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Os Brilhantes do Brasileiro

Camilo Castelo Branco

V

Considerações plásticas

D. Ângela já descia as escadas, encaminhando-se à administração, quando foi intimada a comparecer em juízo. Pela primeira vez, em sua vida de vinte e seis anos, encarava um oficial de justiça, cujo semblante carregado e voz cavernosa a traspassou de susto. O esbirro caminhava de par com ela, dando ao ato uma solenidade policial que fez espanto nos lojista vizinhos. Alguns enviaram os marçanos na cola da pálida mulher de Fialho, e ficaram conjecturando, com variadas hipóteses, por que iria capturada a vizinha.

O administrador, ao ver Ângela, ergueu-se em respeitosa postura, postergando o estilo costumado nesta ordem de funcionários, cujo lance de olhos é sempre fulminante, denotando, nos vincos da fronte severa, a carranca da justiça que os anima e afeia.

Esta desusada urbanidade do magistrado pode explicá-la a beleza de Ângela. A condição dum administrador de bairro, no exercício de suas funções, não há aí compêndio de civilidade que a pula e amacie tanto como uns olhos meigos que obrigam a respeito e amor quando intentam somente pedir comiseração.

A esposa de Hermenegildo Fialho, se não era formosa para causar assombros, tinha direito a ser considerada uma das mais galantes esposas de brasileiros, os quais, naquele tempo, eram os usufrutuários mais ou menos exclusivos das peregrinas burguesas do Porto.

Ângela não era portuense, como oportunamente se dirá; mas, no rosado sadio da musculatura e redondez das formas, pertencia à espécie de beleza sólida e tanto ou que patriarcal que distinguia e avantajava, sobre todas, as senhoras da cidade eterna de há quinze anos para além. E, como vem de molde, deixarei aqui em estilo lamentoso uma saudade à memória daquela raça forte de mulheres quase extinta, e já hoje representada por suas filhas, dessoradas no ambiente impuro dos colégios, e adelgaçadas por uma alimentação francesa que lhes depauperou a opulência do sangue herdado.

Orvalharam-se-me, há dias, estes olhos, quando, passados anos de ausência do grande confluente das famílias do Porto, volvi às praias da Foz, e reconheci a custo as belas damas da minha mocidade. Fora de lisonja, eram ainda grandiosas reminiscências dos esplendores da formosura antiga, sem impedimento da superabundância de tecidos moles que lhes almofadavam as espáduas e quadris: o que, porém, entristecia era ver as filhas destas sadias mães. Britânicamente esgrouviadas, delatando a magreza na aderência dos trajos aos ossos escarnados, as filhas das sebáceas belezas de 1850 assustam a alma devotada mais fervorosamente ao ideal; que a palidez e o osso não é o prisma por onde poetas costumam entrever as deslumbrantes coisas do céu.

Além doutras causas deste deplorável estiolamento da geração nova, insisto nas que já argüi: colégio e alimentação. O colégio em que o espírito atanazado pelo suplício lento da geografia, da história e da gramática, perde a seiva nativa, e refaz-se a expensas do corpo; de maneira que a idéia se enriquece ao passo que o músculo deteriora: questão fundamental de fisiologia, que importa ser estudada nos tratadistas especiais. Quanto à alimentação, é sabido e notório o progresso perigoso da culinária portuense nestes últimos vinte anos. A cozinha tornou-se a antecâmara da sepultura. As intoxicações, causadas pelas especiarias, sobreexcedem a mortandade feita pelo verdete, pelos fósforos e pelo ácido prússico.

Ora é de saber que as mães destas meninas apenas aprenderam o necessário de leitura e escrita para sustentar uma correspondência honesta e parcimoniosa com os sujeitos adequados ao intento lícito da família e da procriação. De espírito não consumiam coisa que lhes fizesse falta no corpo. A natureza florescia e frutificava desimpedidamente. Pode ser que a mulher ignorasse a forma do Globo e a situação geográfica da Abissínia; mas, em compensação, o rosado das faces e o alabastrino dos ombros pareciam estar pedindo asas para disputar formosura a uns anjos que vos encantam por entre as folhagens e festões dourados das catedrais. Razoável ignorância e sólida nutrição explicam a robustez daquela danosa plêiade de querubins portuenses que levavam os olhos do forasteiro. Homem de Lisboa, que entrasse no teatro de S. João, recordava-se de S. Carlos como quem se lembra de ter visto aquelas almas brancas e lívidas das formidáveis visões do florentino; ao mesmo passo que os rostos carminados das filhas do norte realizavam o mais vivaz colorido do pincel flamengo.

Pois saibam que vai volatilizar-se da terra portuguesa essa raça de mulheres que nossos filhos já não hão de ver. Eu não deploro este desaparecimento somente por que me sinto levado na corrente em que derivam as graças plásticas do meu tempo: esse egoísmo não cabe na minha alma. Lamento, sobretudo, a sorte dos meus netos, se eles tiveram bastante espírito para se não contentarem com o amor dos puros espíritos. Volvidos cinqüenta anos, neste andar, se a mulher assim continua a sutilizar-se, a conservação da espécie não me parece provável. A meu ver, o fim do mundo está-se anunciando na delgadeza, secura e descarnamento da fêmea. Virá uma geração em que mulher e homem se defrontem, não já para se quererem e amarem, se não para discutirem igualdade de direitos entre espírito e

espírito, entre osso e osso. Chegado o gênero humano a essa extremidade, acabou-se este Globo, que me parece ser o mais ordinário de todos.

Não era, todavia, assim quando existiam mulheres como a do brasileiro Hermenegildo Fialho Barrosas.

Alta e refeita; cabelos castanhos; testa larga e escantuda; sobrolhos pretos; pálpebras amortecidas com aquele doce cansaço do sono irresistível; faces que as rosas não deixam ser trigueiras, mas que um primoroso apreciador do belo desejaria menos carminadas; beiços arqueados pelo molde da pequena boca, ainda pequena quando o riso mostra o esmalte dos dentes; pescoço alto, quebrando em ondulações de jaspe e torneios de espáduas e noutras ondulações que o cantor da Ilha dos Amores sabia descrever lindamente colhendo nos pomares as suas graciosas analogias: tal era Ângela. Tal era?! Que presunção! Quem soube aí descrever uma beleza mediana por maneira que vingasse retratá-la no espírito do leitor? E que direi da mulher que, à feição de Ângela, sobrelevava às de mais graças o realce dum suavíssimo colorido de candidez em que transluzia alma sublimada e cheia de poéticas tristezas!

Que admira, pois, que o administrador do bairro cortejasse com afável sombra a esposa de Fialho, sendo que, já de antemão, propendia a protegê-la das iras um tanto brutas do mazorral marido?

¯ Minha senhora – disse ele, mandando retirar os circunstantes, menos a criada – seu marido acusa esta mulher de lhe haver roubado uns brilhantes...

¯ Meu marido engana-se – interrompeu Ângela. – Os brilhantes, que a minha criada vendeu, fui eu quem os mandou vender.

¯ Mas a sua criada confessou ter sido ela quem...

¯ Já sei que ela confessou; mas não creia vossa senhoria senão o que eu lhe digo. Esta mulher está inocente. Pode vossa senhoria mandá-la embora sem receio, que estou pronta a declarar por escrito que mandei vender os brilhantes da minha pulseira.

O funcionário sentia sinceramente não ter mais que fazer neste lance, em harmonia com o código administrativo. Quisera ele, com qualquer motivo judicial, prolongar a sua interferência nos negócios domésticos da linda criatura; mas não lhe ocorria coisa que lhe desculpasse a curiosidade, ou, mais exatamente, a fulminante ternura que o alvoroçara. Não obstante o acanhamento natural destas paixões de assalto, o bacharel, que não era já verde, e podia com a gravidade do aspecto honestar o intento, animou-se a entrar no mistério dos brilhantes com a seguinte pergunta:

¯ Vossa excelência tem bastante confiança no amor de seu marido?

Ângela pôs os brandos olhos no semblante do interrogador, silenciosa e desconfiada do intento de tal pergunta.

O administrador insistiu, esclarecendo:

¯ Pergunto eu, minha senhora, se, provada a inocência da sua criada, vossa excelência conseguirá explicar a venda dos brilhantes sem irritar o gênio de seu marido, motivando suspeitas...

Atalhou Ângela:

¯ Mandei vender os brilhantes para fazer bem a uma pessoa infeliz.

O funcionário receava transpor muito além a baliza do seu ofício, averiguando a espécie de filantropia que uma esposa honesta escondia de seu marido; mas o pecado da curiosidade, desculpado pela beleza da interrogada, esporeou-se até à indiscrição de perguntar-lhe:

¯ E essa pessoa infeliz é... é pessoa de quem seu marido possa... suspeitar... relações... menos louváveis?

Ângela doeu-se, ou, mais ao certo, pareceu corrida da pergunta, corando, e baixando os olhos silenciosa.

O administrador não instou, já convencido da impureza da caridade. Faltava sólida base para tal juízo; mas a malícia humana, se algumas vezes infama, adivinha outras. Desta vez, porém, o magistrado adivinhava apenas que naquele mistério o coração era grande parte.

¯ Bem – disse ele, violentando-se a respeitar o segredo alheio de sua alçada. – O que tenho averiguado é que vossa excelência mandou vender os seus brilhantes, e que a criada obedeceu às ordens de sua ama.

¯ Certamente.

¯ Pode portanto vossa excelência retirar-se, quando quiser, e a sua criada também. E estimarei – ajuntou ele com intencional mas delicada ironia – que vossa excelência consiga conciliar à sua boa ação a complacência do Sr. Fialho.

Deu ares de o não perceber a pálida esposa do brasileiro. Ergueu-se, e saiu. A criada, limpando as lágrimas, acompanhou-a.

VI

Amigos do seu amigo

Já Hermenegildo Fialho estava aflito com a demora dos três parlamentários enviados à esposa. Não cuidava ele que Ângela comparecesse na polícia, ou se havia esquecido de ter concordado com a autoridade sobre a urgência da acareação entre ama e criada.

A paciência dava-lhe empurrões. Caia aquele sujeito sobre as molas das otomanas flácidas e fazia ringir os aços. Ressaltava com pasmosos saltos dum coxim para outro, e parecia tentar um suicídio por despejo da janela à calçada dos Clérigos, quando enxergou na Praça-nova Joaquim Antônio Bernardo, Pantaleão Mendes e Atanásio José da Silva.

Os solicitadores da honra de Fialho caminhavam à pressa e com ar de embezerrados. O brasileiro pregara os olhos neles, a ver se lhes lia alguma coisa nas fisionomias, cá do segundo andar onde os outros lhe viam a cara grande e escarlate como a lua dos teatros.

¯ O homem dá-lhe ataque apoplético! – disse Atanásio a Pantaleão.

¯ Asno será ele se lhe der algum ataque! – observou Joaquim Antônio, empregando a gramática e a filosofia do seu uso.

¯ Qual ataque nem qual diabo! – corroborou Pantaleão Mendes. – Um homem é um homem, sabe você, amigo Atanásio? E mulheres não faltam, física e moralmente falando. Haja dinheiro e saúde: o mais, regalório!

¯ Pois sim – redargüiu Atanásio, quando subiam a escada –; mas você não se vá pôr a dizer isto nem aquilo da mulher, percebe você? Conte o que se passou, e deixe obrar a natureza.

¯ Não me dê conselhos... – resmoneou Pantaleão. – Deixe o negócio por minha conta; que a honra dos meus amigos é como se fosse a minha.

Hermenegildo estava no topo da escada com os braços em cruz no costado, e o queixo debaixo caído e apoiado sobre o papo dos bócios.

¯ Então que há? – perguntou ele esgazeando pelas caras homogêneas dos três um relance de olhos penetrante.

¯ Vamos conversar – respondeu Pantaleão, levando-o de braço dado para a sala.

¯ Vocês tardaram tanto! – volveu o brasileiro.

¯ Estivemos à espera que a sua mulher se despachasse lá da polícia; depois, palavra puxa palavra, e deitou-nos a conferência a esta hora – explicou Atanásio, encarregando Pantaleão, por um gesto de cabeça, de ser o relator dos casos acontecidos.

O qual tirou do interior umas palavras, cortadas por pausas que davam à narrativa uns toques de seriedade, prejudicando o índole ridícula da cena.

¯ Senhor compadre – disse o marido de Francisca Ruiva. – Sua mulher não estava em casa; aqui o amigo Joaquim foi-lhe na peugada, e soubemos que ela tinha sido chamada à presença do administrador. Esperamos uma hora e pico. Nisto chegou ela e mais a criada. Estávamos sentados no banco do pátio, quando sua mulher deu conosco, e fez-se amarela como esse colete que você traz vestido. Erguemo-nos, fizemos-lhe as nossas cortesias, e disse eu que lhe queríamos uma palavrinha em particular. Mandou-nos subir, e chamou para dentro que nos abrissem a sala de visitas. Entramos, e daí a pouco chegou ela, assim com modos de quem se não importava muito conosco. Sentou-se, e perguntou o que queríamos; não foi isto, amigo Atanásio?

¯ Tal e qual; é como você diz.

¯ Eu tomei a palavra, e disse que o meu honrado compadre e amigo velho Hermenegildo Fialho Barrosas nos mandara os três a fim de averiguar a quem a senhora D. Ângela deu um conto seiscentos e cinqüenta mil réis de esmola. E vai ela esteve um quase nada a pensar, e respondeu que me não dizia a mim nem a ninguém o que não tinha dito a seu homem, entende o amigo? Depois, aqui o nosso Atanásio tomou a palavra, e começou-lhe a dar práqui-prácolá, porque torna e deixa, a senhora deve confessar o que fez ao dinheiro, quem lho apanhou, que qualidade de pessoa era; porque as mulheres não podem dispor assim dos capitais dos seus homens, aliás ninguém pode contar com o que é seu; e de mais a mais dar um conto seiscentos e cinqüenta mil réis sem dizer a quem, era caso para desconfiar de certas coisas muito feias, etc., etc., etc. Enfim, o amigo Atanásio batalhou com ela, apertou-a por todos os lados, mas respondeu você, compadre? Não respondeu? Nem ela! Vai depois, o amigo Joaquim falou também com toda a prudência e cortesia, discorrendo a respeito da honra dum homem, e também não fez nada. Enfim, como ela estivesse a ouvir sem responder uma nem duas, eu tomei a palavra, e disse que o senhor seu marido lhe ordenava que se recolhesse sem perda de tempo a um convento. Agora é que são elas! – prosseguiu Pantaleão Mendes batendo nas próprias pernas duas palmadas que soaram como se as ponderosas mãos batessem nas pernas dum Sileno de pedra. – Quem cuida você, compadre, que ela respondeu?! Que...

¯ Que não ia! – atalhou o brasileiro, careteando com os olhos e boca e nariz uma temerosa carranca de cólera.

¯ Isso mesmo! – conclamaram os três.

¯ “Não vou” – acrescentou o relator – “não vou para convento” disse ela. E disse mais: - “Meu marido tomou conta das jóias que eram de minha mãe; que fique lá com o dinheiro dos brilhantes, e que me mande o resto; se quiser mandar; se não quiser, que fique com tudo. Convento é que não”. Há de ir! Gritei eu; há de ir, que seu marido

é quem governa na senhora. – “Não vou” teimou ela. Então que quer a senhora fazer, se seu homem a deixar, sem que comer, nem que beber, nem casa? – “Trabalharei para viver; e, se morrer de fome, Deus me dará o céu, porque morrerei honrada e inocente”. Foi o que ela me disse, e nós quedamos a olhar uns p'ros outros. Disse-lhe então o amigo Atanásio que dissesse a quem deu o dinheiro, se estava honrada e inocente.

¯ E vai ela... – acudiu o brasileiro, ansiadamente.

¯ Respondeu que só se confessava a Deus, que sabia a pureza do seu coração. Não foi isto, Sr. Atanásio?

¯ Sem tirar nem pôr.

¯ Tornei a fazer-lhe outra prédica – prosseguiu Pantaleão. – Disse-lhe tudo quanto me lembrou em termos comedidos, não sei se me entende? Não acreditei que ela fosse honrada e inocente por várias razões. Ouviu-me tudo com má cara, e pôs-se de pé, e disse que, se lhe não queríamos mais nada, que podíamos ir à nossa vida. Veja você que atrevida má criação a da tal senhora! Impor deste modo três amigos de seu marido, que iam ali tratar dum negócio muito sério! Coisa assim nunca me aconteceu na minha vida; e só pela honra dum amigo velho é que se pode tragar destes bocados! À vista disto, a nossa comissão estava acabada. Não tínhamos que fazer ali. Pegamos nos chapéus, e nas bengalas, e saímos. Aqui tem o acontecido. Você fará o quiser, compadre.

Hermenegildo começou a passear na sala, jogando de braços por maneira que parecia ensaiar-se com eles para esvoaçar. Os amigos contemplavam-no com umas caras tristes, quando um criado entrou com uma bandeja, na qual transparecia em cristais a opala de antiquíssimos vinhos, lardeados de marmelada, e outras frutas açucaradas que negaceavam o apetite. O bizarro dono da casa convidou os quatro atribulados a honrarem a sua garrafeira, e sem esforço obteve que todos, exceto Fialho, rebatessem os ímpetos da sua angústia com alguns tragos de licor que investe os ânimos de força reagente, e infunde estoicismo nas mais sandias almas.

¯ Compadre, beba deste – disse Atanásio sobpondo ao nariz do amigo aflito o cálix aromático.

¯ Tire isso p’ra lá! – refusou Fialho, sacudindo a cabeça, e fechando os olhos, talvez, à tentação. E resmoneou, entre trágico e cômico:

¯ Se fosse veneno, metia-o no corpo...

¯ Não seja asno! – acudiu com hombridade Joaquim Antônio Bernardo – Pois você ainda está nessa!... Matar-se por causa de mulheres! Está a ler o nosso homem! – ajuntou o marido da maiata, gargalhando com aplauso dos circunstantes, que bascolejavam o vinho e o riso entre as mandíbulas. – Engula esse nó que tem nas goelas, e beba, amigo Fialho! Mulheres!... Com que então você, com amigos e fortuna, era capaz de tomar veneno p’rá mor duma desaustinada de mulher que se portou mal! Ela que se mate, se quiser; e você viva regaladamente com cento e noventa contos que tem. Faça de conta que ela morreu, e trate de arranjar outra...

¯ Ou duas, que é melhor – emendou Atanásio.

¯ Ou três, que é mais peitoral – ampliou Pantaleão, pondo a mão suavemente nos gorgomilos por onde ia passando um damasco.

O dono da casa, invejoso do espírito dos seus amigos, acrescentou:

¯ Quatro, quatro, para não ser pernão... O dado é sete fêmeas para cada macho.

¯ Macho será você! – replicou Atanásio com a boca a disbordar de marmelada.

Eis aqui o caixilho lutuoso em que enquadrava a agonia de Hermenegildo. Por pouco não descambava em orgia o tribunal de homens congregados para julgar a desonra de Ângela e salvar a dignidade do marido. Falavam todos a um tempo, alvitrando planos tendentes a evitar que a esposa infiel tivesse parte nos haveres do brasileiro. Para poder entrar nesta seção importante com energia, Fialho sopeteou duas bolachas americanas num cálix do de 1805, e pôs a mão instintivamente no bucho aquecido, e capaz de competir em calor com o coração vizinho. Os amigos, fazendo-o beber segundo cálix, aplaudiam o seu triunfo, e juravam que, ao terceiro, a honra do seu amigo ficaria lavada como as goelas.

Após longos debates, em que todos falavam à mistura, convieram em que Fialho, como comerciante que era, se obrigasse por escritura a dividas excedentes ao valor dos seus bens imóveis, e desde logo alienasse os títulos bancários, e se cozesse com o dinheiro. A soberana razão que pôs os cinco alvitristas neste acordo, deve-se a Atanásio, o qual raciocinara desta laia:

¯ Amigo e compadre Fialho, não há que duvidar: sua mulher tem um homem a quem deu do dinheiro. Este homem há de aconselhá-la a separar-se de você para se dividirem os bens, percebe você? Se você os tiver, que remédio há senão reparti-los? O maior logro e castigo que você pode pregar a ela e mais ao patife é não ter nada que repartir. Hem?

A resposta geral foi um brado uníssono. E logo, no afogo do entusiasmo, sacrificaram a Quarta garrafa e uma bandeja de pastéis de Santa Clara.

¯ Mas se ela não quiser sair de casa? – perguntou Barrosas, acalmado o barulho.

¯ Você já não tem casa. A sua casa está vendida. Um de nós, quando o compadre quiser, vai tomar posse, e sua mulher recebe intimação judicial para despejo, percebe você? – respondeu enfaticamente Atanásio.

¯ Diz você bem, compadre – obtemperou Fialho – que eu tenho procuração dela em branco. Faz-se escritura da venda da casa. E nesse caso é preciso avisá-la que se mude quanto antes. Vamos ver se ela sai ao bem.

¯ Duvido; - atalhou Joaquim Antônio Bernardo – aquilo é mulher finória e soberba. Sem ser por justiça, não a põe o amigo fora de casa.

Continuaram debatendo questões jurídicas ao propósito, em que as sandices se disputavam primazia, até que, chegada a hora de jantar, Hermenegildo foi hospedar-se em casa do compadre, reservando para a reunião do dia seguinte o plano definitivo.

VII

Revelações cômicas

Às onze da noite daquele dia, Hermenegildo Fialho rebolava-se no enxergão de penas, e gemia uns gemidos que soavam como regougo de raposa. A comadre foi escutá-lo à porta, e veio dizer ao marido que o compadre estava a gemer de saudades da indigna mulher. Ajeitou-se à esposa escandalizada boa ocasião de cortar nas mulheres desleais; o marido, porém, que tinha, às vezes, conscienciosas brutalidades, tapou-lhe os respiradoiros da ira, murmurando:

¯ Cala-te, cala-te; e não me cantes tretas a mim...

A esposa encolheu-se; odiou mais do intimo o marido, e gozou o néctar dos deuses, o prazer da vingança antecipada, e a prelibação da vingança por vir. Ah! Atanásios, Atanásios!...

Ergueu-se o verdugo de caixeiros desonestos (Veja o cap. III) e foi ao quarto do hóspede.

¯ Que tem, compadre? – perguntou ele. – Não pode dormir? Estranha a cama, ou que é?

¯ É uma dor de barriga – respondeu o triste, apanhando nas mãos a parte dorida, e acocorando-se. – Fez-me mal o empadão das ostras. Dá-me você um bocado de Holanda, a ver se esmoo este diabo de marisco?

Fialho sugou na botija, e daí a pouco tinha esmoído o empadão, e rebentava-lhe tanta saúde pela cara fora que parecia desafiar todas as ostras do Sr. Bocage e perturbar-lhe o sono.

Mas o compadre, sentando-se-lhe na cama, perguntou:

¯ Quer você cavaco? Ainda agora deram as onze.

¯ Vá lá; vamos conversar, que eu estou espertinado.

¯ Você nunca desconfiou de sua mulher?

¯ Eu nunca.

¯ Não ia lá por casa ninguém...

¯ Nem alma viva, a não ser a costureira. Visitas foi coisa que nunca me entraram das portas p’ra dentro, afora você e mais a sua patroa.

¯ Mas no teatro...

¯ Teatro! tó carocha! Foi lugar onde nunca a levei...

¯ E na missa?

¯ Missa!... não era moda lá em minha casa... Você bem sabe que a gente lá no Brasil perde o pêlo. Logo que casei, disse-lhe que isto de missa era uma história. Ela ao princípio ficou estarrecida; mas foi-se afazendo. Comprei-lhe um oratório e dei-lho para que rezasse em casa, se quisesse. E o caso é que ela e mais a criada, aos domingos, fechavam-se no quarto duas horas a rezar ladainhas. Ora fiem-se lá nas mulheres rezadeiras!... Olhe você, compadre, se a religião não é uma patranha!

¯ Patranha! E que grande patranha!

¯ A sua mulher reza?

¯ Nem se sabe benzer, acho eu.

¯ Faz ela muito bem; mas vai à missa dos Congregados ao meio-dia, que eu já a tenho visto entrar na igreja.

¯ Vai por dar um passeio, e mais os pequenos, percebe você? Ora diga-me cá, compadre – continuou o previsto Atanásio, sem dar lugar a que o hóspede averiguasse coisas tendentes a provar que a mulher de seu amigo conciliava a pureza dos costumes com a ignorância do sinal da cruz – eu ouvi dizer, e sei com certeza, que você tinha seus amores fora de casa. Nunca lhe perguntei nada a tal respeito por se não oferecer ocasião; mas eu sei que você tinha em S. Roque da Lameira uma moçoila da sua terra, chamada Rosa; e outra na sua Quinta da Cruz da Regateira, chamada Benedita.

¯ Não lhe mentira. Confesso o meu pecado; mas dou-lhe a razão. Minha mulher não me tinha amor de casta nenhuma. Tratava-me como se trata um tio. Entrava e saía a semana sem me dar um beijo, nem se lhe importava que eu comesse ou não comesse. Você sabe que eu sou atreito a moléstia de fígado, e que só me sinto aliviado com

papas de linhaça; pois ela mandava-me pôr as cataplasmas pelo galego! Diga-me se uma boa esposa consente que alguém ponha as cataplasmas em seu marido!... Um homem, quando anda pelos cinqüenta, precisa ser afagado, não é verdade?... É p’ra isso que eu me casei com uma rapariga pobre, apesar de ser fidalga, formando tenção de a deixar rica. Imagine você que ela nunca me fez um carinho. À minha beira estava sempre triste com a noite. Nunca se ria de chalaça que eu lhe dissesse; e depois que eu me deitava ficava ela duas horas a costurar, mais duas horas a rezar, e via-se mesmo que me aborrecia. Aqui tem você a razão por que eu trouxe da minha terra duas raparigas boas e bonitas que me amam com todo o afeto e choram quando se passam três dias sem eu lá ir.

¯ E sua mulher desconfiava?

¯ Sabia tudo, por que um brejeiro dum caixeiro, que eu pus fora, lho mandou contar numa carta.

¯ E ela que fez?

¯ Deu-me a carta, e disse que não tornasse a fazer os meus caixeiros sabedores dos meus desvarios.

¯ E não se zangou?

¯ Nada.

¯ Ora essa!...

¯ Pois se ela não me tinha amor nenhum!... Você não entendeu ainda?

¯ Agora percebo... Mais uma razão para termos a certeza de que ela fazia outro tanto.

¯ Pois isso é claro como a luz que nos está aluminando... Chegue-me daí a genebra, que estou com azia.

O brasileiro embocou a botija, gorgolejou três bons tragos, e prosseguiu:

¯ Se ela me tivesse amor, fazia o diabo em casa, logo que soubesse das minhas asneiras, não é verdade? Pois nunca me jogou a mais pequena chalaça a tal respeito!...

¯ Então não há que duvidar: – evidenciou Atanásio Mendes – sua mulher tinha com quem se distrair; e agora percebo eu como é que ela está inocente. Quer dizer na sua que está tão inocente como você, seu maganão!

Atanásio riu-se do chiste do próprio remoque.

¯ Pois sim – refletiu judiciosamente Fialho – mas você bem sabe que nós, os homens, não somos mulheres. Elas tem outra casta de obrigações. Se a mulher for igual ao marido, então não há honra nem vergonha neste mundo, não acha?

¯ Diz bem, compadre; mas é que elas abusam do exemplo que os homens dão, percebe você?

¯ Isso também é verdade – concordou Hermenegildo, fechando o olho esquerdo.

¯ Você parece que quer dormir... – notou o hóspede.

¯ Sim, ele agora parece que chega – resmungou Fialho, fechando o olho direito.

Minutos depois, esta vítima deplorável da perversão dos costumes... roncava.

VIII

Revelações tristes

Àquela hora alta da noite, Ângela, ajoelhada diante do santuário, pedia à Virgem que lhe inspirasse o melhor meio de cumprir os seus deveres na apertada situação em que se via.

O ar inocente desta mulher, que se ajoelha como infeliz sem culpa, deve tocar o ânimo de quem vai lendo isto, e já desde o começo do livro pende a desconfiar da virtude da esposa do brasileiro. É, pois, tempo de antepararmos da involuntária aleivosia a mulher pura.

Na margem direita do Lima, ergue-se por entre árvores seculares o antiquíssimo paço de Gondar, cujo décimo-oitavo senhor, no tempo da invasão francesa, era Simão de Noronha Barbosa, capitão de cavalaria, gentil e valente, em anos florentíssimos.

Ainda não tinha dezesseis quando amou a filha de um seu caseiro, com quem queria casar-se. Os parentes e o tutor debalde lhe antepuseram os estorvos da lei e ainda ordens expressas da regência. A mulher humilde chegou a ser-lhe arrebatada e presa; mas a passagem da onda revolucionária socavou às portas ferradas da cadeia de Ponte do Lima, e remessou-lhe aos braços a formosa encarcerada. Certo general de Napoleão mandou a um vigário que os casasse em sua presença e galardoou assim a devoção, talvez forçada, de capitão português ao leão de Austerlitz.

Simão de Noronha foi ferido mortalmente no recontro de Amarante. A esposa, que o acompanhava, quando o viu acutilado e moribundo entre as garras dos patriotas, que cevavam suas iras mais encarniçadamente nos jacobinos, morreu de puro terror, sufocada por um golfo de sangue. Era uma fidalga alma a daquela filha do povo!

A piedade dalguns populares salvou o capitão de ser arrastado nas ruas de Amarante.

Após seis meses de curativo, recolheu-se ao seu paço de Gondar, e levou consigo o esqueleto mal escarnado de sua mulher. Dias depois entrou num mosteiro, e amortalhou-se no hábito de noviço beneditino.

Antes, porém, de findo o noviciado, Simão viu casualmente sua prima D. Maria d’Antas. Era uma senhora de formosura rara. Não direi que o rasgar o noviço o hábito fosse um preito digno desta notável dama; nem me espantaria que toda a congregação beneditina despisse as túnicas, e os frades se esmurraçassem por amor dela.

Mulheres assim aluiriam conventos, se lhes fosse consentido visitar os primos. Por um de seus cabelos arrastariam comunidades, e dum volver de olhos consumariam a empresa que não bastaram séculos a vingar.

D. Maria d’Antas, filha dum desembargador da suplicação, trouxera de Lisboa, aos vinte e cinco anos, o coração já derrancado. Os seus costumes e manhas não edificavam ninguém; mas endoideciam os mais guapos e galhardos fidalgos do Alto Minho. Além de bela e palavrosa, a fidalga d’Antas era guapa cavaleira, monteava lobos, matava patos bravos, e tinha de mulher, apenas, a cara, que ficaria bem num anjo, e as fraquezas que venceriam a rebeldia dos demônios.

Simão de Noronha, em 1812, já morava nos eu solar das margens do Lima. O esqueleto da esposa e o hábito de noviço eram apenas umas lembranças de infortúnios remotos. A casa ameada de Gondar recebia a luz e os aromas das Primaveras novas pelas rasgadas janelas onde, às vezes, aparecida uma mulher alta vestida de branco. Era D. Maria d’Antas, não já esposa, mas prima, título respeitável com que ambos se abroquelavam da infamação. É, porém, de notar que nenhum se preocupava dos rumores públicos acerca daquele viverem sós e desligados doutros parentes sob o mesmo teto.

Devolvido oito anos, a calúnia já tinha mais onde morder. Maria d’Antas, sem pejo nem resguardo, aparecia com uma criança dum ano nos braços.

Mas esta criança, antes de perfazer dois anos, ficou sem mãe. As janelas do paço de Gondar fecharam-se outra vez. Simão de Noronha desapareceu, enquanto na igreja paroquial se entoavam os responsos à volta da essa de D. Maria. A criança foi levada a Viana, onde vivia casada uma irmã do fidalgo. E o espanto geral dos vizinhos não desistiu de cavar na sepultura da formosa desvairada até descobrir que ela, numa vertigem de ciúme, fora estrangulada. Isto de cavar na campa da morta vem aqui figuradamente. Ninguém profanou a sepultura de D. Maria. O caso execrando soube-se quando um morgado dos Arcos de Valdevez contou aos seus amigos, não sem fatuidade, que Simão de Noronha matara sua prima, instantes depois que encontrara entre moitas de roseiras um punhal com a firma dele revelador, que também era primo. Ora este punhal lhe saltara da algibeira da véstia castelhana, quando o fugitivo pulava da janela ao jardim

Doze anos depois, Simão de Noronha desembarcava no Mindelo com a patente de coronel. Quarenta e seis anos teria: mas representava adiantada velhice.

Finda a guerra e reformado em general, o senhor de Gondar foi viver no seu arruinado palacete de Ponte do Lima, e não voltou à casa solarenga.

De longe a longe, parava à porta do general uma liteira, donde apeava, juntamente com sua criada já idosa, uma menina que contaria entre catorze e dezesseis anos. As pessoas, que tinham conhecido D. Maria d’Antas, decidiram logo que a bela hóspeda do general era filha daquela malograda dama e de Simão de Noronha. De feito, era a criança que treze anos antes havia, talvez, sido arrebatada dos braços de sua mãe pela mão que lhe afogara o nome no sangue da garganta.

Era Ângela.

Demorava-se a hóspede um dia em Ponte do Lima, e voltava com sua criada para Viana, onde residia querida extremosamente da irmã de seu pai.

O general não dava nem recebia carícias. A presença da filha não descondensava de sobre a alma dele as trevas da consciência que lhe escurentavam tudo. Às vezes quedava-se a contemplar Ângela largo espaço. Marejavam-se-lhe os olhos, e afundavam-se-lhe as rugas da fronte.

E que via Maria d’Antas na filha, e em si o algoz. Depois, afastava-se dela carrancudo e desabrido; por maneira que Ângela não visitava seu pai sem ser compelida. Cobrara-lhe medo antes de sentir no coração a ternura de filha.

E a do general por ela raros instantes entreluzia nas sombras do rosto carregado. De natural um tanto selvagem, piorado por infortúnios que endurecem a condição, o senhor de Gondar parecia-se com todos os pais que não viram crescer hora a hora os filhos, tanto mais entranhados n’alma quanto lá pungiu o susto de os perder. Deixar uma filha com dois meses, e voltar a tê-la de catorze anos, é como adotar uma criatura doutrem, é ter perdido o direito à consolação de amar ardentemente o ser que se formou ao calor de nossos beijos. Nesta compensação entra benefício de Deus: a não ser assim, bastaria o sangue para encher de súbito amor o coração. O sangue! Retrocede cem anos quem faz conta do sangue – extrato útil do bolo alimentar – no vínculo espiritual de pai e filho, aliança sacratíssima, que se faz de lágrimas e não de sangue.

Ângela, já suposta herdeira do general Noronha, era amada em dobro: formosa e rica. Amavam-na, pediam-na uns morgados que ela nunca tinha visto nem conhecido de nome. As solicitações por escrita ao misantropo velho não recebiam resposta. Ninguém ousava dirigir-se em pessoa a um homem que dizia aos criados; “não conheço ninguém”.

D. Beatriz, a irmã do general, tinha sido a medianeira dos primeiros pretendentes. O pai de Ângela, no propósito de cortar futuras negociações, ordenou secamente a sua irmã que mudasse Ângela para a companhia de outra tia professa nas beneditinas de Viana, se a não queria solteira em sua casa.

E Ângela abençoava a resistência do pai. Não conhecia uns, e não amava nenhum dos fidalgos que três séculos antes porfiariam em merecê-la acutilando-se reciprocamente. Os mais destros e insofridos o que faziam era chover cartas de empenho a D. Beatriz de Noronha, e presentes ao agresso confessor daquela distinta beata.

Temos, portanto, donzela invulnerável? Ângela desmentirá a exuberante sensibilidade de sua mãe? Ou, namorada das visões beatíficas do cristianismo, suspira pela soledade do cenóbio?

Muito longe disto, e muito adentro das raias da natureza humana estava a peregrina Ângela.

IX

Amores fatais

Amava um que se habituara a contemplá-la como o espírito devoto contempla uma escultura da Virgem Maria, e com respeitoso temor imagina que os olhos da imagem fixos nos seus tem raios de luz viva e transluzem amor e misericórdia do coração divino.

Era um estudante que se habilitava para cursar a escola médico-cirúrgica do Porto. Era cunhado do merceeiro que provia a casa de D. Beatriz. Era irmão da mulher que costurava os vestidos das fidalgas, e ensinara a bordar D. Ângela. Chamava-se, curta e plebeiamente, Francisco José da Costa, e sabia que seu avô paterno tinha sido carpinteiro, e seu avô materno cozinheiro de um iate.

Ora um homem assim “mal-nascido” alguma jóia devia trazer preciosa dos inexauríveis tesouros de Deus.

Se nos ele sair bom e honrado coração, desculparemos a baixeza de instintos com que nos alvorece Ângela no seu primeiro amor.

A inocente não se escondia de D. Beatriz. Ensina a experiência que a candura e a indiscrição andam muito íntimas. A inocência ombreia com a inépcia. Não pode uma menina amar inocentemente senão as suas bonecas. Amores doutra espécie, desajudados de esperteza e finura, desfecham em escândalo ou sandice.

D. Beatriz, devotíssima de S. José, que carpintejava, e de S. Pedro, que pescava, e de S. Marcos, que mesinhava enfermos, e de S. Lucas, que pintava, e de S. Mateus, cobrador de impostos, e de S. Cassiano, mestre-escola, e de S. Teodoro, taverneiro – cristã a extremos de lavar os pés aos pobres em quinta-feira santa, - tranziu-se de horror frio quando teve a denúncia de que sua sobrinha amava o irmão de Joana Costa. A denúncia vinha justificada com uma carta dele, significativa de não ser a primeira, nem talvez a décima; porque o tratamento dado a uma filha de Simão de Noronha e de D. Maria d’Antas era... um tu!

D. Beatriz pôs as mãos convulsas nos olhos quando leu tu na primeira linha, tu a primeira sílaba da carta, uma entrada assim suja e escandalosa numa missiva de caderno numerado de uma a dez páginas! E não leu mais do que aquele tu, porque em seguida apanhou-lhe o flato as potências da alma, e ela ficou a escabujar tão-somente com a potência de braços e pernas.

Ângela acudiu; Vitorina, aquela criada que o leitor já conhece, lá estava, e, nas mãos desta, a carta.

¯ Veja isto, menina, veja isto! – murmurou Vitorina. – Tanto lhe pedi que não lhe escrevesse...

Ângela sumiu a carta no seio, e tomou nos braços a tia. Chamou-a, beijou-a, pediu-lhe perdão, desbulhou-se em lágrimas, e deu graças a Deus quando a velha mandou fazer uma infusão de erva cidreira para aplacar a tempestade dos nervos.

Depois do que D. Beatriz obrigou a sobrinha a contar-lhe pelo miúdo a origem da sua correspondência com o irmão da costureira. Via-se a menina enleada para referir o mais singelo da história, que era a origem; mas a velha insistia em perguntar:

¯ Como foi o princípio disso?

¯ O princípio... foi... foi... eu vê-lo... – respondeu Ângela muito apertada.

Este começar a história dum primeiro e talvez eterno amor tem a sublimidade simples da origem do Universo, referida por Moisés: “No princípio era o Verbo”; com a diferença que o principiar de Ângela entende-se melhor.

¯ Então tu... – objetou a tia entre irônica e severa – viste-o, olhaste para ele, e mais nada... ficaste apaixonada!... Com efeito!... Eu ainda não me infirmei bem na cara desse sarrafaçal; mas, pela idéia que tenho, ele tem uma figura muito reles! Tu não sabias – continuou D. Beatriz, espiritando-se com uma pitada de vinagrinho – não sabias que ele é irmão da Joana, e cunhado do Zé tendeiro? E que o pai dele era sacristão da Senhora da Agonia, e que a mãe trabalhava com os bilros? Sabias isto?

¯ Sabia...

¯ Sabias?! Quem to disse?

¯ Foi ele.

¯ Foi ele mesmo?! O tal Francisco?

¯ Sim, minha senhora.

¯ Então tu falavas-lhe?

¯ Não, minha senhora... Escrevia-me ele.

¯ E contou-te de quem era filho!... É extraordinária a sinceridade!... E para que fim te contava ele essas coisas que deviam fazer-te cair na razão da tua indigna escolha?

¯ Contava-me estas coisas para que ninguém mas contasse antes dele.

¯ Então o rapazola tinha orgulho em ser filho do sacristão?... Bem sei... são as idéias que cá trouxe a liberdade... Deus perdoe a teu pai, que também ajudou a fazer gente os netos dos carpinteiros e dos cozinheiros dos iates... Oxalá que ele não pague... Vamos ao caso... E tu, apesar do Francisco da Joana te dizer quem era, não mudaste de idéia?

¯ Não minha senhora...

¯ Continuavas a querer-lhe...

¯ Sim, minha tia.

¯ E com que fim? Querias casar com ele?

¯ Se me deixassem, casaria.

¯ Ora não sejas infame! – bradou a tia, cerrando os punhos, e resfolegando tão irada que o tabaco lhe espirrava em granizo das ventas arquejantes – não sejas infame, Ângela! – repetiu ela, resistindo ao flato que já lhe emperrava a língua. – Não és minha sobrinha, não és filha de Simão de Noronha... De Maria d'Antas creio eu bem que sejas filha...

A última espécie do insulto foi vociferada com rancoroso sarcasmo: Ângela não o percebeu.

¯ Com que então, se te deixassem, casarias com o cunhado do Zé tendeiro!... – repetiu a velha acentuando com crispações de riso aspérrimo aquele Zé, elidindo a primeira silaba para engrandecer a ignomínia do nome.

Ângela ouvia em silencio e lagrimosa as invectivas da velha, cortadas de frouxos nervoso. De súbito, D. Beatriz, circunvagando pelo sobrado o olho direito armado da luneta, exclamou:

¯ Que é da carta que eu tinha aqui? Que é da carta?

¯ Aqui está – disse mansamente Ângela, apresentando-lha.

¯ Querias lê-la, não é assim?! – gritou a velha, tirando-lha da mão com arremesso. – Vai perguntar à criada que ma trouxe se ela quereria casar com o Francisco da Joana...

E, abrindo-a em tremuras de raiva, pôs a luneta e bradou:

¯ Tu!... Olha isto, filha de Simão de Noronha! Tu... O neto do cozinheiro dá tu à filha do décimo oitavo senhor do paço de Gondar!... Não te envergonhas, Ângela!... Consentiste em semelhante insulto a tua mãe, que era das mais distintas famílias de Portugal?

Como a filha de Maria d’Antas não respondesse, D. Beatriz gesticulou de ombros e cabeça em ar de assombrada, repôs a luneta no olho fundo e mirrado, e leu mentalmente, fazendo esgares com os queixos, ao passo que um novo tu lhe descompunha o aparelho nervoso. Muito é, porém, de notar-se que da leitura da segunda página em diante o rosto da velha denotava espanto sem ira, sem carrancas, sem intermitências de suspiros e ais. Um período especialmente a impressionou de feição que voltou terceira vez a lê-lo, compassando o entendimento de cada frase com um gesto afirmativo de cabeça. A passagem dizia assim:

“Não nos iludamos, minha boa amiga. Pode ser que Deus aproximasse as nossas almas; pode ser; mas, se elas houverem de se encontrar e unir, há de ser na presença de quem as criou, - no céu. Neste mundo, é impossível; e, se fosse possível, a sociedade te obrigaria a chorar rios de lágrimas, e eu mesmo chegaria a sentir o tormento do remorso por ter assassinado as alegrias do teu destino, e destruído as modestas aspirações do meu. Desde que comecei a adorar o que em ti há divino, nem uma hora só entrou em minha alma o pensamento de te ver minha esposa. Era escusado que minha boa irmã estivesse sempre a medir a distância que nos separa. Bem viste que eu ta mostrei na segunda carta que te escrevi; e Deus sabe que eu chorava quando parecia rir da humildade de meu pai, que era um respeitável velho muito pobre, muito resignado, e muito feliz. A grande herança que ele me deixou foi a certeza de que há pobres felizes. Conheço que minha mocidade já não vai encaminhada pela trilha da de meu pai. Ele ignorava tudo, exceto os artigos da fé que atam as tristezas transitórias desta vida aos eternos contentamentos doutra: eu estudo há seis anos, penso e aflijo-me em terríveis dúvidas; e, se creio nalguma coisa santa, é porque comparo a felicidade de meu ignorante pai com as dolorosas inquietações do meu espírito. Mas a ti que importa isto, minha adorada amiga? Que impertinentes cartas te escrevi nestas noites tão compridas e veladas! E que pesar me fica se elas te enfadam, cuidando eu que tens lá também noites sem dormir, e amizade bastante para aceitar as confidências do pobre solitário!...”

D. Beatriz deixou cair o braço que sustinha o papel, desarmou o olho cansado, e perguntou:

¯ Ele é quem ditou isto?

¯ Isto quê, minha tia?

¯ Esta carta... Não creio que ele saiba dizer estas coisas... Não pode ser... Alguém lhe faz as cartas... Nada... O Francisco da Joana, com aquela cara de bruto que tem, não ideava assim umas idéias tão discretas. Aqui anda sancadilha armada à tua inocência, Ângela. Há velhaco escondido neste negócio!... Sabes o que é, tola?... O rapaz pensa que te prende com a confissão da sua humildade. Pouco mais ou menos aconteceu isso comigo, quando eu era da tua idade; e mais o meu pretendente era um doutor, filho do juiz de fora de Ponte. Também me veio com estas cantigas da desigualdade dos nossos nascimentos; e eu, a falar-te verdade, ia-me deixando levar, e não sei onde chegaria a minha loucura, se teu avô do pé p’rá mão não me escolhe marido conveniente. Casei, e daí a quinze dias já nem me lembrava o outro; só quando o vi passados anos, muito gordo e nédio, é que me lembrei do palavreado dele. (D. Beatriz contava o caso expedindo uns espirros de riso gosmento). Dizia o velhacório que o seu último dia seria aquele em que me visse ligada a outro coração; e, ainda na véspera de me casar, me fez verter grossas bagadas sobre o papel em que me escrevia que o sangue lhe saía em borbotões pela boca. Depois, quando o vi muito barrigudo, casado com outra barriguda de feitio e da casta dele, pegou-me uma vontade de rir, que ainda agora não posso ter mão que me não doam as ilhargas!...

E casquinava de modo a humorística velhinha que Ângela ria também do irresistível grotesco de sua tia recordando tão comicamente os seus virginais amores.

¯ Pois convence-te, menina – volveu a fidalga, revertendo a custo à seriedade do ato – que estás passando pelo que passei; mas este cá me quer parecer mais manhoso do que o outro. Tem mais lábia. Vem cá com estas coisas dos artigos da fé, que rezava o pai... Pudera não! Ou ele não fosse sacristão!... Aposto eu que o filho não sabe o Padre Nosso! Se o pai era feliz na sua baixa posição, porque não vai ele para o lugar do pai? Eu já disse ao Zé tendeiro que se deixasse de o mandar estudar no Porto; que o metesse num ofício. E ele quem lhe deu dinheiro para seguir os estudos de cirurgião, ou médico, ou lá do que é? O cunhado quanto tem quanto me deve. Emprestei-lhe um conto de réis, a juro há três anos, e paga-me em arroz e bacalhau. Nem daqui a vinte anos me tem pago. Ora não há! – continuou a credora do merceeiro aguçando a voz em iracundo falsete – se eu via minha sobrinha casada com um lapuz, que ainda há anos andava por aí a jogar a pedrada no cais! Onde foi ele aprender este palavreado!... Nada... isto é dalgum finório que esperava ganhar alguma coisa se caísse o raio na minha família. Não há de cair! – bradou ela batendo com os ossos do pulso no capacho de palha em que encruzara as pernas. – Não há de cair, enquanto eu for viva! Teu pai não te quer casar? Eu te casarei! Escolhe. Tens cinco pretendentes. Um da casa de Paço-vedro; outro da Passagem; outro de Aborim; outro de Aguião; outro de Azevedo; outro de... quem é o outro?

¯ Não sei, minha tia; nem quero saber, porque não caso com nenhum.

¯ Não casas com nenhum?! – assobiou a velha erguendo-se duas polegadas de salto acima do capacho.

¯ Não, minha senhora.

¯ Não?!... Vou escrever a teu pai! Ele te obrigará!

¯ Meu pai não quer que eu case com algum desses que a tia nomeou.

¯ Não? Mas eu vou dizer-lhe que há um pretendente mais moderno: o Francisco do sacristão. Pode ser que ele queira este. O negócio vai arranjar-se. Queres que lhe de parte do novo arranjo? Responde: isto é pedir de boca. Teu pai deve querer que o décimo nono senhor do Paço de Gondar seja neto do sacristão da Senhora da Agonia. Tem vergonha! Tem vergonha! – rebramiu a velha, erguendo-se de ímpeto, e bradando a Vitorina que lhe trouxesse mais chá de cidreira.

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