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Coração, cabeça e estômago

Camilo Castelo Branco

VII

Este insulto foi providencial. Foi como mão de ferro, que me apertou o coração até esvurmar dele as fezes do vilipendioso amor. Saí de Lisboa, no mais agreste do Inverno, e fui para Santarém, onde vi o santo milagre largamente contado no livro das viagens do adorável poeta da Joaninha do Vale.

Estava, naquela estação, desabrida em Santarém a natureza. Eu queria chorar sozinho em algum recanto daquelas frondosas encostas e dessedentar-me da sede de amor, dando o coração às maravilhas da Terra e do Céu. Esperava eu que a soledade e a contemplação me refrigerassem a alma e a depuras-sem das imundícies em que a pobrezinha caíra, como pomba que, fatigada de voejar, não achou outro poisadeiro. A estas esperanças me haviam induzido alguns filósofos, que tinham o mundo em ódio e acharam no ermo conforto e bem-aventurança. Neste pressuposto, fui dar o primeiro lance de olhos amoroso à natureza, subindo àquela empinada eminência que lá chamam a Porta do sol. Apenas asso-mei ao alto, fiquei comovido das blandícias da natureza, que fez favor de me tirar o chapéu da cabeça e mo enviou para além-Tejo nas asas dum furacão. Retrocedi vexado da grosseira e sentei-me a reco-mendar à natureza de Santarém e ao Diabo os filósofos encomiastas do campo. Rompeu-se uma nuvem, e eu abri o guarda-chuva contra a bátega do vento; uma refega contrária apanhou-mo por dentro em cheio e converteu-mo em roca. A fugir da trovoada desfeita, entrei por um portal. Um cão rafeiro, de-nominado pelos filósofos o amigo do homem por excelência, arremeteu contra mim e, covardemente, quando eu fugia, me arrancou a aba esquerda do fraque. Deste feitio me recolhi à estalagem da Sra. Felícia, pessoa de agradável sombra, que se condoeu sinceramente da minha angústia muda.

Mal me tinha eu apaziguado dos frenesins da minha irrisória raiva contra a natureza, quando o administrador do conselho mandou perguntar-me quem eu era e que vinha fazer a Santarém, caso não apresentasse passaporte. Respondi categoricamente que era viajante e que o meu passaporte era a mi-nha inocência das coisas alheias ao coração e o desprezo em que tinha futilidades com que a república era administrada.

A autoridade, maravilhada de tão farfalhuda resposta, quis conhecer pessoalmente o discípulo de Diógenes que discreteava na estagem da Sra. Felícia, e foi procurar-me. Corremos aos braços um do outro. Tínhamos sido condiscípulos na Universidade, e cinco anos amigos. Fui ser seu hóspede, e re-solvi demorar-me alguns meses em Santarém.

Uma tarde, recebeu o meu amigo, da mão de um oficial de diligências, um ofício do governador civil para imediatamente dar busca na estalagem da Sra. Felícia, onde se presumia estar uma menina nobre, fugida de Lisboa com um sedutor. Ordenava a autoridade superior que o raptor fosse enviado à cadeia e a menina recolhida, até novas ordens, num convento.

O meu amigo lera em voz alta o ofício e mentalmente a participação do governador civil de Lisboa conteúda no ofício. Observei que ele, depois dum trejeito de pasmo, abriu os beiços para me dizer alguma coisa, mas susteve-se, e sorriu com certa malícia.

- Queres tu vir na qualidade de aguazil acompanhar-me nesta diligência? - disse-me ele.

- Vou - respondi -; mas, se tu és homem de coração, como creio, dá escápula aos infelizes, que se amam: não queiras sobre o coração a responsabilidade de dois suicídios. Não achas horrível a prisão para ele e um convento para a pobre menina? Que lucro tira a moral pública de redobrar o es-cândalo e ajuntar à vergonha uma inútil barbaridade?!

- Mas que queres tu que eu faça?

- Que vás à estalagem, que finjas a busca e por portas travessas deixes fugir a mulher, que a lei chama raptada, e o rapaz, que bem pode ser que, em vez de roubador, seja ele o verdadeiramente roubado. As vossas leis são assim... Uma mulher foge pela porta ou pela janela da casa paterna; manda adiante as trouxas do seu fato; amua-se contra a frieza do amante, se ele lhe faz reflexões para a conter em casa; vai ter, afinal, com ele, dizendo que já não pode esconder aos olhos da mãe o caro penhor que lhe palpita no seio. O pobre moço, obrigado pela honra, pela compaixão e pelo amor dela e do caro penhor, foge também aos pais e vai caminho de Santarém ou doutra parte. Vem depois atrás deles a lei, e diz: "Esta menina foi roubada aos pais; este homem é o raptor desta inocente, que vai violentada como a Fátima de Gonçalo-Hermigues, o Traga-Mouros." E depois...

- Apanha as velas ao discurso, que não há tempo - atalhou o meu amigo. - Vamos à Felícia, e lá veremos. Se tiverem ares de se amarem como nos romances, a minha misericórdia administrativa velará o escândalo.

Fomos à estalagem. Eram nove horas da noite.

A Sra. Felícia, interrogada pela autoridade, revelou que tinha em sua casa, havia dois dias e du-as noites, um sujeito e uma senhora, que se diziam casados e nunca saíam do seu quarto. Ordenou o administrador que os fosse chamar à sala, em observância duma ordem da autoridade.

Meia hora depois entrou na sala o sujeito e a dama. Céus! Expedi do peito involuntariamente um ai agudíssimo, levei as mãos aos olhos e caí numa cadeira, que ia caindo comigo.

Era Paula! Oh!... Paula!

Reinou profundo silêncio alguns minutos na sala. Quando me recobrei do espasmo, ergui-me e saí, sem encarar na desgraçada.

VIII

Na desgraçada - disse eu!... Que adjetivos tão tolos tem a nossa boa-fé para adaptar a certas mulheres que trazem a desgraça e a opinião pública sovada aos pés!

O meu amigo, voltando às onze horas da noite, achou-me febril, e assistiu-me até à madrugada com todos os recursos da medicina.

No dia seguinte, sossegando o pulso, contou-me assim o seguinte da diligência:

- Declarou Paula de Albuquerque que não era raptada e seguira de muito sua livre vontade aquele homem, que amava e com queria casar. O homem que ela seguia declarou ser irmão do padre-capelão da casa da menina e mestre-escola régio nos arrebaldes de Lisboa. Ajuntou mais o raptor, ver-tendo prantos caudais, que ele não queria de modo algum dar semelhante passo, mas que a fidalga fora ter com ele, dizendo que não havia outro meio de obterem consentimento para casarem e remediarem o mal feito. Acrescentou o meu amigo administrador que D. Paula, ouvindo tão ignóbil e covarde revela-ção do mestre-escola, rompera em vociferações contra ele, chamando-lhe miserável e pedindo que, sem demora, a enviassem a seu pai para não ver mais um homem indigno do sacrifício dela. O mestre-escola abundava no parecer de Paula e cuidava já em retirar-se, quando o administrador lhe disse que fosse esperar na cadeia que a inocência do seu passo fosse julgada. Em consequência do que o mestre de meninos desmaiou.

A autoridade oficiou daí ao governador civil, narrando-lhe os sucessos. Respondeu este que, visto ser tarde para entrar no convento, pernoitasse a fugitiva na estalagem, com vigias e sob a respon-sabilidade dos donos da casa, até virem de Lisboa novas ordens. O irmão do capelão foi para a cadeia e Paula, no dizer da Sra. Felícia, dormiu até uma quinta de seu pai em Azeitão.

Conclusão

Quando voltei a Lisboa, rara pessoa encontrei que me não contasse o sucesso com a hediondez natural das suas cores e com as outras exageradas, que a maledicência folga de carregar.

O mestre-escola, depois de alguns meses de prisão, foi mandado embora, sem ser julgado; mas na cadeia passou a bordo duma galera, que o desembarcou no Rio de Janeiro. É de crer que o fidalgo, para se forrar à vergonha dos debates no tribunal, perdoasse ao réu e conseguisse que o ministério pú-blico não achasse provas para a querela.

Pelo mesmo tempo, D. Paula casou com o primo que lhe fora destinado desde a puerícia e tor-nou para o palácio de Benfica, em companhia de seu marido e já com um menino robusto, não obstante ter nascido tão sem tempo que ninguém pensou que vingasse. Dizia a avó de Paula que semelhante prodígio não era novo na sua família, porque ouvira sempre dizer que os primogénitos da sua linha-gem quase todos nasciam antes dos seis meses de incubação. Coisa notável!

Vi Paula no teatro: no seu camarote entravam as pessoas de mais brilho na sociedade lisbonen-se, e cortejavam-na com reverência igual à adoração.

Vi Paula nos bailes: os grandes do reino, os milionários, os anciãos reputados modelos de honra e austeridade, honravam-se de lhe darem o braço e de se curvarem a apanhar-lhe o leque do chão.

Vi o nome de Paula inscrito na lista das damas que socorrem os aflitos, pelo amor de Deus, e se chamam, na linguagem dos localistas, as segundas providências na Terra.

Vi, finalmente, que D. Paula era a mulher que o mundo respeitava, sem embargo do conde, e dos amigos íntimos do conde, e do mestre-escola, único bode expiatório de tamanhas patifarias!

A MULHER QUE O MUNDO DESPREZA

I

Naquele tempo li eu que Alfredo de Musset e Espronceda, poetas de altos espíritos, atordoavam as suas dores com a embriaguez, o primeiro porque amava uma literata anfíbia, o segundo porque o alanceavam remorsos de ter desgraçado uma Teresa, que morrera de paixão, por isso mesmo que não era literata.

Era então moda a vinolência, particularmente na academia universitária, onde os mancebos de mais poesia de alma e arremessos de "aspirações grandiosas", como então se dizia, protestavam contra a estreiteza do âmbito, em que o século lhes apertava as faculdades, dilatando os fictícios horizontes da vida, até onde o vinho da bairrada, a genebra e o conhaque permitiam. Verdade é que nem sempre os ébrios podiam justificar a sua degradação com a necessidade de afogarem os desalentos e dissabores da existência nas copiosas libações. Uns embriagavam-se para darem em espetáculo de admiradores a capacidade do seu estômago, e bebiam por alguidares; outros contavam aos seus amigos uma história tenebrosa de amor, que lhes matara a esperança e os infernara para sempre: a história prefaciava de ordinário a emborcação de uma garrafeira. Os auditores do infausto moço levavam-no depois à cama, onde ele digeria o seu vinho e a sua angústia suprema.

Eu conheci um deles infelizes, que era meu conterrâneo e passava em Coimbra por ter sido ul-trajado em sua nobre alma pela mulher de cujos lábios fementidos recebera a morte. Alguns poetas cantaram-no, praguejando a infame que lhe apunhalara o coração. Da história, que ele referia em tom cavo, a verdade nua era que ele viu a sobrinha de um abade numa romaria e ofereceu-lhe cavacas, que ela não aceitou, porque o abade lhes não tirava o olho de cima. Ajunte-se a isto que ele foi à aldeia da Sra. Joaninha com o propósito de lhe falar em fugirem para um deserto; mas a pequena, como andasse atarefada com a matança dos cevados, não lhe deu trela. Por último, o meu vizinho ainda lá tornou em uma noite de esfolhadas; porém, o abade, desconfiado, como pássaro bisnau que era, deu sobre o aca-démico com uma foice roçadoira, e o académico fugiu com tanta pressa e felicidade que algum santo estava a pedir por ele. Em consequência disto é que o bacharel se embriagava, como Alfredo de Mus-set e Espronceda.

À imitação desta, podia eu contar a história de muitos bêbados ilustres da minha mocidade . Conheci outros que eram poetas orientais. Escreviam do amor das mouras, das volúpias dos serralhos, das acesas paixões dos Árabes. Claro é que num clima temperado, e com os costumes chãos e algum tanto lorpas e lerdos da nossa terra, a imaginativa carecia de espiritar-se com os boléus da embriaguez para sair-se dignamente com uma sestilha asiática. Vinham a fazer ditirambos, que intitulavam Arro-bos, ou Coriscos.

Nota

Entre as poesias de Silvestre, achamos uma, datada em 1855, que parece referir-se à época e aos poetas orientais de que vem falando nas suas memórias. Dela trasladamos um fragmento, que vem a ponto:

A esperança mocidade, a plêiade

De génios do Marrare, que é feito dela?

Pulavam em barda, enxame às nuvens

De abelhas, que libavam mel do Himeto,

Disfarçado em cognac; e, então, melífluos,

Como diz não sei quem, que sabe a língua,

Emelavam a gente, isto é, melavam!

E melaram os dulcíssimos meninos,

Quando neles se estava embelezado

O Tejo de cristal e a lua meiga.

Que é deles? Onde o ninho destas aves?

Que implumavam, apenas, e já punham

O fito ma montanha bipartida,

E as cândidas asinhas sacudindo,

Era um gosto comum, um brio pátrio,

Um gosto nacional perdê-los d'olho

E ouvi-los, lá do alto, em trinos destes:

"Doce brisa,

Que desliza,

Pela junça

Do paul,

Traz perfume

Como a aragem

Da bafagem

Duma virgem

De Istambul."

A compita de cântico, responde

Dalém, doutro poleiro, em sons mais ternos,

Outro bardo, que tem na terra amores:

"Minha Elisa, o teu segredo

Não no sei;

Nem na voz do arvoredo

Adivinhei.

..., querida!, diz-mo cedo,

Diz-mo, querida,

Pela vida!

Se não dizes,

Morrerei!"

No número de ébrios que inspiram compaixão às almas flexíveis estava eu. Quem tiver lido as minhas desventuras e pesado, nas cordas sensíveis do seu peito, as embaçadelas (por não dizer sempre desapontamentos) que apanhei na curta primavera da minha vida, decerto me desculpa do asqueroso vício de que me sinto assaz castigado pelas inflamações de vísceras que a miúdo me atormentam. A imagem de Paula não me parecia como visão que da mulher que nos abandonou enfastiada e talvez chorasse por não poder amar-nos! Deus sabe quanto dói à criatura que amaldiçoamos o tédio que as nossas meiguices, e lágrimas, e ciúmes, lhe causam!

Comecei por beber licor de hortelã-pimenta e acabei no abismo estreme. A minha embriaguez era pacífica e até certo ponto catedrática. Eu me explico. Se o auditório me favorecia, deixava-me ir em discursos sobre a filosofia da história, alternados com outros discursos sobre a história da filosofia. Estas matérias, que a todo o homem, em estado normal, se figuram áridas e insípidas, a mim pareciam-me deleitosas e lucidíssimas; e os ouvintes, salva a lisonja, mostravam-se igualmente admirados que instruídos. Não poderemos inferir daqui o facto de que as ciências de certa transcendência as devemos à alucinação de certas cabeças?, e que o espírito humano, sem o complemento de outros espíritos, cuja imortalidade ninguém discute, há-de sentir sempre a estreiteza dos seus limites? Não discorro agora a este respeito, por que bebo água há dois anos.

Numa dessas noites de exorbitância intelectual, como o auditório me abandonasse, saí do Mar-rare das Sete Portas e fui ver a Lua, que crispava de cintilantes escamas a superfície prateada do Tejo. Eram onze horas. Num dos bancos que adornam o Cais do Sodré vi sentada uma mulher, que trajava de escuro e apoiava a cabeça entre as mãos, que, ao revérbero dum candeeiro, pareciam de alabastro, ama-relecido de anos.

Aproximei-me dela, parei com quanta firmeza as pernas me permitiam, e disse-lhe:

- Mulher!

E ela, voltando para mim a face pálida, encarou-me e não respondeu.

- Mulher! - tornei, encostando-me ao peitoril do cais para manter a dignidade e aprumo do discurso.

- Que quer? - respondeu ela.

- Que tens tu com as magnificências da noite? Que segredos vens tu dizer às estrelas, que o Criador fizera tuas irmãs na formosura do brilho? Se te despenhaste da tua inocência, que queres tu deste céu que só verte o orvalho consolador no seio das criaturas afligidas sem mancha, das padecentes sem culpa, ou das infames com dinheiro?

Pouco mais ou menos, foi isto o que lhe disse, que me lembre; o restante, a não ser discurso so-bre a história filosofia.

O mais que me lembra é que, às cinco horas da manhã desse dia de Agosto, a mulher do Cais do Sodré ia comigo numa carruagem e respirava o ar balsâmico da estrada de Sintra.

II

- Conta-me a tua história, Marcolina, antes que eu perca a razão, para lhe dar valor. A embri-aguez, quando não é insultuosa, é pouco persistente nos sentimentos generosos. Faz-me compadecer de ti e darás à minha vida rumo novo, ou pelo menos uma idéia útil e própria de homem que ainda tem intervalos de encontrar-se na consciência. Tu choraste, quando viste árvores e flores; pediste-me que te deixasse morrer lá em cima entre as fragatas da serra; erraste uma vista, de quem se sente morrer de desalento, pela extensão do mar. Quem és tu?, donde caíste até encontrar o primeiro apoio na tua queda sobre o ombro dum homem perdido de razão, que tu recebeste como se encontrasses um teu irmão no despejo e na desgraça? Já sei o teu nome; vejo que foste bela; que a natureza te quer ainda vestir du-mas galas que tu expeliste de ti, quando as rasgavas com pedaços do coração. Já tens outra cor; e as lágrimas, em que te nadam os olhos, parece que te querem lavar os estigmas da face. Voarão nesta at-mosfera os anjos invisíveis que te conheceram, quando tu eras pura?

Marcolina abraçou-me sem a veemência convulsiva que os dramaturgos mandam nas rubricas. Foi um abraço senhoril, comedido e honesto como nossas avós os davam naqueles jogos e saiam sem-pre em uma cadeira defronte da minha otomana e disse:

- Nasci no dia em que meu pai morreu nas linhas de Lisboa. Tenho dezoito anos. Meu pai foi empregado na tesouraria, onde ganhava para levar a vida com abundância. Se algum desgosto sentia, era por não ter um filho. Morreu, como lhe disse, no dia em que eu nasci.

Minha mãe ficou muito nova e bonita; mas quase pobre. As economias que meu pai deixara da-riam escassamente a subsistência dum ano. Ouvi dizer que a casa estava trastejada com luxo, em que meu pai se esmerava, por ter sido criado no paço, onde meu avô era cirurgião.

A mãe teve muito quem a pretendesse, não tanto por ser bela como por correr fama que tinha dinheiro. Teria eu um ano quando ela casou com um empregado público, mais novo e mais pobre que ela.

Lembro-me da minha infância dos seis anos em diante, e dos meus irmãos, que já eram dois, filhos do meu padrasto; e, quando eu tinha dez anos, já éramos seis irmãos, todos meninas.

Não tenho memória nenhuma de viver em casa mobilada com limpeza. Minha mãe foi vendendo pouco e pouco algumas jóias que tinha para ajudar às despesas, que aumentavam, e aos vícios de seu marido, que também cresciam com a pobreza. O que me lembra muito bem é a indigência, e a fome, e a nudez de minhas irmãs.

Meu padrasto, por causa duma revolução, foi demitido do lugar; e, obrigado pela penúria, fez um roubo, e esteve preso alguns meses. Nunca mais o vi, e não sei ainda hoje se foi degredado, se foi para o Brasil, como minha mãe dizia.

Quando eu tinha doze anos, vivíamos num último andar duma casa na Rua de S. Luís. Minha mãe saía à noite com três de minhas irmãs e recolhia-se muito tarde a fazer a ceia, que era muitas ve-zes o jantar. Creio que ela andava mendigando. Outras vezes fechava-nos todas na única alcova da casa, e ela ficava na saleta: creio que este facto era mais horrível que pedir esmola.

Aos catorze anos, estando eu sozinha em casa uma noite, fazendo camisas para embarque, ouvi um rangido de botas nas escadas próximas e estremeci. A porta foi aberta de fora com a chave, e eu ergui-me, espavorida, correndo à janela que se abria sobre o telhado. Lembraram-me, naquele instante, palavras que a mãe me tinha dito, e julguei-me perdida.

Quando lancei a vista à porta para me bem convencer da desgraça, vi um homem que caminha-va para mim, dizendo que me não assustasse. Eu fui recuando até ao cantinho da casa e encolhi-me a tremer e a chorar.

Parece que o homem teve piedade de mim. Esteve a olhar-me com ar melancólico, sentou-se e limpou o suor da testa.

Perguntou-me quantos anos tinha; se minha mãe nada me tinha dito a respeito duma visita; se eu antipatizava com ele; se eu queria sair de tanta pobreza e da companhia de minha mãe, que me ven-dera e que tencionava viver do preço da minha honra.

Eu respondi soluçando a tais perguntas. O homem, que se mostrava condoído, chegou a cha-mar-me para junto dele, oferecendo-me uma cadeira. Fui sentar-me com muito medo; mas tranquilizei-me algum tanto quando vi que me não lançava as mãos. Uma vez que ele se inclinou para mim, deitan-do-me o braço à cintura, ergui-me de salto e ajoelhei, pedindo que me deixasse. Ergueu-me com bran-dura e disse-me: 'Esteja sossegada, que eu não lhe faço mal' - e passados instantes continuou: 'A sua felicidade não é eu deixá-la; porque amanhã sua mãe a venderá a outro homem que se não compadeça da sua inocência e lhe despreze as lágrimas. A sua posição, menina, é muito desgraçada nesta casa. Eu vinha preparado para encontrá-la bem disposta a ceder ao destino que sua mãe lhe deu; vejo que não é fingida a sua dor. Quer, Marcolina, salvar-se das grandes vergonhas que a esperam? Saia já desta casa, aceite a minha amizade; venha para minha companhia, e depois pensará no que melhor lhe convier para ser menos infeliz. Confesso-lhe que a sua beleza me encanta; mas já não serei capaz de a querer sem que o seu coração a leva a ser minha amiga.'

Continuou a falar neste sentido longo tempo; e a final estando já de pé para sair, lançou-me ao regaço dinheiro em ouro e disse: 'Quando sua mãe vier, diga-lhe que está pura, peça-lhe que não a venda, e obrigue-se a sustentá-la com a condição de não a vender. Esse dinheiro é o necessário para um mês; no princípio do mês que vem receberá igual quantia.' E saiu, beijando-me na testa e murmurando, quando me viu estremecer ao contato da sua boca: 'Pobre menina!'

- Era novo esse sujeito? - interrompi.

- Não, senhor. Teria cinquenta anos.

- Continua. Tua mãe quando chegou...

- Viu o ouro sobre a mesa e fez-se escarlate de infernal alegria. Olhou para mim e disse: 'Não estás mal comigo?' Rompi num pranto, que me afogava. Quis ela abraçar-me, chamando-me tola com modos carinhosos, e eu fugi para a alcova onde minhas irmãs estavam assentadas no enxergão.

- Das tuas irmãs, uma já devia ter treze anos nesse tempo.

- Essa não vivia conosco.

- Que destino tinha tido?

-O que minha mãe quisera dar-me. A mãe disse-me que ela estava na Casa Pia; mas, alguns meses depois, soube que ela estava na situação em que estou hoje.

- E está ainda?

- Não, senhor. Morreu de dezasseis anos.

- No hospital?

- Não, senhor, em minha casa.

- E as outras irmãs?

- Logo lhe direi.

III

- Minha mãe quis que eu lhe contasse o que se passara entre mim e o Sr. Barão.

- Ah!, era barão, o sujeito?!

- Era barão; mas não o maldiga, que tinha boas qualidades.

- Veremos... Por enquanto, não há razão de queixa. Ora diz o mais.

- Contei à mãe o sucedido; menos o modo como ele me falara dela. Ouviu-me com admiração e disse-me: "Se eu soubesse que ele tinha palavra e te dava mesada, saíamos destas águas-furtadas e podíamos viver regaladamente." Acrescentou a estas palavras um plano vergonhoso que devia enrique-cer-me em poucos anos. Faz-me horror o que lhe ouvi!

No dia seguinte, minha mãe comprou-me um vestido de cassa, um mantelete em segunda mão, um chapéu de palha e outras miudezas. Mandou-me pentear, e vestir, para darmos um passeio. Atra-vessámos algumas ruas, que eu via pela primeira vez, e entrámos no pátio dum palacete. 'Onde va-mos?', disse eu. 'Aqui é que mora o Sr. Barão; é preciso sermos gratas.' O guarda-portão, que já a co-nhecia, tinha subido a dar parte ao amo, e voltou quando minha mãe me estava dizendo: 'Deves mos-trar-te muito agradecida ao fidalgo e pede-lhe licença para mudares de casa e alugares outra onde ele possa entrar sem repugnância.'

Fez-me uma mudança espantosa no meu espírito, quando tal ouvi. Não hesitei. Subi as escadas, e minha mãe sentou-se no banco do pátio. Entrei numa sala muito rica e sentei-me à espera. Tinha o rosto banhado de lágrimas. Chegou o barão, e veio ao pé de mim, com ar muito alegre e meigo. 'Quem a trouxe aqui, Marcolina?', disse ele. 'Foi minha mãe, com um recado; mas eu venho dizer-lhe outra coisa.'

Faltou-me o ânimo para continuar; mas, instada pelo barão, e com a odiosa imagem de minha mãe a instigar-me, cobrei forças e pude dizer-lhe que me tirasse da companhia de minha mãe e se com-padecesse do meu infortúnio. 'Agora mesmo', disse ele. E saiu da sala para entrar noutra, onde man-dou chamar minha mãe. Soube, depois, que nessa ocasião se realizou o contrato, com muita generosi-dade da parte dele no pagamento e pronta anuência dela no separarmo-nos. Neste intervalo, chorei com saudades da minha irmãzinha mais nova, que tinha cinco anos e meio e era linda como um anjo.

Passados quinze dias, a minha guarda-roupa estava cheia de cetins e veludos. Tinha brilhantes que faziam invejável a minha desonra. Tinha uma mestra, que me ensinava as atitudes senhoris nos camarotes e recebia dessa mesma lições para entrar na carruagem, apanhando a cauda dos vestidos com elegância, e saltando dela garbosamente para o banco almofadado que me oferecia o lacaio. Numa das minhas primeiras idas a S. Carlos, vi minha irmã num camarote com mais duas senhoras. Dei um grito de surpreendida e indiquei-a ao barão. 'Não olhes para lá, disse-me ele, 'tua irmã, se é aquela, deve ser o que são as companheiras: são três prostitutas que ali estão.' Baixei os olhos, como obrigados pelo peso das lágrimas e da vergonha. Vergonha e lágrimas! Que mais valia eu que minha irmã, e quem era mais digna de lágrimas que eu!

Um dia recebi um bilhete de minha irmã, dando-me os parabéns da minha felicidade e pedindo-me que a não desprezasse por ter sido menos feliz que eu na carreira que a mãe nos dera a ambas. Mostrei esta carta ao barão, e ele, com soberba irritação exclamou: 'Não lhe respondas; proibo-to, sob pena de ficarmos mal.'

- Começa o barão... - atalhei eu.

- Começa o segundo acto da minha tragédia - disse Marcolina.

IV

- Fui um dia ao Campo Grande: ia sozinha na carruagem. Apeei para passear entre as árvores e vi ao longe duas senhoras correndo para mim. Conheci minha irmã e corri para ela. Abraçámo-nos a chorar. Contou-me em breves palavras a sua vida. Era a minha, com a diferença das pompas. Vivia com um mercador de panos, que aborrecia; mas sujeitava-se por não ver outro caminho por onde achasse mais honesto modo de vida. Praguejou contra a mãe, analisando ao mesmo tempo os meus anéis e pulseiras com olhos cobiçosos.

Quando assim estávamos entretidas, apareceu de súbito o barão; encarou-me com desabrimento e disse-me: 'Já para casa!' Não repliquei, nem mesmo olhei para minha irmã. O barão arguiu-me seve-ramente; e, dizendo-lhe eu que a minha vida não era mais honesta que a da outra desgraçada, mostrou-se muito ofendido com ser comparado ao mercador de panos. Arrependi-me de dizer tal, porque ouvi insultos da sua vaidade ferida com tão pouco. Desde esse dia, comecei a sentir os espinhos da minha posição. Caí numa modorra de tristeza, mais dolorosa que a miséria. Se ia ao teatro, era violentada: se me vestia, a capricho do barão, fazia-o tão contrariada que ele rompia em desatinos contra mim, dizen-do-me que eu já o não amava... como se eu o tivesse amado algum dia! O ódio a minha mãe recrescia, quanto mais eu entrava na consciência da minha perdição e no preço das galas com que eu insultava a virtude honesta. A minha grande desgraça, senhor, era eu não poder destruir os sentimentos da digni-dade, talvez herdados de meu pai, que fora honrado. As mulheres na minha posição começam a ser felizes quando se enterram de todo no charco das torpezas.

Um dia, estava eu à janela, e vi passar minha mãe com a filha mais nova. Retirei-me, quando ela me ia acenar com a mão; mas ficaram-me os olhos na criança, e escondi-me a chorar. O barão en-controu-me a enxugar as lágrimas; contei-lhe a causa; e ele, querendo consolar-me, disse-me que mi-nha mãe e irmãs estavam vivendo fartas e com decência à minha sombra, e ajuntou que, enquanto eu me portasse bem, não lhes faltaria nada. Pedi-lhe que me deixasse ter na minha companhia a mais nova de minhas irmãs. Não quis, nem mesmo concedeu que ela me visitasse alguma vez. Ora isto, e muitas outras contradições que fazem o desgosto da vida íntima, conseguiram desvanecer pouco e pouco a amizade que eu cheguei a dar-lhe, mais por amor da piedade com que me tratou na minha pobre casa que pela opulência com que me tinha na sua. Entrei a pensar no modo de me resgatar do cativeiro; po-rém, não via nenhum que não fosse aumentar o meu infortúnio.

Lembrei-me de ir para uma terra da província ensinar meninas; mas eu escrevia tão mal, e lia tão pouco, que de certo me rejeitariam. De prendas de costura, apenas sabia dar um ponto, visto que minha mãe não pudera nem quisera dar-me educação, nem tive mestra, senão quatro meses, enquanto se me não romperam os vestidinhos que me dera minha madrinha.

Pedi ao barão que me desse uma mestra de escrita e de leitura e me mandasse ensinar algumas prendas para me entreter.

Anuiu a tudo, menos ensinar-me a escrever, dizendo que o saber escrever era causa de muitas mulheres se perderem.

Irritou-me muito esta objecção; mas aceitei o consentimento de aprender a marcar, bordar e ta-lhar vestidos de senhoras. Felizmente a mestra escrevia sofrivelmente, e ensinou-me às escondidas, com grande aproveitamento.

O barão tinha um guarda-livros, que raras vezes me via, e perdia a cor se acertava de encontrar-se comigo. Era novo como eu, tinha uma fisionomia agradável e um acanhamento que me fazia supor que eu, na minha situação, ainda impunha respeito. Conheci então o amor, à força de pensar que senti-mento seria o que ele me causava. Era eu quem já o procurava ver de longe, e me retirava, se o guarda-livros me surpreendia a observá-lo duma janela por onde, através do pátio, se via o escritório.

Alguém me denunciou ao barão, quando eu me julgava a resguardo da menor suspeita. O cai-xeiro foi despedido e a notícia deu-ma o barão com um riso sardônico e do mau intento. 'Já sei o fim para que tu querias saber escrever', disse ele. 'Qual era?, acudi eu. Não respondeu.

Passados dias, achei uma carta no livro que andava lendo, emprestado pela mestra. Era do guarda-livros. Quem trouxera esta carta? Seria isto uma velhacaria traiçoeira do barão?! Não era. A mestra fora-me dada por informação do caixeiro e, a instâncias dele, me trouxe a carta, que não ousara entregar directamente.

Não me afligiu a temeridade do moço, que eu amava. Recebi a carta, agradeci-a à mestra, e res-pondi-lhe sem artifício, dizendo-lhe sinceramente que o amava; mas que entre mim e ele estava uma eterna barreira, levantada pela minha vergonhosa posição. Mulher que não amasse com toda a candura e inexperiência do que são verdadeiras vergonhas não escreveria tal carta. A mulher experimentada na infâmia finge sempre que não a incomoda a consciência de que a tem e nega aos outros o direito de cuidarem que ela se imagina infame. Penso eu que é verdade isto, pelo que tenho aprendido de mim própria.

O guarda-livros respondeu-me admirando-se que eu visse tal barreira entre nós, quando ele me-ditava em me fazer sua esposa. Desde que li esta segunda carta, senti-me doida de esperanças felizes; apaixonei-me pelo homem, que me não via ás nódoas da desonra: não era já amá-lo, era adorá-lo na minha imaginação.

E, ao mesmo tempo, tamanha aversão me fazia o outro de quem o meu corpo era escravo que já mal podia dissimulá-la.

Conseguiu Augusto que eu lhe falasse, quando saísse a passeio. Mandei pôr os cavalos à sege quando o barão estava fora. Apeei-me em S. Pedro de Alcântara e desci ao jardim, onde Augusto me esperava. Balbuciou a repetição do que me tinha escrito, sem ousar tocar-me a trêmula mão, nem eu ousava oferecer-lha. Conheci que a minha riqueza o humilhava, lembrei-me então que aquele rapaz, se me visse numa pobre casa com modestos trajos, havia de amar-me expansivamente! Que falsos juízos forma o coração que se não vendeu o corpo. Que grande bem seria poder a mulher despojar-se da pure-za da alma quando se desonra!

O barão teve aviso de que eu me encontrara com o guarda-livros. Nada mais natural! Como cuidaria eu que os criados me não espreitassem! Cegava-me a razão, o amor e o desejo impetuoso da liberdade. Já se me não dava que ele o soubesse e me expulsasse. Jussara até comigo de lhe dizer a verdade, provocando-me o barão a dizê-la.

Foi o que sucedeu. À primeira queixa do homem assanhado pelo ciúme respondi que certíssi-mamente amava Augusto; que queria passar do crime faustoso para a virtude na pobreza; que era muito infeliz na vida que tinha; e que só com amor se podia suportar a vergonha de ser banida da sociedade.

Espantou-se do meu desembaraço o barão e cobriu-me de injúrias; das injúrias passou às lágri-mas; das lágrimas tornou aos insultos; e quando eu menos podia esperar uma vilania sem nome, deu-me uma bofetada. Levei as mãos ao rosto e quase perdi os sentidos. Quando abri os olhos, desvariados de angústia, o barão estava ajoelhado aos meus pés e dizia: 'Eu não sou, há muito, teu marido porque não posso sê-lo, porque nunca te disse que sou casado e que tenho a mulher no Brasil. Espera que ela morra, e então serás minha mulher. A sociedade te respeitará então o título, a riqueza e a virtude de me teres sido fiel.'

Não sei que mais lhe ouvi, que parecia aumentar o sentimento de abominação agravado pelas súplicas depois do insulto. Afastei-me e escrevi-lhe, a despedir-me. Devia de ser-lhe nova e aflitiva surpresa quando viu a minha carta escrita com boa letra e rancorosa eloquência com que eu lhe atirava ao rosto a desestima em que o tinha, já convertida em desprezo.

Dum arremesso, entrou no meu quarto. Trazia um par de pistolas aperradas: tive-lhe medo e horror quando ele gritou: 'Uma para te matar e outra para mim!' 'Que mal fiz eu para morrer?!, excla-mei com ânsia de quem quer e pede a vida.

V

- Menti-lhe para me livrar das baixezas suplicantes e das ameaças. Prometi deixar Augusto e ficar na companhia do barão. Pediu-me que escrevesse uma carta ao caixeiro, segundo ele ma ditasse. Recusei. Ameaçou-me de novo; vendo-me, porém, resistente e já disposta a morrer, tornou às brandu-ras e desistiu da carta, como coisa inútil depois da minha promessa.

No mesmo dia, brindou-me com um alfinete de diamantes e mandou-me preparar para irmos vi-ajar. O meu plano estava formado: respondi a tudo que sim.

Quando veio a mestra, dei-lhe uma carta para Augusto, avisando-o do meu projeto de fuga e pedindo-lhe que me recebesse assim pobre, que eu já sabia trabalhar e nunca lhe seria pesada.

A mestra estava já vendida ao barão, que foi logo senhor da carta. Se eu fosse esperta, adivi-nhara a perfídia da medianeira na alteração de rosto com que me recebeu a carta. Estava-se acusando a vil criatura; mas eu não podia julgá-la. Parece-me que só os infames podem julgar bem os infames.

Vi entrar o barão no meu quarto com terrível contractação de rosto. Sem me encarar, pediu-me uma a uma todas as minhas jóias: dei-lhas. Pediu-me todos os meus vestidos, todos, nomeando-os um a um pelas suas cores e estofos: dei-lhos; e perguntei se devia despir o que tinha vestido. 'Veremos', disse ele. E, depois de atirar com os vestidos a pontapés para o interior do seu quarto e guardar as jói-as, acrescentou: 'agora, vá quando quiser, que vai como veio. 'Não vou como vim', respondi eu. 'Era pura quando entrei nesta casa, Sr. Barão.' Replicou-me com um insulto sem nome e saiu.

Esperei que anoitecesse, e no entanto pensei para onde iria. O coração impelia-me para Augus-to; mas eu ignorava a residência dele. Lembrou-me ir pedir agasalho a minha irmã, e de casa dela in-dagar a morada de Augusto. Lembrou-me de relance minha mãe; mas suposto me sorrissem as minhas irmãzinhas, fechei logo os olhos a esta horrorosa visão. Prevaleceu o único refúgio, que era minha irmã, muito menos desgraçada do que eu.

Escureceu; saí do quarto e desci as escadas. Ia assim como estou agora. Não levava comigo cinco réis, nem valor algum além dum vestido de casa que tinha no corpo. A meio das escadas, saiu-me o barão duma sobreloja, travou-me pelo braço com mais amor que força e disse-me: 'Onde vais, des-graçada?! Pensa bem no passo que vais dar. Contas com o caixeiro? Esse miserável é tão pobre como tu. Desde que saiu da minha casa, já me mandou pedir um empréstimo, que eu lhe dei como esmola. Nenhuma casa comercial o aceita sem as minhas informações; e eu, a quem mas pede, respondo que ele aniquilou a minha felicidade e desgraçou para sempre duas famílias. Serve-te assim o homem? Cuidas que o caixeiro irá pedir esmola para te sustentar? Irá; mas quem é que lha dá? E quando ele, cansado de humilhações e desonras, friamente olhar para ti e te julgar a causa de sua desgraça, há-de aborrecer-te, odiar-te, e abandonar-te, e fugir de ti como quem foge do maior inimigo. Medita nisto, Marcolina. Perdoo-te o mal que me fizeste, esqueço tudo, peço-te mesmo perdão do que fiz hoje, alucinado pelo amor que te tenho. Ficas, Marcolina?

'Não fico', respondi, 'nem vou procurar Augusto. Para desgraça, basta a minha. Vou ter com minha irmã e de lá procurarei uma casa onde sirva.'

Lançou-se-me aos pés o barão, abraçou-me pela cintura abafado pelos soluços; disse-me até, no seu desvario, que iríamos para a França, e lá casaria comigo. Causou-me riso e compaixão este desati-no!... Cedi, deixei-me ir quase nos braços dele até ao meu quarto. Parecia louco de alegria o pobre ho-mem! Trouxe-me as jóias, tirou do dedo um grande brilhante, que ele chamou anel de casamento, e quis à força que eu o pusesse entre outros, posto que podia abranger três dos meus dedos.

- Era uma pulseira! - interrompi eu com ambições de graça. - O barão, excepto os dedos, parece-me um bom sujeito!

- Era - tornou Marcolina -, era um coração como poucos. As ameaças das pistolas, os in-sultos, a requisição das jóias e dos vestidos, tudo isto, que parece vilania, era nele uma sublime manei-ra de exprimir o seu muito ciúme e paixão.

Nunca mais vi a mestra, nem tive pessoa que me falasse de Augusto. Naturalmente o fui esque-cendo, o forçoso era esquecê-lo em Paris e Londres, para onde o barão me levou, sem me dar tempo a cismar uma hora no meu passado.

De Londres fomos para Alemanha, e estávamos em Baden-Baden, quando o barão, no gozo de robusta saúde e felicidade que a cada hora me confessava, morreu subitamente dum ataque apopléctico, quando se estava banhando.

Não estou a moer-lhe a paciência com os pormenores das coisas sucedidas depois da morte do meu extremoso amigo. Basta dizer-lhe que eu fiquei apenas possuidora dos objectos valiosos que tinha para meu uso, e sem esses mesmos ficaria se um português que estava em Baden-Baden me não acon-selhasse a sonegá-los às averiguações da justiça. A mulher do barão veio a Portugal e habilitou-se her-deira única da grande riqueza.

Deliberei voltar para Lisboa.

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