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Coração, cabeça e estômago

Camilo Castelo Branco

VI

- As minhas jóias valeriam quarenta mil cruzados.

Coadjuvada pelo serviçal português, que me aconselhara, vendi em Londres as melhores peças do meu cofre e apurei uns doze contos de réis. Cheguei a Lisboa e aluguei uma casinha agradável em Buenos Aires. Procurei minha irmã e encontrei-a com muita dificuldade, reduzida ao extremo avilta-mento. Em menos de um ano, a infeliz descera a escala da abjecção, que outras descem em muitos anos de libertinagem, com reveses de miséria e luxo. Se alguma vez passou numas ruas imundas da cidade alta, onde as mulheres competem em palavras obscenas com os marinheiros embriagados, já sabe onde eu encontrei a primogénita das segundas núpcias de minha mãe.

E minha mãe onde estaria? E minhas irmãs a que destino seriam chamadas?

Levei a desgraçada para a minha companhia. Chorei três dias a contemplá-la; e ela não chorava. Vesti-a com decência igual à minha; levei-a comigo a passeios ao campo; falava-lhe em tudo, menos no seu destino; queria ela contar-me a sua queda, e eu pretextava sempre uma distração para não lha ouvir.

Passados quinze dias, conheci que minha irmã amava o vinho e bebia muito, e ria desentoada-mente depois, começava a rir logo de manhã, e chegava ao jantar já completamente embriagada. Cha-mei o criado a perguntas, e soube que ela bebia genebra em grandes porções e a toda a hora. Aconse-lhei-a primeiro brandamente, e depois, baldados os bons modos, repreendi-a com severidade. O resul-tado foi querer ela sair de minha casa e voltar ao sítio donde viera. Estava irremediavelmente perdida. Consenti que se embriagasse e não saísse. Não bastou esta concessão. Um dia desapareceu-me. Fui procurá-la às paragens mais prováveis e não pude achá-la. Só depois de um mês, com auxílio da polí-cia, pude descobri-la... no Hospital de S. José.

Fui ao hospital. Falei-lhe, e vi que estava de todo desfigurada. Consultei o facultativo da en-fermaria e soube que minha irmã estava mortalmente doente de tubérculos pulmonares. Fí-la transpor-tar para minha casa, por me lembrar que no hospital, a religião não poderia dar-lhe esperanças de me-lhor vida, agonizando ela entre as suas companheiras de desgraça, que continuamente vociferavam torpezas, ou praguejavam contra Deus, enfrenesiadas pelas dores.

Ao sair do hospital, encontrei Augusto. Senti um abalo, como se visse ressuscitado um amigo morto e quase esquecido. Adiantou-se ele para mim, cumprimentou-me, e disse-me que andava estu-dando Medicina e estava no seu segundo ano, modo de vida que abraçara por ter parentes que o prote-giam, conhecedores da malvadez com que o barão o perseguia.

Minha irmã morreu: já não podia vencer a morte. Prestei-lhe quantos auxílios cabiam em forças da amizade e da compaixão. Os paroxismos da infeliz foram tranquilos; e, se as lágrimas valem na pre-sença de Deus, pode ser que o seu inferno fosse o deste mundo somente.

VII

- Foi Augusto visitar-me.

Falou-me do passado, e eu contei-lhe tudo que decorrera desde a sua última carta.

Não lhe ocultei os haveres, que eu tinha em inscrições, compradas com o produto das jóias. Respondi com amizade às reminiscências do seu amor. Pedi-lhe que fosse meu amigo, simplesmente meu amigo, e que não quisesse acordar um sentimento que por pouco nos não fizera a ambos desgraça-dos sem refúgio.

Encarreguei-o de indagar a sorte de minha mãe. Soube que ela, desde a morte do barão, estava vendendo os móveis para se sustentar e que, em breve, na opinião dos informadores, teria as filhas em conta de móveis. Augusto, industriado por mim, pôde falar às meninas, na ausência da mãe, e persua-diu-as a fugirem para a minha companhia; o que elas prontamente fizeram. Ao mesmo tempo, mandei dar a minha mãe uma mesada, com a certeza de que as faria educar e preparar para um virtuoso desti-no.

Parece que o senhor às vezes se mostra espantado desta linguagem na boca da mulher que on-tem encontrou às onze horas da noite!...

- Dizes bem, Marcolina; às vezes espanto-me. Tenho-te ouvido falar em virtude não sei quantas vezes!

- Uma.

- Só uma?! Será: mas tens tido raptos de eloquência religiosa que cabiam muito bem num li-vro espiritual.

- E daí que conclui? Que sou hipócrita?

- Não: concluo apenas que és mulher, mistério enigma, absurdo, paradoxo, mescla de luz do Céu, e lavareda do Inferno, demônio e anjo, etc. Continua, que eu enquanto te não vir desfalecida de falar, não te lembro que devemos jantar hoje.

- Pois então jantemos, que eu não penso mais. Parte-se-me o peito com dores; preciso descan-sar, porque há seis anos que não falo tanto, meu amigo. Estou admirada do bem que me faz o ar do campo. Ainda não tossi desde que cheguei a Sintra.

- Pois tu tens tosse?

- Tenho a tosse da tísica.

- Estás tísica?

- Parece-me que sim... Não falemos em moléstias. Vamos jantar debaixo das árvores: pode ser que eu chore, e o Sr. Silvestre também. Felizes os que choram... É a única felicidade que eu posso dar-lhe.

Estava o jantar na mesa.

Entre parênteses do editor

Há-de muita gente pensar que Silvestre da Silva, nesta parte de suas memórias, anda apegado às muletas literárias dos modernos regeneradores das mulheres degeneradas. Arguição injusta! A Marga-rida Gauthier é muito mais nova que a Marcolina; e reparem, além disso, que o processo da reabilita-ção. Eu estou em acreditar que Marcolina, longe de exibir a fibra pura do seu coração, pedindo que lhe aceitem a virgindade moral que ela se refugiou das paixões infames e infrenes, há-de esconder os bons sentimentos com pejo de os denunciar, e fará que as fivelas da mordaça lhe apertem atrozmente os lá-bios, quando a palavra "amor" lhe rebentar da abundância do coração. A meu ver, Marcolina está dan-do lições de moralidade, quando muita gente cuida que ela está pedindo lágrimas e perdão dos agravos que fez à moral pública. Veremos.

Como quer que seja, aqui não há damas de camélias, nem Armandos. Silvestre não quer que o romanceiem nem dramatizem. Conta as coisas em escrito como mas disse a mim conversando, e eu agora as dou em estampa ao universo quais as achei nos seus manuscritos. Da moral do conto, o uni-verso que decida, e os localistas.

VIII

Marcolina fingiu que comia e que se alegrava. Quis ter graça para responder à provocação das minhas facécias: mas era senhoril de mais nos chistes, que saíam obrigados pelo desejo de fazer-me boa companhia. Tomou algumas chávenas de café e não provou nenhuma bebida espirituosa. À quarta ou quinta chávena, teve um acesso violento de tosse, que terminou com um golfo de sangue. Saiu do quebranto em que ficara com as faces emaciadas e lívidas. Pediu-me perdão do dissabor da sua doença e prontificou-se, se eu queria, a ir contar-me o restante da sua vida, à sombra das árvores. Desisti da minha curiosidade, dispensando-a de falar naquele dia em coisas que a fizessem chorar e me comoves-sem a mim. Não quis. Aceitou-me o braço e saímos. À sombra da primeira árvore, distante dos grupos que a viram passar e nos olhavam com um sorriso de escárnio ou de piedade da minha libertinagem, sentou-se Marcolina, e recomeçou com as últimas palavras que dissera antes de jantar:

- Felizes os que choram... E a única felicidade que eu posso dar-lhe. - E prosseguiu, depois de recordar o facto em que ficara suspensa a história:

Augusto, apesar das minhas instâncias, pouco sinceras, falou-me do seu amor incessantemente; com tanto respeito, porém, o fazia, quer eu estivesse sozinha, quer com as minhas irmãs, que me cati-vou a gratidão. Mal sabe o mundo quanto a mulher indigna de respeito sabe ser agradecida a quem teve com ela a comiseração do recato nas palavras e nos gestos!... A infeliz passa da estranheza à alegria de se ver ainda tratada com delicadeza, quando a consciência, o seu verdugo, lhe está dizendo que não merece inspirar sentimento algum, que não seja aviltante ou desonesto. Foi assim que me prendeu Au-gusto, sem me despertar o amor doutro tempo. Sentia que o não amava e mentia-lhe, querendo retribuir a sua generosidade cavalheirosa. O desapego de meu coração era incompreensível. Na minha vida só se tinham dado os infortúnios que lhe contei. Não gastara a sensibilidade; amara-o apenas a ele; e, sem ter sido enganada pela sedução dalgum homem, sinceramente lhe digo que me inclinava a odiá-los todos. Creio que me levaram a isto as desgraças de minha irmã falecida. Cuidei que todos os sentimentos de dignidade lhos tinham matado os homens, reduzindo-a à hediondez de corpo e alma em que a vi.

As conversações de augusto tendiam todas ao casamento. Contrariei-as com simulada repug-nância; mas em minha alma antevia a felicidade de ter um marido, que nunca me havia de pedir contas do meu passado. Além disso, meditando nos costumes de Augusto, no seu viver, na sua aplicação aos estudos, e no plano que tinha de se retirar para uma província logo que estivesse formado, achava-o mais perfeito do que eu podia merecê-lo: parecia-me que qualquer menina sem mancha na sua reputa-ção e com um bom dote se devia dar por bem-aventurada com tal marido.

Casei.

Acredite que eu não tive um mês de contentamento. Sou obrigada a crer que há em mim desgra-ça contagiosa. Augusto transfigurou-se, se não era hipócrita; ou o demónio do meu destino lhe entrou no espírito para me atormentar sem tréguas, nem fim. Eu não posso demorar-me a contar-lhe pelo miú-do o desconcerto em que vivemos. Augusto era libertino, dissipador, jogador, e até embriagado o vi muitas vezes. Como se explica esta mudança, a não ser pela precisão de mudar-se tão espantosamente um homem que devia ser o meu flagelo?! Mas Porquê? Em que era eu criminosa para tal castigo? Que mal fizera eu a Deus ou à sociedade? Não fui causa a que o barão deixasse a mulher, porque já a tinha abandonado quando me levou para si. Fui boa com a minha mãe e com minhas irmãs. Lembra-me agora se o meu crime era possuir alguns contos de réis das jóias que me tinham sido dadas, e que eu escondi aos direitos da herdeira. Mas a minha desonra e repulsão dentre as pessoas virtuosas não valia alguma coisa?

Seriam as jóias, seriam, meu amigo... É certo que meu marido em dois anos dissipou tudo, tudo. As inscrições vendeu-as; o resto dos braceletes, anéis, cadeias, relógios, tudo com razão ou sem ela, com violência ou brandura, me levou de casa. Restavam-me os móveis, quando, depois de esperar três dias por Augusto, recebi dele uma carta em que me dizia adeus para sempre. Não sei se saiu do País, se se matou. Há três anos que o não vi, nem seus condiscípulos tiveram novas dele.

Ficaram comigo três irmãs, e minha mãe em sua casa, vivendo da mesada que eu lhe dera até ao fim, já quando a furtava à boca e à decência do vestir. Chamei minhas irmãs, que eram já mulheres, e disse-lhes que era necessário morrermos todas. Ouviram-me espavoridas. Disse-lhes que a morte era simples e rápida se acendêssemos dois fogareiros num quarto e fechássemos portas e janelas. Lança-ram-se a mim a chorar. Não queria morrer.

Fui vendendo a roupa e os móveis. Perto estava já o dia da fome irremediável, quando fui con-vidada a procurar em determinada casa um homem que desejava tirar-me da miséria. A encarregada deste convite era uma mulher que tinha estabelecimento público de infâmia. Fui?... Fui... meu amigo, porque minhas irmãs tinham vendido na véspera as suas camisas e minha mãe já três vezes tinha vindo à minha porta pedir esmola com um ar de zombaria que me espedaçava. Apenas conheci a casa em que estava, quis fugir; mas fui estorvada pelo homem que me chamara. Era um amigo do barão.

Voltei a casa com uma peça de ouro e escondi de minhas irmãs a ignomínia daquele dinheiro. Inventei uma história, fiz o elogio da generosidade dum benfeitor, e minhas irmãs, erguendo as mãos a Deus, pediram-lhe a saúde dele. Então ri-me... riso atroz!... creio que me ri da Providência... e, a falar a verdade, não sei bem do que me ri...

Calou-se Marcolina, obrigada pela tosse e pelo vômito de sangue. Amparei-lhe a fronte nas mi-nhas mãos; esperei que sossegasse e disse-lhe:

- E as lágrimas?... Tinhas-me dito que chorarias, infeliz!...

Pois não vê as lágrimas no sangue? - disse ela, sorrindo. - Os olhos já não as têm.

- Não quero ouvir mais - tornei eu.

- Não tem mais que ouvir... O que falta é...

- A duração da desgraça com um só meio de remediá-la...

- Decerto...

- Que fazias ontem no Cais do Sodré?

- Pedia coragem ao meu demónio para me matar; mas vi minhas irmãs, ou o demónio mas mostrava, para que o meu inferno se não acabasse.

- Basta. Esta noite partiremos para Lisboa. Confias de mim o teu destino e o de tuas irmãs? - disse-lhe eu, sem calcular o cargo que me impunha e pensando apenas na quantia que podia dispor.

Marcolina sorriu-se e disse:

- Que generosa alma a sua! Não sabe em que mundo está!...

IX

Poucos dias depois da minha volta de Sintra, as três irmãs de Marcolina entraram num recolhi-mento, a título de minhas parentas.

Marcolina saiu de Lisboa comigo e entrou em minha casa na província. Era já morta minha mãe. Os meus vizinhos escandalizaram-se de me verem em concubinagem, e o pároco da freguesia deixou de me visitar, e o boticário proibiu as filhas de me falarem, e o regedor recomendou à mulher que não fizesse conhecimento com a lisboeta, que tinha cara de pecado.

A minha aldeia é penhascosa, feia e triste. Marcolina amava os rochedos, e as sombras das ma-tas, e ajoelhava às cruzes que encontrava nas veredas por onde andava sozinha, e dobrava-se rente com o chão para beber das fontes térreas em que borbulhava a água. Retingiram-se-lhe as faces e cessou algum tempo a tosse. Já subia comigo aos píncaros das serras, quando eu caçava; trazia ao tiracolo a saca de malha com a merenda, e por lá, naqueles vales, onde os medronheiros e avelãzeiras vinham a terra com frutos, era de ver as delícias com que ela comia, por igual comigo, as grosseiras iguarias que levávamos.

Entrou o Outono, e logo notei a desmedrança e abatimento de Marcolina. A decomposição pa-rece que se via, como se os vermes lhe andassem roendo já perto da epiderme. Quis voltar com ela a Lisboa; mas achei-a pertinaz em não sair da aldeia. Dizia-me que fosse eu distrair-me e que a deixasse ali acabar os seus dias.

Poucos tinha ela já de vida, quando a mais velha das irmãs lhes escreveu contando que o pai voltara rico de África e pusera anúncios nos jornais indagando notícias de sua mulher e filhas. Dizia mais que ele fora ao recolhimento e chorara de alegria vendo-as; mas logo se enfurecera quando elas lhe falaram da mãe. Acrescentava que ele, sabendo que devia à enteada o refúgio de suas irmãs, estava ansioso por vê-la, e pedia-lhe que voltasse imediatamente a Lisboa.

Esta carta deu delírios de júbilo a Marcolina. Fez por vigorizar-se para a jornada, não tanto para testemunhar a felicidade das irmãs como para pedir ao padrasto que não desamparasse sua mulher. A esperança apagou-se súbita, quando preparávamos a partida. Fui, uma tarde, à vila próxima comprar alguns aprestos para a jornada, e quando voltei estava Marcolina nos últimos arrancos. Agitou-se ver-tiginosamente quando me viu: apertou-me ansiosamente contra o coração e murmurou:

- Agora... e só agora me atrevo a dizer-te que te amei... Deixo-te a eterna lembrança da des-graçada que só à hora da morte se julga digna de ti...

Morreu.

Não posso bem dizer o que senti nessa hora. Morrera uma grande parte do meu ser. Senti o vá-cuo; era no peito que o sentia. Devia ser o coração, o que vulgarmente se diz coração, que morrera.

É, pois, certo que eu amei aquela mulher?

Ó meu Deus e minha consciência! Vós bem vedes com que orgulho e saudade eu digo que sim, que amei!

Amei-a porque era mais pura, mais virgem e mais santa que a outra respeitada do mundo; e porque, em ódio à sociedade, que a desprezava, não posso vingá-la senão amando-a com eterna sauda-de.

SEGUNDA PARTE

CABEÇA

Jornalista

I

O homem não se deve somente à sua felicidade - primeira máxima.

O principal egoísta é aquele que se descia em explorar o coração alheio para opulentar o pró-prio com as deleitações do amor - segunda máxima.

Como a felicidade do egoísta é um paradoxo, a felicidade pelo amor é impossível - terceira máxima.

Quarta - o bem particular é resultado do bem geral.

Quem quiser ser feliz há-de convencer-se de que sacrificou ao bem geral uma parte dos seus prazeres individuais - quinta máxima.

O amor, considerado fonte de contentamentos ideais, é o sonho dum doido sublime - sexta.

Sétima - a mulher é uma contingência: quem quiser constituí-la essência de sua vida aleija-se na alma e cairá setenta vezes sete vezes das muletas a que se ampare do chão mal gradado e barran-coso do seu falso caminho.

Estas sete máximas fui eu que as compus, depois de ler a antiguidade e alguns almanaques que tratavam do amor.

Entrei a cogitar no modo de ser útil à humanidade com a minha experiência e inteligência do coração humano. Ofereceu-se-me logo azo de exercitar as minhas benévolas disposições. Escrevi para o Periódico dos Pobres, do Porto, uma correspondência contra o regedor da minha freguesia, acusan-do-o de me prender um criado para recruta. Nesta correspondência discorri largamente acerca dos di-reitos do homem. Examinei o que foi a liberdade em Grécia e Roma. Procurei-a no berço do cristia-nismo e vim com ela, através dos séculos, até a Revolução Francesa, que eu denominei o último verbo da sociabilidade humana: tudo isto por causa do recruta e contra o regedor da minha freguesia, que eu cobri de epítetos tais como ominoso e paxá de três caudas.

O regedor respondeu-me e eu repliquei. Seguiu-se uma série de correspondências, que podiam formar um livro importante para a história dos costumes dos regedores em Portugal no século XIX.

O prurido de escrever correspondências a respeito doutras muitas coisas, e mormente da dota-ção do clero - matéria que veio a ponto, quando eu tive uma questão com o meu pároco por causa da côngrua e pé-de-altar -, insinuou-me a persuasão de que havia em mim pronunciadas tendências para escritor político. Discutia-se naquele tempo o Sr. Conde de Tomar, a quem uns chamavam Barba-Roxa e outros marquês de pombal. Decidi-me a favor dos segundos, que tinham incontestável razão. Escrevi uma série de artigos, como muito suco, em grande parte copiados do Dicionário Político de Garnier-Pagés; e, na parte de minha lavra, havia ali uma verdura de ideias que ninguém lhe metia dente. Por essa ocasião recebi de vários pontos do País diferentes cartas, umas insultadoras, capitulando-me de besta; outras, no mais moderado de seus encómios, profetizavam em mim o Girardin português. De Mirandela recebi a lisonjeira nova de se andarem quotizando alguns amigos da ordem para me oferece-rem uma pena. Veio a pena, passado algum tempo; mas era uma pena de galinhola, uma zombaria que eu repeli com todas as potências do meu desprezo.

Como as minhas doutrinas andassem encontradas com as do regador e do pároco - afeiçoados à revolução militar de 1844 -, maquinaram eles contra mim ciladas, que me iam sendo fatais, sob pretexto de eu ser partidário do Sr. Costa Cabral. As sevícias do rancor chegaram ao extremo de me matarem uma cabra, que pastava no passal do vigário, e aleijaram-me uma égua, que num ímpeto de castidade, escoiceara um garrano do regedor. Estas prepotências eram indicadas dalgum grande atenta-do contra minha vida. Saí, portanto, da minha aldeia e fui para o Porto expor com desassombro ao sol da civilização os meus talentos em matéria de governação pública.

Fiquei grandemente surpreendido e embaçado quando cheguei ao Porto e dei fé que ninguém se ocupava a falar de mim! À mesa-redonda do hotel onde me hospedei tratou-se o assunto da política; e, como era essa a feliz conjunção de eu divulgar o meu nome, encaminhei habilmente a controvérsia, até me declarar Silvestre da Silva, autor dos artigos epigrafados "Os Portugueses na balança do mundo".

Ninguém me conheceu o nome, a não ser um literato localista, que teve a audácia de me dizer que os meus artigos tresandavam ao montezinho e que as minhas ideias entouriam o estômago intelec-tual como se fossem castanhas cozidas. Donde ele concluía que a minha literatura tinha a cor local dos meus alimentos e denunciavam a morosidade das minhas digestões.

Devo a este lorpa a popularidade que alcancei logo aos primeiros dias da minha chegada. Àqueles sarcasmos respondi com um murro de consistência provinciana, murro que devia também ter a cor local da pesada digestão das castanhas. O literato desafiou-me e teve a bravura de me propor um duelo à pistola à ponta de lenço. Responderam os meus padrinhos que eu optava pelo murro à ponta do nariz. Com esta pequena modificação à sua proposta, o localista retirou a honra da peleja e desafogou na secção das locais, chamando-me onagro e vários adjectivos, cujo período eu lhe arredondei com um puxão de orelhas na primeira ocasião.

Assim, pois, inaugurei a minha entrada no Porto.

II

Naquele tempo, a cidade heróica estava muito mais adiantada em policiamento que hoje. Uma dúzia das principais famílias abriam frequentemente os seus salões e rivalizavam na profusão do servi-ço. Comia-se muito.

Posto que os dissabores fundos da minha vida passada me fizessem ver com tédio os regalos da sociedade, fui obrigado pela minha posição nas letras a comparecer nos focos da civilização. Escrevi alguns folhetins, historiando os prazeres fictícios daquelas noitadas, e mediante eles granjeei a estima das donas da casa; e quer-me parecer que, se eu tivesse coração naquela época, as virtudes da cidade da virgem seriam hoje uma coisa muito equívoca.

Como detesto a fatuidade, inibo-me de contar as demonstrações mais ou menos recatadas que recebi de singular afecto.

Não intento desdourar as demais senhoras de Portugal dizendo que as há no Porto que se avan-tajam em formosura a quantas conheço, excepto a leitora.

A mulher do Porto, como ela era há quinze anos, estava por adelgaçar, gozava-se de cores ricas de bom sangue; era redonda e brunida em todas as suas formas; o ofegar do seu peito comprimido pe-las barbas do colete era como a oscilação duma cratera que vai romper à superfície; dardejava com os olhos; ria francamente com os lábios inteiros; deixava ver o esmalte dos dentes e o rosado das gengi-vas; meneava os braços com toda a pujança dos seus músculos reforçados; pisava com gentil desen-voltura; dizia com toda a lisura as suas primeiras impressões; ria-se com os chistes dos galãs que ti-nham graça; ouvia sentimentalmente as tristezas dos cépticos; doidejava nas vertigens da valsa; bebia o seu cálice de Porto; comia com angélico despejo uma dezena de sanduíches; tornava para as danças com redobrado ardor; e, ao repontar da manhã, quando as flores da cabeça lhe caiam murchas e as trancinhas da madeixa se empastavam com o suor da testa, a mulher do Porto era ainda formosa, mais formosa ainda pelo cansaço, a disputar lindeza à aurora, que nascera para lhe disputar a beleza.

E eu, vendo-as, pensava nisto e sentia não ter coração para elas!

Ai!, dez anos depois, a mulher do Porto já não era assim, não!

Tinha passado por elas o bafo pestilencial do romance. Liam e morriam para a verdade e para a natureza legítima. Invejavam a palidez das pálidas e a espiritualidade das magras. Tal menina houve que bebeu vinagre com pó de telha; e outras, mais suspirosas e avessas ao vinagre, desvelavam as noi-tes emaciando o rosto à claridade doentia da lua. Algumas tossiam constipadas e queriam da sua tosse catarrosa fingir debilidade do peito, que não pode com o coração. Muitas, à força de jejuns, desmedra-vam a olhos vistos e amolgavam as costelas entre as compressas de aço do colete.

Estas não são já as mulheres que eu vi, sadias e frescas, como se saíssem do paraíso terreal, antes que o autor da vida as condenasse às dores e à morte.

Foi o romance que degenerou as raças, porque lá de França todas as heroínas, em 8.º e a 200 réis ao franco. Vêm definhadas, tísicas, em jejum natural, tresnoitadas, levadas da breca. Nunca se dá que os romancistas, nos digam o que elas comem, quantas horas dormem, quantos cozimentos de quás-sia tomam para dessaburrar o estômago, qual género de alimento preferem, que doutrinas de higiene adoptaram, quantos amantes afagam para cicatrizarem os golpes da perfídia com o pêlo do mesmo cão. Mal haja uma literatura que transtorna fundamentalmente a digestão e o sono, estes dois poderosos esteio da saúde, da graça, da formosura e de tudo que é poesia e gozo neste mundo! Se alguma vez o romancista nos dá, no primeiro capítulo, uma menina bem fornida de carnes e rosada e espanejada como as belas dos campos, é contar que, no terceiro capítulo, ali a temos prostrada numa otomana, com olheiras a revelar o cavalo do rosto, com a cintura a desarticular-se dos seus engonços, com as mãos translúcidas de magreza, os braços em osso nu e os olhos apagados nas órbitas, orvalhadas de lágrimas.

Pouca gente alcança os limites do desarranjo que estes envenenadores impunes causam nos costumes e na transmissão da espécie.

Estas mulheres desassisadas, que se imolam aos caprichos duma literatura, por não terem coisa séria em que empreguem a imensa energia do seu espírito, quando tornam a si, e se correm da sua inépcia, tarde vem o arrependimento, que, nos melhores anos, deram cabo das melhores forças. Obri-gadas a viverem nos limites da razão, casam-se, e curam de reconstruir o edifício desconjuntado da saúde, comendo e bebendo e dormindo regularmente; mas as molas digestivas já têm então perdido as suas forças; os glóbulos cruóricos do sangue não se retingem jamais; as pulsações batem frouxas; o ar filtra ao pulmão por canais obstruídos; e não há contrapor à segunda natureza, formada por molestos artifícios, cuidados medicinais, que vinguem a antiga compleição deteriorada. Que frutos quereis que desentranhem estas árvores meladas e desmeduladas? Frutos pecos e outoniços, filhos enervados, e como flores mimosas fenecidas ao autor do sol, que lhes cai a prumo em plena vida.

Estas meninas de quinze anos, que eu hoje conheço no Porto, são as filhas das robustas donze-las, que me enchiam de satisfação os olhos na minha mocidade. Que degeneração! Vê-las numa sala é ver as virgens lagrimosas e lívidas, que se pintam nas criptas dos mosteiros góticos. Que tristeza de olhar e que dengoso fastio no falar! Quando se reclinam nas almofadas dum sofá parece que desmaiam narcotizadas; quando polcam, e se deixam ir arrebatadas nos braços dos parceiros, afigura-se-me que de sua parte não há mais acção nem movimento que o das asas, do ar que lhe agita a orla do vestido, volátil e vaporoso como éter. Que degeneração!

Ó mulheres do Porto, ó virgens saudosas da minha mocidade, ó santas da natureza como Deus as fizera, que é feito de vós, que fizeram de vós os romances, e o vinagre, e a Lua, e o pó de telha, e as barbas do colete, e os jejuns, e a ausência completa do boi cozido, que vossas mães antepuseram às mais legítimas e respeitáveis inclinações do coração?!

III

Naquele tempo, as minhas cogitações eram todas dirigidas por cálculos e raciocínios. O meu alvo mais remoto era ser ministro da coroa. Estavam as minhas faculdades regidas pela cabeça. As cabeças de alguns ministros, quando não tivessem outro préstimo, nem provassem outra coisa, muito puderam, convencendo-me da minha aptidão para os cargos superiores da república. Eu conhecia na intimidade uns homens de inteligência espalmada e cabeça escura como o cano duma bota; homens sem ciência nem consciência; rebotalhos da humanidade, arremessados à margem pela torrente caudal das transformações sociais; espíritos tolhidos de gota, sem saudades, sem crenças, nem aspirações; entulhos de má morte, que atravancavam todo o progresso e escarneciam com gosmento sorriso as ex-pansões atrevidas da geração nova que a cada passo queria arvorar um marco de adiantamento. Conhe-ci estes homens, e conheci-os ministros da coroa, sopesando debaixo dos pés chumbados à terra, que ameaçava engoli-los, a explosão das ideias e o peito da mocidade que se afrontava com o possante atleta da rotina.

Comecei a publicar uma série de artigos contra os velhos, e disse mesmo que era necessário matá-los, como na Índia os filhos faziam aos pais inválidos para o trabalho. Estes artigos criaram os meus créditos de estadista, e muitas simpatias. Escrevi o panegírico da geração nova, se bem que a geração nova não tinha feito coisa nenhuma. Disse que a mocidade estava a rebentar de cometimentos grandiosos em serviço dos interesses materiais do País. Todos os meus artigos falavam em cometi-mentos grandiosos e interesses materiais do País.

Naquele tempo fui convidado a alistar-me na maçonaria, e, depois de prestar os juramentos ter-ríveis sobre uma bainha de espada, único objeto do ritual que então apareceu, fui proposto para orador da loja, e aí fiz os meus ensaios de eloquência sanguinária, pedindo diferentes cabeças, como quem pede confeitos pela Semana Santa. Os meus irmãos ouvintes, que tinham que tinham todos uns nomes de guerra medonhos, tais como Átila, Gengiscão e Alarico, tomaram-me tamanho medo que me foram denunciar à polícia como demagogo e me exautoraram das funções da palavra.

Assanhado pelos estorvos, que me embargavam o passo, escrevi contra a estupidez da geração nova, que não valia mais que a velha, e chamei os povos às armas. O ministério público deu querela por abuso de liberdade de imprensa contra o jornal, cujo redactor principal era eu. O jornal foi conde-nado e os assinantes não pagaram no fim do segundo trimestre.

Empenhei a minha casa para sustentar a gazeta, que três vezes foi condenada na multa e custas. A final, quando me vi exaurido de recursos e cansado de lutar com a indiferença pública, achei em mim terrível analogia de destino com todos os redentores intempestivos da humanidade, e bebi o meu cálice até às fezes, as quais fezes eram pagar à fábrica de papel as últimas cinquenta resmas, que eu fizera gratuitamente distribuir por esta raça de ingratos portugueses que, de três em três meses, manda-vam vender o jornal às tendas.

Compenetrei-me da estolidez das minhas aspirações a desencharcar da lama um povo aviltado e cego de sua estupidez. Foi uma terrível decepção esta que me deu à cabeça os tratos que as mulheres de Lisboa me tinham infligido ao coração. Vi que o homem grande, neste país, no mesmo ponto em que hasteia o estandarte da redenção, aí, de força, há-de amargurar as torturas do seu Gólgota. Achei-me extemporâneo neste século e cobri com as mãos o rosto envergonhado, como os mártires da liber-dade romana, que velavam com a túnica o rosto e diziam aos pretorianos: "Matai, escravos!"

Após alguns meses de devorantes cogitações sobre o futuro desta terra, fui à minha aldeia ven-der uma tapada, e o milho de três colheitas, e tornei para o Porto, elaborando projectos que já não ti-nham que ver com o bem da sociedade. O egoísmo da cabeça, mil vezes mais odioso que o do coração, esporeava-me a falsificar os mais sagrados sentimentos, mascarando-os de modo que a sociedade me desse a desforra das agonias com que remunerara a minha dedicação e o custeamento do jornal, um ano e tantos meses.

O meu pensamento era casar-me rico e fechar os olhos temporariamente ao horizonte onde o desejo via uma pasta de ministro e onde a realidade me mostrava aquela terrível coisíssima nenhuma do Sr. Júlio Gomes da Silva Sanches, admirável em seus dizeres.

PÁGINAS SÉRIAS DA MINHA VIDA

I

Vi no baile do barão de Bouças as três herdeiras mais ricas da sociedade portuense. Das três , a mais velha e rica era viúva e regularmente feia. A mais nova tinha uns longes sedutores: mas, exami-nada ao pé, era uma cara sem vida, coisa muito parecida com a alvura de leite, encarnada nas maçãs do rosto, como as bonecas de olhos de vidro, e beiços purpurinos de malagueta. A terceira era uma verda-deira mulher, trigueira como as predilectas de toda a gente.

Consultei a minha cabeça, e a cabeça me disse que requestasse a viúva. Senti que o coração pu-nha embargos; mas a veleidade foi de momentos. Caiu-lhe em cima a cabeça com todo peso da razão; e o pobrezinho, que já não servia para mais que centro das funções sanguíneas, gemeu, contorceu-se e amuou.

À roda da viúva giravam os mais graúdos paraltas do Porto, sujeitos que andavam sempre de esporas e que se frisavam todas as manhãs para irem passar as tardes em casa do seu alfaiate, discutin-do as belezas de uma lapela de fraque e a lista mais ou menos enflorada das pantalonas.

Eram estes os terríveis açambarcadores das almas das senhoras do Porto; mas com almas se comentavam, como convinha a pessoas puramente espirituais.

Pedi que me apresentassem à viúva. O elegante de quem solicitei este favor, antes de me apre-sentar, disse-me:

- Fala-lhe de mim, a ver o que ela te diz.

- Vê-se que a amas... - atalhei eu.

-Amo deveras; mas não lhe amo a fortuna.

- A fortuna é galicismo - interrompi com azedume. - Diz antes os haveres. Morra o homem de paixão, sendo necessário, mas salve-se a língua dos Lucenas, dos Sousas e dos Bernardes.

Este meu amigo incorrecto foi depois dizer a outro que eu era tolo. A ignorância é muito atre-vida!

Falei com D. Justina Mendes, e para logo adivinhei que dentro daquele peito não havia senão membranas, tecidos adiposos e ossos com as respectivas cartilagens. Fez-me doer a cabeça com três palermas respostas que me deu. Perguntando-lhe eu se tinha saudades do seu tempo de casada, respon-deu-me:

- O boi solto lambe-se todo.

Devia dizer vaca, se gostava do anexim.

Perguntei-lhe se amava os bailes. Resposta:

- Bons bailes é cada um em sua casa.

A terceira pergunta:

- Que juízo faz Vossa Excelência do cavalheiro a quem eu devo o favor de lhe ser apresenta-do?

- Não é feio; mas eu não gosto - respondeu.

- Então de quem gosta, minha senhora?

- De ninguém: tomara eu que me deixem.

- Vossa Excelência há-de necessariamente gostar de caldo de repolho com feijão branco - repliquei.

Esta facécia de mau gosto foi ouvida, repetida e lançada à circulação por duas senhoras que nos ouviam atentas.

D. Justina envesgou-me os olhos e murmurou:

- Não acho graça nenhuma ao seu atrevimento. - E, voltando a cara, sentou-se de esguelha.

Tornando ao apresentante, disse-lhe que a viúva o achava bonito.

Pedi que me apresentassem à mulher trigueira, e logo me disseram que não gastasse o meu tem-po com um coração rendido aos encantos de Josino.

Este Josino, esta criatura que eu cantei em oitava rima, era um homem de biscuit, engelhado de refegos na cara como a frontaria da Batalha, velho dengoso, que tinha amado as mães das meninas ca-sadoiras que requestava. Mas que terrível homem!... Era amado, e casou com ela.

Nota

Diz Silvestre que cantara Josino em oitava rima. O leitor decerto me agradece a reprodução do poema, que passou despressentido e sem assinatura num jornal literário daquele tempo. Foi ele escrito na véspera do matrimónio de Josino com a formosa trigueirinha. Não louvo semelhante desafogo de despeito, nem encareço o quilate da poesia. Reza assim a coisa, depois de ter resumido em estiradas oitavas o epitome da sua vida e a resolução de se casar:

Josino amigo meu, velho incontrito,

Há trinta anos conheço em cata duma,

Que tenha coração, e algum saquito

Daquilo com que a vida mais se arruma.

É velho o meu Josino; mas bonito,

E bem conservadinho; inda se apruma,

Quando vê na janela da vizinha

A travessa criada da cozinha.

Nos bailes, faz-me inveja o seu meneio,

E os trejeitos, que faz coa perna fina,

E o garbo, que lhe empresta o bom recheio

Do túmido algodão com que fascina.

Do cume de gravata, em doce enleio,

Contempla as graças da gentil menina,

Já neta duma avó, que foi deveras

Namoro de Josino em priscas eras.

Já tem um pouco os olhos desvidrados;

Porém, não sei que graça tem, se os pisca!

Eu, se fosse mulher... ai!, meus pecados!,

Caia neste anzol de antiga isca.

Há homens tão fatais e endiabrados,

Que mal sabe a mulher ao que se arrisca,

Se palestra lhes dá! Ai!, pobrezinha!

É a história do sapo e da doninha!

Mas que importa o poder que tens no peito

Das cândidas donzelas, velho audaz!

Tu consegues fazer com manha e jeito

O que a natureza pérfida desfaz.

Já consta por aí que tu és feito

De pródigo algodão, múmia falaz!

Suspeita-se também ser de algodão

A coisa a que tu chamas coração.

Josino, ainda assim, já mais fraqueia;

Ousa dar-se o valor duma antigalha,

Camafeu de Herculanum ou de Pompeia,

Que no mundo não tem mulher que o valha.

Isto diz muita vez, à boca cheia,

À criada Jacinta, quando ralha,

Porque a pobre, mulher de sã lisura,

Se ri quando ele encaixa a dentadura.

Josino tem caleche e tem cavalo,

Que aos triunfos d'amor lhe presta ajuda.

Quando silva da pita o agudo estalo

Donzelinha não há que não sacuda

A ceroula do pai, para espreitá-lo,

Tingida do pudor, que o gesto muda;

Enquanto ele lhe mostra o dente amante,

Que outrora adorno foi dum elefante.

Nestes meses de Inverno, o reumatismo

Costuma apoquentá-lo; e ele afecta

Que está numa razão de cepticismo,

E rebate do amor a doce seia.

Diz que o seu coração é fundo abismo,

Onde entesoura imagem predilecta

Da mulher que há-de vir; e, à vista disto,

Presume-se que vem co Anticristo.

Mas, apenas repinta a Primavera

Espargindo matiz de lindas flores,

Josino sai da cama, onde gemera,

E remoça nutrindo outros amores.

Ludibrio miserando da quimera,

Que o mangara no leito d'agras dores,

Ei-lo, de novo, em coração repoisa

De menina, que pese alguma coisa.

Não cuida que perdeu do seu quilate

Enquanto pode as rugas rebocar.

Diz sempre que lá dentro inda lhe bate

O quer que seja, que precisa amar.

Assim, como quem diz um disparate,

Pergunta se será néscio em casar:

Conta os logros, que fez, nunca sabidos,

E teme a previdência dos maridos.

Sem embargo, porém, deste palpite

Josino vai pedir a mão de esposa

A formosa menina, das do élite,

Que a detracção abocanhar não ousa.

Assente o pai ao digno convite,

Que é pássaro bisnau, velha raposa,

E vira um vulto de homem presumível

Sair do quarto dela(ó vista horrível)

Josino, alfim, casou, e partiu logo

(Ah!, que não sei de nojo como o conte!)

Todo ânsia, paixão, ardor e fogo,

Com ela para o Bom Jesus do Monte.

Ai!, que lua-de-mel, que desafogo

De cadente paixão ao pé da fonte,

Que trépida repete em magno anelo

As falas que murmura o Esganarello .

Esganarello... sim!... (Se saber quer

Alguém, que o não conhece, aquele herói,

Procure-o, que há-de achá-lo em Molière,

Ou lá na vizinhança.) O caso foi

Que, extinta a Lua incasta do prazer,

A esposa diz que já n'alma lhe dói

Saudades do teatro italiano,

E do primo doutor... grande magano .

II

Acabo de demonstrar que é débil, se não impossível, armar romance com as meninas do Porto. Pode ser que este aranzel de coisas nunca faça gemer os prelos do meu país; porém, quem me diz a mim que eu não tenha o póstumo regalo de ser impresso e lido? Nesta hipótese, com que a vaidade se incha, quisera eu vestir a nudez dos meus contos, enfeitá-los com as jóias do estilo, que dão realce aos assuntos frívolos, e recompor mais literalmente com embelecos de imaginação as securas da verdade, dura de engolir neste tempo, se o engenho não a arrebica de pechisbeques e desvarios da natureza.

A viúva, bem aproveitada, podia dar alguns capítulos. Tolice tinha ela de mais saciar o espírito público, sempre faminto de ver em letra redonda as tolices próprias às costas alheias. Se eu tivesse sido mais moderado na minha linguagem, a criatura dava um livro; mas a minha razão, inconciliável com as parvoiçadas da milionária, saiu com aquela pergunta do caldo de repolho, mais para castigar os seus admiradores que para chasquear a tola. Bem pode ser que esta senhora, se fosse pobre, tivesse o siso comum, que o dinheiro produz milagres de variados feitios: a certas pessoas pule-as, espiritualiza-as, dá-lhes estilo sentencioso e inspiração para falarem de tudo com público aplauso; a outras pessoas despoetiza-as, materializa-as e embrutece-as. Conheço exemplos de tudo, e o leitor também.

A viúva, segundo me consta, antes de casar, era uma menina como são todas as meninas. Tinha os seus namoros, a quem respondia com bonita letra, e pensamentos, se não engenhosos, pudibundos. Casou com u riquíssimo velho por escolha de seus pais e condescendência sua. Fez as delícias do espo-so, e as próprias, comendo e dormindo para ter sempre as faculdades do coração em torpor. Enviuvou ao sétimo ano de casada, quando de sua primeira natureza já não tinha vislumbres. Soube então que era riquíssima e requerida pelos homens notáveis da terra, e continuou a comer e a dormir. Porém, como os pés lhe inchassem por falta de exercício, e os médicos a mandassem passear e agitar-se, a viúva apareceu de repente nos passeios, nos bailes e nos teatros, onde adormecia do segundo acto em diante. Dispararam-lhe à queima-roupa as mais incendiárias declarações, e ela ouviu-as a dormir, enquanto a não incomodaram. Depois, como a pusessem em cerco e não a deixassem tomar fôlego, a mulher des-pegou em despropósitos e rusticárias, que a tornaram mais amável aos concorrentes. Aqui está o que era a viúva.

Assestei o fito à terceira, à menina que tinha aspecto de serafim de tribuna de igreja. Disseram-me logo que o Dr. Anselmo Sanches a requestava traiçoeiramente. Ora, o Dr. Anselmo Sanches era um homem honesto.

Convém saber que em toda a parte do mundo sublunar a honestidade soa como hipocrisia ve-lhaca.

O homem honesto dali é o que logra embair a opinião pública; recatar a impudência com o ex-terior sisudo da catadura; acentuar a expressão no tom sentencioso do preceito; contar com a mobilida-de do globo visual para o revirar ao céu, quando o ânimo afecta confrangir-se com a notícia dum es-cândalo; franzir os beiços e avincar a testa, se é forçoso chancelar com voto cominativo a pena de al-guma imoralidade a retalho.

Conheci alguns homens honestos no Porto. Custou-me muito. Venci, para vê-los ao pé, estorvos desanimadores. Fez-me mister iniciar-me nos arcanos da desonestidade para entrar no segredo de cer-tas existências que, dantes, me pareciam bem fadadas da virtude, ou dotadas de compleição refractária ao vício. Quando me avistei com eles na mesma zona, senti-me corrompido, escorria-me do coração o pus tábido das chagas; dei como impossível o regenerar-me diante do meu próprio senso íntimo; estava ou devia estar perdido, porque julguei necessária à vida a hipocrisia cínica.

É que, sem ter descido as escaleiras todas da protérvia e do opróbrio, não se devassa o latíbulo em que se encovam os homens honestos.

A corrupção periódica das almas, empestadas pelo exemplo, ou impelidas pelo instinto, não tem que ver com a corrupção por grosso, que o acaso ou o ardil vos depara no secreto viver dessa cabilda de beduínos, salteadores da honra alheia, e nojentíssimos farsistas da sua .

O mundo é péssimo; há, porém, providência nesta péssima organização.

A hora certa, dentre as flores da vida, cultivadas por mão ilesa de espinhos, salta a víbora, que a morde.

Não há felicidade completa para a verdadeira honra: menos a haverá para a falsa.

A virtude, conquanto escudada por si própria, é vulnerável, porque se dói aos golpes da injusti-ça.

Ora, a hipocrisia, estribada na manha e na fraudulência, há-de, em desaire da justiça de Deus, rebater os tiros da indignação? É impossível. Embora o látego não fira uma fibra sensível nas espáduas do fariseu abroquelado pela impostura; embora a sátira recue espavorida dessas almas impermeáveis à vergonha, é preciso que se escreva um livro, ou se delineiem os traços desse livro, o único, o urgente, o possível, o capitalíssimo para o Porto.

Cansei-me de ouvir dizer que a segunda cidade de Portugal é um enxame de moedeiros falsos, de contrabandistas, de mercadores de negros, de exportadores de escravos e de magistrados de alquila-ria. Venalidade, crueza e latrocínio são três eixos capitais sobre que roda, no entender da crítica mor-dente, o maquinismo social de cem mil almas.

A minha análise aprofunda mais o espírito vital do Porto.

Ali, o viver íntimo tem faces desconhecidas ao olho da polícia e da economia social. Conhe-cem-se as librés dos chatins de negros; discrimina-se pelo brasão o fabricante de notas falsas do outro seu colega heráldico, opulentado em roubos ao fisco; ignora-se, todavia, o mais observável e pondero-so da biografia desses vultos, que a fortuna estúpida colocou à frente dos destinos e da civilização do Porto.

Ó cidade dos livres, que é da liberdade dos teus escritores?

Se aí há homem de alma, que sacode os sapatos na testeira da riqueza bruta, que testemunho nos dá da sua independência?

O jornalismo do Porto está acorrentado às ucharias dos ricos. O jornalista por via de regra é um pobre homem, que vive do estipêndio cobrado com franciscana humildade à porta do assinante. Para os festins do fidalgo de raça era chamado o versista com as consoantes prévias do soneto na algibeira, onde não havia outra coisa. Nos tumulentos jantares do fidalgo de indústria há talher para o gazeteiro, que já deixou na estante dos caixotins a local sumarenta, inspirada pelo antegosto das viandas, que lhe arrastam na torrente a alma para o estômago.

Nota

Perdoe-me a memória de Silvestre. A calúnia, conquanto escrita em palavras cultas e penteadas, é sempre calúnia. Elegâncias da linguagem, por mais que valham na retórica, valem nada para o des-conceito de quem injustamente difamam. O jornalismo do Porto teve e tem admiráveis e valentes mentenedores da honra contra classes poderosas pela infâmia nobilitada. A conta de muitos poderia escrever-se o que o finado Silvestre disse de um, nestes termos, que trasladamos dos seus manuscritos:

Havia aí uma forte alma e audaciosa inteligência, que levou a mão à máscara de alguns para lhes estampar o ferrete na testa.

O jornal brioso, que a tanto ousara, expirou à míngua de subscritores, porque os afrontados por ele iam, de porta em porta, mandar uns e pedir a outros que retratassem as moedas de cobre à receita do escritor, que as não queria para si.

O heróico moço, rodeado de inimigos até ameaçado na vida, cruzou os braços, descorçoado, e disse: "É impossível! Cuidei que teria por mim os incorruptos; mas a peste não respeitou consciência alguma."

Num país em que o Governo atalaiasse os interesses do Estado, e o renome honrado da cidade, aquele jornal seria sustentado a expensas do tesouro; aquele jornalista seria acrescentado em bens e honras; aqueles réprobos, indigitados pelo órgão da voz pública - que é sempre a voz dos fracos e dos inermes -, seriam por seu mesmo decoro e dos poderes que os nobilitariam, obrigados a refutarem a detracção ou a despirem nas praças os arminhos com que escondem o pescoço à corda de esparto.

Doces e nobres quimeras!

O jornalista austero será sempre um ente malsinado e odioso para todos os governos. Hão-de expulsá-lo sempre do sacrário puluto das mercês, onde reina o ladrão laureado, que tem o segredo de abater ministros erguidos e exaltar ministros despenhados.

E acrescenta Silvestre da Silva:

Que outro homem há aí que se aventure a entrar na trilha daquele, que esmoreceu, afinal, diante das conveniências sociais? Serei eu...

Fez bem! Partiu o braço, querendo parar o movimento da roda. Desbaratou a melhor parte do seu Património em publicações panfletárias, que não rasgam sulco algum para as searas do futuro pro-gresso da humanidade. Criou inimigos, que nem sequer lhe tinham lido as diatribes, nem lhe podiam perdoar pelas graças do estilo - inimigos que não sabiam ler, os piores de quantos há. É o que ele fez!

III

Tornando ao Dr. Anselmo Sanches.

Dois meses depois que fui ao baile, planeando casar-me com uma das três representantes de ac-ções bancárias no valor de trezentos contos para cima, vi uma senhora, que devia ter sido formosa, encostada ao braço de seu marido.

Trinta e quatro anos teria ou menos; mas os precoces vincos da velhice denunciavam quarenta anos ou mais. Lá estava o fulgor dos olhos para desmentir a denúncia das rugas, fulgor embaciado de lágrimas, mas ainda vivido como clarão crepuscular quando uma barra de púrpura e ouro tinge a orla do céu. De feito, era aquela uma vida em crepúsculo da tarde; já tudo para além-túmulo era escuridade e pavor para a triste senhora.

Chamava-se Rita e era brasileira, pura carioca, linda como todas as cariocas que não tem mais de dezoito anos.

Francisco José de Sousa, marido dela, era um português que enriquecera no Brasil. Tinham vi-ajado longo tempo; e como Francisco José de Sousa tivesse ido do Minho e as saudades da Pátria o não deixassem nunca, escolhera o Porto para residência.

O fino trato, aliado à opulência, estimulou invejas, caprichos, competências e ódios mesmo na sociedade portuense. De todas esta más paixões surdiu um bom resultado: aumentou o número dos bailes, entraram em emulação as equipagens, enriqueceram as modistas, acudiram os jornalistas a fazer acta, qual delas mais encomiástica, dos bailes profusos e luxuosos; o Porto, enfim, poliu-se mais em dois anos que nos nove séculos de vida que a mitologia, vulgarmente chamada história portuguesa, lhe dá.

Estava designada a noite dum baile em casa de Rita Emilia, quando os convidados receberam aviso da súbita doença de Francisco José de Sousa.

Correram amigos e indiferentes a visitar o enfermo. Fui entre os segundos: achei-o prostrado e taciturno; e não vi a esposa ao pé do leito, nem na antecâmara. Perguntavam por ela as pessoas mais familiares; mas a brasileira não recebia sequer as amigas íntimas.

Grande mistério, grande burburinho, a curiosidade em ânsias, a maledicência espionando, a calúnia imaginosa a segredar por praças, e salas, e botequins, desaforadas conjecturas. Andou pois a difamação explicando às cegas, por vários modos, a enfermidade moral de Francisco de Sousa e a misteriosa ausência de D. Rita.

Quinze dias depois fecharam-se as portas e janelas da casa do brasileiro, e os criados, quase to-dos despedidos, disseram que os amos tinham ido viajar.

Aqui é que a curiosidade ia dando um estouro. Houve aí bisbilhoteria ilustre que se encanzinou de raiva por não poder esquadrinhar o segredo desta saída, a qual, de força, devia ter um escândalo por causa, escândalo que a hipocrisia pudera abafar ardilosamente.

Havia nesta casa uma menina de dezesseis anos, órfã, muito rica, pupila do brasileiro e filha doutro, que morrera no Brasil, quando andava em liquidação.

Mariana acompanhara-os na misteriosa saída do Porto: soube-se, porém, que, ao passarem em Braga, a órfã entrara nas Ursulinas, mosteiro de educação.

Esta menina era a terceira mulher rica do baile.

Sabido isto, respirou um pouco a maledicência. Já os arpéus da hipótese achavam duro onde morder. Acordaram, portanto, em conciliábulo, algumas famílias honestas, que Mariana fora encontra-da em flagrante desprezo do seu pudor e, por isso, enclausurada no mosteiro bracarense.

Toda a gente ia ter com o Dr. Anselmo Sanches para evidenciar a conjectura.

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