Reviveriam ilusões viçosas,
E a gasta vida rebentara em rosas!
LXXXVl l
Resolve Heitor voltar ao vale amigo,
Onde ficara a noiva abandonada.
Transpõe o mar, afronta-lhe o perigo,
E chega enfim à terra desejada.
Sobe o monte, contempla o cedro antigo,
Sente abrir-se-lhe n'alma a flor murchada
Das ilusões que um dia concebera;
Rosa extinta da sua primavera!
LXXXVIII
Era a hora em que os serros do oriente
Formar parecem luminosas urnas;
E abre o sol a pupila resplendente
Que às folhas sorve as lágrimas noturnas;
Frouxa brisa amorosa e diligente
Vai acordando as sombras taciturnas;
Surge nos braços dessa aurora estiva
A alegre natureza rediviva.
LXXXIX
Campa era o mar; o vale estreito berço;
De um lado a morte, do outro lado a vida,
Canto do céu resumo do universo,
Ninho para aquecer a ave abatida.
Inda nas sombras todo o vale imerso,
Não acordara à costumada lida;
Repousava no plácido abandono
Da paz tranqüila e do tranqüilo sono.
XC
Alto já ia o sol, quando descera
Heitor a oposta face da montanha;
Nada do que deixou desaparecera;
O mesmo rio as mesmas ervas banha.
A casa como então, garrida e austera,
Do sol nascente a viva luz apanha;
Iguais flores, nas plantas renascidas...
Tudo ali fala de perpétuas vidas!
XCI
Desce o poeta cauteloso e lento.
Olha de longe; um vulto ao sol erguia
A veneranda fronte, monumento
De grave e celestial melancolia.
Como sulco de um fundo pensamento
Larga ruga na testa abrir se via,
Era a ruína talvez de uma esperança...
Nos braços tinha uma gentil criança
XCII
Ria a criança; o velho contemplava
Aquela flor que às auras matutinas
O perfumoso cálix desbrochava
E entrava a abrir as pétalas divinas.
Triste sorriso o rosto lhe animava,
Como um raio de lua entre ruínas.
Alegria infantil, tristeza austera,
O inverno torvo, a alegre primavera!
XCIII
Desce o poeta, desce, e preso, e fito
Nos belos olhos do gentil infante,
Treme, comprime o peito. . . e após um grito
Corre alegre, exaltado e delirante.
Ah! se jamais as vozes do infinito
Podem sair de um coração amante.
Teve-as aquele... lágrimas sentidas
Lhe inundaram as faces ressequidas!
XCIV
"Meu filho!" exclama, e súbito parando
Ante o grupo ajoelha o libertino;
Geme, soluça, em lágrimas beijando
As mãos do velho e as tranças do menino.
Ergue-se Antero, e frio e venerando,
Olhos no céu, exclama: "Que destino!
Murchar-lhe, viva, a rosa da ventura;
Morta, insultar-lhe a paz da sepultura!"
XCV
"Morta!'' "Sim!" "Ah! senhor! se arrependido
Posso alcançar perdão, se com meus prantos
Posso apiedar-lhe o coração ferido
Por tanta mágoa e longos desencantos;
Se este infante, entre lágrimas nascido,
Pode influir-me os seus afetos santos...
É meu filho, não é? perdão lhe imploro!
Veja senhor! eu sofro, eu creio, eu choro!"
XCVI
Olha-o com frio orgulho o velho honrado;
Depois, fugindo àquela cena estranha,
Entra em casa. O poeta, acabrunhado,
Sobe outra vez a encosta da montanha;
Ao cimo chega, e desce o oposto lado
Que a vaga azul entre soluços banha.
Como fria ironia a tantas mágoas,
Batia o sol de chapa sobre as águas.
XCVll
Pouco tempo depois ouviu-se um grito,
Som de um corpo nas águas resvalado;
À flor das vagas veio um corpo aflito...
Depois. . . o sol tranqüilo e o mar calado.
Depois... Aqui termina o manuscrito,
Que ora em letra de forma é publicado,
Nestas estrofes pálidas e mansas,
Para te divertir de outras lembranças.
FALENAS
(DA PRIMEIRA EDIÇÃO)
PRELÚDIO
...land of dreams.
... land of song.
LONGFELLOW
LEMBRA-TE a ingênua moça, imagem da poesia,
Que a André Roswein amou, e que implorava um dia,
Como infalível cura à sua mágoa estranha,
Uma simples jornada às terras da Alemanha?
o poeta é assim: tem, para a dor e o tédio,
Um refúgio tranqüilo, um suave remédio:
És tu, casta poesia, ó terra pura e santa!
Quando a alma padece, a lira exorta e canta;
E a musa que, sorrindo, os seus bálsamos verte,
Cada lágrima nossa em pérola converte.
Longe daquele asilo, o espírito se abate;
A existência parece um frívolo combate,
Um eterno ansiar por bens que o tempo leva,
Flor que resvala ao mar, luz que se esvai na treva,
Pelejas sem ardor, vitórias sem conquista!
Mas, quando o nosso olhar os páramos avista
Onde o peito respira o ar sereno e agreste,
Transforma-se o viver. Então, à voz celeste,
Acalma-se a tristeza; a dor se abranda e cala;
Canta a alma e suspira- o amor vem resgatá-la;
O amor, gota de luz do olhar de Deus caída,
Rosa branca do céu, perfume, alento, vida.
Palpita o coração já crente, já desperto;
Fala dentro de nós uma boca invisível;
Esquece-se o real e palpa-se o impossível.
A outra terra era má, o meu país é este;
Este o meu céu azul.
Se um dia padeceste
Aquela dor profunda, aquele ansiar sem termo
Que leva ao tédio e a morte ao coração enfermo;
Se queres mão que enxugue as lágrimas austeras,
Se te apraz ir viver de eternas primaveras,
Ó alma de poeta, ó alma de harmonia,
Volve às terras da musa, às terras da poesia!
Tens, para atravessar a azul imensidade,
Duas asas do céu: a esperança e a saudade.
Uma vem do passado, outra cai do futuro;
Com elas voa a alma e paira no éter puro,
Com elas vai curar a sua mágoa estranha.
A terra da poesia é a nossa Alemanha.
VISÃO
A LUÍS ALVARENGA PEIXOTO
VI DE UM LADO O Calvário, e do outro lado
O Capitólio, o templo--cidadela.
E torvo mar entre ambos agitado,
Como se agita o mar numa procela.
Pousou no Capitólio uma águia; vinha
Cansada de voar.
Cheia de sangue as longas asas tinha;
Pousou; quis descansar.
Era a águia romana, a águia de Quirino;
A mesma que, arrancando as chaves ao destino,
As portas do futuro abriu de par em par.
A mesma que, deixando o ninho áspero e rude,
Fez do templo da força o templo da virtude,
E lançou, corro emblema, a espada sobre o altar.
Então, como se um deus lhe habitasse as entranhas,
A vitória empolgou, venceu raças estranhas,
Fez de várias nações um só domínio seu.
Era-lhe o grito agudo um tremendo rebate.
Se caía, perdendo acaso um só combate,
Punha as asas no chão e remontava Anteu.
Vezes três, respirando a morte, o sangue, o estrago,
Saiu, lutou, caiu, ergueu-se. . . e jaz Cartago;
É ruína; é memória; é túmulo. Transpõe,
Impetuosa e audaz, os vales e as montanhas.
Lança a férrea cadeia ao colo das Espanhas.
Gália vence; e o grilhão a toda Itália põe.
Terras d'Ásia invadiu, águas bebeu do Eufrates,
Nem tu mesma fugiste à sorte dos combates,
Grécia mãe do saber. Mas que pode o opressor,
Quando o gênio sorriu no berço de uma serva?
Palas despe a couraça e veste de Minerva;
Faz-se mestra a cativa; abre escola ao senhor.
Agora, já cansada e respirando a custo,
Desce; vem repousar no monumento augusto.
Gotejam-lhe ainda sangue as asas colossais.
A sombra do terror assoma-lhe à pupila.
Vem tocada das mãos de César e de Sila.
Vê quebrar-se-lhe a força aos vínculos mortais.
Dum lado e de outro lado, azulam-se
Os vastos horizontes;
Vida ressurge esplêndida
Por toda a criação.
Luz nova, luz magnífica
Os vales enche e os montes...
E além, sobre o Calvário,
Que assombro! Que visão!
Fitei o olhar. Do píncaro
Da colossal montanha
Surge uma pomba, e plácida
Asas no espaço abriu.
Os ares rompe, embebe-se
No éter de luz estranha; Olha-a minha alma atônita
Dos céus a que subiu.
Emblema audaz e lúgubre,
Da força e do combate,
A águia no Capitólio
As asas abateu.
Mas voa a pomba, símbolo
Do amor e do resgate,
Santo e apertado vínculo
Que a terra prende ao céu.
Depois ... Às mãos de bárbaros,
Na terra em que nascera,
Após sangrentos séculos,
A águia expirou; e então
Desceu a pomba cândida
Que marca a nova era,
Pousou no Capitólio,
Já berço, já cristão.
MENINA E MOÇA
A ERNESTO CIBRÃO
ESTÁ NAQUELA idade inquieta e duvidosa,
Que não é dia claro e é já o alvorecer;
Entreaberto botão, entrefechada rosa,
Um pouco de menina e um pouco de mulher.
Às vezes recatada. outras estouvadinha,
Casa no mesmo gesto a loucura e o pudor;
Tem coisas de criança e modos de mocinha,
Estuda o catecismo e lê versos de amor.
Outras vezes valsando, o seio lhe palpita,
Do cansaço talvez, talvez de comoção.
Quando a boca vermelha os lábios abre e agita,
Não sei se pede um beijo ou faz uma oração.
Outras vezes beijando a boneca enfeitada,
Olha furtivamente o primo que sorri;
E se corre parece, à brisa enamorada,
Abrir asas de um anjo e tranças de uma huri.
Quando a sala atravessa, é raro que não lance
Os olhos para o espelho; é raro que ao deitar
Não leia, um quarto de hora, as folhas de um romance
Em que a dama conjugue o eterno verbo amar.
Tem na alcova em que dorme, e descansa de dia,
A cama da boneca ao pé do toucador;
Quando sonha, repete, em santa companhia,
Os livros do colégio e o nome de um doutor.
Alegra-se em ouvindo os compassos da orquestra;
E quando entra num baile, é já dama do tom;
Compensa-lhe a modista os enfados da mestra;
Tem respeito a Geslin, irias adora a Dazon.
Dos cuidados da vida o mais tristonho e acerbo
Para ela é o estudo, excetuando talvez
A lição de sintaxe. em que combina o verbo
To love, mas sorrindo ao professor de inglês.
Quantas vezes, porém, fitando o olhar no espaço,
Parece acompanhar uma etérea visão;
Quantas cruzando ao seio o delicado braço
Comprime as pulsações do inquieto coração!
Ah! se nesse momento, alucinado, fores
Cair-lhe aos pés, confiar-lhe uma esperança vã,
Hás de vê-la zombar dos teus tristes amores,
Rir da tua aventura e contá-la à mamã.
É que esta criatura, adorável, divina,
Nem se pode explicar, nem se pode entender:
Procura-se a mulher e encontra-se a menina,
Quer-se ver a menina e encontra-se a mulher!
NO ESPAÇO
Il n'y a qu' une sorte d'amour, mais
il y en a mille différentes copies.
LA ROCHEFOUCAULD
ROMPENDO o último laço Nervosa, ardente, robusta,
Que ainda à terra as prendia, Levantando a voz augusta
Encontraram-se no espaço Pela margem peregrina,
Duas almas. Parecia Onde o eco em seus lamentos,
Que o destino as convocara Por virtude soberana,
Para aquela mesma hora; Repete a todos os ventos
E livres, livres agora, A nota virgiliana.
Correm a estrada do céu,
Vão ver a divina face: Nem a doce, área inglesa,
Uma era a de Lovelace, Que os ventos frios do norte
Era a outra a de Romeu. Fizeram fria de morte,
Mas divina de beleza,
Voavam porem voando Nem a ardente castelhana,
Falavam ambas. E o céu Corada ao sol de Madri,
Ia as vozes escutando Beleza tão soberana,
Das duas almas. Romeu Tão despótica no amor,
De Lovelace indagava Que troca os troféus de um Cid
Que fizera nesta vida Pelo olhar de um trovador.
E que saudades levava.
"Nem a virgem pensativa
"Eu amei ... mas quantas, Que às margens do velho Reno,
[quantas, Como a pura sensitiva
E como, e como não sei; Vive das auras do céu
Não seria o amor mais puro, E murcha ao mais leve aceno
Mas o certo é que as amei. De mãos humanas; tão pura
Se era tão fundo e tão vasto Como aquela Margarida
O meu pobre coração! Que a Fausto um dia encontrou.
Cada dia era uma glória,
Cada hora uma paixão. "E muitas mais, e arriei todas,
Amei todas; e na história Todas minha alma encerrou.
Dos amores que senti Foi essa a minha virtude,
Nenhuma daquelas belas Era esse o meu condão.
Deixou de escrever por si. Que importava a latitude?
Era o mesmo coração,
"Nem a patrícia de Helena, Os mesmos lábios, o mesmo
De verde mirto c'roada, Arder na chama fatal...
Nascida como açucena Arriei a todas e a esmo."
Pelos zéfiros beijada,
Aos brandos raios da lua, Lovelace concluíra;
À voz das ninfas do mar, Entravam ambos no céu;
Trança loura, espádua nua. E o Senhor que tudo ouvira,
Calma fronte e calmo olhar. Voltou os olhos imensos
"Nem a beleza latina, Para a alma de Romeu:
“E tu?” – “Eu amei na vida E a alma de Lovelace
Uma só vez, e subi De novo à terra baixou.
Daquela cruenta lida,
Senhor, a acolher-me em ti Daqui vem que a terra conta,
Das duas almas, a pura, Por um decreto do céu,
A formosa, olhando em face Cem Lovelaces num dia
A divindade ficou; E em cem anos um Romeu.
OS DEUSES DA GRÉCIA
(SCHILLER)
QUANDO, coos tênues vínculos de gozo,
Ó Vênus de Amatonte, governavas
Felizes raças, encantados povos
Dos fabulosos tempos;
Quando fulgia a pompa do teu culto,
E o templo ornavam delicadas rosas,
Ai! quão diverso o mundo apresentava
A face aberta em risos!
Na poesia envolvia-se a verdade;
Plena vida gozava a terra inteira;
E o que jamais hão de sentir na vida
Então sentiam homens.
Lei era repousar no amor; os olhos
Nos namorados olhos se encontravam;
Espalhava-se em toda a natureza
Um vestígio divino.
Onde hoje dizem que se prende um globo
Cheio de fogo, - outrora conduzia
Hélios o carro de ouro, e os fustigados
Cavalos espumantes.
Povoavam Oréades os montes,
No arvoredo Doríades viviam,
E agreste espuma despejava em flocos
A urna das Danaides.
Refúgio de uma ninfa era o loureiro;
Tantália moça as rochas habitava;
Suspiravam no arbusto e no caniço
Sirinx, Filomela.
Cada ribeiro as lágrimas colhia
De Ceres pela esquiva Persefone;
E do outeiro chamava inutilmente
Vênus o amado amante.
Entre as raças que o pio tessaliano
Das pedras arrancou, - os deuses vinham;
Por cativar uns namorados olhos
Apolo pastoreava.
Vínculo brando então o amor lançava
Entre os homens, heróis e os deuses todos;
Eterno culto ao teu poder rendiam,
Ó deusa de Amatonte!
Jejuns austeros, torva gravidade
Banidos eram dos festivos templos;
Que os venturosos deuses só amavam
Os ânimos alegres.
Só a beleza era sagrada outrora;
Quando a pudica Tiêmone mandava,
Nenhum dos gozos que o mortal respira
Envergonhava os deuses.
Eram ricos palácios vossos templos;
Lutas de heróis, festins, e o carro e a ode,
Eram da raça humana aos deuses vivos
A jucunda homenagem.
Saltava a dança alegre em torno a altares;
Louros c'roavam numes; e as capelas
De abertas, frescas rosas, lhes cingiam
A fronte perfumada.
Anunciava o galhofeiro Baco
O Tirso de Evoé; sátiros fulvos
Iam tripudiando em seu caminho;
Iam bailando as Mênades.
A dança revelava o ardor do vinho;
De mão em mão corria a taça ardente,
Pois que ao fervor dos ânimos convida
A face rubra do hóspede.
Nenhum espectro hediondo ia sentar-se
Ao pé do moribundo. O extremo alento
Escapava num ósculo, e voltava
Um gênio a tocha extinta.
E além da vida, nos infernos, era
Um filho de mortal quem sustentava
A severa balança; e coa voz pia
Vate ameigava as Fúrias.
Nos Elísios o amigo achava o amigo;
Fiel esposa ia encontrar o esposo;
No perdido caminho o carro entrava
Do destro automedonte.
Continuava o poeta o antigo canto;
Admeto achava os ósculos de Alceste;
Reconhecia a Pílades o sócio,
E o rei tessálio as flechas.
Nobre prêmio o valor retribuía
Do que andava nas sendas da virtude;
Ações dignas do céu, filhas dos homens,
O céu tinham por paga.
Inclinavam-se os deuses ante aquele
Que ia buscar-lhe algum mortal extinto
E os gêmeos lá no Olimpo alumiavam
O caminho ao piloto.
Onde és, mundo de risos e prazeres?
Por que não volves, florescente idade?
Só as musas conservam os teus divinos
Vestígios fabulosos.
Tristes e mudos vejo os campos todos;
Nenhuma divindade aos olhos surge;
Dessas imagens vivas e formosas
Só a sombra nos resta.
Do norte ao sopro frio e melancólico,
Uma por uma, as flores se esfolharam;
E desse mundo rútilo e divino
Outro colheu despojos.
Os astros interrogo com tristeza,
Selene, e não te encontro; vaga, e à selva, falo
Falo à vaga do mar, e a vaga, e à selva,
Inúteis vozes mando.
Da antiga divindade despojada,
Sem conhecer os êxtases que inspira,
Desse esplendor que eterno a fronte lhe orna
Não sabe a natureza.
Nada sente, não goza do meu gozo;
Insensível à força com que impera,
O pêndulo parece condenado
Às frias leis que o regem.
Para se renovar, abre hoje a campa,
Foram-se os numes ao pais dos vates;
Das roupas infantis despida, a terra
Inúteis os rejeita.
Foram-se os numes, foram-se; levaram
Consigo o belo, e o grande, e as vivas cores,
Tudo que outrora a vida alimentava,
Tudo que é hoje extinto.
Ao dilúvio dos tempos escapando,
Nos recessos do Pindo se entranharam:
O que sofreu na vida eterna morte,
Imortalize a musa!
CEGONHAS E RODOVALHOS
(BOUILLET)
A ANÍSIO SEMPRÔNIO RUFO
SALVE, rei dos mortais, Semprônio invicto,
Tu que estreaste nas romanas mesas
O rodovalho fresco e a saborosa
Pedirrubra cegonha!
Desentranhando os mármores de Frígia,
Ou já rompendo ao bronze o escuro seio,
Justo era que mandasse a mão do artista
Teu nobre rosto aos evos.
Por que fosses maior aos olhos pasmos
Das nações do Universo, ó pai dos molhos,
Ó pai das comezainas, em criar-te
Teu século esfalfou-se.
A tua vinda ao mundo prepararam
Os destinos, e acaso amiga estrela
Ao primeiro vagido de teus lábios
Entre nuvens luzia.
Antes de ti, no seu vulgar instinto,
Que comiam romanos? Carne insossa
Dos seus rebanhos vis, e uns pobres frutos,
Pasto bem digno deles;
A escudela de pau outrora ornava,
Com o saleiro antigo, a mesa rústica,
A mesa em que, três séculos contados,
Comeram senadores.
E quando, por salvar a pátria em risco,
Os velhos se ajuntavam, quantas vezes
O cheiro do alho enchia a antiga cúria,
O pórtico sombrio,
Onde vencidos reis o chão beijavam;
Quantas, deixando em meio a mal cozida,
A sensabor chanfana, iam de um salto
À conquista do mundo!
Ao voltar dos combates, vencedores,
Carga de glória a nau trazia ao porto,
Reis vencidos, tetrarcas subjugados,
E rasgadas bandeiras ...
Iiludiam-se os míseros! Bem hajas,
Bem hajas tu, grande homem, que trouxeste
Na tua ovante barca à ingrata Roma
Cegonhas, rodovalhos!
Maior que esse marujo que estripava,
Coo rijo arpéu, as naus cartaginesas
Tu, Semprônio, coas redes apanhavas
Ouriçado marisco;
Tu, glotão vencedor, cingida a fronte
Coo verde mirto, a terra percorreste,
Por encontrar os fartos, os gulosos
Ninhos de finos pássaros.
Roma desconheceu teu gênio, ó Rufo!
Dizem até (vergonha!) que negara
Aos teimosos desejos que nutrias
O voto da pretura.
Mas a ti, que te importa a voz da turba?
Efêmero rumor que o vento leva
Como a vaga do mar. Não, não raiaram
Os teus melhores dias.
Virão, quando aspirar a invicta Roma
As preguiçosas brisas do oriente;
Quando Coa mitra d'ouro, descorado,
O cidadão romano,
Pelo foro arrastar o tardo passo
E sacudir da toga roçagante,
Ás virações os tépidos perfumes
Como um sátrapa assírio.
Virão, quando na escura noite
A orgia imperial encher o espaço
De viva luz, e embalsamar as ondas
Com os seus bafos quentes;
Então do sono -acordarás, e a sombra,
A tua sacra sombra irá pairando
Ao ruído das músicas noturnas
Nas rochas de Capréia.
Ó mártir dos festins! Queres vingança?
Tê-las-ás e à farta, à tua grã memória;
Vinga-te o luxo que domina a Itália;
Ressurgirás ovante
Ao dia em que na mesa dos romanos
Vier pompear o javali silvestre,
Prato a que der os finos molhos Tróia
E rouxinol as línguas.
A UM LEGISTA
TU FOGES à cidade? A pobre flor vacila,
Feliz amigo! Vão Não sabe a que atender.
Contigo a liberdade
A vida e o coração. O sol, juiz tão grave
Como o melhor doutor,
A estância que te espera Condena a brisa e a ave
É feita para o amor Aos ósculos da flor.
Do sol coa primavera,
No seio de uma flor. Zéfiro ouve e apela.
Apela o colibri.
Do paço de verdura No entanto a flor singela
Transpõe-me esses umbrais; Com ambos folga e ri.
Contempla a arquitetura
Dos verdes palmeirais. Tal a formosa dama
Entre dois fogos, quer
Esquece o ardor funesto Aproveitar a chama
Da vida cortesã; Rosa, tu és mulher!
Mais val que o teu Digesto
A rosa da manhã. Respira aqueles ares,
Amigo. Deita ao chão
Rosa que se enamora Os tédios e os pesares.
Do amante colibri, Revive o coração.
E desde a luz da aurora
Os seios lhe abre e ri. É como passarinho,
Que deixa sem cessar
Mas Zéfiro brejeiro A maciez do ninho
Opõe ao beija-flor Pela amplidão do ar.
Embargos de terceiro
Senhor e possuidor. Pudesse eu ir contigo,
Gozar contigo a luz;
Quer este possuí-la. Sorver ao pé do amigo
Também o outro a quer, Vida melhor e a flux!
Ir escrever nos campos, Fazer a gazetilha
Nas folhas dos rosais, Da imensa solidão
E à luz dos pirilampos, Vai tu, que podes. Deixa
Ó Flora, os teus jornais!
Os que não podem ir,
Da estrela que mais brilha Soltar a inútil queixa.
Tirar um raio, e então Mudar reflorir.
ESTÂNCIAS A EMA
(ALEX. DUMAS FILHO)
I - UM PASSEIO DE CARRO
SAÍMOS, ela e eu, dentro de um carro,
Um ao outro abraçados; e como era
Triste e sombria a natureza em torno
Ia conosco a eterna primavera.
No cocheiro fiávamos a sorte
Daquele dia. o carro nos levava
Sem ponto fixo, onde aprouvesse ao homem;
Nosso destino em suas mãos estava.
Quadrava-lhe Saint-Cloud. Eia! pois vamos!
É um sítio de luz, de aroma e riso,
Demais, se as nossas almas conversavam,
Onde estivessem era o paraíso.
Fomos descer junto ao portão do parque.
Era deserto e triste e mudo; o vento
Rolava nuvens cor de cinza; estavam
Seco o arbusto, o caminho lamacento.
Rimo-nos tanto vendo-te, ó formosa,
(E felizmente ninguém mais te via!)
Arregaçar a ponta do vestido
Que o lindo pé e a meia descobria!
Tinhas o gracioso acanhamento
Da fidalga gentil pisando a rua;
Desafeita ao andar, teu passo incerto
Deixava conhecer a raça tua.
Uma das tuas mãos alevantava
O vestido de seda; as saias finas
Iam mostrando as rendas e os bordados,
Lambendo o chão, molhando-te as botinas.
Mergulhavam teus pés a cada instante,
Como se o chão quisesse ali guardá-los.
E que afã! Mal podíamos nós ambos
Da cobiçosa terra libertá-los.
Doce passeio aquele! E como é belo
O amor no bosque, em tarde tão sombria!
Tinhas os olhos úmidos, - e a face
A rajada do inverno enrubescia.
Era mais belo que a estação das flores;
Nenhum olhar nos espreitava ali;
Nosso era o parque, unicamente nosso;
Ninguém! estava eu só ao pé de ti!
Perlustramos as longas avenidas
Que o horizonte cinzento limitava.
Sem mesmo ver as deusas conhecidas
Que o arvoredo sem folhas abrigava.
O tanque, onde nadava um níveo cisne
Placidamente, - o passo nos deteve;
Era a face do lago uma esmeralda
Que refleti-a o cisne alvo de neve.
Veio este a nós, e corno que pedia
Alguma coisa, uma migalha apenas;
Nada tinhas que dar; a ave arrufada
Foi-se cortando as águas tão serenas.
E nadando parou junto ao repuxo
Que de água viva aquele tanque enchia;
O murmúrio das gotas que tombavam
Era o único som que ali se ouvia.
Lá ficamos tão juntos um do outro,
Olhando o cisne e escutando as águas;
Vinha a noite; a sombria cor do bosque
Emoldurava as nossas próprias mágoas.
Num pedestal, onde outras frases ternas,
A mão de outros amantes escreveu,
Fui traçar, meu amor, aquela data
E junto dela pôr o nome teu!
Quando o estio volver àquelas árvores,
E à sombra delas for a gente a flux,
E o tanque refletir as folhas novas,
E o parque encher-se de murmúrio e luz,
Irei um dia, na estação das flores,
Ver a coluna onde escrevi teu nome,
O doce nome que minha alma prende,
E que o tempo, quem sabe? Já consome!
Onde estarás então? Talvez bem longe,
Separada de mim, triste e sombrio;
Talvez tenhas seguido a alegre estrada,
Dando-me áspero inverno em pleno estio.
Porque o inverno não é o frio e o vento,
Nem a erma alameda que ontem vi;
O inverno é o coração sem luz nem flores,
É o que eu hei de ser longe de til
II
Correu um ano desde aquele dia,
Em que fomos ao bosque; um ano, sim!
Eu já previa o fúnebre desfecho
Desse tempo feliz, - triste de mim!
O nosso amor nem viu nascer as flores;
Mal aquecia um raio de verão
Para sempre, talvez, das nossas almas
Começou a cruel separação.
Vi esta primavera em longes terras,
Tão ermo de esperanças e de amores,
Olhos fitos na estrada, onde esperava
Ver-te chegar, como a estação das flores.
Quanta vez meu olhar sondou a estrada
Que entre espesso arvoredo se perdia,
Menos triste, inda assim, menos escuro
Que a dúvida cruel que me seguia!
Que valia esse sol abrindo as plantas
E despertando o sono das campinas?
Inda mais altas que as searas louras,
Que valiam as flores peregrinas?
De que servia o aroma dos outeiros?
E o canto matinal dos passarinhos?
Que me importava a mim o arfar da terra,
E nas moutas em flor os verdes ninhos?
O sol que enche de luz a longa estrada,
Se me não traz o que minh'alma espera,
Pode apagar seus raios sedutores:
Não é o sol, não é a primavera!
Margaridas, caí, morrei nos campos.
Perdei o viço e as delicadas cores,
Se ela vos não aspira, o hálito brando,
Já o verão não sois, já não sois flores!
Prefiro o inverno desfolhado e mudo,
O velho inverno, cujo olhar sombrio
Mal se derrama nas cerradas trevas,
E vai morrer no espaço úmido e frio.
É esse o sol das almas desgraçadas;
Venha o inverno, somos tão amigos!
Nossas tristezas são irmãs em tudo:
Temos ambos o frio dos jazigos!
Contra o sol, contra Deus, assim falava
Dês que assomavam matinais albores;
Eu aguardava as tuas doces letras
Com que ao céu perdoasse as belas cores!
Iam assim, um após outro, os dias.
Nada. - E aquele horizonte tão fechado
Nem deixava chegar aos meus ouvidos
O eco longínquo do teu nome amado.
Só, durante seis meses, dia e noite
Chamei por ti na minha angústia extrema;
A sombra era mais densa a cada passo,
E eu murmurava sempre: - Oh! minha Ema!
Um quarto de papel - é pouca cousa;
Quatro linhas escritas - não é nada;
Quem não quer escrever colhe uma rosa,
No vale aberta, à luz da madrugada.
Mandam-se as folhas num papel fechado;
E o proscrito, ansiando de esperança,
Pode entreabrir nos lábios um sorriso
Vendo naquilo uma fiel lembrança.
Era fácil fazê-lo e não fizeste!
Meus dias eram mais desesperados.
Meu pobre coração ia secando
Como esses frutos no verão guardados.
Hoje, se o comprimissem, mal deitava
Uma gota de sangue; nada encerra.
Era urna taça cheia; uma criança,
De estouvada que foi, deitou-a em terra!
É este o mesmo tempo, o mesmo dia.
Vai o no tocando quase ao fim;
É esta a hora em que, formosa e terna,
Conversavas de amor, junto de mim.
O mesmo aspecto: as ruas estão ermas,
A neve coalha o lago preguiçoso;
O arvoredo gastou as roupas verdes,
E nada o cisne triste e silencioso-
Vejo ainda no mármore o teu nome,
Escrito quando ali comigo andaste.
Vamos! Sonhei, foi um delírio apenas,
Era um louco tu não me abandonaste!
O carro espera: vamos. Outro dia,
Se houver bom tempo, voltaremos, não?
Corre este véu sobre teus olhos lindos,
Olha, não caias, dá-me a tua mão!
Choveu; a chuva umedeceu a terra.
Anda! Ai de mim! Em vão minh'alma espera.
Estas folhas que eu piso em chão deserto
São as folhas da outra primavera!
Não, não estás aqui, chamo-te embalde!
Era ainda urna última ilusão.
Tão longe desse amor fui inda o mesmo,
E vivi dous invernos sem verão.
Porque o verão não é aquele tempo
De vida e de calor que eu não vivi;
É a alma entornando a luz e as flores,
É o que hei de ser ao pé de ti!
A MORTE DE OFÉLIA
(Paráfrase)
JUNTO ao plácido rio
Que entre margens de, relva e fina areia
Murmura e serpenteia,
O tronco se levanta,
O tronco melancólico e sombrio
De um salgueiro. Uma fresca e branda aragem
Ali suspira e canta,
Abraçando-se à trêmula folhagem
Que se espelha na onda voluptuosa.
Ali a desditosa,
A triste Ofélia foi sentar-se um dia
Enchiam-lhe o regaço umas capelas
Por suas mãos tecidas
De várias flores belas,
Pálidas margaridas,
E rainúnculos, e essas outras flores
A que dá feio nome o povo rude,
E a casta juventude
Chama - dedos-da-morte. - O olhar celeste
Alevantando aos ramos do salgueiro
Quis ali pendurar a ofrenda agreste.
Num galho traiçoeiro
Firmara os lindos pés, e já seu braço,
Os ramos alcançando,
Ia depor a ofrenda peregrina
De suas flores, quando
Rompendo o apoio escasso,
A pálida menina
Nas águas resvalou; foram com ela
Os seus - dedos-da-morte - e as margaridas.
As vestes estendidas
Algum tempo a tiveram sobre as águas,
Como sereia bela
Que abraça ternamente a onda amiga.
Então, abrindo a voz harmoniosa,
Não por chorar as suas fundas mágoas,
Mas por soltar a nota deliciosa
De uma canção antiga,
A pobre naufragada
De alegres sons enchia os ares tristes,
Como se ali não visse a sepultura
Ou fosse ali criada.
Mas de súbito as roupas embebidas
Da linfa calma e pura
Levam-lhe o corpo ao fundo da corrente,
Cortando-lhe no lábio a voz e o canto.
As águas homicidas,
Como a laje de um túmulo recente,
Fecharam-se; e sobre elas,
Triste emblema de dor e de saudade.,
Foram nadando as últimas capelas.
FIM
DE "FALENAS"
Fonte: www.cce.ufsc.br