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Helena

Machado de Assis

CAPÍTULO X

ESTÁCIO dirigiu-se ao portão. Abriu-o; um moço que ali estava entrou precipitadamente. Era Mendonça. Os dous mancebos lançaram-se nos braços um do outro. Helena, a alguma distância, presenciou aquela infusão, e não lhe foi difícil adivinhar quem era o recém-chegado.

A efusão cessou, ou antes interrompeu-se, para repetir-se. Quando os dous rapazes se julgaram assaz abraçados, tomaram o caminho da casa. Helena, que estava um pouco adiante deles, foi apresentada a Mendonça. Ao ouvir que era irmã de Estácio, Mendonça ficou espantado. Cortejou cerimoniosamente a moça, e os dous seguiram até à casa, onde pouco depois entrou Helena.

Mendonça era da mesma estatura que Estácio, um pouco mais cheio, ombros largos, fisionomia risonha e franca, natureza móbil e expansiva. Vestia com o maior apuro, como verdadeiro parisiense que era, arrancado de fresco ao grand boulevard, ao Café Tortoni e às récitas do Vaudeville. A mão larga e forte calçava fina luva, cor de palha, e sobre o cabelo, penteado a capricho, pousava um chapéu de fábrica recente.

Estácio, antes de entrar, explicou ao amigo a situação de Helena, cujas qualidades e educação louvou, com o fim de lhe fazer compreender o respeito e a afeição que ela de todos merecia. Helena adivinhou esse trabalho preparatório do irmão, logo que entrou na sala.

Mendonça divertiu a família uma parte da noite, contando osmelhores episódios da viagem. Era narrador agradável, fluente e pinturesco, dotado de grande memória e certa força de observação. Espírito galhofeiro, achava facilmente o lado cômico das cousas e mais se comprazia em dizer os acidentes de um jantar de hotel ou de uma noite de teatro que em descrever as belezas da Suíça ou os destroços de Roma.

A visita durou pouco mais de hora. Estácio quis acompanhá-lo até à cidade; ele não consentiu que fosse além do portão. Atravessando a chácara, falaram do passado, e umpouco do futuro, a trechos soltos, como o lugar e a ocasião lhes permitiam. Mendonça, vendo que Estácio não tocava em um ponto essencial, foi o primeiro que o aventou.

— Falaste-me em uma de tuas cartas de certa Eugênia...

— A filha do Camargo.

— Justo. Negócio roto? Quase terminado. Terminado... na igreja, suponho? Tal qual. Quando?

— Brevemente.

— Marido, enfim! Era só o que te faltava. Nasceste com a bossa conjugal, como eu com a bossa viajante, e não sei qual de nós terá razão.

— Talvez ambos.

— Creio que sim. Tudo depende do gosto de cada um. O casamento é a pior ou a melhor cousa do mundo; pura questão de temperamento. Eu vi algumas vezes essa moça; era então muito menina. Não te pergunto se é um anjo...

— É um anjo.

— Como todas as noivas. Feliz Estácio! Segues a carreira de tua vocação, enquanto que eu...

— Tu?

— Interrompo a minha, e talvez para sempre. Preciso cuidar da vida; não sou capitalista, nem meu pai tampouco. Adeus, viagens!

— Tanto melhor! Arranjo-te noiva. Não é a tua vocação, mas não serás o primeiro que a erre, sem que daí venha mal ao mundo.

— Pois arranja lá isso... Em todo caso não será tua irmã.

— Oh! não, disse vivamente Estácio.

— Na verdade, é bonita; mas... se permites a franqueza de outrora, acho-lhe uma costela de desdém...

— Que idéia! a mais afável criatura do mundo. Verás mais tarde; hoje estava, talvez, preocupada. Em todo o caso, não havias de querer que ela saltasse a dançar contigo na sala, de mais a mais sem música.

Mendonça acabava de acender um charuto; apertou a mão de Estácio e saiu. Estácio acordou de um sonho. A realidade pôs-lhe as mãos de chumbo e repetiu-lhe ao ouvido a confissão interrompida de Helena. Ansioso por saber o resto, entrou ele imediatamente em casa. A diligência foi estéril, porque a irmã se recolhera ao quarto. Estácio imitou-a. Era forçoso esperar uma noite inteira, demora que afligia, porque, dizia ele consigo mesmo, cumpria-lhe velar pela sorte de Helena, como irmão e chefe de família, indagar de seus sentimentos, e ordenar o que fosse melhor. Uma noite não era muito; contudo, a preocupação retardou-lhe o sono. Aconfissão súbita, lacônica e eloqüente da irmã ficara-lhe no espírito, como se fora o eco perpétuo de uma voz extinta.

Nem no dia seguinte, nem nos subseqüentes alcançou o que esperava. Helena, ou evitava ficar a sós com ele, ou esquivava-se a maior explicação. Nos passeios matinais, que eram freqüentes, procurou Estácio, mais de uma vez, tratar do assunto que o preocupava. Helena ouvia com um sorriso, e respondia com um gracejo; depois dava de rédea à conversação e galopava na direção oposta. Como a fantasia era campo vasto, nunca mais o moço lograva trazê-la ao ponto de partida.

Um dia, a insistência de Estácio teve tal caráter de autoridade, que pareceu constranger e molestar Helena. Ela replicou com um remoque; ele redargüiu com uma advertência áspera. Iam ambos a pé, levando os animais pela rédea. Ouvindo a palavra do irmão, Helena susteve o passo, e fitou-o com um olhar digno, um desses olhares que parecem vir das estrelas, qualquer que seja a estatura da pessoa. Estácio possuía estas duas cousas, a retratação do erro e a generosidade do perdão. Viu que cedera a um mau impulso, e confessou-o; mas, confessou-o com palavras tais que Helena travou-lhe da mão e lhe disse:

— Obrigada! Se me não dissesse isso, ver-me-ia disparar por este caminho fora até ao fim do mundo ou até ao fim da vida.

— Helena!

— Ah! não é vão melindre, é a própria necessidade da minha posição. Você pode encará-la com olhos benignos; mas a verdade é que só as asas do favor me protegem... Pois bem, seja sempre generoso, como foi agora; não procure violar o sacrário da minha alma. Não insista em pedir a explicação de palavras mal pensadas e ditas em má hora...

— Mal pensadas? Pode ser; mas por isso é que são verdadeiras; se você tivesse tempo de as meditar, guardá-las-ia consigo, avara de seus segredos e suspeitosa de corações amigos. Meu fim era somente ajudá-la a ser venturosa, destruir...

— É tarde! interrompeu a moça, consultando o reloginho preso à cintura. Vamos?

Estácio sorriu melancolicamente; ofereceu-lhe o joelho, ela pousou nele o pezinho afilado e leve e saltou no selim. A volta foi menos alegre do que costumava ser. Eles falavam, mas a palavra vinha aos lábios, como uma onda vagarosa e surda; nenhuma cólera, mas nenhuma animação. Assim correu aquele dia; assim correriam outros, se não fora a vara mágica de Helena. O natural influxo era tão forte que o irmão voltou desde logo às boas, sendo as melhores horas as que passava ao pé dela, a escutá-la e a vê-la, ambos contentes e felizes. O episódio da confissão vinha às vezes, como hóspede importuno, projetar entre eles o nebuloso perfil; mas o espírito de Estácio repelia-o, e a alegria da irmã fazia o resto.

Entretanto, graças ao amigo recém-chegado, o filho doconselheiro saiu um pouco de suas regras habituais, e começou a provar alguma cousa mais da vida exterior. Mendonça buscava realizar, em miniatura, o seu esvaído ideal parisiense; havia nele o movimento, a agitação, a galhofa, que absolutamente faltavam a Estácio, e vieram dar-lhe à vida a variedade que ela não tinha. Alguns espetáculos e passeios, uma ou outra ceia alegre, tal foi o programa de uma parte íntima da existência de Estácio. Para contrastar com ela, tinha ele as manhãs do Andaraí e algumas noites do Rio Comprido. Ao amigo e à sua consciência, dizia o moço que estava a despedir-se da liberdade.

A influência de Mendonça estendeu-se à própria casa de Estácio. Mendonça gostava sobretudo da variedade no viver; não tolerava os mesmos prazeres nem os mesmos charutos; para os apreciar tinha necessidade de os alternar freqüentemente. Se fosse possível, era capaz de fazer-se monge durante um mês, antes do carnaval, trocar o habito por um dominó, e atar as últimas notas das matinas com os prelúdios da contradança. A fidelidade à moda custava-lhe um pouco, quando esta não ia a passo coma impaciência. Em sua opinião, o que distinguia o homem do cão era a faculdade de fazer que uma noite se não parecesse com outra. O Rio de Janeiro não lhe oferecia a mesma variedade de recursos que Paris; tendo o gênio inventivo e fértil, não lhe faltaria meio de fugir à uniformidade dos hábitos.

O pior que lhe acontecia era a disparidade entre os desejos e os meios. Filho de um comerciante, apenas remediado, não teria ele podido realizar a viagem à Europa nas proporções largas em que o fez, a não ser a intervenção benéfica de uma parenta velha, que se incumbira de lhe ministrar os recursos de que ele carecesse durante aquela longa ausência. Nem a parenta continuaria a abrir-lhe a bolsa, nem o pai queria criar-lhe hábitos de ociosidade.Tratava este, portanto, de obter-lhe um emprego público. Mendonça estavalonge de recusar; pedia somente que o emprego o não deslocasse da Corte.

Inquieto, amigo da vida ruidosa e fácil, inteligente sem largos horizontes, possuindo apenas a instrução precisa para desempenhar-se regularmente de qualquer comissão de certa ordem, Mendonça, com todos os seus defeitos e boas qualidades, era homem agradável e aceito. Os defeitos eram antes do espírito do que do coração.A variedade que ele pedia para as cousas externas e de menor tomo, não a praticava em suas afeições, que eram geralmente inalteráveis e fiéis. Era capaz de sacrifício e dedicação; sobretudo se lhe não pedissem o sacrifício deliberado ou a dedicação refletida, mas aquele que exige uma circunstância imprevista e súbita.

Não admira que a presença de tal homem viesse modificar o tom da sociedade de que era centro a família de Estácio, quando ele ali fazia alguma aparição. Era o sal daquela terra. Não tinha a rijeza do figurino, nem o ar do estrangeirado. A tesoura do alfaiate não lhe dissimulara a índole expansiva e franca.Acolhido como um filho, achava ali uma porção de casa. Que melhor aspecto podia ter a vida em tais condições, naquela família ligada por um sentimento de amor?

A noite do último dia do ano veio turvar a limpidez das águas.

CAPÍTULO XI

NAQUELE DIA fazia anos Estácio, e D. Úrsula assentara receber algumas pessoas a jantar, e outras mais à noite, em reunião íntima. Ela e Helena tomavam a peito fazer que a pequena festa de família fosse digna do objeto. Estácio opinou pela supressão do sarau; mas era difícil alcançar a desistência decorações que o amavam.

Logo de manhã, como ele se levantasse cedo, encontrou Helena que o convidou a segui-la à sala de costura.

— Quero dar-lhe o meu presente de anos, disse ela.

Ali entrados, abriu a moça uma pasta de desenhos, na qual havia um só, mas significativo: era uma parte da estrada de Andaraí, a mesma por onde eles costumavam passear, mas com algumas particularidades do primeiro dia. Dous cavaleiros, ele e ela, iam subindo a passo lento; aolonge, e acima via-se a velha casa da bandeira azul; no primeiro plano,desciam o preto e as mulas. Por baixo do desenho uma data: 25 de julho de 1850.

Estácio não pôde conter um gesto de admiração, quando a moça retirou de cima do desenho a folha de papel de seda que o cobria. Apertou a mão de Helena e examinou o trabalho. Notou a firmeza das linhas, a exação das circunstâncias locais, as impressões de uma hora fugitiva que o lápis da irmã tivera a arte de fixar no papel.

— Não podia fazer-me presente melhor, disse ele; dá-me uma parte de si mesma, um fruto de seu espírito. E que fruto! Não há muita moça que desenhe assim. Era talvez por isso que você saía algumas vezes sozinha com o pajem?

Estácio contemplou ainda instantes o desenho; depois levou-o aos lábios. O beijo acertou de cair na cabeça da cavaleira. Foi o original que corou.

— Andavam a gabar os meus talentos, disse Helena após um instante; tive a vaidade de dar uma pequena amostra...

— Excelente amostra! Não acha, titia? disse o moço a D. Úrsula, que nesse instante aparecera à porta, trazendo o seu presente, numa bocetinha de joalheiro.

D. Úrsula não tinha, decerto, o instinto da arte; maso amor da família lhe ensinara uma estética do coração, e essa bastou a fazê-la admirar o trabalho de Helena.

— Mas que digo eu todos os dias? exclamou D. Úrsula. Esta pequena sabe tudo!

— Quase tudo, emendou Helena; ignoro, por exemplo, como lhes hei de agradecer...

— O quê, tontinha? interrompeu a tia. Algum disparate, naturalmente, impróprio em qualquer dia, mas muito mais ainda no dia de hoje.

Enquanto as duas senhoras foram tratar das disposições do dia, Estácio mandou selar o cavalo e saiu. Queria comparar ainda uma vez o desenho de Helena com o sítio copiado. A fidelidade era completa, e o quadro seria absolutamente o mesmo, se se dessem algumas circunstâncias da primeira ocasião. Helena não ia ao lado dele; mas a vinte braças de distância flutuava a bandeira azul da casa do alpendre. Estácio afrouxou o passo do cavalo, como saboreando as recordações da primeira manhã, quando Helena se lhe mostrara tão singularmente comovida. Volveu a refletir na situação dela, e na paixão que lhe confessara, dias antes, com tamanha veemência. Se se tratava de uma felicidade possível, embora difícil, Estácio prometeu a si mesmo alcançar-lha. Não era isso servir o sangue do seu sangue?

A casa do alpendre, até ali indiferente a Estácio, criava agora para ele um interesse especial. À medida que se aproximava, ia achando no edifício a fiel reprodução do desenho.Este não apresentava todas as particularidades da vetustez; mas continha as mesmas disposições exteriores, como se fora feito diante do original.

A uma das janelas estava um homem, com a cabeça inclinada, atento a ler o livro que tinha sobre o peitoril. Nessa atitude não era fácil examiná-lo; afigurava-se, entretanto, uma criatura máscula e bela. A duas bracas de distância, o indivíduo levantou a cabeça, e cravou em Estácio um par de olhos grandes e serenos; imediatamente os retirou, baixando-os ao livro.

" Mal sabes tu, filósofo matinal, disse Estácio consigo, mal sabes tu que a tua casa teve a honra de ser reproduzida pela mais bela mão do mundo!"

O filósofo continuou a ler, e o cavalo continuou a andar. Quando Estácio regressou daí a alguns minutos, achou somente a casa; o morador desaparecera; circunstância indiferente, que escapou de todo à atenção do moço. Nem ele pensava mais naquilo; o espírito trotava largo, à inglesa, como o ginete, e ambos bebiam o ar como anciosos de chegar ao ponto de partida.

CAPÍTULO XII

A FESTA ocorreu animada, posto a reunião fosse restrita. Alguns giros da valsa, duas ou três quadrilhas, jogo e música, muita
conversa e muito riso, tal foi o programa da noite, que a encheu e fez mais curta.

Se as honras da casa foram feitas por Helena, a alma da festa era Mendonça, cujo espírito havia já recebido e colhido o
sufrágio universal. Eugênia dera-lhe, antes de todos, o seu voto. Havia entre ambos tal ou qual afinidade de índole, que
naturalmente os aproximava. Mendonça lisonjeava os caprichos de Eugênia, aplaudia-a, compreendia-a, obedecia-lhe sem
constrangimento nem reparo. Quando Mendonça valsava com Eugênia, todos os olhos se concentravam neles. Eram valsistas
de primeira ordem. As ondulações do corpo de Eugênia,e a serenidade e segurança de seus passos adaptavam-se
maravilhosamente àquela espécie de dança. Era belo vê-los percorrer o vasto círculo deixado aos movimentos; vê-los enfim
parar com a mesma precisão e sem o menor sintoma de cansaço. Eugênia punha toda a atenção no gesto de braço com que,
logo que interrompia ou cessava de todo a valsa, conchegava ao corpo a saia do vestido. O prazer com que fazia esse gesto, e
a graça com que o acompanhava de uma leve inclinação do corpo mostravam que, mais ainda a faceirice do que a
necessidade, lhe movia o corpo e a mão.

Esta sorte de triunfos enchia a alma de Eugênia; e, porque ela não possuía nem a modéstia nem a arte de a simular,via-se-lhe
no rosto o orgulho e a satisfação. A dança não era para a filha de Camargo um gozo ou um recreio somente; era também um
adorno e uma arma. Daí vinha que o valsista mais intrépido e constante era também o principal parceiro do seu espírito; e
ninguém disputava esse papel ao filho do comerciante.

— Sua filha é a rainha da noite, murmurou o Dr.Matos ao ouvido de Camargo, em um intervalo do voltarete.

— Não é verdade? acudiu o médico.

E a alma do pai voava enrolada nas pontas da fita que apertava a cintura de Eugênia, não regressando ao domicílio senão
quando a moça parava. Então volvia Camargo um olhar em torno de si, como pedindo igual admiração. Depois, ficava
sombrio,e mais do que usualmente, caía em longos e mortais silêncios.Três ou quatro vezes aproximara-se de Helena sem
lograr detê-la, nem achar em si mais que duas palavras triviais. Insistia; não a perdia de vista, parecia ansioso de a conversar
sobre alguma cousa.

Helena repartia-se entre todas as pessoas, atenta aos mil cuidados que a noite requeria. Cantou uma vez, dançou uma
quadrilha, e não valsou. Em vão Mendonça insistira com ela; a moça desculpou-se dizendo que a valsa lhe fazia vertigens. Na
opinião do filho do coronel esta razão encobria somente a ignorância de Helena. Estácio pensava antes que era a castidade
selvagem da irmã que lhe não permitia o contacto de um homem, idéia que lhe fez bem ao coração.

Pela volta da meia-noite, terminada a ceia, começou aquela hora de repouso que precede a total dispersão. As senhoras
trocavam impressões e comentários, os rapazes fumavam, os jogadores decidiam as últimas remissas. A noite não refrescara, e
a agitação aumentara o calor. Helena, tão cansada como D.Úrsula, retira-se por alguns instantes para a sala contígua à
principal; ali sentou-se num sofá, e derreou levemente o corpo, deixando cair os cílios, não sei se pensativos, se pesados de
sono. O espírito não tivera tempo de encadear duas idéias ou esboçar um sonho,quando uma voz a acordou:

— Já dormindo!

Era Camargo.

Helena abriu os olhos sobressaltada. A voz de Camargo produzira-lhe a impressão de desagrado que lhe fazia sempre.
Sorriu a moça contrafeitamente, e vendo que ele se dispunha a sentar-se no sofá, não arredouo vestido, como se quisesse
deixar entre ambos larga distância. Camargo sentou-se.

— Parece que se assustou? disse ele.

— Um pouco.

Camargo agitou entre as mãos os perendengues do relógio, tão numerosos como eles se usavam naquele tempo; depois
pegou familiarmente no leque da moça, abriu-o, contou as varetas, tornou a fechá-lo e restituiu-o com um elogio. Helena
respondeu-lhe com um sorriso. Ia levantar-se, quando ele a deteve com estas palavras:

— Estimei achá-la só, porque precisava pedir-lhe um conselho.

A testa de Helena contraiu-se interrogativamente.

— Um conselho e um favor, continuou o médico. Não será, creio eu, a primeira vez que a velhice consulte a mocidade.
Demais, trata-se de assunto em que a gente moça lê de cadeira.

Helena olhou para ele desconfiada. Nunca vira o médico tão afável, e essa mudança de maneiras e de tom é que lhe fazia
medo. Verdade é que ele ia pedir-lhe alguma cousa. Camargo não se deteve.Fez uma exposição rápida de suas relações com
a família do conselheiro, da amizade que o ligava a ela.

— A perda do meu finado amigo, concluiu ele, não pôde ser suprida por nenhuma cousa; mas, há alguma compensação na
afeição sobrevive e me faz considerar esta família como minha própria. Estou certo de que seu irmão e D. Úrsula sentem a meu
respeito do mesmo modo. Quanto à senhora, é recente na família, mas não tem menor direito que ela. Vi-a tão pequena!

— A mim? perguntou Helena.

Camargo fez um gesto afirmativo, enquanto a moça olhava em voltada sala, receosa de que alguém tivesse entrado e
ouvido. Uma vez segura de que ninguém havia, recebeu impressão contrária à primeira; envergonhou-se daquele receio. A
vergonha aumentou quando o mesmo acrescentou em voz baixinha:

— Não falemos nisso...

— Pelo contrário! exclamou ela. Pode falar com franqueza; diga tudo. Era minha mãe. Não o sei o que foi para o mundo;
mas, se me perdoaram a irregularidade do nascimento, não creio que me pedissem em troca a renúncia do meu amor de filha;
a lei que o pôs em meu coração é anterior à lei dos homens. Não repudio uma só das minhas recordações de outro tempo. Sei
e sinto que a sociedade tem leis e regras dignas de respeito; aceito-as tais quais; mas deixem-me ao menos o direito de amar o
que morreu. Minha pobre mãe! Vi-a expirar em meus braços; recolhi o seu último suspiro. Tinha apenas doze anos; contudo,
não consenti que outra pessoa velasse à cabeceira a última noite que passou sobre a Terra... Oh! não a esquecerei nunca!
nunca! nunca!

Helena proferiu estas palavras num estado de exaltação que até ali se lhe não vira. Em vão Camargo procurou duas ou três
vezes interrompê-la, receoso de que a ouvissem fora, porque a moça tinha levantado a voz. Helena não obedeceu; não viu
sequer o gesto suplicante do médico. O seio, castamente velado pelo corpinho, que subia até ao pescoço, estava ofegante e
onduloso como a água do mar. A última palavra saiu-lhe como um soluço.Camargo sentiu-se surpreendido com aquela
explosão de ternura. Era evidente que ele esperava outra cousa. Seguiu-se um breve silêncio,durante o qual Helena mordia a
ponta do lenço, como para conter a palavra que lhe tumultuava no coração. O médico prosseguiu enfim:

— Ninguém lhe pede que a esqueça, disse ele, todos respeitam esses sentimentos de piedade filial. O passado morreu, e o
menos que se deve aos mortos é o silêncio. A senhora temo direito de lhe dar o amor e a saudade. Mas falemos dos vivos; e
perdoe-me se lhe toquei, sem querer, em tão dolorosa recordação.

— Não! não é dolorosa! disse ela, abanando a cabeça.

— Falemos dos vivos. Não está certa do amor de sua família?

Helena fez um gesto afirmativo.

— Não poderia encontrar outra melhor nem tão boa. D. Úrsula é uma santa senhora; Estácio, um caráter austero e digno.
Venhamos agora ao conselho. Há muito tempo ando com idéia de ir à Europa; estou caminhando para a velhice; não quero
deixar de ir ver alguma cousa, além do nosso Pão d`Açúcar. Já desfiz o projeto mais de uma vez. Cuido que agora vou
definitivamente realizá-lo. Dá-se, porém,uma circunstância grave. Sabe que minha filha ama seu irmão? Meus olhos
descobriram desde muito tempo essa inclinaçãode um e outro, porque também seu irmão ama minha filha. Merecem-se e de
algum modo continuam a afeição dos pais; a natureza completa a natureza. Esta é a situação. O que eu desejava, porém, é que
me dissesse se devo partir já, levando-a; ou se é melhor esperar que eles se casem.

Helena ouvira o médico sem olhar para ele; quando ele acabou, fitou-o admirada e curiosa. A puerilidade da pergunta era
tão evidente que a moça procurou ler no rosto do interlocutor o pensamento verdadeiro e oculto. Camargo apressou-se a
explicar-se.

— Estácio, disse ele, pode amar Eugênia com idéias matrimoniais; mas também pode não passar isto de um capítulo de
romance, como o que se lê em uma viagem da Corte a Niterói. O caráter é sério; o coração tem leis especiais. Confesso que o
procedimento de Estácio nada me afirma a tal respeito. Há nele umas mudanças pouco explicáveis. O tempo decorrido é mais
que muito suficiente para que... Está refletindo?

— Estou.

— E...

— Suponho que pede mais do que me disse. Quer que eu indague a tal respeito as intenções de Estácio?

— Isso.

— Mas por que não se dirige a ele mesmo?

— Não havia inconveniente; estabeleceu-se, porém, que um pai não deve ser o primeiro a falar em tais cousas. É preciso
respeitar a dignidade paterna. Acresce que Estácio é rico, e tal circunstância podia fazer supor de minha parte um sentimento
de cobiça, que está longe de meu coração. Podia falar a D. Úrsula; creio, porém, que ela não tem a sua habilidade, e... por
que o não direi? a sua influência no espírito de Estácio.

— Eu!

— Oh! influência incontestável! A senhora veio completar a alma de seu irmão. É visível a afeição e o respeito que ele lhe
tem. Demais em tais assuntos uma irmã é natural confidente e conselheira.

Helena deu três pancadinhas no joelho com a ponta do leque, e enfiou os olhos pela porta de comunicação entre aquela ea
sala principal. Depois voltou-se para o médico.

— Sei que eles se amam, disse ela, e já dei a minha opinião a tal respeito. Eugênia parece ser minha amiga; meu irmão é
meu irmão; desejo-lhes todas as felicidades. Há, porém, um limite à intervenção de uma irmã; e não desejo ir além. Demais,
seu pedido é ocioso.

— Por quê?

— Anuncie a viagem, e Estácio se apressará a pedir-lhe sua filha. Se o não fizer, é porque a não ama, conforme ela
merece, e em tal caso mais vale perder um casamento do que o fazer mau.

— Sim? perguntou Camargo.

— Naturalmente.

— O conselho é excelente, disse o médico depois de um instante, mas tem o defeito substancial de suprimir a sua
intervenção, que me é necessária. Vejamos o meio de combinar as cousas. Suponhamos que, anunciada a viagem, Estácio não
corresponde às minhas esperanças. Que devo fazer?

— Embarcar.

— Embarcar é arriscar o casamento. Ora, este casamento... é um de meus sonhos. Desejo que os filhos continuem a
afeição dos pais. Se Estácio recuar, minhas esperanças esvaem-secomo fumo; o tempo cavará um abismo entre os dous;
Eugênia amará outro... Enfim, conto com a senhora.

— Comigo?

— A senhora tem uma força de resolução, uma fertilidade de expedientes, um espírito capaz de empresas delicadas; e,
tratando-se da felicidade de um irmão, creio que empenhará todas as forças para levar a cabo a mais pura das ambições. Não
lhe peço um absurdo, peço-lhe a felicidade de minha filha.

Helena não respondeu; olhou de revés para ele, e cravou depois os olhos na águia branca tecida no tapete, sobre o qual
pousava o pé impaciente e colérico. Podia referir mais detidamente qual o seu papel junto de Estácio, a respeito de Eugênia,
os pedidos que lhe fez e a promessa do irmão, que deveria ser cumprida, se o fosse, em algum dos seguintes dias. Mas, nem
quis dar esperanças que os acontecimentos podiam dissipar, nem o coração lhe consentia mais larga confidência. Ambos eles
viam que se detestavam cordialmente; mas, se em Helena havia cólera abafada, em Camargo havia tranqüilidade e observação.
Ele contemplava a moça, com o olhar fixo e metálico dos gatos; a mão esquerda, pousada sobre o joelho, rufava com os
dedos magros e peludos. Nada dizia; todo ele era uma interrogação imperiosa. Helena olhou ainda uma vez para o médico.

— Dá-me o seu braço até à sala? perguntou.

Camargo sorriu.

— Só isso? Eu dizia comigo outra cousa.

— Que dizia então? perguntou Helena.

— Dizia que muito se devia esperar da dedicação de uma moça, que acha meio de visitar às seis horas da manhã uma casa
velha e pobre, não tão pobre que a não adorne garridamente uma flâmula azul...

Helena fez-se lívida; apertou nervosamente o pulso de Camargo. Nos olhos pareciam falar-lhe ao mesmo tempo o terror, a
cólera ea vergonha. Através dos dentes cerrados Helena gemeu esta palavra única:

— Cale-se!

— Falo entre nós e Deus, disse Camargo.

Uma onda de sangue invadiu a face da moça, com a mesma rapidez com que ela lhe empalidecera. Helena quis erguer-se,
mas sentiu-se exausta. Ninguém da sala pôde perceber a impressão e o movimento; ninguém olhava para ali. Camargo,
entretanto, inclinou-se para Helena e proferiu algumas palavras de animação, que ela interrompeu, murmurando com amargura:

— O senhor é cruel!

— Sou pai, respondeu o médico; pai extremoso e discreto, mais discreto ainda que extremoso. Conto com a senhora.

CAPÍTULO XIII

DISSOLVIDA a reunião, Helena recolheu-se à pressa como pretexto de que estava a cair de sono, mas realmente para dar à
natureza o tributo de suas lágrimas. O desespero comprimido tumultuava no coração, prestes a irromper. Helena entrou no
quarto, fechou a porta, soltou um grito e lançou-se de golpe à cama, a chorar e a soluçar.

A beleza dolorida é dos mais patéticos espetáculos que a natureza e a fortuna podem oferecer à contemplação do homem.
Helena torcia-se no leito como se todos os ventos do infortúnio se houvessem desencadeado sobre ela. Em vão tentava abafar
os soluços, cravando os dentes no travesseiro. Gemia, intercortava o pranto com exclamações soltas, enrolava no pescoço os
cabelos deslaçados pela violência da aflição, buscando na morte o mais pronto dos remédios. Colérica, rompeu com as mãos
o corpinho do vestido; e o jovem seio, livre de sua casta prisão, pôde à larga desafogar-se dos suspiros que o enchiam.
Chorou muito; chorou todas as lágrimas poupadas durante aqueles meses plácidos e felizes, leite da alma com que fez calar a
pouco e pouco os vagidos de sua dor.

Calar somente, não adormecê-la, porque ela aí lhe ficou, companheira daquela noite cruel, para velarem ambas. Quando os
olhos cansaram, e foram mais intervalados os soluços, Helena jazeu imóvel no leito, com o rosto sobre o travesseiro, fugindo
com a vista à realidade exterior. Uma hora esteve assim, muda, prostrada, quase morta, uma hora longa, longa, longa, como só
as tem o relógio da aflição e da esperança.

Quando a tormenta pareceu extinta, a moça sentou-se na cama e olhou vagamente em torno de si. Depois ergueu-se;
dirigiu-se trôpega ao quarto de vestir; ali parou diante do espelho, mas fugiu logo, como se lhe pesasse encarar consigo
mesma. Uma das janelas estava aberta; Helena foi ali aspirar um pouco do ar da noite. Esta era clara, tranqüila e quente. As
estrelas tinham uma cintilação viva que as fazia parecer alegres. Helena enfiou um olhar por entre elas como procurando o
caminho da felicidade. Esteve à janela cerca de meia hora; depois entrou, sentou-se e escreveu uma carta.

A carta era longa, escrita a golfadas, sem nexo nem ordem; continha muitas queixas e imprecações, ternura expansiva de
mistura com um desespero profundo; falava daqueles que, tendo nascido sob a influência de má estrela, só tem felicidades
intermitentes e mutáveis; dizia que para ela própria felicidade era um gérmen de morte e dissolução, — idéia que repetia três
vezes, como se tal observação fosse o transunto de suas experiências certas. A carta falava também de um homem, cujo
egoísmo de pai não conhecia limites, e que a todo o transe queria que a filha desposasse uma grande riqueza e uma grande
posição, — "homem, dizia ela, que me viu a princípio com olhos avessos, pela diminuição que eu trazia à herança". No fim
dizia que havia naquelas linhas muito de obscuro e incompleto, que oportunamente contaria tudo, mas que desde já podia dar a
triste notícia de que lhe era forçoso abster-sede sair.

Helena releu o escrito e meditou longo tempo sobre ele; acrescentou ainda algumas linhas; depois, rasgou o papel em dous
pedaços, chegou-os à vela, e os destruiu. Como arrependida, voltou a escrever outra carta, mas não chegou a acabar seis
linhas; rasgou-a como fizera à primeira,e só então recorreu ao remédio melhor de uma alma ulcerada e pia: rezou. A prece é a
escada misteriosa de Jacó: por elas o bem os pensamentos ao Céu; por ela desce mas divinas consolações.

Entretanto, a noite começava a inclinar a urna das horas às mãos da madrugada. O sono fugira dos olhos de Helena; mas
era forçoso repousar. Assim mesmo vestida, atirou-se sobre o leito. Não dormiu, não se pode dizer que dormisse; ficou ali
num estado que não era vigília nem sono, até que a manhã rompeu inteiramente. Abrindo os olhos, pareceu acordar de um
sonho; a imaginação recompôs as fases todas do acontecimento da véspera. Depois suspirou, e ficou longo tempo a olhar para
o chão, com a fixidez trágica e solene da morte.

"Era justo!" murmurava de quando em quando.

Levantou-se enfim; levantou-se abatida e cansada. Viu-se ao espelho; a descor da face e a linha roxa que lhe circulava as
pálpebras dificilmente podiam deixar de impressionar a família. Helena disfarçou como pôde esses vestígios da tempestade;
explicou-os do modo mais verossímil: o cansaço da véspera e a insônia de toda uma noite. A explicação não achou obstáculo
no ânimo da tia e do irmão. Somente o Padre Melchior, presente a ela, fitou na moça um olhar dubitativo, que a obrigou a
baixar os cílios.

Se Helena padecia, o lugar de Estácio não era ao pé dela? Assim pensou o sobrinho de D. Úrsula, que em todo esse dia
resolveu não sair de casa. Cercou-a de cuidados, buscou distraí-la, pediu-lhe que fosse repousar um instante. Para justificar a
explicação que dera, Helena obedeceu às instruções do irmão. Este foi encerrar-se no gabinete, onde se ocupou em examinar
e colecionar alguns papéis. Era o dia marcado para solicitar de Eugênia o consentimento matrimonial, e ele não cogitava em ir
ao Rio Comprido. Na irmã, sim; na irmã pensava ele, ora relendo as páginas de sua predileção, ora mandando saber se
dormia sossegada,ora contemplando o desenho com que ele o presenteara na véspera. Sentia-setão feliz naquela aurora do
ano.

Pouco antes do jantar, ouviu no corredor um rumor de saias, e não tardou que a irmã aparecesse à porta. Vinha como fora;
mas a Estácio pareceu que efetivamente o descanso e o sono lhe haviam restaurado as forças. A razão era o sorriso estudado
que lhe avivava o rosto. Helena parou e Estácio foi ter com ela, travou-lhe da mão, fê-la entrar.

— Estás melhor? perguntou.

— Estou boa.

— Não dizia eu que era melhor desistir da idéia da reunião? Essas festas prolongam-se, fatigam, sobretudo as pessoas
franzinas...

Helena ergueu os ombros.

— Anda sentar-te um pouco.

— Primeiro há de responder-me a uma cousa.

— Que é?

— Que dia é hoje? perguntou ela.

— Ano-bom.

— Lembra-se do que me prometeu?

— Perfeitamente. Vês estes papéis? disse ele mostrando sobre a secretária uma porção de papéis classificados e postos
por ordem. Ocupei-me até agora em liquidar o passado; faltam-me umas últimas contas, que o procurador há de trazer
amanhã. Depois, irei...

Helena abanou a cabeça com ar de desaprovação.

— Não, disse ela; não há de ir depois, há de ir hoje mesmo. Que têm as contas com a autorização que deve pedir a
Eugênia? Vá logo de noite. Sou supersticiosa; creio que o pedido feito no dia de hoje é de excelente agouro. Dará um ano
feliz.

— Minha intenção era ir dentro de quatro ou cinco dias, respondeu Estácio, depois de um silêncio; mas não tenho dúvida
em fazê-lo já. Uma vez preenchida a formalidade...

— Pedi-la-á imediatamente ao pai?

— Não!

— Por quê?

— Porque precisarei meditar ainda vinte e quatro horas, pelo menos. Vinte e quatro horas não é muito para quem tem de
amarrar-se eternamente. Quero sondar o meu próprio espírito, e...

— Mas tudo isso é uma extravagância! interrompeu Helena sentando-se na borda da rede em que Estácio costumava ler.
Pretenderá você recuar depois de lhe falar, a ela?

— Oh! não! Mas, uma vez que caminho para a solução tão grave, não há inconveniente em ir pé ante pé. Admiras-te?
perguntou ele, vendo que a irmã fazia um gesto de impaciência.

— Zango-me.

— Mas...

— Você é insuportável. Falta ao que prometeu.

— Já disse que hei de cumprir.

— Não recuará?

— Não.

— Irá pedi-la hoje mesmo?

— A ela.

— A ela e ao pai.

— Ao pai escreverei uma carta.

— Pois seja uma carta! Contanto que acabe com isso. O casamento será...

— Quando convier ao Dr. Camargo.

— Antes do fim do mês.

— Tão cedo!

— Dou-lhe mês e meio. Nem uma hora a mais! Estou morta por vê-los casados, tanto por você como por ela, coitada! que
o ama tanto...

— Crês? Perguntou vivamente Estácio.

— Se creio! Posso afirmá-lo. Não será amor como você quisera que fosse, mas é o amor que ela lhe pode dar, e é muito...
Está dito! Palavra?

Estácio estendeu silenciosamente a mão, que Helena apertou.

— Vou confiar todo o meu destino à cabeça mais leve do universo, disse Estácio, com os olhos fitos no chão. Não é de seu
coração que me queixo; mas de seu espírito, que nunca deixou as roupas da infância. Demais, à medida que me aproximo da
hora solene, sinto que me repugna o estado conjugal. É tão boa a minha vida de solteiro! tão cheios os meus dias...

Helena tapou-lhe a boca com uma das mãos; com a outro fez-lhe um gesto para que se calasse. Depois, fugiu. Uma vez só,
Estácio refletiu longamente na situação em que se achava; reconheceu que estava moralmente obrigado a pedir Eugênia, desde
que seus corações se tinham aberto um para o outro, celebrando um contrato, que ele só não podia romper. A consciência
rebelou-se contra as irresoluções do coração, e a decisão foi curta.

Naquela mesma noite, ouviu Eugênia a esperada palavra. A alegria que se lhe derramou nos olhos, foi imensa e
característica. Um pouco mais de recato não era descabido em tal ocasião. Não houve nenhum; o primeiro ato da mulher foi
uma meninice. Eugênia ignorava tudo, até a dissimulação do sexo. Concedendo a mão a Estácio, não era uma castelã que
entregava o prêmio, mas um cavaleiro que o recebia com alvoroço e submissão.

Transposto a Rubicon, não havia mais que caminhar direito à cidade eterna do matrimônio. Estácio escreveu no dia seguinte
uma carta ao Dr. Camargo, pedindo-lhe a mão de Eugênia, carta seca e digna, como as circunstâncias a pediam. Antes de a
remeter, mostrou-a a Helena, que recusou lê-la. Não a leu, nem lhe pegou. Ele teve-a alguns instantes na mão, sem se atrever
e dá-la ao escravo que esperava por ela. Por fim, deitou-a sobre a secretária.

— Amanhã, disse ele sorrindo para Helena.

Helena lançou mão da carta e deu-a ao escravo.

— Leva à casa do Sr. Dr. Camargo, ordenou a moça. Não tem resposta.

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