
Mestiço
Portinari é certamente o pintor do modernismo brasileiro mais conhecido no exterior, autor dos dois grandes painéis (um sobre a guerra, outro sobre a paz) existentes no edifício-sede das Nações Unidas, em Nova York (1957). A partir da década de 40, transformou-se numa espécie de artista-símbolo e artista de exportação da nação brasileira. Realizou outros trabalhos nos Estados Unidos, inclusive na Biblioteca do Congresso, em Washington. Várias telas suas entraram para coleções particulares norte-americanas.
Mas Portinari não pertenceu à primeira geração modernista, nem, a rigor, começou como um artista moderno. No mesmo ano em que se realizava a Semana de Arte Moderna, em 1922, era, muito jovem, premiado no Salão Nacional de Belas Artes, um reduto do tradicionalismo. Só em 1931, de volta ao Brasil após dois anos na Europa, expôs no Rio de Janeiro as primeiras obras que indicavam sua necessidade de renovação, tanto temática quanto estilística. Sofreu então certa influência dos muralistas mexicanos, que aparece em Café, uma de suas primeiras grandes telas de conteúdo social. Era homem de esquerda - pertenceu ao Partido Comunista - e artista engajado, e consagrou sua obra à denúncia das mazelas do País subdesenvolvido que existia a seu redor. Um pouco influenciado também pelas fases mais dramáticas de Picasso, realizou em meados dos anos 40 obras excepcionais, como Menino Morto e Enterro na Rede. Fazem parte de uma vasta série sobre os retirantes - os emigrantes da região Nordeste do Brasil que, assolados pela seca, abandonam suas terras em busca de melhores condições de vida, sem sucesso.
Portinari colaborou também com obras de artes aplicadas, como pinturas murais e painéis em azulejos, em alguns dos primeiros projetos da arquitetura moderna no Brasil. Entre eles, o antigo Ministério da Educação, no Rio de Janeiro (risco original de Le Corbusier) e a Igreja da Pampulha, de Oscar Niemeyer, em Belo Horizonte (1944/45). E, embora não seja este seu filão mais importante, realizou ainda grandes painéis de temas históricos.
Portinari foi um artista muito dotado, um grande desenhista, um grande colorista, dono de uma técnica impecável. Justamente por isso, às vezes o acusam de um tradicionalismo disfarçado. A acusação é excessivamente rigorosa. Sua posição hoje é a de um mestre fundamental, mesmo que sem o grau de inventividade de linguagem ímpar, como o de Volpi.
"Saí correndo, tive tempo ainda de apanhar o trem em movimento. A última imagem que me ficou gravada na memória foi a de meu pai, levantara-se para se despedir, ainda posso vê-lo... não teve tempo de me dizer nada" - falando sobre sua mudança para o Rio de Janeiro.
"O alvo da minha pintura é o sentimento. Para mim, a técnica é meramente um meio. Porém um meio indispensável" - em declaração que escandalizou seus mestres acadêmicos da ENBA.
"A viagem à Europa para um moço que observa é útil. Temos tempo de recuar. Temos coragem de voltar ao ponto de partida. Eu sou moço" - sobre os valores que aprendeu com os anos que vivem em Paris.
"Estou com os que acham que não há arte neutra. Mesmo sem nenhuma intenção do pintor, o quadro indica sempre um sentido social" - começando a flertar com o socialismo.
"Quanto à pintura moderna, tende ela francamente para a pintura mural. Com isso, bem entendido, não quero afirmar que o quadro de cavalete perca o seu valor, pois a maneira de realizar não importa" - explicando sua mudança para os afrescos.
"E a causa disso tudo é ainda o governo, que se obstina a não ter, como no México se observa, interesse direto pelas coisas da arte" - em reclamação contra a falta de apoio do governo para exposições e mostras.
"Aos homens honestos, aos brasileiros sinceros, aos patriotas de fato é que falo, para que analisem tal assunto com frieza" - depois de completar a série de telas "Retirantes".
"Estão me impedindo de viver" - comentando as ordens médicas que o proibiam de continuar pintando para não agravar sua intoxicação
"E por assim haver disposto o essencial, deixando o resto aos doutores de Bizâncio, bruscamente se cala e voa para nunca-mais a mão infinita, a mão-de-olhos-azuis de Candido Portinari" - Carlos Drummond de Andrade, no poema "A Mão", dedicado ao amigo na ocasião de sua morte.
Fonte: www.terra.com.br
Candido Torquato Portinari (Brodowski, 29 de Dezembro de 1903 — Rio de Janeiro, 6 de Fevereiro de 1962) foi um pintor brasileiro. Portinari pintou quase cinco mil obras, de pequenos esboços a gigantescos murais. Foi o pintor brasileiro a alcançar maior projeção internacional.
Nasceu numa fazenda de café, Santa Rosa, no interior de São Paulo, filho dos imigrantes italianos Giovan Battista Portinari e Domenica Torquato, que tiveram doze filhos, sendo ele o segundo. De família humilde, cursou apenas o primário, porém desde criança manifestou sua vocação artística. Aos seis anos de idade, Portinari começa a desenhar e aos nove participou durante vários meses dos trabalhos de restauração da igreja de Brodowski, ajudando os pintores italianos. Aos nove anos, desenhou o retrato de Carlos Gomes, como via numa caixa de cigarros.
Em 1918 Portinari, também chamado carinhosamente de "Candinho" pela família, viajou para o São Paulo, para ingressar no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo. Matricula-se na Escola Nacional de Belas Artes, na qual estudou desenho e pintura, tendo como professores Rodolfo Amoedo, Batista da Costa, Lucílio de Albuquerque e Carlos Chambelland. Em 1922, Portinari executou um retrato para o Salão de Belas Artes, e ganhou medalha de bronze pelo seu trabalho.
Em 1928 conquistou o "Prêmio de Viagem ao Estrangeiro", da Exposição Geral de Belas-Artes, de tradição acadêmica. Em 1929 Portinari partiu para a Europa, viajou pela Itália, Inglaterra, Espanha e se fixou em Paris, onde permaneceu até 1930. Ia diariamente aos museus e lá descobriu a pintura moderna. Discutia sobre arte nos cafés e não tinha quase nenhum tempo para pintar. Foi em Paris que Portinari conhece Maria Martinelli, com quem mais tarde se casou.
Regressando ao Rio de Janeiro, passou a trabalhar num ritmo intenso, além de participar da comissão destinada a promover a reforma do Salão Nacional de Belas-Artes, no qual os artistas modernos seriam admitidos pela primeira vez.
Em 1932, Candido Portinari expôs individualmente. Três anos depois, seu quadro Café recebeu a segunda menção honrosa da Exposição Internacional do Instituto Carnegie, nos Estados Unidos. Em 1936 pintou o seu primeiro mural, para o Monumento Rodoviário na Estrada Rio-São Paulo. Nessa época, foi nomeado professor de pintura do Instituto de Artes da Universidade do Distrito Federal. Em novembro de 1939 expôs 269 trabalhos no Museu Nacional de Belas-Artes. Antes havia executado três grandes painéis para o pavilhão brasileiro na Feira Mundial de Nova Iorque. No mesmo ano nasceu seu único filho, João Cândido.
O sucesso começou a despontar na vida de Portinari. No início da década de 1940, ele participou da exposição de arte latino-americana no Museu Riverside, em Nova Iorque, e realizou sua primeira exposição individual na mesma cidade, no MoMA, que adquiriu sua tela Morro. Em dezembro de 1941, a editora da Universidade de Chicago publicou um livro sobre o pintor, chamado Portinari, his life and art, com inúmeras reproduções de suas obras.
Em 1942, executou quatro painéis para a Biblioteca do Congresso, em Washington. Seguiram-se o impacto da exposição na Galerie Charpentier, em Paris (1946).
Em 1954, Portinari realizou, para o Banco Português do Brasil, o painel Descobrimento do Brasil. Neste mesmo ano, começaram os primeiros sintomas de intoxicação por tintas, que lhe seria fatal.
Em reconhecimento ao seu trabalho, em 1955, o "International Fine Art Council'", de Nova Iorque, conferiu-lhe uma medalha como o melhor pintor do ano.
Em 1956 fez os desenhos da série D. Quixote e viajou para Israel, a convite do governo daquele país. No mesmo ano executou os monumentais painéis Guerra e Paz, para a sede da ONU, em Nova Iorque. No mesmo ano, Portinari recebeu o prêmio "Guggenheim´s National Award", da Fundação Guggenheim de Nova Iorque. Enquanto isso, no Rio, o Museu de Arte Moderna editou o livro Retrato de Portinari, de Antônio Callado.
Em 1958, foi o único artista brasileiro a participar da exposição "50 Anos de Arte Moderna", no Palais des Beaux Arts, em Bruxelas, e como convidado de honra, em sala especial, na "I Bienal de Artes Plásticas" da Cidade do México.
Em 1960, Portinari continuou expondo seus painéis, quadros e desenhos por toda a Europa e Estados Unidos. Nesse mesmo ano, foi convidado a participar do júri da II Bienal do México, e suas obras foram exibidas numa mostra fotográfica, em Moscou.
Portinari também era político. Foi membro do partido comunista, tendo se candidatado a deputado, porém, não obteve êxito. Contudo, não abondonou a política.
Em 1960 nasceu sua neta Denise, que passou a ocupar boa parte de seu tempo. Pintou muitos quadros com o retrato dela. Quando não estava com Denise, Portinari, passava horas fitando o mar, sozinho. No ano seguinte escreveu um ensaio de oração para a neta.
Em janeiro de 1962 sofreu nova intoxicação por chumbo, que já o atacara em 1954. Adoecido, não mais se recuperou. Nessa época, preparava uma grande exposição, com aproximadamente duzentas obras, a convite da prefeitura de Milão. Em 6 de fevereiro Portinari morreu, vítima de intoxicação pelas tintas que utilizava, mas cumprindo a promessa de homenagear a sua terra e o seu povo, através da sua arte.
1940 - Chicago (EUA) - A Universidade de Chicago publica o primeiro livro sobre o pintor, Portinari: His Life and Art, com introdução do artista Rockwell Kent
1946 - Paris (França) - Legião de Honra, concedida pelo governo francês
1950 - Varsóvia (Polônia) - Medalha de Ouro, pelo painel Tiradentes (1949), concedida pelo júri do Prêmio Internacional da Paz
1955 - Nova Iorque (EUA) - Medalha de Ouro, como melhor pintor do ano, concedida pelo International Fine Arts Council
1956 - Nova Iorque (EUA) - Prêmio Guggenheim de Pintura, por ocasião da inauguração dos seus painéis na sede da ONU
Fonte: pt.wikipedia.org