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Coração, cabeça e estômago

Camilo Castelo Branco

IV

Era o doutor amigo íntimo da família, pertencia ao conselho tutelar da órfã, curava dos negóci-os litigiosos do brasileiro e podia muito na casa, dominando a vontade do dono, que se fiava dele, mais seguro que em si próprio. Trinta e oito anos teria Anselmo. Em conta o haviam de homem exemplar em todas as qualidades boas, excepto na jurisprudência, em que era ignorante mais que o ordinário. Isso, porém, não lhe danificava o bom nome. Os seus muitos apologistas, se duvidavam dar-lhe procuração para os representar no foro, sobejamente o indemnizavam, confiando-lhes mulheres, filhas e - o que mais é no Porto - o dinheiro.

Tinha o Dr. Sanches uma cara mais que feliz para se fazer benquisto. Nunca fechava a boca. O queixo inferior, pedindo sempre, servia-o às maravilhas, quando parecia escutar com dor os escândalos que os oradores encartados da Assembléia Portuense expectavam do peito sujo, onde a asma senil de-safogava pela detracção injuriosa. Se a vítima era senhora casada, o doutor abanava um pouco a cabe-ça, punha os olhos no tecto, e dizia: "Vão-se os costumes..." Se o escândalo recitava as gargalhadas gosmentas do auditório, Anselmo sorria por complacência e murmurava: "É remarcável o deboche em que está o grande mundo!" (O celerado conspurcava a língua pátria!). Não consentia ele que se ergues-se voz a desculpar imoralidades, se raro sucedia algum confrade, por sestro de contradição, indulgenci-ar fraquezas ordinárias, em verdura de anos, ou obrigadas por circunstâncias especiais.

Era para ver como o inexorável Sanches se enfurecia em invectidas contra Pedro, que passava diariamente duas vezes em tal rua, para inquietar a moça incauta! Chegava a chorar no apuro do senti-mental, que prodigamente consumia, descrevendo os funestos resultados da sedução. Menos perdoaria a Martinho, que, impudico e sacrílego, ousava ir aos domingos, à missa do meio-dia, aos Congregados ou Clérigos, para ver pelas costas a mulher do seu vizinho Januário, depois de ter sujado a fama da mulher do seu vizinho Timóteo! E, em seguida, punha em miúdos a história do descrédito daquelas senhoras, casadas com seus amigos, e havia risadas à conta dos maridos, e ficavam todos sabendo o que até então ignoravam. Momentos depois, se lhe pediam novidades, o doutor respondia que não só se abstinha de indagar a vida alheia, mas até quisera, se pudesse, cerrar ouvidos às histórias torpes que todos os dias germinavam da corrupção do corpo social.

Francisco José de Sousa prezava no doutro o que muitos chamavam sobejidão de escrúpulos. Parecia-lhe, a ele, brasileiro, vilã e torpe a incessante detracção em que entretinham os saraus algumas dezenas de velhos, de cuja língua a palavra licenciosa dos bordéis saia mais nojenta do que é em si. Anselmo, para não cair no desagrado do seu amo, dizia que o mal não era a sátira, mas sim o estraga-mento dos costumes que a autorizava. Escusando os velhos, acrescentava que as cãs eram um pouco intolerantes; porém, inofensivas.

Simpatize o leitor com o Dr. Anselmo, para que se não diga que a virtude é mal vista como a verdade nua.

V

No espaço de três meses, a contar da violenta introdução de Mariana nas Ursulinas de Braga, saiu a lume o tenebroso mistério; mas sem estrondo, porque andava muita gente apostada a encobrir Anselmo Sanches para não ter de proclamar a infâmia do apostólico varão, que tinham santificado.

Eu hei-de abreviar em poucas páginas o que sei. Não me posso ver muito tempo encharcado nesta lama, onde me atirou um dos empurrões da sorte. Lama por toda a parte onde me impeliu o cora-ção e a cabeça! Toda a gente se goza dalgumas paragens risonhas; a todo o peregrino da vida é dado assomar de barrancos resvaladiços às chãs pitorescas, e descansar, e esforçar-se aí para se afrontar de novo com as fadigas da jornada. Eu, de mim, nào tive o que têm todos. Onde quer que parei, resvalei num atascadeiro. Quando os acicates do amor me arremessavam às aventuras do coração, ia-me esbar-rar com tolas ou devassas, ou desgraçadas tais como Marcolina. Se era a razão que me induzia com os seus cálculos egoístas a tomar o meu quinhão daquilo que o vulgo chama senso comum, já sabem que consequências eu vou tirando das minhas racionais primícias. Vi três mulheres à luz serena do raciocí-nio. Saiu-me parva a primeira, a ponto de me obrigar, sendo eu em extremo delicado, a perguntar-lhe se gostava de caldo de repolho. A segunda, para me humilhar e abater o orgulho, deu-me em Josino um rival preferido. Esta terceira, a Mariana dos olhos doces e jeitos de inocência lorpa, vão agora saber no que deu.

VI

Grandes considerações!

Entendem cordatos fisiologistas que o amor, em certos casos, é uma depravação do nervo ópti-co. A imagem objectiva, que fere o órgão visual no estado patológico, adquire atributos fictícios. A alma recebe a impressão quimérica tal como sensório lha transmite, e com ela se identifica a ponto de revesti-la de qualidades e excelências que a mais esmerada natureza denega às suas criaturas dilectas. Os certos casos em que acima de modifica a generalidade da definição vêm a ser aqueles em que o bom senso não pode atinar com o porquê dalgumas simpatias esquisitas, extravagantes e estúpidas que nos enchem de espanto, quando nos não fazem estoirar de inveja.

E tanto mais se prova a referida depravação do nervo que preside às funções da vista quanto a alma da pessoa enferma, vítima de sua ilusão, nos parece propensa ao belo, talhada para o sublime e opulentada de dons e méritos que o mais digno homem requestaria com orgulho.

Se me desarmam deste convencimento, cimentado em doze anos de experi6encia e observações, não sei como hei-de explicar o amor de D. Rita Emília ao Dr. Anselmo Sanches.

Defendo-a desta vergonha como defenderia o réu dum crime extremamente execrável. A aluci-nação, a doença dos nervos, a demência, enfim, explicam o crime, e deviam no máximo das vezes ab-solver a mãe que mata seu filho, o filho que mata seu pai e a mulher que se dá em alma e corpo aos Anselmos Sanches.

Posto isto, dispensam a história das repugnantes conjecturas, que então fiz, sobre o inarrável mistério dos amores de Rita e Anselmo. Indulte-se a infeliz em nome da depravação do nervo óptico, em nome da física e da patologia, em nome da caridade evangélica, em nome de tudo que move à lás-tima, à piedade e ao perdão.

Rita amava Sanches: aceitou o facto consumado. Ora Francisco José de Sousa, ileso da enfer-midade visual de sua mulher, via o doutor, qual a natureza o fabricara, feio, canhestro, mazorral, abrutado, refractário aos dardos do deus de Gnido. Embalde se cansaria a malquerença insinuando ao brasileiro com cartas anónimas - expediente em voga, e creio mesmo que inventado no Porto - a suspeita de que sua mulher encarava no doutor com olhos menos ajuizados que os dele marido.

E a suspeita era já de si tão absurda que não houve no Porto alma de sobra danada que dene-grisse, até rebentar o escândalo, a virtude conjugal de Rita.

D. Margarida Carvalhosa disse-me um dia :

- Vou contar-lhe uma enjoativa novidade, Sr. Silvestre. Prepare-se para rebater um ataque de inveja.

- De inveja, minha querida senhora? Vai Vossa Excelência dizer-me que mimoseou o mais fe-liz dos mortais com o seu coração?... Invejo, realmente invejo...

- Cale-se. Não se trata de mim: é um escândalo.

- Ah!... disse-me Vossa Excelência logo que era um escândalo: ser-me-ia impossível associar o nome de Vossa Excelência a um escândalo. Trata-se de Guilherme do Amaral? Do barão de Bouças? De Cecília? De João José Dias?

- Não, senhor. Trata-se daquela Rita brasileira de quem o Sr. Silvestre disse que andavam enamorados os anjos.

- E os demónios, minha senhora! Diga, diga, que eu interesso-me em aspirar todos os aromas que rescendem das essências angélicas.

Margarida Carvalhosa descompôs-se a rir e continuou:

- Pois o aroma da tal essência angélica está sendo um aroma de arruda, meu caro poeta.

- Arruda, minha senhora?! Queira explicar-se.

- Rita deixou de ser a cara-metade de seu marido e passou inteira para o Dr. Anselmo San-ches.

- Calúnia torpe! - exclamei com sincero espanto.

Margarida Carvalhosa tange a campainha, sorrindo com irónica piedade da minha boa-fé.

- Venha cá, Josefa - disse ela à criada, que entrava.

- Repare se a mamã está por aqui perto...

A criada disse que a senhora baronesa estava no jardim.

- Conte - prosseguiu Margarida - diante deste senhor, sem acanhamento nem receio, o que me contou a respeito da brasileira.

E, voltando-se para mim, ajuntou:

- Esta criada hesitava; mas, animada pela ama, disse com visível repugnância:

- A brasileira... Então que quer Vossa Excelência que eu conte?

- Como se chamava o amante da sua ama? - disse Margarida.

- Era o Sr. Dr. Anselmo.

- Como soube você que ela amava o Dr. Anselmo?

- Como soube? Soube-o porque eu era a criada do quarto da senhora.

- Aquilo é muito significativo, Sr. Silvestre - disse, sorrindo com gentil malícia, a filha do barão, e acrescentou voltada para a moça: - E como tem você a certeza?

- Ora essa! A senhora não sabe?! Eu sabia tudo. De mim só se escondia ele. Até ela, quando o doutor começava a querer seduzir a pupila do Sr. Sousa, chorava muito e desabafava só comigo.

- Conte lá essa história da sedução da pupila. Como era isso? - disse eu.

O Sr. Doutor sabia que a Sra. D. Marianazinha era rica, e disse à Sra. D. Rita que o melhor modo de continuarem a viver de perto sem que o mundo botasse fel era ele fazer com que o marido consentisse no casamento dela com a menina. Depois, a minha ama deu-lhe um desmaio, e esteve às portas da morte. Quando melhorou, abraçou-se à menina e perguntou-lhe se o doutor já lhe tinha dito alguma palavra a respeito de casar com ela. A menina pegou a chorar e não disse uma nem duas. Isto mais apoquentava a minha ama, e desesperava-se que metia medo. Tanto fez que a menina confessou que o doutor a perseguira quatro meses todas as vezes que a senhora não estivesse ao pé, e que, vindo uma vez com ela de Guimarães, onde a menina tinha ido visitar umas parentas...

A criada, neste ponto, levou o avental ao rosto para encobrir que não corava; e no entanto, Margarida, relanceando os olhos dela para mim, e de mim para ela, com um brilho de alegria só com-preensível às mulheres despenhadas, que folgam a cada vítima abismada com elas, disse com império:

- Acabe a história, Josefa.

- A história está acabada, Sra. D. Margarida - disse eu.

Faltam os comentários, que tanta gente faz por sua conta. Esta D. Rita, Sr. Silvestre, quando me estendia a mão e os lábios numa sala, fazia-o com um ar de soberania que me incomodava. Ouviu-lhe muitas vezes, falando de Cecília, dizer com virtuosas caretas: "Vergonha das mulheres!" Rejeitou con-vites para casa de certas senhoras que não aspiravam a santas. A mim me disse com pedantesco ar ma-ternal: "Menina, as exterioridades, por muito francas e inocentes que sejam, bastam para condenar. Coíba-se de todas as acções que possam dar pasto à maledicência. Olhe que a honestidade não está somente no coração: um olhar e uma palavra irreflectida bastam a depor contra as mais sisudas inten-ções."

E continuou com rancorosa satisfação:

- De Mariana só lhe direi que ainda há quinze dias a vi com seu ar virginal voltar-se à brasi-leira, que estava ao pé de mim na missa dos Clérigos, e murmurar a meu respeito palavras que eu não pude compreender. Esta criada, que estava ao pé delas, ouviu-as: "Aquela Margarida Carvalhosa tem modos tão desenvoltos e impróprios de menina solteira!" Ora isto dito por quem oito dias antes, vindo de Guimarães, aceitara uma catástrofe tão imprópria de menina solteira, não me parece crítica muito frisante aos meus costumes. (Eu ri-me por dentro, quando ela disse "meus costumes"...)

Enquanto ao Dr. Anselmo Sanches - continuou D. Margarida, cortando as palavras com frou-xos de riso -, esse deixo eu à perspicácia do Sr. Silvestre avaliá-lo... Retire-se, Josefa, que vem aí a mamã.

VII

A polícia correccional

Escrevi um artigo contra Anselmo Sanches, cuidando que assim vingava o género humano. Saiu o artigo na secção dos comunicados: o proprietário do jornal declinou a responsabilidade moral e legal da ofensa ao doutor. Rompeu-me assim das entranhas o ódio que as queimava:

Sr. Redactor:

Há casos em que o silêncio é um crime! À vista de infâmias que sobreex-cedem e transbordam a paciência humana, não há aí peito de ferro que se conte-nha!

...............Nam quis iniquae

Tam patiens urbis, tam ferreus, ut teneat se...?

Aqui é o caso de dizer como o cantor de Camões:

Ergo-me a delatar tamanho crime

E eterna a voz me gelará nos lábios.

Vinde a mim, hipócritas!

Vinde ao sevo do escândalo, celerados que andais nas encruzilhadas as-salteando a honra dos infelizes descautelosos!

Aqui tendes charco para vos rebalsardes, cerbos!

Aqui está um dos vossos, que apunhalou a alma dum marido, crucificou uma esposa ao madeiro de eterno opróbrio e sovou aos pés uma coroa virginal.

Isto era o exórdio, que os meus inimigos chamaram farfalhada. Seguia-se depois a exposição chã da protérvia de Anselmo Sanches, arranjada em três capítulos, cada um com uma epígrafe. A pri-meira era: Quousque tandem, Catilina?... Achou toda a gente literata muita novidade nesta passagem de Cícero a propósito de Anselmo. A segunda epígrafe era Proh pudor, proh dolor! - também nova. O terceiro capítulo rompia com o Me, me adsum qui feci, in me convertite ferrum. O todo era broslado de passagens latinas, que tornavam o meu artigo um parto de indignação e outro parto de sapiência.

Guardava eu as justas conveniências em embuçar os nomes das duas mulheres, que figuravam no quadro infesto à dignidade humana; mas abstive-me de cerimónias com o doutor.

O meu artigo levantou contra mim celeuma de pessoas honestas, e até jornais honestos me saí-ram de revés, acoimando-me de indiscreto, licencioso e causa ocasional de escândalo. É boa tolice esta! Uma gazeta sisuda, maravilhando-se de que eu fizesse queixumes, não sendo sequer marido da dama, aplicou-me os sabidos versos de Nicolau Tolentino:

Apóstolo impertinente

Pra que hás-de tu suar,

Se não sua o padecente?

Anselmo, como visse que a imprensa e a opinião pública estavam com ele contra o jornal, por abuso. O responsável declinou sobre mim, e eu fui sentar-me no banco dos réus em polícia correccio-nal.

O advogado de acusação era um jurisperito de grande nomeada e uma gravidade de colarinhos assustadora. O meu patrono foi, nomeado ex-officio: era um bacharel verde em anos e sorvado em in-teligência.

A acusação fez o penegírico dos séculos áureos em que não havia imprensa, nem as vidas das famílias estavam expostas aos enxovalhos de escrevinhadores devassos.

"Sr. Dr. Juiz de Direito!", exclama ele, "o santuário da família não pode conti-nuar à mercê destes esfoladores de reputações! A mulher casada treme no pedestal da sua virtude; o esposo honrado, num país de imprensa livre, anda como ovos em peneira; a virgem honesta é estrangulada no seu decoro, quando se embala no inocente berço das suas afectuosas aspirações aos sacratíssimos, direitos da maternidade. (Neste ponto, o escrivão do processo limpou as lágrimas ao lenço vermelho do tabaco.) Sr. Dr. Juiz de Direito, prossegue o Demóstenes, com os braços em arco e o semblante em lavaredas de transporte. Todos temos mulher e filhas, filhas estremecidas e esposas ternas. Que im-porta a inviolabilidade destas santas afeições, se a pena do foliculário, estilando o negro fel da calúnia, nos verte no coração a peçonha da desordem doméstica e nos expõe às vaias públicas?! Um marido vive em boa paz com sua mulher: vem um refalsado escritor e diz-lhe: "Tua mulher é desleal!, tua mulher roubou-te os doces mimos!" Horrível, Sr. Dr. Juiz de Direito!, horrível! Desde este momento a paz da família é como diz Job; o esposo tornou-se a fábula do povo; e a esposa, maculada sem mácula, aí fica infamada em si e na sua posteridade, por todos os séculos dos séculos! O cidadão probo e laborio-so, se cuida que a honradez de sua vida o há-de escoar dos tiros da calúnia, engana-se.

Aqui está o exemplo palpitante da actualidade. O Dr. Anselmo Sanches alcançou o quadragésimo ano de sua existência, sem que o ódio ou a inveja lho denegrisse com a baba pestilente da aleivosia. Todas as famílias se honraram de o terem na sua confiança. Em todas as casas honestas ele tem tido acesso como amigo, como irmão e como brasão das virtudes familiares em que ele é conselheiro, e baluarte, sem rebuço o digo, e balu-arte -, hei-de chamar-lhe sem lisonja baluarte, paládio sancta sactorum, das virtudes das famílias suas relacionadas. Pois ei-lo aqui pedindo às leis que o justifiquem perante o mundo e impondo ao fel cuspido por infamadora boca que volte ao negro peito donde saiu!...

Esqueceu-me o restante do discurso, que não precisava deter-se mais para ganhar o bom êxito. Os espectadores, os escrivães, o juiz, os esbirros, as testemunhas de acusação, todos estavam comovi-dos, quando o meu advogado tomou a palavra e disse que eu escrevera um romance sem intenção de ofender designadamente pessoa nenhuma. Anselmo Sanches é um nome - argumentava o causídico - que eu inventara, sem talvez saber que ele já estivesse inventado, e tanto assim era que o seu cliente ficara pasmado de se ver citado aos tribunais para responder pelos involuntários devaneios da sua ima-ginação opulenta e já provada noutros muitos contos de que ninguém se queixara.

Isto fez sensação.

O doutor pediu licença para dizer que, se era verdade eu não o querer ofender, declarasse que todas as alusões, julgadas pela opinião pública em descrédito dele autor, eram um mero composto de fantasia.

O juiz voltou-se para mim e disse:

- Declara, pois, o Sr. Silvestre da Silva que é romance o seu artigo?

- Nada, não declaro.

- Como?! - tornou o juiz.

- O meu Anselmo Sanches é aquele - redargui apontando a grão-besta.

Este gesto, se fosse visto por gente fina, devia de produzir a comoção que faz nos espectadores o "Ninguém!" de D. João de Portugal apontando o seu retrato na tragédia de Garrett.

- Pois o Sr. Silvestre insiste em caluniar o cavalheiro que generosamente lhe perdoa?!

- Rejeito o perdão de quem o deve a Deus, e à sociedade, e ao seu amigo que atriçoou, à mu-lher do seu amigo que cobriu de ignomínia, à pupila do seu amigo, que debalde quer lavar nas lágrimas a nódoa eterna.

- Mas que testemunhas dá o senhor da verdade das suas acusações?

- Três - respondi.

- Quais?! Do processo não consta alguma, nem o senhor aduziu alguma em sua defesa.

- As minhas testemunhas depõem em silêncio.

- Isso é absurdo.

- Pois, Sr. Dr. Juiz, creia Vossa Senhoria no absurdo, como Tertuliano: "Quod absurdum, cre-do."

- Não tenho que ver com Tertuliano; provas de arguição é do que a lei conhece aqui. Quem são as três testemunhas?

- É um marido que está prostrado de vergonha e de aflição num leito. É a mulher deste mari-do, que está doida. É uma órfã, recolhida nas Ursulinas de Braga, que está... prostituída. São estas as três testemunhas.

Anselmo Sanches pôs os olhos no tecto e exclamou:

- Ó Céus!

- É a repetição da calúnia, que o Sr. Silvestre nos está dando? - interpelou o juiz.

O juiz recolheu-se ao santuário da sua consciência. Reinou profundo sossego de meia hora, fin-da a qual os autos passaram à mão do escrivão, que leu a sentença.

Fui condenado em cinquenta mil réis de multa, três meses de prisão e custas do processo.

Bati, como Galileu, o chão com o pé e disse: "Seja como for, o Sr. Sanches é um infame."

Paguei a multa e custas e remi o tempo de prisão a dinheiro.

Anselmo Sanches recebeu os emboras dos seus numerosos amigos.

A mim deram-me o epíteto de caluniador convicto. Os jornais acharam cordata a sentença e la-mentaram que as aberrações do bom senso comprometessem a imprensa em semelhantes derrotas, des-prestigiando-a e armando contra ela os inimigos.

Olhei em derredor de mim, procurando amigos que me roborassem a consciência da minha jus-tiça, esmagada a coices de seus sacerdotes. Fugiam das minhas declamações os que me haviam excita-do a verberar o doutor.

Tive então nojo mortal da sociedade e de mim, que Deus fizera dum barro menos vil, mas amassado no fel e vinagre do que se chama força da alma e desprezo do martírio.

Entendi que devia corrigir a obra do Criador. A minha primeira operação de reforma foi renun-ciar para sempre às manifestações da inteligência, e jurei comigo de nunca mais dar na estampa escrito que não abonasse uma conscienciosa parvoíce, talismã de tantos que aí correm, e à conta dos quais muitos meus colegas na imprensa se afortunaram e benquistaram com o mundo.

Acabou, pois, aqui, minha vida intelectual.

Nem já coração, nem cabeça. Principia agora o meu auspicioso reinado do estômago.

Nota

O autor remata aqui o período da sua vida de escritor, omitindo fases importantes e subsídios preciosos para a história literária das províncias do Norte. Em romance dispensam-se bem certas miu-dezas, que não deleitam, nem fazem chorar nem rir; é porém minha opinião que as menores coisas, na vida dum homem estremado do vulgo, são factos significativos.

Silvestre estudou conscienciosamente o viver íntimo da cidade heróica e enfeixou as suas ob-servações sob o título O mundo Patarata, que, no seu modo de sentir, era sinónimo de mundo elegante.

No vigésimo oitavo caderno dos seus manuscritos li as seguintes páginas, que merecem entrar no templo da imortal memória com seu autor:

Se o mundo elegante no Porto será o mundo patarata de toda parte?

O mundo elegante é a sociedade polida, lustrada, envernizada no corpo e no pen-samento, na acção e na palavra, na intenção e na obra.

Patarata quer dizer ostentação vã.

Elegância quer dizer escolha.

Poderão as duas coisas emparceirar-se num mesmo indivíduo, numa mesma clas-se?

É onde bate o ponto.

Demonstrado que ostentação vã é a máxima pataratice, o mundo elegante geme sob a pressão racionalista da lógica.

Por outro lado, evidenciada a urgência da patarata na vida real, como as visuali-dades na ilusão teatral, a pataratice é incremento da civilização.

É o luxo o estímulo das artes e da circulação do numerário - dizem os econo-mistas infalíveis. A pataratice é a arte amestrada pelo aguilhão do luxo. Ora, se o mundo elegante é o consumidor das espécies, que constituem o luxo, e o fomentador da prospe-ridade das artes, segue-se que o mundo elegante é o mundo patarata.

Crê nisto toda pessoa que já ouviu dizer que há uma coisa chamada lógica pela qual se prova que o mundo cabe num cesto, se o cesto for maior que o mundo.

A elegância também é sinônimo de beleza.

A sociedade elegante não pode ser substancial e formalmente a sociedade bela.

A tomarmo-la assim, fumigaríamos com incenso derrancado olfactos modestos que já espirrariam contra a lisonja.

A lisonja é a assafétida das boas almas, das almas escolhidas, ou elegantes.

Na sociedade escolhida há pessoas que têm a consciência de serem feias.

Aí se compreendem todas as caras possíveis desde a malaia até à georgiana.

Todas as inteligências imagináveis.

Todas as progénies admissíveis na ordem da propagação.

Todas as virtudes, ainda as mais hipotéticas.

Há uma sociedade que não tem obrigação de ser outra coisa logo que é elegante.

A sua missão é andar à tona do mar revolto da vida como as alforrecas.

O pássaro é um animal volátil, o peixe é um animal nadador, o réptil é um ani-mal rasteiro, o elegante é um animal... elegante.

Diz A. Karr que Deus fizera a fêmea e o homem fizera a mulher.

Ora, a mulher não se limitou a fazer do macho um homem: fez uma brochura de-pendente do engenho do encadernador.

O espírito subiu da glândula pineal para o frisado; o entendimento desceu a relu-zir no polimento das botas; o coração entumecido enfumou os bofes da camisa; as aspi-rações grandiosas acolchetaram-se à abotoadura dos diamantes; os apertos de alma atri-bulada passaram para o atesamento da luva.

A alma, conquanto seja um ser imponderável, veste tafetás e lemistes, calça ver-niz, enluva-se de pelica, bamboa-se em coxins; e, se exercita algumas operações inte-lectuais e filosóficas, é quando se mete no estômago, como Diógenes na cuba.

Do mundo elegante são excluídas as pessoas de todos os sexos possíveis as quais não provarem que dependem como se tivessem para mais de doze mil cruzados de renda.

Se os têm ou não, essa averiguação incumbe aos lançadores da décima, impostos anexos e quinto para a amortização das notas.

Cá, o essencial e condicional é parecer que os tem; porquanto: A benigna lei económica da circulação monetária aceita como factos do dinheiro;

Porque a modista, o alfaiate, sapateiro, luveiro, boleeiro, camaroteiro, e os de-mais satélites do orbe elegante, são entes de índole tão sincera, que nem por pensamento suspeitam da má natureza dos mananciais donde a moeda deriva pelos meandros da so-ciedade escolhida.

Como quer que seja, a sociedade honesta não fica desairada encansando-se no mundo elegante. A pataratice de alguns raios postiços da boa roda não tem que ver com o eixo - a parte sã e legitimamente escolhida da alta sociedade.

O mundo elegante, na segunda cidade de Portugal, denota civilização muito adi-antada.

Aqui é tudo asiático, menos o espírito que se ala quase nada às idealizações do Oriente.

Regalias materiais, fausto, cortesania, gentileza, puritanismo de raça, bizarria, donaire, feitiço de gestos e maneiras, é um pasmar o que por aí vai disso!

Não se explica a celeridade com que as camadas se desbastaram nestes últimos vinte anos. A que estava então no topo da jerarquia social ficou fazendo as mesuras so-lenes das velhas açafatas, por se não mesclar com o gracioso despejo da sociedade mé-dia. Esta, porém, com toda a punjança de um sangue novo, surgiu de salto, feita, e com-posta, como se o bom-tom lhe fosse herança de séculos.

É pasmoso!

As damas portuenses são muito mais iluminadas que os homens portuenses.

Entra-se num salão e admira-se o desembaraço das senhoras e o encolhimento canhestro dos galãs. O mais audaz encosta-se ao batente da porta e não ousa transpor o limiar sem que a rebecada do coro, núncia da primeira contradança, autorize a entrada em gorgolões, como a dos rapazes pela escola dentro.

Este acanhamento, porém, é de bom agouro.

Homens de talento e espírito são os que mais se acovardam diante de senhoras. No Porto há muito talento e espírito por força.

Os patetas, os lorpas, os atiradiços, são por via de regra os mais festeiros e fes-tejados na sociedade, umas vezes com a cristã virtude da indulgência, outras com o riso zombeteiro da ironia.

Há por cá de tudo. Deus louvado!

E bom é que haja para que os tédios da uniformidade não volvam o mundo ele-gante às fórmulas dorminhocas da sociedade velha, em que o casquilho tomava a quinta chávena de chá, a pedido da dona da casa, e torcia um tendão a dançar o minuete, en-quanto a menina fazia tossir ao cravo notas roufenhas, com grande aplauso e grandes abrimentos de boca, de seis velhas entendidas em cravo. Etc.

Não é menos valioso elemento, para quem se der a escrever a fisiologia do Porto, um artigo de Silvestre, que trasladamos dum jornal coevo. Dedica ele o seu escrito

AS PESSOAS MELANCÓLICAS

Eureka!

Arquimedes.

Pela primeira vez, em minha vida, sinto a legítima vaidade de ser útil à humani-dade padecente.

Por imprevisto acaso, entrei no grémio dos "humanitários", como agora se diz.

Oferece-se mais uma cabeça às bênçãos da humanidade por entre as cabeças do Hollowe dos unguentos, do inventor da Revalenta, do inspirado manipulador da pílula da família, do mirífico engenho que espremeu do fígado do bacalhau o óleo restaurador dos pulmões.

Declaro desde já que não inventei o remédio para a epizootia, nem os pós in-secticidas, nem a cura do mormo real.

Os meus estudos patológicos actuam todos sobre a raça humana, posto que as enfermidades do gado vacum e suíno chamem de preferência a atenção do homem, animal carnívoro, que come o boi, porque o boi se não emancipou ainda e está dois sé-culos mais atrasado que o jumento, cuja emancipação é hoje indispensável.

De passagem direi que me espanta e indigna o desvelo que os governos empre-gam no exame das moléstias, que dizimam os animais prestantes para a cozinha.

É uma questão de estômago e não há aí questão de estômago que não avulte as proporções de uma questão nacional.

Se acontece grassar uma febre que devora centenares de pessoas, os conselhos de saúde descuram de averiguar os sintomas do andaço, não delegam visitadores às farmácias homicidas de província, nem aviltam os melhoramentos higiénicos de que depende a salubridade pública.

Adoece, porém, o boi, e para logo surgem os Hipócrates bovinos escrevendo aforismos e as corporações medicatrizes instauram congressos de sanidade e destacam membros científicos a vencerem tanto por dia.

Não se cura tão pressurosamente de valer ao homem, porque o homem não é comestível. Pois indivíduos há que comem o boi, e são por isso mais antropófagos que se comessem o homem.

Fecha-se a digressão impertinente.

No que eu trazia há muito empenhadas as minhas vigílias era no descobrimento dum antídoto contra a melancolia.

A medicina conhece uma doença moral chamada "hipocondria". Os sintomas desta enfermidade são as desordens digestivas, as flatulências, os espasmos, a exaltação da sensibilidade, os terrores pânicos, a impertinência dos sentimentos morais, etc. Os indivíduos mais inteligentes e mais imaginativos, quando irritados pelas paixões, ou fatigados pelo trabalho de espírito, são mais sujeitos a estes sucessos incuráveis, quan-do as influências morais os não curam.

Não era esta enfermidade, de origem corpórea, a que me preocupava. A malan-colia, sem flatulência nem perturbações estomacais, a que tanto ataca os inteligentes como os idiotas, era esse o meu fito.

Horas e dias terríveis passam por nós como períodos negros da existência.

Cai-nos a fronte para o seio, onde o coração nos dói premido por mão de ferro. Não há lembrança feliz que possa estrelar-nos o caos da imaginação: não há raio de sol que faça abrir flor de esperança em nossa alma arada pelo desconforto.

Essa situação é comum a muitas pessoas: só não a conhecem aquelas que travam aliança ofensiva e defensiva com a estúpida alegria, contra as intermitências dolorosas do espírito.

O amador ditoso tem horas de melancolia terna: essas são as melhores da sua vida. Aí dele quando o murmúrio do regato, e a cruz do ermo, e a Lua espelhada nas águas, lhe dão humedecer os olhos de dulcíssimas lágrimas!

O amante infeliz tem sezões aflitivas que o excruciam e desesperam. Para esses dois, tão diferentes no padecer, há uma só panaceia: é o coração da mulher, essa divina botica de todos os bálsamos para todas as feridas, abertas na refrega das paixões no-bres.

Mas, afora a melancolia do amor, há uma outra sem causa, sem preexistência dolorosa, sem antecedentes que possam indicar ao médico da alma os meios terapêuti-cos.

Sentem-na aqueles mesmos que a fortuna acaricia com todos os mimos deste mundo.

É a que mata os ricaços da Grã-Bretanha e a que tortura os ricos ociosos de to-das as nações, onde há Sol e Lua, onde o céu é azul e a atmosfera diáfana.

Não é costume nosso matarmo-nos quando o aborrecimento da vida nos enjoa.

Em país algum seria maior a estatística dos suicídios do que em Portugal, se o tédio nos vencesse.

E no Porto?

Deus nos livre disso!

O vestíbulo do teatro lírico seria em cada noite um cemitério; nos bailes, a cada instante, se ouviria a denotação dum tiro; as senhoras levariam cristais de ácido prússi-co para se matarem ao cabo da tediosa parolice do par dançante; do Jardim de S. Láza-ro, aos domingos, iria o pároco levantar algumas dezenas de cadáveres; os próprios templos onde há organistas seriam borrifados de sangue suicida.

Aqui no teatro não se morre de tédio; mas abre-se a boca e buzina-se um vagido sonolento.

No baile ninguém se mata; mas devoram-se gelados para apagar o vulcão da idéia suicida, ou abarrota-se o estômago de sanduíches para que a alma bruta predomi-ne sobre a outra, ou tresfega-se a garrafeira do dono da casa para alucinar e entreter o espírito, como coisa exótica, do ar artificial de uma estufa.

Mas estes remédios não passam de paliativos. A reação, depois, é pior. Falecida a vida de empréstimo, o espírito fica letárgico, marasmado e até inábil para exercer as funções da presidência de uma câmara municipal.

Depois do artigo de fundo, a coisa que mais brutaliza a alma é a melancolia.

O poeta, que vos encampa as suas amarguras em redondilha maior, escreveu as trovas, com ânimo folgado, no intervalo de duas orgias.

A melancolia é sorna e estéril. Camões escreveu a sua epopeia nos dias da espe-rança.

Quando a tristeza desanimadora o entrou, já não pôde escrever para o fidalgo, que lha pedia, uma paráfrase dos salmos.

Uma inteligência em quietismo não danifica os interesses materiais dum país, e até certo ponto pode considerar-se providencial o pousio; mas um cidadão analfabeto, embrutecido pela melancolia, se a sua qualidade civil é importante como deve ser, pode prejudicar gravemente os interesses da cidade.

Ainda bem que a melancolia raro se atreve a perturbar o funcionalismo intelec-tivo de certas cabeças, cuja organização é maravilha. Daí provém a traça metódica e auspiciosa com que o homem supinamente ignorante regula os seus negócios. Há nessa cabeça a perene claridade dum fundo de garrafa de cristal. As ideias impedem-lhe con-geladas da abóbada craniana como as estalactites duma caverna. Dessa imobilidade im-perturbável de cérebro resulta a fixidez da mira posta num alvo, a pertinácia das empre-sas e o conseguimento dos bons efeitos.

Ainda não vi tão cabal e logicamente explicado o fortunoso êxito de algumas ri-quezas granjeadas pela inépcia.

Não obstante, o número dos bastardos da fortuna é muito maior. O leitor é de certo um dos que tem em cada dia uma hora de enojo, de quebranto, de melancolia, de concentração dolorosa, de desapego à vida, de misantropia e de diálogo terrível com o fantasma da aniquilação.

É para esse que eu vim, à hora decretada pela providência dos descobrimentos, com o coração a trasbordar de filantrópico júbilo, anunciar o antídoto contra a melan-colia.

Bem pudera eu, à imitação de famigerados varões, apresentar, como de engenho meu, o invento da receita, que um obscuro químico deixou como legado de penosas lu-cubrações. Quem ele fosse não posso eu dizê-lo, porque o modesto inventor julgou-se um átomo da humanidade e, doando-lhe o seu óbolo de talento, não quis glorificar-se de um tesouro que não era mais que transitório depósito em suas mãos.

Eis aqui a receita:

Junco cheiroso - onça e meia.

Íris-de-florença - uma onça.

Pau sândalo - onça e meia

Pau de roseira - onça e meia

Casca de laranja e limão - onça e meia

Cravo-da-Índia - uma oitava

Vinagre rosado - quatro onças

Estes ingredientes lançam-se numa vasilha, que se coloca ao fogo. A pessoa melancólica aspira-lhe o perfume por alguns segundos. A primeira sensação é deliciosa para o olfato. Segue-se um geral sentimento de bem estar físico, de desopressão cere-bral, de transporte e contentamento de espírito.

Resta fazer uma reflexão toda pessoal que intende com o desinteresse do signa-tário do artigo. Não vão pensar que se tem de olho uma daquelas medalhas com que a Real Sociedade Humanitária galardoa os que socorrem o próximo em aflição. Por en-quanto o instituto desta munificentíssima sociedade não premeia os socorros prestados à alma: a caridade destes bons tempos de máxima ilustração verte os seus bálsamos somente sobre o corpo. Quando, porém, retrogradarmos ao ponto de se considerarem beneméritos da Real Sociedade Humanitária os propagadores de receitas contra a me-lancolia, hipocondria e outras enfermidades espirituais, então, não só as medalhas hu-manitárias, mas até os hábitos de Cristo que a munificência régia dá aos pianistas virão galardoar os obreiros do espírito que se dedicam a melhorar a alma do seu semelhante.

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