DOM SOL - Mercúrio, dá cá os jornais do dia.
MERCÚRIO - Sim, meu senhor. (Procurando os jornais.) Sempre lhe admira muito como é que Vossa Claridade pode ler tantos jornais. São todos interessantes? Olhe, aqui tem o Escorpião.
DOM SOL - Uns mais que outros; mas ainda que não tivessem interesse nenhum, era preciso lê-los, para saber do que vai pelo Um verso. Já chegou a Via-Láctea?
MERCÚRIO - Aqui está.
DOM SOL - Esta folha é das menores; tem uma circulação de trazer, os biliões de exemplares.
MERCÚRIO - Já não é mau! Aqui está o Eclipse e a Fase.
DOM SOL - Não são tão bons.
MERCÚRIO - O Crescente, a Bela Estrela Canopo e a Revista das Constelações, Creio que é tudo. Falta só o Cometa, mas, como sabe,só aparece de longe em longe; dizem até que vai fechar a porta.
DOM SOL (distraído) - 11 faut qu'une porte soit ouverte ou fermée.
MERCÚRIO - Gracioso! mui gracioso!
DOM SOL - (à parte) - O que eu disse não tem graça nenhuma; foi uma coisa como qualquer outra, mas ele há de rir por força. (Alto) Bem, agora deixe-me ir.
MERCÚRIO - Perdão, mas . . . acho aqui uma folha que nunca vi... Diário do Brasil, Vossa Claridade conhece-a?
DOM SOI. - Diário do Brasil? Não.
MERCÚRIO - Estava aqui com as outras; são três números. Creio que é da Terra...
DOM SOL - Mercúrio, tu sabes que eu da Terra só leio o que diz respeito ao aspecto do céu, e isso mesmo só para saber que figura fazemos lá embaixo. Diário do Brasil? Tu vês que até o título é bárbaro. Leva, leva...
MERCÚRIO (percorrendo um número) - Contudo, há coisas ir restantes... Oh! cá está o nome de Vossa Claridade, é uma ca que lhe mandam. Há de haver outras nos outros números. Cá e mais uma, mais duas.
DOM SOL - Cartas a mim? Eles que me escrevem, é que t alguma coisa nova ou interessante na cabeça. Se assim não fosse, me escreveriam.
MERCÚRIO - Exato! perfeitamente exato!
DOM SOL (à parte) - Isto que acabo de dizer é inteiramente falso mas a manha dele é achar exato tudo o que não acha gracioso. (Alto) Mercúrio, preciso de estar só; vi ali à constelação da Grande Ursa fazer-lhe uma visita.
MERCÚRIO - Obedeço! (À parte) Os tais números do Diário do Brasil foram recebidos por mim mesmo à porta do Firmamento, para fazê-los chegar às mãos de Sua Claridade. Esperemos agora o efeito da leitura. (Sai.)
DOM SOL - Vejamos as tais cartas. São três. . . Tratam-me com muito azedume e ainda pior. Elemento quê?... Servil. Não sei que é. Elemento servil? Eu só conheço os antigos elementos, que eram quatro, e hoje andam às dúzias. Diz aqui que eu, se mergulho numa polpa de azeite não saio incólume; mas é que eu não mergulhei para que diabo havia de mergulhar numa pipa de azeite? Confesso que não entendo. (Depois de algum tempo.) Aqui parece que se exorta a não esquecer um inolvidável dever, e não acho isto bom: porque o dever é coisa tão árdua, que, ainda sendo inolvidável, por ser olvidável. Provavelmente a palavra está na moda, lá que é bonita, é. Inolvidável! Já me disseram que naquele país certas palavras são como o feitio do fraque aparece um com um feitio novo, todos pegam do feitio, até abandoná-lo; depois vem outro. Houve o feitio imaculado, depois veio o feitio incomparável, depois o feitio nítido agora é o inolvidável. (Pausa.) Começo a ficar aborrecido. Mercúrio
MERCÚRIO - Pronto!
DOM SOL - Já tinhas saído?
MERCÚRIO - Já, sim, Senhor; estava ali a cinco mil quilômetro quando Vossa Claridade se dignou chamar-me.
DOM SOL - Mercúrio, eu não entendo estas cartas. Dizem-me coisas de que não sei absolutamente nada. Eu não mandei ninguém soprar coisa nenhuma no seio da Representação Nacional. Não s mesmo onde é que ela fica. E alguma constelação nova?
MERCÚRIO - Saberá Vossa Claridade que, metaforicamente, por
chamar-se uma constelação, mas não
o é, no natural sentido.
DOM SOL - Então o que é?
MERCÚRIO - Com sua licença, é a assembléia das pessoas que povo escolhe para tratar dos seus negócios, fazer as leis, votar os impostos. Compõe-se de uma maioria e uma minoria.
DOM SOL - Mas então este pedaço de carta alude à Lua, que também se divide em minguante e crescente...
MERCÚRIO - Gracioso! Mui gracioso!
DOM SOL (à parte) - E insuportável! Os senhores são testemunhas de que eu disse aquilo somente para matar o tempo, mas o diabo acha gracioso tudo o que não acha exato. (Alto) Mercúrio, estas cartas provavelmente são para o imperador daquele país. Chamam-lhe soí, como a Luís XIV, mas é pura sinonímia, não tem nada comigo.
MERCÚRIO - E o mais é, que bem pode ser assim. Pois agoira direi a \/osso Claridade, que eu mesmo é que as recebi à porta, com recomendação de as entregar em mão. E o que foi; enganaram-se com o nome.
DOM SOL - Manda-as ao imperador, que naturalmente terá recebido multas
outras. Sabes se ele
guarda-as todas?
MERCÚRIO - Não, meu senhor, não sei.
DOM SOL - Eu, no caso dele, só guardava as que tivessem estilo. Olha, Mercúrio, os arrufos passam, mas o estilo fica. (Àparte) Entendam lá este paspalhão: agoira que eu disse uma coisa melhorzinha, é que ele se deixa estar calado.
CUSTÓDIO e Cristo Júnior! Tais são os nomes de duas interessantes criaturas, cujos feitos andam nas folhas públicas e nos anais judiciários. Podia dizer isso em palavras menos graves, mas então descairia do assunto, que é gravíssimo, e das pessoas e dos nomes.
Vejamos o que fez Custódio: depois vejamos o que fez Cristo Júnior.
Custódio (subentende-se anjo Custódio) não fez absolutamente nada. Foi Deus que matou as reses, ou então foi algum perverso que as envenenou. O certo é que elas apareceram erradas e mortas, na chácara Castanheiro, que o leitor da corte não conhece, nem eu porque fica em Sorocaba. Custódio o que fez, foi pegar das reses, cortá-las, salgá-las e vendê-las.
Daí alvoroço, pesquisa e interrogatório. Custódio confessa nobremente o que fez e o que não fez. O que fez, foi como digo, cortar e salgar as reses; mas nem foi ele que as matou, nem (atenção!) as vendeu para Sorocaba, mas para fora, para longe, para onde nenhum sorocabano lhes metesse o dente.
Trago isto à colação, como dizia o outro, para perguntar ao leitor como é que procederia, se tivesse de julgar este homem. Ele é verdade que ia vender as reses envenenadas, que receberia por elas um cobrindo, compraria um burro, talvez dois, talvez três burros, viria à corte, ao teatro, para rir um pouco, mas é certo que não as ia vender em Sorocaba. Une nuance, quoi! Ia vendê-las alhures, na Limeira, em S. José dos Campos, longe dos olhos, longe do coração. Se há uma virtude universal e outra nacional, por que não há de haver uma virtude municipal? Verdade em Sorocaba, erro na Limeira. Para os ventres da Limeira, Custódio é execrando; para os de Sorocaba, é angélico, verdadeiro Custódio, Custódio sem mais nada.
Cristo Júnior não fez a mesma coisa, mas não é menos sutil o problema que oferece, nem menos nobre o seu impulso. Não se trata de um martírio, como se pode crer pelo nome; não morreu nem morrerá na cruz. Entretanto, o nome de Cristo Júnior parece estar aqui para distinguí-lo do outro Cristo, que é o Xênio. Chamamos-lhe simplesmente Júnior.
Júnior parece que falsificava uns bilhetes de loteria, e entrou a vendê-los. Aparentemente, é um crime; mas se atentarmos bem, veremos que é, pelo menos, meia virtude.
Convém notar que Júnior pode ter cedido a uma tal ou qual comichão interior. Santo Antônio teve igual prurido, e resistiu, donde lhe veio a canonização; Júnior não resistiu. Comendo-lhe o caráter, não pôde deixar de meter-lhe as unhas e coçá-lo até fartar a epiderme. Em termos lisos, Júnior teve cócegas de falsificar alguma coisa neste mundo, fosse o que fosse, à escolha, virtude ou vício; e escolheu o vício.
Podia imitar uma nota de duzentos mil-réis (bela e rara virtude!) mas preferiu os dez tostões da loteria, e fez uma imitação tão perfeita, que ia dando com os burros (do vizinho) n'água. O pior que podia acontecer à gente, era ficar com os bilhetes brancos na mão mas nem seria a primeira vez nem a última.
- Compre este número! Olhe esta loteria, que tem um bonito plano! clamam os rapazes na Rua do Ouvidor, esquina do Beco das Cancelas, quando metem à cara da gente os seus bilhetes.
Júnior tinha um plano muito superior, que era ficar do mesmo modo com os cobres, e deixar nas mãos da gente a sombra de uma sombra. Mas como era o vício de um vício, podemos contá-lo por meia virtude.
Meia virtude ou virtude municipal, é a virtude posta ao alcance de todas as bolsas. Custódio ou Júnior, ou qualquer outro nome, que eu de nomes não curo, como dizia o Garrett, que Deus tenha por lá muitos anos sem mm.
NÃO CONCORDO absolutamente com a censura feita ontem pelo Jornal do Comércio aos nossos costumes parlamentares, e não concordo por três razões tão grandes, que não sei qual delas é maior. A censura como todos leram, teve por objeto a demora na discussão da proposta da emissão de vinte e cinco mil contos, que foi apresentada a 25 de maio, e só agoira chegou ao Senado.
A primeira razão, por mais que a achem má, é sólida e legítima. Há folgas extraordinárias na Câmara, dias de repouso, dias de chuva, e todo o sábado vale domingo. É isto novo? Abra o Jornal do Comércio, o livro dos Anais; veja a sessão de 25 de agosto de 1841, e leia um discurso que lá vem do finado Otôni (Teófilo).
Não é preciso lembrar que 1841 valia para nós uma segunda virgindade política. Acabava-se de declarar a Maioridade, parecia que o parlamento ia ser o beijinho da gente. Entretanto, Otôni declarou a 25 de agosto de 1841 que muitos deputados da maioria gostavam de ficar nas suas chácaras, divertindo-se. "Outros (exclama ele) querem ir patuscar à Praia Grande!" E mais adiante afirma que é comum suceder não haver casa só porque chove um pouco. O melhor é transcrever este trecho Dor inteiro:
V. Ex.a sabe que eu não tenho medo do mau tempo (concluiu Otôni), que qualquer que ele seja, apresento-me na casa, e às vezes deixo de entrar, porque me revolta ver que, tendo eu vindo com o meu guarda-chuva debaixo d'água muitos senhores se deixam ficar em casa; de modo que às vezes deixa de haver casa porque chuvisca um pouco.
Lealmente, que culpa pode ter a geração de hoje de um costume tão velho? Ou querem negar as leis do atavismo? Note-se até uma circunstancia, que, por ser grave, deve pesar no nosso juízo acerca dos contemporâneos. O discurso de Otôni era a propósito da ata de 24, dia santo então, no qual a Câmara resolveu trabalhar. Resolveu na véspera, e não se reuniu; e, segundo o Cônego Marinho, que falou depois de Antônio Carlos, os que não compareceram foram justamente os que votaram que se trabalhasse. Não posso dizer se isto foi assim mesmo, porque, a despeito das calúnias de um tal Lulu Sênior, ainda não era nascido, mas o meu amigo João Velhinho, cuja memória conserva a mesma frescura de outros tempos, jura que estava lá, e que o Cônego Marinho tinha razão; lembra-se como se fosse hoje.
A segunda razão que me faz recusar a censura é que, em geral, as discussões de tais propostas são a ocasião mais apropriada para tratar de tudo, e que não se pode tratar de tudo como um gato passa por brasas. Ou seja um assunto qualquer, pequeno, local, indiferente, - ou seja uma dessas belas teorias, amplas, vagas, assopradas, tudo leva tempo e, se além de tudo, ainda se há de falar da própria matéria da proposta, é claro que não se pode gastar menos de um mês ou mais.
A terceira razão (e isto responde a qualquer objeção que me façam com a Câmara dos Comuns ou outras), a terceira razão é que se dá com os governos o que se dá com outros produtos naturais: o meio os modifica e altera. Lá nas outras câmaras pode ser que as coisas marchem de diverso modo. Mas segue-se que, por termos a mesma forma externa, devamos ter o mesmo espírito interior? Seria cruel exigi-lo. Seria admitir que o cabeleireiro faz o dândi. Maria Cristina dizia uma vez ao famoso Espartano: - Fiz-te duque; nunca te pude fazer fidalgo.
E agora reparo que essa última razão ainda me dá outra, uma quarta razão, não menos esticada dos colarinhos. Assim como um governo sem eqüidade só se pode manter em um povo igualmente sem eqüidade (segundo um mestre), assim também um parlamento remisso só pode medrar em sociedade remissa. Não vamos crer que todos nós, exceto os legisladores, fazemos tudo a tempo. Que diria o sol, que nos deu a rede e o fatalismo?
O QUE É POLÍTICA? Aqui há anos, creio que por 1849, lembrou-se alguém de propor uma questão em um jornal. A questão era saber o que é honra. Em vez, porém, de escrever deveras aos outros, coligir as respostas e publicá-las, engendrou as respostas no escritório, e deu-as a lume.
Compreende se que isso se fizesse em 1849. Naquele tempo fazia-se a eleição a bico de pena. Mas, depois da lei de 1880, não há meio de recorrer a outra cousa que não seja o sufrágio direto.
Foi o que fiz em relação à política. Peguei de tudo o que sabia nesta matéria (e não valia dois caracóis), arranjei um embrulho e mandei deitá-lo à praia. Depois escrevi uma carta aos meus concidadãos, pedindo-lhes que me dissessem francamente o que consideravam que fosse política, e dispensando-os de citar Aristóteles nem Maquiavelli, Spencer nem Comte, não só porque apenas se devem citar os devedores remissos (e Deus sabe se aqueles quatro são credores de meio mundo!), como porque os referidos autores são estranhos completamente ao
Tirolito que bate, bate,
Tirolito que já bateu.
Relativamente a este Tirolito, disse-lhes que era uma cantiga, e que as cantigas, ao contrário do que queria o nosso Álvares de Azevedo, fazem adiantar o mundo. Ils chantent, ils payront, dizia não sei que profundo político francês; e o nosso maestro Ferrari, original como um bom italiano, emendou a máxima, e aplicou-a aos nossos dias: Nous chanterons, ils payeront. Um e outro são muito superiores aos mestres apontados.
Não tardou que o correio começasse a entregar-me as respostas; e, como eu não pagava o porte, reconheci que há neste mundo uma infinidade de filhos de Deus ou do diabo que os carregue, que estão à espreita de um simples pretexto para comunicar as suas idéias, ainda à custa dos vinténs magros.
Não publico tocaias as definições recebidas, porque a vida é curta vita brevis. Faço. porém, uma escolha rigorosa, e dou algumas das principais, antes de contar o que me aconteceu neste inquérito, e foi o que se há de ver adiante, se Deus não mandar o contrário.
Uma das cartas dizia simplesmente que a política é tirar o chapéu às pessoas mais velhas. Outra afirmava que a política é a obrigação de não meter o dedo no nariz. Outra, que é, estando à mesa, não enxugar os beiços no guardanapo da vizinha, nem na ponta da toalha. Um secretário de Comte dançante jura que a política é dar excelência às moças, e não lhes pôr alcunhas quando elas já têm para esta. Segundo um morador da Tijuca, a política é agradecer com um sorriso animador ao amigo que nos paga a passagem.
Muitas cartas são tão longas e difusas, que quase se não pode extratar nada. Citarei dessas a de um barbeiro, que define a política como a arte de lhe pagarem as barbas, e a de um boticário para quem a verdadeira política é não comprar nada na botica da esquina.
Um sectário de Comte (viver às claras) afirma que a política é berrar nos bonds, quer se trate dos negócios da gente, quer dos estranhos.
Não entendi algumas cartas. A letra de outras é ilegível. Outras repetem-se. Cinco ou seis dão como suas, opiniões achadas nos livros. Uma dama gamenha escreve-me, dizendo que a política é praticar com os olhos o que está no Evangelho de S. Mateus, capVII. verso 7: "batei e abrir-se-vos-á".
Note-se que, em todo esse montão de cartas, não há uma só deputado ou senador, e contudo escrevi a todos eles pedindo uma definição.
Minto; o Sr. Zama deu-me anteontem uma resposta, embora indiretamente. S. Ex.a disse na Câmara que quer a abolição imediata mas aceitou o projeto passado e aceita este, pela regra de Terêncio. quando não se pode obter o que se quer, é necessário que se queira aquilo que se pode. Regra que me faz lembrar textualmente aquela outra de Thomas Corneille:
Quand on n'a pas ce que l'on aime.
I1 faut aimer ce que l'on a.
Terêncio ou Corneille, tudo vem dar neste velho adágio, que diz que quem não tem cão, caça com gato. É oportunismo, confesso; mas pretiro-lhe o aparte de um deputado, no discurso do Sr. Rodrigues Alves, quando este tachava um presidente de interventor, não porque recomendasse candidatos, mas porque fez favores a amigos destes. "Queria que os fizesse aos amigos de V. Ex.a?" perguntou um colega. Tal qual a política do boticário: não comprar na botica da esquina.
CONHEÇO um homem que, além de acudir ao doce nome de Guedes, acaba de receber um profundo golpe moral, desfechado pelo Sr. Visconde de Santa Cruz.
Ponha o leitor o caso em si. Há trinta anos, ou quase, que o Guedes espreita um trimestre de popularidade, um bimestre, um mestre que fosse, para falar a própria linguagem dele. Ultimamente, 1a se contentava com uma semana, um dia, e até uma hora, uma só hora de popularidade, de andar falado por salas e esquinas.
Não se imagina o que este diabo tem feito para ser popular. Deixo de lado 1863, por ocasião da Questão Christie, em que ele propôs-se a Ir arrancar as armas da legação inglesa. Só achou cinco imprudentes que o acompanharam; e, ainda assim, saiu com eles da Rua do Ouvidor, a pé. No Largo da Lapa achou-se com quatro; na Glória, com três, no Largo do Valdetaro. com dois. e no do Machado com um, que o convidou a voltar para a Rua do Ouvidor.
Mais tarde, vendo passar o coche triunfal do Rio Branco, por ocasião da lei de 28 de setembro, compreendeu que era um bom veículo de molas, vistoso, e atirou-se à traseira, mas já lá achou outros que o puseram foram a pontapés, e o meu pobre Guedes teve de voltar à obscuridade.
Tentou outras coisas. Tentou uma orchata higiênica, uma loteria de crianças, uma polca, uma rua e uma casa de fazendas baratas. Falhou tudo. A polca dançou-se muito, mas ninguém lhe decorou o nome. A rua, Rua João Guedes, trouxe-lhe um singular destempero. Um dia, sendo apresentado a uma família, disseram-lhe todos com Ingenuidade - "Ah! o senhor tomou o nome daquela rua em que mortal um primo nosso!"
Afinal, deitou os olhos para o fechamento das portas; e o leitor tão é capaz de adivinhar quando foi que a atenção se lhe volveu para ali. Foi por ocasião da morte de Ester de Carvalho. Entre os artigos fúnebres que então apareceram, um houve em que se convidava os esteristas a lançarem mão do movimento produzido pela morte da distinta atriz para alcançar o fechamento das portas. O Guedes refletem: estava achada a popularidade.
A questão era pertencer à Câmara Municipal; e o meu amigo fez tudo o que pôde para isso. Sempre derrotado e sempre resoluto, esperava ali meter o pé, um dia, quando o Sr. Visconde de Santa Cruz propôs, e os seus colegas aprovaram, que as portas se fechem aos domingos e dias santos. Foi o mesmo que arrancarem-lhe o bocado da boca.
Agora, se realmente quer popularidade, abra mão de planos complicados; limite-se a fazer anunciar, por meio de alusões engenhosas, que é o Guedes, o célebre Guedes, que é esclarecido, e varie os termos, passe de esclarecido a ilustrado, e de ilustrado a eminente, e acrescente que é bonito, ce qui ne gâte rien. O leitor não acredita, nos primeiros quinze dias; no fim de vinte fica um tanto perplexo; passados trinta, pergunta se realmente não se enganou; ao cabo de cinqüenta, jura que se enganou, que é o Guedes, o verdadeiro Guedes. Três meses depois, mata a quem lhe disser o contrário.
Faça isto, meu amigo; é o segredo do mulungu composto e da salsaparrilha, tanto da de Bristol como da de Sands. Esperar cadeira de um vereador é muito demorado. E depois, as idéias são tão poucas - digo os motivos de popularidade, - que quando a gente está pensando em plantar uma, já outro está colhendo os frutos da que plantou também; e a gente não tem remédio senão recorrer à única cultura em que não há concorrência de boa vontade, que é plantar batatas. É a ocupação atual de todos os Guedes.
VENHA DE LÁ esse abraço; trago-lhes um divertimento para passarem as noites.
Nem todos terão treze mil-réis para dar por uma cadeira do Teatro Lírico. Eu tenho cinco; faltam-me oito. Podia ir ao Teatro de S. Pedro. onde a cadoira custa menos; mas eu só entendo italiano cantado, e a Duse-Checchi não canta. Fui lá algumas vezes levado pelo que ouvia dizer dela e da companhia; fui, gostei muito do diabo da mulher, fingi que rasgava as luvas de entusiasmo, para dar a entender que sabia daquilo; nos lugares engraçados ria que me escangalhava, muito mais do que se fosse em português; mas, repito. italiano por música.
Nos outros teatros dizem-me que só há peças, ou muito tristes ou demasiado alegres. Ora, eu não sou alegre. mas também não sou triste. Meu avô, que era carneiro de Panúrgio, não passava de sorumbático. Ir ao teatro para cair num daqueles dois extremos, e adoecer, não posso.
Pode-se, é verdade, ler os jornais à noite, e assim matar o tempo. Mas como deixar resfriar noticias importantes? Vá que o façamos nos dias em que eles, para acudir aos cochilos da agência Havas, transcrevem da Nación, de Buenos Aires, notícias telegráficas da vida política e internacional do mundo; mas como fazê-lo, quando, ainda há dias, a mesma agência nos comunicou este caso grave: "Adelina Patti ganhou o processo de divórcio contra o seu marido, o Marquês de Caux".
Façam-me o favor de dizer com que cara ficaria um homem que se respeita, andando pela rua, e ouvindo perguntar a todos se sabiam do grande sucesso, do sucesso indescritível e incomensurável, o sucesso dos sucessos: Adelina e Caux estão judicialmente separados. - Não me diga isto!- É o que lhe digo: estão separados.
Tudo isto me levou a propor um divertimento barato para as famílias honestas e econômicas, um jogo de prendas. Não se riam: o jogo de prendas já foi o nosso teatro lírico.
Joga-se com qualquer número de pessoas, mas nunca menos de dez. Podem ser vinte, trinta, quarenta, e quanto mais melhor. Cada pessoa escolhe um personagem. Um é o vigário, outro o sacristão, outro o sineiro, outro o moleque do vigário, outro o coadjutor, outro o barbeiro, e etc. Chama-se o roubo do consulado. Joga-se completamente às escuras.
O diretor do jogo coloca-se no meio da sala e conta que, tendo desaparecido as sobrepelizes da igreja, é provável que estejam na casa da costureira do vigário. Acode a costureira:
- Mentes tu!
-Onde estavas tu?
- Estava em casa do sineiro.
Acode o sineiro:
- Mentes tu!
- Onde estavas tu?
- Em casa do sacristão.
Contesta o sacristão:
- Mentes tu!
- Onde estavas tu?
- Estava em casa do coadjutor.
E assim por diante até correr a roda toda. Acabada a roda, volta-se ao princípio, e repete-se a mesma cousa com os mesmos personagens, até dez e meia ou onze horas, que é boa hora de cear e dormir.
Há uma particularidade neste jogo: é que ninguém paga prenda. Dei-lhe o nome de jogo de prendas tão-somente para definir um divertimento de família. Ninguém paga nada. Quando acontece que algum dos personagens não responde à citação, a obrigação do outro é repetir o nome, até que ele responda. Uma vez respondido, passa-se adiante.
Escusado é dizer que as sobrepelizes não aparecem nunca: são apenas uma convenção.
Por ser que lhe mude o nome, dizem-me que inquérito é melhor que roubo do consulado, justamente por não se falar em consulado; mas confesso que pus este disparate do nome para Lhe dar alguma graça.
Qualquer que seja o nome, cuido que ficará popular nestas noites úmidas e aborrecidas. Tem a vantagem de não cansar. Faz-se uma noite, repete-se na noite seguinte, sem fatigar absolutamente nada: é muito superior ao da berlinda e não obriga ninguém a ir para ela.
As FESTAS da independência, este ano, são devidas especialmente Câmara Municipal, e devem ser-lhe levadas em conta, quando se houver de julgá-la. Valha por isso, que valerá bastante.
O que se lhe dispensava era envolver nas festas um epigrama. Não digo que um epigramazinho bem afiado não tenha seu lugar; .mas a ocasião é que era inoportuna.
A Câmara tinha de mandar pintar um quadro e abriu concorrência. Vários foram os pintores que acudiram ao chamado do edital, declarando na forma dele os preços. A Câmara examinou não os quadros, que os não há ainda, nem esboços, examinou os preços e escolheu o mais barato.
Com franqueza, a Câmara não tinha o direito de ser cruel, mormente agora que nos convida a celebrar a nossa data nacional.
Para que vir dizer-nos que somos Cartago e não Atenas? que o preço módico é o nosso princípio estético? etc., etc. Supõe a Câmara que o sabe melhor do que nós mesmos? Não; nós o sabemos e confessamos. A diferença é que o confessamos com humildade e franqueza, e isto mesmo indica que temos aptidão para a emenda, e que (com o favor de Deus) havemos de emendar-nos um dia.
Não se pode ser tudo ao mesmo tempo, César e João Fernandes. Vamos sendo João Fernandes, por ora-o comendador João Fernandes; dia virá em que sejamos César.
Também não gostei que a Câmara agravasse o epigrama com uma razão administrativa e um conselho de caçoada. A razão é que lhe cabe zelar os dinheiros municipais e o conselho é o que deu um dos vereadores para que o concurso fosse decidido por uma comissão de artistas. Nem um nem outro valeu muito; a razão, porque a Câmara não tratava de calcar a minha rua, necessidade urgente e da natureza daquela em que toda a economia é beneficio;-o conselho, porque, se os artistas é que haviam de decidir, então eles é que deveria:
estar na Câmara.
Digo isto, sem o menor espírito de zanga, por mais que me sinta mortificado. Digo só porque não quisera que, quando a Câmara celebra o grande dia nacional por um modo elevado como a emancipação de escravos, nos desfechasse um golpe destes.
Eu, pelo que me toca, se não dou, nem dei nunca mais de quinze mil-réis por um quadro, seja ele do diabo, é fora de dúvida que sei honrar os que tenho com molduras riquíssimas, largas, todas douradas e já me lembrou pôr duas grandes esmeraldas em um deles, mas o De-Wilde, com quem me entendo nestas coisas, disse-me que não se usa. E por isso que trago as esmeraldas na corrente do relógio.
E faço isso sem diferençar méritos, em que não entro, faço a todos os quadros que possuo, ainda os que um sobrinho meu costuma dizer que são pratos de erva. Pratos de ervas, vá ele! Se o fossem, já cá estariam no bucho, há muito tempo, e as molduras passariam a outros, que andam bem precisados delas.
Outra prova de que não desadoro as artes é o dinheiro surdo que o Teatro Lírico me tem comido; tão surdo que, por mais que o chamasse depois, nunca me ouviu nem voltou cá. E as minhas pequenas ainda gostam mais do que eu, porque eu e alguns amigos, um dia irritados com o Ferrari, pateamos o Dom João de Mozart, e elas em casa disseram-me que andei mal, e fiquei com a cara à banda mas. repito. não foi nada com o Ferrari, foi com o Mozart. Ou o contrário. não me lembra bem.
Portanto, a Câmara, já pelo que toca a outros, já pelo que me toca especialmente, foi injusta e cruel. Que seja econômica e zele os nossos dinheiros, não serei eu que lho tire da cabeça; mas tudo se pode fazer sem ofensa a ninguém, mesmo ainda de quem vendeu os seus votos e está disposto a dar-lhos. contanto que, como hoje, resgate brilhantemente alguns dos seus erros.
MAL ADIVINHAM os leitores onde estive sexta-feira. Lá vai, estive na sala da Federação Espírita Brasileira, onde ouvi a conferência que fez o Sr. M. F. Figueira sobre o espiritismo.
Sei que isto, que é uma novidade para os leitores, não o é menos para própria Federação, que me não viu, nem me convidou; mas foi isto mesmo que me converteu à doutrina, foi este caso inesperado de lá entrar. ficar, ouvir e sair, sem que ninguém desse pela coisa.
Confesso a minha verdade. Desde que li em um artigo de um ilustre amigo meu, distinto médico a lista das pessoas eminentes que na Europa acreditam no espiritismo, comecei a duvidar da minha dúvida. Eu, em geral, creio em tudo aquilo que na Europa é acreditado. Será obcecação, preconceito, mania, mas é assim mesmo, e já agora não mudo, nem que me rachem. Portanto, duvidei, e ainda bem que duvidei de mim.
Estava à porta do espiritismo: a conferência de sexta-feira abriu-me a sala de verdade.
Achava-me em casa, e disse comigo, dentro d'alma, que, se me fosse dado ir em espírito à sala da Federação, assistir à conferência, jurava converter-me à doutrina nova.
De repente, senti uma coisa subir-me pelas pernas acima, enquanto outra coisa descia pela espinha abaixo; dei um estalo e achei-me em espírito, no ar. No chão jazia o meu triste corpo, feito cadáver. Olhei para um espelho. a ver se me via. e não vi nada; estava totalmente espiritual. Corri à janela, saí, atravessei a cidade, por cima das casas, até entrara na sala da Federação.
Lá não vi ninguém, mas é certo que a sala estava cheia de espíritos, repimpados em cadeiras abstratas. O presidente, por meio de uma campainha teórica, chamou a atenção de todos e declarou abertos os trabalhos. O conferente subiu à tribuna, traste puramente racional, levantaram-lhe um copo d'água hipotético, e começou o discurso.
Não ponho aqui o discurso, mas um só argumento. O orador combateu as religiões do passado, que têm de ser substituídas todas pelo espiritismo, e mostrou que as concepções delas não podem mais ser admitidas, por não permiti-lo a instrução do homem; tal é, por exemplo, a existência do diabo. Quando ouvi isto, acreditei deveras. Mandei o diabo ao diabo, e aceitei a doutrina nova, como a última e definitiva.
Depois, para que não dessem por mim (porque desejo urna iniciação em regra), esgueirei-me por uma fechadura, atravessei o espaço e cheguei a casa, onde... Ah! que não sei de nojo como o conte! Juro por Allan-Kardec, que tudo o que vou dizer e verdade pura, e ao mesmo tempo a prova de que as conversações recentes não limpam logo o espírito, de certas ilusões antigas.
Vi o meu corpo sentado e rindo. Parei, recuei, avancei e disse-lhe que era meu, que, se estava ocupado por alguém, esse alguém que saísse e mo restituísse. E vi que a minha cara ria. que as minhas pernas cruzavam-se, ora a esquerda sobre a direita, ora esta sobre aquela, e que as minhas mãos abriam uma caixa de rapé, que os meus dedos tiravam uma pitada, que a inseriam nas minhas ventas. Feitas todas essas coisas, disse a minha voz.
- Já Lhe restituo o corpo. Nem entrei nele senão para descansar um bocadinho, coisa rara, agora que ando a sós...
- Mas quem é você?
- Sou o diabo, para o servir.
- Impossível! Você é uma concepção do passado, que o homem. . .
- Do passado, é certo. Concepção vá ele! Lá porque estão outros no poder, e tiram-me o emprego, que não era de confiança, não é motivo para dizer-me nomes.
Mas Allan-Kardec...
Aqui, o diabo sorriu tristemente com a minha boca, levantou-se e foi à mesa, onde estavam as folhas do dia. Tirou uma e mostrou-me o anúncio de um medicamento novo. O rábano iodado, com esta declaração no alto, em letras grandes: "Não mais óleo de fígado de bacalhau. E leu-me que o rábano curava todas as doenças que o óleo de fígado já não podia curar-pretensão de todo medicamento novo. Talvez quisesse fazer nisto alguma alusão ao espiritismo. O que sei é que, antes de restituir-me o corpo, estendeu-me cordialmente a mão, e despedimo-nos como amigos velhos:
-Adeus, rábano!
-Adeus, fígado!
HÃO DE LEMBRAR-SE da minha aventura espírita, e da promessa que fiz, de iniciar-me na nova igreja. Vão ver agora o que me aconteceu.
Fui iniciado quinta-feira, às nove horas da noite, e não conto nada do que se passou, porque jurei calá-lo, por todos os séculos dos séculos. Uma vez admitido no grêmio, preparei as malas para ir estabelecer-me em Santo Antônio de Pádua.
Claro era o meu plano. Metia-me na vila, deixava-me inspirar por potências invisíveis, predizia as coisas mais joviais ou mais melancólicas deste e do outro mundo, reunia gente, e fundava uma igreja filial. Antes de seis meses podíamos ter ali um bom contingente.
Vejam, porém, o que me sucedeu. Era hoje que devia abalar daqui. Tudo estava pronto, malas, alma e algibeiras, quando li o código de posturas da Câmara Municipal de Santo Antônio de Pádua, que está sujeito à aprovação da assembléia provincial do Rio de Janeiro. Nesse código leio este ominoso artigo, o art. 113:
"Fica proibido fingir-se inspirado por potências invisíveis, ou predizer cousas tristes ou alegres".
Caiu-me a alma aos pés. Daí a alguns minutos reli o artigo, para ver se me não enganara. Dei a ler ao meu criado e a dois vizinhos; todos eles leram a mesma coisa, como este acréscimo, que .me escapou, que o infrator pagará de multa 50$ e terá oito dias de prisão.
Não me digam que o artigo apenas veda a simulação. Os fiscais de Santo Antônio de Pádua não podem saber quando é que a gente finge. ou e deveras inspirado. Jeremias, que lá fosse, e o seu secretário Baruch podiam dizer pérolas, iriam ambos parar à cadela porque o art 113 não explica por onde é que se manifesta a simulação.
Desfiz tudo, as malas, a alma e as algibeiras. Peguei em mim e atirei-me à rede com o famoso código na mão, resolvido a achar-lhe algum ponto em que lhe pegasse. Não achei nada. Ao contrário, todas as suas disposições mostram espírito precavido, delicado e justo; ao menos. é o que imagino, porque ao cabo de cinco minutos dormia a sono solto.
Acordei agora mesmo para ir jantar. Podia dizer-lhes ainda alguma coisa, mas não tenho alma para nada. Lá se foi todo o meu plano! Bárbaro código! Torturas do diabo! Aqui na corte, a gente pode dizer, por meio de cartas de jogar, uma porção de coisas alegres ou tristes, e ainda em cima recebe dois mil-réis, ou cinco, se a notícia é excelente e a pessoa e graúda, e ninguém vai para a cadeia; ao passo que ali em uma simples vila do interior...
ALÉM DE OUTRAS diferenças que se podem notar entre o sol e a chuva, há esta-que o sol, quando nasce, é para todos, como diziam as tabuletas de charutaria de outro tempo, e a chuva e só para alguns.
Hoje, por exemplo, levanto-me com chuva, e fico logo aborrecido, desejando não sair de casa, não ler, não escrever, não pensar-não fazer nada. A mesma coisa acontece ao leitor, com a diferença que ele faz ou não faz nada se quer, e eu hei de pegar do papel e da tinta, e escrever para aí alguma coisa, tenha ou não vontade e assunto.
Vontade já se vê que não. Assunto ainda menos; não posso dar tal nome ao caso do matadouro que é antigo, e está ficando (perdoe a sua ausência) um tanto amolador. Já lá vão sete ou oito dias; creio que é uma boa idade para qualquer negócio que se respeite, recolher-se a bastidores, e dar lugar a outros.
Foi o que fizeram as barraquinhas. As barraquinhas eram umas meninas bonitas, gorduchas, que apareceram aqui roendo biscoitos, e nos divertiram muito há menos de um mês. Não se demoraram mais; tão depressa viran1 aparecer o matadouro, esquivaram-se com a mesma discrição com que a gente deixa um salão de baile.
Assim fez o montepio. Uma noite, recebemos convite para assistir ao belo fogo de artifício com que o montepio entendera fazer-nos lembrar os tempos antigos da Lapa e de Mato-porcos. Fomos, e não há dúvida que, no gênero, foi coisa galante, muito animada, principalmente a luta final da fragata com as fortalezas. Acabado o fogo deu-nos uma cela; mas lá porque nos deu fogo e ceia, não nos obrigou a ficar em casa dele, e antes das duas horas da manhã estávamos todos no vale de lençóis, esquecidos do anfitrião.
Não procedeu diferente o caso do consulado. Um dia de manhã, íamos acordados ao som de albardadas fortes, que troavam a casa toda; mandamos ver quem era; era um distinto cavalheiro, que pedia licença para vir cumprimentar-nos. Recebemo-lo como merecia. Homem discreto e manso, não sabia nada, não sabia sequer da morte de Sesóstris. E bem vestido, note-se, corretamente vestido e engomado. Convidamo-lo para almoçar; almoçou, fez-nos o favor de elogiar as batatas, mas não disse o nome delas, por mais que lho pedíssemos. Não sabia o nome, não sabia nada. Acabado o almoço, não esperou que Lhe déssemos o menor sinal de desagrado ou de impaciência: pegou no chapéu, disse que ia ali e já voltava e safou-se.
E assim os outros. Chegam, aturdem nos primeiros minutos, depois dão algumas horas de palestra, bebem dois goles de chá, e adeus.
Portanto, não tenho assunto. Não hei de, à falta dele, meter-me a encarecer alguma ação bonita. As boas ações têm o preço na consciência dos que as praticam; elogiá-las muito é ofender a modéstia dos autores. Lá uma ou outra palavrinha doce, -não muito doce. - um aperto de mão, e, se houver copo d'água, um bom par de queixos, sim, senhor, é comigo. Querer, porém, que eu. além do trabalho de digerir o jantar de um homem, venha cá para fora dizer que ele e virtuoso, não é comigo, é aqui com o meu vizinho. Nesse caso preferia roer num duro escândalo, a papar o melhor guisado deste mundo.
São gostos. É como o Cristo de Bernardelli. Com franqueza. acho que estão fazendo barulho demais. Já se fala em dar a mão ao rapaz, já ele é um bom talento, já tem grande futuro. e outras coisas desse jaez, como se todos não fôssemos filhos de Deus, e se Deus para fazer escultor a um homem, precisasse saber primeiro se ele se chama Bernardelli.
Também eu gosto de mármore. Tenho cá em casa uma pia de lavar as mãos, que é de mármore: não é tão bonito como o do Cristo. mas não é feio. O que há, é que o uso já o tem estragado bastante. Custou-me oitenta mil-réis, tudo; oitenta ou cem, tenho as contas guardadas.
Afinal, vão ver que tudo isso são balelas de estudantes. Eu, que lá fui à academia duas vezes (a segunda foi para falar a um empregado que me deve quinze-mil-réis) vi sempre estudantes que entravam. com os seus livros debaixo do braço, e ficavam pasmados diante do grupo. Não os censuro, por isso; são rapazes. Também eu fui rapaz: também gostei de bonecos.
O SR. MINISTRO da Justiça entende que os tabeliães devem (com perdão da palavra) tabelionar. Entende que arrendar o ofício não é exercê-lo, segundo a intenção da lei.
Perdoe-me S. Ex.a. Essa doutrina é subversiva, não da ordem legal, mas da ordem natural, o que é pior. As leis reformam-se sem risco; mas torcer a natureza não é reformá-la, é deformá-la.
Ponhamos de parte o caso de verdadeira doença do serventuário, que o obrigue a pedir licença. Vamos ao principio geral. S. Ex.a confunde nomeação e vocação. Ponhamos o caso em mim. Eu, se amanhã me nomearem bispo, poderia receber com regularidade a côngrua e os emolumentos, mas. por falta de vocação, preferia uma boa rede a todas as câmaras eclesiásticas. S. Ex.a dirá, porém, que esta hipótese é absurda; aqui vai outra.
Suponhamos que no dia 15 de janeiro, por uma dessas inspirações geniais que o céu concede aos povos nos momentos supremos da história, elegem-me deputado. Vocação, aquilo que se chama vocação ou aptidão parlamentar. não a tenho; mas tenho respeito à vontade do eleitor, à indicação das urnas, e, para conciliar a ordem soberana com a minha inópia, dividiria o tempo de maneira que fosse algumas vezes à Câmara. Poderia o eleitor, em tal caso, obrigar-me a conhecer as matérias, estudá-las, expô-las. redigir pareceres, fazer discursos? Não; era cair no mesmo erro de deformar a natureza com o intuito de reformá-la. O mais que o eleitor podia e devia fazer, era afirmar o seu direito soberano, elegendo-me outra vez.
O caso dos tabeliães é mais grave. Não se trata de um cargo temporário, como o de deputado, nem se Lhe pode dar, como a este. um tal ou qual exercício mínimo e aparente, por meio de alguns papéis à Câmara. O oficio é vitalício, e exerce-se ou não. Exercê-lo sem vocacão é produzir dois grandes males, em que S. Ex.a não advertiu. Constrange-se um espírito apto para outra coisa a definhar nos recessos de um cartório, e arrisca-se a fazenda particular aos descuidos possíveis de quem faz as coisas sem amor.
Veia agora o contrário. Dê-me Sua Ex.a um desses ofícios. Eu, que não nasci para ele, vou ter com outro, que nasceu, que sabe, que ama a escritura e o traslado, e digo-lhe:-Velho é o adágio que diz que onde come um português, comem dois e três, e nós não podemos desmentir a origem nacional. Você fica aqui. que eu já volto.
Não voltava. é claro. E ganhávamos todos, começando pela ciência, porque eu, mineralogia de algum valor, iria viver o resto dos meus dias examinando as pedras de Petrópolis e da Tijuca, e até as da Rua do Ouvidor, que, por estarem à mão,-ninguém sabe o que valem. Não conto a vantagem do Governo. que acomodaria assim duas pessoas na mesma casa. S. E,. a tem uma escapatória que é esta: - recusar o ofício. Mas eu pergunto se era decente fazê-lo; pergunto se, vindo o Estado a mim, e dizendo-me: Cidadão, partícula de mim mesmo, aqui tens este ofício, exerce-o, segundo as leis e os costumes, escuta a viúva. atende ao herdeiro, ouve o vendedor, e o comprador, lavra, traslada, registra", - pergunto se, em tal caso, tinha eu o direito de recusar. Evidentemente, não.
Não tenho a menor esperança de fazer revogar o ato de S. Ex.a. Mas estou certo de que estas idéias hão de frutificar. A questão e mais alta do que pode parecer aos f'rívolos. Trata-se de pôr nos atos do governo certas considerações de ordem cientifica: trata-se de mostrar que o Estado pode dar-me um ofício, e até dois, se lhe parecer; mas não pode, sem abuso e perigo, constranger-me a ocupá-lo ou ocupá-los.
E quando falo em Estado, refiro-me a todos os seus órgãos, cujo exercício anticientífico entre nós é realmente deplorável. Leu S. Ex.a o último edital do juiz municipal de Barra Mansa? Chamam-se ali compradores para os bens penhorados a um major; e entre outras vacas, inscreve-se esta: "Uma vaca magra, muito ruim, avaliada em 10$000" Não há procedimento menos cientifico. Por que é que a lei do particular não será a lei do Estado?
Nenhum particular diria tal coisa. Querendo vender a vaca, o particular poria no anúncio qualquer eufemismo delicado; diria que era , uma vaca menos que regular, uma vaca com defeito, uma vaca para serviços leves. Jamais confessaria que a vaca era muito ruim. E vendê-la-ia. Creiam, não digo pelos dez- mil-réis, mas por que quinze ou dezoito mil-réis. Se isto não é cientifico, então não sei o que é cientifico neste mundo e no outro
PARTICIPO aos meus amigos que vou abrir (ou erigir) um quiosque. Resta-me só escolher o lugar e pedir licença à Câmara.
Toda a gente sabe que o quiosque é um dos exemplos mais exprcssivos da lei de adaptação. Creio que na capital donde ele nos veio, é o lugar onde se mete uma mulher a vender jornais.
Aqui serve de abrigo a um ativo cidadão, que vende cigarros e bilhetes de loteria. Parece, à primeira vista, que um negócio desses não há de deixar grandes fundos. Pois deixa; e a prova é que ainda agora, a Câmara, concedendo um, para o Largo de S. Francisco de Paula, impôs ao pretendente uma entrada de quinhentos mil-réis para O livro de ouro.
Nunca as mãos lhe doam à Câmara. Vá fazendo as suas concessões, uma vez que sejam justas, com a cláusula, porém, de que os pretendentes hão de entrar para O livro de ouro, por onde se vão libertar escravos no dia 2 de dezembro. A última sessão rendeu-lhe uns seis contos. Só um dos concessionários tem de dar cinco contos de réis; os outros quinhentos mil-réis são do dono de um estábulo.
O único senão que se poderá notar nesse método, é que, ao lado da filantropia real, estamos vendo florescer uma filantropia artificial em grande escala; mas, depois do sol artificial do Sr. D,. Costa Lopes e dos vinhos artificiais de outras pessoas, creio que podemos ir aposentando a natureza. A natureza está ficando velha; e o artifício é um rapagão ambicioso.
No livro de ouro há vinho puro, e sol verdadeiro. Há uma parte, que é do melhor vinho cristão, daquele que a mão esquerda ignora: os dez contos anônimos que o Sr. Conde de Mesquita para lá mandou. Mas como o vinho puro não chega para o festim da Câmara lembrou-se ela-e em boa hora-de aceitar do outro, considerando que no fim dá certo, e os escravos ficam livres.
Também há dias um anônimo teve a idéia de aconselhar ao governo um modo de acabar com a escravidão. Era estabelecer uma escala de preços para os títulos nobiliários, e convidar as pessoas que quisessem admissão ou promoção na classe. O autor chegou a citar nomes de titulares conhecidos e até de senhoras. Marcou ele mesmo os preços: um marquesado custaria cinqüenta contos, etc. . .
A idéia em si não é má. Dever um título à alforria de uns tantos escravos, pode ser menos heróico, mas não é menos cristão que devê-lo à tomada de Jerusalém. Acho a coisa perfeitamente justa? nem é por aí que a critico. Também José Clemente levantou o Hospício de Pedro 11, por igual método; lucraram os infelizes, doidos, e lucramos todos nós, que podemos jantar à mesma mesa sem deitar os pratos à cara um dos outros; a presunção e que temos juízo; digo a presunção legal...
Não o mal da idéia é que, por mais que acudissem aos títulos, o dinheiro que se recolhesse não chegaria para um buraco do dente da escravidão. O livro de ouro, da Câmara, e mais fácil de encher, porque é mais limitado.
Lá vou pôr os meus quinhentos mil-réis, ou mais, se mo pedirem, a troco do quiosque. Agora, principalmente, depois que li uma folha de S. Paulo, estou pronto a abrir os cordões da bolsa. A citada folha declara que se deve votar no Sr. Comendador Malvino Reis para deputado, por ser daqueles que agüentam com as despesas públicas. Eu até aqui, quando as lojas de fazendas me pediam alguma coisa mais pela roupa e me diziam que era por causa dos impostos, imaginava que elas e eu dividíamos a carga ao meio, e que lá entrava o triste de mim, indiretamente, com alguma coisa nos ordenados dos funcionários; mas uma vez que é o Sr. Malvino que me paga a casa e a comida, sinto-me aliviado, e posso dar mais um tanto para a festa da Câmara.
ACHEI AGORA mesmo na rua um pedacinho de jornal, coisa de três dedos de altura e pouco mais de largura. A minha regra, em tais casos é deixar o papel onde está: é a do meu vizinho, e provavelmente a do gênero humano. Mas, não sei por que, deu-me cócegas de apanhar este; lembrei-me de certa máxima que ouvi proferir em um drama, que aqui se representou há muitos anos, quando as galinhas ainda tinham dentes: "não se deve deixar rolar papel nenhum''. E vai então inclinei-me, apanhei-o e li este anúncio:
Contratam-se coristas de ambos os sexos no Teatro Politeama; preferem-se moços que saibam música".
Antes de mais nada, agradeci à Providência Divina este imenso favor de haver-me deparado alguma coisa que, exprimindo um resto e superstição antiga, dá-me ocasião de pedir a meus contemporâneo que hasteemos audazmente a bandeira da liberdade.
A razão da superstição é clara. Sociedades políticas que ainda tresandam à Idade Média, em que tudo se dividia em classes, não podem conceber que a liberdade das funções seja um corolário da liberdade das opiniões. Daí a exigência, ainda vulgar, de que os melhores sapatos são os dos sapateiros: erro funesto e odioso, direi até ridículo que é preciso acabar de uma vez para sempre.
Quando por exemplo, certa folha dizia há alguns dias que convinha pôr de lado os políticos de profissão, e votar nos que o não eram, essa folha escrevia uma grande verdade, daquelas que devemos trazer gravadas na alma em letras perpétuas. E não digo isto, nem o disse ela, porque os políticos de profissão não possam exercê-la algumas vezes com vantagem, como Bismark. Pitt, Richelieu e alguns outros: mas porque o monopólio sendo ir inimigo nato da liberdade (segundo elegantemente afirma o brigadeiro Calino), faz perdurar o vício medieval que apontei, e impede que outros cidadãos levem ao governo do Estado uma parte das qualidades que lhes são próprias. Além disso restringindo Bismark à política, impede talvez que haja neste mundo mais um bom escrivão de órfãos e ausentes. O mesmo direi do Sr. Maja.
Nada de ódios às preferencias. Por causa delas, vimos o que aconteceu no matadouro. Mandemos governar o Estado pessoas que não entendam de política: encomendemos as calças aos ourives. e os relógios aos boticários. Só assim chegaremos à perfeita liberdade universal. Tudo que não for isto, é voltar ao regímen das corporações de ofícios; é fazer da sociedade um vasto tabuleiro de xadrez, ou ainda pior: pois neste jogo, se o tabuleiro se divide em quadrados, é certo que as peças vão de um a outro. Na sociedade, como a criaram as peças tem de ficar onde estão, bispo é bispo. cavalo é cavalo.
Não, ilustres contemporâneos meus; é evidente que este regímen já deu o seu cocho. A sociedade não pode ser isto. A própria história oferece exemplos salutares. Camões, que se gaba de ter tido em uma das mãos a pena e na outra a espada, esqueceu dizer se era ele próprio que consertava os seus calções rotos, mas provavelmente era, e ninguém lhe levou a mal. De S. Paulo. sabe-se que ora apostolava. ora trabalhava de correeiro, e não lhe saíam mal feitas? nem as correias, nem as epístolas. Reduzamos esses casos raros a um princípio fixo e eterno; tudo para todos; não se preferem moços que saiba música.
LULU SÊNIOR ouviu cantar o galo? mas não soube onde .É certo que houve uma visita, mas não fui eu que a fiz; eu é que a recebi; também não foi o João Velhinho que a fez. mas outra pessoa mais decrépita. Trazia é certo, um pedaço de jornal, mas era a folhinha do ano novo.
A coisa passou-se assim; e não foi no dia 1.°, mas no dia 2. Estava eu almoçando quando me vieram dizer que alguém queria falar comigo.
- Mas quem é?
- Não sei, não senhor: parece mascarado.
Se isto fosse há quarenta anos, ou pouco menos, já eu sabia que era um bando de festas com música à frente, pedindo alguma coisa. Mas os bandos acabaram: não sei quem diabo se lembraria de ir mascarado falar comigo. Mandei abrir a sala e fui receber a visita.
Realmente, era um mascarado, ou mais propriamente um fantasiado, pois trazia
a cara descoberta: mas daqui a pouco veremos que vestia as suas próprias
roupas. Estas eram gregas e antigas.
- Com quem tenho a honra de falar? disse eu.
- Com um infeliz, disse ele suspirando: e venho pedir-te que me faças a esmola de ver se alcanças a minha liberdade...
- É escravo? perguntei admirado.
- Antes fosse!
- Pior que escravo?
- O escravo pode libertar-se: eu não posso nada mais que gemer e pedir. Vês estas roupas? São dois belos séculos de Atenas.
- Vossa Senhoria é ateniense?
-Não me dês senhoria. Lá em Atenas todos me tratavam por tu: o próprio Alcibíades, o próprio Aristides... Ai, Aristides! Não posso falar deste homem sem cobrir-me de vergonha. Fui eu que o exilei.
- Ora espero! És então aquele votante anônimo, que, cansado de ouvir chamá-lo justo. condenou-o por ocasião do ostracismo...- Não; eu sou o próprio Ostracismo.Tu... Ostracismo. . .
- Eu mesmo. Desde que me aposentaram, nunca mais servi, até que, em 1850 da era cristã, alguns patrícios teus foram pedir-me, como grande obséquio que viesse ajudá-los na política. Recusei a pés juntos dizendo que, depois de tantos remorsos que me pungiam, nunca mais me viriam pôr a ponta pés da pátria para fora os melhores servidores dela. Então eles explicaram-se; não queriam ostracismo de verdade. mas só de fraseologia, um ostracismo puramente caligráfico, e tipográfico. Tanto que a mesma ostra, se chegassem a empregá-la seria ao almoço, crua, com Sauterne. À vista disso, aceitei, sem saber que aceitava a minha prisão. Sim, meu caro, vês aqui um triste prisioneiro dos teus patrícios.
- Mas... como...
- Ainda hoje. Aqui tens uma folha, é o Diário do Brasil, recomenda (ainda que imerecidamente) um candidato às eleições próximas; mas que acrescenta ele sofreu com os seus amigos o ostracismo, e que os acompanhou. Juro-te que nunca fiz sofrer ninguém, desde que me aposentei; é uma calúnia, meu caro. Tenho-me calado, ouvindo dessas e de outras, mas também assim cansa, não posso mais.
- Mas, enfim, que quer que Lhe faça?- Quero que bote na Gazeta alguma coisa em meu favor, que me libertem, ou pelo menos que me deixem descansar até o fim do século; sempre é um alívio. Mais tarde, pode ser que assim como se põe meias solas aos sapatos, assim se possa fazer às imagens, figuras e outras partes do estilo. Por ora estou muito acalcanhado.. Ostracismo para cá, ostracismo para lá; é ostracismo demais. Se os teus patrícios recusarem libertar-me diretamente, então lança mão de um meio indireto e infalível: recomenda-lhe que empreguem sempre os nomes apropriados às coisas... Verás, verás se vou daqui dormir por a1guns anos. Sim?
Disse-lhe que sim; ele saiu. Escusado é dizer que era um doido; daí a meia hora foi preso e recolhido à 5 a estação.
FIM
Fonte: www.bibvirt.futuro.usp.br