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Correspondência de Machado de Assis

Machado de assis

[1] A QUINTINO BOCAIÚVA

[RJ 1862,163.] Meu amigo. / Vou publicar as minhas duas comédias de estréia e não quero fazê-lo sem o conselho de tua competência. / Já uma crítica benévola e carinhosa, em que tomaste parte. Consagrou a estas duas composições palavras de louvor e animação. / Sou imensamente reconhecido, por tal, aos meus colegas da imprensa. / Mas o que recebeu na cena o batismo do aplauso pode sem inconveniente, ser trasladado para o papel? A diferença entre os dous meios de publicação não modifica o juízo, não altera o valor da obra? / É para a solução destas dúvidas que recorro à tua autoridade literária. / O juízo da imprensa via nestas duas comédias -- simples tentativas de autor tímido e receoso. Se a minha afirmação não envolve suspeitas de vaidade disfarçada e mal cabida, declaro que nenhuma outra ambição levo nesses trabalhos. Tenho o teatro por coisa mais séria e as minhas forças por coisa muito insuficiente; penso que as qualidades necessárias ao autor dramático desenvolvem-se e apuram-se com o trabalho: cuido que é melhor tatear para achar; é o que procurei e procuro fazer. / Caminhar destes simples grupos de cenas à comédia de maior alcance, onde o estudo dos caracteres seja consciencioso e acurado, onde a observação da sociedade se case ao conhecimento prático das condições do gênero -- eis uma ambição própria de ânimo juvenil e que eu tenho a imodéstia de confessar. E tão certo estou da magnitude da conquista que me não dissimulo o longo estádio que há percorrer para alcançá-la. E mais. Tão difícil me parece este gênero literário que, sob as dificuldades aparentes, se me afigura que outras haverá, menos superáveis e tão sutis, que ainda as não posso Ver. / Até onde vai a ilusão dos meus desejos? Confio demasiado na minha perseverança? E Eis o que quero saber de ti. / E dirijo-me a ti, entre outras razões, por mais duas, que me parecem excelentes: razões de estima literária e razão de estima pessoal. Em respeito à tua modéstia, calo o que te devo de admiração e reconhecimento. / O que nos honra, a mim e a ti, é o que a tua imparcialidade suspeita. Serás justo dócil; terás ainda Dor isso o meu reconhecimento; e eu escapo a esta terrível sentença de um escritor: Les amitiés, qui ne résistent pas à la franchise, valent-elles un regret? / Teu amigo e colega / MACHADO DE ASSIS.

[2] A DOMINGOS JACI MONTEIRO

[RJ, 18 mar. 1864] Ilmo Sr. Dr. Domingos Jaci Mont.ro / Dig.o Secret.o Conservaat.º dramático Brasileiro. / Tenho a honra de remeter a V. S.a a minha comédia em 3 atos intitulada: O Pomo da Discórdia para ser sujeita ao parecer Conservatório Dramático Brasileiro. / Deus g. e a V.

S.a / MACHADO DE ASSIS.

[3] A CAROLINA

[RJ, 2 mar. 1868/9] Minha querida C. / Recebi ontem duas cartas tuas, depois de dous dias de espera.

Calcula o prazer que tive, como as li, reli e beijei! A m.ª tristeza em converteu se em súbita alegria. Eu estava tão aflito por ter notícias tuas que saí do Diário a 1 hora para ir à casa e com efeito encontrei as duas cartas, uma da quais devera ter vindo antes, mas que, sem dúvida, por causa do correio, foi demorada. Também ontem deves ter recebido duas cartas minhas; uma delas, a que foi escrita no sábado, levei-a no domingo às 8 horas ao correio, sem lembrar-me (perdoa-me!) que ao domingo a barca sai às 6 horas da manhã. Às quatro horas levei a outra carta e ambas devem ter seguido ontem na barca das duas horas da tarde. Deste modo, não fui eu só quem sofreu com demora de cartas.

Calculo a tua aflição pela minha, e estou que será a última. / Eu já tinha ouvido cá que o M. alugara a casa das Laranjeiras, mas o que não sabia era que se projetava essa viagem a Juiz de Fora. Creio, como tu, que os ares não fazem nada ao F.; mas compreendo também que não é possível dar simplesmente essa razão. No entanto, lembras perfeitamente que a mudança para outra casa cá no Rio seria excelente para todos nós. O F. falou-me nisso uma vez e é quanto basta para que se trate disto. A casa há de encontrar-se, porque empenha-se nisto o meu coração. Creio, porém, que é melhor conversar outra vez com o F. no sábado e ser autorizado positivamente por ele. Ainda assim, temos tempo de sobra: 23 dias; é quanto basta para que o amor faça um milagre, quanto mais isto que não é milagre nenhum. / Vais dizer naturalmente que eu condescendo sempre contigo. Por que não? Sofreste tanto que até perdeste a consciência do teu império; estás pronta a obedecer; admiras-te de seres obedecida. Não te admires, é cousa muito natural; és tão dócil como eu; a razão fala em nós ambos.

Pedes-me cousas tão justas, que eu nem teria pretexto de te recusar se quisesse recusarte alguma cousa, e não quero. / A mudança de Petrópolis para cá é uma necessidade; os ares não fazem bem ao F., e a casa aí é um verdadeiro perigo para quem lá mora. Se estivesses cá não terias tanto medo dos trovões, tu que ainda não estás bem brasileira, mas que o hás de ser espero em Deus. / Acusas-me de Pouco, confiante em ti? Tens e não tens razão; confiante sou; mas, se te não contei nada é porque não valia a pena contar. A minha história passada do coração, resumem-se em dous capítulos: um amor, não correspondido; outro, correspondido. Do primeiro nada tenho que dizer; do outro não me queixo; fui eu o primeiro a rompê-lo. Não me acuses por isso; há situações que se não Prolongam sem sofrimento. Uma senhora de minha amizade obrigou-me, com Os seus conselhos, a rasgar a página desse romance sombrio; fi-lo com dor, mas sem remorso.

Eis tudo. / A tua pergunta natural é esta: Qual destes dous Capítulos era o da Corina? Curiosa! Era o primeiro. O que te afirmo é que dos dois o mais amado foi o segundo. / Mas nem o primeiro nem o segundo se parecem nada corri o terceiro e último capítulo do meu coração. Diz a Stãel que os primeiros amores não são os mais fortes porque nascem simplesmente da necessidade de amar. Assim é comigo; mas, além dessas, há uma razão capital, e é que tu não te pareces nada com as mulheres vulgares que tenho conhecido. Espírito e coração como os teus são prendas raras; alma tão boa e tão elevada, sensibilidade tão melindrosa razão tão reta não são bens que a natureza espalhasse às mãos cheias pelo teu sexo. Tu pertences ao pequeno número de mulheres que ainda sabem amar, sentir e pensar. Como te não amaria eu ? Além disso tens para mim um dote que realça os mais: sofreste. É a ambição dizer à tua grande alma desanimada: "levanta-te, crê e ama; aqui está uma alma que te compreende e te ama também". / A responsabilidade de fazer-te feliz é decerto melindrosa; mas eu aceito-a com alegria, estou que saberei desempenhar este agradável encargo. / Olha, querida; também eu tenho pressentimento acerca da M.a felicidade; mas que é isto senão o justo receio de quem não foi ainda completamente feliz? / Obrigado pela que me mandaste; dei-lhe dous beijos como se fosse em ti mesma, pois que apesar de seca e sem perfume, trouxe-me ela um pouco de tua alma. / Sábado é o dia de minha ida; faltam poucos dias e está tão longe! Mas que fazer? A resignação é necessária para quem está à porta do paraíso; não afrontemos o destino que é tão bom conosco. / Volto à questão da casa; manda-me dizer se aprovas o que te disse acima, isto é, se achas melhor conversar outra vez com o F. e ficar autorizado por ele, a fim de não parece ao M. que eu tomo uma intervenção incompetente nos negócios de sua família. Por ora, precisamos de todas estas precauções. Depois... depois, querida, queimaremos o mundo, por que só é verdadeiramente senhor do mundo quem está acima das suas glórias fofas e das suas ambicões estéreis. Estamos ambos neste caso; amamo-nos; e eu vivo e morro por ti.

Escreve-me e crê no coração do teu / MACHADINHO.

[4] A CAROLINA

[RJ, 2 mar. 1868/9?] Minha Carola. / Já a esta hora deves ter em mão a carta que te mande hoje mesmo, em resposta às duas que ontem recebi. Nela foi explicada a razão de não teres carta no domingo; deves ter recebido duas na segunda feira. / Queres saber o que fiz no domingo? Trabalhei e estive em casa. Saudades de minha C., tive-as como podes imaginar, e mais ainda, estive aflito, como te contei, por não ter tido cartas tuas durante dous dias. Afirmote que foi um dos mais tristes que tenho passado. / Para imaginares a minha aflição, basta ver que cheguei a suspeitar oposição do F. como te referi numa das minhas últimas cartas. Era mais do que uma injustiça, era uma tolice. Vê lá: justamente quando eu estava a criar estes castelos no ar, o bom F. conversava a meu respeito com a A. e parecia aprovar as minhas intenções (perdão, as nossas intenções.) Não era de esperar outra cousa do F.; foi sempre amigo meu, amigo verdadeiro, dos poucos que, no meu coração tem sobrevivido às circunstâncias e ao tempo. Deus lhe conserve os dias e lhes restitua a saúde para assistir à minha e à tua felicidade. / Contou-me hoje o Araújo que, encontrando-se num dos carros que fazem viagem para Botafogo e Laranjeiras, com o Miguel, este lhe dissera que andava procurando casa por ter alugado a outra. Não sei se essa casa que ele procura é só para ele se para toda a família. Achei conveniente comunicar-te isto; não sei se Já sabes alguma cousa a este respeito. No entanto, espero também a tua resposta ao que te mandei dizer na carta de ontem, relativamente à mudança. / Dizes que, quando lês algum livro, ouves unicamente as minhas palavras, e que eu te apareço em tudo e em toda a parte? É então certo que eu ocupo o teu pensamento e a tua vida? Já mo disseste tanta vez, e eu sempre a perguntar-te a mesma cousa, tamanha me parece esta felicidade. Pois, olha; eu queria que lesses um livro que eu acabei de ler há dias; intitula-se: A Família. Hei de comprar um exemplar para lermos em nossa casa como uma espécie Bíblia Sagrada. É um livro sério, elevado e profundo; a simples leitura dá vontade de casar. / Faltam quatro dias; daqui a quatro dias terás lá a melhor carta que eu te poderei mandar, que é a minha própria pessoa, e ao mesmo tempo lerei o melhor.[.....].

[5] A FRANCISCO RAMOS PAZ

[RJ, 19 nov. 1869] Meu caro Paz. / Estimo muito e muito as tuas melhoras, e sinto deveras não ter podido ir ver-te antes da tua partida para a Tijuca. Agradeço-te as felicitações pelo meu casamento.

Aqui estamos na Rua dos Andradas, onde serás recebido como um amigo verdadeiro e desejado. / Infelizmente ainda não te posso mandar nada da continuação do drama. na tua carta de 8 deste-me parte da tua moléstia e pediste-me que preparasse a cousa para a segunda-feira próxima. Não reparaste certamente na impossibilidade disto. Eu contava com aquele adiantamento e a tua carta anulou todas as minhas esperanças. Não imaginas o que me foi preciso fazer desde segunda-feira à noite até sexta-feira de manhã. De ordinário é sempre de rosas o período que antecede o noivado; para mim foi de espinhos. felizmente o meu esforço esteve na altura de minha responsabilidade e eu pude obter por outros meios os recursos necessários na ocasião. Ainda assim não pude ir além disso; de maneira que, agora mesmo, estou trabalhando para as necessidades do dia visto que só do começo do mês em diante poderei regularizar a minha vida. / Tais são as cousas pelas quais não pude continuar o nosso trabalho; continuá-lo-ei desde que tiver folga para isso. Ele me será necessário, e tu sabes que eu não poupo esforços. Espero porém que me desculpes se neste momento estou curando da solução de dificuldades que eu não previa nem esperava. / Se a Tijuca não fosse tão longe iria ver-te. Apenas vieres para casa, avisa-me a fim de te fazer a competente visita e conversarmos acerca da conclusão da obra. / Teu / MACHADO DE ASSIS.

[6] A FRANCISCO RAMOS PAZ

[RJ,1869.] Paz: / No domingo bati e rebati à tua porta. Nem viva alma. Queria dizer-te o que houve a respeito de bilhetes, e ao mesmo tempo falar-te de uma idéia soberba!!! Manda dizer onde me podes falar; caso recebas esta carta depois de vir o portador dela, escreve, para M.ª casa (Andradas 119) e marcando hora e lugar hoje. / A cousa urge. / Teu / MACHADO DE ASSIS.

[7] A FRANCISCO RAMOS PAZ

[RJ, 1 mai. 1870?] Paz. / Procurei-te ontem e anteontem em casa, e não te achei. Hoje, se te não encontrar, deixarei esta carta, pedindo-te que me esperes amanhã de manhã para conversarmos sobre aquilo. Sei que tens andado ocupado, e temo importunar-te com estes pedidos; mas, como te disse, não tenho outro recurso, e desejava concluir o negócio o mas cedo que fosse possível. Não insisto. Não insisto sobre a importância capital do serviço que me estás prestando; tu bem o compreendes, e sabes além disso qual é a minha situação.

Não pude arranjar a cousa só por mim, vê se consegues isso, e repara que os dias vão correndo. Ajuda-me, Paz; eu não tenho ninguém que o faça. Conselhos, sim; serviços, nada./ Espera-me amanhã, domingo; irei às dez horas e meia para dar-te tempo de concluir o sono que por ser domingo, creio que irá até mais tarde./Teu / MACHADO DE ASSIS.

[8] A FRANCISCO RAMOS PAZ

[RJ, s/d.] Paz ami.º. /Ainda preciso daquilo de que te falei. Vê se me arranjas, e deixo ao teu parecer as condições, que conto serão razoáveis, favoráveis para mim / Todo teu / M.

d'ASSIS.

[9] A FRANCISCO RAMOS PAZ

[RJ, s/d.] Meu caro Paz. / A pressa com que se precisa dos versos, a aglomeração de trabalho que sobrevivo agora, e as circunstâncias referidas na nossa conversa anteontem me impedem de servir-te como estava decidido. Não te acanhes, se levar nisso gr.º interesse de afeição; farei então o trabalho a todo o custo; mas, se o caso é como; me disseste, vê se me hás por dispensado, e crê-me teu / am.º do C. / MACHADO DF ASSIS.

[10] A FRANCISCO RAMOS PAZ

[RJ. s/d.] Meu Paz. / O homem que se encarregou da tal folha de Lisboa quer saber dos passos que se devem dar, direitos que se pagam e cousas análogas para tirar os jornais do vapor, apenas ele chegar. Peço-te encarecidamente que vejas isto hoje, porque amanhã chega o paquete. Tenho certa responsabilidade nisto. /Teu / MACHADO DE ASSIS.

[11] A DESTINATÁRIO IGNORADO

[RJ, 14 jun. 1870.] Exmo. Sr. / Era resolução minha, de acordo com o recado que de V. Ex.ª recebi, por intermédio de nosso comum amigo o Dr. França, esperar a chegada do Sr. Oliveira para nos entendermos todos três a respeito do trabalho que faço para o Jornal da Tarde como tradutor do folhetim. Nisto atendia eu à consideração devida para com os dignos proprietários do Jornal da Tarde. / Sobreveio porém um, a circunstância que me obriga a modificar aquela resolução, e a dizer a V. Ex.ª que não posso continuar a traduzir o folhetim como até agora fazia. Não querendo pôr embaraços ao Jornal da tarde, continuarei a tradução até sábado 18. Não me demorarei em dizer a V. Ex.ª, com que pesar sou obrigado o interromper este trabalho que eu fazia com maior vontade que aptidão; temo que se possa confundir um sentimento verdadeiro com uma fórmula de ocasião. / Qualquer que seja porém este meu pesar, não pode influir nas circunstâncias que me determinam. Considere-me V. Ex.ª, como sempre. / Af.º am.º e obr.º cr.º / MACHADO DE ASSIS.

[12] A. J. C. RODRIGUES

[RJ, 25 jan. 1873] Il.mo. am.º Sr. Dr. J. C. Rodrigues. / Aperto-lhe mui agradecidamente mãos pelo seu artigo do Novo Mundo a respeito do meu romance. E não só agradeço as expressões amáveis com que me tratou, mas também os reparo que me fez. Vejo que leu o meu livro com olhos de crítico, e não hesitou em dizer o que pensa de alguns pontos, o que é para mim mais lisonjeiro que tudo. Escrevera-lhe eu mais longamente desta vez, se não fora tanta cousa que me absorveu hoje o tempo e o espírito. Entretanto, não deixarei de lhe dizer desde já que as censuras relativas a algumas passagens menos recatadas são para mim sobremodo salutares. Aborreço a literatura de escândalo, e busquei evitar esse escolho no meu livro. Se alguma cousa me escapou, espero emendar-me na próxima composição. / O nosso artigo está pronto há um mês. Guardei-me para dar-lhe hoje uma última demão; mas tão complicado e cheio foi o dia para mim, que prefiro demorá-lo para o seguinte vapor. Não o faria se se tratasse de uma correspondência regular como costumo fazer para a Europa; trata-se porém de um trabalho que, ainda retardado um não perde a oportunidade. / O nosso João de Almeida tinha-me pedido em seu nome um retrato, que lhe entrego hoje e lá irá ter às suas mãos. Não me será dado obter igualmente um retrato seu para o meu àlbum dos amigos? Creia-me, como sempre / Seu am.º patrício ad.or / MACHADO DE ASSIS.

[13] A LÚCIO DE MENDONÇA

[RJ, 16 abr.1873] Meu caro Lúcio de Mendonça. / Antes de mais nada deixe-me agradecer-lhe a confiança que depositou em mim. Qualquer que fosse o objeto, devia agradecer-lhe; tratando-se porém de seu futuro, como me disse, lisonjeou-me muito mais a escolha que fez de mim. / Conversei com o Garnier e miudamente lhe expus a sua proposta com as vantajosas condições que me indicou; sua resposta foi que neste momento acha-se ele com cinco tradutores, que trabalham assiduamente e são mais que suficientes para fornecer o mercado do Rio de Janeiro. Mostrou sentir não poder aceitar a sua proposta, alegando que não podia despedir nenhum dos outros, um dos quais parece que é o Salvador, se me não engana a memória. Diante desta proposta, compreende que eu nada podia fazer, salvo alegar a alta importância a que tinha para o amigo neste negócio, o que fiz logo do princípio. / Tal é meu caro Lúcio a resposta que sou obrigado a enviar-lhe. Se alguma coisa aparecer por aqui no mesmo sentido, apressar-me-ei a comunicar-lhe. Por outro lado se de lá se lembrar de algum negócio em que eu possa ser medianeiro, pode contar que o farei com a melhor vontade do coração. Creia-me seu amigo e admi-rador. / M. DE ASSIS.

[14] A SALVADOR DE MENDONÇA

[RJ, 1875.] Meu caro Salvador. / Procurei-te ontem sem ter a fortuna de encontrar-te; mas vai aqui no papel o que eu te queria dizer, e é que, se. depois de publicado o discurso do Dumas, não fizeres empenho em conservar o original, o mandes a este / Teu do C. / M. A.

[15] A SALVADOR DE MENDONÇA

[RJ, 24 dez. 1875.] Meu caro Salvador. / Recebi a tua carta e o teu retrato, o que quer dizer que te recebi todo em corpo e alma. A alma não mudou; é a mesma que daqui se foi. Mas o corpo! Estás outro, meu Salvador: renasceu-te a vida com a mudança, se é que não contribuíram principalmente para isso os tais lábios, "cujo inglês parece italiano". Dou-te os parabéns pela saúde, pelos lábios e pelo exercício do consulado. Aqui crêem todos que terás a nomeação definitiva. O Otaviano, se bem me lembra, falou-me também nesse sentido. O que é preciso é que os amigos que podem influir não se deixem ficar parados. / Muito me contas desse país. Li-te com água na boca. Pudesse eu ir ver tudo isso! Infelizmente a vontade é maior do que as esperanças, infinitamente maiores do que a possibilidade. Não espero nem tento nomeação do governo, porque naturalmente os nomes estão escolhidos. Mais tarde, é possível talvez. / Remeto-te um exemplar das minhas Americanas. Publiquei-as há poucos dias, e creio que agradaram algum tanto. Vê lá o que isso vale; se tiveres tempo, escreve-me as tuas impressões. Não remeto exemplar ao nosso Rodrigues, porque o Garnier costuma fazê-lo diretamente, segundo me consta. / Por aqui não há novidade importante. Calor e pasmaceira, duas coisas que talvez não tenhas por lá em tamanha dose. Aí, ao menos, anda-se depressa conforme me dizes na tua carta, e na correspondência que li no Globo. Não podes negar, porque o estilo é teu.

Vejo que mal chegaste aí, logo aprendeste o uso da terra, de andar e trabalhar muito.

Uma correspondência e infinitas cartas particulares! Já eras trabalhador antes de lá ir.

Imagino o que ficarás sendo. Olha o Rodrigues é bom mestre, e o Novo mundo um grande exemplo. / Adeus, meu Salvador; muito beijos em teus pequenos, futuros yankees, e um abraço apertado do / Teu MACH.ADO DE ASSIS, /que te pede novas letras e te envia muitas saudades. / Adeus.

[16] A SALVADOR DE MENDONÇA

[RJ, 15 abr. 1876] Não, meu que rido Salvador, ainda que eu te mandasse agora uma carta de trinta ou quarenta folhas, não te daria idéia da surpresa que me causou a tua carta de 7 do mês passado: a maior e a mais agradável das surpresas. Quando a abri, e contei as doze laudas da tua letra, cerrada e miúda, fiquei extremamente lisonjeado, e creio que causei afetuosa inveja a aos que estavam ao pé de mim, o Quintino Bocaiúva e o João de Almeida. Mas logo que comecei a lê-la, senti uma doce desilusão: só o amor é tão eloqüente, só ele podia inspirar tanta coisa ao mais sério dos rapazes e ao mais jovial dos cônsules. / Reli a carta, não só porque eram letras tuas, mas também porque dificilmente podia ver melhor retrato de uma jovem americana. Tudo ali é característico e original. Nós amamos e casamos aqui no Brasil, como se ama e se casa na Europa; nesse país parece que estas cousas são uma espécie de compromisso entre o romanesco e o patriarcal.

Acrescem os dotes intelectuais de Miss Mary Redeman, / talvez a esta hora Mrs.

Mendonça. Casar assim, e com tal noiva, é simplesmente viver, na mais ampla acepção da palavra. / Sabes se sou teu amigo; receberás daqui de longe o mais apertado abraço.

Sê feliz, meu Salvador, porque o mereces pelo coração, pelo talento e pelo caráter. Tua esposa já adivinhou teus dotes; há de apreciá-los, e reconhecer que, se te dá a felicidade, recebê-la-á do mesmo modo e em igual porção. / Nada disse a ninguém do que me revelas em tua carta. O Blest Gana, segundo me disseram no Hotel dos Estrangeiros, está fora, na roça. Agradeço-te a confiança; mas devo dizer que ia caindo em rasgar o capote. Foi o caso; estava no Globo, lendo o que me dizias acerca de "um livro sobre coolies e um romance" , repeti estas palavras ao Quintino, João Almeida e Taunay.

Admiramo-nos todos do teu gênio laborioso, e eu continuei a ler a carta para mim.

Quando vi de que romance me falavas, limitei-me a dizer que efetivamente escrevias um romance, mas que não convinha anunciá-lo por ora. Meu receio era que o Quintino noticiasse gravemente no dia seguinte que as letras pátrias iam receber um novo mimo, etc. Imagina o efeito que te produziria semelhante notícia no Globo. De maneira que, por ora, só eu sei do caso, e não o revelarei antes de revelado por cartas ou jornais. / Miss Mary namorou-se de teus olhos de corça. Quando li isto, reconheci que nunca me enganara respeito dos tais olhos; tu mesmo não sabes talvez o que eles valem. Agora que é preciso é que ela não fique todo o tempo embebida neles, e pois que a natureza lhe concedeu talento, deve-nos os frutos dele, que serão ainda mais belos, com a influência do colaborador que a fortuna lhe deparou. Dize-lhe isto, acrescentando que o escreve o mais ínfimo dos poetas e o mais entusiasta da glória literária. / Não vi o Novo Mundo do mês de março; mas afiançam-me nada vem lá a respeito das Americanas. Virá no de abril provavelmente; desde já te agradeço a atenção. / Mais um abraço, Salvador e meus parabéns; abraça o Mário também. O céu te dê todas as venturas, que as mereces.

Quando eu me lembro que, enquanto cogitava nos "lábios em que o inglês parece italiano", tu delineavas simplesmente um plano de casamento, não caio em mim! E agora respondo a um trecho de tua carta. Não há que justificar a pressa. Os melhores amores nascem de um minuto. Deveres, seguiste a boa regra: foste yankee entre yankees. / Adeus, meu Salvador. Meus respeitos à Sra. consulesa e mais um abraço para ti. / Teu do Coração MACHADO DE ASSIS.

[17] A SALVADOR DE MENDONÇA

[RJ, 13 nov. 1876] Meu caro Salvador. / Mal tenho tempo para agradecer-te muito do coração o belo artigo que escrevestes novo mundo, a propósito das Americanas. Está como tudo o que é teu: muita reflexão e forma esplêndida. Cá ficará entre minhas jóias literárias. / vai por este vapor um exemplar da Helena, romance que publiquei no Globo. Dizem aqui que dos meus livros é o menos mau; não sei, lá verás./ Faço o que posso e quando posso./ E tu? Eu dir-te-ia muita coisa mais, a não ser urgência. Escrevo esta carta, à hora de sair da secretaria, para ir levá-la ao João de Almeida. prometo desde já ser muito extenso no primeiro vapor. Entretanto, agradeço-te as fotografias que daí me remetestes; são de excelente efeito./ Meus respeitos à tua senhora, lembranças a teus filhos, e para ti o coração do / Teu MACHADO DE ASSIS.

[18] A FRANCISCO RAMOS PAZ [RJ, 14 dez. 1876.] Meu caro Paz. / Faltei com a resposta no dia marcado. Um incômodo, que me durou quatro dias, e de que ainda tenho restos, sucessos diferentes e acréscimo de trabalho com que eu não contava, e que ainda hoje me prendem o dia inteiro em casa, tais foram os motivos do meu silêncio. / A resposta é a que eu já receava dever dar-te. São tantos e tais os trabalhos que pesam sobre mim, que não me atrevo a tomar o folhetim da Gazeta.

/ Dize de minha parte ao Eliseu que me penaliza muito a resposta; tu e ele são dous amigos velhos, que sempre achei os mesmos e de quem só tenho agradáveis lembranças. /Crê no / Teu do C. / MACHADO DE ASSIS.

[19] A SALVADOR DE MENDONÇA

[RJ, 8 out. 1877.] Meu caro Salvador. / Escrevo-te à pressa, à última hora, e por isso me dispensarás se te não digo uma série de cousas que há sempre que dizer entre bons amigos que se não falam há muito. / Antes de tudo, estimo a tua saúde e a de tua senhora e filhos. / Vai aparecer no 1.º do ano de 78 um novo jornal, O Cruzeiro, fundado com capitais de alguns comerciante, uns brasileiros e outros portugueses. O diretor será o Dr. Henrique Correia Moreira, teu colega, que deves conhecer. / Incumbiu-me este de te propor o seguinte: / 1.º Escreveres duas correspondências mensais. / 2.º Remeteres cotações dos gêneros que interessem ao Brasil, principalmente banha, farinha de trigo, querosene e café, e mais, notícias do câmbio sobre Londres, Paris etc., e ágio do ouro. / 3.º Obteres anúncios de casas industriais e outras. / Como remuneração: / Pelas correspondências, 50 dólares mensais. / Pelos anúncios, uma porcentagem de 20%. / Podes aceitar isso? No caso afirmativo, convém remeter a primeira carta de maneira que possa ser publicada em janeiro. Caso não te convenha, o Dr. Moreira pede que vejas se nosso amigo. Rodrigues, do Novo Mundo, pode aceitar o encargo, e em falta deste algum outro brasileiro idôneo. / Os industriais que quiserem mandar os anúncios poderão também remeter se lhes convier, os clichés e gravuras. Quanto ao preço dos anúncios, não está ainda marcado, mas regulará o do Jornal do Comércio, ou ainda alguma coisa menos. / Esta carta vai por via de Europa. No primeiro paquete escreverei outra, para remediar o extravio desta, se houver. / Desculpa-me a pressa, e escreve ao / Teu do Coração / MACHADO DE ASSIS.

[20] A SALVADOR DE MENDONÇA

[RJ, 2 mar. 1878.] Meu caro Salvador. / Minha primeira carta depois de tua partida, é uma apresentação. Há de ser-te entregue pelo Sr. João Artur Pereira de Andrade, que, por motivo de saúde, vai a esses Estados passar algum tempo. / A ninguém melhor do que a ti, poderia apresentar este nosso destino e inteligente patrício Ele te apreciará, como eu e todos os que têm a fortuna de serem teu amigos. / Meus, respeitos à tua digna esposa e saudades a teus queridos filhos. Escreve-me e continua a crer no / Am. º do Coração / MACHADO DE ASSIS [21] A CAPISTRANO DE ABREU [RJ, 22 jul. 1880.] Meu caro am.º e colega Sr. Capitarão de Abreu. / Fiquei incomodado quando, anteontem soube que se retirara, depois de longa espera. Esperei que ontem me mandasse dizer alguma cousa, se se tratasse de negócio urgente. Não o tendo feito apresso-me a escrever-lhe para que me diga que motivo o trouxe cá, em tão má hora, que nos não pudemos ver. Creia sempre na simpatia, afeição e apreço que lhe tem - o am.º e colega / MACHADO DE ASSIS.

[22] A UM COLEGA JOVEM

[RJ, 6.ª feira, 30 jul. 1880.] Meu jovem colega. / Esta carta devia ter-lhe sido escrita e enviada há cinco ou seis dias.

São tais porém os meus trabalhos e apoquentações, que espero me desculpe a demora.

Entretanto, não retardei a resposta a ponto de me não poder aproveitar dela no domingo próximo. Ou no próximo, ou em outro qualq.r achar-me-á em casa, porque eu raramente saio nesses dias, exceto de noite, em que vou sempre a alguma visita. Não digo se terei prazer em recebê-lo; sabe muito bem que sim; e, se duvida, ponha-me à prova. / Je vous serre la main, / MACHADO DE ASSIS. / P.S. À visita falaremos dos sinônimos do seu colega Cabral. / M. DE A.

[23] A SALVADOR DE MENDONÇA [RJ, 25 jul. 1881.] Meu caro Salvador. / Para o fim de se poder despachar a caixa, convém que mandes a esta Secretaria uma procuração, visto que a caixa veio com o teu nome. O despachante da Secretaria é o Capitão Henrique Jermack Possolo; esse pode ser o procurador. / Ontem, ao voltarmos para casa, soubemos da visita que nos fizeste com tua estimável senhora, a quem peço apresentar os meus respeitos. Senti deveras não estar em casa.

Minha mulher recomenda-se muito a Mrs. Salv. de Mendonça. / Crê-me sempre / am.º V.º / MACHADO DE ASSIS.

[24] A JOAQUIM NABUCO

[RJ, 14 jan. 1882.] Meu caro Nabuco. / Escrevo esta carta prestes a sair da Corte por uns dois meses, a fim de restaurar as forças perdidas no trabalho extraordinário que tive em 1880 e 1881. / A carta é pequena e tem um objeto especial. Talvez V. já saiba que morreu a senhora do Arsênio. O que não sabe, mas pode imaginar, é o estado a que ficou reduzida aquela moça tão bonita. Nunca supus que a veria morrer. / Vamos agora ao objeto especial da carta. O Arsênio, com quem estive anteontem, levou-me a ver a pedra do túmulo que ele manda levantar, e é isto o que lhe diz respeito a v. Comovido e agradecido pelas belos palavras que V. escreveu, em um dos folhetins do Jornal Comércio, a respeito de D.

Marianinha, mandou gravar algumas delas na pedra da sepultura, e esse é o único epitáfio, Ele mesmo pediu-me que lhe dissesse isso, acrescentando que não agradeceu logo a referência do folhetim, por não saber quem era o autor. Disse-me também que me daria para V., um retrato fotografado da senhora. / Vou para fora, corno disse, mas V.

pode mandar as suas cartas com endereço à Secretaria da agricultura. / Adeus, meu caro Nabuco. Estou certo de que V. lerá o recado do Arsênio com a mesma emoção com que o ouvi. Pobre Marianinha! Adeus, e escreva ao / am.º do coração / MACHADO DE ASSIS.

[25] A JOAQUIM NABUCO

[RJ, 29 mai. 1882.] Meu caro Nabuco. / Há cerca de um mês que esta carta devera ter seguido mas o propósito em que estava de escrever urna longa carta foi retardando a resposta à sua, e daí a demora. " Valha a desculpa, se não vale o canto." E o canto aqui não vale muito, porque afinal vai uma carta mínima, como vê, não querendo prolongar estes adiamentos./ Transmiti ao Arsênio suas palavras, e a autorização que lhe deu para o epitáfio, Ele ficou muito agradecido. Não vi ainda o epitáfio na própria pedra. Ninguém que o veja deixará de reconhecer que era a mais bela homenagem à finada, e o melhor agradecimento ao autor.

/ Compreendo a sua nostalgia, e não menos compreendo a consolacão que traz a ausência. Para nós, seus amigos, se alguma consolação há, é a têmpera que este exílio lhe há de dar, e a vantagem de não ser obrigado a uma luta vã ou uma trégua voluntária.

A sua hora há de vir. / Tenho lido e aplaudido as suas correspondências. Ainda hoje vem uma, e vou lê-la depois que acabar esta carta, porque são nove horas da manhã, e a mala fecha-se às dez. E a minha opinião creio que é a de todos. / Agradeço muito os oferecimentos que me faz, e anoto-os para ocasião oportuna, se a houver. Quanto aos retalhos de jornais, quando os achar merecedores da transmissão, aceite-os com muito prazer. / Minha mulher agradece as suas recomendações e pede-me que lhas retribua.

Pela minha parte, creio escusado dizer a afeição que lhe tenho, e a admiração que me inspira. A impressão que V. me faz é a que faria (suponhamos) um grego dos bons tempos da Hélade no espírito desencantado de um budista. Com esta indicação, V. me compreenderá. / Adeus, meu caro Nabuco. Você tem a mocidade a fé e o futuro; a sua estrela há de luzir, para alegria dos seus amigos, e confusão dos seus invejosos. Um abraço do / am.º do coração / M. DE ASSIS.

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