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Os Brilhantes do Brasileiro

Camilo Castelo Branco

XIX

Amor-próprio

Recebeu Joana a Segunda carta de seu irmão. A prosperidade afagava-o no Rio de Janeiro. Feliz numa operação de catarata, e louvado nos periódicos, fez soar o seu nome nas capitais das províncias, de onde concorriam os enfermos a consultá-lo. As remunerações eram liberalíssimas, por maneira que, segundo a parcimônia de sua ambição, poderia, dizia ele, retirar-se com sobejos recursos para viver em Portugal sem clínica. Não transparecia da carta cintila de contentamento, senão antes muitas e tristes saudades da irmã e do seu gabinete de meditação. O período último da carta rezava assim:

“Li há dias no Jornal do Comércio, que tinha chegado ao Rio o português Hermenegildo Fialho, que é ou era dono da barca em que vim. Nunca o tinha visto; mas entendi que devia procurá-lo, porque era dele o primeiro dinheiro que ganhei pela ciência, e o com que te estás sustentando. Tinha-se hospedado em casa do seu correspondente. Sem eu nada lhe perguntar, me disse que deixara Portugal para sempre, por causa de sérios desgostos que lhe dera a mulher. Ouvi-o em silêncio, e tive pena do homem, que me pareceu consternado, posto que nédio e pouco azado para mover à piedade. Mas a minha compaixão trocou-se em riso quando ontem o vi em Petrópolis com uma espadaúda mulher que denunciava pertencer à raça forte das nossas mulheres do Minho. Eu ia-me desviando dele, pensando que o embaraçava; mas ele mesmo me chamou para me oferecer de almoçar com tal instância que não pude safar-me. Não me atrevia a perguntar quem era a nossa comensal. Como leste o D. Quixote, imaginarás que eu, comparando os personagens do romance com os do almoço, me figurei que Sancho tinha roubado Maritornes ao cavaleiro da triste figura. Realmente, Hermenegildo, como Sancho, excedeu a imaginativa de Cervantes”.

“Em meio do almoço, o marido exilado da pátria e da esposa que o desonrou, me disse que aquela mulher era o seu aconchego, e a consolação das suas mágoas. Isto me fez um certo engulho, e fiquei depois a pensar na desmoralização daqueles cinqüenta anos. Talvez que a mulher cuide lá que o seu esposo anda por cá muito atormentado! Contei-te este caso por achar nele, não direi sal, mas podridão dos costumes contemporâneos, etc.”

leu Ângela a carta, interrompendo-se com impulsos de riso no derradeiro período.

¯ E se ele soubesse que eu era a esposa de Sancho!... – exclamou ela, casquinando uma argentina risada. – Que piedosas lágrimas não verteria o nosso Francisco, minha irmã! E, se não chorasse, pode ser que eu lhe fizesse também engulho!...

A despeito do riso, Ângela doera-se, e em secreto sentiu ímpetos de chorar. Não lhe pungia a ridícula libertinagem do marido. Que lhe fazia isso a ela? O nojo não tinha já onde coubesse. A mágoa era toda de amor-próprio; era prever que Francisco Costa, um dia, ao saber que tão grotesco homem era o marido da mulher única do seu amor, sentiria despintar-se-lhe da fantasia o colorido ideal com que a eterizava nos dois livros chamados Ângela.

E, como esta mágoa era de espécie ruim de revelar-se, a calá-la foi um penetrar-se, mais dos espinhos de sua perdoável vaidade, e entristecer-se a extremos de dar que sofrer à amiga e a Vitorina.

Perguntava ela uma vez a Joana:

¯ Seu irmão, quando soube que eu casara no Minho, como o soube?

¯ Porque um homem de Ponte lhe disse que a filha do Sr. general Noronha tinha casado muito rica, e o soubera do mordomo de seu pai...

¯ Eu vi aqui no livro dele, - interrompeu Ângela – uma alusão ao meu casamento. Diz ele assim... (E abriu o livro, onde tinha a lauda dobrada, e leu:) Que pena terás de ti própria, Ângela, quando não sentires o calor da tua alma nas formas tão belas, tão vestidas de celestial luz, conspurcadas no sevo da brutal cupidez do argentário!... Sabe, minha amiga, o sentido destas palavras?

¯ Sei, minha senhora. É porque o mordomo de seu pai tinha visto, não sei onde, seu marido, e dissera ao outro que nunca vira coisa mais feia.

¯ E seu irmão desprezou-me por isso?

¯ Leia vossa excelência a continuação do livro e verá que ele não a desprezou: amou-a sempre com a mesma elevação espiritual do tempo em que ele dizia, e eu mal o percebia: Como homem de alma adoro Ângela, ilumino-a à luz que radia das minhas crenças em Deus. Quantas vezes eu lhe dizia: - Por que não amas outra? – E ele respondia-me: “Não se aviltam certas almas quando mesmo queiram envilecer-se...”

¯ Isto está escrito – apontou Ângela, e continuou lendo: Entre ti e Deus poderá existir outro elo, minha querida amiga; mas eu não o conheço. Se um dia o conhecer, então esquecer-te-ei. O homem, que te chama sua, é apenas a lama que se apegou ao brilhante caído no tremendal. Eu serei sempre, na tua memória, o aro de ferro onde realçaria o teu brilho. A sociedade enxovalhou-te, impeliu-te, a golpes da miséria, à degradação dos corpos escravos do ouro; mas eu sei que a tua alma se vai alçando mais para a sua origem purificada por agonias superiores às minhas. A mim resta-me a independência para chorar; e tu não tens sequer esse desafogo, minha pobre Ângela! Eu sou mais feliz, e não queria sê-lo...

Estas leituras e os comentos de Joana despontaram as puas do amor-próprio. A satisfação renasceu.

Neste tempo, noticiaram as gazetas portuenses que o general Noronha voltara de novo a Paris, e recolhera a Portugal sem esperanças de cura, sendo um dos seus flageladores padecimentos uma quase cegueira, que lhe tornava horrorosa a existência no seu solitário palacete de Ponte.

Ângela sentiu-se transida de compaixão de seu pai, que ela tinha conhecido onze anos antes ainda vigoroso, posto que encanecido. Escreveu-lhe. De sua vida nada lhe contava. Oferecia-lhe o seu braço para amparo, os seus olhos para ver por eles, o seu coração de filha para urna das lágrimas espremidas pela saudade e memórias dos seus afetos de moço feliz, com todas as alegrias do mundo a cortejá-lo

O general ouviu ler a carta ao seu mordomo, e disse:

¯ Cuidei que era morta... Morta está decerto...

E não respondeu.

Aquela carta redobrou-lhe o tormento da memória ao ancião. Maria d’Antas relampagueava-lhe amiúde diante dos olhos de alma; e ele circunvagava os do rosto para afastar a imagem formidável com a diversão de outras; mas... não via! Apenas tinha olhos para chorar.

¯ Por que não chama vossa excelência para si sua filha? – dizia-lhe um dia o mordomo, com a liberdade de quarenta anos de servo.

¯ E quem te disse que ela é minha filha?

O mordomo calava-se

¯ Quem te disse que ela era minha filha? – insistia o general esbugalhando os olhos cinzentos e nublosos.

¯ Pensei, senhor...

¯ Parece-se comigo?

¯ Não, senhor, é o rosto de sua mãe.

¯ Muito parecido? Já me não recordo de Ângela...

¯ Tal qual. Quando aqui esteve, há sete anos, era como a fidalga d’Antas quando... morreu.

¯ Vai-te... deixa-me... – rugiu o cego, gesticulando vertiginosamente.

XX

O Doente e o doutor

Em fins de 1848 perfazia dois anos e meio que Francisco José da Costa demorava no Rio, gozando os proventos de seus muitos trabalhos e créditos. As remessas de dinheiro feitas à irmã denunciavam o propósito de voltar proximamente à pátria. Uma instante recomendação fazia ele: era a compra da casinha de Viana, que Francisco ainda via luzente e doirada das ilusões de sua mocidade. Talvez que ali vá acabar os meus dias – escrevia ele. – Tenho posses para mais; no entanto, as minhas esperanças não vão mais longe; e as tuas, pobre Joana, são ver-me resignado na tristeza.

Era, pois, em novembro de 1848.

O doutor Costa, como no Rio o honorificavam, foi chamado para visitar um enfermo já seu conhecido e de muita consideração.

Era Hermenegildo Fialho de Barrosas – o roliço devasso que ele não tornara a ver desde o almoço de Petrópolis.

Encontrou-o doente do fígado: desconfiou da enfermidade naquele clima, e no afogo do verão.

O acerto do tratamento desfez os mais graves sintomas: receava, não obstante, o facultativo que o doente recaísse por demasias de gulodice em que a enfermeira se mostrava complacente amiga, e lambaz quinheira.

Hermenegildo não dispensava duas visita diárias, pagando-as com generosidade, porque, dizia ele:

¯ Sou muito rico, conto mais de duzentos contos, não tenho herdeiros. Tinha uma irmã, que já morreu há três meses, com paixão de me ver sair de Portugal para nunca mais. Não poupe o meu dinheiro, Sr. Costa; e de cada vez que vier conte com uma nota de cem mil réis. O que eu quero é saúde para gastar o que tenho; que já não sou capaz disso.

¯ Então vossa senhoria não teve filhos de sua senhora? – perguntou o doutor.

¯ Nada, não tive, nem tenho de ninguém. Não sou de casta.

¯ Mas sua senhora, se não houve divórcio nem escritura especial, deve partilhar da sua herança, penso eu.

¯ Isso é cá uma história que eu contarei ao meu amigo doutor Costa. Minha mulher... minha ou lá do diabo de quem é, não há de receber uma pataca, se eu for adiante dela. Quando me apartei, desfiz-me de tudo; isto é, dispus a minha fortuna de jeito e com tais artes que ela não acha coisa a que deite as unhas.

¯ E tem ela recursos de que viva, depois que vossa senhoria a deixou?

¯ Não sei, nem quero saber. Dizem que o pai é rico; mas ele faz tanto caso dela como eu.

¯ Desculpe-me fazer-lhe uma pergunta...

¯ Pergunte o que quiser; que eu já não me importa falar nisto. Deitei o coração ao largo, e, como o outro que diz, leve o diabo paixões e mais quem com elas medra. Gosto do cavaco. Que queria o Sr. doutor saber?

¯ Se teve razões para privar inteiramente de recursos sua senhora. Às vezes acontece um homem, na sua posição de atraiçoado pela esposa, cavar mais fundos abismos à sua honra, atirando a culpada ao meio da sociedade, como que diz: “Aí vai uma mulher que eu podia salvar da extrema miséria... Levem-na à última paragem do vício!”

¯ Não que eu quis salvá-la – acudiu o doente – mas ela não quis. Dava-lhe que comer num convento, e a doida saiu pela porta fora, descompondo os meus amigos.

¯ E foi viver com o amante, ou esse mesmo a abandonou?

¯ Isso não sei. Eu o amante não lho conheci, nem sei quem fosse.

¯ Não sabe?! Então com que provas se julgou traído?... Desculpe...

¯ As provas foi ela gastar dinheiro grosso sem dizer no quê: disse que o dera, e acabou-se. Pois a quem dava ela o dinheiro?

¯ Era velha sua mulher?

¯ Nada: era uma rapariga bonita, bonita duma vez. Não tinha de seu; apaixonei-me pelo palmo da cara, e casei. Vossa senhoria, que é do Porto, nunca ouviu nomear um general chamado Noronha?

¯ Noronha?! – exclamou Francisco José da Costa, cravando os olhos pávidos no brasileiro.

¯ Sim, um general Noronha, que vivia em Ponte do Lima... Minha mulher era filha dele...

¯ Como se chama essa senhora? – interrompeu o facultativo respirando dificilmente.

¯ Ângela.

Francisco Costa, espaço de três minutos, ficou num espasmo e torpor de pensamento e ação. Aos olhos do brasileiro aquele ar espantado significava estar o doutor recordando-se de ter conhecido o general ou a filha.

¯ Talvez que o Sr. doutor visse alguma vez minha mulher no Porto... – prosseguiu Hermenegildo. – Eu morava na Rua do Bispo, numa casa de azulejo de quatro andares... Vossa senhoria está incomodado? – disse o doente, notando extraordinária mudança no rosto do médico. – Parece que está a enfiar!...

¯ Não, senhor. Estou bom... estava a ouvi-lo, e a lembrar-me... que não me é estranho o nome do general e da filha... Donde era sua senhora?

¯ De Viana, cuido eu.

¯ Mas eu tinha ouvido contar que uma filha do general Noronha casara na província do Minho...

¯ Foi comigo; eu estava então na minha quinta dos Choupos. Lá é que foi dar a tal senhora porque era amiga de minha irmã, que tinha estado no mesmo convento com ela, e eu fiz a grande burricada de casar, sem pedir informações a ninguém.

¯ E depois mudaram para o Porto? Em que ano?

¯ Em 1840.

¯ E foi no Porto que o Sr. Fialho teve razões para suspeitar da lealdade de sua senhora?

¯ Sim, senhor.

¯ Mas já me disse que não conhecia o amante, nem tinha a certeza de que ela o tivesse...

¯ Lá conhecê-lo, não conheci; mas a quem dava ela o dinheiro? A minha casa não ia homem de suspeita. Ela não se visitava com fôlego vivo. Mulheres destas de mexericos não me punham lá o pé das escadas acima, a não ser a costureira, de longe a longe. Não sei; o que sei é que descobri que ela vendia os brilhantes duma pulseira que lhe dei, e distribuía o dinheiro.

¯ Quantia grande?

¯ Que eu saiba 1.650$000 réis. Não era pelo dinheiro, que isto cá a mim não me fazia mossa; a minha questão era saber a quem deu ela este capital. Isso é que nem Deus nem o diabo foram capazes de lhe tirar do bucho.

Deteve-se Francisco a pensar naquela quantia de dinheiro, confrontando-a com outra que recebera durante o tempo da sua formatura. O homem tinha momentos de cuidar-se alucinado ou adormecido. Às vezes, a ânsia com que perguntava e o alvoroço com que ouvia as respostas, inclinavam-no sobre a cara do enfermo, que tinha razão de se espantar da torva inquietação do doutor.

¯ Queira dizer-me... – voltou Francisco, e susteve-se embaraçado com a torrente de perguntas que lhe soçobravam o espírito.

¯ O quê? – perguntou Hermenegildo, que parecia folgar nestas confidências com o seu médico.

¯ Já me disse que a sua casa ia apenas uma costureira...

¯ É verdade...

¯ E essa costureira...

Susteve-se outra vez o interrogador, receando demasiar-se em averiguações que deviam parecer desnecessárias ao marido de Ângela.

¯ Da costureira não desconfiava eu, nem me importava que ela lá fosse; mas olhe que não deixei de indagar da vida dela.

¯ E soube alguma coisa?

¯ Soube que era uma viúva honrada e que vivia com um irmão. Chamava-se ela Joana, e por sinal que não era má fatia! – acrescentou ele, piscando o olho direito e trejeitando um careta de sibarita.

O facultativo calava-se a intervalos grandes. Dir-se-ia que o nojo crescendo, subindo e empolando-se do peito acima, lhe impedia a fala.

De súbito, perguntou com a fronte avincada.

¯ E para onde foi a Sr.ª D. Ângela?

¯ Não sei: os meus amigos ainda a viram sair com a criada pela rua acima, tomar para o largo do Laranjal, e não souberam mais nada. Eu, passadas duas semanas, fiz-me de vela para aqui.

¯ Mas não pode o Sr. Fialho conjecturar onde ela iria ter?

¯ Quem sabe lá?!

¯ Ela saiu sem dinheiro?

¯ Acho que sim. não me faltou nada de casa. Tinha lá umas jóias, que eram da mãe, e deixou-as.

¯ Então saiu em circunstâncias de pedir esmola?

¯ Esmola?... Acho que não...

¯ Por que acha que não?... Uma senhora pobre, educada como fidalga, não exercitada em qualquer trabalho, de repente privada de meios, e indigente, que faria?

¯ Não sei... lá se avenha...

¯ Suponha o Sr. Fialho que D. Ângela de Noronha, em vez de trabalhar, porque não sabia, e em vez de mendigar, porque não podia, começou a vender-se porque era bonita!... Se assim acontecesse...

Demorou-se, instantes, sufocado Francisco, e repetiu:

¯ Se assim acontecesse...

¯ O senhor parece que está a lagrimejar?!

¯ Estou, não há dúvida... porque me compadeço dessa pobre senhora...

¯ Compadece?... Então acha que é bonito uma mulher desonrar um homem de bem?

¯ Quem é o homem de bem?

¯ Sou eu...

¯ O Sr. Fialho?!

¯ Então vossa senhoria duvida?!

¯ Não duvido. Tenho a certeza de que o senhor é...

A cadeira de Francisco Costa tremia em vibrações. Ao brasileiro aumentou-se-lhe o espanto, quando viu o doutor erguer-se de salto e lançar mão do chapéu.

¯ Vai-se embora doutor?!... O senhor não vai bom!... Que é lá isso? Venha cá!

¯ Lembrei-me que tenho doentes, e a hora de os visitar já passou, mas volto logo – respondeu o médico, examinando o relógio, sem ver a hora.

¯ Nada... vossa senhoria sabe alguma coisa de minha mulher... Aqui há história...

¯ Sei!... – disse Francisco Costa, encarando-o de lado quando se retirava. – Sei que D. Ângela, até ao momento em que o senhor a expulsou de casa, foi pura e honrada esposa.

¯ Venha cá! Como sabe isso? – bradou Fialho sentando-se no leito.

O médico tinha saído.

¯ Aqui há mandinga, por mais que me digam! – monologava o brasileiro, apalpando ao mesmo tempo o fígado congestionado. – Quem diabo disse a este sujeito que a minha mulher estava honrada? É o primeiro homem que me diz isto!... Quero saber este negócio como é! À tarde vou mandá-lo chamar. Se ele puder provar que Ângela estava inocente, mando-a procurar, e dou-lhe uma boa mesada, e a quinta dos Choupos. Mas onde estará ela a esta hora!...

Meditou uma curta pausa e acrescentou:

¯ Ora bolas! Qual pura nem qual cabaça!... Se ela estivesse inocente, ia pela porta fora?!...

Hermenegildo sentia-se bem disposto para jantar; mas a galinha enjoava-o já. Pediu à Rosa Catraia que lhe levasse do seu jantar. Comeu uma farta gamelada de carne seca com feijão preto, bebeu à proporção vinho de Bordéus, adoçou os bócios com uma tigela de maracujá, e estendeu-se no flácido colchão para sestear.

Pouco depois rugia, apanhando os refegos do estômago que latejava, e contorcendo-se sobre o fígado. Era uma cólica.

Saíram os criados a procurar o doutor Costa. Encontraram-no, caminho já da casa de Hermenegildo Fialho.

¯ Estou a morrer, se me não acode! – exclamou o doente escabujando nos braços de Rosa Catraia.

O doutor receitou, ouvida a exposição da enfermeira. Um vomitório enérgico arrancou das cavernas daquela sentina a morte envolta em ondas de feijão preto.

Estava desafrontado, mas ardentemente febril.

O doutor examinou atento se as faculdades intelectivas do doente estavam de leve alteradas pelo acesso febril. Aprazivelmente reconheceu a sanidade do espírito do homem, que lhe dizia com voz roufenha:

¯ Sempre vossa senhoria é um grande cirurgião! Palavra de honra, que eu estava a espichar desta!

Francisco Costa disse à concubina que saísse do quarto, e sentou-se à cabeceira do doente.

¯ Parece-lhe que estou pior, doutor? – disse assustado o brasileiro, traduzindo funestamente o aspecto severo e pensativo de Francisco.

¯ Não senhor. Está melhor. Poderá o Sr. Hermenegildo ler um papel que eu aqui tenho?

¯ Ler um papel?! Que papel é esse? Posso ler perfeitamente.

¯ Leia.

Fialho recebeu uma meia folha de papel selado, que continha o seguinte:

Declaro eu abaixo assinado Hermenegildo Fialho Barrosas, negociante que fui no Porto, e atualmente morador no Rio de Janeiro, que recebi do cirurgião Francisco José da Costa, residente na mesma cidade, a quantia de um conto, seiscentos e cinqüenta mil réis, fortes, que minha mulher D. Ângela de Noronha tinha emprestado a Joana Costa, irmã do dito cirurgião, e costureira residente no Porto, a fim de com esta quantia, recebida em diversas parcelas, o referido cirurgião poder continuar a completar a sua habilitação para curar. E, como isto é verdade, pedi ao dito Francisco José da Costa que este fizesse para eu assinar a presença de três testemunhas que são...

Aqui terminava a leitura.

Hermenegildo sentara-se espantado no leito, ao passo que Francisco tirava duma carteira um maço de notas, e lhe dizia serenamente:

¯ Torne a ler, se quiser, Sr. Fialho; mas não me faça perguntas; porque tudo que tenho a responder-lhe está aí. Eu sou o irmão da viúva honrada que ia a sua casa. Fui um moço pobre que a Sr.ª D. Ângela conheceu bom e digno de ser estimado na mocidade de ambos. Recebi dessa virtuosa senhora a esmola da minha formatura, ignorando a quem a devia. Agora posso pagá-la; e a vossa senhoria, que diz ter sido roubado por sua esposa, é a quem de direito

me cumpre pagar. Falta a indicação das testemunhas. Permita-me que eu chame três dos seus vizinhos, aos quais o Sr. Fialho lerá esta quitação, e perante os quais me fará a mercê de assinar, contada a quantia que deixo para ser examinada.

¯ Mas explique-me isto! – bradava o enfermo.

¯ Está explicado, senhor!

¯ Então minha mulher estava inocente? Porque o não disse ela? Porque não contou ela a história que o doutor me contou agora?

¯ Não sei. Confiaria pouco na sua generosidade, senhor. Seria surpreendida de modo que não pudesse justificar-se. Enfim, não sei, nem posso demorar-me. Vou chamar as testemunhas.

¯ Mas eu não quero este dinheiro! – clamou Hermenegildo.

¯ Rasgue as notas depois de ter assinado o recibo.

E desceu precipitadamente as escadas, subindo-as logo com as três testemunhas.

Fialho não pode ler a quitação, de inquieta e aflita que se lhe espojava a alma, como enojada do corpo. Costa pediu a uma das testemunhas que lesse e a outra que contasse as notas. Depois, chegou a pena ao doente, que assinou com a mão convulsa.

As testemunhas saíram.

¯ Se vê que eu morro – tartamudeou Hermenegildo – diga-mo, que quero fazer testamento, e deixar alguma coisa a minha mulher, se ela ainda for viva.

¯ Não sei se morre, Sr. Fialho. Ângela de Noronha, se vive, não aceitará a sua herança...

¯ Por quê? Então não há de aceitar?

¯ Ângela de Noronha, se viver, terá metade do meu pão. O que D. Ângela aceitaria de seu marido está aqui... É este papel que a salvará da infâmia que o senhor lhe associou à pobreza, para que o mundo nem misericórdia houvesse dela. Se a infeliz tiver caído à última desonra, Sr. Fialho, em tal caso eu irei ainda procurá-la de abismo em abismo, e dizer-lhe que fiz o que pude em desafronta do seu nome. Adeus.

Francisco Costa saiu enxugando as lágrimas.

A cara de Hermenegildo apenas ressumava o suor mal enxuto das agonias da cólica, sobre o amarelidão nauseabunda da icterícia.

XXI

Morre Hermenegildo

Esta é de cabo de esquadra! – dizia ele, horas depois, aos amigos que o confortavam. – E quem deu direito a minha mulher de emprestar sem minha ordem 1.650$000 réis ao irmão da costureira? Que me importa a mim que ele fosse boa pessoa ou que fosse um pandilha sem beira nem leira?

¯ Você tem razão – dizia-lhe um primo carnal de Atanásio. – Lá pr’ó caso de sua mulher andar mal, andou; e, se era honrada, não o parecia. Por exemplo: eu vou em casa da mulher dum sujeito, e peço-lhe dinheiro. Ela mo empresta, e se esconde do marido; que hei de dizer eu? Sim, tem razão você de não dar a orelha, Sr. Fialho.

Estas cláusulas pareceram irrespondíveis ao doente. E, de feito, a natureza tinha esclarecido esta família dos Atanásios com grandes lumes de razão natural.

Por feição que Hermenegildo ratificou não só os seus anteriores juízos sobre os irregulares costumes de Ângela, mas também entrou-se da desconfiança de ter apanhado, quando menos o esperava, o amante dela. Quer-nos parecer que aquela perversíssima alma raciocinasse atuada por influências de fígado e outras entranhas que principiavam a engurgitar-se.

O restante do dia passou-o pouco febril, e por isso mesmo com certa energia de espírito que destampava em esfuziadas de protérvias contra a esposa, sem ressalvar a probidade do cirurgião.

De noite exasperaram-se-lhe as dores hepáticas, as aflições do estômago, a dispnéia, e o queimar de febre. Ao romper do dia, pediu a brados que lhe chamassem o doutor Costa.

Informou-se Francisco com o portador sobre o estado do doente, e despediu-o.

Daí a pouco, outro notável médico enviado por Francisco Costa, desculpando o colega, oferecia os seus serviços.

A doença progrediu sem intermitências de repouso nos cinco dias seguintes.

Hermenegildo pegou a dar gritos que o doutor o mandara envenenar na tisana da quina. Os médicos, chamados um de pós outro, iam cedendo o passo ao último, indignados da aleivosia com que o estúpido enfermo caluniava o ilustre caráter de Francisco Costa e o do seu substituto.

A doença entrou no décimo quarto dia, com mortais sintomas. Aquela massa reagia com frenesi ao esfacelar da morte. O gemer dum doente vulgar era em Hermenegildo um rugir ferocíssimo. Rosa Catraia ganhou-lhe medo, e fugia da beira do leito receosa de que o legado do moribundo fosse algum daqueles murros que fendiam o espaldar do leito. Recolhida em sua dor, a choruda alvéola da ribeiras de Barrosas começou a cobrir com as asas os brilhantes e notas que se lhe depararam na sua irrequieta angústia. Nestes transes foi-lhe grande auxiliar um criado da casa, parente em quarto grau do patrão, rapazola de espáduas anchas, que prometia reabilitar os créditos de Rosa por meio dum decente matrimônio, logo que seu patrão e primo “desse a casca”, frase lírica e pitoresca da Catraia.

Assim, pois, que o último assistente declarou perdidas as esperanças de cura, o primo de Atanásio começou de arrebanhar os livros e papéis do moribundo – cuidado que lhe tinha sido sobremodo recomendado do Porto, logo que Hermenegildo adoecesse gravemente. Notou o arrecadador dos livros comerciais que os haveres do moribundo, superiores a duas centenas de contos, estavam em poder de Pantaleão, de Joaquim Antônio, e de seu primo Atanásio José, repartidos em avultadas somas, das quais Fialho tinha cobrado as declarações encontradas, e lavradas com suficientes solenidades legais. Este quarto ladrão que descobria os três do Porto considerou-se o melhor colherdeiro da herança, porque desde logo computou a percentagem a auferir.

Um conhecido do agonizante levado de escrúpulos, entrou-lhe ao quarto com o prior da freguesia, homem de respeitáveis cãs, e, na serenidade límpida do rosto, um como mensageiro e núncio da misericórdia divina.

Hermenegildo encarou nele com assombro, e regougou a trancos de voz cavernosa:

¯ Vá-se embora, que eu não morro desta vez.

¯ Assim o permitirá Deus – respondeu o sacerdote com grave compostura – mas os benefícios dos sacramentos não utilizam somente aos que vão à presença do Senhor.

¯ Não me conte histórias – tartamudeou o brasileiro, rolando-se de modo que lhe virou as costas.

¯ Meu irmão – tornou o sacerdote de Jesus – veja se tem na sua alma ofensas a perdoar, ou ódios de que peça perdão. Quando Deus for servido chamá-lo a contas, a sua alma não poderá voltar as costas à face do supremo juiz.

¯ Não me matem! – rugiu Hermenegildo, barafustando.

O padre quedou-se a contemplar de braços cruzados e o coração em Deus aquele espetáculo, suplicando graça para rebeldia tão estranha na suprema hora.

A graça divina esquivou-se. Contra a benigna teologia de boníssimos casuístas, vivo persuadido que Lúcifer estimaria que certas almas, à última hora, limpas pela contrição, se guindassem à glória, a fim de lhe não sujarem o inferno.

O sacerdote retirou-se, quando viu que a sua presença sobreafligia o doente.

Era meia-noite.

Desta hora até às cinco da manhã Hermenegildo pediu água já nos demorados paroxismos, e ninguém se abeirou do seu leito.

Cinco horas vasquejou sozinho, e, aos primeiros assomos do dia, rendeu... a alma.

Rosa, acordada pelo futuro marido, perguntou se o patrão tinha acabado.

¯ Acho que sim, que já não ouço nada – disse o criado, e foi chamar o primo de Atanásio para tomar conta de algumas arrobas de carne em putrefação, onde estivera uma alma “criada à imagem e semelhança de Deus”.

A tolerância divina permite semelhantes blasfêmias.

XXII

Felicidade suprema

Em abril de 1850, Ângela e Joana, sentadas no quintalinho de sua casa, debaixo duma amendoeira florida, ao entardecer, descansavam do trabalho do bastidor de que tiravam bons lucros em bordados de ouro.

Joana, embelezada na formosura de sua amiga, dizia-lhe:

¯ Como vossa excelência, nesta pobreza, ganhou o que tinha perdido na opulência da sua casa! É bem certo que a felicidade está em mui pouco! Eu a temer que a Sr.ª D. Ângela envelhecesse nestas estreitezas da nossa casa, e não se habituasse a isto; e quis Deus que, em dez meses, eu a não visse triste senão quando veio a primeira carta do meu Francisco...

¯ Pois olhe, minha amiga, eu estava agora triste...

¯ Por quê?! Vi-a calada; mas cuidei que não era tristeza...

¯ Era...

¯ E é segredo?

¯ Não, minha amiga... Segredos quando eu não posso distinguir as nossas almas uma da outra... Eu lhe conto... Estava a dizer comigo: o meu futuro qual será? Tenho vinte e nove anos. Se me recordo do que passei, imagino que a vida já é longa e deveria estar por pouco; mas, diante de mim, vejo os anos demorados daqui até à velhice, até aos sessenta anos da nossa Vitorina, que espera ainda viver até os oitenta. Muito se vive quando se sofre!... E o que mais espanta é que nem a desesperação infunda um sincero desejo de morrer... Aqui estou eu a lastimar-me, a perguntar o que há de ser de mim, a ver a precisão de se acabar esta sossegada vida que tenho; e, apesar do escuro das minhas nenhumas esperanças, desejo viver... para quê?

¯ Deus lho irá dizendo, minha senhora. Se eu dissesse à minha amiga que esperasse resignada, seria uma indiscreta conselheira. Quem pode dar lições mais sublimes de paciência que a Sr.ª D. Ângela?

¯ Paciência, sim; não me há de abandonar esta providência dos infelizes... – disse Ângela, concentrando-se outra vez com desacostumada melancolia.

¯ Então que é isso? – disse meigamente Joana, tocando-lhe nas mãos que ela enclavinhara amparando a fronte.

¯ E seu irmão? – disse Ângela, como se a pergunta saísse de um diálogo mental.

¯ Meu irmão? O quê, minha amiga?

¯ Não o hei de ver mais?

¯ Por que não, Sr.ª D. Ângela? Pois que razão há para que o não veja?

¯ Quando a felicidade do coração se tornou impossível...

¯ Impossível, não. Vossa excelência quis ser noutro tempo esposa de meu irmão. Quem sabe se um dia poderá mais livremente dispor da sua vontade!... Seu marido tem bastante idade...

¯ Eu era nesse tempo a mulher com o prestígio que se desfez... Esse homem, que me prendeu ao remorso e vergonha de me deixar vencer da compaixão e dos baixos pensamentos de ser rica, igualou-me a qualquer mulher vulgar... Se eu desmereci aos meus próprios olhos, autorizei todo o mundo a considerar-me aviltada...

¯ Não diga isso, minha senhora... – atalhou Joana, tomando-lhe as mãos cariciosamente. – Pois não vê nessas sinceras confissões de meu irmão como ele a amava?...

¯ Amava a saudade; não era a mulher; amava o passado e que lá se perdeu. À luz que então me via não poderá ver-me jamais. Eu hei de ser sempre a esposa ou a viúva dum homem que me lançou de si com desprezo... E, depois, a gratidão das almas nobres, como a de Francisco, pode levá-lo a dobrar-me o joelho com admiração: mas, com amor, nunca. Eu sei isto, adivinho isto. Se eu vendesse a casinha única onde me abrigasse para lhe melhorar a sorte dele, essa dedicação sublime duplicaria o meu direito a ser amada; mas eu, quando bem penso no que fiz, duvido que me louvem os estranhos, e sinto esfriar a veemência de gratidão naquele mesmo por amor de quem me pareceu louvável o ato que pratiquei. Mas eu não queria que me agradecesse; queria até que ele ignorasse sempre, para eu não ficar desdourada. Vê por que tantas vezes lhe tenho pedido que não me descubra? E a minha amiga sempre a querer, sempre a instar que eu a deixe contar-lhe tudo. Oh! Não o faça, por piedade lhe peço que não lho diga! Se ele vier um dia a Portugal, basta que lhe faça saber que eu não fui má esposa... que fui caluniada; mas que não há no mundo quem possa provar que eu meditei um instante em justificar um crime com os exemplos de meu marido. Assim posso ser amada... e eu queria sê-lo, queria, minha amiga, porque dos dezasseis aos vinte e nove anos, vão milhares de dias e noites em que nunca esqueci seu irmão. Houve um tempo em que julguei mal, porque Deus lhe dera a virtude que esmaga o coração, porque o meu desatino queria ser excedido pela paixão do homem que me obrigava à voluntária pobreza, às injúrias de meus parentes, ao perdimento de um grande patrimônio e da herança de um nome nobre. Que me importava isso? Mas seu irmão, minha amiga, tinha riquezas superiores: a santificação da virtude, uma coisa que se adora de joelhos depois que se tem sido desgraçada, e se lidou seis anos com um homem de condição vil.

Nesse momento, Vitorina assomou numa janela, dizendo que estava um homem perguntando pela dona da casa.

¯ Será carta do Brasil? – perguntou Joana.

¯ Não é, - disse baixinho Vitorina – é uma pessoa asseada com barbas grandes. – E, voltando-se subitamente, soltou um grito, e disse para dentro:

¯ O senhor entra pela casa assim, sem esperar resposta?

O sujeito sorriu-se à indignação da velha, que não reconheceu, acercou-se da janela, debruçou-se para o quintal, e cravou espantados olhos nas duas senhoras!

¯ É ele! É meu irmão! – exclamou Joana.

¯ Oh, minha querida senhora, é ele!...

E correu para casa; mas Ângela ficara imóvel a olhar para Francisco, e ele imóvel apoiado no peitoril da janela, com os olhos fixos em Ângela.

A irmã abraçava-o, e ele, beijando-a na fronte, murmurou:

¯ Aquela é Ângela, não é?!

¯ Sim, meu filho, pois não é ela o mesmo anjo?! Vamos buscá-la, depressa, que está sem côr...

E desceram rapidamente, e chegaram já quando a esmaecida senhora caminhava a tardos passos para casa.

Costa ofereceu-lhe a mão convulsa. Ângela encarou-o muito amorável, apertou-lhe a mão, e disse com voz magoada:

¯ É a primeira vez...

E carregaram-se-lhe de lágrimas os olhos.

Depois, abraçou-se em Joana, apoiando-lhe a face no ombro.

Francisco permaneceu silencioso, abafado, num modo de existir, que seria o prelúdio da demência, se durasse muito, ou a congestão se não desafogasse no pranto involuntário.

¯ Dá-lhe o braço, Francisco... – disse Joana. – Ele parece que não acredita vê-la aqui, minha filha – continuou ela, sorrindo.

¯ E desde quando? – perguntou ele, tomando o braço de Ângela.

¯ Desde quando está aqui? – verificou a irmã, não percebendo bem a pergunta.

¯ Desde que não tenho casa – respondeu a hóspeda, sorrindo. – Desde que precisei da caridade da minha amiga de infância, e da sua beneficência, Sr. Costa.

Ocorreu Vitorina a dar uns tons de festa à chegada de Francisco, pasmando-se nele, nas grandes barbas, e na espantosa mudança que fizera, e no medo que ela tivera de que fosse um salteador, quando o viu romper por ali dentro.

Entraram para a saleta do trabalho, onde estavam armados dois bastidores.

¯ Aqui tens a nossa oficina – apontou a ridentíssima Joana. – Temos feito progressos e lucros admiráveis: bordamos a ouro. A Sr.ª D. Ângela, em dez meses, ganhou quarenta e duas moedas.

¯ Está vossa excelência aqui há dez meses? – perguntou Costa à hóspeda.

¯ Penso que sim – confirmou Ângela.

Francisco, confrontando as datas, concluiu que tendo chegado ao Rio Hermenegildo oito meses antes, Ângela se acolhera a sua irmã logo que saiu de casa. Exultou, luzia-lhe nos olhos o muito sol que se lhe abrira na alma.

E a ponto vem dizer-se que o confidente último do brasileiro, desde que ao longe premeditou a redenção de Ângela, conjecturara que teria de procurá-la na ladeira onde vulgarmente pobreza e formosura impelem a mulher, nascida sem auréola santificante: - auréola de que já hoje ninguém vê resplendor, nem os romancistas propriamente se exercitam nesse gênero de inventiva, temerosos do descrédito de fantásticos e inverossímeis.

Do muito martelar nesta hipótese péssima, bem que trivialmente realizada no máximo número de lances análogos, causou-se que o lapso da desamparada senhora para os braços doutro homem, amado ou aborrecido, era a esperança infernal que preocupava o autor dos SONHOS, aquele olímpico vidente agora demudado em pessimista, com as asas da sua poesia mortas, e o espírito prostrado nas baixezas vulgares deste mundo. Figurou-se-lhe, por desventura, que uma mulher, que aspirara o ambiente de Hermenegildo Fialho, devia de ter empeçonhado o coração, apagada a flama celestial do espírito, e desbotadas as cores prismáticas por onde via o bom, o belo o santo da criação, antes de tocar a hediondez de tal marido. Duas angústias, pois, a um tempo o navalhavam: se a encontraria amante doutrem, e para si perdida; se vítima da necessidade na vulgar degradação de escrava, e perdida também para ele.

O encontrá-la, portanto, em companhia de sua irmã causara aquele entorpecimento de espírito e palavra que parecia irmanar-se com a indiferença, e até com a surpresa desagradável. Depois, porém, que se afez ao ar da felicidade, e os seus olhos puderam suportar a luz inesperada, Francisco transfigurou-se, as lágrimas venceram a represa, os dezoito anos refloriram; e, de súbito, Ângela, que não entendia o frio silêncio dele, sentiu-se-lhe apertada nos braços, e beijada nas faces que ardiam dos beiços, das lágrimas e do pudor.

¯ Eu vinha procurar-te, Ângela! – balbuciou Francisco – mas Deus não quis que eu imaginasse a possibilidade de te encontrar ao lado da minha santa irmã. Eu tinha sofrido muito e a recompensa devia ser esta...

Ângela abaixou o rosto, e pensou confusamente na estranheza deste transe.

Costa, voltando em si, compenetrou-se do pejo de Ângela, e disse:

¯ Eu beijei a tua face, Ângela, porque não há consideração que te obrigue a corar. Teu marido morreu.

¯ Morreu?! – conclamaram as duas senhoras, e em ambas o ar da fisionomia não revelava sentimento que pedisse luto imediato. Os olhos de Ângela não tinham sombras de funéreos; o sorriso de Joana iriava as cores azuis e escarlates dum vestido de gala. E, se neste conflito pairasse idéia triste, bastaria um destempero de Vitorina para destruir o efeito lúgubre da notícia. Quando Francisco proferiu teu marido morreu, a criada, que estava na cozinha, correu à saleta, exclamando:

¯ Ainda bem! Ainda bem!

E chorava de alegria, como nunca ninguém chorou por um defunto, exceto os herdeiros, parentes em quarto grau.

Cumpria relatar o caso infando. Costa, omitindo os fatos essenciais, contou que conversara com Hermenegildo nos primeiros dias da doença, sobre coisas particulares da sua vida; mas, como outros doentes fora do Rio o desviassem do enfermo, não sabia dizer da morte senão o principal: isto é, que morrera.

Instado a referir o diálogo que tivera, contou que o brasileiro apenas se queixava e dava como prova da deslealdade de Ângela a venda duns brilhantes, e a pertinácia em não declarar o destino dado a 1.650$000 réis.

¯ Foi... – clamou Joana, e suspendeu-se, quando encontrou os olhos de Ângela, que pareciam recriminá-la com profundíssima dor.

¯ Foi... o quê? – perguntou Francisco José da Costa, fingindo-se embaraçado pelos olhares mútuos das duas,

¯ Nada... – dissimulou Joana. – Queria eu dizer que foi uma falsidade.

¯ Falsidade!... não foi... O homem não mentia; nem tu, Ângela, permitirás que a nossa Joana desminta teu defunto marido – objetou ele, sorrindo às inquietas visagens da viúva. – E continuou: - Como hei de eu entrar num segredo que teu marido não penetrou com toda a sua policia administrativa e espionagem de amigos! Não ouso, minha amiga, pedir-te a confidência... Teu marido queria morrer convencido que o seu ouro andava por mãos de quem lhe disputara e vencera a alma da esposa. Parece que o homem não se dispensava desta ignorância para poder alegá-la nas contas dadas ao juiz que via as tuas lágrimas, minha santa amiga. Eu, porém, não consenti que ele se prevalecesse da sua ignorância, e jurei, pela minha honra, que tu deras de esmola 1.650$000 réis. Mas o que tu davas de esmola, nas mãos do beneficiado, chamava-se roubo em relação a teu marido, que era o senhor do objeto esmolado. Fui roubado – poderia ele dizer ao juiz supremo. – Minha mulher estaria inocente quanto aos deveres de esposa; mas, como parte do meu ser mercantil, defraudou-me em 1.650$000 réis – quantia que ele tinha gravado ao cérebro com letras de betume ardente. Ora, supondo mesmo que tinhas sido roubada, por quem quer que fosse, e iludida em tua ardente caridade, Ângela, restava-lhe a ele a possibilidade de uma restituição que, afinal, dilucidasse o mistério da tua inocência. Com o propósito de lhe criar esperanças de ainda ser embolsado, contei-lhe eu, Joana, a história daquele dinheiro, que te foi restituído, quando tu nem o esperavas, nem tinhas remoto conhecimento do roubo. Na minha história havia a singular coincidência de ser a restituição do teu roubo igual à quantia de que o meu doente se queixava. Notável semelhança: 1.650$000 réis! Dando-se, de mais a mais, a estranha coisa de ser ele roubado ao mesmo tempo que tu eras indenizada, minha irmã! E não para aqui a coincidência! Os brilhantes eram vendidos por quantias iguais àquelas que tu ias recebendo, e na mesma ocasião, do tal sujeito de Viana, honrada pessoa que eu nunca cessarei de proclamar, apesar do incógnito!... Por que estás tu a sorrir, Joana? E tu, Ângela, que ar é esse de assombro e alvoroço?... Não querem ouvir o melhor da passagem? Um dia, estava teu marido a contar, provavelmente, as dúzias de contos que lhe alvoejavam com asas de ouro à volta do leito, onde havia de morrer sozinho, blasfemo, e abrasado de sede, sem amigo ou indiferente que lhe apagasse nos beiços o brasido da morte; um dia, vinha eu dizendo, aproximou-se dele um homem e disse: “Venho restituir-lhe 1.650$000 réis que lhe foram roubados por sua esposa para me dar a mim, que era pobre. E eu com o seu dinheiro fiz a minha posição de menos pobre. A restituição é um dever que complica dois grandes resultados: um é o Sr. Hermenegildo morrer com a certeza que deixa, além de duzentos e tantos contos, mais esta quantia aos seus amigos; a outra é ir vossa senhoria por onde quer que vá com a certeza de que teve a ventura de casar com uma senhora que podia roubá-lo e traí-lo; mas que se limitou apenas a privá-lo, por espaço de alguns anos, da deleitosa posse destas nota. Porém, como o Sr. Fialho infamou sua esposa, convém que a declare ilibada, não só do desvio do ouro, mas também da dignidade conjugal. Para o que se faz mister que leia e assine este recibo”. E teu marido, minha amiga, leu, recebeu o dinheiro e assinou isto que tu vais ler, se te não custa.

E a viúva e Joana leram mentalmente a quitação que o leitor conhece.

Quando terminou a leitura, Francisco, ajoelhado aos pés de Ângela, beijava-lhe as mãos, exclamando coberto de lágrimas:

¯ Eu te agradeço, filha da minha alma! Bendita sejas tu, escolhida de Deus para mensageira de sua misericórdia!

E Ângela, baixando a face até aos lábios dele, murmurou:

¯ Meu santo e nobre coração!...

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