Quando eu morrer... não lancem meu cadáver
No fosso de um sombrio cemitério...
Odeio o mausoléu que espera o morto
Como o viajante desse hotel funéreo.
Corre nas veias negras desse mármore
Não sei que sangue vil de messalina,
A cova, num bocejo indiferente,
Abre ao primeiro o boca libertina.
Ei-la a nau do sepulcro—o cemitério...
Que povo estranho no porão profundo!
Emigrantes sombrios que se embarcam
Para as plagas sem fim do outro mundo.
Tem os fogos — errantes—por santelmo.
Tem por velame —os panos do sudário...
Por mastro—o vulto esguio do cipreste,
Por gaivotas — o mocho funerário...
Ali ninguém se firma a um braço amigo
Do inverno pelas lúgubres noitadas...
No tombadilho indiferentes chacam-se
E nas trevas esbarram-se as ossadas...
Como deve custar ao pobre morto
Ver as placas da vida além perdidas,
Sem ver o branco fumo de seus lares
Levantar-se por entre as avenidas!...
Oh! perguntai aos frios esqueletos
Por que não têm o coração no peito...
E um deles vos dirá "Deixei-o há pouco
De minha amante no lascivo leito."
Outro: "Dei-o a meu pai". Outro: "Esqueci-o
Nas inocentes mãos de meu filhinho"...
. . . Meus amigos! Notai. . . bem como um pássaro
O coração do morto volta ao ninho!...
Uma Página de Escola Realista
DRAMA CÔMICO EM QUATRO PALAVRAS
A tragédia me faz rir, a comédia me faz chorar,
E o drama? Nem rir, nem chorar...
(Pensamento de CARNIOLI)
CENÁRIO
A alcova é fria e pequena
Abrindo sobre um jardim.
A tarde frouxa e serena lá desmaia para o fim.
No centro um leito fechado
Deixa o longo cortinado
Sobre o tapete rolar...
Há, nas jarras deslumbrantes,
Camélias frias, brilhantes,
Lembrando a neve polar.
Livros esparsos por terra,
Uma harpa caída além;
E essa tristeza, que encerra
O asilo, onde sofre alguém.
Fitas, máscaras e flores
Não sei que vagos odores
Falam de amor e prazer.
Além da frouxa penumbra
Um vulto incerto ressumbra
—O vulto de uma mulher.
Vous, qui volez là-bas. légères hirondelles
Dites-moi, dites-moi, pourquoi vais-je mourir!
MUSSET
MÁRIO (no leito)
É tarde! É tarde! Abri-me estas cortinas
Deixai que a luz me acaricie a fronte!...
Ó sol, ó noivo das regiões divinas,
Suspende um pouco a luz neste horizonte!
SÍLVIA (abrindo a janela)
Da noite o frio vento te regela
O mórbido suor...
MÁRIO
Oh! que me importa?
A tarde doura-me o suor da fronte...
— Último louro desta vida morta!
Crepusc'lo! mocidade! natureza!
Inundai de fulgor meu dia extremo...
Quero banhar-me em vagas de harmonia.
Como no lago se mergulha o remo!
E que amores que sonham as esferas!
A brisa é de volúpia um calafrio.
A estrela sai das folhas do infinito,
Sai dos musgos o verme luzidio...
Tudo que vive, que palpita e sente
Chama o par amoroso para a sombra.
O pombo arrula — preparando o ninho,
A abelha zumbe — preparando a alfombra.
As trevas rolam como as tranças negras,
Que a Andaluza desmancha em mago enleio.
E entre rendas sutis surge medrosa
A lua plena, qual moreno seio.
Abre-se o ninho... o cálice... o regaço...
Anfitrite, corando, aguarda o noivo...
( Longa pausa )
E tu também esperas teu esposo,
Ó morte! ó moça, que engrinalda o goivo!
SÍLVIA (a meia voz, acompanhando-se na guitarra)
Dizem as moças galantes
Que as rolas são tão constantes...
Pois será?
Que morrendo-lhe os amantes,
Morrem de fome, arquejantes,
Quem dirá?
Dizem sábios arrogantes
Que nestas terras distantes,
Não por cá,
Sobre piras fumegantes
Morrem viúvas constantes,
Pois será?
Não creio nos navegantes
Nem nas histórias galantes,
Que há por lá.
Fome e fogueiras brilhantes
Cá não há...
Mas inda morrem amantes
De saudades lacerantes
Quem dirá?
MÁRIO ( vendo-a chorar)
(Aos últimos arpejos cai-lhe uma lágrimas
Sílvia! Deixa rolar sobre a guitarra,
Da lágrima a harmonia peregrina!
Sílvia! cantando— és a mulher formosa!
Sílvia! chorando—és a mulher divina!
Oh! lágrimas e pérolas! — aljofares
Que rebentais no interno cataclismo,
Do oceano — este, dédalo insondável!
Do coração—este profundo abismo!
Sílvia! dá-me a beber a gota d'água,
Nessa pálpebra roxa como o lírio...
Como lambe a gazela o brando orvalho
Nas largas folhas do deserto assírio.
E quando est'alma desdobrando as asas
Entrar do céu na região serena,
Como uma estrela eu levarei nos dedos
Teu pranto sideral, ó Madalena!...
SÍLVIA (tem-se ajoelhado aos pés do leito)
Meus prantos sirvam apenas
P'ra umedecer teus cabelos,
Como da corça nos velos
Fresco orvalho a resvalar!
P'ra molhar a flor, que aspires,
Rolem prantos de meus olhos,
P'ra atravessar os escolhos
Meus prantos manda rolar!...
Meus prantos sirvam apenas
P'ra a terra, em que tu pisares,
P'ra a sede, em que te abrasares,
Terás meu sangue, Senhor!
Meus prantos são óleo humilde
Que eu derramo a tuas plantas..
(MÁRIO estende-lhe os braços)
Mas se acaso me levantas
Meus prantos dizem-te amor!...
MÁRIO (tendo-a contra o seio)
Sentir que a vida vai fugindo aos poucos
Como a luz, que desmaia no ocidente...
E boiar sobre as ondas do sepulcro,
Como Ofélia nas águas da corrente...
Sentir o sangue espanadar do peito
o Licor de morte — sobre a boca fria,
E meu lábio enxugar nos teus cabelos,
Como Rolla nas tranças de Maria.
De teus braços fazer o diadema
De minha vida, que desmaia insana,
Esquecer o passado em teu regaço,
Como Byron aos pés da Italiana;
Em teu lábio molhado e perfumoso
O licor entornar de minha vida...
Escutar-te nus vascas da agonia,
Como Fausto as canções de Margarida!...
Eis como eu quero — na embriaguez da morte...
Do banquete no chão pender a fronte...
Inda a taça empunhando de teus beijos
Sob as rosas gentis de Anacreonte!...
(A noite tem descido pouco a pouco O luar penetrando /o
pela alcova a alumia o grupo dos amantes. )
Sílvia!
Que palidez, meu poeta,
Se estende nu face tua
MÁRIO!...
São os raios descorados,
Os alvos raios da lua!
Sílvia!
Mas um suor de agonia
Teu peito ardente tressua..
MÁRIO
São os orvalhos, que descem
Ao frio clarão da lua!
Sílvia!
Que mancha é esta sangrenta,
Que no teu lábio flutua?
MÁRIO
São as sombras de uma nuvem
Que tolda a face da lua!
SÍLVIA
Como teus dedos esfriam
Sobre minha espádua nua!...
MÁRIO ( distraído )
Não vês um anjo, que desce,
No frouxo clarão da lua?...
SÍLVIA
Mário? Não vês quem te chama?...
Tua amante... Sílvia... a tua...
MÁRIO (desmaiando)
É a morte que me leva
Num frio raio da lua!...
(O poeta cai semimorto sobre o leito.
No espasmo sua mão contraída prende uma tranca da mura.)
SÍLVIA
Teus brancos dedos fecharam
De meu cabelo a madeixa,
Tua amante não se queixa...
Bem vês... cativa ficou.
Mas não se prende o desejo
Que n'alma acaso se aninha!...
Nunca viste a andorinha,
Que alegre o fio quebrou?
(Ouve-se um relógio dar horas.)
Já! tão tarde! E embalde tento
Abrir-te os dedos fechados...
Como frios cadeados,
Que o teu amor me lançou.
Porém se aqui me cativas
Minh'alma foge-te asinha...
Nunca viste a andorinha,
Que alegre o fio quebrou!
(Debruça-se Q escrever numa carteira.)
"Paulo! Vem à meia-noite. . .
Mário morre! Mário expira!
Vem que minha alma delira
E embalde cativa estou..."
MÁRIO (que tem lido por cima de s u ombro)
Sílvia! a morte abre-me os dedos,
És livre, Sílvia... caminha!( morrendo )
Minh'alma é como a andorinha,
Que alegre o fio quebrou.
Coup D'Étrier
É preciso partir! Já na calçada
Retinem. as esporas do arrieiro;
Da mula a ferradura tacheada
Impaciente chama o cavaleiro;
A espaços ensaiando uma toada
Sincha as bestas o lépido tropeiro...
Soa a celeuma alegre da partida,
O pajem firma o loro e empunha a brida.
Já do largo deserto o sopro quente
Mergulha perfumado em meus cabelos.
Ouço das selvas a canção cadente
Segredando-me incógnitos anelos.
A voz dos servos pitoresca, ardente
Fala de amores férvidos, singelos...
Adeus! Na folha rota de meu fado
Traço ainda um — adeus — ao meu
Um adeus! E depois morra no olvido
Minha história de luto e de martírio,
As horas que eu vaguei louco, perdido
Das cidades no tétrico delírio;
Onde em pântano turvo, apodrecido
D'íntimas flores não rebenta um lírio...
E no drama das noites do prostíbulo
É mártir — alma... a saturnal — patíbulo!
Onde o Gênio sucumbe na asfixia
Em meio à turba alvar e zombadora;
Onde Musset suicida-se na orgia,
E Chatterton na fome aterradora!
Onde, à luz de uma lâmpada sombrio,
O Anjo-da-Guarda ajoelhado chora,
Enquanto a cortesã lhe apanha os prantos
P'ra realce dos lúbricos encantos!...
Abre-me o seio, ó Madre Natureza!
Regaços da floresta americana,
Acalenta-me a mádida tristeza
Que da vaga das turbas espadana.
Troca dest'alma a fria morbideza
Nessa ubérrima seiva soberana!...
O Pródigo... do lar procura o trilho...
Natureza! Eu voltei... e eu sou teu filho!
Novo alento selvagem, grandioso
Trema nas cordas desta frouxa lira.
Dá-me um plectro bizarro e majestoso,
Alto como os ramais da sicupira.
Cante meu gênio o dédalo assombroso
Da floresta que ruge e que suspira,
Onde a víbora lambe a parasita...
E a onça fula o dorso pardo agita!
Onde em cálix de flor imaginária
A cobra de coral rola no orvalho,
E o vento leva a um tempo o canto vário
D'araponga e da serpe de chocalho...
Onde a soidão é o magno estradivário...
Onde há músc'los em fúria em cada galho,
E as raízes se torcem quais serpentes...
E os monstros jazem no ervaçal dormentes.
E se eu devo expirar. .. se a fibra morta
Reviver já não pode a tanto alento...
Companheiro! Uma cruz na selva corta
E planta-a no meu tosco monumento!...
Da chapada nos ermos... (o qu'importa?)
Melhor o inverno chora... e geme o vento.
E Deus para o poeta o céu desata
Semeado de lágrimas de prata!...
Curralinho, 1 de junho de 1870.
Fonte: www.bibvirt.futuro.usp.br