus desatinos, fez comprar por terceira pessoa, voltei a Lisboa.

Como disse, tinham passado três meses sobre o meu coração. Aquela eterna brasa que eu, por amor da retórica, há pouco disse que trouxera do Inferno nos seios da alma, estava quase apagada, como todas as brasas que a gente inflama com assopros de estilo. Pelo modo como o homem e o amor estão feitos neste tempo, três meses de ausência correspondem àqueles dilatados anos dos amores da Idade Média, que traziam da Palestina à castelã saudosa o coração leal do seu cavaleiro. Peitos de ferro deviam albergar corações de férrea tenacidade. Agora, é mais íntimo e doravante o amor, mais com-bustível o coração; a chama, batida por variados ventos, ateia-se mais enfurecida e o elemento dos afectos volatiza-se rapidamente. A mais aumenta a versatilidade humana, quando o amor-próprio sai anavalhado destas lutas, em que é grande parte o orgulho. Assim se explica o quase esquecimento de Paula quando voltei a Lisboa; e, se de todo não a esquecera, fora a curiosidade de saber a conta em que o mundo a tinha que me levava a indagar os pormenores da sua vida.

O boleeiro, que já o não era da casa de Benfica, deu-me alguns, os mais agravantes à honra da menina; os outros comunicaram-mos as suas amigas, os seus turibulários, os poetas que a traziam em letra redonda nas décimas dos folhetins e os noticiaristas que a vinham sempre aclamando rainha dos bailes.

As minhas averiguações vieram aos seguintes resultados: Paula estava prometida a um fidalgo do Alentejo, seu primo segundo, e amava com quantas provas se justifica o amor, um conde. Este con-de devia ser o sujeito mencionado no diálogo de Eufémia e Caetano, aquele fino amante que levou o frango assado com recheio dos suspiros da cozinheira. O conde pensava que a dedicação de Paula sem reserva lhe assegurava um casamento rico; ela, porém, do sacrifício reservara o que não podia dar nem tinha para dar - o coração.

Um indivíduo que por nome não perca requestou Paula, quando o conde a julgava mais avassa-lada e perdida de amor. Não sei se a comoveu com

Festões, grinaldas, passarinhos, frutos.

O que afoitamente certifico é que o conde foi traído e caiu das nuvens quando viu escorregar por uma corda, das janelas de Benfica, um sujeito que era um dos seus quarenta amigos íntimos. O amante vilipendiado vingou-se divulgando o mais secreto da sua intimidade com Paula. A sociedade espantou-se no primeiro dia da nova e no segundo esqueceu-se a ponto de redobrarem os adoradores em redor de Paula e recrudesceram as invejas das damas, que ao mesmo tempo a denegriam.

Tudo isso se passou nos três meses da minha ausência.

Quando me narraram miudezas destes factos, contados pela rama, estava eu em S. Carlos, e D. Paula numa frisa. Achei-a mais danosa. O Demónio triunfa às vezes, aformosentando o vício. A candu-ra nem sempre é bela. Há rostos angelicamente inocentes que dão ares de idiotismo. Tem o crime uns resplendores do Inferno que reverberam nas caras e as alindam. Assim o pensava eu de Paula, que se-duzia diabolicamente com seu gracioso despejo.

E o mais é que me fitava com magnética sobranceria, e eu a ela com ignóbil humildade. Todo o homem tem suas intercadências de parvo, de desprezível e de baixeza. A mim me quer parecer que lhe mandava outro periquito, se abro a Primavera do sedutor Castilho naquela noite! Entendam lá o ho-mem!

É certo que dormi sobressaltado e acordei a pensar nela. É engraçada coisa o modo como eu me queria a mim mesmo explicar a renascença do antigo amor, para me não envergonhar da razão, que me arguia de homem sem brios. Dizia eu, entre mim, que era honorífico vingar-me da afronta e que a vin-gança devia ser simulada com aparências de amor. Planeava levá-la ao escândalo, exibi-la à irrisão pública e lançar pregão do meu despique; quando porém ideava estas sordícias, indignas do meu géne-ro brando, imaginava ao mesmo tempo que, chegado o lance da vingança, a comprimiria ao seio e me faria sacerdote da vítima.

Nestes e noutros pensamentos me ocorreu o dia seguinte, e outro, até chegar a noite em que D. Paula tinha camarote. Namorei-a sem recato, sem biocos, sem velhacaria. Odiei os rapazes que vinham segredar-me os sabidos escândalos; cheguei a defendê-la por negação, e a benquistar a gargalhada dos tafuis, que a não contemplavam com menos arrebatamento que eu.

Ora, devo confessar que Paula encarava em mim com sorrir tão desacostumado, e uns trejeitos tão esquisitos, que só a minha boa-fé, irmã gémea da inépcia, era capaz de aceitá-los como benignos e amoráveis. Além de que, reparei algumas vezes que ela falava ao ouvido da prima Piedade, e riam am-bas à socapa, sem olhar para mim, senão três minutos depois de espirrarem a risota. Agora é que eu penso circunspectamente na passagem.

D. Maria da Piedade era uma linguareira com graça sarcástica, um folhetim de génio mordente, temida dos elegantes, a quem ela costumava crismar com epítetos truanescos. A mim sabia eu que ela me chamava Periquito, metendo a riso a dádiva sentimental, que seria minha glória aos olhos de uma mulher sensível. Não duvido apostar que a leitora, se eu alguma vez tiver uma leitora, simpatizará com a minha memória por ter visto a candura e lhaneza de coração com que eu ofertei à ingrata a avezinha. Estas singelezas do amor são as que mais enternecem as boas almas. Dê-me a leitora uma lágrima, que eu não quero outra vingança das mulheres que me escarneceram a poética simplicidade, simbolizada naquele periquito.

À saída do teatro, notei que Paula me encarara com o leque de dentro da carruagem. Rarefez-se a nuvem negra da zombaria. Recolhi-me feliz ao Grémio Literário, e fui nessa noite eloquente em teo-rias de amor.

Às duas horas do dia seguinte, quando eu estava escrevendo as comoções alegres da noite des-velada, recebi uma carta da posta-interna. Conheci a letra de Paula. Parou-me o sangue no peito; tremi-am-me as mãos como se as tomasse o horror de profanarem a missiva do anjo. Abri, e vi que eram ver-sos. Versos! O idioma primitivo do coração! Os suspiros metrificados! A expressão suprema do amor que se envergonha de expandir-se em prosa!... Ó júbilo intumescente!

Li:

Ao terno cantor, que n'alma

Tem da amante o nome escrito,

Solitária amante envia

Saudades do periquito.

"Será isto escárnio?!", exclamei. Respondeu-me a seguinte quadra:

Ao meigo vate, que eu amo

Com amor casto e infinito,

Manda um doce e ardente beijo

O saudoso periquito.

Não tive alma para ler o terceiro insulto, que mais tarde pude ver:

Na rocha alpestre

Vaga Silvestre

Todo aflito;

Na grande testa

O vento intesta

Com rouco grito,

E ele a gemer

E o eco a dizer:

"Ó periquito!"

A letra destes ignominiosos versos era de Maria da Piedade; mas nem por isso fica sendo menos criminosa Paula, que sobrescritara a carta.

A dor empedrou-me. Grande é a angústia do homem que de si próprio quer esconder o seu aviltamento!

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