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Americanas

Machado de Assis

 

Assim falando, Tatupeba o solo

Com a planta feriu. Os olhos todos

Pendem da boca do sombrio chefe.

Silencioso Jaciúca ouvira

As falas do guerreiro; silencioso

E quieto ficou. Após instantes,

A fronte sacudiu, como expelindo

Idéias más que o cérebro lhe turvam,

E a voz lhe rompe do íntimo do peito.

“Ó guerreiros (diz ele), aqui deitados

Estivestes a noite, e toda inteira

A dormistes de certo; eu, não distante,

Do rio à margem a trabalhar comigo,

Afiava na mente atra vingança;

Até que os frouxos membros descaíram

Sobre a macia relva, e um tempo largo

Assim fiquei entre vigília e sono.

Viam meus olhos ondular as águas,

Mas no alheado pensamento os ecos

Sussurravam da infância. Um gênio amigo

Aos tempos me levava em que no rosto

De meu pai aprendi, com frio pasmo,

A rara intrepidez, válida herança,

Que tanto custa ao pérfido inimigo.

De repente, uma luz pálida e triste

Inunda o campo: transparente névoa

E luminosa aquilo parecia,

Ou baço refletir da branca lua

Que nuvens cobrem. Lívido e curvado,

Içaíba a meus olhos aparece.

Vi-o qual era antes da fria morte;

Só a expressão do rosto lhe mudara;

Enérgicas não tinha, mas serenas

As feições. “Vem comigo!” Assim me fala

O extinto bravo; e , súbito estreitando

Ao peito o corpo do saudoso amigo,

Juntos voamos à região das nuvens.

“Olha!” disse Içaíba, e o braço alonga

Para a terra. Ó guerreiros! largo espaço

Era presa de alheio senhorio.

Fitei os olhos mais; e pouco a pouco,

Como enche o rio e todo o campo alaga,

Umas gentes estranhas se estendiam

De sertão em sertão. Presas do fogo

As matas vi, abrigo do guerreiro,

E ao torvo incêndio e às invasões da morte

Vi as tribos fugir, ceder a custo,

Com lágrimas alguns, todos com sangue,

A virgem terra ao bárbaro inimigo.

Mau vento os trouxe de remota praia

Aqueles homens novos, jamais vistos

De guerreiro ancião, a quem não coube

Sequer a glória de morrer contente

E todo reviver na ousada prole.

Era o termo da vida que chegara

Ao povo de Tupã! Grito de morte

Único enchia os ares, — um suspiro

De tristeza e terror, que reboava

Pelos recessos da floresta antiga

E talvez ameigava o peito às feras...

Surdos os manitôs deixado haviam

Os seus fortes heróis; surdos se foram

Entre os gênios folgar da raça nova,

E rir talvez das lágrimas choradas

Pelos olhos das virgens... Oh! se ao menos

Fora pranto de livres! Era a morte

A menor das angústias; vi curvada

E cativa rojar no pó da terra

A fronte do guerreiro, agora altiva,

Livre, como o condor que frecha as nuvens;

Não canitar a cinge, mas vergonha,

Melancólico adorno do vencido.

O rosto desviei do estranho quadro.

“Olha!” repete o pálido Içaíba.

Olhei de novo, e na saudosa taba,

Que os nossos arcos defender souberam,

Em vez da sombra do piaga santo,

Que, ao som do maracá, colhia as vozes

Do pensamento eterno, e as infundia

No seio do guerreiro, como o fumo

Do petum lhe dobrava ímpeto e força,

Um vulto descobri de vestes negras,

Nua quase a cabeça, e cor de espuma

Alguns cabelos raros. Tinha o rosto

Alvo e quieto. Em suas mãos sustinha

Extenso lenho com dois curtos braços.

Ia só; todo o campo era deserto.

Nem um guerreiro! um arco! “A tribo?” “Extinta!”

“A tal palavra, uma pesada sombra

A vista me apagou, e pela face

Senti rolar a lágrima primeira.

O sinistro espetáculo mudara.

Ao dissipar-se a nuvem de meus olhos

Achei-me junto do vizinho rio,

Reclinado como antes, e defronte

A pálida figura de Içaíba.

“Torna à taba”, me disse o extinto moço;

Luas e luas volverão no espaço
Antes da morte, mas a morte é certa,

E terrível será. Nação bem outra,

Sobre as ruínas da valente raça

Virá sentar-se, e brilhará na terra

Gloriosa e rica. Uma chorada lágrima,

Talvez, talvez, no meio de triunfos.

Há de ser a tardia, escassa paga

Da morte nossa. Poupa ao menos essa

Derradeira esperança de guardá-lo

Todo o valor para o supremo dia

E com honra ceder a estranhas hostes;

Salva ao menos as últimas relíquias

Desta nação vencida; não se rasguem

Peitos que irmãos ao mesmo sol nasceram

E Anhangá fez contrários[xxii]... Todos eles

Poucos serão para a tremenda luta,

Mas de sobra hão de ser para chorá-la.’

“Assim falara o pálido Içaíba;

Alguns instantes contemplou meu rosto,

Calado e firme. A cachoeira ao longe

Interrompia apenas o silêncio;

E eu morto, eu mesmo me sentia morto.

Ele um triste suspiro magoado

Soltou do peito; os apagados olhos

Às estrelas ergueu, sereno e triste,

E de novo rompendo o vôo aos ares,

Como uma frecha penetrou nas nuvens.”


A GONÇALVES DIAS

Ninguém virá, com titubeantes passos,

E os olhos lacrimosos, procurando

O meu jazigo...

GONÇALVES DIAS. Últimos Cantos.

Tu vive e goza luz serena e pura.

J. BASÍLIO DA GAMA. Uraguai, c. V.

Assim vagou por alongados climas,

E do naufrágio os úmidos vestidos

Ao calor enxugou de estranhos lares

O lusitano vate. Acerbas penas

Curtiu naquelas regiões; e o Ganges,

Se o viu chorar, não viu pousar calada,

Como a harpa dos êxules profetas,

A heróica tuba. Ele a embocou, vencendo

Co’a lembrança do ninho seu paterno,

Longas saudades e míseras tantas.

Que monta o padecer? Um só momento

As mágoas lhe pagou da vida; a pátria

Reviu, após a suspirar por ela;

E a velha terra sua

O despojo mortal cobriu piedosa

E de sobejo o compensou de ingratos.

Mas tu, cantor da América, roubado

Tão cedo ao nosso orgulho, não te coube

Na terra em que primeiro houveste o lume

Do nosso sol, achar o último leito!

Não te coube dormir no chão amado,

Onde a luz frouxa da serena lua,

Por noite silenciosa, entre a folhagem

Coasse os raios úmidos e frios,

Com que ela chora os mortos... derradeiras

Lágrimas certas que terá na campa

O infeliz que não deixa sobre a terra

Um coração ao menos que o pranteie.

Vinha contudo o pálido poeta

Os desmaiados olhos estendendo

Pela azul extensão das grandes águas,

A pesquisar ao longe o esquivo fumo

Dos pátrios tetos. Na abatida fronte

Ave da morte as asas lhe roçara;

A vida não cobrou nos ares novos,

A vida, que em vigílias e trabalhos,

Em prol dos seus, gastou por longos anos,

Co’essa largueza de ânimo fadado

A entornar generoso a vital seiva.

Mas, que importava a morte, se era doce

Morrê-la à sombra deliciosa e amiga

Dos coqueiros da terra, ouvindo acaso

No murmurar dos rios,

Ou nos suspiros do noturno vento,

Um eco melancólico dos cantos

Que ele outrora entoara? Traz do exílio

Um livro, monumento derradeiro

Que à pátria levantou; ali revive

Toda a memória do valente povo

Dos seus Timbiras...

Súbito, nas ondas

Bate os pés, espumante e desabrido,

O corcel da tormenta; o horror da morte

Enfia o rosto aos nautas... Quem por ele,

Um momento hesitou quando na frágil

Tábua confiou a única esperança

Da existência? Mistério obscuro é esse

Que o mar não revelou. Ali sozinho,

Travou naquela solidão das águas

O duelo tremendo, em que a alma e corpo

As suas forças últimas despendem

Pela vida da terra e pela vida

Da eternidade. Quanta imagem torva,

Pelo turbado espírito batendo

As fuscas asas, lhe tornou mais triste

Aquele instante fúnebre! Suave

É o arranco final, quando o já frouxo

Olhar contempla as lágrimas do afeto,

E a cabeça repousa em seio amigo.

Nem afetos nem prantos; mas somente

A noite, o medo, a solidão e a morte.

A alma que ali morava, ingênua e meiga,

Naquele corpo exíguo, abandonou-o,

Sem ouvir os soluços da tristeza,

Nem o grave salmear que fecha aos mortos

O frio chão. Ela o deixou, bem como

Hóspede mal-aceito e mal dormido,

Que prossegue a jornada, sem que leve

O ósculo da partida, sem que deixe

No rosto dos que ficam, — rara embora, —

Uma sombra de pálida saudade.

Oh! sobre a terra em que pousaste um dia,

Alma filha de Deus, ficou teu rasto

Como de estrela que perpétua fulge!

Não viste as nossas lágrimas; contudo

O coração da pátria as há vertido.

Tua glória as secou, bem como orvalho

Que a noite amiga derramou nas flores

E o raio enxuga da nascente aurora.

Na mansão a que foste, em que ora vives,

Hás de escutar um eco do concerto

Das vozes nossas. Ouvirás, entre elas,

Talvez, em lábios de indiana virgem!

Esta saudosa e suspirada nênia:

“Morto, é morto o cantor dos meus guerreiros!

Virgens da mata, suspirai comigo!

A grande água o levou como invejosa.

Nenhum pé trilhará seu derradeiro

Fúnebre leito; ele repousa eterno

Em sítio onde nem olhos de valentes,

Nem mãos de virgens poderão tocar-lhes

Os frios restos. Sabiá-da-praia

De longe o chamará saudoso e meigo,

Sem que ele venha repetir-lhe o canto.

Morto, é morto o cantor de meus guerreiros!

Virgens da mata, suspirai comigo!

Ele houvera do Ibaque o dom supremo

De modular nas vozes a ternura,

A cólera, o valor, tristeza e mágoa,

E repetir aos namorados ecos

Quanto vive e reluz no pensamento.

Sobre a margem das águas escondidas,

Virgem nenhuma suspirou mais terna,

Nem mais válida a voz ergueu na taba,

Suas nobres ações cantando aos ventos,

O guerreiro tamoio. Doce e forte,

Brotava-lhe do peito a alma divina.

Morto, é morto o cantor dos meus guerreiros!

Virgens da mata, suspirai comigo!

Coema, a doce amada de Itajubá,

Coema não morreu; a folha agreste

Pode em ramas ornar-lhe a sepultura,

E triste o vento suspirar-lhe em torno;

Ela perdura a virgem dos Timbiras,

Ela vive entre nós. Airosa e linda,

Sua nobre figura adorna as festas

E enflora os sonhos dos valentes. Ele,

O famoso cantor quebrou da morte

O eterno jugo; e a filha da floresta

Há de a história guardar das velhas tabas

Inda depois das últimas ruínas.

Morto, é morto o cantor dos meus guerreiros!

Virgens da mata, suspirai comigo!

O piaga, que foge a estranhos olhos,

E vive e morre na floresta escura,

Repita o nome do cantor; nas águas

Que o rio leva ao mar, mande-lhe ao menos

Uma sentida lágrima, arrancada

Do coração que ele tocara outrora,

Quando o ouviu palpitar sereno e puro,

E na voz celebrou de eternos carmes.

Morto, é morto o cantor dos meus guerreiros!

Virgens da mata, suspirai comigo!”


OS SEMEADORES[xxiii]

(Século XVI)

...Eis aí saiu o que semeia a semear.

MAT. XIII, 3.

Vós os que hoje colheis, por esses campos largos,

O doce fruto e a flor,

Acaso esquecereis os ásperos e amargos

Tempos do semeador?

Rude era o chão; agreste e longo aquele dia;

Contudo, esses heróis

Souberam resistir na afanosa porfia

Aos temporais e aos sóis.

Poucos; mas a vontade os poucos multiplica,

E a fé, e as orações

Fizeram transformar a terra pobre em rica

E os centos em milhões.

Nem somente o labor, mas o perigo, a fome,

O frio, a descalcez,

O morrer cada dia uma morte sem nome,

O morrê-la, talvez,

Entre bárbaras mãos, como se fora crime,

Como se fora réu

Quem lhe ensinara aquela ação pura e sublime

De as levantar ao céu!

Ó Paulos do sertão! Que dia e que batalha!

Venceste-a; e podeis

Entre as dobras dormir da secular mortalha;

Vivereis, vivereis!



A FLOR DO EMBIRUÇU

Noite, melhor que o dia, quem não te ama?

FIL. ELIS.

Quando a noturna sombra envolve a terra

E à paz convida o lavrador cansado,

À fresca brisa o seio delicado

A branca flor do embiruçu descerra.

E das límpidas lágrimas que chora

A noite amiga, ela recolhe alguma;

A vida bebe na ligeira bruma,

Até que rompe no horizonte a aurora.

Então, à luz nascente, a flor modesta,

Quando tudo o que vive alma recobra,

Languidamente as suas folhas dobra,

E busca o sono quando tudo é festa.

Suave imagem da alma que suspira

E odeia a turba vã! da alma que sente

Agitar-se-lhe a asa impaciente

E a novos mundos transportar-se aspira!

Também ela ama as horas silenciosas,

E quando a vida as lutas interrompe,

Ela da carne os duros elos rompe,

E entrega o seio às ilusões viçosas.

É tudo seu, — tempo, fortuna, espaço,

E o céu azul e os seus milhões de estrelas;

Abrasada de amor, palpita ao vê-las,

E a todas cinge no ideal abraço.

O rosto não encara indiferente,

Nem a traidora mão cândida aperta;

Das mentiras da vida se liberta

E entra no mundo que jamais não mente.

Noite, melhor que o dia; quem não te ama?

Labor ingrato, agitação, fadiga,

Tudo faz esquecer tua asa amiga

Que a alma nos leva onde a ventura a chama.

Ama-te a flor que desabrocha à hora

Em que o último olhar o sol lhe estende,

Vive, embala-se, orvalha-se, recende,

E as folhas cerra quando rompe a aurora.

LUA NOVA[xxiv]

Mãe dos frutos, Jaci, no alto espaço

Ei-la assoma serena e indecisa:

Sopro é dela esta lânguida brisa

Que sussurra na terra e no mar.

Não se mira nas águas do rio,

Nem as ervas do campo branqueia;

Vaga e incerta ela vem, como a idéia

Que inda apenas começa a espontar.

E iam todos; guerreiros, donzelas,

Velhos, moços, as redes deixavam;

Rudes gritos na aldeia soavam,

Vivos olhos fugiam p’ra o céu:

Iam vê-la, Jaci, mãe dos frutos,

Que, entre um grupo de brancas estrelas,

Mal cintila: nem pôde vencê-las,

Que inda o rosto lhe cobre amplo véu.

E um guerreiro: “Jaci, doce amada,

Retempera-me as forças; não veja

Olho adverso, na dura peleja,

Este braço já frouxo cair.

Vibre a seta, que ao longe derruba

Tajaçu, que roncando caminha;

Nem lhe escape serpente daninha,

Nem lhe fuja pesado tapir”.

E uma virgem: “Jaci, doce amada,

Dobra os galhos, carrega esses ramos

Do arvoredo co’as frutas que damos

Aos valentes guerreiros, que eu vou

A buscá-los na mata sombria,

Por trazê-los ao moço prudente,

Que venceu tanta guerra valente,

E estes olhos consigo levou”.

E um ancião, que a saudara já muitos,

Muitos dias: “Jaci, doce amada,

Dá que seja mais longa a jornada,

Dá que eu possa saudar-te o nascer,

Quando o filho do filho, que hei visto

Triunfar de inimigo execrando,

Possa as pontas de um arco dobrando

Contra os arcos contrários vencer”.

E eles riam os fortes guerreiros,

E as donzelas e esposas cantavam,

E eram risos que d’alma brotavam,

E eram cantos de paz e de amor.

Rude peito criado nas brenhas,

— Rude embora, — terreno é propício;

Que onde o gérmen lançou benefício

Brota, enfolha, verdeja, abre em flor.


SABINA

Sabina era mucama da fazenda;

Vinte anos tinha; e na província toda

Não havia mestiça mais à moda,

Com suas roupas de cambraia e renda.

Cativa, não entrava na senzala,

Nem tinha mãos para trabalho rude;

Desbrochava-lhe a sua juventude

Entre carinhos e afeições de sala.

Era cria da casa. A sinhá-moça,

Que com ela brincou sendo menina,

Sobre todas amava esta Sabina,

Com esse ingênuo e puro amor da roça.

Dizem que à noite, a suspirar na cama,

Pensa nela o feitor; dizem que um dia,

Um hóspede que ali passado havia,

Pôs um cordão no colo da mucama.

Mas que vale uma jóia no pescoço?

Não pôde haver o coração da bela.

Se alguém lhe acende os olhos de gazela,

É pessoa maior: é o senhor moço.

Ora, Otávio cursava a Academia.

Era um lindo rapaz; a mesma idade

Co’as passageiras flores o adornava

De cujo extinto aroma inda a memória

Vive na tarde pálida do outono.

Oh! vinte anos! Ó pombas fugitivas

Da primeira estação, porque tão cedo

Voais de nós? Pudesse ao menos a alma

Guardar consigo as ilusões primeiras,

Virgindade sem preço, que não paga

Essa descolorida, árida e seca

Experiência do homem!

Vinte anos

Tinha Otávio, e a beleza e um ar de corte

E o gesto nobre, e sedutor o aspecto;

Um vero Adônis, como aqui diria

Algum poeta clássico, daquela

Poesia que foi nobre, airosa e grande

Em tempos idos, que ainda bem se foram...

Também eu a adorei, uma hora ao menos,

E suspirei destes remotos climas

Pelas formosas ribas do Escamandro,

Onde descia, entre soldados gregos,

A moça Vênus; frívolo suspiro

Que não pode acordar dos seus sepulcros

Esses numes brincões da velha idade,

Mortos por seus pecados — que os tiveram,

E por sossego nosso. Eram amáveis

E belos no seu tempo; hoje fariam

Igual papel ao do tardio máscara

Que, ao desdobrar a aurora os panos de ouro,

Entre madrugadores se aventura.

Cursava a Academia o moço Otávio;

Ia no ano terceiro: não remoto

Via desenrolar-se o pergaminho,

Prêmio de seus labores e fadigas;

E uma vez bacharel, via mais longe

Os curvos braços da feliz cadeira

Donde o legislador a rédea empunha

Dos lépidos frisões do Estado. Entanto,

Sobre os livros de estudo, gota a gota

As horas despendia, e trabalhava

Por meter na cabeça o jus romano

E o pátrio jus. Nas suspiradas férias

Volvia ao lar paterno; ali no dorso

De brioso corcel corria os campos,

Ou, arma ao ombro, polvorinho ao lado,

À caça dos veados e cotias,

Ia matando o tempo. Algumas vezes

Com o padre vigário se entretinha

Em desfiar um ponto de intrincada

Filosofia, que o senhor de engenho,

Feliz pai, escutava glorioso,

Como a rever-se no brilhante aspecto

Do suas ricas esperanças.

Era

Manhã de estio; erguera-se do leito

Otávio; em quatro sorvos toda esgota

A taça de café. Chapéu de palha,

E arma ao ombro, lá foi terreiro fora,

Passarinhar no mato. Ia costeando

O arvoredo que além beirava o rio,

A passo curto, e o pensamento à larga,

Como leve andorinha que saísse

Do ninho, a respirar o hausto primeiro

Da manhã. Pela aberta da folhagem,

Que inda não doura o sol, uma figura

Deliciosa, um busto sobre as ondas

Suspende o caçador. Mãe d’água fora,

Talvez , se a cor de seus quebrados olhos

Imitasse a do céu: se a tez morena,

Morena como a esposa dos Cantares,

Alva tivesse; e raios de ouro fossem

Os cabelos da cor da noite escura,

Que ali soltos e úmidos lhe caem,

Como um véu sobre o colo. Trigueirinha,

Cabelo negro, os largos olhos brandos

Cor de jabuticaba, quem seria,

Quem, senão a mucama da fazenda,

Sabina, enfim? Logo a conhece Otávio,

E nela os olhos espantados fita

Que desejos acendem. — Mal cuidando

Daquele estranho curioso, a virgem

Com os ligeiros braços rompe as águas,

E ora toda se esconde, ora ergue o busto,

Talhado pela mão da natureza

Sobre o modelo clássico. Na oposta

Riba suspira um passarinho; e o canto,

E a meia luz, e o sussurrar das águas,

E aquela fada ali, tão doce vida

Davam ao quadro, que o ardente aluno

Trocara por aquilo, uma hora ao menos,

A Faculdade, o pergaminho e o resto.

Súbito erige o corpo a ingênua virgem;

Com as mãos, os cabelos sobre a espádua

Deita, e rasgando lentamente as ondas,

Para a margem caminha, tão serena,

Tão livre como quem de estranhos olhos

Não suspeita a cobiça...Véu da noite,

Se lhos cobrira, dissipara acaso

Uma história de lágrimas. Não pode

Furtar-se Otávio à comoção que o toma;

A clavina que a esquerda mal sustenta

No chão lhe cai; e o baque surdo acorda

A descuidada nadadora. Às ondas

A virgem torna. Rompe Otávio o espaço

Que os divide; e de pé, na fina areia,

Que o mole rio lambe, ereto e firme,

Todo se lhe descobre. Um grito apenas

Um só grito, mas único, lhe rompe

Do coração; terror, vergonha... e acaso

Prazer, prazer misterioso e vivo

De cativa que amou silenciosa,

E que ama e vê o objeto de seus sonhos,

Ali com ela, a suspirar por ela.

“Flor da roça nascida ao pé do rio,

Otávio começou — talvez mais bela

Que essas belezas cultas da cidade,

Tão cobertas de jóias e de sedas,

Oh! não me negues teu suave aroma!

Fez-te cativa o berço; a lei somente

Os grilhões te lançou; no livre peito

De teus senhores tens a liberdade,

A melhor liberdade, o puro afeto

Que te elegeu entre as demais cativas,

E de afagos te cobre! Flor do mato,

Mais viçosa do que essas outras flores

Nas estufas criadas e nas salas,

Rosa agreste nascida ao pé do rio

Oh! não me negues teu suave aroma!”

Disse, e da riba os cobiçosos olhos

Pelas águas estende, enquanto os dela,

Cobertos pelas pálpebras medrosas

Choram — de gosto e de vergonha a um tempo,

Duas únicas lágrimas. O rio

No seio as recebeu; consigo as leva,

Como gotas de chuva, indiferente

Ao mal ou bem que lhe povoa a margem;

Que assim a natureza, ingênua e dócil

Às leis do Criador, perpétua segue

Em seu mesmo caminho, e deixa ao homem

Padecer e saber que sente e morre.

Pela azulada esfera inda três vezes

A aurora as flores derramou, e a noite

Vezes três a mantilha escura e larga

Misteriosa cingiu. Na quarta aurora,

Anjo das virgens, anjo de asas brancas,

Pudor, onde te foste? A alva capela,

Murcha e desfeita pelo chão lançada,

Coberta a face do rubor do pejo,

Os olhos com as mãos velando, alçaste

Para a Eterna Pureza o eterno vôo.

Quem ao tempo cortar pudera as asas

Se deleitoso voa? Quem pudera

Suster a hora abençoada e curta

Da ventura que foge, e sobre a terra

O gozo transportar da eternidade?

Sabina viu correr tecidos de ouro

Aqueles dias únicos na vida

Toda enlevo e paixão, sincera e ardente

Nesse primeiro amor d’alma que nasce

E os olhos abre ao sol. Tu lhe dormias,

Consciência; razão, tu lhe fechavas

A vista interior; e ela seguia

Ao sabor dessas horas mal furtadas

Ao cativeiro e à solidão, sem vê-lo

O fundo abismo tenebroso e largo

Que a separa do eleito de seus sonhos,

Nem pressentir a brevidade e a morte!

E com que olhos de pena e de saudade

Viu ir-se um dia pela estrada fora

Otávio! Aos livros torna o moço aluno,

Não cabisbaixo e triste, mas sereno

E lépido. Com ela a alma não fica

De seu jovem senhor. Lágrima pura,

Muito embora de escrava, pela face

Lentamente lhe rola, e lentamente

Toda se esvai num pálido sorriso

De mãe,

Sabina é mãe; o sangue livre

Gira e palpita no cativo seio

E lhe paga de sobra as dores cruas

Da longa ausência. Uma por uma, as horas

Na solidão do campo há de contá-las,

E suspirar pelo remoto dia

Em que o veja de novo... Pouco importa,

Se o materno sentir compensa os males.

Riem-se dela as outras; é seu nome

O assunto do terreiro. Uma invejosa

Acha-lhe uns certos modos singulares

De senhora de engenho; um pajem moço,

De cobiça e ciúme devorado,

Desfaz nas graças que em silêncio adora

E consigo medita uma vingança.

Entre os parceiros, desfiando a palha

Com que entrança um chapéu, solenemente

Um Caçanje ancião refere aos outros

Alguns casos que viu na mocidade

De cativas amadas e orgulhosas,

Castigadas do céu por seus pecados,

Mortas entre os grilhões do cativeiro.

Assim falavam eles; tal o aresto

Da opinião. Quem evitá-lo pode

Entre os seus, por mais baixo que a fortuna

Haja tecido o berço? Assim falavam

Os cativos do engenho; e porventura

Sabina o soube e o perdoou.

Volveram

Após os dias da saudade os dias

Da esperança. Ora, quis fortuna adversa

Que o coração do moço, tão volúvel

Como a brisa que passa ou como as ondas,

Nos cabelos castanhos se prendesse

Da donzela gentil, com quem atara

O laço conjugal: uma beleza

Pura, como o primeiro olhar da vida,

Uma flor desbrochada em seus quinze anos,

Que o moço viu num dos serões da corte

E cativo adorou. Que há de fazer-lhes

Agora o pai? Abençoar os noivos

E ao regaço trazê-los da família.

Oh longa foi, longa e ruidosa a festa

Da fazenda, por onde alegre entrara

O moço Otávio conduzindo a esposa.

Viu-os chegar Sabina, os olhos secos

Atônita e pasmada. Breve o instante

Da vista foi. Rápido foge. A noite

A seu trêmulo pé não tolhe a marcha;

Voa, não corre ao malfadado rio,

Onde a voz escutou do amado moço.

Ali chegando: “Morrerá comigo

O fruto de meu seio; a luz da terra

Seus olhos não verão; nem ar da vida

Há de aspirar...”

Ia a cair nas águas,

Quando súbito horror lhe toma o corpo;

Gelado o sangue e trêmula recua,

Vacila e tomba sobre a relva. A morte

Em vão a chama e lhe fascina a vista;

Vence o instinto de mãe. Erma e calada

Ali ficou. Viu-a jazer a lua

Largo espaço da noite ao pé das águas,

E ouviu-lhe o vento os trêmulos suspiros;

Nenhum deles, contudo, o disse à aurora.

ÚLTIMA JORNADA[xxv]

Ils croyent les âmes eternelles,

et celles qui ont bien merité des dieux estre logees

à l’endroict du ciel où le soleil se leve;

les mauldictes, du costé de l’occident.

MONTAIGNE, Essais, liv, I c. XXX

I

E ela se foi nesse clarão primeiro,

Aquela esposa mísera e ditosa;

E ele se foi o pérfido guerreiro.

Ela serena ia subindo e airosa,

Ele à força de incógnitos pesares

Dobra a cerviz rebelde e lutuosa.

Iam assim, iam cortando os ares,

Deixando em baixo as fértiles campinas,

E as florestas, e os rios e os palmares.

Oh! cândidas lembranças infantinas!

Oh! vida alegre da primeira taba!

Que aurora vos tomou, aves divinas?

Como um tronco do mato que desaba,

Tudo caiu; lei bárbara e funesta:

O mesmo instante cria e o mesmo acaba.

De esperanças tamanhas o que resta?

Uma história, uma lágrima chorada

Sobre as últimas ramas da floresta.

A flor do ipê a viu brotar magoada,

E talvez a guardou no seio amigo,

Como lembrança da estação passada.

Agora os dois, deixando o bosque antigo,

E as campinas, e os rios e os palmares,

Para subir ao derradeiro abrigo,

Iam cortando lentamente os ares.

II

E ele chamava à moça que ascendia:

“Oh! tu que a doce luz eterna levas,

E vás viver na região do dia,

Vê como rasgam bárbaras e sevas

As tristezas mortais ao que se afunda

Quase na fria região das trevas!

Olha esse sol que a criação inunda!

Oh quanta luz, oh quanta doce vida

Deixar-me vai na escuridão profunda!

Tu ao menos perdoa-me, querida!

Suave esposa, que eu ganhei roubando,

Perdida agora para mim, perdida!

Ao maldito na morte, ao miserando,

Que mais lhe resta em sua noite impura?

Sequer alívio ao coração nefando.

Nos olhos trago a tua morte escura.

Foi meu ódio cruel que há decepado,

Ainda em flor, a tua formosura.

Mensageiro de paz, era enviado

Um dia à taba de teus pais, um dia

Que melhor fora se não fora nado.

Ali te vi; ali, entre a alegria

De teus fortes guerreiros e donzelas,

Teu doce rosto para mim sorria.

A mais bela eras tu entre as mais belas,

Como no céu a criadora lua

Vence na luz as vívidas estrelas.

Gentil nasceste por desgraça tua;

Eu covarde nasci; tu me seguiste;

E ardeu a guerra desabrida e crua.

Um dia o rosto carregado e triste

À taba de teus pais volveste, o rosto

Com que alegre e feliz dali fugiste.

Tinha expirado o passageiro gosto,

Ou o sangue dos teus, correndo a fio,

Em teu seio outro afeto havia posto.

Mas, ou fosse remorso, ou já fastio,

Ias-te agora leve e descuidada,

Como folha que o vento entrega ao rio.

Oh! corça minha fugitiva e amada!

Anhangá te guiou por mau caminho,

E a morte pôs na minha mão fechada.

Feriu-me da vingança agudo espinho;

E fiz-te padecer tão cruas penas,

Que inda me dói o coração mesquinho.

Ao contemplar aquelas tristes cenas,

As aves, de piedosas e sentidas,

Chorando foram sacudindo as penas.

Não viu o cedro ali correr perdidas

Lágrimas de materno amado seio;

Viu somente morrer a flor das vidas.

O que mais houve da floresta em meio

O sinistro espetáculo, decerto

Nenhum estranho contemplá-lo veio.

Mas, se alguém penetrasse no deserto

Vira cair pesadamente a massa

Do corpo do guerreiro; e o crânio aberto,

Como se fora derramada taça

Pela terra jazer, ali chamando

O feio grasno do urubu que passa.

Em vão a arma do golpe irão buscando,

Nenhuma houve; nem guerreiro ousado

A tua morte ali foi castigando

Talvez, talvez Tupã, desconsolado,

A pena contemplou maior do que era

O delito; e de cólera tomado,

Ao mais alto dos Andes estendera

O forte braço, e da árvore mais forte

A seta e o arco vingador colhera;

As pontas lhe dobrou, da mesma sorte

Que o junco dobra, sussurrando o vento,

E de um só tiro lhe enviou a morte”.

Ia assim suspirando este lamento,

Quando subitamente a voz lhe cala,

Como se a dor lhe sufocara o alento.

No ar se perdera a lastimosa fala,

E o infeliz, condenado à noite escura,

Os dentes range e treme de encontrá-la.

Leva os olhos na viva aurora pura

Em que vê penetrar, já longe, aquela

Doce, mimosa, virginal figura.

Assim no campo a tímida gazela

Foge e se perde; assim no azul dos mares

Some-se e morre fugidia vela.

E nada mais se viu flutuar nos ares;

Que ele, bebendo as lágrimas que chora,

Na noite entrou dos imortais pesares,

E ela de todo mergulhou na aurora.


OS ORIZES[xxvi]

(FRAGMENTO)

I

Nunca as armas cristãs, nem do Evangelho

O lume criador, nem frecha estranha

O vale penetraram dos guerreiros

Que, entre serros altíssimos sentado,

Orgulhoso descansa. Único o vento,

Quando as asas desprega impetuoso,

Os campos varre e as selvas estremece,

Um pouco leva, ao recatado asilo,

Da poeira da terra. Acaso o raio

Alguma vez nos ásperos penedos,

Com fogo escreve a assolação e o susto.

Mas olhos de homem, não; mas braço afeito

A pleitear na guerra, a abrir ousado

Caminho entre a espessura da floresta,

Não afrontara nunca os atrevidos

Muros que a natureza a pino erguera

Como eterna atalaia.

II

Um povo indócil

Nessas brenhas achou ditosa pátria,

Livre, como o rebelde pensamento

Que ímpia força não doma, e airoso volve

Inteiro à eternidade. Guerra longa

E porfiosa os adestrou nas armas;

Rudes são nos costumes mais que quantos

Há criado este sol, quantos na guerra

O tacape meneiam vigoroso.

Só nas festas de plumas se ataviam

Ou na pele do tigre o corpo envolvem,

Que o sol queimou, que a rispidez do inverno

Endureceu como os robustos troncos

Que só verga o tufão. Tecer não usam

A preguiçosa rede em que se embale

O corpo fatigado do guerreiro,

Nem as tabas erguer como outros povos;

Mas à sombra das árvores antigas,

Ou nas medonhas cavas dos rochedos,

No duro chão, sobre mofinas ervas,

Acham sono de paz, jamais tolhido

De ambições, de remorsos. Indomável

Essa terra não é; pronto lhes volve

O semeado pão; vicejam flores

Com que a rudez tempera a extensa mata,

E o fruto pende dos curvados ramos

Do arvoredo. Harta messe do homem rude,

Que tem na ponta da farpada seta

O pesado tapir, que lhes não foge,

Nhandu, que à flor de terra inquieta voa,

Sobejo pasto, e deleitoso e puro

Da selvagem nação. Nunca vaidade

De seu nome souberam, mas a força,

Mas a destreza do provado braço

Os foros são do império a que hão sujeito

Todo aquele sertão. Murmuram longe,

Contra eles, as gentes debeladas

Vingança e ódio. Os ecos repetiram

Muita vez a pocema de combate;

Nuvens e nuvens de afiadas setas

Todo o ar cobriram; mas o extremo grito

Da vitória final só deles fora.

III

Despem armas de guerra; a paz os chama

E o seu bárbaro rito. Alveja perto

O dia em que primeiro a voz levante

A ave sagrada, o nume de seus bosques,

Que de agouro chamamos, Cupuaba

Melancólica e feia, mas ditosa

E benéfica entre eles.[xxvii] Não se curvam

Ao nome de Tupã, que a noite e o dia

No céu reparte, e ao ríspido guerreiro

Guarda os sonhos do Ibaque e eternas danças.

Seu deus único é ela, a benfazeja

Ave amada, que os campos despovoa

Das venenosas serpes, — viva imagem

Do tempo vingador, lento e seguro,

Que as calúnias, a inveja e o ódio apagam,

E ao conspurcado nome o alvor primeiro

Restitui. Uso é deles celebrar-lhe

Com festas o primeiro e o extremo canto.

IV

Terminara o cruento sacrifício.

Ensopa o chão da dilatada selva

Sangue de caititus, que o pio intento

Largos meses cevou; bárbara usança

Também de alheios climas. As donzelas,

Mal saídas da infância, inda embebidas

Nos ledos jogos de primeira idade,

Ao brutal sacrifício... Oh! cala, esconde,

Lábio cristão, mais bárbaro costume.

V

Agora a dança, agora alegres vinhos,

Três dias há que de inimigos povos

Esquecidos os trazem. Sobre um tronco

Sentado o chefe, carregado o rosto,

Inquieto o olhar, o gesto pensativo,

Como alheio ao prazer, de quando em quando

À multidão dos seus a vista alonga,

E um rugido no peito lhe murmura.

Quem a fronte enrugara do guerreiro?

Inimigo não foi, que o medo nunca

O sangue lhe esfriou, nem vão receio

Da batalha futura o desenlace

Lhe fez incerto. Intrépidos como ele

Poucos vira este céu. Seu forte braço,

Quando vibra o tacape nas pelejas,

De rasgados cadáveres o campo

Inteiro alastra, e ao peito do inimigo,

Como um grito de morte a voz lhe soa.

Nem só nas gentes o terror infunde;

É fama que em seus olhos cor da noite,

Inda criança, um gênio lhe deixara

Misteriosa luz, que as forças quebra

Da onça e do jaguar. Certo é que um dia

(A tribo o conta, e seus pajés o juram)

Um dia em que, do filho acompanhado,

Ia costeando a orla da floresta,

Um possante jaguar, escancarando

A boca, em frente do famoso chefe

Estacara. De longe um grito surdo

Solta o jovem guerreiro; logo a seta

Embebe no arco, e o tiro sibilante

Ia já disparar, quando de assombro

A mão lhe afrouxa a distendida corda.

A fera o colo tímida abatera,

Sem ousar despregar os fulvos olhos

Dos olhos do inimigo. Urete ousado

Arco e frechas atira para longe,

A massa empunha, e lento, e lento avança;

Três vezes volteando a arma terrível,

Enfim despede o golpe; um grito apenas.

Único atroa o solitário campo,

E a fera jaz, e o vencedor sobre ela.

AMERICANAS

(Da Primeira Edição)

CANTIGA DO ROSTO BRANCO[xxviii]

Rico era o rosto branco; armas trazia,

E o licor que devora e as finas telas;

Na gentil Tibeima os olhos pousa,

E amou a flor das belas.

“Quero-te!” disse à cortesã da aldeia;

“Quando, junto de ti, teus olhos miro,

A vista se me turva, as forças perco,

E quase, e quase expiro.”

E responde a morena requebrando

Um olhar doce, de cobiça cheio:

“Deixa em teus lábios imprimir meu nome;

Aperta-me em teu seio!”

Uma cabana levantaram ambos,

O rosto branco e a amada flor das belas...

Mas as riquezas foram-se co’o tempo,

E as ilusões com elas.

Quando ele empobreceu, a amada moça

Noutros lábios pousou seus lábios frios,

E foi ouvir de coração estranho

Alheios desvarios.

Desta infidelidade o rosto branco

Triste nova colheu; mas ele amava,

Inda infiéis, aqueles lábios doces,

E tudo perdoava.

Perdoava-lhe tudo, e inda corria

A mendigar o grão de porta em porta,

Com que a moça nutrisse, em cujo peito

Jazia a afeição morta.

E para si, para afogar a mágoa,

Se um pouco havia do licor ardente,

A dor que o devorava e renascia

Matava lentamente.

Sempre traído, mas amando sempre,

Ele a razão perdeu; foge à cabana,

E vai correr na solidão do bosque

Uma carreira insana.

O famoso Sachem, ancião da tribo,

Vendo aquela traição e aquela pena,

À ingrata filha duramente fala,

E ríspido a condena.

Em vão! É duro o fruto da papaia,

Que o lábio do homem acha doce e puro;

Coração de mulher que já não ama

Esse é inda mais duro.

Nu qual saíra do materno ventre,

Olhos cavos, a barba emaranhada,

O mísero tornou, e ao próprio teto

Veio pedir pousada.

Volvido se cuidava à flor da infância

(Tão escuro trazia o pensamento!)

“Mãe!” exclamava contemplando a moça,

“Acolhe-me um momento!”

Vinha faminto. Tibeima, entanto,

Que já de outro guerreiro os dons houvera,

Sentiu asco daquele que outro tempo

As riquezas lhe dera.

Fora o lançou; e ele expirou gemendo

Sobre folhas deitado junto à porta;

Anos volveram; co’os volvidos anos,

Tibeima era morta.

Quem ali passa, contemplando os restos

Da cabana, que a erva toda esconde,

Que ruínas são essas, interroga.

E ninguém lhe responde.

Fonte: www.cce.ufsc.br

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