Facebook do Portal São Francisco
Google+
+ circle
Home  história do casamento página 4  Voltar

História do Casamento

O casamento, da Antigüidade Clássica à Idade Média

"Devemos à Idade Média duas das piores invenções da Humanidade: a pólvora e a idéia do amor romântico."

(MAUROIS apud JABLONSKI, 1991)

Tradicionalmente, as tendências predominantes no Ocidente, desde os tempos do auge da cultura grega, eram as de exaltação do amor fora do casamento e, muitas vezes, em termos de relações homossexuais.

Sobre essas, é interessante destacar que não são raras as alusões feitas à homofilia ativa nas literaturas grega e romana, e até mesmo em períodos anteriores. Nas tradições romanas, a paixão era vista ora como um tormento, ora como um jogo, mas sempre fora do casamento.

Na Idade Média, surgiu o "amor cortesão", a elegia de um sentimento mágico e, para muitos autores, a origem do chamado amor romântico. O amor cortesão não era devotado ao cônjuge, como se pode ver nos grandes romances da época: Tristão e Isolda, Lancelot e Guinevere, que tratam de amores adúlteros.

Num período em que os casamentos eram arranjados visando a interesses sociais e econômicos, é compreensível que sentimentos arrebatadores, combinação de verdadeira devoção religiosa e luxúria, ocorressem fora das uniões legítimas.

Em 451, o Concílio de Calcedônia considerou a virgindade como um casamento, signo da união entre Deus e o Homem. Nessa época, o casamento entre homem e mulher ainda estava longe da santidade.

Mais tarde, Paulo, missionário cristão e teólogo, apesar de defender a virgindade como um ideal, pregou o casamento entre homens e mulheres. Melhor seria que ficassem castos, mas, já que não conseguiam conter-se, que se casassem.

A maioria dos teólogos dessa época não valorizava a procriação como virtude do casamento. No mundo ideal, onde todos vivessem castos e puros, a espécie humana seria propagada como os anjos, sem a intervenção do pecado. Dessa maneira, o casamento era um mal, pois supunha o pecado da carne, porém um mal menor, visto que impedia a fornicação.

" E há homens que se fizeram eunucos voluntários para ganhar o Reino dos Céus, dizia Mateus, no seu Evangelho (XIX, 12). Orígenes, principal teólogo de Alexandria no século III, levou ao máximo este conselho: castrou-se e retirou-se do mundo.

Os relatos solitários são ainda mais ricos, nem tanto em atos, mas em sonhos de castração. Os monges sonhavam com as mulheres, que lhes aguçavam o desejo, mas também com a castração libertadora."

(VAINFAS, 1986, p.17)

Interessante notar, nessa pesquisa histórica, que o modelo de casamento a ser defendido a partir desse momento não veio do Antigo Testamento, que reconhecia o amor carnal, nem do Novo, que não dava base segura para a defesa do mesmo, já que o colocava em plano inferior à virgindade.

Então, a defesa ortodoxa cristã do casamento apoiou-se na tradição helenística e no estoicismo, cujos filósofos eram freqüentemente citados pelos padres. Idéias típicas da moral estóica, como casamento estável, fidelidade mútua, dependência recíproca, redução do prazer sexual e sentido de procriação, foram absorvidas e reinterpretadas pelo Cristianismo.

A queda do Império Romano, século V, provocou profundas mudanças na sociedade ocidental. A partir daí, os costumes germânicos invadiram o Ocidente e misturaram-se às práticas romanas, ligando o casamento a valores de linhagem, à transmissão de heranças e títulos e à formação de alianças políticas.

Nessa época, a cerimônia era realizada na casa da noiva: o pai transferia a tutela de sua filha ao futuro marido, que retribuía a doação com a entrega de uma donatio puellal ou arras. A mulher era, dessa maneira, parte do patrimônio familiar.

O rito nupcial seguia-se na casa do noivo, cujo clímax acontecia no quarto: ao redor do leito, várias testemunhas e o pai do rapaz ficavam a olhar o casal despido para constatar a união carnal e sua conseqüente procriação. Nesse sentido, a fecundidade e a fidelidade da mulher eram indispensáveis, já que valores de linhagem estavam em jogo.

Nesse jogo, fazia-se necessário um herdeiro e que esse fosse realmente filho do marido. Assim, a esterilidade levava ao repúdio da esposa e o adultério implicava no abandono ou na morte da transgressora.

Mais tarde, aos poucos, o padre introduziu-se nessa cerimônia, abençoando o leito nupcial com água benta. Foi o início da intervenção eclesiástica num universo privado, privado por ser familiar, porém público pela presença de uma comunidade que, embora não tivesse controle de direito, de sanção, era necessária para a realização da cerimônia.

A partir do século XI, então, passou a existir a liturgia do vínculo conjugal, que começou nos países anglo-normandos. O rito transferiu-se para a porta da igreja e a participação do padre aumentou. O pai entregava a moça ao sacerdote, que a entregava ao esposo. No século XIV, o padre passou a dizer: Ego conjugo vos (Sou eu que vos uno).

Assim, consolidou-se a liturgia matrimonial: o padre substitui, ritualmente, o pai da noiva e a entrada da igreja a casa. A mudança do espaço privado para o público passou, a partir daí, a influir na economia do casamento. Dessa forma, a Igreja sobrepôs-se às famílias e impôs aos leigos a sua moral.

A reforma gregoriana, projeto de construção da supremacia eclesiástica no Ocidente, século XI ao XIII, possuía na estratégia matrimonial um dos maiores pontos de apoio, na medida em que transferia o matrimônio para a chancela da Igreja, sendo esse, assim, um instrumento de poder.

"Ao clero, homens do mundo espiritual, deveria caber a castidade e o poder. Aos leigos, homens do mundo profano, caberia o matrimônio e a obediência."

(VAINFAS, op. cit., p.34)

Embora na Idade Média o casamento fosse o pior dos bens, era necessário fazer dele uma união sagrada. Tomás de Aquino, por exemplo, em sua Suma Teológica do século XIII, admitia que o matrimônio era um sacramento e que as relações carnais é que o tornavam indissolúvel.

Esse foi um momento de virada na história do casamento ocidental, quando o mesmo passou a excluir a castidade e a exigir o "pecado carnal", transfigurado, a partir de então, em mistério cristológico. Nesse contexto, a sacramentalização e a indissolubilidade do casamento foram a base do triunfo político da Igreja.

Com a sacramentalização do matrimônio, criou-se a necessidade de "ordenação do leito conjugal". Logo, embora imposta a relação carnal no casamento, condenava-se o ardor. Classificaram-se, assim, os atos em permitidos ou proibidos, tendo em vista a função procriadora do sexo. A união no leito conjugal deveria ser fria. Era um modelo de cópula quase desencarnado, com movimentos discretos, controlados, sem paixão.

No centro da vida sexual modelada nesse período colocou-se o conceito de dívida, cada um dos cônjuges era considerado proprietário do outro. Esse termo traduz bem os limites do ato: tratava-se de apagar o desejo, não de aumentá-lo, nem de fazê-lo durar.

O casamento e a família na Idade Moderna

Originalmente, a família tinha a função de garantir a sobrevivência dos grupos sociais, visto que o lar era, primordialmente, um lugar de trabalho - a "fábrica" de alimentos, remédios e roupas, o hospital etc. - Desse modo, sua função era econômica, estabilizando a comunidade em torno do trabalho e preservando as propriedades.

Com a modernização, por volta de 300 a 400 anos atrás, a função econômica do grupo familiar deu lugar à sentimental. O trabalho, a produção como fonte de sobrevivência, foi "para a rua", esvaziando o lar. Com esse esvaziamento, a família, aos poucos, foi-se transformando no que Jablonski (op.cit, p.47) chamou de "fam - ilha", um grupo fechado que estabelece menor troca com a sociedade.

Bem, se homens e mulheres não precisavam mais unir-se por razões estratégicas do contexto econômico da época, que motivo justificaria, a partir de então, o casamento? O Amor. Na lógica da sociedade que começou a se delinear nesse período, os lares transformaram-se numa espécie de "refúgio emocional" frente à frieza e à competitividade que passaram a caracterizar o ambiente de trabalho.

O ser humano dividiu-se, assim, em duas partes: uma que trabalha e não se emociona e outra que ama. Nesse sentido, o amor é colocado em um ponto tão elevado, tão central nas relações familiares, que há o risco de gerar uma dependência excessiva de um pequeno grupo de pessoas que terão a obrigação de prover toda a afetividade demandada pelo indivíduo. Há, então, uma espécie de compartimentalização das emoções, criando-se, dessa forma, uma necessidade neurótica de afeto, sendo o ciúme uma de suas manifestações externas.

No mundo moderno, a frieza necessária à competitividade no trabalho provocou o medo e a diminuição da auto-estima nas pessoas, já que essas passaram a se sentir isoladas. Nesse contexto, o afeto deixou de ser um sentimento genuíno para tornar-se um remédio.

A história da sociedade moderna baseia-se na afirmação do controle social sobre atividades antes relegadas aos indivíduos e as suas famílias, retirando a produção do âmbito doméstico e "coletivizando-a" sob a supervisão do capitalismo, na fábrica.

É importante notar que o isolamento da família não a torna impermeável a influências externas. Na verdade, o mundo moderno infiltra-se na privacidade do lar através dos meios de comunicação.

"A santidade do lar é uma hipocrisia num mundo dominado por gigantescas corporações e pela maquinaria da promoção maciça. A sociedade burguesa sempre manteve a promessa de que as satisfações privadas compensarão o fato de que o trabalho tenha sido reduzido a uma rotina, mas ao mesmo tempo solapa esse compromisso organizando o lazer como uma indústria. Cada vez mais, as mesmas forças que empobreceram o trabalho e a vida cívica invadem o reino privado e seu último reduto, a família."

(LASCH, 1977, p.23)

Com a Revolução Industrial, uma família grande tornava-se economicamente inviável para satisfazer a mobilidade exigida pela nova sociedade. Assim, firmou-se o padrão familiar da sociedade capitalista: pai, mãe e filhos. Os papéis tornaram-se, dessa maneira, bem definidos: ao homem coube a autoridade e o sustento do lar e à mulher, considerada menos capaz, as tarefas domésticas e a educação dos filhos.

O novo estilo de vida doméstica criou condições favoráveis para o aparecimento de uma nova personalidade, que foi a maior contribuição da família às necessidades de uma sociedade de mercado baseada na competição, no individualismo e na acumulação de bens materiais.

Dessa forma, pode-se dizer, resumidamente, que no século XVIII a prática do casamento arranjado foi substituída pelo amor e por um novo conceito de família como refúgio. Esse novo conceito trouxe a aceitação da divisão trabalho X tempo livre e vida pública X vida privada. Esse sistema familiar burguês atingiu o seu desenvolvimento pleno no século XIX e decaiu a partir da década de 60, embora algumas de suas características já existissem em períodos anteriores e se mantenham vivas na pós-modernidade.

"(...) as mesmas condições que provocaram a necessidade de considerar a privacidade e a família como um refúgio contra o mundo fizeram com que fosse cada vez mais difícil para a família ser útil nesse aspecto." (id., p.29)

Depois de expropriar os trabalhadores de suas ferramentas e concentrar a produção na fábrica, os industriais, durante as primeiras décadas do século XX, expropriaram também os conhecimentos técnicos do operário.

Eles parcelaram o processo de produção, atribuindo uma função específica a cada um na linha de montagem e guardando para si o conhecimento total do processo. Para administrar esse conhecimento, existia um exército de engenheiros, técnicos e psicólogos do trabalho. Assim, as pessoas tornaram-se incapazes de prover suas necessidades sem a supervisão de especialistas, o que as deixou mais dependentes.

Curioso observar que, com a modernização, a sociedade foi libertada de antigas coações, como a Igreja e o Estado, mas tornou-se exposta a formas mais sutis de controle, como a publicidade. Esta nova "religião" e "autoridade máxima" vende ideais de felicidade tão perfeitos, que acabam por gerar a frustração diante da impossibilidade de realizá-los.

O questionamento dos valores burgueses

Apesar de o aburguesamento da sociedade ter se extendido até à Segunda Guerra Mundial, desde o início do século seus valores foram questionados.

Pode-se dividir esse processo em três momentos:

Um que precedeu a Primeira Guerra Mundial - Nesse período, os artistas e intelectuais levantaram questões como a posição da mulher e a causa das doenças sexuais ser justamente a ignorância sexual.

Um que se localiza no intervalo entre as duas guerras - Período influenciado pela obra de Reich, que se referia aos males físicos e psíquicos causados pelos tabus sexuais. Nessa linha de pensamento, o casamento era considerado supérfluo por não tratar de tais questões.

Um posterior à Segunda Guerra Mundial - Com o desenvolvimento dos meios de comunicação, a repercussão de novas idéias e descobertas foi acelerada. O desenvolvimento de métodos contraceptivos nesse período representou um dos fatores que geraram uma mudança de pensamento no sentido de questionar os valores burgueses.

Romeu e Julieta e o amor moderno

A noção de amor do final do século XVI e início do XVII aponta para uma concepção de mundo no qual o indivíduo é a categoria central.

Como todo mito, Romeu e Julieta não tem compromisso com a verdade objetiva e sim com formas socialmente definidas de experimentar o mundo. A peça, por meio da origem do amor, fala da origem do indivíduo moderno, sob a sua dimensão interior, que age independentemente das regras sociais.

O casamento dos dois não une famílias e sim indivíduos. Por trás da oposição amor X família, o que existe é um conflito entre o eu individual e o eu social, que, na verdade, não são dissociados de fato.

No mito, a separação da família foi bem mais radical para Julieta em função das diferentes posições da mulher e do homem nessa época. Ela deveria ser um peão manipulado pelo pai no estabelecimento de alianças vantajosas, e recusar esse papel significava perder todos os laços de família. Assim, negando-se a ser instrumento, Julieta tornou-se sujeito.

O casal Romeu e Julieta seria, então, a primeira manifestação das "novas formas de família". Esse novo modelo passou a ter o foco nas relações sentimentais e não mais nas que uniam diferentes grupos. Simbolicamente, foi a privatização do grupo familiar.

O casamento e a família na pós-modernidade

Hoje, talvez, a aceleração no tempo de giro das informações e do capital, a diminuição das distâncias geográficas, somadas à flexibilidade do trabalho, favoreçam o individualismo característico da pós-modernidade.

Acentua-se, na rapidez dos "novos tempos", a efemeridade da moda, dos bens, dos valores e das ideologias, valorizando-se, dessa maneira, o instantâneo.

Com o fim da rigidez do burguês moderno, a concepção do casamento e da família fundados no individualismo patriarcal passa, no pós-modernismo, a conviver com a heterogeneidade e com o efêmero. Agora, é "mais natural" escolher entre várias identidades e mudar com os ventos da moda.

Não se trata da substituição de um tipo dominante de família, a conjugal moderna, por outro tipo, a pós-moderna, já que o que caracteriza a família e o casamento, hoje, é a ausência de modelo. O padrão é a flexibilidade e a pluralidade.

Mas se por um lado as normas Até que a morte os separe e Felizes para sempre, que organizavam e legitimavam a união conjugal, tornaram-se frágeis quando a manutenção do casamento passou a subordinar-se à satisfação emocional, por outro, antigos valores ainda são mantidos na sociedade contemporânea. Isso ocorre porque, na subjetividade, as mudanças são mais lentas que as sociais. Desse contraste, nasce a crise.

Nesse contexto, pode-se afirmar que, no universo humano, as identidades individual e social se inter-relacionam.

"Nós todos nos aproximamos de nossas próprias circunstâncias como condutores de uma identidade social particular. Eu sou filho ou filha de alguém... eu sou cidadão desta ou daquela cidade... Conseqüentemente, o que é bom para mim tem que ser bom para alguém que habita esses papéis.

Dessa forma, eu herdo o passado da minha família, da minha cidade... uma variedade de débitos, heranças, expectativas e obrigações legítimas. Estas constituem o dado da minha vida, meu ponto de partida moral. Isso é em parte o que dá à minha vida sua particularidade moral." (MACLNTYRE apud SCHIMIDT, 1997)

Assim, os indivíduos sociais são conhecidos em termos de suas relações com os outros e vivem em dialética com o meio, ao mesmo tempo que são transformados por ele, também o transformam.

Portanto, apesar de nos anos 60 a juventude ter atacado a estrutura familiar e os relacionamentos íntimos de seus pais, pondo o compromisso com o outro de lado pela busca do eu, os velhos mitos continuam a sussurrar, estão vivos.

A nova geração não desistiu do Felizes para sempre e sim limitou o sonho pelo tempo, atualizando a fantasia de amor eterno a cada novo relacionamento, embora em contradição com o próprio discurso. A diferença nesse ponto é que, na contemporaneidade, quando acontece a decepção, as pessoas sentem-se livres para continuar a busca.

O casamento, a família e as diferenças de gênero

Na sociedade ocidental contemporânea, tende-se, ainda, a associar masculinidade com mente / razão e feminilidade com emoção / caos. Tais dicotomias criadas nos hábitos lingüísticos podem modelar aspectos considerados naturais da vida em grupo. Dessa maneira, o que homens e mulheres foram e serão está inscrito nas convenções do grupo social a que pertencem.

Embora, como já foi mencionado anteriormente, as mudanças psicológicas sejam mais lentas que as sociais, é, em grande parte, o social que gera os estados psicológicos internos.

Por isso, pensar em mudanças psicológicas em massa sem mudanças básicas nas instituições sociais é uma ilusão. Dessas instituições, a que mais influencia a experiência da vida adulta é a família porque é aí que o feminino e o masculino se estruturam.

Historicamente, o papel da mulher em relação ao casamento foi o de objeto, seja para manter dinastias, acordos políticos ou como fonte de prazer e força de trabalho. A virgindade, por exemplo, era uma moeda de troca que valorizava o contrato de casamento. Ao casar, a mulher perdia uma parte da sua individualidade, o que começava com a perda do sobrenome.

"Assim como o pós-moderno pode ser pensado como uma crítica, não aos princípios igualitários ou libertários da modernidade, mas justamente às relações de desigualdade que foram legitimadas em seu nome, a crise da família moderna também pode ser pensada como o resultado do questionamento da construção de gênero desenvolvida com os processos de modernização.

A crise dos discursos não ocorreu apenas no campo da filosofia ou da política, a destruição criativa inerente à modernidade não poupou os domínio da intimidade." (VAITSMAN, 1994, p.191)

Em resumo, as mudanças na família estão relacionadas a um conjunto de forças sociais, econômicas e demográficas. O crescimento da participação da mulher na força de trabalho fora de casa está relacionado a necessidades econômicas, mas sem o desenvolvimento dos métodos de controle de natalidade e os avanços da medicina, que permitiram o aumento da longevidade, essas mudanças não seriam possíveis. Isso traz conseqüências para a condução do casamento e também da vida adulta, dando o tom de como se pensa e planeja viver.

"Hoje, quando aos 40 ainda somos jovens, a fase adulta se torna um estágio da vida que traz consigo novas e extraordinárias possibilidades - e um conjunto de problemas." (SCHIMIDT, op. cit., p.10)

Sexualidade, casamento e família

Para Fromm, a família é um importante agente reprodutor cuja estrutura obriga a criança a internalizar a cultura na forma de imagens parentais inconscientes.

Reprimindo a sexualidade ou canalizando-a para vias socialmente aceitas, a família modela tanto o superego quanto o ego e os instintos. Graças a essa repressão, o indivíduo experimenta o sofrimento como culpa e não como injustiça. Logo, a família cultiva a tendência ao sofrimento. Com isso, cria-se uma capacidade deteriorada para ser feliz.

Em relação à sexualidade e ao casamento, pode-se dizer que a primeira interpõe-se à evolução do segundo. Para alguns autores, porém, como Freud, esse é o elemento central da questão. O amor seria, para ele, sexo inibido em seu objetivo.

Lévi Strauss, por sua vez, demonstrou em seus estudos que a família conjugal e monogâmica é bastante freqüente em diferentes sociedades. A questão que se coloca é: apesar de não existir lei natural que exija a universalidade da família, como ela se encontra em quase toda parte?

Strauss afirmava que uma das características quase universais do casamento é a de que ele não tem sua origem no indivíduo, mas nos grupos interessados, como a família e os clãs. Se por um lado os casais originam as famílias, por outro as famílias geram os casamentos para manter alianças.

Esse aparente paradoxo comprova que, definitivamente, o casamento não é um assunto privado. Para o autor, as considerações sexuais não são fundamentais na questão do casamento, já que, na história da humanidade, sempre existiram maneiras de se ter relações, ainda que clandestinamente.

O primordial dessa análise seriam as necessidades econômicas, como se observou nas sociedades tribais, onde a divisão sexual do trabalho estabelece uma dependência mútua entre homens e mulheres, obrigando-os a perpetuar-se e a formar uma família.

O casamento como um rito

Os ritos são mecanismos que buscam a totalidade, a integração dos indivíduos, freqüentemente inexistente ou difícil de ser percebida no cotidiano. Nesse sentido, a cerimônia de casamento, seja religiosa ou não, representa um momento ritual no qual se concentra um estado de alegria pessoal baseado, porém, na existência social, na celebração em grupo.

O rompimento de um casamento

O nascimento inicia uma série de separações pelas quais, inevitavelmente, o ser humano passará na vida. No desmame, por exemplo, o bebê se "desprende" do corpo da mãe para nutrir-se em outras fontes e fazer novas descobertas. Assim, a cada transição do conhecido para o novo, reavivam-se as sensações de separações e perdas anteriores. Nessa transição, a pessoa não pode contar com os antigos pontos de referência e ainda não dispõe de outros. Dessa forma, é um momento de muitas dúvidas, de angústia.

Nesse contexto, a separação conjugal pode ser um desses momentos de rompimento pelos quais o ser humano passa. Simbolicamente, a separação representa o luto por ter que se desfazer projetos de vida construídos até então (Eu sonhava envelhecer com ele(a)...).

É, portanto, uma etapa em que se precisa elaborar novos projetos existenciais. Para muitas pessoas, vêm as saudades de um passado idealizado que nunca existiu, de um sonho que nunca se concretizou de fato. O luto não é só pela perda do cônjuge, mas também e, talvez, principalmente, pela quebra de expectativas. A separação desmancha o ideal dos contos de fada e o príncipe ou a princesa vira "sapo" ou "sapa".

Na ótica: casamento = vínculo eterno, a separação é vista como um fracasso. Esse tipo de ideologia, seja religiosa ou não, traz a culpa, a idéia de punição. Essa punição também é social, visto que, antes da lei do divórcio, reservava-se ao indivíduo separado a impossibilidade de reconstruir uma vida estável e legalmente reconhecida.

Hoje, embora ainda gere impacto psicológico nos dois, homem e mulher, a separação carrega menos culpa, associando-se ao alívio e ao aumento de liberdade e não a um peso de obrigações não cumpridas. Apesar dessa constatação, como já foi dito anteriormente, não se pode ignorar o fato de que o passado ainda ronda a pós-modernidade e antigos mitos permanecem vivos, mesmo que enfraquecidos.

Na atualidade, os contatos sociais são mais intensos (estudo, profissão, lazer, entre outros), o que torna frágil, como já se afirmou neste trabalho, o slogan Até que a morte os separe. Além disso, as pessoas opinam mais, então, discordam umas das outras, precisando, por isso, negociar as opiniões em busca de um entendimento.

Dessa forma, vai-se desenhando o perfil de cada casal juntamente, é claro, com outros fatores como as expectativas sociais, e aí inclui-se a expectativa das duas famílias de origem, que interferem nessa relação.

Em suma, a separação conjugal pode simbolizar uma espécie de "morte". Porém, apesar de a perda de rumo ser inevitável nesse momento, quem é capaz de interpretar essa realidade sem perder o sentido da própria vida, da vida que não começa e muito menos termina em outra pessoa, tem um instrumento válido para passar pela dor, lidando melhor com o vazio que avança em sua direção.

As formas de casamento

Os modelos familiares ilustram momentos da evolução social. Assim, quanto à forma, de uma maneira simplificada, tem-se:

Poligamia

Poliandria: casamento de uma mulher com vários homens, encontrada em alguns grupos, principalmente na Índia Meridional

Poliginia: casamento de um homem com várias mulheres

Monogamia

Casamento entre um homem e uma mulher, o que simplifica a transmissão dos direitos de herança e propriedade.

Algumas definições de casamento

Definições do Casamento

"União sexual socialmente legítima, iniciada com anúncio público e empreendida com certa intenção de permanência; é iniciada com contrato de casamento mais ou menos explícito, que determina direitos e obrigações recíprocos entre os cônjuges, e entre os cônjuges e seus futuros filhos."

(STEPHENS apud BASSANI, 1985)

"O amor é uma coisa ideal, o casamento uma coisa real. E a confusão entre o ideal e o real nunca fica impune."

(GOETHE apud SCHIMIDT, 1997)

"De qualquer modo, casa-te: se conseguires uma boa esposa, serás feliz; se tua esposa for má, tornar-te-ás um filósofo."

(SÓCRATES apud JABLONSKI, op.cit.)

"Matrimônio: estudam-se três semanas, amam-se três meses, discutem-se três anos, toleram-se trinta anos. E os filhos recomeçam."

(TAINE apud JABLONSKI, id.)

"As feridas do casamento são curadas pelo divórcio, cujas feridas se curam por outro casamento."

(ANDRADE apud JABLONSKI, id.)

"O país do casamento é muito peculiar: os estrangeiros querem habitá-lo e os nativos, seus habitantes naturais, querem ser exilados..."

(MONTAIGNE apud JABLONSKI, id.)

"O casamento é o intercâmbio de maus humores durante o dia e de maus odores durante a noite."

(SCHOPPENHAUER apud JABLONSKI, id.)

"O casamento é como pirulito: começa no mel, acaba no palito."

(dito popular apud JABLONSKY, id.)

"Casamento, s.m., estado ou condição de uma comunidade que consiste de um senhor, uma senhora e dois escravos, perfazendo um total de dois."

(PIERCE apud JABLONSKY, id.)

"Quem casa, morre um pouco. A prova disto é que já não se necessita mais de certidão de nascimento, pois a de casamento a substitui, perfeitamente, para fins legais."

(WANKE apud RÓNAI, 1995)

A partir da pesquisa feita para o projeto Eu Vos Declaro Marido e Mulher, conclui-se que o casamento legaliza publicamente o vínculo afetivo, que assume a forma de um contrato com direitos e obrigações.

Do ponto de vista sociológico tradicional, o casamento é um grande ordenador social que, aos poucos, está se desestruturando, abrindo espaço para a possibilidade de construção de uma ordem menos restritiva.

Fonte: www.speedrj.com.br

voltar 1234567avançar
Sobre o Portal | Política de Privacidade | Fale Conosco | Anuncie | Indique o Portal