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DINOSSAUROS DO BRASIL



O país tem oito espécies de dinossauros e pterossauros descritas

Cabeça do Espinossaurídeo
O paleontólogo Sérgio Alex de Azevedo
Observa cabeça do espinossaurídeo, reconstituído a partir de fósseis encontrados no Maranhão

As descobertas mais surpreendentes de ossadas de dinossauros, desde que o termo foi usado pela primeira vez no século XIX, certamente foram registradas nos últimos anos, no Brasil e na Argentina. Foi no Rio Grande do Sul, por exemplo, que pesquisadores ingleses encontraram parte dos ossos de um dos dinossauros mais primitivos do mundo, o Staurikosaurus pricei. Foi a primeira vez que se nomeou um dinossauro brasileiro. Hoje, são oito espécies formalmente descritas.

Isso foi nos anos 60, mas desde a década de 50 pesquisadores alemães estudavam a possibilidade do Brasil ter em suas rochas sedimentares restos de ossos de dinossauros, termo comum que designa a família dinossauria, descrita pela primeira vez em 1842, pelo paleontólogo inglês Richard Owen. O termo dinossauro, empregado largamente para outras famílias de grandes répteis como os pterossauros, significa "lagartos terríveis" em grego e nomeou um grupo especial de animais até então desconhecidos.

Depois, na década de 70, dois geólogos brasileiros (Arid e Vizotto) encontraram ossadas do Antarctosaurus brasiliensis, em São Paulo. Há uma quebra nas descobertas de ossadas, ou talvez, na descrições dos animais, retomadas a partir dos anos 90. Foi quando paleontólogos encontraram os espinossaurídeos Irritator e Angaturama, no Ceará, e o Gondwanatitan faustoi, também em São Paulo.

Ainda do Ceará, há um dinossauro terópode, considerado um parente distante do Tiranosaurus rex. É o Santanaraptor placidus, um animal bípede, carnívoro e extremamente rápido na locomoção. Uma reconstituição desse dinossauro está exposta no Museu de Ciências da Terra, do Departamento Nacional de Produção Mineral (DPNM), no Rio de Janeiro. Pela sequência de descobertas, vem o Staurikosaurus, de 1970, o Antarctosaurus, de 1971, o Irritator challengeri (descrito em 96 por pesquisadores na Inglaterra), e o Angaturama limai, também de 1996. Os quatro restantes foram todos achados em 1999, o Guaibasaurus candelarai, o Gondwana faustoi, o Saturnalia tupiniquim e o Santanaraptor.

Para o paleontólogo Diógenes de Almeida Campos, do DNPM, as descobertas feitas no Brasil, bem como as na Argentina, ajudam a entender como era a fauna no hemisfério Sul, em eras geológicas. "Passamos a dispor de dados diferentes daqueles apresentados por pesquisadores do hemisfério Norte, trazendo assim um novo quadro para a pesquisa geológica", avalia.

Em 1970, ele começou a fazer prospecções em Santana do Cariri, a serviço do DNPM, com o objetivo de reunir o material coletado em museu e, assim, preservar os fósseis e o local onde eles afloravam. "É irônico porque se não escavar não acha o fóssil, mas o lugar vai ficando um pouco desfigurado com as escavações", observa.

Vestígios de seres foram encontrados por ele, até que em 85 Campos descreveu o que chama de um tipo de primo do peixe, o pterossauro Anhanguera. Algumas peças desse animal estão expostas no Museu de Paleontologia da Universidade Regional do Cariri, que tem um acervo de mais de 750 peças de fósseis coletados na região.

Depois, com seu aluno de doutorado Alex Kellner, ele descreveu outros dois pterossauros, o Tapejara e o Tupuxuara. Há três anos, foi descrito o Tapejara imperator animal de porte médio que tinha uma enorme crista, maior até que ele mesmo. "É preciso aprofundar os estudos, não se sabe, por exemplo, para que servia esse adereço, se para seduzir a fêmea ou para outro fim", explica.

Foi também Diógenes Campos quem encontrou o Angaturama, especificamente a parte anterior do crânio e dentes. Um detalhe que se abstraiu dessa descoberta foi a dieta desse espinossaurídeo, que devia comer somente peixe e, por isso, devia viver perto de um lago salgado e raso. Angaturama quer dizer, na linguagem indígena, companheiro de viagem. Outro indivíduo de um grupo raro entre os dinossauros, encontrado por ele, foi o Baryonyx que significa unha pesada. Essa família também comia peixes e é rara porque não tem os dentes serrilhados, como é comum nos dinossauros.

Para Campos, é preciso buscar mais e mais fósseis de dinossauros no Brasil e estudá-los. "Cada descoberta, traz mais luz sobre a história da evolução da vida", justifica. Hoje, junto com outros paleontólogos, ele descreve um dinossauro encontrado há 30 anos por Price, em Mato Grosso, na Chapada dos Guimarães. O animal não fora descrito ainda por falta de dados suficientes, mas com achados recentes na Argentina, os pesquisadores brasileiros obtiveram elementos para a tarefa. Campos acredita ter a descrição pronta ainda este ano.

Ele considera o Brasil um lugar extremamente rico para a pesquisa paleontológica, especificamente, sobre os grandes répteis, porque só aqui foi encontrado tecido mole dos dinossauros. "Isso permitirá a análise dos tecidos, para entendermos a anatomia mole do animal, descrever os vasos sangüíneos, saber como era sua temperatura corporal", completa.

Brasil é rico em fósseis de dinossauros

Braquiossauros
Braquiossauros, os titanossauros mais antigos de que se tem notícia, teriam vivido. Eles tinham entre 22 e 30 metros de altura.

O fóssil é a única forma de se comprovar a existência de algum animal em outras eras já que, por definição, é o resto ou vestígio de seres orgânicos que deixaram suas impressões nas rochas da crosta terrestre. Assim, em locais onde há rochas sedimentares com a mesma idade dos dinossauros é possível encontrar fósseis desses répteis.

Para auxiliar o posicionamento temporal das rochas e fósseis, pode ser feita uma datação baseada na análise do pólen ou de esporos(estruturas reprodutivas de fungos) fossilizados.

O Brasil, por apresentar grandes bacias sedimentares, é considerado um país de razoável patrimônio fóssil. Há sítios paleontológicos de norte a sul, alguns descobertos há quase cem anos e outros mais recentes. O paleontógo Ismar de Souza Carvalho, do Departamento de Geologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro descobriu, entre os anos de 91 e 92 nas praias ao norte da ilha de São Luís e na Praia da Baronesa, perto de Alcântara, Maranhão, pegadas de dinossauros.

É também no Maranhão que se localiza a maior ocorrência aflorante de fósseis de dinossauros no Brasil, a "Laje do Coringa", que fica na costa oeste da Ilha do Cajual, na baía de São Marcos, perto de São Luís. Ela foi descoberta em 1994 pelo geólogo Francisco José Corrêa Martins, da UFRJ e Ministério do Exército, através da análise de imagens de satélite e fotografias aéreas. O trabalho de Corrêa Martins resultou em um mapa geológico detalhado da região, que vem sendo utilizado por outros pesquisadores.

No Acre, há registro de fósseis de um crocodilo gigante. Em São Paulo, há várias localidades como Monte Alto, Marília, Presidente Prudente e Álvares Machado. São sítios registrados na bacia do Paraná. Bem perto desses municípios, está o sítio de Peirópolis (MG), cidade a 25 Km de Uberaba, no Triângulo Mineiro. Lá, há um museu temático exclusivo de dinossauros, cuja atividade agrega o trabalho de quase 300 moradores.

A história da cidade é tão interessante quanto o próprio museu. Há mais de 20 anos, a atividade econômica que imperava era a exploração de calcáreo. As pedreiras traziam grande prejuízo ambiental, como a poluição da água e a densa quantidade de poeira em suspensão. A população tentou, por várias vezes, sem sucesso, a paralisação da pedreira. Eles se juntaram, unidos numa associação de moradores, a uma organização não-governamental ambiental e propuseram à prefeitura que se fosse encontrado um fóssil (já se tinha notícia da descoberta de ossadas), a pedreira encerraria suas atividades. Foi preciso, no entanto, que um juiz, no início da década de 80, embargasse a atividade.

A prefeitura investiu na construção do museu e no treinamento de funcionários. A atividade cresceu de tal forma que está ligada à cooperativas de doces e guloseimas, envolvendo 300 empregos diretos e indiretos. "O retorno financeiro da visitação é maior", registra Ismar de Souza Carvalho. É de Peirópolis a única ocorrência de ovos de dinossauros fossilizados, de terópodes. O paleontólogo lista ainda Monte Alto, em São Paulo, cidade de 10 mil habitantes que também tem um museu temático. "O museu tem uma visitação de duas mil pessoas por mês e um trabalho educativo muito interessante".

Especialista em Cretáceo, Ismar Carvalho considera os depósitos fossilíferos de Crato, no Ceará, extremamente ricos em fósseis desse período. "Os melhores afloramentos do cretáceo provavelmente estejam no Cariri", postula. Há em Santana do Cariri um dos mais modernos museus de fósseis, segundo sua avaliação. São 750 peças de fósseis de dinossauros, pterossauros, insetos, flores, plantas e aranhas. A concepção é de Maria Elisa Costa, filha do arquiteto Lúcio Costa, e de Marcelo Suzuki.

Outro sítio destacado pelo pesquisador é o de Mata, no Rio Grande do Sul, município próximo a Santa Maria. Ali, está um dos maiores depósitos de floresta petrificada, que durante uma época esteve comprometido devido à atividade intensa de mineradoras na região. No local, um padre, hoje com quase 90 anos de idade, o italiano Daniel Cargnin, foi o responsável pela preservação dos fósseis. "Ele brigou com todo mundo até que as mineradoras foram saindo e ainda conseguiu que se preservasse uma grande área", conta Ismar.

Há bons depósitos de coprólitos, que são fezes fósseis, em Uberaba, Monte Alto e Marília. Esse material é uma boa fonte de pesquisa sobre os hábitos alimentares dos animais a que pertenceram e, conseqüentemente, dão pistas sobre a cadeia alimentar (ou seja, que organismo servia de alimento para outro).

Ainda no Nordeste, Ismar destaca o imenso sítio paleontológico, que engloba as bacias de Sousa, Uiraúna, Brejo-da-Freira, Pombal (PB), e Cedro e Araripe (CE). É a maior ocorrência de pegadas de dinossauros, com milhares de pegadas já mapeadas, embora nem todas descritas. Em Sousa, foi fundado em julho de 1998 o Parque Vale dos Dinossauros que, desde então, já recebeu 45 mil pessoas, segundo seu coordenador, Robson de Araújo Marques.

Há um museu no parque, com material educativo e algumas réplicas de dinossauros. O público visita as pegadas em passarelas suspensas, construídas para que ninguém pise na área fossilizada. "Recebemos visitas até de estrangeiros", conta Robson de Araújo.

É na Ilha do Cajual, onde fica a Laje do Coringa, no entanto, onde está a maior concentração de fósseis de dinossauros por metro quadrado. "Há tantos fósseis que quase não existe rocha, é quase tudo camada de areia e ossos", conta Ismar Carvalho. A superfície de exposição é de, no máximo quatro quilômetros, segundo avaliação do paleontólogo, no entanto, os pesquisadores têm retirado toneladas de fósseis.

Santana do Cariri, Sousa, Monte Alto, Peirópolis. Cidades pequenas, fora do centro detentor de conhecimento. Ismar vê com entusiasmo essa característica positiva da evolução da paleontologia no Brasil. "É uma ação peculiar essa a de descentralizar a detenção do conhecimento, que sai dos grandes centros urbanos e vai para o interior", observa.

Devido à importância científica das jazidas fossilíferas, há um grupo de pesquisadores preocupados com sua preservação. Há cerca de dois anos, formaram a Comissão Brasileira de Sítios Geológicos e Paleobiológicos (Sigep), que deve encaminhar ainda este ano uma lista com os sítios nacionais que poderiam se candidatar ao título de patrimônio mundial, dado pela Unesco (agência da ONU para educação, ciência e cultura).

Segundo Diógenes de Almeida Campos, que preside a comissão, ainda este ano será publicado um livro com 70 sítios. A obra trará fotos, métodos usados para preservação, descrição suscinta do sítio e o que representa na história da evolução da Terra, além de quais critérios são adotados para que seja caracterizado como sítio geológico.

O objetivo, com o livro, é chamar atenção das autoridades para a importância da preservação dos sítios. "Conservá-los é fundamental devido ao interesse científico e até mesmo turístico. Afinal, muitos se tornam ponto de visitação e é preciso que as pessoas saibam fazer o turismo científico com cuidado", observa Diógenes Campos. Até hoje, o título de Patrimônio Mundial só foi dado ao Pantanal, enquanto ecossistema de áreas inundadas e as Cataratas do Iguaçu, devido seu valor ambiental.

Fósseis ajudam no conhecimento do ambiente das diversas eras

Microfóssil
Microfóssil encontrado muitas vezes associado em locis com pegadas fósseis

O legado mais rico dos fósseis encontrados por pesquisadores no mundo inteiro talvez seja entender como foi o meio ambiente em eras passadas e, assim, como viviam esses animais, de que se alimentavam, quais eram seus hábitos. É possível ter uma idéia de tudo o que a geologia e paleontologia, que são ciências irmãs, já descobriram só pelo número de espécies de dinossauros descritas desde que Owen usou o termo pela primeira vez em 1842. São mais de mil, pelos fósseis achados por todo o globo.

O estudo das eras geológicas, por exemplo, é feito pela geologia. As eras são cada fase de amadurecimento da Terra e foram divididas de acordo com sua evolução desde seu nascimento. Hoje, acredita-se que a Terra exista há 4,570 milhões de anos e à primeira fase do desenvolvimento denominou-se era pré-cambriana, que durou até 570 milhões de anos. Em seguida, veio a era paleozóica, que termina em 289 milhões de anos.

A era em que nasceram, viveram e morreram os dinossauros foi a mesozóica. Dividida em três períodos, o triássico, o jurrássico e o cretáceo, foi neste último que surgiram alguns vegetais importantes como as flores. De acordo com Ismar de Souza Carvalho, especializado no Cretáceo, o surgimento de flores, por exemplo, pode estar associado com a extinção dos dinossauros. "Há uma corrente que prega isso. Com as flores, que fugiam da dieta dos dinossauros, eles morreram de fome", conta.

Há ainda os que dizem que houve uma explosão de insetos por causa das flores e isso teria desestabilizado o meio ambiente. Outro grupo da geologia acha que a extinção dos grandes répteis está associada a grandes transformações ecológicas e ambientais, o que é refutado por outros que não acreditam que só se extinguiriam os dinossauros nesse contexto. Os primeiros crêem que, com a formação do Oceano Atlântico, no período cretáceo, os dinossauros não sobreviveram às novas condições de umidade. A umidade não é favorável ao desenvolvimento de répteis.

É que, antes disso, a Terra era uma massa continental só, chamada Pangéia. Ao fim da era Paleozóica, a Pangéia se dividiu em duas superfícies terrestres, a Laurásia, que seria o hemisfério Norte e a Gondwana, que seria o hemisfério Sul. Na interpretação de Ismar Carvalho, essa divisão talvez explique por que o Rio Grande do Sul tem exemplares dos dinossauros mais primitivos.

Antes da divisão, os ancestrais desses dinossauros primitivos poderiam ter vivido ali, porque era na porção Sul da Pangéia onde havia a condição de umidade mais inóspita. "O Rio Grande do Sul, que está no contexto do hemisfério Sul, no meio dessa massa continental gigantesca, pode ser hoje a região onde habitaram então os dinos mais antigos", pressupõe.

Mestre e doutor em geologia, Ismar Carvalho se especializou, em 16 anos de estudos, nos ecossistemas terrestres do Cretáceo, especificamente num intervalo entre 140 milhões e 100 milhões de anos. "Alguns grupos fósseis são excelentes indicadores dos ecossistemas e também microfósseis associados com pegadas". Ele estudou por vários anos as pegadas de Sousa, na Paraíba, e explica que ali dificilmente haverá ossadas de dinossauros. "As condições de preservação de ossos e dentes são bem diferentes para o modo de preservação das pegadas", explica.

Além disso, Carvalho destaca a importância econômica da paleontologia. "É datando rochas e descobrindo fósseis que é possível descobrir onde estão os extratos geradores de óleo e gás, por exemplo", observa. A vertente econômica está presente ainda na indústria cultural, com a produção de filmes, livros e camisetas, cujo mote são dinossauros e outras descobertas da ciência que suscitem a simpatia do público.

O forte apelo popular dos dinossauros é para Carvalho a prova da necessidade que o homem tem de entender de onde veio e por que está aqui. "Todos se perguntam por que os dinossauros foram extintos e não outros animais. Estaríamos passíveis de sermos extintos caso ocorresse o mesmo evento ambiental que devastou os dinossauros da Terra?"

As perguntas são muitas e a ciência ainda não tem todas as respostas, embora os estudos sejam abundantes. E o Brasil tem forte potencial para explicar muito. Isso porque 3/4 de seu território é ocupado por fósseis. "Há muito o que descobrir ainda", diz Diógenes de Almeida Campos que, em estudo publicado numa revista científica, lamenta o limitado número de publicações sobre dinossauros, por exemplo.

Para ele, o problema maior é a escassez ou quase ausência de recursos para estudos que englobam a coleta de fósseis. Outros fatores colaboram, um é que a maioria dos sítios está coberta por extensa vegetação, e outro é que há poucos paleontologistas que se dedicam ao estudo de vertebrados.

O curso de paleontologia não existe na graduação. A área está associada aos cursos de pós-graduação em geologia, com atuação em paleontologia. A definição de paleontologia, segundo o Dicionário Brasileiro de Ciências Ambientais (Thex, 1999), é: "ciência que estuda os seres vivos que existiram nos diversos períodos da história da Terra. Graças à paleontologia, os geólogos puderam definir e caracterizar as mudanças na coluna geológica. A determinação da idade dos terrenos pode ser feita com relativa segurança, quando baseada em dados fornecidos pela paleontologia. Os fósseis, encontrados em certos depósitos, são fundamentais para o desenvolvimento dessa ciência".

Segundo cálculos da Sociedade Brasileira de Paleontologia (SBP), há, no máximo, 30 paleontólogos no país. Eles são de grupos que surgiram da pós-graduação das universidades Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), também no Rio Grande do Sul, na Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), cujos paleontólogos trabalham junto ao Museu Nacional, na Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), no Instituto de Geociências da USP e também o grupo do campus da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp), em Rio Claro.

Segundo Antônio Carlos Sequeira, vice-presidente da SBP, haverá um congresso de paleontologia ainda este ano, no qual a tônica das discussões será os paleovertebrados. "A maioria das universidades hoje se dedica ao estudo de macroinvertebrados, mas creio que os vertebrados sejam um grupo em expansão no Brasil", avalia o pesquisador. (Lana Cristina)

Nos períodos Jurássico e Cretáceo dinossauros preferiam São Paulo

Megaloolithidae
Em bom estado de preservação, o primeiro ovo descrito no Brasil, e classificado como novo gênero dentro da família Megaloolithidae, pertence ao arquivo do Centro de Pesquisas Paleontológicas Llewelyn Ivor Price.

A região mais populosa do país é também uma das mais férteis em achados fósseis. Pelo que as descobertas revelam, a área que hoje corresponde ao Sudeste e a parte inferior do Centro Oeste, desde o período jurássico, era uma região com grande ocorrência de dinossauros. Nessa porção, que corresponde a bacia do rio Paraná, o Grupo Bauru e a Formação Botucatu se destacam como regiões ricas em achados paleontológicos.

Uma outra espécie de dinossauro, encontrada no Grupo Bauru, deve ser anunciada mês que vem por pesquisadores do Departamento de Geociências da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Rio Claro. "É um titanossauro, saurópode, herbívoro, pescoçudo, com cerca de 15 metros de comprimento e entre 4 e 5 metros de altura", informa Reinaldo José Bertini, paleontólogo que coordena os estudos do departamento.

Para se chegar a essa configuração do animal, os pesquisadores precisaram de apenas seis vértebras da cauda, tudo o que restou do animal. Segundo Bertini, esse material possui uma "assinatura característica" que permite deduzir como era todo o dinossauro. Os maiores animais terrestres já identificados no planeta eram do grupo dos saurópodes. As principais características desses herbívoros eram a cauda e o pescoço longos e um corpo avantajado de várias toneladas.

Os fósseis desse dinossauro não são descoberta recente. Estavam depositados no Museu de Geologia do Parque da Água Branca, em São Paulo, desde 1959, quando foram encontrados, durante a construção de uma ferrovia no noroeste paulista.

O responsável pela descoberta foi o geólogo Rodrigo Santucci que, estudando fósseis para sua dissertação de mestrado, deparou-se com aquele material diferente de tudo já descrito no país e na Argentina. Essa conclusão reforça a tese de endemismo das espécies encontradas no Grupo Bauru, ou seja, que elas só ocorrem alí. "Os dinossauros paulistas e triangulinos apresentavam algumas semelhanças com os argentinos do Cretáceo Superior. Mas havia algum endemismo na fauna, ou seja, formas exclusivas de São Paulo e Triângulo Mineiro", explica Bertini.

Uma das hipóteses para a existência de espécies particulares era a diferenciação climática do Grupo Bauru, mais seco, provocando um "stress" ambiental e gerando um relativo nanismo nos animais. Os fósseis do Grupo Bauru datam do Cretáceo Superior e têm idade entre 70 milhões e 65 milhões de anos. Essa área é um conjunto de terrenos sedimentares que abrange além do oeste paulista e do Triângulo Mineiro, o sul de Goiás e o leste de Mato Grosso.

Outro achado revelador do Grupo Bauru são os dentes de deinonicossauros. Fósseis desse tipo são prospectados na região há muito tempo, entretanto a falta de osso não permitia a classificação dos animais. Com um microscópio eletrônico, a equipe de Rio Claro, verificou que os dentes de deinonicossauros têm bordas serrilhadas, semelhantes às dos temíveis e carnívoros velocirraptores (aqueles que o cineasta norte-americano Steven Spielberg colocou correndo atrás das crianças no filme Parques dos Dinossauros).

Até então, animais desse tipo só eram encontrados na América do Norte. "Esse material não é suficiente para determinar grupos e descrever espécies mas é possível dizer que os deinonicossauros eram bípedes carnívoros, providos de cauda longa, com até dois metros de altura e mais de três metros de comprimento", informa Bertini. A presença deles na América do Sul comprova que houve alguma forma de troca biótica e, portanto, ligação continental entre as américas do Sul e do Norte ao final do Cretáceo.

Fósseis de carnossauros, na forma de fragmentos cranianos e dentes, também são encontrados no Grupo Bauru. Esses, eram dinossauros bípedes, carnívoros e eventualmente necrófagos, com cabeça grande, patas posteriores musculosas e cauda robusta e longa de até sete metros de altura e doze metros de comprimento. Como não só os dinos interessam aos paleontólogos, restos de peixes (cerca de seis grupos diferentes),testudinos (tartarugas), crocodilomorfos, lacertílios (lagartos), ofídios (serpentes) e mamíferos (alguns dos mais antigos do país) são prospectados no Grupo Bauru.

Na Formação Botucatu são encontrados os únicos registros de dinossauros brasileiros do período jurássico. No centro do estado de São Paulo existem depósitos de arenitos eólicos de coloração avermelhada, que cobriam um grande deserto, onde estão gravadas pegadas de celurossauros e ornitópodos cuja idade seria entre 180 milhões e 150 milhões de anos. Não há fósseis de dinossauros na Formação Botucatu, apenas pegadas, fato atribuído ao ambiente deserto.

As primeiras descobertas na Formação Botucatu datam de 1911, quando o engenheiro de minas Joviano Pacheco descobriu em uma laje de pavimentação de uma calçada da cidade de São Carlos uma pista de tetrápode. A origem dessa laje era uma pedreira próxima a Araraquara. Por sinal, o calçamento das cidades na região de Araraquara é rico em icnofósseis.

Conta-se que em 1976, viajando pelo interior paulista, o padre italiano Giuseppe Leonardi, o mesmo que havia pesquisado as pegadas de dinossauros em Sousa (PB), identificou nas lajes usadas para calçamento da cidade de Araraquara pegadas de répteis. Não conseguindo sensibilizar o prefeito quanto a importância da descoberta, o padre retirou, a revelia, algumas lajes e levou-as para o Departamento Nacional da Produção Mineral, no Rio de Janeiro, onde estão até hoje. Estudos mostraram que o padre tinha razão, as pegadas tinham 180 milhões de anos.

Das espécies com pegadas identificadas, os celurossauros são descritos como bípedes, carnívoros, com pescoço flexível e cauda longa, medindo entre 60 centímetros e 1,5 metros de altura, e entre um e 2,5 metros de comprimento. Os ornitópodos podiam ser bípedes ou quadrúpedes, com cauda relativamente longa, a altura variava entre 1,8 e quatro metros e o comprimento entre 2,5 e seis metros.

Os dinossauros do cretáceo superior, encontrados no Grupo Bauru, talvez foram os últimos a habitar a região que hoje corresponde ao território nacional. A extinção dos dinossauros, há 65 milhões de anos, marca o fim do período cretáceo. A teoria mais aceita para explicar a extinção desse animais é a queda de um meteoro na Terra. A cratera de Chicxulub, no México, com diâmetro de 200 quilômetros, é apontada como ponto de colisão desse asteróide, que pelo tamanho da cratera gerada tinha um diâmetro de 10 quilômetros. O impacto dessa explosão teria lançado toneladas de cascalho e poeira no ar e provocado erupções vulcânicas o que criou uma densa nuvem de fumaça que bloqueava a luz do sol, causando a morte dos animais por inanição. Não havendo plantas, não havia alimento para os herbívoros; sem os herbívoros, os carnívoros não tinham o que comer.

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