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As Forças Caudinas

Machado de assis

Cena VII
Os mesmos, CORONEL

CORONEL (com a folha na mão) — Estou acerbo!

EMÍLIA (com muito agrado e solicitude) — Que aconteceu?

CORONEL — Vou naturalmente para a Europa.

TITO — Morreu o urso no caminho?

CORONEL — Qual urso, nem meio urso! Rebentou uma revolução na Polônia!

EMÍLIA — Ah!...

TITO — Lá vai o coronel brilhar...

CORONEL — Qual brilhar!... (consigo) Esta só pelo diabo...

Cena VIII
Os mesmos, SEABRA, MARGARIDA

MARGARIDA (a Emília) — Que é isso? (vendo-a preparar-se) Que é isso? Já te vais?

EMÍLIA — Já, mas volto amanhã.

MARGARIDA — É sério?

EMÍLIA — Muito sério.

TITO (a Seabra) — A tal viagem da serra pôs-me entrompado. Ando dormindo em pé.

CORONEL (a Margarida) — Até amanhã.

MARGARIDA — Que ar triste é esse?

CORONEL — Fortunas minhas!

EMÍLIA (a Margarida) — Temos muito que conversar. Até amanhã. (beijam-se. O coronel despede-se dos outros. Emília despede-se de Seabra e de Tito, mas com certa frieza)

Cena IX
MARGARIDA, SEABRA, TITO

MARGARIDA — Emília sai amuada. (a Tito) Que foi?

TITO — Não sei... ela é boa senhora; um pouco secantezinha... muito dada à poesia... ora eu sou todo da prosa... (batendo no estômago) Há prosa?

SEABRA — Ainda não jantaste? Anda jantar...

TITO — Vamos à prosa, vamos à prosa!

(Fim do 1º. ato.)

ATO SEGUNDO

(Sala em casa de Emília.)

Cena I
MARGARIDA, CORONEL

MARGARIDA — Ora viva!

CORONEL (triste) — Bom dia, minha senhora!

MARGARIDA — Que ar triste é esse?

CORONEL — Ah! minha senhora... sou o mais infeliz dos homens...

MARGARIDA — Por quê? Venha sentar-se... (o coronel senta-se) Então, conte-me... Que há?

CORONEL — Duas desgraças. A primeira em forma de ofício da minha legação.

MARGARIDA — É chamado ao exército?

CORONEL — Exatamente. A segunda em forma de carta.

MARGARIDA — De carta?

CORONEL (dando-lhe uma carta) — Veja isto. (Margarida lê e dá-lha de novo) Que me diz a isto?

MARGARIDA — Não compreendo...

CORONEL — Esta carta é dela.

MARGARIDA — Sim, e depois?

CORONEL — É para ele.

MARGARIDA — Ele quem?

CORONEL — Ele! o diabo! o meu rival! o Tito!

MARGARIDA — Ah!

CORONEL — Dizer-lhe o que senti quando apanhei esta carta é impossível. Nunca tremi nem mesmo na Criméia, e olhe que estava feio! Mas quando li isto não sei que vertigem se apoderou de mim. Fez-me o efeito de um ucasse de desterro para a Sibéria. Ah! a Sibéria é um paraíso à vista de Petrópolis neste momento. Ando tonto! A cada passo como que desmaio... Ah!...

MARGARIDA — Ânimo!

CORONEL — É isto mesmo que eu vinha buscar... é uma consolação, uma animação. Soube que estava aqui e estimei achá-la só... Ah! quanto sinto que o estimável seu marido esteja vivo... porque a melhor consolação era aceitar V. Exa. um coração tão mal compreendido.

MARGARIDA — Felizmente ele está vivo.

CORONEL — Felizmente! (mudando o tom) Tive duas idéias. Uma foi o desprezo; mas desprezá-los é pô-los em maior liberdade e ralar-me de dor e de vergonha; a segunda foi o duelo; é melhor... ou mato... ou...

MARGARIDA — Deixe-se isso.

CORONEL — É indispensável que um de nós seja riscado do número dos vivos...

MARGARIDA — Pode ser engano...

CORONEL — Mas não é engano, é certeza.

MARGARIDA — Certeza de quê?

CORONEL — Ora ouça: (lê o bilhete) "Se ainda não me compreendeu é bem curto de penetração. Tire a máscara e eu me explicarei. Esta noite tomo chá sozinha. O importuno coronel não me incomodará com as suas tolices. Dê-me a felicidade de vê-lo e admirá-lo. Emília."

MARGARIDA — Mas que é isto?

CORONEL — Que é isto? Ah! se fosse mais do que isto já eu estava morto! Pude pilhar a carta e a tal entrevista não se deu...

MARGARIDA — Quando foi escrita a carta?

CORONEL — Ontem.

MARGARIDA — Tranqüilize-se: posso afirmar-lhe que essa carta é pura caçoada. Trata-se de vingar o nosso sexo ultrajado; trata-se de fazer com que o Tito se apaixone... nada mais.

CORONEL — Sim?

MARGARIDA — É pura verdade. Mas veja lá. Isto é segredo. Se lho descobri foi por vê-lo tão aflito. Não nos comprometa.

CORONEL — Isso é sério?

MARGARIDA — Como quer que lho diga?

CORONEL — Ah! que peso me tirou! Pode estar certa de que o segredo caiu num poço. Oh! muito me hei de rir!... muito me hei de rir!... Que boa inspiração tive em vir falar-lhe! Diga-me: posso dizer à D. Emília que sei tudo?

MARGARIDA — Não!

CORONEL — É então melhor que não me dê por achado...

MARGARIDA — Sim.

CORONEL — Muito bem!

Cena II
Os mesmos, TITO

TITO — Bom dia, D. Margarida... Sr. Coronel... (a Margarida) Sabe que acordei não há uma hora? Disseram-me que tinham saído a visitar D. Emília. Almocei e aqui estou.

MARGARIDA — Dormiu bem?

TITO — Como um justo. Tive sonhos cor-de-rosa: sonhei com o coronel...

CORONEL (mofando) — Ah! Sonhou comigo?... (à parte) Coitado! Tenho pena dele!

MARGARIDA — Sabe que o Sr. meu marido anda de passeio?

TITO — Sim? (vai à janela) E a manhã está bonita! Manhã? Já não é muito cedo... Jantam cá?

MARGARIDA — Não sei. Tenho duas visitas para fazer: uma, com Emília, outra, com Ernesto.

CORONEL (a Tito) — Então vai engordando?

TITO — Acha?

CORONEL — Pois não! Eu creio que é do amor...

TITO — Do amor? Ó coronel, está sonhando?

CORONEL (misterioso) Talvez... talvez... (à parte) Tu é que estás sonhando.

MARGARIDA — Eu vou ver se Emília está pronta.

TITO — Pois não... Ah! ela está boa?

MARGARIDA — Está. Até já. (baixo ao coronel) Silêncio.

Cena III
CORONEL, TITO

TITO — Como vão os seus amores?

CORONEL — Que amores?

TITO — Os seus, a Emília... Já lhe fez compreender toda a imensidade da paixão que o devora?

CORONEL (ar mofado) — Qual... Preciso de algumas lições... Se mas quisesse dar?...

TITO — Eu? Está sonhando!

CORONEL — Ah! eu sei que o senhor é forte... É modesto, mas é forte... é até fortíssimo!... Ora, eu sou realmente um aprendiz... Tive há pouco a idéia de desafiá-lo.

TITO — A mim?

CORONEL — É verdade, mas foi uma loucura de que me arrependo.

TITO — Além de que, não é uso em nosso país...

CORONEL — Em toda a parte é uso vingar a honra.

TITO — Bravo, D. Quixote!

CORONEL — Ora, eu acreditava-me ofendido na honra.

TITO — Por mim?

CORONEL — Mas emendei a mão; reparei que era antes eu quem ofendia, pretendendo lutar com um mestre, eu, simples aprendiz...

TITO — Mestre de quê?

CORONEL — Dos amores. Oh! eu sei que é mestre...

TITO — Deixe-se disso... eu não sou nada... O coronel, sim; o coronel vale um urso, vale mesmo dois. Como havia de eu... Ora! Aposto que teve ciúmes?

CORONEL — Exatamente.

TITO — Mas era preciso não me conhecer, não saber das minhas idéias...

CORONEL — Homem, às vezes é pior.

TITO — Pior, como?

CORONEL — As mulheres não deixam uma afronta sem castigo... As suas idéias são afrontosas... Qual será o castigo?... (depois de uma pausa) Paro aqui... paro aqui...

TITO — Onde vai?

CORONEL — Vou sair. Adeus. Não se lembre mais da minha desastrada idéia do duelo...

TITO — Isso está acabado... Ah! você escapou de boa!

CORONEL — De quê?

TITO — De morrer. Eu enfiava-lhe a espada por esse abômen... com um gosto... com um gosto só comparável ao que tenho de abraçá-lo vivo e são!

CORONEL (com um riso amarelo) — Obrigado, obrigado. Até logo!

TITO — Não se despede dela?

CORONEL — Eu volto já...

Cena IV

TITO (só) — Este coronel não tem nada de original... Aquela opinião a respeito das mulheres não é dele...Melhor, vai-se confirmando… Nem me são precisas novas confirmações... Já sei tudo... Ah! minha conquistadora!... Aí vêm as duas...

Cena V
TITO, MARGARIDA, EMÍLIA

EMÍLIA — Bons olhos o vejam...

TITO — Bons e bonitos...

MARGARIDA — Vamos à nossa visita.

TITO — Ah!...

EMÍLIA — A demora é pouca... Pode esperar-nos...

TITO — Obrigado... Esperarei... Tenho a janela para olhá-las até perdê-las de vista... Depois tenho estes álbuns, estes livros...

EMÍLIA (ao espelho) — Tem o espelho para se mirar...

TITO — Oh! isso é completamente inútil para mim!

Cena VI
Os mesmos, SEABRA

SEABRA (a Tito) — Oh! Finalmente acordaste!

TITO — É verdade... Não me lembro de ter passado nunca tão belas noites como estas de Petrópolis. Já nem tenho pesadelos... Pois olha, eu era vítima... Agora não, durmo como um justo...

SEABRA (às duas) — Estão de volta?

MARGARIDA — Ainda agora vamos!

SEABRA — Então tenho ainda de esperar?...

EMÍLIA — Um simples quarto de hora...

SEABRA — Só?

TITO — Um quarto de hora feminino... meia eternidade...

EMÍLIA — Vamos desmenti-lo...

TITO — Ah! Tanto melhor...

MARGARIDA — Até já... (saem as duas)

Cena VII
TITO, SEABRA

SEABRA — Ora, esperemos ainda...

TITO — Onde foste?

SEABRA — Fui passear... Compreendi que é preciso ver e admirar o que é indiferente, para apreciar e ver melhor aquilo que for a felicidade íntima do coração.

TITO — Ali! Sim? Bem vês que até a felicidade por igual fatiga! Afinal sempre a razão está do meu lado...

SEABRA — Talvez... Apesar de tudo quer-me parecer que já intentas entrar na família dos casados.

TITO — Eu?

SEABRA — Tu, sim.

TITO — Por quê?

SEABRA — Mas, dize; é ou não verdade?

TITO — Qual, verdade!

SEABRA — O que sei é que uma destas tardes, em que adormeceste lendo, não sei que livro, ouvi-te pronunciar em sonhos, com a maior ternura, o nome de Emília.

TITO — Deveras?

SEABRA — É exato. Concluí que se sonhavas com ela é que a tinhas no pensamento, e se a tinhas no pensamento é que a amavas.

TITO — Concluíste mal.

SEABRA — Mal?

TITO — Concluíste como um marido de cinco meses. Que prova um sonho?

SEABRA — Prova muito!

TITO — Não prova nada! Pareces velha supersticiosa...

SEABRA — Mas enfim alguma coisa há, por força... Serás capaz de me dizeres o que é?

TITO — Homem, podia dizer-te alguma coisa se não fosses casado...

SEABRA — Que tem que eu seja casado?

TITO — Tem tudo. Serias indiscreto sem querer e até sem saber. À noite, entre um beijo e um bocejo, o marido e a mulher abrem, um para o outro, a bolsa das confidências. Sem pensares, deitavas tudo a perder.

SEABRA — Não digas isso. Vamos lá. Há novidade?

TITO — Não há nada.

SEABRA — Confirmas as minhas suspeitas. Gostas de Emília.

TITO — Ódio não lhe tenho, é verdade.

SEABRA — Gostas. E ela merece. É uma boa senhora, de não vulgar beleza, possuindo as melhores qualidades. Talvez preferisses que não fosse viúva?...

TITO — Sim; é natural que se embeveça dez vezes por dia na lembrança dos dois maridos que já exportou para o outro mundo... à espera de exportar o terceiro.

SEABRA — Não é dessas...

TITO — Afianças?

SEABRA — Quase que posso afiançar.

TITO — Ah! meu amigo, toma o conselho de um tolo: nunca afiances nada, principalmente em tais assuntos. Entre a prudência discreta e a cuja confiança não é lícito duvidar, a escolha está decidida nos próprios termos da primeira. O que podes tu afiançar a respeito da Emília? Não a conheces melhor do que eu. Há quinze dias que nos conhecemos e eu já lhe leio no interior; estou longe de atribuir-lhe maus sentimentos; mas, tenho a certeza de que não possui as raríssimas qualidades que são necessárias à exceção. Que sabes tu?

SEABRA — Realmente, eu não sei nada.

TITO (à parte) — Não sabe nada!

SEABRA — Falo pelas minhas impressões. Parecia-me que um casamento entre vocês ambos não vinha fora de propósito.

TITO (pondo o chapéu) — Se me falas outra vez em casamento, saio.

SEABRA — Pois só a palavra?...

TITO — A palavra, a idéia, tudo.

SEABRA — Entretanto admiras e aplaude o meu casamento...

TITO — Ah! eu aplaudo nos outros muita coisa de que não sou capaz de usar... Depende da vocação...

Cena VIII
Os mesmos, MARGARIDA, EMÍLIA

EMÍLIA — O que é que depende de vocação?

TITO — Usar chapéu do Chile. Eu diria que este gênero de chapéus fica muito bem em Ernesto, mas que eu não sou capaz de usá-lo; porque... porque depende da vocação. Não pensa comigo que contra a vocação não há nada capaz?

EMÍLIA — Plenamente.

TITO (a Seabra) — Toma lá!...

SEABRA (à parte a Tito) — Velhaco!... (alto a Margarida) Margarida, vamos embora?

MARGARIDA — Já para casa?

SEABRA — Vamos primeiro ao tio e depois para casa.

EMÍLIA — Sem passarem por aqui na volta?

MARGARIDA — Ele é quem manda.

SEABRA — Se não for muito o cansaço...

EMÍLIA — Ora, o dia está fresco e sombrio; é perto, e o caminho é excelente. Se não me baterem à porta ficamos mal para sempre.

SEABRA — Ah! isto não... (a Tito) Também vens?

TITO (de chapéu na mão) — Também.

EMÍLIA — E assim me deixa só?

TITO — Tem muito empenho em que eu fique?

EMÍLIA — Agrada-me a sua conversa.

TITO — Fico. Até logo.

Cena IX
TITO, EMÍLIA

TITO — V. Exa. disse agora uma falsidade.

EMÍLIA — Qual foi?

TITO — Disse que lhe era agradável a minha conversa. Ora, isso é falso como tudo quanto é falso...

EMÍLIA — Quer um elogio?

TITO — Não, falo franco. Eu nem sei como V. Exa. me atura: desabrido, maçante, às vezes chocarreiro, sem fé em coisa alguma, sou um conversador muito pouco digno de ser desejado. É preciso ter uma grande soma de bondade para ter expressões tão benévolas... tão amigas...

EMÍLIA — Deixe esse ar de mofa e...

TITO — Mofa, minha senhora?...

EMÍLIA — Ontem tomei chá sozinha!... sozinha!

TITO (indiferente) — Ah!

EMÍLIA — Contava que o senhor viesse aborrecer-se urna hora comigo...

TITO — Qual, aborrecer... Eu lhe digo: o culpado foi o Ernesto.

EMÍLIA — Ah! foi ele?...

TITO — É verdade; deu comigo aí em casa de uns amigos, éramos quatro ao todo, rolou a conversa sobre o voltarete e acabamos por formar mesa. Ah! mas foi uma noite completa! Aconteceu-me o que me acontece sempre: ganhei!

EMÍLIA (triste) — Está bom...

TITO — Pois olhe, ainda assim eu não jogava com pixotes; eram mestres de primeira força; um principiante; até às onze horas a fortuna pareceu desfavorecer-me, mas dessa hora em diante desandou a roda para eles e eu comecei a assombrar... pode ficar certa de que os assombrei. (Emília leva o lenço aos olhos) Ah! é que eu tenho diploma... mas que é isso? Está chorando?

EMÍLIA (tirando o lenço e sorrindo )- Qual; pode continuar.

TITO — Não há mais nada; foi só isto.

EMÍLIA — Estimo que a noite lhe corresse feliz...

TITO — Alguma coisa...

EMÍLIA — Mas, a uma carta responde-se; por que não respondeu à minha?

TITO — À sua qual?

EMÍLIA — À carta que lhe escrevi pedindo que viesse tomar chá comigo?

TITO — Não me lembro.

EMÍLIA — Não se lembra?

TITO — Ou, se recebi essa carta, foi em ocasião que a não pude ler, e então esqueci-a em algum lugar...

EMÍLIA — É possível; mas é a última vez...

TITO — Não me convida mais para tomar chá?

EMÍLIA — Não. Pode arriscar-se a perder distrações melhores.

TITO — Isso não digo; V. Exa. trata bem a gente e em sua casa passam-se bem as horas... Isto é com franqueza. Mas então tomou chá sozinha? E o coronel?

EMÍLIA — Descartei-me dele. Acha que ele seja divertido?

TITO — Parece que sim... É um homem delicado; um tanto dado às paixões, é verdade, mas sendo esse um defeito comum, acho que nele não é muito digno de censura.

EMÍLIA — O coronel está vingado.

TITO — De quê, minha senhora?

EMÍLIA (depois de uma pausa) — De nada! (levanta-se e dirige-se ao piano)

TITO (com ar indiferente) — Ah!

EMÍLIA — Vou tocar; não aborrece?

TITO — V. Exa. é senhora de sua casa...

EMÍLIA — Não é essa a resposta.

TITO — Não aborrece, não... pode tocar. (Emília começa algum pedaço musical melancólico) V. Exa. não toca alguma coisa mais alegre?

EMÍLIA (parando) — Não... traduzo a minha alma. (levanta-se)

TITO — Anda triste?

EMÍLIA — Que lhe importam as minhas tristezas?

TITO — Tem razão; não importam nada. Em todo o caso não é comigo?

EMÍLIA — Acha que lhe hei de perdoar a desfeita que me fez?

TITO — Qual desfeita, minha senhora?

EMÍLIA — A desfeita de me deixar tomar chá sozinha.

TITO — Mas eu já expliquei...

EMÍLIA — Paciência! O que sinto é que também nesse voltarete estivesse o marido de Margarida.

TITO — Ele retirou-se às dez horas; entrou um parceiro novo, que não era de todo mau...

EMÍLIA — Pobre Margarida!

TITO — Mas se eu lhe digo que ele se retirou às dez horas...

EMÍLIA — Não devia ter ido. Devia pertencer sempre a sua mulher. Sei que estou falando a um descrido; não pode calcular a felicidade e os deveres do lar doméstico. Viverem duas criaturas, uma para a outra, confundidas, unificadas; pensar, aspirar, sonhar a mesma coisa; limitar o horizonte nos olhos de cada uma, sem outra ambição, sem inveja de mais nada. Sabe o que é isto?

TITO — Sei. É o casamento... por fora.

EMÍLIA — Conheço alguém que lhe provava aquilo tudo...

TITO — Deveras? Quem é essa fênix?

EMÍLIA — Se lho disser, há de mofar; não digo.

TITO — Qual mofar! Diga lá, eu sou curioso.

EMÍLIA (séria) — Não acredita que haja alguém que o ame?

TITO — Pode ser...

EMÍLIA — Não acredita que alguém, por curiosidade, por despeito, por outra coisa que seja, tire da originalidade do seu espírito os influxos de um amor verdadeiro, mui diverso do amor ordinário dos salões; um amor capaz de sacrifício, capaz de tudo? Não acredita?

TITO — Se me afirma, acredito; mas...

EMÍLIA — Existe a pessoa e o amor.

TITO — São então duas fênix.

EMÍLIA — Não zombe. Existem... Procure...

TITO — Ah! isso há de ser mais difícil: não tenho tempo. E supondo que achasse de que me valia? Para mim é perfeitamente inútil. Isso é bom para outros; para o coronel, por exemplo... Por que não diz isso ao coronel?

EMÍLIA — Ao coronel? (silêncio) Adeus, Sr. Tito, desculpe, eu me retiro...

TITO — Adeus, minha senhora. (dirige-se para o fundo. Emília vai a sair pela direita alta, pára)

EMÍLIA — Não vá!

TITO — Que não vá?

EMÍLIA (prorrogando) — Não vê que o amo? Não vê que sou eu?...

TITO — V. Exa.?

EMÍLIA — Eu, sim! Debalde procuraria ocultá-lo... fora impossível. Não cuidei nunca que viesse a amá-lo assim... E olhe, deve ser muito, para que uma mulher seja a primeira a revelar... Pode acaso calculá-lo?

TITO — Deve ser muito, deve... mas a minha situação é difícil: que lhe hei de responder?

EMÍLIA — O que quiser; não me responda nada, se lhe parece: mas não repila, lamente-me antes.

TITO — Nem lamento, nem repilo. Respondo... depois responderei. Entretanto, acalme os seus transportes e consinta que eu me retire...

EMÍLIA — Ah! vejo que não me ama.

TITO — Não é culpa minha... Mas que é isso, minha senhora? Acalme-se... eu vou sair... a prolongação desta cena seria sobremodo desagradável e inconveniente. Adeus!

Cena X
EMÍLIA, só, depois MARGARIDA

EMÍLIA — Saiu! É verdade! Não me ama... não me pode amar... (silêncio) Fui talvez imprudente! Mas o coração... oh! meu coração!

MARGARIDA (entrando) — Que tem o Tito que me tirou o Ernesto do braço e lá saiu com ele?

EMÍLIA — Saíram ambos?

MARGARIDA (indo à janela) — Olha, lá vão eles...

EMÍLIA (idem) — É verdade.

MARGARIDA — O Tito tira um papel do bolso e mostra a Ernesto.

EMÍLIA (olhando) — Que será?

MARGARIDA — Mas que aconteceu?

EMÍLIA — Aconteceu o que não prevíamos...

MARGARIDA — É invencível?

EMÍLIA — Por desgraça minha; mas há coisa pior...

MARGARIDA — Pior?...

EMÍLIA — Escuta; és quase minha irmã; não te posso ocultar nada.

MARGARIDA — Que ar agitado!

EMÍLIA — Margarida, eu o amo!

MARGARIDA — Que me dizes?

EMÍLIA — Isto mesmo. Amo-o doidamente, perdidamente, completamente. Procurei até agora vencer esta paixão, mas não pude; agora mesmo que, por vãos preconceitos, tratava de ocultar-lhe o estado do meu coração, não pude; as palavras saíram-me dos lábios insensivelmente... Declarei-lhe tudo...

MARGARIDA — Mas como se deu isto?

EMÍLIA — Eu sei! Parece que foi castigo. Quis fazer fogo e queimei-me nas mesmas chamas. Ah! não é de hoje que me sinto assim. Desde que os seus desdéns em nada cederam, comecei a sentir não sei o quê; ao princípio despeito, depois um desejo de triunfar, depois uma ambição de ceder tudo contanto que tudo ganhasse; afinal, nem fui senhora de mim. Era eu quem me sentia doidamente apaixonada e lho manifestava, por gestos, por palavras, por tudo; e mais crescia nele a indiferença, mais crescia o amor em mim. Hoje não pude, declarei-me.

MARGARIDA — Mas estás falando séria?

EMÍLIA — Olha antes para mim.

MARGARIDA — Pois será possível? Quem pensara?...

EMÍLIA — A mim própria parece impossível; mas é mais que verdade...

MARGARIDA — E ele?

EMÍLIA — Ele disse-me quatro palavras indiferentes, nem sei o que foi, e retirou-se...

MARGARIDA — Resistirá?

EMÍLIA — Não sei.

MARGARIDA — Se eu adivinhara isto não te animaria naquela malfadada idéia.

EMÍLIA — Não me compreendeste. Cuidas que eu deploro o que me acontece? Oh! não! Sinto-me feliz, sinto-me orgulhosa... É um destes amores que bastam por si para encher a alma de satisfação. Devo antes abençoar-te...

MARGARIDA — É uma verdadeira paixão... Mas acreditas impossível a conversão dele?

EMÍLIA — Não sei; mas seja ou não impossível, não é a conversão que eu peço; basta-me que seja menos indiferente e mais compassivo.

Cena XI
As mesmas, TITO

TITO — Deixei o Ernesto lá fora para que não ouça o que se vai passar...

MARGARIDA — O que é que se vai passar?

TITO — Uma coisa simples.

MARGARIDA — Mas, antes de tudo, não sei se sabe que uma indiferença tão completa como a sua pode ser fatal a quem é por natureza menos indiferente?

TITO — Refere-se à sua amiga? Eu corto tudo com duas palavras. (a Emília) Aceita a minha mão? (estende-lhe a mão)

EMÍLIA (alegremente) — Oh! sim! (dá-lhe a mão)

MARGARIDA — Bravo!

TITO — Mas é preciso medir toda a minha generosidade; eu devia dizer: aceito a sua mão. Devia ou não devia? Sou um tanto original e gosto de fazer inversão em tudo.

EMÍLIA — Pois sim; mas de um ou outro modo sou feliz. Contudo, um remorso me surge na consciência. Dou-lhe uma felicidade tão completa como a recebo?

TITO — Remorso, se é sujeita aos remorsos, deve ter um, mas por motivo diverso. Minha senhora, V. Exa. está passando neste momento pelas forcas caudinas. (a Margarida) Vou contar-lhe, minha senhora, uma curiosa história. (a Emília) Fi-la sofrer, não? Ouvindo o que vou dizer concordará que eu já antes sofria e muito mais.

MARGARIDA — Temos romance?

TITO — Realidade, minha senhora, e realidade em prosa. Um dia, há já alguns anos, tive eu a felicidade de ver uma senhora, e amei-a. O amor foi tanto mais indomável quanto que me nasceu de súbito. Era então mais ardente que hoje, não conhecia muito os usos do mundo. Resolvi declarar-lhe a minha paixão e pedi-la em casamento. Tive em resposta este bilhete...

EMÍLIA (detendo-o) — Percebo. Essa senhora fui eu. Estou humilhada; perdão!

TITO — Meu amor a perdoa; nunca deixei de amá-la. Eu estava certo de encontrá-la um dia, e procedi de modo a fazer-me o desejado. Sou mais generoso...

MARGARIDA — Escreva isto e dirão que é um romance.

TITO — A vida não é outra coisa...

MARGARIDA — Agora dê-me conta do meu marido.

TITO — Não pode tardar; dei-lhe um prazo para vir. Olhe, creio que é ele...

EMÍLIA — E o coronel também.

Cena XII
Os mesmos, CORONEL e SEABRA

SEABRA (da porta) — É lícito o ingresso?

TITO — Entra, entra...

EMÍLIA — Vai saber de boas novidades...

SEABRA — Sim?

MARGARIDA (baixo) — Casam-se

SEABRA (idem) — Já sabia.

MARGARIDA (baixo) — Era um plano da parte dele.

SEABRA (idem) — Já sabia. Ele me disse tudo.

EMÍLIA — O que eu desejo é que jantem comigo.

SEABRA — Pois não.

CORONEL — Tenho estado à espera de dar uma boa notícia. Recebi uma carta que me dá parte de que o urso está na alfândega.

EMÍLIA — Pois vá fazer-lhe companhia.

CORONEL — O quê?

TITO — D. Emília só precisa agora de um urso: sou eu.

CORONEL — Não percebo...

EMÍLIA — Apresento-lhe o meu futuro marido.

CORONEL (espantado) — Ah!... (caindo em si) Bom!... bom!... marido? Já sei... (à parte) Que pateta! Não compreende...

EMÍLIA — O que é?

MARGARIDA (baixo) — Cala-te; eu tinha-lhe contado o teu plano; o pobre homem acredita nele.

EMÍLIA — Ah!...

SEABRA — Afinal, sentas praça nas minhas fileiras.

TITO (tomando a mão de Emília) — Ah! mas no posto de coronel!

(Fim da comédia.)

Fonte: www.literaturabrasileira.ufsc.br

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