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Falenas

Machado de Assis

Da oriental montanha.

Amo-a porque impeliu coas tênues asas

Ao meu batel a abandonada folha.

Se amo a mimosa folha aqui trazida,

Não é porque me lembre à alma e aos olhos

A renascente, a amável primavera,

Pompa e vigor dos vales.

Amo a folha por ver-lhe um nome escrito,

Escrito, sim, por ela, e esse... é meu nome.

VI / AS FLORES E OS PINHEIROS
(TIN-TUN-SING )

Vi os pinheiros no alto da montanha

Ouriçados e velhos;

E ao sopé da montanha, abrindo as flores

Os cálices vermelhos.

Contemplando os pinheiros da montanha,

As flores tresloucadas

Zombam deles enchendo o espaço em torno

De alegres gargalhadas.

Quando o outono voltou, vi na montanha

Os meus pinheiros vivos,

Brancos de neve, e meneando ao vento

Os galhos pensativos.

Volvi o olhar ao sítio onde escutara

Os risos mofadores;

Procurei-as em vão; tinham morrido

As zombeteiras flores.

VII / REFLEXOS
(THU-FU )

Vou rio abaixo vogando

No meu batel e ao luar;

Nas claras águas fitando,

Fitando o olhar.

Das águas vejo no fundo,

Como por um branco véu

Intenso, calmo, profundo,

O azul do céu.

Nuvem que no céu flutua,

Flutua n'água também;

Se a lua cobre, à outra lua

Cobri-la vem.

Da amante que me extasia,

Assim, na ardente paixão,

As raras graças copia

Meu coração.

VIII / CORAÇÃO TRISTE FALANDO AO SOL
(SU-TCHON)

No arvoredo sussurra o vendaval do outono,

Deita as folhas à terra, onde não há florir,

E eu contemplo sem pena esse triste abandono,

Só eu as vi nascer, vejo-as só eu cair.

Como a escura montanha, esguia e pavorosa,

Faz, quando o sol descamba, o vale enoitecer,

Esta montanha da alma, a tristeza amorosa,

Também de ignota sombra enche todo o meu ser.

Transforma o frio inverno a água em pedra dura,

Mas torna a pedra em água um raio de verão;

Vem, ó sol, vem, assume o trono teu na altura,

Vê se podes fundir meu triste coração.

UMA ODE DE ANACREONTE

(A MANUEL DE MELO)

PERSONAGENS:

LÍSIAS. CLEON. MIRTO.

TRÊS ESCRAVOS

A cena é em Samos.

Sala de festim em casa de Lísias. À esquerda a mesa do festim; à direita uma mesa tendo em cima uma lâmpada apagada, e junto da lâmpada um rolo de papiro.

CENA PRIMEIRA: LÍSIAS, CLEON, MIRTO

(Estão no fim de um banquete, os
dous homens deitados à maneira

antiga, MIRTO sentada entre as

dous leitos. Três escravos)

LÍSIAS Melancólica estás, bela Mirto. Bebamos!
Aos prazeres!
CLEON Eu bebo à memória de Samos.
Samos vai terminar os seus dourados dias;
Adeus, terra em que achei consolo às agonias

Da minha mocidade; adeus, Samos, adeus!

MIRTO Querem-lhe os deuses mal?
CLEON Não; dous olhos, os teus.

LÍSIAS Bravo, Cleon!

MIRTO Poeta! os meus olhos?

CLEON São lumes

Capazes de abrasar até os próprios numes.

Samos é nova Tróia, e tu és outra Helena.

Quando Lesbos, a mãe de Safo, a ilha amena,

Não vir a bela Mirto, a alegre cortesã,

Armar-se-á contra nós

LÍSIAS Lesbos é boa irmã.

MIRTO Outras belezas tem, dignas da loura Vênus.

CLEON Menos dignas que tu.

MIRTO Mais do que eu.

LÍSIAS Muito menos.

CLEON Tens vergonha de ser formosa e festejada,

Mirto? Vênus não quer beleza envergonhada.
Pois que dos imortais houveste esse condão

De inspirar quantos vês, inspira-os, Mirto.

MIRTO Não;
São teus olhos, poeta, eu não tenho a beleza
Que arrasta corações.

CLEON Divina singeleza!
LÍSIAS (à parte)

Vejo através do manto as galas da vaidade.

(alto)

Vinho, escravo!
(O escravo deita vinho na taça de Lísias)
Poeta, um brinde à mocidade.
Trava da lira e invoca o deus inspirador.
CLEON "Feliz quem junto a ti, ouve a tua fala, amor!"

MIRTO Versos de Safo!

CLEON Sim.

LÍSIAS Vês? é modéstia pura

Ele é na poesia o que és na formosura.
Faz versos de primor e esconde-os ao profano;

Tem vergonha. Eu não sei se o vício é lesbiano. . .

MIRTO Ah! tu és. . .

CLEON Lesbos foi minha pátria também,

Lesbos, a flor do Egeu.
MIRTO Já não é?
CLEON Lesbos tem

Tudo o que me fascina e tudo o que me mata:
As festas do prazer e os olhos de uma ingrata.

Fugi da pátria e achei, já curado e tranqüilo,

Em Lísias um irmão, em Samos um asilo.

Bem hajas tu que vens encher-me o coração!

LÍSIAS Insaciável! Não tens em Lísias um irmão?
MIRTO Volto à pátria.

CLEON Pois quê! tu vais?

MIRTO Em poucos dias. . .

LÍSIAS Fazes mal; tens aqui os moços e as folias,

O gozo, a adoração; que te falta?
MIRTO Os meus ares.
CLEON A que vieste então?

MIRTO Sucessos singulares.

Vim por acompanhar Lisicles, mercador
De Naxos, tanto pode a constancia no amor!

Corremos todo o Egeu e a costa iônia; fomos

Comprar o vinho a Creta e a Tênedos os pomos.

Ah! como é doce o amor na solidão das águas!

Tem-se vida melhor- esquecem-se-lhe as mágoas.

Zéfiro ouviu por certo os ósculos febris,

Os júbilos do afeto, as falas juvenis;

Ouviu-os, delatou ao deus que o mar governa

A indiscreta ventura, a efusão doce e terna.

Para a fúria acalmar da sombria deidade,

Nave e bens varreu tudo a horrível tempestade.

Foi assim que eu perdi a Lisicles, assim

Que eu semimorta e fria à tua plaga vim.

CLEON Oh! coitada!
LÍSIAS O infortúnio os ânimos apura;

As feridas que faz o mesmo Amor as cura;
Brandem armas iguais Aquiles e Cupido.

Queres ver noutro amor o teu amor perdido?

Samos o tem de sobra.

CLEON Eu, Mirto, eu sei amar
Não fio o coração da inconstância do mar.

Não tenho galeões rompendo o seio a Tétis

Estrada tanta vez ao torvo e obscuro Letes.

Aqui me tens; sou teu; escreve a minha sorte;

Podes doar-me a vida ou decretar-me a morte.

MIRTO Mas, se eu volto. . .

CLEON Pois bem! aonde quer que te vás
Irei contigo; a deusa indômita e falaz

Ser-me-á hóspede amiga; ao pé de ti a escura

Noite parece aurora, e é berço a sepultura.

MIRTO Quando fala o dever, a vontade obedece;

Eu devo ir só; tu ficas, ama-me um pouco e esquece.
LÍSIAS Tens razão, bela Mirto; escuta o teu dever.
MIRTO Ai! é fácil amar, difícil esquecer.

LÍSIAS (a MIRTO)

Queres pôr termo à festa? Um brinde a Vênus, filha
Do mar azul, beleza, encanto, maravilha;

Nascida para ser perpetuamente amada.

A Vênus!

(Depois do brinde os escravos tra-
zem os vasos com água perfuma-
da em que os convivas lavam as mãos;
os escravos saem, levando os restos
do banquete. Levantam-se todos.)

Queres tu, mimosa naufragada,
Ouvir de hemônia serva, em lira de marfim,
Uma alegre canção? Preferes o jardim?

O pórtico talvez?

MIRTO Lísias, sou indiscreta;
Quisera antes ouvir a voz do teu poeta.
LÍSIAS Nume não pede, impõe.
CLEON O mando é lisonjeiro.

LÍSIAS Pois começa.

CENA II: Os mesmos, um escravo.

Procura a Mirto um mensageiro.

MIRTO Um mensageiro! a mim!

LÍSIAS Manda-o entrar.

ESCRAVO Não quer.

LÍSIAS Vai, Mirto.

MIRTO (saindo) Volto já.

(Sai o ESCRAVO).

CENA III: LÍSIAS, CLEON.

CLEON (Olhando para o lugar por onde MIRTO saiu)

Oh! deuses! que mulher!
LÍSIAS Ah! que pérola rara!
Onde a encontraste?
LÍSIAS Achei-a
Com Partênis que dava uma esplêndida ceia;
Partênis, ex-bonita, ex-jovem, ex-da-moda,

Sabes que vê fugir-lhe a enfastiada roda;

E, para não perder o grupo adorador,

Fez do templo deserto uma escola de amor.

Foi ela quem achou a náufraga perdida,

Exposta ao vento e ao mar, quase a expirar-lhe a vida.

A beleza pagava o emprego de uma esmola;

Dentro em pouco era Mirto a flor de toda a escola.

CLEON Lembrou-te convidá-la então para um festim?
LÍSIAS Foi um pouco por ela e um pouco mais por mim.

CLEON Também amas?

LÍSIAS Eu sou mestre em matéria de amor.

Vênus e o louro Apolo, a poesia e a beleza.

CLEON Oh! a beleza, sim! Viste já tanta graça,

Tão celestes feições?
LÍSIAS Cuidado! Aquela caça
Zomba dos tiros vãos de ingênuo caçador!
CLEON Incrédulo !
LÍSIAS Eu sou mestre em matéria de amor.

Se tu, atento e calmo, a narração Ihe ouvisses
Conheceras melhor o engenho desta Ulisses.

Aquele ardente amor a Lisicles, aquele

Fundo e intenso pesar que à sua pátria a impele,

Armas são com que a astuta os ânimos seduz.

CLEON Oh! não creio.
LÍSIAS Por quê?

CLEON Não vês como Ihe luz

Tanta expressão sincera em seus olhos divinos?
LÍSIAS Sim, tem muita expressão... para iludir meninos.
CLEON Pois tu não crês?

LÍSIAS Em quê? No naufrágio? Decerto.

Em Lisicles? Talvez. No amor? É mais incerto.
Na intenção de voltar a Lesbos? Isso não!

Sabes o que ela quer? Prender um coração.

CLEON Impossível!
LÍSIAS Poeta! estás na alegre idade

Em que a ciência da vida é a credulidade.
Vês tudo azul e em flor; eu já me não iludo.

Pois amar cortesãs! isso demanda estudo,

Não vai assim, que as tais abelhitas do amor

Correm de bolsa em bolsa e não de flor em flor.

CLEON Mas não as amas tu?
LÍSIAS Decerto à minha moda,

Meu grande coração cos vícios se acomoda;
Sacrifícios de amor não sonha nem procura;

Não Ihes pede ilusões, pede-lhes só ternura.

Não me empenho em achar alma ungida no céu:

Se é crime este sentir, confesso-me, sou réu.

Não peço amor ao vinho- irei pedi-lo às damas?

Delas e dele exijo apenas estas chamas

Assim é que eu estimo as ânforas e os beijos.

Lá protestos de amor, eternos e leais,

Tudo isso é fumo vão. Que queres? Os mortais

Somos todos assim.

CLEON Ai, os mortais! dize antes
Os filósofos maus, ridículos pedantes
Os que não sabem crer, os fartos já de amores

Esses sim. Os mortais !

LÍSIAS Refreia os teus furores
Poeta; eu não quisera amargurar-te, e enfim

Não podia supor que a amasses tanto assim.

Cáspite! Vais depressa!

CLEON Ai, Lísias, é verdade,

Amo-a, como não amo a vida e a mocidade;
De que modo nasceu esta afeição que encerra

Todo o meu ser, ignoro. Acaso sabe a terra

Por que é mais bela ao sol e às auras matinais?

Amores estes são terríveis e fatais.

LÍSIAS Vês com olhos do céu cousas que são do mundo;
Acreditas achar esse afeto profundo,
Nestas filhas do mal! Se a todo o transe queres

Obter a casta flor dos célicos prazeres

Deixa a alegre Corinto e todo o luxo seu;

Outro porto acharás: procura o gineceu.

Escolhe aquele amor doce, inocente e puro,

Que ainda não tem passado e vive do futuro.

Para mim, já to disse, o caso é diferente;

Não me importa um nem outro; eu vivo no presente.

CLEON Deu-te amiga Fortuna um grande cabedal:
Viver, sem ilusões, no bem como no mal;
Não conhecer o amor que morde, que se nutre

Do nosso sangue, o amor funesto, o amor abutre;

Não beber gota a gota este brando veneno

Que requeima e destrói; não ver em mar sereno

Subitamente erguer-se a voz dos aquilões.

Afortunado és tu.

LÍSIAS Lei de compensações!
Sou filósofo mau, ridículo pedante
Mas invejas-me a sorte; oh! lógica de amante.

CLEON É a do coração.
LÍSIAS Terrível mestre!

CLEON Ensina

Dos seres imortais a transfusão divina!
LÍSIAS A lição é profunda e escapa ao meu saber;
Outra escola professo, a escola do prazer!
CLEON Tu não tens coração.
LÍSIAS Tenho. mas não me ilude,

É Circe que perdeu o encanto e a juventude.
CLEON Velho Sátiro!
LÍSIAS Justo: um semideus silvestre.

Nestas cousas do amor nunca tive outro mestre.
Tu gostas de chorar; eu cá prefiro rir.

Três artigos de lei: gozar, beber, dormir.

CLEON Compras com isso a paz; a mim coube-me o tédio,
A solidão e a dor.
LÍSIAS Queres um bom remédio,
Um filtro da Tessália, um bálsamo infalível?
Esquece empresas vãs, não tentes o impossível;

Prende o teu coração nos laços de Himeneu;

Casa-te; encontrarás o amor no gineceu.

Mas cortesãs! Jamais! São Górgones! Medusas!

CLEON Essas que conheceste e tão severo acusas
- Pobres moças! - não são o universal modelo;

De outras sei a quem coube um coração singelo,

Que preferem a tudo a glória singular

De conhecer somente a ciência de amar;

Capazes de sentir o ardor da intensa chama

Que eleva, que resgata a vida que as infama.

LÍSIAS Se achares tal milagre, eu mesmo irei pedir-to.

CLEON Basta um passo, achá-lo-ei.

LÍSIAS Bravo ! chama-se?

CLEON Mirto.

Que pode conquistar até o amor de um deus!
LÍSIAS Crês nisso?
CLEON Por que não?

Tu és um néscio; adeus!

CENA IV: CLEON

CLEON Vai, céptico! tu tens o vicio da riqueza:

Farto, não crês na fome... A minha singeleza

Faz-te rir; tu não vês o amor que absorve e mata;

Mirto, vinga-me tu da calúnia insensata;

Amemo-nos. É ela!

CENA V: CLEON, MIRTO

MIRTO Estás triste!

CLEON Oh! que não!

Mas deslumbrado, sim, como se uma visão...
MIRTO A visão vai partir.
CLEON Mas muito tarde...

MIRTO Breve.

CLEON Quem te chama?

MIRTO O destino. E sabes quem me escreve?

CLEON Tua mãe.

MIRTO Já morreu.

CLEON Algum antigo amante?

MIRTO Lisicles.

CLEON Vive?

MIRTO Sim. Depois de andar errante

Numa tábua, à mercê das ondas, quis o céu
Que viesse encontrá-lo um barco do Pireu.

Pobre Lisicles! teve em tão cruenta lida

A dor da minha morte e a dor da própria vida.

Em vão interrogava o mar cioso e mudo.

Perdera, de uma vez, numa só noite, tudo,

A ventura, a esperança, o amor, e perdeu mais:

Naufragaram com ele os poucos cabedais.

Entrou em Samos pobre, inquieto, semimorto,

Um barqueiro, que a tempo atravessava o porto,

Disse-lhe que eu vivia, e contou-lhe a aventura

Da malfadada Mirto.

CLEON É isso, a sorte escura
Voltou-se contra mim; não consente, não quer
Que eu me farte de amor no amor de uma mulher.

Vejo em cada paixão o fado que me oprime;

O amar é já sofrer a pena do meu crime.

Ixion foi mais audaz amando a deusa augusta;

Transpôs o obscuro lago e sofre a pena justa;

Mas eu não. Antes de ir às regiões infernais

São as graças comigo Eumênides fatais!

MIRTO Caprichos de poeta! Amor não falta às damas;
Damas, tem-las aqui; inspira-lhe essas chamas.
CLEON Impõe-se leis ao mar? O coração é isto;
Ama o que Ihe convém; convém amar a Egisto
Clitemnestra, convém a Cíntia Endimião;

É caprichoso e livre o mar do coração;

De outras sei que eu houvera em meus versos cantado;

Não Ihes quero... não posso.

MIRTO Ai, triste enamorado!
CLEON E tu zombas de mim!

MIRTO Eu zombar? Não, lamento

A tua acerba dor, o teu fatal tormento.
Não conheço eu também esse cruel penar?

Só dous remédios tens; esquecer, esperar.

De quanto almeja e quer o amor nem tudo alcança;

Contenta-se ao nascer coas auras da esperança;

Vive da própria mágoa; a própria dor o alenta.

CLEON Mas, se a vida é tão curta, a agonia é tão lenta!
MIRTO Não sabes esperar? Então cumpre esquecer.

Escolhe entre um e outro; é preciso escolher.
CLEON Esquecer? sabes tu, Mirto, se a alma esquece
O prazer que a fulmina, e a dor que a fortalece?
MIRTO Tens na ausência e no tempo os velhos pais do olvido;
O bem não alcançado é como o bem perdido,

Pouco a pouco se esvai na mente e coração;

Põe o mar entre nós... dissipa-se a ilusão.

CLEON Impossível!

MIRTO Então espera; algumas vezes

A fortuna transforma em glórias os reveses.

CLEON Mirto, valem bem pouco as glórias já tardias.

MIRTO Urn só dia de amor compensa estéreis dias.

CLEON Compensará, rnas quando? A mocidade em flor

Bem cedo morre, e é essa a que convém a amor.

Vejo cair no ocaso o sol da minha vida.

MIRTO Cabeça de poeta, exaltada e perdida!

Pensas estar no ocaso o sol que mal desponta?

CLEON A clepsidra do amor não conta as horas, conta

As ilusões; velhice é perdê-las assim;

Breve a noite abrira seus véus por sobre mim.

MIRTO Não hás de envelhecer; as ilusões contigo

Flores são que respeita Éolo brando e amigo.

Guarda-as, talvez um dia, e não tarde, as colhamos.

CLEON Se eu a Lesbos não vou.

MIRTO Podem colher-se em Samos.

CLEON Voltas breve?

MIRTO Não sei.

CLEON Oh! sim, deves voltar!

MIRTO Tenho medo.

CLEON De quê?

MIRTO Tenho medo... do mar.

CLEON Teu sepulcro já foi; o medo é justo; fica.

Lesbos é para ti mais formosa e mais rica.

Mas a pátria é o amor; o amor transmuda os ares.

Muda-se o coração? Mudam-se os nossos lares.

Da importuna memória o teu passado exclui;

Vida nova nos chama, outro céu nos influi.

Fica; eu disfarçarei com rosas este exílio;

A vida é um sonho mau; façamo-la um idílio.

Cantarei a teus pés a nossa mocidade,

A beleza que impõe, o amor que persuade,

Vênus que faz arder o fogo da paixão,

Teu olhar, doce luz que vem do coração.

Péricles não amou com tanto ardor a Aspásia,

Nem esse que morreu entre as pombas da Ásia,

A Laís siciliana. Aqui as Horas belas

Tecerão para ti vivíssimas capelas.

Nem morrerás; teu nome em meus versos há de ir,

Vencendo o tempo e a morte, aos séculos por vir.

MIRTO Tanto me queres tu!

CLEON Imensamente. Anseio

Por sentir, bela Mirto, arfar teu brando seio,

Bater teu coração, tremer teu lábio puro,

Todo viver de ti.

MIRTO Confia no futuro.

CLEON Tão longe!

MlRTO Não, bem perto.

CLEON Ah! que dizes?

MIRTO Adeus!

(Passa junto da mesa da direita
e vê o rolo de papiro)

Curiosa que sou!

CLEON São versos.

Versos teus?

(LÍSIAS aparece ao fundo)

CLEON De Anacreonte, o velho, o amável, o divino.

MIRTO A musa é toda iônia, e o estro é peregrino.

(Abre o papiro e lê)

"Fez-se Niobe em pedra e Filomena em pássaro.

Assim

Folgaria eu também me transformasse Júpiter

A mim.

Quisera ser o espelho em que o teu rosto mágico

Sorri;

A túnica feliz que sempre se está próxima

De ti;

O banho de cristal que esse teu corpo cândido

Contém;

O aroma de teu uso e donde eflúvios mágicos

Provém;

Depois esse listão que de teu seio túrgido

Faz dous;

Depois do teu pescoço o rosicler de pérolas;

Depois . . .

Depois, ao ver-ter assim, a única e tão sem êmulas

Qual és,

Até quisera ser teu calçado, e pisarem-me

Teus pés". *

Que magníficos são!

CLEON Minha alma assim te fala.

MIRTO Atendendo ao poeta eu pensava escutá-la.

CLEON Eco do meu sentir foi o velho amador;

Tais os desejos são do meu profundo amor.

Sim, eu quisera ser tudo isto, — o espelho, o banho,

O calçado, o colar... Desejo acaso estranho,

Louca ambição talvez de peta exaltado...

MIRTO Tanto sentes por mim'?

CENA VI: CLEON, MIRTO, LÍSIAS

LÍSIAS (entrando)

Amor, nunca sonhado.

Se a musa dele és tu!

CLEON Lísias!

MIRTO Ouviste?

LÍSIAS Ouvi .

Versos que Anacreonte houvera feito a ti,
Se vivesses no templo em que, pulsando a lira,

Estas odes compôs que a velha Grécia admira.

(A CLEON)
Quer falar-te um sujeIto, um Clínias, um colega,
Ex-mercador, como eu.

MIRTO Ai, que importuno!
Alega
LÍSIAS Que não pode esperar, que isto não pode ser,
Que um processo... Afinal não no pude entender.
Pode ser que contigo o homem se acomode.

Prometeste talvez compor-lhe alguma ode?

CLEON Não. Adeus, bela Mirto; espera-me um instante
MIRTO Não tardes!

LÍSIAS (à parte)
Indiscreta!

CLEON Espera.

LÍSIAS Petulante!

CENA Vll: MIRTO, LÍSIAS

MIRTO Sou curiosa. Quem é Clínias, ex-mercador?

Amigo dele?
LÍSIAS Mais do que isso; é um credor.
MIRTO Ah!

LÍSIAS Que belo rapaz! que alma fogosa e pura,

Bem digna de aspirar-te um hausto de ventura!
Queira o céu pôr-lhe termo à profunda agonia,

Surja enfim para ele o sol de um novo dia.

Merece-o. Mas vê lá se há destino pior;

Que o alado Mercúrio obstar o alado Amor.

Com beijos não se paga a pompa do vestido,

O espetáculo e a mesa; e se o gentil Cupido

Gosta de ouvir canções, o outro não vai com elas;

Vale uma dracma só vinte odezinhas belas.

Um poema não compra um simples borzeguim.

Versos! são bons de ler, mais nada; eu penso assim.

MIRTO Pensas mal! A poesia é sempre um dom celeste;
Quando o gênio o possui quem há que o não requeste?
Hermes, com ser o deus dos graves mercadores,

Tocou lira também.

LÍSIAS Já sei que estás de amores.
MIRTO Que esperança! Bem vês que eu já não posso amar.

LÍSIAS Perdeste o coração?

MIRTO Sim; perdi-o no mar.

LÍSIAS Pesquemo-lo; talvez essa pérola fina

Venha ornar-me a existência agourada e mofina.
MIRTO Mofina?
LÍSIAS Pois então? Enfaram-me estas belas

Da terra samiana; assaz vivi por elas.
Outras desejo amar, filhas do azul Egeu.

Varia de feições o Amor, como Proteu.

MIRTO Seu caráter melhor foi sempre o ser constante.
LÍSIAS Serei menos fiel, não sou menos amante.

Cada beleza em si toda a paixão resume.
Pouco me importa a flor; importa-me o perfume.

MIRTO Mas quem quer o perfume afaga um pouco a flor;
Nem fere o objeto amado a mão que implora o amor.
LÍSIAS Ofendo-te com isto? Esquece a minha ofensa.
MIRTO Já a esqueci; passou.

LÍSIAS Quem fala como pensa

Arrisca-se a perder ou por sobra ou por míngua.

Eu confesso o meu mal; não sei tentear a língua.
Pois que me perdoaste, escuta-me. Tu tens

A graça das feições, o sumo bem dos bens

Moça, trazes na fronte o doce beijo de Hebe

Como um filtro de amor que, sem sentir, se bebe

De teus olhos destila a eterna juventude

De teus olhos que um deus, por Ihes dar mais virtude

Fez azuis como o céu, profundos como o mar.

Quem tais dotes reúne, ó Mirto, deve amar.

MIRTO Falas como um poeta, e zombas da poesia!
LÍSIAS Eu, poeta? jamais.

MIRTO A tua fantasia

Respirou certamente o ar do monte Himeto.
Tem a expressão tão doce!

LÍSIAS É a expressão do afeto.
Sou em cousas de Apolo um simples amador.
A minha grande musa é Vênus, mãe do Amor.

No mais não aprendi (os fados meus adversos

Vedaram-mo! ) a cantar bons e sentidos versos.

Cleon, esse é que sabe acender tantas almas

Conquistar de um só lance os corações e as palmas.

MIRTO Conquistar, oh! que não!
LÍSIAS Mas agradar?

MIRTO Talvez.

LÍSIAS Isso mesmo; é já muito. O que o poeta fez

Fá-lo-ei jamais? Contudo, inda tentá-lo quero;
Se não me inspira a musa, alma filha de Homero,

Inspira-me o desejo, a musa que delira,

E o seu canto concerta aos sons da eterna lira.

MIRTO Também desejas ser alguma cousa?
LÍSIAS Não;

Eu caso o meu amor às regras da razão.
Cleon quisera ser o espelho em que teu rosto

Sorri; eu, bela Mirto, eu tenho melhor gosto.

Ser espelho! ser banho! e túnica! Tolice!

Estéril ambição! loucura! criancice!

Por Vênus! sei melhor o que a mim me convém.

Homem sisudo e grave outros desejos tem.

Fiz, a este respeito, aprofundado estudo;

Eu não quero ser nada; eu quero dar-te tudo.

Escolhe o mais perfeito espelho do aço fino,

A túnica melhor de pano tarentino,

Vasos de óleo, um colar de pérolas, -enfim

Quanto enfeita uma dama aceitá-lo-ás de mim.

Brincos que vão ornar-te a orelha graciosa;

Para os dedos o anel de pedra preciosa;

A tua fronte pede áureo, rico anadema;

Tê-lo-ás, divina Mirto. É este o meu poema.

MIRTO É lindo!
Queres tu, outras estrofes mais?
LÍSIAS Dar-tas-ei quais as teve a celebrada Laís.
Casa, rico jardim, servas de toda a parte;
E estátuas e painéis, e quantas obras d'arte

Podem servir de ornato ao templo da beleza,

Tudo haverás de mim. Nem gosto nem riqueza

Te há de faltar, mimosa, e só quero um penhor.

Quero... quero-te a ti.

MIRTO Pois quê! já que a flor,
Quem desdenhando a flor, só lhe pede o perfume?
LÍSIAS Esqueceste o perdão?
MIRTO Ficou-me este azedume.

LÍSIAS Vênus pode apagá-lo.

MIRTO Eu sei! creio e não creio.

LÍSIAS Hesitar é ceder; agrada-me o receio.

Em assunto de amor vontade que flutua
Estás prestes a entregar-se. Entregas-te?

MIRTO Sou tua!
CENA VIII: LÍSIAS, MIRTO, CLEON

CLEON Demorei-me demais?

LÍSIAS Apenas o bastante

Para que fosse ouvido um coração amante.
A Lesbiana é minha.

CLEON És dele, Mirto!
MIRTO Sim.

Eu ainda hesitava, ele falou por mim.

CLEON Quantos amores tens, filha do mal?

LÍSIAS Pressinto

Uma lamentação inútil. "A Corinto
Não vai quem quer", lá diz aquele velho adágio.

Navegavas sem leme; era certo o naufrágio.

Não me viste sulcar as mesmas águas'?

CLEON Vi
Mas contava com ela, e confiava em ti.
Mais duas ilusões! Que importa? Inda são poucas;

Desfaçam-se uma a uma estas quimeras loucas.

Ó árvore bendita, ó minha juventude,

Vão-te as flores caindo ao vento áspero e rude!

Não vos maldigo, não; eu não maldigo o mar

Quando a nave soçobra, o erro é confiar.

Adeus, formosa Mirto; adeus, Lísias; não quero

Perturbar vosso amor, eu que já nada espero;

Eu que vou arrancar as profundas raízes

Desta paixão funesta; adeus, sede felizes!

LÍSIAS Adeus! Saudemos nós a Vênus e a Lieu.
AMBOS Io Poenan! ó Baco! Himeneu! Himeneu!

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