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Os Brilhantes do Brasileiro

Camilo Castelo Branco

X

O Poeta

D. Beatriz injuriara cruelmente Francisco José da Costa; mas não conseguira envenenar com a dúvida a coração de Ângela.

A corajosa menina, livre da velha, que adormecera quabrantada de insultos nervosos, fechou-se a ler as cartas do moço, e a escrever-lhe a noticia das tribulações daquele dia. Atraiçoada pela medianeira da correspondência, suplicou a Vitorina que fizesse entregar aquela carta, prometendo-lhe ser a última. Condoeu-se a criada, movida também pela esperança de ver terminado o funesto namoro, prenúncio de maiores desgraças. Foi ela propriamente entregar a carta, e pedir a Francisco da Costa que saísse de Viana, se não queria que a menina perdesse o amor de sua tia, e, pior ainda, a proteção do pai. Ainda assim, os dizeres da carta desdiziam dos rogos da criada. Ângela pedia-lhe amor e animo, paciência e esperança, jurando morrer antes de sucumbir a um casamento violentado.

O estudante esperou alguns minutos que as lágrimas o desafogasse, e, escrevendo, pedia perdão a Ângela da sua covardia. “Sou covarde – escrevia ele – porque fujo; covarde porque me não atrevo a ver o rosto da infelicidade que te ameaça. Vou sair de Viana. Quando souber que o meu nome passou do desprezo ao esquecimento de tua tia, voltarei. Se te encontrar tranqüila, não perturbarei o teu sossego. Para eu te adorar, como até aqui, em todas as situações estarás bem, minha amiga. Ainda ligada a outro homem, eu saberei separar o anjo da mulher. O que eu não quero, nem posso, é tirar-te o nome, o prestígio, o amparo e a honra que só é visível enquanto a consideração pública a proclama ou finge reconhecer...”

¯ Ele não me ama! – disse, entre soluços, D. Ângela a Vitorina. – Não me ama, e eu hei de ser muito desgraçada por amor dele!...

A criada louvava-se a si do conselho, e agradecia a Deus a honrada determinação do estudante, dando como terminado o lance em que o belo e rico futuro da sua menina corria perigo. Ângela, todavia, asseverava que tudo estava perdido para ela, e que só lhe restava reduzir-se à extrema pobreza e desvalimento do pai, a ver se assim o homem pobre e plebeu a queria para esposa.

Este plano, se viesse a realizar-se, era original, a meu ver; mas não sei que fados esquerdos se atravessam aos projetos épicos em matéria de casamento, se a poesia depende de uma casinha colmada, à ourela de um regato, com seis pés de couve na horta, e por cima lua, sol, estrelas e ar à discrição. A culpa de se malograrem estes sublimes intentos quem na tem é a sociedade, esta prosa derreada do gentio comum que assim que vêem pomba a librar-se três metros acima da lama, apedrejam-na, desasam-na, dão com ela em terra. É desgraça! Mulheres distintas com amores distintos é mister inventá-las. E maior desgraça ainda: as heroínas que se admiram e aplaudem no romance e no drama, seriam assobiadas, se tal gênero de pensar e viver se encarnasse em sinceras heroínas na vida real.

Ângela seria capaz de descer até nivelar-se com o irmão da Joana costureira; mas não a deixaram. Privaram-na de estremar-se do vulgar. Compeliram-na por maneira as circunstancias que não há aí maior rebaixamento onde pudesse ir sopesada uma alma primorosa em finezas de amor.

Vamos ver o que este mundo faz das mulheres que transcendem a craveira comum.

D. Beatriz, aconselhada pelo seu confessor, escreveu ao irmão precavendo-o contra a inclinação amorosa de sua filha, sem esconder o nome e a geração vilíssima do inquietador de Ângela. Por sua parte, a fidalga declinava de si a responsabilidade de alguma conseqüente ignominia de família, admoestando o general a que levasse Ângela para sua casa, e lhe insinuasse com o preceito sentimentos de dignidade e faro mais senhoril na escolha dos maridos. Esta linguagem metafórica devia ser do frade confessor. Só um egresso, descassado das boas práticas de sala, daria a uma senhora faro na escolha de maridos, assim à guisa de perdigueira de dois narizes que fareja a volataria.

Simão Barbosa não se assanhou. Respondeu placidamente que transferisse Ângela para o convento, e lhe fizesse saber que a rebeldia lhe redundava em passar da condição de senhora à de criada. “eu não sei bem de quem ela é filha. Apenas lhe conheci a mãe”. Este homem, escrito isto, devia acrescentar: “Eu deveras não sou pai dessa mulher, porque pude escrever esta resposta sem sentir o mínimo abalo de ódio ou de piedade. Se me dissessem que ela tinha casado com o filho do sacristão, daria ordem a um lacaio que os enxotasse da minha porta com um tagante”. Era o ermo, o tédio, a doença, a irreligião, a covardia em aniquilar-se, que empedravam o coração do general.

Uma hora, em certa noite, dezassete anos antes... hora negra foi essa que lhe enoitou a vida inteira. Ululava-lhe desde essa hora nos ouvidos um grito de garganta abafada. Nenhum rir de festa, nenhum gemer de infelizes, nenhuma aurora de paz vingou mais distraí-lo daquela noite, e do som final de uma corda de vida que lhe estalou entre os dedos.

Quando Ângela recebeu as ordens de seu pai, já Francisco da Costa ia caminho do Porto.

Mas que homem é este? Que idade tem? Que figura? Que despropósito de coração é esse que se escusa com feminil pavor a fazer rosto à desgraça, raras vezes vencedora, se a paixão braveja e se esbraseia num formidável “quero”?

Francisco José da Costa, vai em vinte e dois anos. Não se recomenda por gentileza, posto que lhe sobejem graças estimáveis. Basta-lhe os olhos negros e a tristeza, a palidez e o nunca sorrir-se. É poeta; mas as suas estrofes não se imprimem; são lágrimas; e desconhecidas, porque ninguém o viu chorar. Estuda desde os treze anos com inteligência precoce. A mente de seu pai era faze-lo frade em ordem pobre; mas o mocinho esperava que o seu estudo lhe valesse formatura gratuita em Coimbra.

Mudadas as instituições políticas, e falecido seu pai, Francisco aceitou as sopas oferecidas por seu cunhado, merceeiro escasso de posses, e sempre infeliz nas empresas comerciais. José Maria dos Santos, como não tivesse filhos, prometia cortar pelas precisões domésticas para formar o cunhado na escola médico-cirúrgica do Porto. Esta dependência mortificava o estudante, não por índole rebelde à gratidão, senão que via sua irmã afadigada no labor da costura para auxiliar as despesas no Porto.

Joana era a mais doce e resignada criatura que ainda a Providência deparou no seio de uma família mal sorteada dos bens deste mundo. Seu marido tinha quarenta e seis anos, e ela vinte e três. Não distinguireis entre a filha

extremosa e consorte desvelada. Acariciava-o e respeitava-o como a pai. Não sabemos que grau marcava a temperatura do seu amor de esposa: o certo é que José Maria, golpeado de reveses no seu negócio, dizia que Deus o compensava sem medida, premiando-o com o oiro do coração de sua mulher, em exemplo de paciência, suprema riqueza do pobre, moeda sagrada com que se negoceia o céu.

Francisco adorava sua irmã; todavia, para estar triste, escondia-se dela. Joana queria que todos agradecessem a Deus, quando se levantavam com saúde, e se ajuntavam à volta da mesa do almoço. Se via triste o marido ou irmão, dizia: “Sois ingratos ao Senhor. Se um de nós adoecesse, e a doença fosse mortal, com que saudades nos lembraríamos destes dias tão quietos, tão felizes! Pensai na tristeza da família onde morreu um irmão; pensai na casa onde há fome e frio, e dizei-me se não é ingratidão e pecado uma tristeza causada não sei porque!”

Quem primeiro revelou a Francisco o amor de Ângela foi Joana. Acabou de lhe contar a confidencia da fidalga, e disse:

¯ Agora, Francisco, é necessário que vás para o Porto, embora a aula se abra em outubro. Deixa que o tempo desfaça esta criancice da D. Ângela. Eu disse-lhe o que devia: mas ela respondeu-me que havia de ser tua esposa, se a tu amasses. Já viste inocência assim? Eu fiquei espantada a olhar para a menina, e de repente passou-me pelo espírito uma nuvem negra. Deus me livre que tu, meu querido irmão, não pudesses vencer-te, se chegasses a imaginar possível casar com a filha do general Noronha, com a sobrinha de D. Beatriz, tão soberba da sua fidalguia!

Francisco escutou sem assombro e sem interrompê-la a extensa revelação de Joana. Passados momentos de serena reflexão, disse:

¯ Eu sabia isso...; ainda assim, dás-me uma triste novidade.

¯ Sabia-lo? Por quem?!

¯ Por mim. Tinha-mo dito a minha alma. Eu pensava nela... – vê que doidice! – pensava em Ângela imaginando a felicidade do homem que ela amasse. Era uma inveja que me envergonhava, por isso ta não confessei. Até de mim a quisera eu esconder; mas o absurdo lutava com o absurdo, e não sei quem venceu... Um dia sonhei que a via chorando, e acordei a chorar. Deste este momento, senti que adorava Ângela. Isto foi há três anos, lembras-te? Fui para o Porto, e lá fiquei todo ano. Quando voltei e a vi, desejei morrer. Um dia entrou-me no coração a certeza de que era amado... Por quem? perguntas tu, Joana; e bem vejo que estás sorrindo da vaidade do teu pobre irmão!... eu te digo como foi... Estávamos na igreja matriz, nas trevas do sábado santo. Eu sabia em que teia de altar ela tinha ajoelhado; mas entrevia-lhe escassamente o vulto. Ao tanger da campainha, fez-se a claridade súbita no templo, e vi os olhos dela cravados nos meus, que se abaixaram respeitosos. Sabes tu que delírio de piedade me assalteou? Ajoelhei, quando todos se levantavam e davam boas-festas. Ajoelhei no maior sombrio da nave... e chorei. Aqui tens a revelação que os olhos de Ângela ensinavam à minha alma... Que pensas tu agora de mim? – prosseguiu o moço, após longa pausa de reconcentração. – Receias que eu apareça diante de Ângela com o colo erguido pela vaidade de ser amado? Cuidarás que eu principiei a acastelar ilusões por esse céu além, e a descer delas para o paradoxo dum casamento? Mal me conheces então, Joana! Vê se me compreendes isto... Acho sempre o teu espírito aberto a certas coisas confusas que eu digo, e não sei dizer mais inteligivelmente. Olha, minha irmã, eu não sei se o estudo envelhece o coração; figura-se-me que sim. A alma não; que essa é imortal, inalterável e inviolável à destruição do tempo. Em mim conheço o coração atrofiado, e a alma viventissima. Como homem de alma adoro Ângela, ilumino-a à luz que radia das minhas crenças em Deus. Como homem de coração não a sacrificaria, nem me sacrificaria. Impulso que me arroje a querê-la ouvir dizer que me ama não o sinto; desejo de encontrar aquela bela imagem, no silêncio do espaço em que a tenho visto nas minhas noites de vigília, entender os murmúrios que ressoam o seu nome, vesti-la das aéreas roupagens que sonhou a exaltada poesia do oriente, é isso, é isso o meu amar, o meu delirar, a minha inofensiva vertigem, que não tem nada que ver com o nascimento, nem com os haveres de Ângela. Não sei quem é, não conheço, não quero conhecer a filha do general Noronha, a rica herdeira, a fidalga que tem no seu paço de Gondar retratos de avós que fundaram a monarquia portuguesa. Quem eu conheço e adoro é uma mulher que se chama Ângela, que tem no rosto uma luz celestial, e essa luz ma representa de geração divina. Ali há sinal de origem mais alta. Eu vou buscar-lha no céu; não a procuro na fundação da monarquia. Porque receias tu, então, que eu perturbe o sossego da fidalga opulenta, se eu não lhe quero nem os brasões nem o oiro? Pode ela dar-me a alma sem lesar os seus pergaminhos nem declinar o direito de suceder nos castelos dos senhores feudais seus avós? Pode. Então, minha irmã, deixa ao pobre sonhador a sua inocente felicidade, e faz de conta que o defensor de Ângela não é o anjo da guarda, sou eu.

XI

Sonhos e esperanças

Como foi que a vigilância dos dois anjos-custódios de Ângela deixaram passar a primeira carta?

Denunciaremos à moral pública certa fragilidade do estudante.

O escrever-lhe não constava do programa; nem isso era mister para homem que se abastava com o ideal encontro no silêncio das noites estreladas. E, de feito, ele não escrevia cartas à imitação de umas que o vulgo mais seleto escreve, e suja e profana nas mãos encodeadas dum aguadeiro.

Francisco, no calado da noite, voltava contemplativo e vagaroso da costa marítima, ou descia dos pinhais cerrados de Agra. Aquelas noites estivas da gentilíssima Niana, que se reclina à beira-mar, sob um pavilhão de verdura, e se remira no espelho do seu Lima, são noites para poetas, e poetas se fazem ali súbito inflamados por tantas maravilhas da natureza, raro cumuladas num só paraíso. Debaixo de céu tão inspirativo, e terra tão espontânea de murmúrios, de músicas, de perfumes, de silêncios que se entendem e ouvem no coração, ali, onde não se faz mister a forma para adorar a idéia, é que o poeta de Ângela adorava idéia e forma também, apesar dos seus incorpóreos devaneamentos.

Na volta da montanha ou das ribas do mar, continuava os sonhos, à lâmpada do seu quarto, e escrevia-os, justamente num caderno com frontispício que dizia SONHOS.

O merceeiro viu, uma vez, a costaneira com o estranho título; abriu-a, leu duas linhas, fechou-a como os filólogos modernos em consciência deviam fechar os códices coptas, e disse à esposa:

¯ Teu irmão está ali, está doido. Escreve de dia os sonhos que tem de noite. Pobre moço!

Joana foi ver também. Leu e entendeu muito pela rama.

Aconteceu perguntar D. Ângela à sua mestra de bordar o que fazia o irmão, quando não lia.

¯ Escreve num grande livro em branco uma coisa chamada SONHOS – respondeu Joana.

A fidalga pediu, rogou e suplicou à costureira que lhos deixasse ver.

Joana hesitou muitos dias em denunciar a sua curiosidade a Francisco; todavia, importunada por Ângela, referiu ao irmão a sua imprudência.

Fraqueza congenial do homem! Teve o rapaz uns assomos de júbilo com os rogos de Ângela! Releu os seus SONHOS, deu o manuscrito à irmã, e disse-lhe:

¯ Pede-lhe que rasgue esses papéis depois de os ler.

Ângela pairava em regiões sobpostas à do seu espiritual adorador. Adivinhou mais do que percebeu. Decorou até o que não entendia.

Vem de molde o encher-se um vácuo importante desta história. A educação literária da filha de D. Maria d’Antas era igual à do capelão que lha transmitira. Escrevia com a ortografia do padre, quase nunca racional. Lia os livros de sua tia, que se prezava de perceber a Recreação filosófica do padre Teodoro de Almeida, e relia todos os anos o Feliz independente do mesmo congregado, o Belizário de Marmontel, e outros livros, cujas passagens notáveis andavam de memória na família.

Que montava isto? O amor de Deus infundiu a máxima ciência nos apóstolos ignorantes. O amor do homem arroteia e enfrutece, a súbitas, o mais maninho entendimento de mulher. Fenômenos do amor. O divino, florejando e aromatizando mártires e santos, ala os amados à glória. O humano com seus relâmpagos que abrasam, e perfumes que embriagam e asfixiam, despenha-se nos recôncavos do inferno, que neste mundo se chama o desesperar.

Ângela sentiu destecer-se o escuro de sua ignorância ao compasso da leitura noturna que fazia dos SONHOS. Aquele livro não lhe ensinava história, nem gramática, nem geografia, e outras coisas que, não sabidas, constituem a ignorância humana. O que ela aprendia era o Verbo, não o verbo que se conjuga; mas a palavra, o som que vibra, a corda virgem, a translucidação do sentir inexpressável, o definir da idéia confusa, a linguagem um tanto mística desta religião do amor que precisa revelação dos iniciados. Enfim, o Verbo.

Ora, muito era para ver-se a afoiteza com que a menina começou desde logo a escrever em um livrinho em oitavo, brochado por suas mão, uns pensamentos curtos e singelos, com o título de ESPERANÇAS! Mal emplumada ainda para librar-se a remontados lirismos, Ângela apenas avoejava de arbusto em arbusto, colhendo todas as suas imagens das flores, como a abelha a dulcidão dos seus favos.

Quando já tinha escrito algumas laudas, pediu, com adorável simplicidade, a Joana que entregasse o livrinho ao irmão, e acrescentou:

¯ Quando ele rasgar esse, eu rasgarei o que me ele mandou. E diga-lhe que se ele SONHA, eu ESPERO.

Joana satisfez o pedido com repugnância, e mormente quando viu Francisco por tanta maneira banhado de consolação que lhe batiam as artérias das fontes, colando o livrinho aos beiços.

Agora é que vai começar o período epistolográfico destes amores.

Joana, receosa de ser solicitada para medianeira em tão arriscada correspondência, evitava o ensejo de estar a sós com Ângela, e raramente, sem necessidade extrema, ia a casa de D. Beatriz.

Ângela, doida deste desafeto, granjeou imprudentemente os serviços duma criada, a quem entregou carta fechada para Joana. O conteúdo eram puerilidades, senão antes umas espertezas inocentes. Enviava ela duas

folhinhas no formato das suas Esperanças, e pedia que fossem reunidas às outras. O dizer deste suplemento era já triste e queixoso: chamava-lhes ela aos pensamentos; Esperanças que fenecem. Se Francisco não estivesse presente, a irmã esconderia os papelinhos e iria pedir misericordiosamente à fidalga que se esquecesse de seu irmão, e empregasse amor onde lhe fosse permitido esperar felicidades.

Francisco mandou esperar a criada, e escreveu a primeira carta. Depois, a Segunda, a terceira, até à duodécima, que era o caderno, cujo paradeiro foi às mãos convulsas de D. Beatriz.

Ate-se agora o fio da história, no lance de D. Beatriz mandar que a sobrinha se preparasse para entrar no convento.

XII

A Fuga

A surpresa tolheu a reflexão.

Ângela, pela primeira vez, deu ares de família. Contavam-se arrojos de D. Maria d’Antas, em anos verdes, quando o pai lhe impunha observância das leis do decoro, em desacertos amorosos. Saiu-se a filha de Simão de Noronha com um dos atrevimentos não comuns enquanto a sociedade assusta, e o coração mulheril não desteme os efeitos do escândalo.

Ouvida a ordem, ao anoitecer, entrou no seu quarto, onde se deteve até às dez. o silêncio da casa era completo, quando ela abriu a janela mais rente da rua, saiu e encaminhou-se a casa de Joana.

A irmã de Francisco, que tanto o instigara a sair para o Porto, naquele dia, estava, a essa hora, chorando saudosa dele. Quando ouviu bater à porta, alvoroçou-se cuidando que o irmão desandara por não poder vencer-se. Perguntou, conheceu a voz trêmula da fidalga, expediu um grito, e chamou o marido.

Ângela, apenas entrou, disse entre risonha e espavorida:

¯ Fugi!

¯ Fugiu, Santo Deus! – exclamou Joana. – vossa excelência fugiu, senhora D. Ângela?! Não me diga isso, por quem é!...

¯ Fugi, deveras, pois não vê, minha amiga? Olhe... ninguém veio comigo... Se eu não fugisse, amanhã havia de entrar no convento forçosamente, que assim mo disse minha tia...

¯ E agora, minha senhora? – atalhou afligidíssima a irmã de Francisco.

¯ Agora o quê?

¯ Que tenciona a menina fazer?

¯ Fico nesta casa – respondeu serenamente D. Ângela, apertando nas suas a mão de Joana.

¯ Mui pobre casa; mas ela aqui está, e nós para servirmos a vossa excelência – disse José Maria respeitosamente.

¯ Mas que infelicidade, minha senhora, que infelicidade! – exclamava a trêmula irmã do acadêmico, enquanto Ângela relançava em volta de si os olhos indagadores.

¯ Não te aflijas assim, Joana! – disse tranqüilo o merceeiro. – Maior infelicidade seria que a fidalga não tivesse pessoas que a respeitam como nós.

¯ Seu irmão? – perguntou Ângela com veemência, como se a salteasse o pensamento dele ter saído para longe.

¯ Está já no Porto, minha senhora – respondeu José Maria, visto que a mulher não respondia.

¯ Foi para o Porto?! – murmurou a filha de D. Maria d’Antas empalidecendo e esbugalhando os seus olhos negros.

¯ Foi, minha senhora; pedi-lhe eu muito que fosse – tartamudeava Joana – cuidando que, saindo ele daqui, se acabavam as inquietações de vossa excelência e de sua tia.

Ângela pendeu a face para o seio, e quedou-se largo espaço confusa, sem atender às sensatas observações de José Maria.

¯ Que ingratidão! – murmurou ela; e, levantado-se de saldo, disse: - Bem... não vim aqui fazer nada; irei para o convento, irei para onde quiserem. Meus amigos, abram-me a porta, que eu vou outra vez para casa; mas digam ao senhor Costa que eu vim procurá-lo numa hora de muito sofrimento, que o não encontrei, e que saí desenganada...

¯ Ó minha senhora, vossa excelência é injusta com o meu pobre irmão... – exclamou Joana, com as mãos postas, e inclinada quase em joelhos.

Neste em meio, soaram na porta redobrados golpes. Estremeceram todos.

José Maria foi à janela, e as duas senhoras seguiram-no.

¯ Está cá a senhora D. Ângela? – perguntou uma voz de mulher esbofada.

¯ É Vitorina... – disse a fidalga. – Estou, Vitorina, estou aqui... Que é?

¯ Ó minha senhora – disse a criada ansiadíssima. – Deram fé que vossa excelência fugiu. Sua tia levantou-se a chamar os criados. Não tardam aí... Olhe que a levam à força, e sua tia disse ao João Alho que se pilhasse às mãos o Sr. Francisco, o fizesse em postas.

Volte depressa, que, se eles cá chegam a vir, há desgraça de maior.

¯ Eu vou – disse atribulada Ângela – eu vou; que não vão eles fazer-lhes mal, meus amigos. Adeus, adeus, que não nos tornamos a ver... – E, abraçando Joana, balbuciou coberta de lágrimas: – Diga a seu irmão que lhe perdôo, que fez bem em fugir, senão talvez o matassem...

E desceu pressurosamente as escadas.

Logo que saíram à rua, ouviram a estropeada de criados, que eram muitos, acaudilhados pelo capelão, sujeito de má rês.

¯ Vamos por outro lado – disse Vitorina receando o encontro.

¯ Não – obstou Ângela. – Se eles me não encontram, são capazes de arrombar a porta desta pobre gente. Vamos direitas a eles. Se não queres vir comigo, vai por outra banda.

¯ Não, minha menina, hei de acompanhá-la, aconteça o que acontecer... – disse Vitorina.

A poucos passos encontraram a chusma. Ângela parou. O capelão aproximou-se a reconhecê-la, e disse severamente:

¯ Donde vem vossa excelência?

¯ Vou para casa – respondeu imperturbada a fidalga.

¯ Mas donde vem? – insistiu o padre.

¯ Que lhe importa?

¯ Importa, sim, senhora – replicou ele, apertando entre os dedos o marmeleiro argolado que vergava sob a pressão daquelas mãos ungidas de sacerdote de Jesus; e prosseguiu: – Eu queria ver a cara ao bandalho; queria mandar as orelhas dele de presente ao senhor general Simão de Noronha.

Ângela ladeou a turba, e, traspassada de súbito medo, seguiu caminho de casa. Os criados, imitando o padre, seguiram-na de perto.

Entrou a senhora pela porta principal. D. Beatriz, rodeada de criadas e vizinhas, estava na primeira sala. Ângela perdeu o ânimo, quando avistou do patim a multidão que estava dentro. Voltou-se então muito desalentada para Vitorina, e disse:

¯ Quem me dera morrer neste instante!...

O capelão adiantou-se, mandando recolher os criados. Passou avante de Ângela, e disse a D. Beatriz:

¯ A sobrinha de vossa excelência está ali. Que ordena?

¯ Abram-lhe uma porta de dentro; que não passe diante dos meus olhos, e que fique esta noite aqui por caridade. Começou como Maria d’Antas; provavelmente acabará como ela. Tal mãe, tal filha.

E, vociferando assim, sacudia umas calmandulas de azeviche que tinha penduradas no pulso.

A gente, que a rodeava, repetiu com tom de piedade:

¯ Tal mãe, tal filha!...

E Ângela escutara aquilo, amparando-se nos braços de Vitorina.

E esta mulher sentia-se transida de horror, porque só ela e Simão de Noronha sabiam que morrer havia sido o de D. Maria d’Antas. Ela tinha sido quem conduzira a Viana a criancinha de dois anos; e nunca o terrível segredo lhe fora arrancado pelas suspeitosas indagações de Ângela.

Recolhida ao seu quarto, a pávida menina rompeu em soluços abafados no seio da criada.

XIII

Desamparo

O Capelão obteve de galope as licenças necessárias para a clausura de Ângela.

D. Beatriz recusou ver a sobrinha, que lhe mandou pedir licença para despedir-se

Vitorina acompanhou-a.

Quando entraram no convento, já lá corria a notícia da fuga. Soror Cassilda de Noronha, irmã do general, estava prevenida por sua irmã. Recebeu glacialmente a sobrinha a quem aborrecia: era ódio reflexo de D. Maria d’Antas, causa indireta da sua forçada reclusão. Fora o caso que Simão de Noronha, resolvido a concubinar-se com a prima, removeu o estorvo da irmã, induzindo-a ou constrangendo-a a professar, já quando não podia consagrar ao divino

esposo a virgindade do coração. Sem impedimento da mortalha, Soror Cassilda desforrou-se, bem que não saísse da classe, e da sua ordem, honra lhe seja; que os seus amados tinham sido todos frades beneditinos. Sem embargo, o ódio inveterado a Maria d’Antas foi semente maldita, que bracejou árvore, onde as aves infernais fizeram ninho. Cumpria à desditosa filha da pecadora tragar-lhe os frutos.

Para dobro de desgraça, o general foi avisado da fuga. A resposta do selvagem foi simples: “Não tenho filha”. Queria dizer: essa mulher que se sustente com o seu trabalho, ou sustente-a a caridade pública.

E, portanto, Ângela não tinha mesada. Cassilda dizia às suas criadas: “Dêem-lhe alguma coisa, se quiserem”. E Vitorina, que tinha cordões e arrecadas, vendeu o seu oiro, alegrando-se de ver transformado no pão de sua ama.

Foi terminantemente proibido à porteira entregar carta à recolhida, sem prévio exame da abadessa; a mesma condição estipulada para carta ida do convento.

Três dias depois, José Maria, o merceeiro cujos haveres não chegavam a pagar o débito de um conto de réis a D. Beatriz, foi intimado para pagar ou nomear bens à penhora. Tinha a casa em que vivia, e os gêneros de sua loja a pagamento de prazo. Ofereceu a casa. Penhoraram-lha. Os credores confluíram. Fecharam-lhe a loja. E dez dias depois o coveiro fechou-lhe a sepultura. “Morro desonrado, e deixo-te a pedir e mais teu irmão” exclamou ele, desde que o ameaçou a congestão cerebral até que pendeu a cabeça aos braços da esposa, e expirou.

Chegou a notícia do sucesso triste ao mosteiro. D. Ângela verteu acerbas lágrimas, e tomou como sobrecarga de angústias e responsabilidade da morte do merceeiro, e a desgraça de viúva e do cunhado.

Francisco José da Costa recebeu a um tempo a notícia da fuga e reclusão de Ângela, a da penhora e falência, a da doença e provável morte do cunhado. Partiu para Viana. Quando chegou, Joana assistia de joelhos ao ato de sacramentar-se o marido. Francisco não ajoelhou. Naquele estacar imóvel diante do espetáculo lúgubre, havia o que quer que fosse pior que a condição do moribundo. Vê-lo era compreender as palavras plangentes dum escritor celebrado: “A vida morta ficou sepultada no corpo vivo”.

Fechada a sepultura de José Maria, a viúva ajoelhou à beira do leito do irmão.

¯ Não morras, que eu não tenho outro amparo! – lhe clamara ela.

¯ Qual amparo?! – murmurou ele.

¯ Trabalharemos, meu irmão! Vê que sou mulher, e não desespero! Vê que dores me traspassam, Francisco! E vivo, e vivo, meu querido irmão! Lembra-te da coragem da infeliz menina!... Não sejas tu o mais fraco de tantos desgraçados, já que...

¯ Já que foste a causa... – completou o moço a frase, e rompeu em choro desfeito.

Depois, sentou-se no leito, fincou os dedos recurvos na fronte, e disse:

¯ Pois sim: trabalharemos.

E, volvidos poucos dias, Joana e Francisco saíam para o Porto, com quanto dinheiro possuíam: o urgente para a alimentação de oito dias.

O estudante abandonou as aulas. Quem o sustentaria? Como congraçar o estudo com qualquer outro emprego? E qual emprego lhe daria pão, exauridos os cobres salvados dos últimos vestidos feitos por sua irmã?

Joana pediu trabalho a uma modista francesa. Exigiram-lhe fiança. Ela disse a chorar que não conhecia ninguém. Abonaram-na as lágrimas. Permitiu a modista que a desvalida levasse as fazendas para um sótão da Rua Escura, onde seu irmão tinha vivido como estudante de escassos recursos. Francisco vendeu todos os seus livros, depois que apartou de entre eles as Esperanças de Ângela. Comprou com o produto deles a catre de sua irmã, que dormia sobre tábuas. Dizia ela que para quem passava as noites trabalhando e chorando todo o leito era bom.

Os condiscípulos do acadêmico, sabedores do infortúnio do primeiranista, quotizaram-se para lhe acudir e salvar o ano: Francisco rejeitou a esmola sem orgulho, dizendo: “Quem não pode ser médico, seja operário de mais humilde condição”.

Um dia ofereceram-lhe o lugar de amanuense de tabelião. Aceitou muito agradecido. Escrevia à rasa, e ganhava trezentos réis diários. No sótão da Rua Escura, depois de dois meses de trabalho incessante, com intermitências de lágrimas, havia horas regulares de comer.

Eis aqui o poeta dos SONHOS, três meses depois que... sonhava

Que despertar aquele! Se não vale mais andar um homem sempre acordado, e a patinhar na lama deste planeta para não adormecer!...

Entretanto, Ângela de Noronha, ou d’Antas, como as tias a apelidavam para sacudirem de si o opróbrio de tal parenta, ainda lia os SONHOS do cismador do monte d’Agra e das ribas do mar. O manuscrito e cartas de Francisco andavam na caixa de Vitorina, valendo todavia menos às amarguras de Ângela do que o oiro da velha, o qual (digamo-lo com vênia da poesia, e da prosa apocalíptica) tornava muitíssimo mais prestimosa a caixa da generosa criada.

O recolhimento e conformidade da filha do general moveram à comiseração algumas religiosas, que se não pejaram de freqüentar a sua desornada cela, a ocultas de soror Cassilda. Se alguma freira, mais desprendida de

respeitos e preconceitos, se afoitava a argüir de cruel a inválida consoladora dos extintos frades, Cassilda respondia que não aceitava como sobrinha a mulher que seu irmão não considerava filha. Esta razão passava com foros de discreta e ajuizada.

Quem mais se compadecia de Ângela era uma criada da prelada. Assim que vagava às lides caseiras, ia com mostras de grande respeito à cela da fidalga, e ali se esquecia a contemplá-la, e a dizer coisas muito encarecidas, fascinada de sua beleza. Muitas vezes ofereceu as suas soldadas de trinta anos a Vitorina, às escondidas da senhora; mas a criada fazia milagres de economia com o produto dos seus enfeites, auxiliado com os bordados da ama.

Rita de Barrosas – que assim se chamava a criada da abadessa – contou muito secretamente a Vitorina que sua ama tinha apanhado uma carta muito grande, vinda do Porto para a fidalga; por sinal, ajuntava Rita, que a senhora abadessa, lendo-a a outras freiras, chorava com elas.

Com o bom propósito de não acerbar as dores de sua ama, Vitorina ocultou esta confidência. E, quando Ângela, brandamente, acusava o esquecimento de Francisco, a criada, conciliando a discrição com a consciência, dizia:

¯ Deus sabe o que ele padece! E vossa excelência sabe também que à sua mão, carta que ele escreva, nunca chegará.

¯ Mas nem Joana... aquela infeliz mulher...

¯ Deus sabe também se ela terá papel em que lhe escreva... Minha querida menina, tenha compaixão deles, que são mais infelizes do que vossa excelência. Disse-me a Rita de Barrosas que ouvira contar misérias da pobre gente lá pelo Porto. Olhe, minha senhora, se vossa excelência puder esquecer o Sr. Costa, ainda pode ser que volte às boas graças de sua família, e seu paizinho, à hora da morte, lhe perdoe, e a deixe herdeira dos bens livres, como todos diziam que deixava; mas, se eles souberem que vossa excelência ainda teima nestes praguejados amores, então não sei o que há de ser da minha infeliz menina.

¯ O que a divina Providência quiser. Eu não posso esquecer-me de Joana e de Francisco porque fui causa da desgraça deles. Se Deus me desse alguma coisa, e meu pai me deixasse pouco que fosse, eu daria tudo para os remediar. Isto já não é amor, Vitorina; é dever. Quem matou o José Maria foi a cruel vingança de minha tia. Fui eu que lhes não deixei gozar a santa felicidade de pobres.

XIV

Via dolorosa

Passaram dois anos, e somos chegados ao de 1840.

Alteração notável no viver de Francisco José da Costa não há nenhuma. É ainda amanuense de tabelião. Joana continua a trabalhar para as modistas; mas, cansada e doente, rende-lhe pouquíssimo o louvor.

O viver de Ângela é mais angustiado. Vitorina já vendeu tudo que valia dinheiro. A ama não tem que vender, porque sua tia Beatriz negou-lhe algumas jóias que o pai lhe havia dado, sem impedimento de terem sido de D. Maria d’Antas. Os escrúpulos de beata não iam ao extremo de repulsarem os braceletes e correntes da pecadora.

Vitorina já aceita as esmolas de Rita de Barrosas, e as liberalidade de outras senhoras que delicadamente favorecem a sobrinha de Cassilda de Noronha – freira opulenta, como depositária e herdeira in mente dum dom abade de beneditinos, rolado ao inferno por intermédio duma hidropisia.

Ângela ignorou algum tempo a sua deplorável dependência. Era, contudo, forçoso adivinhá-la, e inferi-la das tristezas da criada. Animou-se para entrar ao fundo da sua miséria, e soube que estava indigente.

Vencida pela desesperação, escreveu ao pai, invocando a memória de sua mãe. Péssimo expediente! Vitorina quis dissuadi-la da invocação; mas era-lhe doloroso, tendo de explicar a inconveniência, contar a uma filha a desastrada morte de Maria d’Antas. A carta foi; mas a resposta não veio.

Pensava Ângela sem sair do mosteiro e ir ajoelhar-se diante do pai. Constou o intento. A prelada, com boas palavras, lhe desfez o plano, dizendo-lhe que só poderia sair com ordem de sua tia ou do Sr. arcebispo de Braga.

¯ Mas minha tia ou o Sr. arcebispo não me deixarão morrer à necessidade? – perguntou Ângela debulhada em lágrimas.

A prelada, comovida, respondeu:

¯ A menina não há de morrer à necessidade. Por enquanto alguém e tem socorrido e continuará a socorrer. A misericórdia do Senhor é grande.

Neste tempo, aconteceu chegar ao convento a notícia de ter aparecido em Barrosas um brasileiro muito rico, procurando novas de uma irmã que deixara, quando, em criança, fora para a América. Ora a irmã do brasileiro era Rita de Barrosas, criada da abadessa. Grande alvoroço, e alegrias, e invejas no mosteiro!

Rita correu ao quarto de Ângela a mostrar a carta do vigário da sua freguesia, avisando-a de que o irmão iria brevemente buscá-la de liteira.

Dias depois, chegou a Viana Hermenegildo Fialho; e, dado aviso ao convento, foi procurar a irmã. Saíram a cumprimentá-lo as religiosas mais autorizadas, e folgaram de o ver comer pastéis ensopados em vinho do Porto com familiar lhaneza e proporções homéricas de estômago.

Ao outro dia, Rita saiu do mosteiro, depois de ter chorado abraçada em Ângela, única pessoa, dizia ela, de quem levava saudades, e de quem nunca se esqueceria.

Com este sucesso coincidiu a morte de D. Beatriz de Noronha. Contaram as criadas que o fantasma de José Maria, auxiliado por incômodos de bexiga, a matara, penetrando-a dum remorso dilacerante. E posto que a crítica e a medicina presumam que D. Beatriz haja sucumbido a uma cistite, ou qualquer outra moléstia mais ou menos grega, é certo que a velha, para lograr o espectro do merceeiro, deixou em testamento 960$000 réis para missas por sua alma de esmola de 240. Quatro mil missas! O diabo que se atreva a levar alma com tal recomendação, se é capaz!

Falecida Beatriz, solicitou Ângela novamente a sua saída. A prelada consultou Soror Cassilda, a qual respondeu que não tinha que ver com a saída, assim como não tivera com a entrada. Sempre discreta! Os frades desta senhora deviam ter sido sujeitos áticos bastantemente nos seus raciocínios. Esta madre era notável nas formas aforismáticas, e quase sempre rebatia as réplicas com argumento de dois bicos. Parece que, na convivência de varões doutos, a sutil religiosa medrava em espírito o que os mestres iam adelgaçando na parte que Xavier de Maistre denomina a outra.

Rita de Barrosas, escrevendo a D. Ângela, pedia-lhe que fosse estar com ela uma temporada à bela quinta que seu irmão acabava de comprar; e ajuntava que, sendo necessária licença, ela se encarregaria de a requerer e obter em Braga.

Ninguém impediu a saída da reclusa. As freiras cooperaram quase todas para que não se estorvasse à pobre senhora o intento de pedir perdão ao general.

Efetivamente, Ângela, apesar de desprezada do pai, insistia em tentar a reconciliação apresentando-se-lhe com as súplicas piedosas do costume. Se ela medisse o seu amor filial pelo que devia esperar de Simão de Noronha, poupar-se-ia a tentativas vãs. Em verdade, o desapego era recíproco. A ficção poderia espremer lágrimas dos olhos de Ângela aos pés do pai, que lhas desprezaria; se, todavia, ele pudesse sobreposse acariciá-la, os júbilos do perdão escassamente agitariam o coração da filha. Seriam, bem ensaiados, filha e pai de comédia, quando os artistas se compenetram dos seus papéis.

Um pensamento, nem esquisito, nem repreensível, avassalava o ânimo de Ângela: cogitava em ser rica para enriquecer Francisco da Costa e irmã. O amor já entrava quase esvaído neste cálculo. Figurava-se-lhe que tocaria o acume da fortuna se conseguisse pagar cem por um dos bens que perderam os dois irmãos, quebrado o esteio do lojista.

Ora, a riqueza donde lhe proviria a não ser do general, cuja abastança engrossara com a herança de D. Beatriz?

Rijo era, pois, o estímulo que a fazia transpor as balizas da dignidade. E longe de nós acoimar de aviltamento a humilhação da filha; se, no entanto, o sentir filial a não impulsa, e a cobiça, fingindo arrependimento, se deplora, o senhoril do ato é pouquíssimo exemplar. Tanto assim, que Ângela, despreocupada do desejo de enriquecer-se para remediar alheios infortúnios, certo se deixaria vencer da fome antes de ajoelhar a um homem distinto dos outros pelo nome insignificativo de pai.

Foi, pois, caminho de Ponte de Lima, apenas saiu do convento. Chegou de noite com Vitorina ao portão do palacete. Bateu, esperou largo tempo que lhe abrissem. Anunciou-se. Mandou-a entrar um antigo criado; conduziu-a a uma sala, com duas alcovas, dizendo-lhe:

¯ Vossa excelência tem ali uma cama naquela alcova, e a criada outra. Eu vou servir o chá.

¯ E meu pai não me consente que o veja hoje? – perguntou Ângela.

¯ Seu pai, minha senhora, foi para França há quinze dias consultar médicos, por que tem padecido muito nestes últimos meses. Eu já era criado em Gondar quando vossa excelência nasceu. A Sr.ª. Vitorina há de lembrar-se do João Pedro. Sou eu, é este velho que aqui está. Ora eu fiquei com o governo desta casa, que para isso fui chamado lá do Paço, e entendo que minha obrigação é receber a filha do meu amo, e dar parte para Paris que vossa excelência está aqui. Se o Sr. general reprovar o meu procedimento, e me despedir do seu serviço, já me não prega grande peça, que eu pouco hei de viver. Até já, minha senhora. Se a Sr.ª. Vitorina quisesse ajudar-me a preparar o chá, bom seria, para não haver grande demora; que eu despedi a cozinheira assim que o patrão saiu, e cá me arranjo e mais outro criado com duas brasas e um púcaro.

Era consolador o repousar e respirar que Ângela experimentava naquela atmosfera de riqueza. O seu quarto de dormir, quando, anos antes, visitava o pai, era aquele mesmo. Enquanto Vitorina moirejava alegremente na cozinha, a senhora pegou num castiçal e andou percorrendo a casa. Reconheceu a antecâmara de seu pai, entrou e sentou-se na cadeira de espaldar anteposta à banca de escrever. Era esta banca rodeada de escaninhos onde se recadavam cartas. Ângela reconheceu a letra da defunta Beatriz num sobrescrito de carta emaçada com outras. Leu a primeira, em que

sua tia relatava os pormenores da fuga, caluniando a sobrinha a ponto de referir que os seus criados a tinham arrancado dos braços do filho do sacristão. Que seria daquela alma, a não se guindar do purgatório alçapremada por quatro mil missas a 240 réis!

Leu a Segunda, em que D. Beatriz participava estar disposta a obrigar Ângela, pela necessidade, a vestir a touca de criada, para que todos soubessem que os parentes, se o eram, (sublinhava ela), a tinham abandonado como infame.

¯ É impossível que meu pai me receba... – disse entre si amargurada.

Ia retirar-se, quando reparou num cofre de prata que assentava sobre um bufete. Reconheceu-o, porque tinha sido de D. Beatriz. Abriu-o. estavam dentro as jóias que seu pai lhe tinha dado, e sobre elas um cartão com o nome impresso do general, e por baixo, escrito do pulso dele, o seguinte: Estas peças em número de dez pertencem a Ângela, filha de D. Maria d’Antas, já defunta. Se eu morrer em Paris, entreguem-lhas os meus testamenteiros. Procurem-na no mosteiro de S. Bento em Viana, ou onde ela parar. Não tem mais que herdar da casa onde viveu sua mãe.

Fechou Ângela o cofre e voltou profundamente descoroçoada à sala.

Entravam os dois criados com a bandeja do chá. A filha de Maria d’Antas tomou um chávena, e disse:

¯ Aceito a esmola, Sr. João Pedro. Dirá ao Sr. general que a filha de D. Maria d’Antas aceitou esta chávena de chá, e um leito onde passar uma noite.

¯ Uma noite! – volveu espantado o velho. – Vossa excelência está em sua casa, penso eu. E, se me não engana o coração, a fidalga não sairá mais da casa de seu pai.

¯ Amanhã.

¯ Amanhã! Pois vossa excelência ainda há pouco parecia resolvida a ficar esperando que o senhor general...

¯ É verdade; mas resolvi outro passo menos desonroso. Amanhã iremos para Barrosas, Vitorina. Aceitaremos o bem-fazer da mulher humilde. Ela foi pobre; será por isso mais compadecida.

¯ Estou às aranhas, minha senhora! – exclamou João Pedro. – Faça-me o favor de mudar de idéias, e queira desculpar o meu atrevimento. A senhora tenha prudência. Já que veio, fique; que seu pai, quer queira quer não, para fora de casa não a manda...

¯ Manda – afirmou Ângela com veemência. – Diga-me uma coisa, Sr. João: nunca ouviu falar de mim ao Sr. general?

¯ Nunca: eu não sei mentir.

¯ Quem supõe vossemecê que seja herdeiro do senhor general?

¯ Os irmãos da mulher com quem ele casou quando tinha dezasseis anos, uns homens de pé descalço, que nunca vieram a esta casa. Eu desconfio, minha senhora, que seu pai está doente da cabeça, há coisa de quatro anos. Os médicos não atinam com a cura por que lhe procuram a doença no peito, e ele tem-na nos miolos; salvo tal lugar. É por isso que eu desejava que ele visse aqui vossa excelência, porque, se a visse, parece-me que atremaria outra vez.

¯ E, se ele morresse em Paris, eu seria expulsa desta casa pelos homens de pé descalço, não é verdade? – perguntou Ângela.

¯ Seria o que fosse. Eu, e mais os criados todos, iríamos jurar que seu pai não regulava do juízo quando fez o testamento; e p’ra prova basta dizer que ele mandou trazer da capela do Paço de Gondar o esqueleto da tal Josefa Salgueira com quem foi casado, e tem-no debaixo da cama num caixão de pau de alcânfora. Que-lo mais doido ao pobrezinho do velho?

¯ Respeite-se a sua dor, embora seja um desatino – disse Ângela. – Então ele amou muito essa mulher?

¯ Lá isso muito. Ela morreu de aflição, quando o viu ferido em Amarante.

¯ Já sabia isso. Era uma sublime alma! Conheceu-a?

¯ Se conheci! Andava ela com o rebanho das ovelhas, quando eu era rapazola de quinze anos. Era muito linda, isso era!

¯ E de minha mãe, lembra-se?

¯ Da senhora D. Maria d’Antas?... pois não lembro! Isso foi ontem! Fui criado dela dez anos... como hei de eu não me lembrar?

¯ A Vitorina diz que era muito formosa...

¯ Era vossa excelência sem tirar nem pôr. Estou a vê-la. Só era um poucachinho mais alta e corada.

¯ Lembra-se se ela era muito minha amiga?

¯ Parece-me que sim...

¯ Por quê?

¯ Foi ela quem a criou: não quis ama, como todas as mães que tem de seu.

¯ Lembra-se da morte dela?

João Pedro respondeu tardamente e tartamudo:

¯ Não me recordo bem... Eu estava então na quinta de Santo Amaro... Lá é que me chegou a notícia de ter morrido a fidalga... E, quando voltei, o Sr. Simão de Noronha já estava fora de Portugal...

¯ Mas o Sr. general não mandou buscar os ossos de minha mãe? – perguntou Ângela, chorando no sorriso.

O velho não respondeu.

¯ Vamos deitar, Vitorina. Até amanhã, Sr. João Pedro.

¯ Muito bem passe a noite, fidalga.

Ao alvorejar da manhã, Ângela, que velara a noite ao pé do leito de Vitorina, foi sentar-se à banca de seu pai, e escreveu uma breve carta, que sobrescritou ao general Simão de Noronha, pedindo-lhe que perdoasse ao seu criado a caridade de a ter recebido, e lhe ter dado uma cama por uma noite, e lhe haver ainda esmolado dinheiro com que ela e sua criada pudessem chegar a outra porta caritativa. Em seguida, chamou João Pedro ao escritório de seu pai, abriu o cofre das jóias, leu-lhe a declaração do general, e ajuntou:

¯ É quase certo que, por morte do Sr. Simão de Noronha, me sejam entregues as jóias de minha mãe. Sobre este penhor, peço eu a vossemecê que me empreste uma moeda para eu poder ir daqui a uma terra chamada Barrosas. Não tenho outro penhor que lhe oferecer.

¯ Pois eu tenho mais que uma moeda para dar a vossa excelência. Tenho cinqüenta.

¯ Uma me basta.

¯ Torno a pedir-lhe que não vá, fidalga.

¯ Hei de ir forçosamente.

¯ Faça-se a sua vontade. Irei então alugar cavalgaduras; e entretanto Vitorina fará o almoço. ....

¯ Aqui tem esta carta: mande-a a meu pai – concluiu Ângela saindo com a face altiva e enxuta.

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