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Os Brilhantes do Brasileiro

Camilo Castelo Branco

XXIII

Os homens honestos

Seis meses depois, Atanásio José da Silva, Pantaleão Mendes Guimarães e Joaquim Antônio Bernardo, reunidos na famigerada bodega do Maneta do Reimão, onde em certos dias iam sevar-se na pescada e cebolas, bodo peculiar daquela taverna, praticavam do seguinte teor:

¯ Acertamos ou não?... – dizia Atanásio. – Viram vocês como afinal tudo se descobriu? Não, que certos lorpas inda diziam que o adultério da tal Sr.ª Ângela não estava provado... Aí a tem agora casada com o sujeito... E nem deixou passar um ano sobre a morte do marido, percebem vocês?

¯ Pois isso estava claro física e moralmente falando – obtemperou Joaquim Antônio. – O mariola era um estudante de cirurgia, segundo ouvi contar. Olha se o Hermenegildo não tem as coisas seguras, que lá se regalava agora o troca-tintas com bem bom dele! E dizia aqui o nosso Pantaleão, quando veio a notícia da morte do nosso amigo, que se procurasse a viúva, e se lhe desse alguns contos de réis! Parece-me que o marido se levantaria da cova, se tal fizéssemos!

¯ É que eu – explicou o marido de Francisca Ruiva – ainda cuidava que ela teria feito a sua asneira, e que se tivesse arrependido; mas à vista do que acontece, nem um dardo! (E descendo a voz, continuou) : Ó amigo Atanásio, aqui entre nós, seu primo do Rio é que a fez limpa! Sem trabalho nenhum, nem risco, nem nota de ladroagem, pilhou os seus quarenta contos fortes... Apre que é ladrão, e perdoe você por ser seu parente...

¯ Que queriam vocês? – desculpou-se Atanásio – eu incumbi meu primo do negócio porque não via pessoa mais hábil, percebem vocês? Cuidava eu que ele entregaria os títulos acomodando-se com uma pechincha de meia dúzia de contos: mas vocês bem viram a carta dele. Ou me dão quarenta contos, ou entrego os títulos à viúva ou herdeiros de Fialho. Que fazer? Ou dar os quarenta ou perder duzentos. Vocês concordaram, e eu paguei.

¯ E os outros seis contos que você deu ao marido da Rosa Catraia? – perguntou Pantaleão.

¯ Não que esse, como era criado do quarto de Hermenegildo e sabia ler, tinha visto os títulos quando andava à carta das notas e mais a bêbada da moça, percebem vocês? E depois viu que eles desapareceram, e começou a dar à língua; de maneiras que não houve remédio senão meu primo fazer cambalacho com ele, e mandá-lo para mim com uma carta, que vocês viram, e também concordaram em que se pagasse.

¯ Querem vocês saber uma? Adivinham quem ontem esteve no baile da Assembléia? A tal Rosa Catraia! – disse Joaquim Antônio.

¯ Ora que novidade você me dá! – acudiu Atanásio. – Fui eu quem lhe arranjei a carta de convite.

¯ E estava rica a valer! – acrescentou o marido da maiata. – E boa mulher?! O maroto do Fialho tinha gosto! Quantas lhe conheci eram todas de sola e vira!

¯ Pelo que vejo a Rosa soube-se arranjar bem!... – observou Pantaleão.

¯ Ora!... – conveio Atanásio. – eu dou-lhe trinta contos fortes pelo que ela apanhou. Só os brilhantes da Ângela valiam mais de cinco contos.

¯ E ela lá os tinha no baile, que eu bem lhos conheci... – confirmou o mesário da santa casa.

¯ Também é escândalo demais! – censurou Pantaleão. – Apresentar-se em público com os enfeites da mulher do amo. A minha vontade era espalhar isso...

¯ Caia nessa você – contradisse Atanásio – e depois queixe-se, se o marido contar que viu na carteira do Fialho um título seu de dívida de cinqüenta e dois contos... percebe você?

¯ Fale baixo, diabo! – acudiu o ladrão pundonoroso. – Você não sabe que anda aí gente pelo quintal?!

Chegaram as travessas da pescada entre rimas de cebolas e ovos. Abriram-se os buchos, e fecharam-se as consciências destes membros do tribunal de honra onde Ângela foi condenada à infâmia e à pobreza.

Fartos até ao arroto, de coletes desabotoados, saíram os três acionistas mais grados dos bancos portuenses a beber o ar balsâmico do jardim de São Lázaro. Nada, absolutamente nada, estremava aqueles três da classe dos homens de bem, porque a lei, que mandava abrir com ferro quente um ferrete na testa dos ladrões, foi derrogada em 7 de fevereiro de 1523.

XXIV

A Opinião pública

A opinião dos três capitalistas dignamente acatados no anterior capítulo frisava com a opinião geral da sociedade portuense sobre o casamento de Ângela com o cirurgião Costa. As segundas núpcias tinham evidenciado o crime das primeiras. A infâmia de Ângela era indelével, e já pode ser que mais repulsiva, desde que ela afrontou a moral, passando em frente dos amigos de Fialho pelo braço do amante que causara a morte do honrado brasileiro, dizia a maiata, e Francisca Ruiva, e outras Ruivas, que me estão pedindo crônica. E hão de tê-la. A cortesia não se exercita somente com as senhoras honestas.

Francisco José da Costa leu a opinião pública no volver de olhos dos magotes que se arrebanhavam nas praças, e no petulante encarar das mães, que segredavam às filhas a desmoralização da mulher de Fialho. O cirurgião era

alvo da injúria, cuspida nas costas, por seus próprios colegas. Era simples o libelo infamatório: acusavam-no de se ter formado à custa dos brilhante de um brasileiro, roubados por sua mulher.

Ângela encontrou um dia numa algibeira de casaco uma recente carta anônima em que um amigo aconselhava a seu marido que saísse do Porto, se precisava de viver pela arte. E ajuntava ao conselho a causa promotora de tão amigável aviso: É odioso na sociedade o homem que se habilitou para entrar nela com o dinheiro de uma senhora casada. E, se esta senhora roubou, desonrou e matou o marido... mil vezes horrendíssimo!

Ângela da Costa leu e chorou. Depois argüiu-se de fraca, e desmerecedora dos bens com que Deus lhe apremiara a sua paciência nas injúrias.

Guardou a carta, e assim que o marido recolheu, foi para ele risonha, e disse em tom de queixume:

¯ Por que me não mostraste logo esta carta, meu filho?

¯ Ah! – acudiu Francisco – Tinha tenção de mostrar-te; mas esqueceu-me a carta e o intento. É o que foi. Mas olha, Ângela, este esquecimento não argüi insensibilidade, nem uma coisa impropriamente chamada cinismo. Sabes o que é? Conformidade, tolerância, e quase uma desculpa à opinião pública.

¯ Desculpa!... – interrompeu Ângela.

¯ Sim, filha. Porventura, tu já te justificaste? E eu já me justifiquei? Não. A sociedade sabia que uma mulher casada vendeu uns brilhantes; que o marido dessa mulher a expulsou; que esse marido morreu; que um homem, seis meses depois, aparece casado com a viúva do roubado, do assassinado a punhaladas de desonra... Que queres, Ângela? Quem ousará defender-nos?

¯ Mas faz tu pública essa paga assinada por...

¯ Deus me livre, minha louca. A quitação foi escrita e assinada para que soubesses que não devias nada a teu marido, e que a roubada em tuas jóias tinhas sido tu. Satisfações à sociedade? São justas, quando ela não condena antes de ouvir os réus, quando não escarra nas faces das vítimas, antes de examinar os vincos por onde passaram as lágrimas. A nossa causa de moral pública está perdida; não obstante, a reabilitação davam-ta os juizes, se houvesses herdado os duzentos contos de Fialho. Os que me denigrem o caráter, se eu a esta hora fosse o marido da viúva com duzentos contos, chamando-me “tratante feliz”, sentar-se-iam lisonjeados nos coxins das minhas cadeiras, e pediriam aos meus lacaios, com urbanidade, o favor de me entregarem os seus bilhetes de visita. Mas, filha, esta soledade que mora à volta de nós é o cordão com que a mão da Providência abaliza a felicidade de duas almas que não podem corar uma da outra. Quando eu desejar mais do que tenho, quando invejar felicidades que não sei imaginar, Ângela, hei de pedir-te perdão de ter sido o mais vil dos teus inimigos.

Apertou-o Ângela com arrebatamento nos braços, e murmurou:

¯ Se tu quisesses...

¯ O quê, minha filha?

¯ Viver numa aldeia, entre umas serras, sozinho com a nossa Joana, esquecidos, e tão amados...

¯ Sim, quero, minha providência... Adivinhaste a minha aspiração de não sei quantos anos...

¯ Eu sei, meu amor. Li-a nos teus livros, e que fantasias eu criava para completar as tuas!... Se eu tivesse filhos, e lhes pudesse incutir a certeza de que todo o seu futuro e mundo era o espaço contido nos horizontes das nossas montanhas...

¯ E não sabes tu, Ângela – volveu jubilosamente Francisco – não sabes que eu careço de ser cirurgião? Que todas as portas se me fecham aqui? Não cuidava que eu viesse quase pobre do Brasil? Vim, minha filha, vim. Contava com muito se lá permanecesse, mas a minha riqueza eras tu. Apenas tenho a subsistência segura de dois anos nesta mediania em que tu fazes milagres de abundância. Mas o futuro...

¯ Pois então para onde iremos, Francisco? Tenho pressa; quero ir amanhã, hoje, já...

¯ Olha numa terra, que chamam Barroso, não há facultativos. O sítio é triste, é montanhoso, as casas são colmadas, os alimentos grosseiros, os frios do inverno glaciais, e os ardores do estio queimam as urzes e secam as fontes. Queres ir para Barroso?

¯ E tu? Irias tu contente para aí?

¯ Vou.

¯ Vamos, filho – exclamou ela entusiasticamente!

¯ Assim que a doença ou a tristeza te ameaçar, passaremos a sítios mais amenos, iremos de aldeia em aldeia, até que uma casinha entre duas árvores te convide a viver e morrer nela.

Dias depois, Francisco Costa, o grande operador que honrara as escolas da sua pátria no Brasil, aceitava o partido de um conselho chamado Boticas, em terras de Barroso.

Vitorina acompanhou a ditosa família. Ao vizinharem da terra tão selvàticamente pintada por Francisco na imaginativa da esposa, a rústica expectativa demudou-se em alegres várzeas, terras colmadas de arvoredos, regatos que vertiam murmurosos por entre outeirinhos tapisados de boninas. A casa destinada ao cirurgião de partido era telhada, e olhava sobre uns almargeais por três janelinhas de portas envidraçadas. A horta supria mais

substancialmente a falta de jardim, e em vez de musgos e trepadeiras floridas, verdejavam as couves galegas e trepavam florentes os feijões carrapatos – espetáculo bucólico de que muito se deliciava Vitorina, recordando a casinha rural de seus pais.

Ângela exclamava com as mãos postas:

¯ Isto é tão lindo! Se haverá uma alma triste neste povoado! Que miserável e escuro daqui se me figura o que deixamos!...

Joana cuidou em alindar a casa com a modestíssima mobília em que o município se mostrara generoso para granjear a estima do facultativo.

Ao outro dia, a esposa do boticário com sua cunhada, esposa do regedor, e as autoridades de Monte Alegre com suas famílias, visitaram o cirurgião, que ali era graduado em doutor.

De tudo isto entreluzia à cismadora Ângela um viver antigo, santa singeleza de costumes e dulcificação de almas que para ali viessem acerbadas do viver das cidades.

Aquele silêncio de terra e céu era-lhe o ambiente lúcido das suas esperanças. Não ousara imaginá-las tão acordes com a sua índole, vendo-se ligada ao esposo querido que refletia a felicidade de todos sobredourando a sua.

Começou o doutor a curar, e a voz pública a pregoar milagres. Achaques inveterados, aleijões, nevralgias, que tinham resistido aos exorcismos, espinhelas caídas e nunca levantadas, todas as castas de enfermidades sem cura encontraram remédio ou alívio.

O assombro, porém, excedeu todo encarecimento quando o doutor chamou um cego mendigo, e depois de operá-lo e tratá-lo em sua casa, o mandou trabalhar com vista no seu antigo ofício de pedreiro.

Rodeavam-no as multidões de parentes e amigos perguntando todos a um tempo se os conhecia.

Convencidos de que o cego de vinte anos voltara a ver os filhos que deixara no berço, o doutor avultou-lhes como entre milagroso, ali mandado pela Senhora da Saúde, adorada com muita fé na sua igreja.

Alargou-se a área da clínica do facultativo a seis e mais léguas em redor, por caminhos precipitosos à orla de despenhadeiros.

Mas o inverno chegou.

Os pegões do vento outonal abateram quando as neves de novembro começaram a coroar os espinhaços das serras, e a sobrepor as suas camadas endurecidas pelo gear das noites, sobre as veredas de cabras que ligavam uma aldeia a outra. Sem impedimento dos rogos de sua família, Francisco Costa ia sempre que era chamado. E, quando transpunha as raias do concelho, a visitar doentes, em noite tempestuosa, por os mesmos caminhos já famigerados na vida de fr. Bartolomeu dos Mártires, e recebia duzentos e quarenta réis de recompensa, Francisco depunha no regaço da esposa o seu bem suado ou bem tiritado óbolo, e dizia a sorrir:

¯ É o dinheiro de dois operários: tanto labutou o lavrador para o tirar da terra, como eu para lho arrancar do cantinho da arca. Se eu lhe pedisse mais, o doente preferia a morte.

O que muito supria na sua receita era a arte operatória, exercitada longe, mormente as operações de catarata, que já tinham levado seu nome ao território espanhol.

Então aconteceu, duas vezes, no primeiro ano, Francisco Costa entesourar na caixa econômica de sua mulher uma dúzia de peças, com esta recomendação dita em gracejo:

¯ Vai guardando o patrimônio do nosso primeiro filho.

Ângela estremeceu da felicidade que já lhe estremecia no seio adiantados sinais de maternidade.

¯ E o nosso filho que será neste mundo? Que destino lhe hás de dar? – perguntou a filha do general Noronha.

¯ Visto que não é provável ser ele o vigésimo senhor do paço de Gondar – respondeu a rir Francisco Costa – será artista.

¯ Artista!...

¯ Artífice é mais português. Terá uma profissão que lhe abaste à sua subsistência e à de uma família criada com pouquíssimas necessidades. Não aprenderá a ler, para crer; não saberá nada da ciência humana para entender bem o Padre Nosso, que é a ciência divina baixada até ao homem; dormirá o sono pesado do operário para não sonhar as quimeras que me fizeram a mim o motor dos teus longos infortúnios, meu pobre anjo!

¯ Mas hoje, filho!... – atalhou ela. – Não estou eu esquecida de tudo!... A compensação não é tão superior ao que padeci? Se Deus me der filhas, a felicidade que eu peço para elas é esta minha...

¯ Mas padeceste muito, Ângela... E as tuas filhas poderão ser felizes como tu sem terem padecido... – E concluiu, acariciando-a: - É preciso que elas não saibam ler Sonhos nem escrever Esperanças...

XXV

O Cego

Os olhos do general Noronha cegaram inteiramente. Os especialistas de Paris tinham capitulado de catarata negra a próxima cegueira, muito semelhante nos sintomas à gota serena.

Declinava para os setenta anos o inconsolável cego. Queria voltar a Paris, esperançado na operação; mas escasseavam-lhe forças. A velhice deste homem disciplinado por pesares de toda a espécie, deste o terrível só até ao excruciar do remorso, causava a um tempo compaixão e medo. A caquexia lenta mirrara-o até lhe secar a pele sobre a aridez dos ossos; e os glóbulos dos olhos guinavam pardacentos nas órbitas descarnadas à procura dum raio de luz.

Os parentes e amigos que ele havia repelido não o procuravam nos derradeiros anos, porque sabiam que o testamento estava feito. Os legatários, entregues à sáfara da sua lavoura, nem sequer averiguavam se o senhor do Paço de Gondar era morto ou vivo. Ninguém portanto o visitava. O velho cheirava a cadáver, e o lastimar-se dum cego exasperado afugentaria até a comiseração dos herdeiros.

O mordomo, João Pedro, é que, dia e noite, lhe dava o braço ou vigiava o ansiado dormitar. Chorava, quando o via de súbito parar, voltados para o céu os olhos, e clamar: “Meu Deus, meu Deus, dai-me a minha vista, ou matai-me!”

E, em uma dessas apóstrofes à Providência divina, que lhe visitara alfim a escuríssima cegueira de alma e corpo, João Pedro disse:

¯ Fidalgo, vossa excelência, se quer que Deus o escute, siga a lei cristã: tenha pena de sua filha, perdoe-lhe pelo divino amor de Deus. Pode ser que depois a misericórdia de Jesus Cristo se compadeça de vossa excelência.

¯ E quem te disse a ti que ela era minha filha? – repetiu o cego a pergunta feita um ano antes.

¯ Disse-mo vossa excelência, quando ela o visitava; muitas vezes me escreveu lá para o Paço: “Manda-me boa fruta que tenho cá minha filha”. Há de perdoar-me, fidalgo; mas vossa excelência só deixou de lhe chamar filha depois que ela quis casar com um homem mecânico...

¯ E se perverteu... – atalhou rancoroso o cego.

¯ Mentiram-lhe, fidalgo; ela não praticou ação má senão a de querer ser esposa dum pobre.

¯ Não sabes nada, pedaço de asno. Tenho ali uma carta de minha irmã Beatriz.

¯ Bem sei, meu senhor.

¯ Sabes? quem to disse?

¯ A Sr.ª D. Ângela.

¯ Quem lha mostrou?

¯ Viu-a ela, quando escreveu a vossa excelência uma carta sobre a sua escrivaninha. Essa carta diz que os criados da senhora sua irmã, a quem Deus perdoe, tinham arrancado a fidalga dos braços do tal filho do sacristão. Era uma mentira de clamar vingança aos anjos. Sua excelentíssima filha, quando, desesperada, procurara o tal homem, não o encontrou, tinha saído para o Porto.

¯ Quem to contou?

¯ Vitorina, que saiu de Gondar com a Sr.ª D. Ângela, quando tinha dois anos; o próprio capelão, e todos os criados da Sr.ª D. Beatriz, que lá está onde as contas são apertadas.

¯ Por que não disseste isso até hoje?

¯ Porque vossa excelência se desesperava assim que eu começava a falar na Sr.ª D. Ângela, e depois...

¯ Depois o que?... Não respondes?!

¯ Vossa excelência começava a dizer que via a mãe da menina, e a sacudir os braços que me fazia terror.

¯ Está bom! Está bom! – murmurava guturalmente o velho, procurando com as mãos trêmulas a boca do criado.

E recaía na concentrada prostração que durava horas e dias.

Uma vez, o general acordou de sobressalto, por noite fora, chamou João Pedro com aflição, e disse-lhe:

¯ Quem anda na casa?

¯ Ninguém, senhor... Serão os ratos que os há nela de tamanho de leitões.

¯ Não mangues comigo, João!

¯ Ó fidalgo! Eu mangar com vossa excelência!...

¯ Aí anda gente... os passos e a voz são de Ângela...

¯ Deus permitisse que fosse ela... O senhor general estava agora sonhando, e às vezes falava em sua filha.

¯ Falava?

¯ Sim, meu senhor.

¯ Então era sonho...

¯ E, se ela lhe aparecesse... se vossa excelência a visse de repente...

¯ Não vês que estou cego... Cego, meu Deus!

¯ Pois sim; mas se vossa excelência lhe ouvisse a voz, e lhe deixasse beijar as mãos...

¯ Tu quando a viste?

¯ Eu, senhor? Vi-a há oito anos, quando vossa excelência estava em França, e me mandou entregar-lhe o cofre dos enfeites.

¯ E estava aonde?

¯ Perto da vila de Barrosas, e casou no dia em que lá cheguei... Eu já contei a vossa excelência isto...

¯ Mas ela escreveu-me há coisas de ano e meio. Onde estava então?

¯ No Porto.

¯ E nunca mais soubeste dela nada?

¯ Não, fidalgo... Isto é... – tartamudeou o mordomo – quero dizer...

¯ Soubeste, ou não?

¯ Ela a mim nunca me escreveu; mas, cá em Ponte, ouvi dizer que o marido a deixara e fora para o Brasil.

¯ Por quê?

¯ Não sei... – responde pronto João Pedro, como quem esperava a pergunta, e tencionava esconder os boatos desairosos para a filha de seu amo.

¯ Não sabes? Alguma nova desonra!... Quem te contou isso? Quero saber...

¯ Não me recordo a quem o ouvi... Parece-me que foi um padre que já morreu.

¯ E que é feito dela? Sabes?

¯ Não sei, meu senhor.

¯ Quero que saibas... Vai saber isso ao Porto... Indaga por lá.

¯ E quem há de ficar à beira de vossa excelência?

¯ Um criado qualquer. Vai já hoje, assim que amanhecer... Sonhei que a via... Ver, meu Deus, ver!... Sonhei que a via... E o meu coração estava alegre... Procura-ma, procura-ma, João!

Seis dias depois, o mordomo voltava triste do Porto. As inculcas lançadas informaram-no de que Ângela, coberta de opróbrio e justo desprezo de todo mundo, se casara com um cirurgião, por amor de quem o marido morrera apaixonado; e ninguém sabia dizer, na vizinhança da casa onde ela habitara, o destino que levaram com certeza; havia, no entanto, quem afirmasse que tinham ido para o Brasil.

Das informações colhidas, João Pedro disse simplesmente que a Sr.ª D. Ângela, viúva do primeiro marido, casara segunda vez, e saíra ou para o Brasil ou para onde se não sabia.

E o mordomo, vendo contrair-se de angústia o rosto cavado de seu amo, chorou de compaixão dele, e de pesar de não ter encontrado Ângela.

¯ Agora, não se aflija, fidalgo... – disse com a voz quebrada o extremoso servo.

¯ Deus – soluçou o ancião – despertou-me o desejo de a ter comigo para me redobrar o martírio!... Seja feita a vossa vontade, Senhor!...

XXVI

A Providência

Pernoitou em Ponte do Lima, no ano de 1853, um cavalheiro de Chaves, de apelido Pizarro, em casa de parentes que também o eram do general Simão de Noronha.

Dizia-se, à mesa da ceia, que o general aceitara o título de conde de Gondar, na última velhice, cego, sem descendência, sem sociedade, sem o mínimo prazer da vida, seqüestrado de toda a convivência, e, segundo se contava, tão desvairado de razão que deixava três enormes casas de bens livres aos irmãos da mulher da infama ralé com quem casara na primeira mocidade.

¯ E está cego o tio conde de Gondar? – perguntou o fidalgo de Chaves. – Cego sem remédio?

¯ Se tivesse remédio, tê-lo-ia achado em Paris, onde já foi duas vezes.

¯ Na minha província e perto de mim – tornou o flaviense – há um cirurgião da moderna escola que tem feito prodígios em operações de olhos. Se eu soubesse que o conde consentia ser examinado, obrigava-me a trazer-lhe o doutor Costa, como lá se chama, sem favor, ao admirável facultativo.

¯ Quem lho há de perguntar? Há mais de dez anos que não recebe nem visita alguém.

¯ Não importa: hei de eu ir procurá-lo.

Foi; anunciou-se, e teve entrada, porque o conde lembrou-se de ter conhecido, nas primeiras lutas da liberdade, um general, tio do cavalheiro anunciado.

Disse o visitante o propósito que o levava. Contou as maravilhas do doutor Costa e ofereceu-se a conduzi-lo à Ponte.

¯ Será inútil; mas que venha. Irá a minha liteira buscá-lo. Se eu pudesse ir...

¯ E por que não vai, senhor conde? – aproveitou o parente, aplaudindo o desejo. – O exercício deve ser-lhe útil. São dois dias e meio de jornada. Se ele se resolve a operá-lo, vossa excelência vai residir em Chaves na minha casa, ou em Monte Alegre, onde há boas comodidades; porque, se vossa excelência quisesse ser operado em Ponte, seria isso mais difícil ao doutor, que tem uma clínica, e não poderia assistir, como convém, ao curativo, e convalescença da operação.

Reanimou-se o cego. A esperança galvanizou-lhe as articulações emperradas pela imobilidade. Apertou nos braços com reconhecimento a dedicação do parente, e pactuou sair no dia seguinte.

Folgando de palestrar, sucederam variados aos assuntos. Falou da emigração, das esperanças daqueles dias, das batalhas do Porto, da bravura dos paisanos, das proezas do libertador e, terminou dizendo com um remoqueador sorriso de elevada crítica:

¯ Sabe vossa excelência o que venceu a guerra? Não foi a idéia da pátria, nem o ódio do despotismo, nem o amor à liberdade. Foi D. Pedro ter fechado o Brasil no caso de lhe cá espedaçarem o estandarte aventureiro, e foi cada homem do Mindelo defender a vida própria da forca ou do desterro, e foi cada cidadão da cidade eterna ser obrigado a defender a esposa e os filhos. Uma vez perguntava D. Pedro, no Porto, a um velho, que saía armado e trôpego, a um toque de rebate: “Também tu, meu velho?” e o velho respondeu: “Também eu, meu diabo! Por causa de Vossa Majestade estou eu aqui a defender os meus netos”. Esta resposta é a história do triunfo prodigioso de D. Pedro.

Estendeu o conde a sua diatribe política, desembestando, contra generais e estadistas, acerados dardos, dignos do artigo de fundo da imprensa política portuguesa. Todavia, um ponto lhe esqueceu importantíssimo: e era explicar a sua condescendência no aceitar e pagar um título lembrado a el-rei pelo então ministro da Guerra, camarada do bravo Simão de Noronha. Convinha-lhe exemplificar o desprezo das mercês em conformidade com o seu desdém da liberdade, que, boa ou má, ele ajudara grandemente a implantar. Perdoe-se-lhe, porém, o mau humor cívico em desconto das amarguras da velhice, e da roaz concentração em que a cegueira o pusera, insulado de toda a sociabilidade.

¯ É pena – lastimou o cavalheiro – que vossa excelência, em anos tão carecidos dos afagos de família, se veja sozinho, e forçado a escutar-se incessantemente em suas tristezas...

¯ Efeitos da péssima mocidade – disse laconicamente o velho.

¯ E não lhe restam parentes estimados que substituíssem a falta de filhos?...

¯ Não, senhor.

A concisão das respostas reduziu a silêncio o interlocutor.

¯ Quer então vossa excelência que partamos amanhã para as Boticas?

¯ Se eu não tive piorado desta frouxidão que dificilmente me deixa ir duma cadeira para outra, muito me obsequiará vossa excelência acompanhando-me. Se o doutor entender que é praticável a operação, eu mandarei ir o meu escudeiro e mais criados.

¯ Vossa excelência tem os meus criados e a mim com eles.

¯ Obrigadíssimo à sua bondade: deixe-me abraçá-lo, que há muitos anos não senti alguém nos meus braços. Parece-me que ainda é novo...

¯ Não, senhor. Tenho quarenta anos.

¯ Eu já era decrépito nessa idade. Aos vinte e seis anos embranqueceram-me os cabelos, e aos trinta caíram-me. Quando voltei a Portugal, depois dum exílio de treze anos, os meus criados perguntaram-me quem eu procurava.

¯ E já então não encontrou pessoa alguma de família?

¯ Que eu prezasse... não. Tinha irmãs, que nunca estimei, nem me estimaram. Tinha uma filha...

¯ Morreu?

¯ Morreu.

O conde de Gondar apertou as mãos do homem, que prezava, porque sabia que lhe via as lágrimas; e murmurou:

¯ Vê? Estes olhos não tem luz, tem o sangue do coração. Olhe que eu sou o mais castigado e desgraçado homem que nasceu debaixo do Sol. A sepultura repele-me há cinqüenta anos, porque eu morri então. Morri então, senhor...

E estreitava convulsamente ao seio as duas mãos do cavalheiro.

¯ Está bom... – prosseguiu ele com satisfação. – Estou melhor... desafoguei... Sinto-me tão bem!...

Quem pudera chorar uma hora em cada doze de tonturas...

¯ Já vê vossa excelência quanto lhe seria consoladora uma família... Foi fatal o perdimento de sua filha.

¯ E vossa excelência sabe que a perdi?

¯ Sei por ter tido a honra de o ouvir há pouco dizer ao senhor conde..

¯ Ah! Fui eu?...

¯ Sim; disse-me vossa excelência que sua filha tinha morrido.

¯ Viva ou morta... morreu. Nunca ouviu falar dela?

¯ Não, senhor.

¯ Esqueceram-na todos! Ninguém aqui em Ponte... nem os Abreus lhe falaram dela?

¯ Não, senhor conde.

¯ É porque ela empobreceu... é porque eu a repeli... Desprezaram-na todos, e não curaram de saber se eu tinha razão, ou se ela tinha infâmias para ser desprezada... E por isso... morreu!

O flaviense não formava da intelectualidade do conde um juízo satisfatório para uma certidão de sanidade. Não acabava de entender se a filha do conde era viva ou morta; nem ousava protrair indagações irritantes da torvação mental do velho.

Calou-se, aproveitou o ensejo oportuno de despedir-se, e foi indagar o mistério de tal filha.

Os informadores disseram-lhe concordemente que em verdade o conde tivera na sua mocidade uma filha natural de uma célebre fidalga do seu tempo; mas que essa menina se havia perdido em libertinagens como sua mãe.

O cavalheiro entendeu então o que era morrer, e condoeu-se profundamente do pai da perdida.

XXVII

Vem rompendo a luz

Francisco José da Costa foi chamado urgentemente para visitar um senhor conde hospedado em Monte Alegre.

¯ Conde de quê? – perguntou Ângela, curiosa de saber que titular subia as montanhas de Barroso em busca de seu marido.

¯ Conde de Gondar – disse o enviado.

¯ De Gondar? – observou Ângela ao marido. – Cuidei que só havia o Paço de Gondar de meu pai!

Ora, Francisco não lia gazetas, nem sabia que o general Noronha passasse a titular. Não ponderou por isso a observação da esposa, nem inquiriu a procedência do conde.

Chegou à casa nobre de Monte Alegre.

Levaram-no à presença dum ancião cego, de aspecto cadavérico e tocantemente amargurado.

Costa examinou-o em breve espaço, e perguntou:

¯ Senhor conde, há que tempo começou o seu padecimento de olhos?

¯ Há nove anos. Estava eu em Paris a tratar-me de nevralgias de cabeça.

¯ E quando cegou completamente?

¯ Há dois anos, tendo voltado a Paris para consultar de novo os especialistas.

¯ Disseram a vossa excelência que era catarata negra a cegueira?

¯ Juntamente; mas era intempestiva a operação. Depois, cá em Portugal, dois facultativos que consultei não votaram pela operação: um deles pendia a crer que a minha cegueira fosse paralisia.

¯ É catarata negra – disse Francisco Costa.

¯ Pode operar-se? – perguntou o conde, agitado.

¯ Pode, senhor conde.

¯ Vossa senhoria tem esperanças?

¯ As que pode ter-se em operatória.

¯ E espera dar-me vista?

¯ Espero, creio que vossa excelência verá.

¯ Feliz hora em que este amigo que está a meu lado me levou a Ponte do Lima a notícia de vossa senhoria! – exclamou o conde.

¯ O senhor conde de Gondar – disse o cavaleiro de Chaves ao operador – é o bem conhecido general Simão de Noronha.

Costa fitou o semblante do cego, e baixou maquinalmente a cabeça.

O apresentante prosseguiu:

¯ Eu tinha visto dois prodígios de vossa senhoria, e assim que soube dos padecimentos de sua excelência, animei-me a solicitar a sua vinda com grande confiança na perícia do senhor doutor.

¯ Agradeço a vossa excelência a confiança imerecida com que honra o pouco que sei e valho. Onde quer ser operado o senhor conde?

¯ Se fosse possível, na terra onde vossa senhoria reside – respondeu o cego.

¯ Nas Boticas não creio que haja casa capaz – observou Pizarro.

¯ Há – contradisse o cirurgião.

¯ Sim? – acudiu o conde.

¯ É a minha – tornou Costa. – Se vossa excelência quiser...

¯ Quero, meu Deus, quero; nem posso querer outra coisa, e desde já lhe aperto as mãos com o mais sentido reconhecimento – disse o velho com alegria.

¯ Não pode hospedar-se melhor – confirmou o parente.

¯ A casa é de aldeia – tornou Costa, sorrindo – mas, enquanto o senhor conde for cego, dispensa o luxo dos ornatos; e, depois que tiver vista, irá para sua casa. O essencial é que vossa excelência tenha um leito, um cirurgião a ponto, e pessoas que o sirvam. Isso lhe ofereço.

¯ Não ouso dizer a vossa senhoria que remunerarei o que é remunerável – disse o conde -; mas o maior número dos seus favores não se retribui a dinheiro.

¯ O dinheiro nestas aldeias, senhor conde – volveu Francisco – não é extremamente apetecível, porque faltam cá, ainda bem, as tentações que o encarecem.

¯ Não sei – refletiu o general – como um facultativo de tanto merecimento se aclimatou em Barroso!

¯ À procura duma subsistência parca, bastantíssima à felicidade doméstica.

¯ Então é aqui feliz?

¯ Mais do que dizem que se pode ser neste mundo.

¯ É o primeiro homem que me responde isto! – maravilhou-se o general, volvendo a cabeça para o lado onde sentia gente. – Nunca foi infeliz?

¯ Fui apenas infeliz trinta e um anos.

¯ E quantos tem?!

¯ Trinta e três, senhor conde.

¯ Então a sua felicidade é recentíssima! Encontrou-a aqui?

¯ A perfeita, a inexcedível encontrei-a em Barroso.

¯ Tem família?

¯ Mulher, um filho e uma irmã.

¯ São as delícias da sua vida!... não são?

¯ Certamente... – respondeu Costa, espantado do tom dulcíssimo com que abemolara aquelas palavras a selvagem índole do pai de Ângela, e do amante de Maria d’Antas.

¯ Eu também fui casado – tornou o cego – e amei extremosamente minha mulher, que morreu de dor instantaneamente quando me viu ferido de morte em batalha. Compreendo esse sublime e sagrado amor de marido...

¯ E de pai?... Não tem vossa excelência a boa fortuna de ter filhos?

¯ Não... não tive... – balbuciou secamente o conde, e declinou a direção da prática, perguntado:

¯ Quando quer vossa senhoria que eu vá para a sua hospedeira casa?

¯ Amanhã, querendo vossa excelência. Hoje mando dar algumas ordens ao aposento que o senhor conde vai honrar.

¯ O senhor doutor!... beijo-lhe as mãos. E poderei chamar um escudeiro que me trata há muitos anos?

¯ Pois não! Esperarei vossa excelência, a menos que me não dê ordem de o acompanhar desde aqui...

¯ Não senhor – atalhou o fidalgo flaviense – eu acompanharei o meu amigo.

¯ Recebo as ordens de vossas excelências – disse Francisco José da Costa, e saiu.

¯ Este homem pareceu-me extraordinário! – considerou o conde. – Tem uns ares altivos, não tem?

¯ E mais vossa excelência não lhe viu a gravidade imponente do rosto! As maneiras são de boa sociedade, e o olhar tem uma penetração de águia. Eu estava a gostar de o ouvir.

¯ Também eu! Muito lhe devo, meu amigo! De mais a mais deu-me um operador simpático, com uma família que me há de aligeirar as horas? Muito lhe devo!

Entrou com tranqüila aparência o cirurgião em casa.

¯ Que tinha o conde? – perguntou Ângela.

¯ É cego, filha.

¯ Oh, coitado! E cura-se?

¯ Cura.

¯ Deus o permita. Vais operá-lo?

¯ Vem ele aqui operar-se.

¯ Às Boticas?

¯ A nossa casa.

¯ O conde vem para aqui!... Ai que casa esta!...

¯ Não te disse que ele é cego, menina?

¯ E que quarto lhe dás?

¯ O nosso.

¯ Então seja o meu – disse Joana.

¯ O nosso é melhor – tornou Francisco. – Cedes o teu quarto ao conde, Ângela?

¯ Pois sim, meu amor. Ele que homem é?

¯ Tem setenta anos.

¯ Tão velhinho! E vais operá-lo?

¯ Vou.

¯ De onde é ele?

¯ Veio de Ponte do Lima.

¯ De Ponte do Lima? De que família?

¯ Dos Noronhas Barbosas.

¯ Então é meu parente.

¯ É; é muito teu parente; é teu pai.

¯ Meu pai?!... Estás brincando, Francisco?

¯ O cego conde de Gondar que vem para tua casa é teu pai, Ângela: é o general Simão de Noronha.

¯ E ele sabe?... – exclamou Ângela, ofegante. – ele sabe...

¯ Para onde vem? Não nem quero que saiba depois que estiver cá. Desde que ele entrar, tu perdes o teu nome, e chamas-te?... como hás de chamar-te? Maria. Se sentires expansões de filha, hás de reprimi-las. pede-to o teu plebeu, o filho do sacristão honradíssimo que amou seus filhos com ternura, e se apartou deles prometendo-lhes vigiá-los do céu. O conde de Gondar aqui dentro é um doente que se trata. De comum entre nós há apenas operado e operador. Tu és a esposa de um, e a filha repulsa e abandonada do outro. Que te diz o coração, Ângela?

¯ Que ele é meu pai... e mais desgraçado que eu...

¯ Pois compadece-te, ama-o, mas não me impeças o restituir-lhe a vista. Quando ele te vir, há de ser tarde; mas podes vê-lo e falar-lhe contanto que imediatamente à operação, e mudados os apósitos, ele te não veja.

¯ Mas, logo que me veja, é provável que me reconheça...

¯ Se assim for, a tua dignidade te aconselhará. Sobretudo, é preciso que atendas aos créditos do cirurgião. Se sobrevierem febres em resultado de comoções violentas, perderei o prazer de mostrar ao conde de Gondar uma família feliz sem brasão no portal nem ouro nas arcas. Quando o conde souber em casa de quem está, desejo muito que a senhora de casa se faça tão-somente conhecer por filha de D. Maria d’Antas.

De onde se prova que as singulares utopias no amor dos dezoito anos semelhavam muito em Francisco Costa, aos trinta e três anos, umas singulares utopias de dignidade humana.

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