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Os Brilhantes do Brasileiro

Camilo Castelo Branco

XXVIII

Confidências do cego

Batia alvoroçado o coração de Ângela quando ao longe tilintava a guisalhada da liteira, em que entrava nas Boticas o conde de Gondar. Joana e Vitorina, pasmadas da casualidade, faziam considerações muito religiosas sobre o caso.

Francisco saíra à extrema da aldeia para guiar o liteireiro. O cego, sabendo que o doutor o viera esperar, mandou parar o veículo, para apertar a mão do “segundo criador da sua luz”, dizia ele.

Caminhou Costa de par com a portinhola, e tomou o velho nos braços, quando a liteira parou ao portão do quinteiro.

Ângela e as outras espreitavam das janelas. Vitorina benzia-se, murmurando:

¯ Ai! Como ele está acabadinho! Quem viu este senhor há quarenta anos!

Ângela retraiu-se da janela para limpar as lágrimas.

Subiu o conde pelo braço de Francisco os poucos degraus que levavam do quinteiro à saleta destinada.

A melhor alfaia de assento era uma preguiceira almofadada a toda a presa por Ângela e Joana com um colchãozinho de lã e chita escarlate, e dois travesseiros com suas fronhas de folhos engomados.

¯ Queira vossa excelência sentar-se, e reclinar-se, senhor conde – disse o facultativo. – Convir-lhe-ia melhor uma poltrona; mas não a tenho.

¯ Isto é magnífico! – disse o general. Encostando-se confortavelmente. – que ar de frescura tem esta casa! Parece que a felicidade tem um aroma particular, primo Pizarro! – ajuntava o general voltado para onde se lhe figurava estar o fidalgo de Chaves. – Onde vossa excelência me trouxe!... Como isto me há de parecer o céu, quando eu puder ver a casa e os bem-aventurados que vivem nela!... Ainda me não deu a honra de me apresentar a sua senhora, a seu filhinho e a sua irmã, senhor Costa.

¯ Eu chamo-os: são os criados de vossa excelência que eu apresento. Maria e Joana, venham oferecer os seus serviços ao senhor conde.

Entraram as duas senhoras, e Vitorina com um menino de ano e meio no colo.

O conde fez menção de levantar-se, quando sentiu frêmito de vestidos.

¯ Não se levante vossa excelência – susteve Francisco. – Aqui estão minha mulher e minha irmã.

¯ O cego estendeu as mãos, tomou as das senhoras.

¯ A da esquerda qual é? – perguntou ele.

¯ É minha mulher.

¯ Parece-me, notou o conde, que a presença de um ancião cego a comove sensivelmente, minha senhora!... Vossa excelência tem a sua mão tremula e ardente... Se tem compaixão desta velhice em trevas, deixe estar que seu marido lhe há de dar a satisfação de me abrir outra vez o mundo diante destes olhos.

¯ Deus o permita... – balbuciou Ângela.

¯ Pouco hei de viver – tornou o conde -; mas eu queria ainda ver o Sol, um dia que fosse, o céu que não vejo há dois anos, contados noite por noite, porque eu nunca mais distingui o dia das trevas. Vossas excelências ser ao testemunhas da minha doida alegria... Ouço a voz dum menino que chama sua mãe... É o seu filhinho, minha senhora?

¯ É sim, senhor conde.

¯ Deixe-me beijá-lo, se ele me não tiver medo.

A criancinha foi facilmente aos braços do velho, deixou-se beijar, e ficou a olhá-lo no rosto com infantil fixidez.

¯ Eis aqui a florinha que desabrocha sobre uma sepultura... – disse o velho. – Que mavioso grupo, não é? Foi em França, não sei em qual palácio de Carlos X, que eu vi assim uma pintura, e uma legenda que dizia: Aurora que alumia um túmulo... Ora vá, vá, anjo, que deve estar admiradinho de se ver entre as tristes ruínas duns setenta anos!... Aqui o tem, senhora D. Maria...

Ângela bem queria esconder o seu pranto do fidalgo de Chaves, que a contemplava como espantado de tamanha sensibilidade; mas a comoção vencia a infundado receio de denunciar-se.

¯ Senhor conde – disse Pizarro – razão tinha vossa excelência para supor que a senhora D. Maria estava compadecida. Ela aí está com o rosto coberto de lágrimas.

¯ Obrigado à sua compaixão, obrigado mil vezes, minha senhora! – agradeceu o cego com a voz tremente.

¯ Maria – disse Francisco – dá ordem a que venha um caldo para o senhor conde.

¯ Eu não tenho vontade; mas o meu dever é obediência ao médico – condescendeu o conde.

¯ E vossa excelência jantará um pouquinho mais tarde – continuou Costa, dirigindo-se ao parente do conde.

¯ Eu vou retirar-me porque me esperam em Monte Alegre, e almocei para jantar à noite. Voltarei aqui, se me dá licença, de três em três dias.

¯ Sempre que vossa excelência queira honrar-me. Depois de amanhã há de ser operado o senhor conde.

Mandei chamar um ajudante a Chaves, e só então aqui estará.

Retirou-se o flaviense, felicitando o primo pela ventura de ter achado o seio de tão carinhosa família.

¯ Quando aqui estiver três dias, cuidarei que é a minha – disse o cego tomando o caldo das mãos de Ângela, enquanto Joana lhe aconchegava as almofadas para encosto dos braços.

E, no correr deste lance, Vitorina, com as mãos postas, e os beiços chegados às pontas dos dedos, e a cabeça um pouco inclinada, não desfitava os olhos absortos da cabeça de Simão de Noronha.

Estava ela comparando o gentil capitão de cavalaria, o mancebo de olhos negros e tez morena, o fragueiro caçador que ensinava cavalos a galgar penedias, enfim, o galhardo amante de D. Maria d’Antas. E, quando a idéia da velha tropeçava neste nome, como num túmulo, queria ela ver, à beira do ancião, o espectro terribilíssimo duma mulher estrangulada.

Ao outro dia, o cirurgião foi ver os seus enfermos no circuito de algumas léguas, recomendando à esposa:

¯ Sê o que deves ser, minha filha. Sopesa o coração, se o sentires mais pusilânime do que eu desejo.

¯ Conta comigo, Francisco. Ele não me vê chorar.

As duas senhoras sentaram-se em frente do canapé, costurando nas faixas e panos necessários para o curativo. Antoninho agatinhava à preguiceira, e passeava amparando-se à beira do estofo ou aos joelhos do cego, que nunca o deixava passar sem um beijo. A criança ria às guinadas, quando vingava iludir o velho, que se fingia zangado com o engano.

Quem seis dias antes tivesse visto no palacete de Ponte o solitário cego, de fronte abatida para o peito, braços pendidos, ou agitados, a espancar as trevas interiores em busca de um lampejo que lhe deixasse entrever a vida de além túmulo! Quem agora o visse na casinha das Boticas, a brincar com um menino, a rir das criancices que não via, a folgar que Joana lhe descrevesse as cabanas da aldeia, os trajos das barrosãs, a sua maneira de dizer, as bagatelas com que pessoas alegres costumam aligeirar as horas!...

Esta incongruente transfiguração quem a operou? A esperança da luz? O contato da família feliz? A influência misteriosa do que há aí sem nome, e sem idéia nos atos da Providência?

Tudo isto, e o mais que possa ocorrer às almas inteligentes de espiritualismo, não nos dá a causa de tão capital mudança.

Eu ousaria explicar tudo em pouco. A palavra Deus abrange o incógnito de céu e terra, o incompreensível da alma, e o insondável liame de coisas que a razão natural, de pouco alcance mas inflexívelmente orgulhosa, capitula de paradoxos. Deus. Por que não?

Se Simão de Noronha delinqüíra, o açoute da justiça não lhe estalava, desde o instante da ira, nas fibras do corpo? Não se lhe apagou primeiro lá dentro a lâmpada da fé? Não lhe tirou Deus o amor paternal para o privar da ternura da filha? Não lhe fez odiosa a sociedade para o infernar bem dentro de si mesmo?

Pois se é racional reconhecer a Providência na expiação de tão longo prazo, será absurdo reconhecer-lhe a misericórdia naquele dilúculo de contentamentos, após quarenta anos de noite, de ira, de tédio, de ateísmo, de remorso, e de inferno?

Alegremente, pois, dizia o conde:

¯ A senhora D. Maria fala muito pouco. A senhora D. Joana é mais conversadora.

¯ Eu falo pouco, senhor conde?... Tenho um gênio melancólico... – disse Ângela.

¯ Ainda lhe não disse, minha senhora, que o seu metal de voz desperta-me recordações tristes; e, não obstante, consolo-me de a ouvir. Conheci o timbre da sua voz não vulgar em duas pessoas...

Ângela e Joana entreolhavam-se suspensas dos tardos dizeres do conde. Ele, porém, recolheu-se, abateu o rosto caído e como subitamente macerado.

¯ Está tão triste, senhor conde! – disse Joana. – Não queremos vê-lo assim!... Não pense no passado. Lembre-se só de que vai recuperar a sua vista...

¯ Para ver sepulturas, e ver também onde hei de abrir a minha...

¯ Para ver as pessoas que lhe desejam muitos anos de alegria, e uma é minha imã... Maria, outra sou eu, e meu mano... Aqui tem já vossa excelência três pessoas que lhe querem muito...

¯ E eu sei quanto pode a comiseração em suas excelentes almas, minhas senhoras... Os incômodos que eu tenho já dado para me não faltar nenhuma destas niquices de velho, e de cego... A pobre Vitorina toda a noite, assim que eu gemia, estava ao meu lado... Penso que era ela; que duma ou duas vezes quem me falou foi a senhora D. Maria, não foi?

¯ Fui, senhor conde. Eu estava ainda a pé nas minhas rezas, e mais minha irmã.

¯ Peçam a Deus por mim, virtuosas senhoras.

¯ Pedimos, pedimos, senhor conde – disse Joana.

¯ O doutor por lá anda a moirejar na vida de cabana em cabana... – disse o conde.

¯ É verdade. Tem dias que sai ao romper de alva e recolhe alta noite – respondeu Ângela.

¯ Que voz a sua, minha senhora! – repisou o cego bamboando a cabeça. – Faz-me sentir espantosas alucinações!...

¯ Mas eu queria que a minha voz o não mortificasse, senhor conde...

¯ Não me mortifica; enche-me o coração de...

¯ Saudades? – perguntou Joana com susto, enquanto Ângela lhe fazia sinal para não insistir em tais indagações.

¯ Saudades... e agonias sem nome... Hei de dizer a verdade a vossas excelências... Na minha mocidade amei uma dama, cuja voz era a da Sr.ª D. Maria; e tive uma filha, que também assim falava... Agonias e saudades... é o que me resta de ambas... Está bom... – suspendeu-se o conde sacudindo a cabeça. – Está bom!... Ora que nem aqui me deixam estas funestas memórias!... Eu estava a dizer que dei muito incômodo esta noite... Amanhã deve aí chegar o meu escudeiro, um criado que tem quarenta e tantos anos de casa, que me tem aturado muito, e que ficará ao pé da minha cama para vossas excelências e a sua criada poderem dormir descansadas.

Ângela, olhando para Joana, abriu a boca em atitude de susto, quando ouviu dizer que vinha o escudeiro. João Pedro reconhecê-la-ia logo, e com qualquer palavra de espanto perturbaria o ânimo do pai.

¯ Seu marido é natural do Porto, Sr.ª D. Maria? – perguntou o cego, após longa pausa.

¯ Sim, senhor – titubeou Ângela.

¯ E vossa excelência também?

¯ Sim, senhor.

¯ Queria-lhes fazer uma pergunta; mas bem conheço que é ociosa...

¯ Que era, senhor conde? – insistiu Joana.

¯ Se tiveram alguma vez notícia de existir no Porto um brasileiro de Barrosas, de quem me não lembra o nome, casado com uma senhora chamada Ângela, que depois enviuvou, e casou segunda vez...

Ângela fez à cunhada um sinal negativo.

¯ Nada, não conhecemos, nem ouvimos falar...

¯ Logo vi. Vão lá saber em terra tamanha...

¯ Mas, se se pedissem informações... – lembrou Joana.

¯ Já as mandei procurar...

¯ E não soube nada?

¯ Soube o que disse, minhas senhoras: que Ângela enviuvara, casara segunda vez, e saíra não se sabia para onde.

¯ Vossa excelência mandou há muito saber? – perguntou Joana.

¯ Há três meses o meu escudeiro; por lá andou cinco dias.

¯ E essa senhora... – balbuciou Ângela.

¯ Seria parenta do senhor conde? – interveio Joana.

¯ Era uma infeliz, filha dum homem que tinha sido bom, e infortúnios grandes desvairaram e perverteram. Afinal, esse homem, como se tinha sepultado vivo, perdeu nas trevas, onde se abismou, alma, coração, honra e tudo. Deus, que o precipitara, levantou-o um dia, não sei se para lhe acrescentar o suplício, renascendo-lhe o coração e sentimentos de amor a sua filha. Procurou-a então; mas... tarde.

Escutaram-no silenciosas e estupefatas as duas senhoras.

A conversação foi interrompida pela entrada do cirurgião; porém, o conde, azado o ensejo, prosseguiu:

¯ Sr. Costa, eu quero dever-lhe uma grande fineza!

¯ Mande-me vossa excelência.

¯ Estas senhoras já me ouviram com muita paciência e compaixão falar duma filha que tive...

Francisco olhou com assombro para ambas.

Simão de Noronha continuou:

¯ Hei de pedir-lhe que empenhe as suas amizades e relações no Porto para descobrir-se o destino de uma senhora, de nome Ângela, casada que foi com um brasileiro, já falecido, e casada depois com não sei quem. O meu escudeiro, que chega talvez amanhã, pode dizer a vossa senhoria o nome do brasileiro, com o qual a indagação nos levaria a descobrir a paragem de minha filha.

¯ Prontamente escreverei a pessoas que hão de conseguir o que for possível – disse Francisco, sensivelmente perturbado. – Tenha vossa excelência esperanças; mas que não venham alvorotar-lhe o espírito. Precisamos de toda a sua placidez nervosa, e de completa inação de espírito. Depois que vossa excelência estiver no gozo da sua vista, buscaremos tudo que possa impressioná-lo alegremente. Se sua filha existir, ela será também comigo portadora de luz; eu, a dos olhos; ela, a da alma.

XXIX

Luz!

Estão prestes o operador e o ajudante.

Ângela, baldado o esforço que empregou para assistir, afastou-se, pálida e tremula, para o seu oratório.

Joana e Vitorina assistiam para coadjuvar o operador.

O conde treme.

¯ General! – disse Francisco Costa. – Quem se enrostou com os esquadrões de cavalaria de Chaves imperturbável, não desmaia diante duma lâminazinha de aço.

¯ Tremo de medo; mas não é medo do golpe. Se depois de me rasgar as névoas, doutor, eu não vejo mais que trevas!...

¯ Será ver o que ninguém viu, senhor conde. Ver trevas, é vista dupla, que eu não prometo dar a vossa excelência. Basta que veja a luz – replicou jocosamente o operador. – Não obstante, eu encontrei essa imagem em Milton, que tinha a autoridade de cego.

O operador escolheu o método da extração.

Atravessada com o queratótomo a córnea transparente, o humor cristalino, cuja opacidade impedia a impressão de raios visuais, depois de comprimido o globo brandamente, destacou-se, e saiu no gancho de Wenzel.

Terminada a operação, o conde viu a mão do operador, tomou-a nas suas e beijou-a.

¯ Vi! Meu Deus! Vejo o seu rosto, Sr. Costa – exclamou Simão de Noronha. – Aqui estão duas senhoras, não estão?...

¯ É minha irmã e Vitorina.

¯ E sua senhora?

¯ Está preparando compressas.

¯ Eu queria vê-la...

¯ Noutra ocasião. Vamos já colocar os apósitos.

¯ Já?! Mais quantos dias cego!

¯ Quarenta e oito horas em que vossa excelência, pensando nos cegos irremediáveis, cuidará que as horas são instantes.

Conduzido para o leito o operado, em quarto quase de todo escuro, assentaram-lhe chumaços molhados sobre os olhos cingidos de ligaduras.

Terminado o curativo, Ângela voltou, apertou a mão do pai, e disse estremecidamente:

¯ Parabéns para vossa excelência e para nós, senhor conde!

¯ Não tive a fortuna de vê-la, Sr.ª D. Maria!... – queixou-se o velho.

¯ Estava lá dentro...

¯ E não esteve aqui enquanto me operaram? Não a senti...

¯ Estava pedindo a Deus por vossa excelência.

¯ É um anjo, minha querida senhora! Esta casa... toda ela é um santuário... Olhe que vi seu marido. Já o conheço. Tem um belo aspecto! É trigueiro e muito barbado, não é?

¯ É, sim, senhor conde.

¯ Sua cunhada não a divisei bem; mas pareceu-me banca e magra, não é?

¯ É, sem dúvida.

¯ A criada conheci que era velha; mas estava encoberta pela Sr.ª D. Joana...

¯ As velhinhas escondem-se – ocorreu a jovial Vitorina. – é o que faltava aparecer uma velha carcomida logo de pancada a um senhor que não via criatura viva há dois anos?

¯ Pois quero e desejo vê-la, e muitas vezes, Sr.ª Vitorina. Tem-me tratado com muito amor. Já tive outra criada com o seu nome. Onde isso vai! Há bons trinta e dois anos que a não vejo!...

¯ Já deve ser da minha idade, então... – observou a velha, trejeitando para as damas.

¯ Sim, se vossemecê anda pelos setenta...

¯ Setenta! Deus nos acuda!... Pois eu tenho lá setenta anos!

¯ Então quantos tem vossemecê?

¯ Fiz sessenta e nove há seis meses.

¯ Ah! Então recolho o meu juízo! – casquinou o conde. – Está vossemecê muito nova, Sr.ª Vitorina. Cuidado com as ilusões da mocidade, menina!

Riam as senhoras, e Vitorina continuou a provocar as jocosidades do conde, que eram ouvidas com admiração, mormente pela filha, que, nos raros dias de convivência com seu pai, o não vira sorrir uma vez só.

Quando, ao cair da tarde, se anunciou a chegada de João Pedro, saiu a encontrá-lo no quinteiro Ângela.

O velho embasbacou, e encostou-se à mula, de que desmontara, porque as pernas lhe faltavam.

A filha do conde de Gondar em poucas palavras elucidou-o sobre o que lhe convinha fazer para que a cura de seu pai não fosse perturbada por alvoroços de espírito ou nevralgias que lhe irritassem os olhos.

Logo que o ensejo se apropositou, Francisco Costa, estando já precavido o escudeiro, volveu a falar ao conde no seu intento de procurar Ângela.

¯ Ai está João Pedro que dirá a vossa senhoria o nome do homem com quem minha filha foi casada.

O escudeiro custava-lhe a conter em posição sisuda as mandíbulas abertas pelo riso, quando respondeu, voltado para Ângela:

¯ Chamava-se Hemorragilde.

Abafaram todos o froixo da gargalhada, tirante o conde, que murmurou:

¯ Vejam que nome! Parece gótico; mas ainda parece mais nome de moléstia... Hemorragilde!...

¯ Se o senhor conde permitir – disse o cirurgião – vai João Pedro ao Porto com cartas minhas, visto que o dispensamos aqui, e pode lá fazer bons serviços ao nosso intento.

¯ Pois que vá onde vossa senhoria ordenar – anuiu o conde.

¯ E, segundo as notícias que nos for comunicando, vossa excelência ordenará o que há de fazer-se. Conjecturemos que ele encontra a Sr.ª D. Ângela. Que manda o senhor conde que ele diga a sua filha?

¯ Que imediatamente venha para minha companhia – deliberou sem detença o general – que não espere novas ordens; que se recolha à minha casa de Ponte, e espere por mim... e por todos nós... porque vossa senhoria e estas senhoras iriam comigo, não é verdade? Iriam ser testemunhas da felicidade que me começou no seio caritativo e amoroso desta família...

¯ E se sua filha, senhor conde, quisesse vir aqui mesmo encontrá-lo, não seria isso antecipar-se a ela o júbilo de lhe beijar as mãos?...

¯ Sim...; mas eu queria poder vê-la... Se ela viesse enquanto dura esta escuridão, seria grande e dolorosa a minha ânsia...

¯ Concordo, e aconselho até que ela venha depois que vossa excelência estiver convalescido – obtemperou Francisco.

¯ Mas o doutor parece que dá a vinda como possível! – admirou o conde.

¯ Pois não é possível?! Afigura-se-me até provável... O impedimento único seria ter ela morrido. Se existe, hei de descobri-la mediante as diligências dos meus amigos. Encontrada ela, tem vossa excelência a sua filha nos braços.

¯ E, se ela mos repelisse!... – conjecturou o velho, quebrado do vigor com que estivera dialogando.

¯ Seria incrível!... – objetou o marido de Ângela.

¯ Eu também a repeli... – contraveio o conde.

¯ Tão justificados seriam os motivos...

¯ As calúnias, e mais que tudo... a terrível doença da minha alma... a peçonha que ma queimava... a desesperada tristeza que me ia levando à demência, e me deixou o pior... que foi a vida, a consciência dos meus crimes encadeados uns noutros, como os fuzis do grilhão que amarra o criminoso ao cepo... Aí vem o meu demônio... – disse reconcentrado o conde...

¯ Mal vamos assim! – acudiu o facultativo, tomando-lhe o pulso. – Senhor conde, domine-se, arranque-se dessas intermitentes, pelo menos enquanto não estiver inteiramente restaurado.

¯ Senhor conde! – rogou ternissimamente Ângela – peço-lhe pelo divino amor de Deus que não se aflija... Diz-me o coração que sua filha o ama, e lhe dará anos de muita alegria e sossego de alma. Verá que não me engano o pressentimento... O seu mordomo vai amanhã para o Porto. Daqui a oito dias pode muito bem acontecer que sua filha aqui esteja, a pedir-lhe perdão, se caiu nalgum erro...

¯ Não caiu! – exclamou o velho. – Precipitaram-na; fui eu, foram todos os que deviam ampará-la com o seio, com o coração, se ela pendesse a cair...

¯ Pois bem, senhor conde; melhor assim: não terá vossa excelência dificuldade em perdoar-lhe, nem ela ousará acusar seu pai nem seus parentes.

¯ Se ela tivesse no seu coração como está na sua voz, minha senhora! – murmurou o velho, estendendo-lhe a mão para lha apertar em impulsos de reconhecimento...

João Pedro foi para casa dum lavrador da freguesia, levado pelo doutor sob qualquer pretexto, e ai esperou as ordens, contentíssimo de ter parte no feliz desfecho que prometia o enredo da reconciliação entre a fidalga e seu pai.

Enquanto corria o tempo necessário a dissimular a ida do mordomo e vinda da resposta, examinou Francisco os olhos do conde, e exultou. A cicatrização era excelente. A fotofobia era quase nula. O velho já via através de lentes escuras graduadas as miudezas dos objetos, bem que a insistência lhe desse vágados e ligeiras dores. Ainda assim, Francisco ordenou que continuasse a escuridade no quarto.

Entretanto, lamentava o conde que D. Maria estivesse na cama sofrendo uma impertinente enxaqueca, ao tempo que ele tirara o apósito; e que as trevas do quarto fossem tantas que ele não podia destacar-lhe as feições, porque via tudo a vulto.

Passados os dias convenientes à simulada indagação, Costa, fingindo alvoroço, disse ao conde:

¯ Alvíssaras! – Aqui está carta de João Pedro para vossa excelência.

¯ Alvíssaras! – disse o conde. – Pois quem sabe o que aí vem?

¯ Se ele não encontrasse boas novas, é natural que voltasse logo, ou escrevesse mais tarde.

¯ Leia, leia então, meu amigo.

A carta dizia que a Sr.ª D. Ângela, no dia imediato, saía para as Boticas, com seu marido e filho. Acrescentava que a fidalga vivia muito pobre, e casada com um plebeu.

¯ Ela será rica, e ele nobre... – murmurou o senhor do paço de Gondar.

¯ Todavia – observou o filho do sacristão – mais grato seria a vossa excelência que ela houvesse casado com homem de geração histórica.

¯ Todas as gerações são históricas, Sr. Costa – acudiu o conde. – A geração da plebe francesa da minha mocidade é a mais histórica de quantas houve. Está enganado, doutor, comigo, pelo menos. Eu casei com uma pastora dos rebanhos dos meus caseiros. Chamava-se Josefa Salgueira. Amei-a como se ela descesse dum trono para me receber. Ao mesmo tempo que a pastora morria de dor por me ver ferido, a imperatriz da Rússia era uma devassa, e a rainha de Portugal era... a esposa do Sr. D. João VI... Vamos ao caso: vem minha filha? Dê-me agora os parabéns, e deixe-me apertar-lhe a mão de profetisa, Sr.ª D. Maria...

¯ Vai ver a sua filha... – balbuciou Ângela. – Que transportes de santa alegria vai ter a ditosa senhora!...

¯ Que tem de mais a mais um filho para brincar com o Antoninho... – acrescentou o general com pueril contentamento, rindo com estranho gesto. – Ó doutor, nesse dia dá-me luz em abundância? Entra o Sol neste quarto?

¯ Sim, senhor conde. Nesse dia, luz à discrição!

XXX

Finalmente

E o dia chegou.

Ângela, de manhã, pediu vênia ao conde para ir esperar a Monte Alegre sua filha.

¯ É de grande honra que ambos recebemos – agradeceu o velho – mas, minha senhora, peça a seu marido que me tire dos olhos estes veuzinhos escuros, e consinta que entre uma réstia de sol à chegada de Ângela.

¯ Eu vou recomendar o seu justo pedido, senhor conde – disse Ângela, e simulou sair de casa.

Francisco substituiu os vidros por outros mais claros nos olhos do convalescente e mandou abrir as janelas da saleta, por feição que o interior da alcova recebesse bastante luz.

O rosto do velho banhara-se de consolação, vendo distintamente Joana, e o menino que lhe brincava com os óculos, pondo-os no próprio nariz e chamando-se papão.

¯ Venho ajudá-lo a vestir, senhor conde – disse o facultativo. – Pode vossa excelência passar da cama para a preguiceira, se lhe apraz.

¯ Se eu pudesse... Mas as pernas, doutor?

¯ As pernas hão de ser medicadas com bifes e vinho do Porto. Queremos exercício, apetite, e bom estômago. Toca a levantar, meu general.

Ergueu-se trôpego e amparado a Francisco. Depois de vestido, olhava para o sobrado, e chorava de alegria, dizendo:

¯ Já vejo o chão que piso... Saí da sepultura...

¯ Ora, senhor conde – tornou o marido de Ângela, depois que o reclinou no canapé. – Vossa excelência deve preparar-se para ver sua filha, como pai, mas também como homem. Se receia grande abalo, predisponha-se para rebater as expansões nocivas à sua compleição debilitada.

¯ Não há de haver dúvida. Já estou preparado... Sinto o coração; mas coração de setenta anos.

Anunciou-se a chegada de Ângela.

O conde sentou-se com esforçado ímpeto.

¯ Então! – acalmou Francisco. – Não quero grandes movimentos, senhor conde!...

¯ Oh, doutor? Não me deixa ser ao menos pai! – sorriu o velho.

Ângela entrou vestida como em casa, apenas coberta duma capa de pano preto. Acercou-se do pai, ajoelhou, e abraçou-o pela cintura. O conde inclinou a face para a cabeça dela, e murmurou:

¯ Deixa-me ver a tua face, minha filha.

Ângela encarou-o entre risonha e lagrimosa. O velho contemplou-a com a fixidez duma vista débil, beijou-a na fronte, e disse:

¯ Benvinda sejas!... És a minha pobre Ângela!... Perdoa à tua fatalidade e à minha... Levanta-te, e senta-te aqui ao meu lado.

Joana, Vitorina e João Pedro choravam soluçantes.

¯ Por que chora esta gente? – perguntou o general.

¯ A satisfação de ver Deus neste lance – disse Francisco.

¯ Então, alegrem-se! – tornou o conde. – Ângela, que é de teu marido e teu filho.

¯ Meu marido está aqui... – e apontou Francisco.

¯ Onde? Quem? teu marido!... Quem é?

¯ Eu, senhor conde! – disse Costa, inclinando-se a beijar-lhe a mão. – Antoninho, vem cá...

A criancinha correu aos braços do pai, que o levantou aos lábios do avô.

¯ Deixem-me pensar nisto que é um sonho, meu Deus! – volveu o general. – Tu, Ângela... és a esposa... de Francisco Costa...

¯ Sou, meu pai..

¯ Estou, portanto, em casa de minha filha... do meu genro... És o anjo que me velavas de noite... és, minha Ângela?... Aqui me trouxe Deus, a restaurar a luz da minha alma, e a descerrar as trevas dos meus olhos para vos ver, meus filhos!

¯ Senhor conde – disse o cirurgião muito comovido. – Eu queria evitar-lhe lágrimas; mas não sei se me enganaria, porque também comigo me enganei. O que mais me comove é pensar eu que vossa excelência tardou tanto em procurar o puro e santo coração de Ângela. Eu ofereço a vida de meu filho a Deus que me castigue o temerário juramento: juro por Deus que não há uma nódoa na alma de sua filha, senhor conde. Eu, marido dela, defendo-a, perante seu pai, porque ninguém mais se erguerá contra o mundo que a calunia. Eu, operário pobre, cirurgião nestas pobres montanhas, não encareço as virtudes da filha do fidalgo abastado: exalto-a, porque é ela a companheira da minha vida honrada, será sempre a graça divina que cobre do ouro da alegria estas paredes nuas, este desaconchego de regalos, isto que vossa excelência já vê com seus olhos. Não demorarei a explicação do processo um pouco estranho por que vossa excelência veio a encontrar Ângela, podendo desde que aqui entrou saber que era ela quem passava as noites à cabeceira de sua cama. Eu receei que o senhor conde desprezasse ainda sua filha quando entrou nesta casa. Conheci que felizmente me enganara; mas sobreveio o medo dos incidentes fatais da operação, quando grandes excitações morais implicam a placidez do curativo. Quis preparar o seu ânimo com delongas; preveni-lo de hora a hora para receber sua filha sem surpresa. Esta de ser ela a esposa do seu facultativo cuidei eu que seria grata a vossa excelência. Não será de vexame ao nobre conde que o marido de sua filha seja o cirurgião que teve a ventura de lhe abrir os olhos para que visse a criatura feliz que primeiro trilhou todas as vias dolorosas por onde pode ir a honra de uma mulher até ao calvário, em que o mundo costuma crucificá-las na ignomínia. Ela aí está, senhor conde, a sua filha Ângela. Ainda vossa excelência não viu ao lado dela a sua antiga criada que, desde os dois anos, a acompanhou, e lhe matou a fome com os cordões ganhados no serviço de seu pai e sua tia.

¯ És tu, Vitorina! – exclamou o conde. – Pois tu vives, mulher, e não abraças o teu amo!

¯ Não, que vossa excelência chamou-me velha, e fez rir as minhas amas, a zombar de mim!

E, dizendo, abraçou-se-lhe aos joelhos, e beijou-lhe as mãos, lavando-lhas de lágrimas.

Nesse lance anunciou-se o primo Pizarro, com outros fidalgos flavienses que pediam a honra de ser apresentados ao senhor conde de Gondar.

¯ Que entrem – disse o general. – Mando como em casa tua, minha Ângela.

Pizarro foi com os braços abertos felicitar o velho que exclamou:

¯ Saiu-me a cara que eu imaginava, primo Pizarro. Parece-se bastante com o general seu tio. Aqui estou com os meus olhos envidraçados; mas conheço tudo que Deus criou, e já sei que hei de ir vendo terra até ela se abater debaixo dos meus pés. Apresento a vossa excelência, e aos seus amigos que me honra, Ângela da Costa, futura condessa de Gondar.

¯ Quem? – inquiriu o pávido fidalgo.

¯ Ângela, minha filha, casada com meu genro, o Sr. Francisco José da Costa. Agora, minha querida Ângela, se crês que Deus tem na terra os seus agentes para os grandes fins de premiar ou punir, vai abraçar aquele cavalheiro que foi o mensageiro providencial que me trouxe aqui.

Ângela inclinou-se nos braços respeitosos de Pizarro, que, mal cobrado do seu assombro, disse:

¯ Sr.ª D. Ângela, vejo que Deus tomou a si o encargo de a vingar da sociedade.

Conclusão

Restaurado de forças físicas à proporção que a alma lhe remoçava, o conde ordenou, em tom militar, que toda a sua família das Boticas se transferisse para Ponte do Lima. Francisco José da Costa contrariou seu sogro, alegando que se tinha contratado por tempo de três anos com o município, e não podia deixar os seus doentes, sem que o seu lugar estivesse ocupado. O conde tais artes usou, de inteligência com Pizarro, que dias depois um médico, com vntajosíssima oferta pecuniária do conde, se oferecia a substituir Costa.

Mudou-se a família para Ponte.

Dias depois, Ângela era agraciada com o título de condessa de Gondar, e seu marido participante do título, em duas vidas.

Francisco Costa, lendo o ofício do ministério do Reino, dirigiu-se ao sogro, e disse risonho:

¯ Um operador de cataratas conde! Meu querido amigo! Não queira vossa excelência afugentar de mim os doentes pobres que precisam dos meus serviços! Os enfermos indigentes que tem um colmeiro de palha como leito não ousariam chamar à sua caverna um conde. O pobre que se chama simplesmente Francisco folga e alegra-se de poder chamar Sr. Francisco ao irmão que lhe faz a receita. O título que vossa excelência pode sem custo e com muitíssimo proveito dar ao marido da condessa de Gondar, é permitir que ela pague do seu bolsinho ao boticário as receitas que eu mande aviar, e dar-ma também como auxiliar na cura dos pobrezinhos que adoecem de fome e frio.

O conde de Gondar viveu dez anos a mais ditosa existência de velho. Ainda viu seis netos à volta dele, perfumando-lhe de primaveras aqueles dez invernos cheios de sol.

Morreu aos oitenta, encostando serenamente a face sobre o braço da filha, que lhe dava a oscular a Cruz de Cristo.

Um ano antes tinha descido abençoada à sepultura aquela primorosa Vitorina, legando os seus cordões restaurados, e um bom casal que lhe dera Ângela à filha mais velha de sua ama.

Vivem atualmente a condessa de Gondar, o marido, que ficou sempre Francisco José da Costa, seis filhos, o mais velho dos quais, aquele Antoninho, nascido nas Boticas, é o mais requintado aristocrata do Minho, e aturde os seus condiscípulos da Universidade contando-lhes legendas do Paço de Gondar, de que ele vem a ser o vigésimo senhor. A legenda que ele ignora é a de sua avó D. Maria d’Antas.

Ângela tem hoje quarenta e nove anos. As rugas não ousam ainda combater a mocidade renascida naquele coração. Cinco meninas formosas que a seguem à missa passam pelo desgosto de ouvir dizer:

¯ A mãe é melhor que as filhas.

Quem ainda vive, a competir com os velhos robles do Paço de Gondar, é João Pedro, que pediu a sua reforma, e está feitor nominal do condado.

Na véspera de Natal vem sempre a Ponte consoar com “a sua gente”, diz ele. E depois que as rabanadas e o Porto lhe aguçam a memória, costuma dizer todos os anos, a sós com Ângela:

¯ Ó senhora condessa!... mal diria eu quando a vi casada com aquele Hemorragilde!...

Ângela, com quanto já conheça, de antemão, o gracejo obrigado da noite de Natal, aplaude sempre com uma risada e dois piparotes na orelhas musgosas do macróbio.

Epílogo

Concluído o livro, suja-se uma verdadeira lauda com as escavações que mandamos fazer nos pântanos desta história.

Descobriu-se através de fétidos esgotos, que os três amigos e herdeiros de Hermenegildo Fialho de Barrosas ainda respiram a medram.

Atanásio José da Silva é barão da Silva.

Pantaleão Mendes Guimarães é barão de Mendes Guimarães.

Joaquim Antônio Bernardo, como não tinha apelido, apossou-se da quinta dos Choupos, que lhe fora hipotecada na dívida fantástica de Fialho, e fez-se barão dos Choupos.

Ainda há mais um título.

O marido de Rosa Catraia, retirado à terra onde nascera, Cabeceiras de Basto, fez-se influente político, principiando em regedor, depois camarista, presidente do município, e administrados substituto do conselho.

Lutador acérrimo em eleições de deputados, vingou levar ao parlamento um sobrinho de Rosa, formado à sua custa. A comenda que o agradecido bacharel lhe enviou fez saltar a rolha da cornucópia das graças, que mais se retorcia de vergonha sua e da pátria, como se uma e outra pudessem já alegar pudor, e negar-se a solicitações de infames.

Rosa Catraia é, pois, baronesa de Vilar d’Amôres, título um tanto lírico e romanesco, bem ajustado às escarlates bochechas e túrgidos seios que ressumbram bestidade, saúde, alegria e lubricidade seródia.

As outras baronesas, bastante mais avelhantadas, representam os estragos da corrupção moral nas pessoas, e o despejo da corrupção política nos títulos.

FIM

Fonte: bibvirt.futuro.usp.br

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