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Os Brilhantes do Brasileiro

Camilo Castelo Branco

I

Aflições sudoríferas

Em um frigidíssimo dia de janeiro de 1847, por volta das nove horas da manhã, o Sr. Hermenegildo Fialho Barrosas, brasileiro grado e dos mais gordos da cidade eterna, estava a suar, na rua das Flores, encostado ao balcão da ourivesaria dos Srs. Mourões. As camarinhas aljofravam a brunida testa de Fialho Barrosas, como se a porosa cabeça deste sujeito filtrasse hidraulicamente o estanque de soro recluso no bojo não vulgar do mesmo.

Era o suor respeitável da mortificação; o esponjar das glândulas pela testa, quando as lágrimas golfam dos seus poços, e não bastam já olhos a estancá-las. Era, enfim, a dor que flameja infernos em janeiro, e tira dum homem adiposo e glacial lavaredas, como o Etna as repuxa por entre as neves do seu espinhaço.

Sondemos o que se passa dentro daquele corpo, e desinchemos as bochechas do estilo.

Hermenegildo Fialho tinha recebido, às oito da manhã, no seu escritório de consignações e descontos na rua das Congostas, um bilhete da ourivesaria Mourão, convidando-o a entrar naquele estabelecimento, quando pudesse, para negócio urgente.

O substantivo “negócio” abalou-o. O adjetivo “urgente” sacudiu-o.

Pôs o chapéu, revestiu de borracha os pés impermeáveis, afligindo-os; enroscou a cara no “cachenez”, sobraçou o guarda-chuva, e foi impando, costa acima, pelo largo de S. Domingos, resmoneando no íntimo de si: “Negócio urgente!... que diabo de urgente negócio será este com o ourives!?...”

¯ Então que temos? – perguntou o esbofado Barrosas, e sentou-se na gemente cadeira.

E os Srs. Mourões disseram pouco mais ou menos o seguinte: Que, seis anos antes, ele, brasileiro, lhes havia comprado um adereço de brilhantes, composto de gargantilha, brincos, broche e bracelete, por 6.500$000 réis, com o fim de presentear sua noiva, segundo ele comprador declarara. Que, passados sete meses, pouco mais ou menos, uma mulher desconhecida entrara na loja, e lhes vendera um brilhante desengastado por 250$000 réis. Seis meses depois haviam comprado à mesma mulher outro de igual quilate e valor. Corrido o mesmo prazo, outro lhes fora oferecido e vendido. Que, no fim dum ano, um ourives vizinho lhes tinha negociado um brilhante de cem libras, o qual lhes despertara reminiscência de ter sido vendido em sua casa; mas, por mais que avivaram lembranças, não recordaram a quem. E, volvido pouco mais dum ano, diverso ourives lhes vendera outro brilhante do mesmo preço, dizendo que o

comprara a um joalheiro espanhol. Não obstante, insistiam em afirmar que as duas últimas pedras tinham já sido deles; sem todavia desconfiarem de roubo. Acontecendo, porém, que oito dias antes, uma mulher com jeito de criada, a mesma que primeiro lá tinha ido, lhes levasse uma pulseira, para se engastarem pedras falsas no encaixe de outras já desencravadas, a desconfiança inclinou-se logo para roubo. Ficou a pulseira, e depressa reconheceram que era de sua casa, e daí a suspeita de que os brilhantes comprados lhe houvessem pertencido. Os dois maiores ainda existiam soltos. Ajustaram-os nos engastes: frisavam perfeitamente. Recordaram com mais seguras probabilidades, e convieram na presunção que a pulseira era parte das jóias do noivado comprados pelo Sr. Barrosas, seis anos antes. E, na incerteza, deliberaram prudentemente reter a mulher, quando ela viesse buscar o bracelete, certos de que, a ser a jóia do Sr. Fialho, por força se praticara roubo, sendo improvável que um sujeito notoriamente rico mandasse vender brilhantes e repor minas novas na pulseira de sua esposa...

¯ Deixe-me cá ver! – atalhou o brasileiro. – Mostre-me isso!

Mostram-lha.

Era a pulseira de Ângela.

Aqui principiou a borbulhar um sumo gomoso e crasso da testa do homem.

¯ É de minha mulher, acho eu! – tartamudeou ainda indeciso o Sr. Fialho. – Que é da criada?

¯ Está na polícia porque tentou fugir. Se vossa senhoria quer, vai um cabo buscá-la.

¯ Bom será, que eu não posso mexer-me... Parece que me arde o interior! Dão-me os senhores um copo de água, se fazem favor... Isto só no inferno! – prosseguiu o Sr. Barrosas, batendo na testa com os pulsos. – Minha mulher não vendia os brilhantes! É impossível! Vendê-los p’ra quê? P’ra quê, não me dirão os senhores?

¯ Pode ser que estejamos enganados – observou um dos honrados ourives; - mas o esclarecermo-nos é tão necessário para vossa senhoria como para nós. Se nos iludimos, ficamos contentíssimos e sossegados. As nossas suspeitas não ofendem ninguém senão a criada. Enfim, cumprimos um dever.

¯ Fazem muito bem – obtemperou o brasileiro; - mas minha esposa não vendia os brilhantes... Roubar-lhos a criada? Isso pode ser; mas... Que figura tem ela?

¯ Baixa, gorda, mais de meia idade, vestida limpamente.

¯ Os sinais são dela... Tem uma verruga no nariz, assim do feitio de ervilha?

¯ Não reparei...

¯ E um dos olhos assim a modo de vesgo?

¯ Parece que sim... Ela não pode tardar.

¯ E então os senhores – volveu o brasileiro com outro gesto de cara e tom de voz mais afinado – se os brilhantes forem meus, como há de isto ser?

¯ Como há de ser?!...

¯ Perdi-os, hem?

¯ Isto é outra questão

¯ Que questão? Eu acho que não há questão nenhuma... Se os senhores compraram uma coisa roubada...

¯ Provado o roubo, iremos haver a importância dos dois brilhantes ultimamente comprados ao ourives que no-los vendeu; quanto aos que compramos a pessoa desconhecida, posto que já não estejam em nossa casa, restituiremos o seu valor, se vossa senhoria quiser; mas seria justo e honroso que o Sr. Fialho não sacrificasse quem o acautelou, para evitar que lhe roubem as outras jóias. Do contrário, teríamos de nos arrepender dum zelo que nos vem prejudicar...

Neste comenos, chegou a criada com o municipal e cabo de polícia.

¯ É ela mesma! Cá está a ladra! – bradou o brasileiro. – Com que então roubaste a pulseira de tua ama?!... Diz lá! Não respondes?

A criada abaixou a cabeça, e fechou hermeticamente os beiços, como se receasse que alguma palavra lhe fugisse.

¯ Que dizes tu, Vitorina? – bradou o amo. – Onde tens o dinheiro dos meus brilhantes? Diz onde está o dinheiro que eu não te meto na cadeia... Declaras ou não? Olhem a ladra que não tuge nem muge! Já viram? Olha que te rebento, mulher! Falas? Roubaste os brilhantes?... E esta! Nem palavra! Justiça com ela! Enxovia, até declarar onde está o meu dinheiro!...

Os circunstantes, espantados do silêncio da criada e talvez suspeitosos dalgum mistério talvez justificativo da inculpabilidade dela, instavam-na a responder.

¯ Perderia a fala com o susto – aventou o cabo, e sacudiu-a pelos ombros para lhe desemperrar a língua. – Você não pode falar, criatura? Que fez você ao dinheiro dos brilhantes?

¯ Gastei-o... – respondeu ela, soluçando.

¯ Ah! Já confessou? – interveio Hermenegildo. – Cadeia com ela, que eu cá vou a casa ver se me falta mais alguma coisa. Há de ir degredada.

II

1.600$000 Réis!

Estava Ângela na janela da sua casa na “rua do Bispo”, quando o marido surdiu da esquina da “Praça nova”. Reconheceu-o logo pela corpulência redonda. Retraiu-se da janela, e disse consigo, assustada:

¯ Há novidade! O coração bem mo dizia... Meu marido nunca vem a casa a esta hora! E Vitorina sem chegar!... Que seria!...

O resfolegar de Fialho, escada acima, cobria o estrondo dos pés nos degraus que rangiam.

¯ Ângela! Ângela! – clamava ele.

¯ Que é?

¯ Dou-te parte que estás roubada! – bradou o esferóide.

¯ Roubada! – gaguejou a esposa.

¯ Sim! roubada, tu! Aqui tens o teu bracelete sem os brilhantes. Conhece-lo? Vê lá que ladra saiu a tua criada favorita! Um conto seiscentos e cinqüenta mil réis de pedras... foi-se! E tu sem dares tino disto, mulher! Viste?

A pulseira tremia nas mãos convulsivas de Ângela.

E o marido prosseguia:

¯ Aqui tens! Tirou-lhe as pedras boas, e tinha a pulseira nos Mourões para lhas encravarem falsas. Lá está na administração a ladra, e de lá vai p’ra a cadeia, onde há de morrer; mas o meu conto, seiscentos e cinqüenta mil réis, esse é que não torna.

Ângela chorava, soluçante.

¯ Não chores, menina! – acudiu o Sr. Barrosas. – Olha que isto não abala a nossa fortuna...

¯ Ó meu Deus! – balbuciou a senhora, com as mãos nas faces.

¯ Não te aflijas que eu compro-te outra pulseira, mulher... Deixa-me cá por minha conta a criada; que essa, ou eu não hei de ser Hermenegildo, ou ela há de morrer na enxovia.

¯ Que infortúnio, Jesus, que infortúnio! – bradou ela desafogando-se a custo dos soluços.

¯ E ela a dar-lhe! Tem ânimo, Ângela! Já te disse que te dou outra pulseira. Sou muito rico, graças a Deus! Da ladra da moça eu te vingarei!

Ângela cobrou alento, ergueu a face, enxugou as lágrimas, e disse serenamente:

¯ Não prendas a criada que ela está inocente!

¯ quê?!

¯ Vitorina não roubou os brilhantes.

¯ Então quem diabo os roubou?

¯ Mandei-os eu vender.

¯ Tu?! P’ra quê? O dinheiro deles que lhe fizeste? – exclamou o marido, fazendo ambos os pés atrás, e tressuando novos repuxos de aflito suor. – Tu mentes, Ângela! Dizes isso para livrar a criada, não é verdade?

¯ A verdade é que Vitorina está inocente. Castiga-me a mim, se queres, que os brilhantes foram vendidos por minha ordem – tornou ela com admirável serenidade.

¯ Que fizeste ao dinheiro, tu? – ululou Fialho, sopesando com as mãos o arquejar do abdome.

¯ Gastei-o.

¯ Em quê? Não tinhas o que te era necessário?!

¯ Tinha; mas... gastei o dinheiro...

¯ Com quem? com quem? – tornou a perguntar. – Com dez milhões de diabos, com quem gastaste um conto e seiscentos e ...

¯ Não foi em coisas que me desonrassem, nem a ti...

¯ Então diz em que foi?

¯ Não posso.

¯ Não podes? Raios!... pois não podes? Então quem é que pode?

¯ Não posso.

¯ Arrebento! Tu não me cegues, mulher! Olha que eu já te não vejo nem enxergo! Com quem gastaste um conto e seiscentos e...

¯ Mata-me que te perdôo a morte – volveu ela tranqüilamente. – Morrerei sem remorsos nem vergonha. As jóias de minha mãe valem quatro a cinco contos de réis. Faz de conta que estás pago do roubo que te fiz: lá as tens.

¯ A história não é essa, não é o dinheiro... – replicou briosamente o marido. – O que se quer saber é a quem deste o capital?

¯ A quem o precisava para não ser infeliz.

¯ Essa é boa! Então deste um conto e seiscentos e cinqüenta mil réis de esmola?

¯ Dei.

¯ Mas a quem? a quem? com dez milhões de...

¯ Não te posso dizer mais nada, Hermenegildo... A criada está inocente. Não a prendas.

¯ Há de ir presa até dizer a quem deste o dinheiro

¯ Ela morrerá sem o dizer.

¯ Pois há de morrer... – vociferou Barrosas saltando e batendo com os dois pés em cheio no soalho. – E tu... não sei o que será de ti...

¯ Mata-me que eu não tenho pena de deixar o mundo... – murmurou sossegadamente, mas debulhada em lágrimas, a pálida senhora.

Hermenegildo rolou a sua pessoa fumegante escadas a baixo. Entrou no escritório do administrador, chamou de parte a autoridade, e contou-lhe o ocorrido com a mulher, insinuando o magistrado a sacar da criada o segredo.

¯ O meu dever é aceitar as declarações voluntárias da criada – disse o administrador. – Não posso incutir-lhe terrores, nem devassar os segredos da vida doméstica de vossa senhoria. Se sua senhora diz que a criada está inocente, a confissão da ré não basta a destruir o depoimento da ama, sendo de mais a mais muito natural que os brilhantes se hajam vendido por consentimento de sua esposa; aliás, desde muito que ela teria dado pela falta. Enfim, sou obrigado a interrogar a ama e a crida, uma na presença da outra.

¯ Essa vergonha é que eu não quero! – obstou desabridamente o brasileiro.

¯ O interrogatório há de ser secreto: não há testemunhas que divulguem este ato impreterível de justiça – contraveio a autoridade. – Se sua senhora disser de modo convincente: “a criada cumpriu as minhas ordens”, é certo que a moça não pode ser pronunciada, visto que obedeceu a sua ama; e os desvios dos bens comuns feitos pela esposa não é roubo, nem a cumplicidade da criada é punível. Se sua esposa foi burlada por algum industrioso, e quiser declarar-se, o meu dever é seguir o fio do enredo; mas o que eu não posso é interrogá-la sobre segredos da sua vida íntima. Isso pertence a vossa senhoria mediante processo de outra natureza...

¯ Então... afinal diz-me vossa senhoria que... – interrompeu o brasileiro, zangado.

¯ Que vou mandar chamar sua senhora...

¯ Pois chame! – bradou ele. – Este negócio há de aclarar-se... Não se me importa a vergonha nem o diabo! Eu sou um homem de bem, Sr. Administrador!

¯ Quem o duvida?

¯ Ninhos atrás das orelhas não mos fazem!

¯ Com razão...

¯ O meu dinheiro quero saber que fim levou...

¯ Essas averiguações é que são delicadas, Sr. Fialho, - aconselhou a autoridade. - E parecia-me razoável e prudente que vossa senhoria as guardasse para o secreto da sua casa.

¯ Mas ela não o diz!

¯ Se o não diz a vossa senhoria, menos o dirá a mim ou ao juiz...

¯ Diz que deu um conto e seiscentos e cinqüenta mil réis de esmolas! O senhor acredita isto?

¯ Acredito;... porque não? Se ela repartisse por todos os infelizes do Porto essa grande quantia, estou em que não chegaria um pinto a cada pobre.

¯ Mas então a criada que diga a quem levava as esmolas. Dá-me vossa senhoria licença que eu pergunte?

¯ Sim, senhor – respondeu o administrador, e, tangendo uma campainha, disse o oficial de diligencias:

¯ Essa mulher que entre aqui sozinha.

Entrou Vitorina.

¯ Responda ali a seu amo – disse a autoridade à presa.

Hermenegildo assoou-se, fez duas upas na cadeira, roçou no pavimento as espaciosas plantas, e rompeu neste interrogatório:

¯ quem roubou os brilhantes?

¯ Fui eu, senhor.

¯ Mentes! Os brilhantes foi tua ama que tos mandou vender!

Vitorina estremeceu, fitou o administrador, e gaguejou palavras imperceptíveis.

¯ Foi sua ama que mandou vender os brilhantes? – interveio a autoridade.

¯ Não, senhor... Fui eu que os... furtei.

E as lágrimas derivavam-lhe pelas faces copiosamente.

“Esta mulher está inocente!” disse entre si o interrogador.

¯ Mentes, desavergonhada! – trovejou o Sr. Fialho, jogando com as catapultas dos braços à cara da criada.

¯ Levemos isto mais moderadamente, Sr. Barrosas, - admoestou o administrador. – ora diga-me, mulher, foi vossemecê mesma que vendeu os brilhantes?

Demorou-se Vitorina em responder:

¯ Fui, sim, meu senhor.

¯ A quem?

Repetiu-se a mesma tardança na resposta.

¯ A quem os vendeu? Aos ourives Mourões? – repetiu o funcionário.

¯ Sim, senhor.

¯ Todos?

¯ Sim, senhor.

¯ Está vossemecê mentindo. Os Mourões compraram três pedras a uma mulher, que provavelmente era vossemecê, e duas a um vizinho. Como explica vossemecê esta verdade com a sua mentira?

A mulher abafava com soluços.

¯ Seja verdadeira; vossemecê não roubou os brilhantes; vendeu-os por ordem de sua ama...

¯ Não, senhor – acudiu a criada com veemência.

¯ Não me desminta, que logo vai ser sua ama interrogada na sua presença, e ela mesma já disse ao Sr. Fialho que vossemecê não furtou a pulseira.

¯ O que eu quero – intermeteu-se o brasileiro – é saber a quem tua ama dava o dinheiro.

¯ Isso é que eu não quero saber enquanto sua senhora se não queixar de que foi lograda fraudulantamente – emendou o administrador do bairro. – Já disse a vossa senhoria que esta repartição judiciária não é confessionário, nem entende com a moralidade dos atos domésticos, entre casados, enquanto eles se não queixam competentemente. Da minha competência é saber como hei de enviar esta mulher ao juízo criminal. Ela teima que roubou os brilhantes; a esposa de vossa senhoria declara que os mandou vender. O meu juízo está feito; mas...

¯ Então qual é o juízo do Sr. Administrador? – interrompeu o queixoso.

¯ É o juízo do Sr. Fialho.

¯ O meu?!

¯ Sim: o senhor diz que foi sua esposa quem mandou esta ou outra mulher vender as pedras; eu digo o mesmo.

¯ Mas quem me há de a mim dizer o caminho que levou o dinheiro? Um conto seiscentos e...

¯ Sua senhora, se quiser.

¯ Mas esta mulher sabe-o.

¯ Vossemecê sabe-o, mulher? - perguntou a autoridade sorrindo.

¯ O quê, meu senhor?

¯ Sabe o que aquele senhor deseja saber?

¯ Sabes a quem tua ama dava o dinheiro dos brilhantes? – perguntou o amo com estrondosos berros.

¯ Que brilhantes?

¯ Os brilhantes que ela te mandava vender.

¯ Não me mandou vender nada.

¯ Então roubaste-los tu?

¯ Sim, senhor.

Hermenegildo sobrepôs os braços um no outro, transversalmente apoiados no estômago, e começou a dar com eles de modo que tiravam um som de timpanites das cavernas subjacentes.

¯ Já viram pouca vergonha deste feitio? – gritava ele. – Veja vossa senhora se isto não é para endoudecer um homem!

E, levantando-se com prodigiosa rapidez, exclamou:

¯ Vou consultar, os meus amigos sobre o que devo fazer; vossa senhoria faça a sua obrigação. O negócio é muito sério. Hei de sair com honra desta tramóia. Sou um homem de bem. Quem quiser saber quem é Hermenegildo Fialho Barrosas, pergunte-o aí na praça do comércio do Porto.

¯ Sei que é honrado capitalista, Sr. Fialho! Quem lhe nega as suas excelentes qualidades?

¯ Vossa senhoria parece que está disposto a favor dos criminosos! – retorquiu o ricaço, esbofeteando uma mosca na testa.

¯ Quem são aqui os criminosos?

¯ Não sei! Não entendo esta balbúrdia!

¯ Sua senhora diz que mandara vender os brilhantes. Quer que ela seja enviada ao juízo criminal com o labéu de ladra? – volveu o administrador agastado.

¯ Não quero isso! Quero saber quem recebeu o dinheiro.

¯ Não posso esclarecê-lo.

¯ O dinheiro gastei-o eu – repetiu Vitorina.

¯ É o que vamos ver.

Disse, e tangeu de novo a campainha o funcionário, mandando o oficial que intimasse a Sr.ª D. Ângela a comparecer na administração.

¯ que vem ela cá fazer?! – exclamou Vitorina com aflição. – Minha ama não tem que fazer nesta casa!

¯ Cá se avenham! – disse o brasileiro, e saiu em cata dos seus amigos.

III

Retratos do natural

Os amigos do Sr. Fialho, àquela hora, estavam em grupo na calçada dos Clérigos, à porta do imaculado capitalista.

Hermenegildo chamou-os à sala do primeiro andar daquele prestante amigo dos brasileiros, e falou deste teor:

¯ Meus amigos velhos! Srs. Atanásio José da Silva, Pantaleão Mendes Guimarães e Joaquim Antônio Bernardo!...

Interrompa-se a apóstrofe, e desenhemos as proeminências morais características destes sujeitos invocados a conferir e alvidrar num pleito de honra.

O Sr. Atanásio tem quarenta e oito anos, é capitalista, casado, sócio que foi de molhados com o Sr. Fialho, bom vizinho, cidadão pacífico, e aos costumes disse nada. Porém, o povo reza que ele, apanhando em flagrante a esposa numa excursão filarmônica às esferas sonorosas com um caixeiro, tão duro e miúdo tocara o compasso no caixeiro com a batuta de uma tranca, que o rapaz expulso a coices chegou à terra natal e expirou oito dias depois, contando o segredo a sua família.

A esposa de Atanásio, depois de encerrar-se quinze dias no seu quarto, viu abrir-se a porta à força, fez o ato de contrição para morrer cristãmente, e ia expirar de pavor, quando o marido lhe abriu os braços e disse: “Estás perdoada; mas, se fazes outra, escavaco-te”. Desde então o porte desta senhora reduz as Fúlvias e Marcelas a condições indignas dos gabos históricos. Pecadora que passe por ela é visão que a enjoa e adoenta. As filhas, quando a escutam discretar em virtudes, cuidam que sua mãe é uma mulher da Bíblia.

Quanto a probidade mercantil, Atanásio José da Silva é contrabandista, e, algum tempo, ia mensalmente à estalagem da Ponta-da-Pedra, em três carruagens de recreio, com sua família e as famílias dos dois amigos presentes, receber cortes de seda, cambraias, rendas e pelames ingleses. Conforme à justiça e às manhas do Porto, a firma de Atanásio é das mais acreditadas na praça, e as gazetas, quando escrevem Atanásio José da Silva, antepõem-lhe ao nome os adjetivos honrado e probo; e, se acontece ir para Caldas ou praias com a mulher, vai sempre o “honrado capitalista com sua virtuosa esposa”.

Pantaleão Mendes Guimarães, quarenta e cinco anos, capitalista, armador, antigo negreiro e “engajador” moderno. Há doze anos que uma frescassa loureira, chamada Francisca Ruiva, lhe coou filtros cupidíneos através das enxúndias do peito, e lhe atorresmou os toicinhos da alma. Pantaleão trasladou do bordel às alcatifas de sua casa a Ruiva saudosa do lundum chorado, investiu-a da governança da despensa, e mais tarde esposou-a, no intento de condecorar socialmente a lama que trouxera do alcouce. E, de feito, D. Francisca Mendes, neste ano de 1847, já logrou a satisfação de se ver também caluniada de “esposa virtuosa” nas gazetas.

Joaquim Antônio Bernardo, negociante por atacado de fazendas brancas, quarenta e um anos, estúpido perversíssimo, antigo gandaieiro, que passara uma doce mocidade subtraindo açúcar mascavo das caixas expostas no Terreiro do Paço, e atual irmão da Misericórdia do Porto e fiscal da mesma. Casou com a mais desbragada polha que deu a Maia, e arreou-a de veludos e cetins para a passear nas praças do Porto com a gáudio dum cornaca vaidoso que expõe o seu elefante ajaezado bizarramente. Esta Lais de trapeira, quando passa espeitorada, recende e trescala o fartum das excreções cutâneas.

Não obstante, a sua recâmara não inveja à de Lésbia o cevo de delícias em que a maiata, Circe digna dos javardos que a esfoçam, ganhou renome que bastaria a felicitar três colarejas. Esta dama já se viu, num periódico, em que se dava conta dum seu baile, nomeada de “ilustre e distinta”. Ambos os epítetos lhe quadravam, ocultos os substantivos. Não o tratavam de virtuosa, porque o localista receou que o termo, revendo ironia, lhe fechasse as portas do seguinte baile.

Eis aqui muito em escorço esboçados os traços dos três amigos de Hermenegildo Fialho Barrosas.

Deixá-lo falar agora.

IV

Tribunal de honra

¯ Amigos e senhores – prosseguiu Fialho – a razão desta chamada vão vocês sabê-la!

¯ Você parece que está aflito, Sr. Hermenegildo?! – acudiu magoadamente Pantaleão.

¯ Se lhe parece!... É um caso de honra e que me há de atirar à cova!

¯ Ora deixe-se disso! – sobreveio Joaquim Bernardo. – Então os amigos para que servem? Aqui estamos física e moralmente para tudo que for preciso.

¯ Meus amigos! – volveu o marido de Ângela – acontece em minha casa o mais extraordinário caso que vocês ouviram...

¯ Como assim?! – interrompeu o marido de Francisca Ruiva.

¯ Negócio de mulheres!... Poucas vergonhas de mulheres!... Ainda há quem se case!... – esclareceu Fialho intercortando as palavras com uns suspiros que lhe subiam do estômago à mistura com os arrotos de bacalhau assado do almoço.

¯ De mulheres?! querem vocês ver!... – disse com espanto Atanásio José da Silva.

¯ Temos maroteira? – perguntou Pantaleão.

¯ Ouçam lá. Minha mulher vendeu cinco brilhantes da pulseira de casamento que eu lhe dei, e não diz o que fez a um conto seiscentos e cinqüenta mil réis sonante que recebeu pelos brilhantes. Aqui está o que eu tenho a dizer.

Os três conferentes levantaram-se a um tempo, cruzaram as mãos sobre os ossos sacros respectivos, e começaram a passear cada um para seu lado.

Quem primeiro parou e falou do seguinte modo foi o marido da maiata:

¯ Física e moralmente falando, sua mulher, amigo Hermenegildo, vendendo os brilhantes e dispondo do dinheiro, deve dizer o que lhe fez, por força ou por jeito. Eu cá por mim pegava dum arrocho, e dizia-lhe: “Ó minha amiga, você diz o que fez ao dinheiro, ou acaba-se aqui hoje o mundo!”

¯ Amigo Joaquim – contrariou Pantaleão. – Não voto por esse sistema, e queira perdoar. Vamos por partes. O amigo Fialho desconfia de sua mulher?

¯ Eu?

¯ Sim: parece-lhe que ela doidejou e lhe fez alguma patifaria?

¯ Eu sei cá, homem!... Vejo isto!... Ah! Esquecia-me de dizer que ela diz que deu o dinheiro aos pobres...

¯ Bem me fio eu nisso! Essa não amolo eu! – refutou Pantaleão, bascolejando nas queixadas um riso galego. – Aos pobres!...

¯ Também eu não a engulo! – concordou o irmão de misericórdia. – Que diga o nome dos pobres! Sim! queremos saber quem são os pobres. Física e moralmente falando, se ela o não disser, está provado o crime.

¯ Isso está! – obtemperou Atanásio. – E cá, se a tratantada fosse comigo, era negócio feito, percebe você?

¯ Você que faria? – perguntou Fialho.

¯ Eu?! Eu?! Então você ainda me não conhece? Eu cá era dois pontapés, e rua, percebe você?

¯ Isso não são modos! – obstou Pantaleão Mendes Guimarães. – Amigo Fialho, você averigüe esse caso com vagar.

¯ Não tenho que averiguar! – recalcitrou o marido de Ângela. – É isto que lhes digo. Gastou o dinheiro e não diz em quê.

¯ Então, convento com ela! – alvitrou o prudente Guimarães. – Um homem de créditos faz isto. Os amigos digam agora o que entenderem.

¯ Eu – opinou Joaquim José Bernardo, descascando os rebordos das ventas infectas – física e moralmente falando, também vou para aí, atendendo a que é melhor não dar escândalo. Você administra-lhe de comer e beber no convento, e não quer mais saber dela.

¯ E se lhe puser demanda a mulher?! – lembrou Atanásio.

¯ Demanda? Ora essa!... – acudiu Joaquim Bernardo. – Demanda?

¯ Sim; vamos que ela pede metade da fortuna, ou o dote de trinta contos com que o amigo Fialho a dotou?

¯ O amigo Fialho não tem nada – respondeu triunfantemente o árbitro. – Tudo que ele tem é nosso por uma escritura de dívida. Você tem procuração dessa mulher?

¯ Tenho.

¯ Então que lhe pague com um trapo, física e...

¯ Pelo que ouço – interrompeu Fialho – vocês, amigos, decidem que minha mulher se porta mal...

¯ Pois isso! – confirmou Pantaleão. – Nem dado nem de graça! Você inda duvida?!

¯ Eu, como não tenho desconfiado nem visto nada...

¯ Pudera ver... – redargüiu o fiscal da Misericórdia.

¯ E vocês tem ouvido falar de minha mulher? – perguntou Fialho.

¯ Olhe, isto de falar, fala-se de todas – respondeu o marido da maiata. – Nem a minha tem escapado, cá por certos zunzuns que me chegaram aos ouvidos; mas vêm barrados cá p’ra mim, que eu sei quem tenho...

Pantaleão e Atanásio trocaram uns lances de olhos velhacos, em que Hermenegildo entrou com o seu contingente de fino maroto.

¯ Isso é verdade – apoiou o marido de Francisca Ruiva. – A gente, se for a dar ouvidos à canalha, está perdida com a sua vida. Um homem tem sempre rabos de palha. Mas eu ando tanto ao seguro cá a respeito da minha honra, que desafio o mais pintado a dizer de minha mulher isto ou aquilo.

Desta vez os olhos de Joaquim encontraram os de Atanásio, enquanto Fialho lá entre si dizia: “Estás arranjado com a virtude de tua mulher...”

¯ Meus amigos, - disse Atanásio a seu turno – isto é terra de calunias e aleivosias. A inveja vinga-se em nos ferir no mais sagrado de nossas almas. Aqui estou eu que...

O truculento homicida do caixeiro ia fazer o elogio da consorte, quando Barrosas bradou impacientemente:

¯ Então em que ficamos, senhores?

¯ Em que ficamos?! – perguntou Atanásio.

¯ Sim! Os amigos estão aí a palavrear em objetos que não vêm à colação. Ora que tenho eu que as suas mulheres sejam isto ou aquilo? Se são boas e virtuosas, dêem graças a Deus, e tratem de remediar este contratempo.

¯ Não tem razão de se agoniar, amigo Fialho – contrariou mansamente Pantaleão. – Isto veio ao caso de você perguntar se tínhamos ouvido falar de sua mulher...

¯ Mas ouviram? – acudiu arrebatado o esposo de Ângela.

¯ Eu não! – condisseram os três simultaneamente: - mas você bem sabe – ajuntou Joaquim Antônio, ressalvando melhor juízo – que a nós ninguém dizia nada porque sabem que o Fialho e nós somos carne e unha.

¯ Sim – obtemperou Pantaleão – pode ser que haja alguma coisa; mas pelo que eu sei não perde ela.

¯ Mas vocês entendem que o dinheiro não foi para esmolas... – repisou o marido incomodado.

¯ Sim, eu... – murmurou Joaquim.

¯ A falar a verdade... – disse outro.

¯ É muita esmola... – concluiu o terceiro.

¯ Não que o administrador disse que podia ser!... – sobreveio Fialho, casquinando uma risada gosmenta.

¯ O administrador é um asno! – definiu laconicamente Pantaleão.

¯ Asno e mais alguma coisa! – obtemperou Atanásio.

¯ E então dizem vocês – tornou o brasileiro – que eu devo meter já minha mulher num convento?

¯ Pudera... – apoiou o marido de Francisca Ruiva.

¯ Deve dar esse exemplo de moral pública! – confirmou o marido da maiata.

¯ E saber quem lhe comeu os brilhantes para se lhe dar cabo da casta! – adicionou o matador do caixeiro.

¯ E isto como há de ser? – volveu meditativo o interrogador dos honrados juizes de sua dignidade. – Eu não a quero ver mais diante de meus olhos!

¯ Também nos parece acertado isso... – conveio um dos três.

¯ Pois então, é mister que os meus amigos se encarreguem de lhe dizer que se recolha a um convento.

¯ Não me nego a servi-lo, Sr. Fialho, no que puder ser-lhe útil – disse magnanimamente Atanásio. – Os amigos conhecem-se nas ocasiões, percebe você? Quer então que vamos dizer a sua mulher que é preciso já já entrar num convento...

¯ Se ela não disser a quem deu o dinheiro, nomeando os pobres um a um... – condicionou Hermenegildo.

¯ Apoiado! – aprovou Atanásio. – Se o dinheiro se foi em esmolas, então o caso muda muito de figura, acho eu.

¯ Isso é verdade – consentiu o fiscal da Misericórdia; - mas é necessário que ela não torne a cair na asneira de dar tão grandes esmolas... que eu, amigos e senhores meus, ainda que ela me dissesse os nomes dos pobres, havia de por de quarentena a galga!... Enfim, lá vamos... Amigo Fialho, descanse em nós, e espere-nos aqui.

Saíram os mensageiros, e ficou entregue às consolações do afetuoso dono da casa o agoniado marido.

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