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Castro Alves

POETA-CONDOR

Se o mal de peito lhe vai roubar tempo de vida, então há que vivê-lo intensamente... O poeta alarga a sua dor pequena às dores da humanidade. Ei-lo a declamar “O Século”:

O Século é grande... No espaço
Há um drama de treva e luz.
Como Cristo - a liberdade
Sangra no poste da cruz.
(...)

A escandalizar:

Quebre-se o ceptro do Papa,
Faça-se dele uma cruz.
A púrpura sirva ao povo
Pra cobrir os ombros nus.

E, com “Os Escravos”, a amedrontar até os abolicionistas moderados:

(...)
Somos nós, meu senhor, mas não tremas,
Nós quebramos as nossas algemas
Pra pedir-te as esposas ou mães.
Este é o filho do ancião que mataste.
Este - irmão da mulher que manchaste...
Oh, não tremas, senhor; são teus cães.
(...)
Cai, orvalho de sangue do escravo,
Cai, orvalho na face do algoz,
Cresce, cresce, seara vermelha,
Cresce, cresce, vingança feroz.
(...)

Tribuno, poeta-condor a adejar sobre a multidão em delírio, ovações, são as ânsias de liberdade a sacudir o Brasil.

PRESSA

Tem pressa, a sua vida está a esvair-se mas, vez por outra, é obrigado a parar. É quando em 1864 José António, o seu perturbado irmão, se suicida em Curralinho. É quando, em 1866, falece o Dr. Alves, o seu pai, e ele, então de férias na Bahia, a assistir ao passamento.

Mas reage, não tem tempo a perder. É vizinho das Amzalack, três irmãs judias. Manda-lhes um poema, elas que decidam qual a destinatária (talvez seja a Esther):

Pomba d’esp’rança sobre um mar d’escolhos!
Lírio do vale oriental, brilhante!
Estrela vésper do pastor errante!
Ramo de murta a recender cheirosa!...
Tu és, ó filha de Israel formosa...
Tu és, ó linda sedutora Hebreia...
Pálida rosa da infeliz Judéia
Sem ter o orvalho, que do céu deriva!

Retorna ao Recife, matricula-se no 2.º ano de Direito. Com Rui Barbosa e outros colegas funda uma sociedade abolicionista.

No Teatro Santa Isabel declama o poema “Pedro Ivo”, exaltação do herói da revolta Praieira e do ideal republicano:

Cabelos esparsos ao sopro dos ventos,
Olhar desvairado, sinistro, fatal,
Diríeis estátua roçando nas nuvens,
Pra qual a montanha se fez pedestal.
(...)
República! Voo ousado
Do homem feito condor!
(...)

Consolidará a imagem:

A praça! A praça é do povo
Como o céu é do condor...

Participa na fundação do jornal de ideias “A Luz”.

Torna-se amante de Eugénia Câmara e convence-a a fugir com ele para,

(...) A todos sempre sorrindo,
Bem longe nos ocultar...
Como boémios errantes,
Alegres e delirantes
Por toda a parte a vagar.

Pressa, tem muita pressa. Escreve, em prosa, o drama “Gonzaga” ou “A Revolução de Minas”. Organiza manifestação contra o espancamento de um estudante republicano. Em Maio de 67 abandona, de vez, o Recife. Viaja, com Eugénia, para a Bahia. Mudam-se para a chácara Boa Vista. Um cão de guarda, já muito velho, vem lamber-lhe a mão. Memórias, melancolia...

A erva inunda a terra; o musgo trepa os muros;
A urtiga silvestre enrola em nós impuros
Uma estátua caída, em cuja mão nevada
A aranha estende ao sol a teia delicada.

No Teatro São João, Eugénia desempenha o principal papel feminino do “Gonzaga”. Sucesso, consagração do autor em cena aberta, embora as senhoras da capital baiana torçam o nariz à ligação do poeta com uma “cómica de má vida”.

Mas na Bahia o ambiente é acanhado, a vida é lenta e ele tem pressa, tem muita pressa. Em Fevereiro de 68 Castro Alves e Eugénia partem para o Rio de Janeiro.

RIO DE JANEIRO

José de Alencar e Machado de Assis louvam a poesia de Castro Alves. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.

Na capital procura José de Alencar e o autor de “Iracema” deixa-se cativar pelo fluxo verbal do poeta. Apresenta-o a Machado de Assis. Dirá este:

- Achei uma vocação literária cheia de vida e robustez, deixando antever nas magnificências do presente as promessas do futuro.

Também em Lisboa, Eça de Queirós ao ler, para um amigo, o poema “Aves de Arribação”

(...) Às vez quando o sol nas matas virgens
A fogueira das tardes acendia... (...)

comentará:

- Aí está, em dois versos, toda a poesia dos trópicos.

Ainda em Portugal, afirmará António Nobre:

- O maior poeta brasileiro.

Na redacção do Diário do Rio de Janeiro, Castro Alves lê, para outros homens de letras, o seu “Gonzaga”. Sucesso!

Mas a glória popular é quando, da varanda do mesmo jornal, na Rua do Ouvidor, centro da Capital, declama para a multidão as estrofes do “Pesadelo de Humaitá”, em que celebra o feito da esquadra brasileira na Guerra do Paraguai:

Fere estes ares, estandarte invicto!
Povo, abre o peito para nova vida!
Talvez agora o pavilhão da pátria
Açoite altivo Humaitá rendida.
Sim! pela campa dos soldados mortos,
Sim! pelo trono dos heróis, dos reis;
Sim! pelo berço dos futuros bravos,
O vil tirano há-de beijar-lhe os pés.

S. PAULO

Em Março de 68, Eugénia Câmara e Castro Alves viajam para São Paulo. Ali, na Faculdade do Largo de S. Francisco, o poeta pretende concluir o curso de Direito. Porém, mais do que o estudo, mobilizam-no os grandes ideais da Abolição e da República, também a agitação académica a fluir das arcadas da Faculdade. Em sessão magna, pela primeira vez declama o “Navio Negreiro”:

Era um sonho dantesco... O tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho,
Em sangue a se banhar,
Tinir de ferros... estalar de açoite...
Legiões de homens negros como a noite
Horrendos a dançar...

Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães;
Outras, moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs!

E ri-se a orquestra irónica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doidas espirais...
Se o velho arqueja, se no chão resvala,
Ouvem-se gritos... o chicote estala.
E voam mais e mais.

Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que de martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!

No entanto, o capitão manda a manobra,
E após, fitando o céu que se desdobra
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
“Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!...”

E ri-se a orquestra irónica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doidas espirais...
Qual num sonhos dantesco as sombras voam!
Gritos, ais, maldições, preces ressoam
E ri-se Satanás!...

Conclui o poeta:

Auriverde pendão da minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra,
E as promessas divinas da esperança...
Tu, que da liberdade após a guerra,
Foste hasteada dos heróis na lança,
Ante te tivessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!

Dirá Joaquim Nabuco: “Quem visse Castro Alves em um desses momentos em que se inebriava de aplausos, vestido de preto para dar à fisionomia um reflexo de tristeza, com a fronte contraída como se o pensamento a oprimisse, com os olhos que ele tinha profundos e luminosos fixos em um ponto do espaço, com os lábios ligeiramente contraídos de desdém ou descerrados por um sorriso de triunfo, reconheceria logo o homem que ele era: uma inteligência aberta às nobres ideias, um coração ferido que se procurava esquecer na vertigem da glória.”

Esquecer o quê? Talvez a tuberculose que vai minando os seus pulmões, talvez o arrefecimento do amor de Eugénia Câmara. A Dama Negra está a envelhecer e corre em busca da juventude, erotismo, aventuras várias. Ciúmes de Castro Alves, violência e mágoa, reconciliações, sensualidade:

É noite ainda! Brilha na cambraia
- desmanchado o roupão, a espádua nua -
O globo do teu peito entre os arminhos
Como entre as névoas se balança a lua...

O par separa-se em Setembro de 68. Encontram-se, pela última vez, em Outubro, quando Eugénia sobe ao palco do Teatro São José para, mais uma vez, interpretar o principal papel feminino do “Gonzaga”.

Isolamento, melancolia, tabaco, nuvens de fumo, mal agravado.

Armado, o poeta passeia pelas várzeas do Brás, caçar é distracção. Ao saltar uma vala, tropeça, a espingarda dispara-se e o tiro acerta-lhe no calcanhar esquerdo. Dores, infecção, o pé terá de ser amputado. Mas a operação deverá ocorrer no Rio, pois o clima húmido de São Paulo agrava-lhe o mal do peito.

O DERRADEIRO ENCONTRO

"Não quero mais o teu amor", diz Castro Alves para Eugénia Câmara. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.

O poeta é levado para a Capital em Maio de 69. Fica hospedado na casa do seu amigo Cornélio dos Santos.

Amputação do pé, porém a frio, o seu estado de fraqueza desaconselha o uso do clorofórmio. Galhofa é o escudo contra a dor:

- Corte-o, corte-o, doutor... Ficarei com menos matéria do que o resto da Humanidade.

Valem depois ao poeta os muitos amigos que o cercam durante a longa convalescença.

17 de Novembro de 69: Castro Alves enfia a perna esquerda num botim recheado de algodão, assim disfarça o defeito. Apoiado numa muleta, aí vai ele assistir a um espectáculo de Eugénia Câmara no Teatro Fénix Dramática. Os dois antigos amantes têm ainda uma troca de palavras. Dessa última conversa sobram versos, apenas:

Quis te odiar, não pude. – Quis na terra
Encontrar outro amor. – Foi-me impossível.
Então bem disse a Deus que no meu peito
Pôs o germe cruel de um mal terrível.

Sinto que vou morrer! Posso, portanto,
A verdade dizer-te santa e nua:
Não quero mais o teu amor! Porém minh’alma
Aqui, além, mais longe, é sempre tua.

Uma semana depois embarca para a Bahia. Doente, e aleijado, o poeta retorna a casa.

A BAHIA - O SERTÃO

Castro Alves recorda a sua infância. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.

Recebido efusivamente por Maria (a madrasta) por Augusto Álvares Guimarães (o cunhado e grande amigo), por Guilherme (o irmão), e por Elisa, Adelaide (esposa de Augusto) e Amélia, as três irmãs que o endeusam.

É curta a permanência de Castro Alves em Salvador. Apenas o tempo necessário para coligir os poemas para a edição de “Espumas Flutuantes”. Relembra São Paulo, onde alcançara a glória, nostalgia:

Tenho saudades das cidades vastas
Dos ínvios cerros, do ambiente azul...
Tenho saudades dos cerúleos mares,
Das belas filhas do país do sul.

Tenho saudades de meus dias idos
- Pét’las perdidas em fatal paul -
Pét’las que outrora desfolhámos juntos,
Morenas filhas do país do sul.

Depois abala para o sertão onde, segundo os médicos, o clima seco será mais favorável aos seus pulmões. Passará o tempo a escrever e a desenhar.

Em Curralinho, o comovido reencontro com a paisagem e a memória da infância:

Hora meiga da Tarde! Como é bela
Quando surges do azul da zona ardente!
Tu és do céu a pálida donzela
Que se banha nas termas do oriente...
Quando é gota do banho cada estrela
Que te rola da espádua refulgente...
E, - prendendo-te a trança a meia lua,
Te enrolas em neblinas seminua!...

Eu amo-te, ó mimosa do infinito!
Tu me lembras o tempo em que era infante.
Inda adora-te o peito do precito
No meio do martírio excruciante;
E, se não te dá mais da infância o grito
Que menino elevava-te arrogante,
É que agora os martírios foram tantos,
Que mesmo para o riso só tem prantos!...
(...)

E na fazenda de Sta. Isabel do Orobó, o reencontro com Leonídia Fraga, sua prometida de menino e hoje donzela airosa que por ele esperara sempre. Reacender a paixão primeira? Para quê, se a morte ronda? A si mesmo diz o poeta:

Talvez tenhas além servos e amantes,
Um palácio em lugar de uma choupana.
E aqui só tens uma guitarra e um beijo,
E o fogo ardente de ideal desejo
Nos seios virgens da infeliz serrana!

Leonídia, a “infeliz serrana”, ficará para sempre à sua espera. Acabará por enlouquecer.

AGNESE

Fizeram-lhe bem os ares do sertão, sente-se melhor e regressa a Salvador.

As “Espumas Flutuantes” são editadas, correm de mão em mão e o poeta é saudado e louvado em cada esquina.

Apaixona-se por Agnese Trinci Murri, alta, alva, bela viúva florentina, cantora lírica que se deixara ficar na Bahia para ensinar piano às meninas da alta roda. A italiana aceita, vagamente, a corte do poeta, mas não embarca em aventuras, quer manter o seu bom nome.

No camarote gélida e quieta
Por que imóvel assim cravas a vista?
És o sonho de neve de um poeta?
És a estátua de pedra de um artista?

Renascera contudo o optimismo e o poeta tornara ao teatro, longe já vai o tempo da Dama Negra... Ouve recitar a sua “Deusa Incruenta”, exaltação do papel educativo da Imprensa:

Oh! Bendito o que semeia
Livros à mão cheia
E manda o povo pensar!
O livro, caindo n’alma
É germe – que faz a palma,
É chuva – que faz o mar!

E em Outubro de 70 é ele mesmo quem declama, no comício de apoio às vítimas francesas das tropas de Bismarck:

Já que o amor transmudou-se em ódio acerbo,
Que a eloquência é o canhão, a bala - o verbo,
O ideal – o horror!
E, nos fastos do século, os tiranos
Traçam co’a ferradura dos uhlanos
O ciclo do terror...
(...)
Filhos do Novo Mundo! Ergamos nós um grito
Que abafe dos canhões o horríssono rugir,
Em frente do oceano! Em frente do infinito
Em nome do progresso! Em nome do porvir!

É a sua última aparição em público. O estado de saúde agrava-se. Recolhe-se à casa da família. Em 71, na noite de 23 de Junho aproxima-se da varanda. O fumo das fogueiras de São João provoca-lhe um acesso de tosse que o deixa prostrado. Febre alta, hemoptises. Ordena a Adelaide que impeça a visita de Agnese. Não consente que a Diva derradeira contemple a sua ruína física. A 6 de Julho pede que o sentem junto a uma janela ensolarada. A contemplar o longe, morre às 3 e meia da tarde. 24 anos, vida breve, intensidade.

* * *

Quando me aproximo da máquina do tempo, os dois clandestinos já estão à minha espera para regressarem ao futuro. Sei que, durante a viagem, irão misteriosamente desaparecer como, na vinda, misteriosamente apareceram na cabina. Entusiasmo do Maestro Tabarin:

- Vigoroso e revolucionário Castro Alves! Um romântico sem açúcar... Tal e qual Chopin...

E o outro? Puxei pela memória e agora já sei quem é: Agripino Grieco, brasileiro, crítico de língua afiada. Sobre o que viu e ouviu tem, obviamente, uma opinião. Definitiva, como são todas as suas:

- Castro Alves não foi um homem, foi uma convulsão da natureza.

Principais Obras de Castro Alves
Gonzaga ou A Revolução de Minas
Os Escravos
Hinos do Equador
A Cachoeira de Paulo Afonso
Espumas Flutuantes

Fonte: www.vidaslusofonas.pt

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