Facebook do Portal São Francisco Google+
+ circle
Home  Helena Machado De Assis - Página 5  Voltar

Helena

Machado de Assis

CAPÍTULO XIV

CAMARGO ia sentar-se à mesa quando lhe entregaram a carta de Estácio; leu-a para si, mas a filha leu-a nos olhos dele.
Uma aura de bem-aventurança desrugou a fronte do médico; seus lábios – cousa pasmosa! – abriram-se num sorriso franco,
sorriso que chegou a desabrochar em gargalhada, a primeira que D. Tomásia lhe ouviu. Acabado o jantar, Camargo deu conta
do pedido à mulher, e os dous pais chamaram a filha à sala. Eugênia ouviu a notícia sem baixar os olhos nem corar.
Interrogada, respondeu que era muito do seu gosto o casamento.

— Sim? perguntou Camargo, simulando espanto.

Eugênia fez uma leve inclinação de cabeça, com certo ar de quem dizia não acreditar no espanto do pai. Este pegou nas
mãos da filha e puxou-a para si.

— Assim, pois, meu anjo, disse ele, casas-te por tua livre vontade? Estácio é o eleito de teu coração? Louvo a escolha, que
não podia ser mais digna. Serás herdeira das virtudes de tua mãe, que te proponho como o melhor modelo da Terra.

— O mais conscencioso pelo menos, acudiu D. Tomásia, satisfeita e vaidosa do louvor do marido. Há de ser boa esposa,
modesta, solícita e econômica.

— Econômica, sem avareza, emendou Camargo. A riqueza não deve ser dissipada, mas é certo que impõe obrigações
imprescindíveis, e seria da maior inconveniência viver a gente abaixo de seus meios. Não farás isso nem cairás no extremo
oposto; procura um meio-termo, que é a posição do bom senso. Nem dissipada, nem miserável.

D. Tomásia concordou com esta explicação do marido, enquanto Eugênia, olhando alternadamente para um e outro,
parecia não lhes dar a mínima atenção. O pensamento estava em Andaraí; ela via já na imaginação a cerimônia do consórcio,
as carruagens, o apuro do noivo, a sua própria graça, a coroa de flores de laranjeira, que a havia de adornar; enfim talhava já
o vestido branco e pregava as rendas de Malines com que havia de levar os olhos a ambas as metades do gênero humano.
Daquele sonho foi despertada pelo pai, que lhe imprimiu na testa o seu segundo beijo. O primeiro, como o leitor se há de
lembrar, foi dado na noite da morte do conselheiro. O terceiro seria provavelmente no dia em que ela se casasse.

— Sabes que te amo, Eugênia? disse Camargo olhando para ela.

— Papai!

Camargo não pôde dizer mais nada. O amor, um instante expansivo, volveu a aninhar-se no fundo do coração, onde
sempre estivera. A satisfação do médico precisava do silêncio e do recolhimento para saborear-se. Foi então que Eugênia
passou às mãos de D. Tomásia. A mulher do Dr. Camargo via aquele casamento com olhos diferentes do marido. O que ela
sobretudo via, eram as vantagens morais da filha. Sentou-a ao pé de si e recitou-lhe um catecismo de deveres e costumes, que
Eugênia interrompia de quando em quando, com exclamações de obediência filial:

— Sim, mamãe!... Deixe estar!... Mamãe há de ver!...

D. Tomásia sentia-se feliz. O rosto, cuja expressão era vulgar, tinha naquela ocasião alguma cousa que o tornava sublime.
Ela fez que a filha se lhe sentasse no regaço; e esta, sentindo que a molestava, deixou-se lentamente cair de joelhos, ficando
entre os dela, a olhar para ela.

Camargo, entretanto, já não era daquele mundo. Passeava de um para outro lado, com as mãos para trás, a morder a
ponta do bigode. De quando em quando parava e olhava para o grupo das duas senhoras, mas era só maquinalmente; o seu
olhar baço indicava que ele ia mergulhando em profundas cogitações.

Naquele homem céptico, moderado e taciturno, hvia uma paixão verdadeira, exclusiva e ardente: era a filha. Camargo
adorava Eugênia: era a sua religião. Concentrara esforços e pensamentos em fazê-la feliz, e para o alcançar não duvidaria
empregar, se necessário fosse, a violência, a perfídia e a dissimulação. Nem antes nem depois sentira igual sentimento; não
amou a mulher; casou porque o matrimônio é uma condiçãode gravidade. O maior amigo que teve foi o Conselheiro do Vale;
mas essa mesma amizade que o ligara ao pai de Estácio, nunca recebera a contraprova do sacrifício; aliás apareceria en toda a
sinceridade a natureza do médico. Ele só conhecia os afetos, por assim dizer, caseiros e inertes, os que não sabem nem podem
afrontar as intempéries da vida. Nas relações morais dos homens possuía somente o troco miúdo da polidez; a moeda de ouro
dos grandes afetos nunca lhe entrara nas arcas do coração. Um só existia ali: o amor de Eugênia.

Mas esse mesmo amor, aliás violento, escravo e cego, era uma maneira que o pai tinha de amar-se a si próprio. Entrava
naquilo uma soma larga de fatuidade. Menos graciosa, Eugênia seria, talvez, menos amada. Ele contemplava-a com o mesmo
orgulho com que o joalheiro admira o adereço que lhe saiu das mãos. Era a ternura do egoísta; amava-se na própria obra.
Caprichosa, rebelde, superficial, Eugênia não teve a fortuna de ver emendados os defeitos; antes foi a educação que lhos deu.
dos lábios de Camargo nunca saiu a espressão corretiva; nenhum de seus atos revelou esse procedimento vigilante e diretor,
que é a nobre atribuição da paternidade. Se a índole da filha fosse má, a cumplicidade do pai fá-la-ia péssima.

Não era, felizmente; o coração conhecia as doçuras da bondade; a rebeldia era um hábito, não um vício nativo. A própria
frivolidade foi-lhe desenvolvida pela educação, nada podendo o zelo da mãe contra as complacências do pai. Esta era a
explicação também da fascinação que exercia nela o tumulto exterior da vida. Quase se pode dizer que ela não conhecera o
vestido curto; a modista a desmamou; uma contradança foi a sua primeira comunhão.

Não era fácil dar a Eugênia a felicidade que o pai ambicionava e a que mais lhe apetecia a ela. Posto não fosse perdulário,
eram poucos os haveres do médico, de modo que a filha não podia caber pecúlio suficiente a satisfazer todas as veleidades.
Ele espreitou durante longo tempo um noivo, armando com algum dispêndio a gaiola em que o pássaro devia cair. No dia em
que percebeu a inclinação de Estácio, fez quanto pôde para prendê-lo de vez. Esperou muitos meses a iniciativa de Estácio; e
quando ela lhe entrou a fugir para a região das coisas problemáticas, suspeitou a influência de Helena. Já era muito que esta
moça diminuísse a herança do futuro genro; arrancar-lhe o genro era demais. Camargo não hesitou um instante, foi direito ao
fim. O resultado confirmou-lhe a suspeita.

O casamento era muito, mas não bastava. Camargo cuidara na carreira política de Estácio, como um meio de dar certo
relevo público ao da filha, e, por um efeito retroativo, a ele próprio, cuja vida fora tanto ou quanto obscura. Se o marido de
Eugênia se confinasse no repouso doméstico, entre a horta e a álgebra, a ambição de Camargo padeceria imenso. Vimo-lo
apresentar a Estácio a maçã política; recusada a princípio, foi-lhe de novo apresentada, e finalmente aceita com a noiva. Esta
dupla vitória foi o momento máximo da vida do médico. Ele ouvia já o rumor público; sentia-se maior, — antegostava as
delícias da notoriedade, — via-se como que sogro do Estado e pai das instituições.

— Vou entrar na cova dos leões, sem a convicção de Daniel, suspirou Estácio na ocasião em que cedeu às instâncias de
Camargo.

— Seu talento amansará os leões, acudiu este.

Assentou-se logo ali que o casamento seria celebrado na primeira semana de março. Os dois meses de intervalo foram
destinados às formalidades eclesiásticas e ao preparo do enxoval. Estácio aceitou tudo sem objeção. D. Úrsula e Helena
aprovaram o plano. A primeira acrescentou uma cláusula: — os noivos viriam morar com elas em Andaraí.

O padre Melchior, consultado sobre o casamento, deu-lhe inteira aprovação, e só lhe pareceu que o prazo era longo
demais. A efusão com que abraçou Estácio, as palavras de aplauso que lhe disse, impressionaram vivamente o mancebo.

— Desejava muito este casamento? perguntou ele.

— Muito! Seu pai há de aprová-lo no céu!

Até os mortos conspiravam contra ele; Estácio aceitou resolutamente o destino. A alegria do padre, ordinariamente contida
e digna, transpôs os limites do costume, para se mostrar quase infantil; D. Úrsula não cabia em si de contente; Helena parecia
colher naquele casamento a sua própria felicidade. Era a bem-aventurança universal que Estácio ia comprar a troco de um
vínculo eterno.

Surgiu, entretanto, um obstáculo temporário. A madrinha de Eugênia, a fazendeira que lhe mandara um dia a opala, que a
moça admirou namorando ao mesmo tempo os olhos do futuro noivo, a madrinha de Eugênia adoeceu gravemente, menos
ainda da moléstia que a acometeu que dos anos que lhe pesavam nos ombros. Era senhora rica, viúva, flanqueada por duas
sobrinhas solteiras, uma cunhada, um primo, dois filhos destes e uma vintena de afilhados. Já daqui se pode inferir a estreiteza
das esperanças de Camargo. Posto que ele não tivesse nunca preterido os deveres que lhe impunha o vínculo espiritual, dando
à fazendeira todas as provas possíveis de um grande afeto, ainda assim era de recear que a última vontade da moribunda não
trouxesse o cunho da estrita justiça, ou, quando menos, de razoável eqüidade. Nestas circunstâncias, a viagem a Cantagalo era
urgentíssima, e cumpria realizá-la à custa dos maiores incômodos. Todo o incômodo é aprazível quando termina em legado.
Camargo não perdia a esperança desse desenlace igualmente afetuoso e pecuniário. Resolveu ir com a família toda, e avisou
por carta ao futuro genro.

Estácio estimou o obstáculo, mas não contou com o que ele trazia no bojo. Chegando ao Rio Comprido achou aflitos o
médico e D. Tomásia; Eugênia recusava sair da Corte. Em vão lhe mostravam a conveniência de corresponder, em ocasião tão
grave, à afeição da madrinha; debalde lhe diziam que era ser ingrata não ir recolher o último suspiro da venerável senhora, sua
mãe espiritual. Eugênia recusava a pés juntos.

Assistiu o noivo à última fase da luta entre os pais e a filha. Esta trazia os olhos vermelhos de chorar; batia com as mãos uma
na outra, declarando que só iria à força. Estácio procurou chamá-la à razão, apoiando as reflexões do pai, sem alcançar mais
do que ele. Enfim, Eugênia pôs uma condição à sua aquiescência:

— Irei, se o Dr. Estácio for conosco.

Camargo aprovou a condição in petto; verbalmente, opôs-se ao sacrifício. Estácio enfiara; posto entre a espada e a
parede, já a viagem de Eugênia lhe parecia supérflua.

— Acompanha-nos? insistiu a moça.

— Não é possível, acudiu o médico, tamanho incômodo por um simples capricho...

— Pois então não vou!

D. Tomásia ficou um tanto vexada com a teima de Eugênia. Estácio mordia o lábio, olhando para a moça, cujo rosto o
interrogava instantemente. Venceu-o o decoro; considerando Eugênia sua mulher, quis cortar por uma cena que lhe parecia
ridícula.

— Acompanhá-los-ei, disse ele, sem entusiasmo.

A solução era favorável a todos; os três aceitaram de boa feição. Marcou-se a viagem para dois dias depois. D. Úrsula,
apesar dos bons olhos com que via o casamento, achou desnecessária a ida do sobrinho, mas não empreendeu dissuadi-lo.
Helena aprovou tudo. Ele fez sentir às duas parentas a extensão do sacrifício, e esteve a ponto de retirar a palavra. Era tarde.
A última noite passada em Andaraí foi cruel para ele; as horas voaram ligeiras como nunca. Como devia sair no dia seguinte,
logo cedo, ali mesmo se despediu da tia e da irmã, despedida de alguns dias que lhe custou como se fora de anos. Prometeu,
entretanto, que o regresso seria breve.

O que ele não podia prometer era conjurar o drama que se lhes preparava, drama que ia enfim desenvolver-se, intenso,
funesto e irremediável, — do qual não o consolariam jamais nem as doçuras da paz doméstica, nem as glórias da vida pública.

CAPÍTULO XV

ESTÁCIO levantou-se ao amanhecer. Uma vez pronto, quis surpreender a tia e a irmã com uma lembrança sua, e escreveu
numa folha de papel estas simples palavras: "Até à volta; 6 horas da manhã." Dobrou-a e foi pô-la sobre a mesa de costura de
D. Úrsula. Dali passou à sala de jantar, depois à varanda. Aqui chegando, deu com os olhos em Helena, que o esperava ao pé
da escada.

— Silêncio! disse graciosamente a moça. Não faça espantos, que pode acordar titia. Vim saber se você precisa de alguma
coisa.

— De nada, respondeu Estácio comovido. Mas que imprudência foi essa de se levantar tão cedo?

— Cedo! O sol não tarda a cumprimentar-nos. Adeus! muitas recomendações a Eugênia. Não lhe falta nada, não é assim?

— Nada.

Estácio recebeu a mão que Helena lhe estendera e ficou a olhar para ela.

— Olhe que é tarde!

Dizendo isto, Helena apertou-lhe a mão e procurou retirar a sua; Estácio reteve-a.

— Se soubesses como me custa ir!

— São apenas alguns dias...

— Valem por meses, Helena! Adeus, não te esqueças de mim. Escreve-me; eu escreverei logo que chegar. Não faças
imprudências não saias a passeio enquanto eu estiver ausente.

— Adeus!

— Adeus!

Estácio quis dar-lhe o abraço da despedida; mas a moça, menos ainda com a palavra que com o gesto, fê-lo recuar.

— Não, disse ela afastando-se; as despedidas mais longas são as mais difíceis de suportar.

Recuou até à porta da sala de jantar, fez um gesto de despedida e entrou. Estácio desceu a custo as escadas. Helena viu-o
descer e sair; depois subiu cautelosamente ao seu aposento. Ali sentou-se alguns minutos, pensativa e triste. Ergueu-se enfim,
vestiu rapidamente as roupas de montar; colocou o chapelinho preto sobre os cabelos penteados à ligeira, e desceu. Na
chácara esperava-a Vicente, com a égua ajaezada e pronta. Helena montou sem demora; o pajem cavalgou uma das duas
mulas que havia na cavalariça e os dois saíram a trote na direção da casa do alpendre e da bandeira azul.

A casa estava ainda silenciosa; porta e janelas conservavam-se hermeticamente fechadas. Helena apeou-se e bateu de
mansinho; repetiu as pancadas progressivamente mais fortes. Ninguém lhe respondeu. Helena impaciente rodeou a casa; mas,
parece que achou igualmente fechadas as portas do fundo, porque volveu logo. Colou o ouvido à porta e esperou. Quando lhe
pareceu que era baldado o esforço, tirou da algibeira um lápis e um pedacinho de papel; colocou o pé no degrau de tijolo e
sobre o joelho escreveu algumas palavras; dobrou depois o papel e introduziu-o por baixo da porta. Esperou ainda alguns
minutos, caminhou para a égua, montou e regressou a casa.

Vinha triste e pensativa. A égua, a passo vagaroso, não sentia o esforço da cavaleira, que a deixava ir, frouxa a rédea, inútil
o chicote. O pajem levava os olhos na moça com um ar de adoração visível; mas, ao mesmo tempo, com a liberdade que dá a
confiança e a cumplicidade fumava um grosso charuto havanês, tirado às caixas do senhor.

D. Úrsula não estava ainda levantada; Helena não lhe ocultou o passeio. O dia correu triste e solitário, como os seguintes,
sem embargo da companhia que iam fazer às duas senhoras as pessoas mais íntimas. Mendonça, a quem Estácio as
recomendara, era ali pontual; conseguia disfarçar um pouco as saudades do moço ausente. O padre Melchior prolongava
visitas quotidianas. O mesmo sentimento ligava a todas as pessoas.

O mesmo era, e não único, porque outro e mais egoísta e pessoal veio ali viçar também. Mendonça sentiu que metade de
seu destino estava acabada, e que a outra metade ia começar, mais circunspecta que a primeira. O relógio em que ele viu bater
essa hora fatídica, foram os olhos de Helena. Mendonça começava a amar. Estouvado, e não corrupto, atravessara o delírio
dos primeiros anos sem perder a flor dos castos afetos, sem sequer a haver colhido. Helena sentiu nascer e crescer essa
adoração silenciosa, sem parecer que a descobrira. Não animou o mancebo nem o repeliu; redobrou de confiança, — dessa
confiança que só se dá aos simples familiares, e que mostra claramente a um namorado a inanidade de suas esperanças. Ao
parecer de estranhos, a situação afigurava-se de perfeita concórdia. O coronel-major piscou um dia os olhos ao Dr. Matos; o
Dr. Matos proferiu um — latet anguis in herba — e ambos foram repartir o pão das conjeturas com a esposa do advogado,
senhora muito perspicaz nos namoros de salão. A opinião dos três é que o casamento era coisa provável, e talvez certa. Um
só obstáculo podia haver; eram os escrúpulos do pai de Mendonça. Esse mesmo obstáculo não existia, porquanto, além das
qualidades estimáveis da moça, havia o reconhecimento legal e social, público e doméstico; acrescendo (observação do Dr.
Matos) que duzentas e tantas apólices mereciam um cumprimento de chapéu e não davam lugar a cinco minutos de reflexão.

As primeiras cartas de Estácio chegaram uma tarde em que as duas senhoras e Mendonça se achavam na varanda, acabado
o jantar, bebendo as últimas gotas de café. D. Úrsula, depois de por em atividade três mucamas para lhe irem procurar os
óculos, levantou-se e foi ela própria à cata deles, com a sua carta na mão. Helena ficou com a que lhe era dirigida; estava
sentada junto a uma das janelas, abriu-a e leu-a para si:

Quando esta carta te chegar às mãos, estarei morto, morto de saudades de minha tia e de ti. Nasci para os meus, para a minha casa, os meuslivros, os meus hábitos de todos os dias. Nunca o senti tanto como agora que estou longe do que há mais caro neste mundo. Poucos dias lá vão, e já me parecem meses. Que seria se a separação não fosse tão limitada?
Na carta que escrevo a titia dou conta da nossa viagem e da saúde de todos. D. Clara está, na verdade, à beira da morte; mas pode durar ainda
alguns dias, e o Dr. Camargo resolveu esperar até dar-lhe os últimos adeuses. A recepção que nos fez a família foi cordialíssima. Há aqui uma
cunhada da enferma, um primo, três sobrinhos, outros parentes e vários afilhados. O primo é comendador e tenente-coronel; ele e os outros são
a gente mais afável do mundo. Os homens da família são influências eleitorais; quando souberam da minha candidatura, ofereceram-me logo os
seus serviços, com a cláusula única de que haja prévia recomendação do Rio de Janeiro. Agradeci o favor, com muita abundância d’alma,
porque a tal candidatura, que não me seduzia nem seduz, não há remédio senão cuidar dela, de modo que o meu nome não padeça a injúria da
derrota. Que te parece esta pontazinha de vaidade?
Mudemos de assunto, que este me aflige, e não quero filosofar sem ti, que és a minha companheira nestas vadiações de espírito. Aí não te
lembrarás, talvez, das nossas palestras; aqui lembra-me tudo. De manhã, dou o meu passeio eqüestre, como lá; mas que diferença! Quem vai a
meu lado é o tenente-coronel, excelente homem, coração de pomba, com o defeito único e enorme de se não chamar D. Helena do Vale, a minha
boa Helena, que lá está na Corte, a divertir-se sem seu irmão. Ele fala de tudo e muito: do café, do governo, das eleições, dos escravos, dos
impostos. Eu ouço, que é o menos que posso fazer, e deixo-o ir sem interrupção. Às vezes, como que desconfiado, recolhe-se ao silêncio; eu ato
o fio da conversa e ele encarrega-se de desenrolar o novelo. Tão pouca coisa o faz feliz! Já cacei uma vez; confesso-te que é o que me pode
distrair um pouco. Pensava ter perdido o costume; mas não perdi. A modéstia impede-me dizer mais.
A fazenda é vasta e a casa excelente. Não te direi que gosto da vida agrícola; não gosto, não me dou com ela. Mas viver num recanto como
este, a dois passos do mato, a tantas léguas da rua do Ouvidor, isso creio que se dá com a minha índole. Consultaremos titia. Eu não sei o que é
amar o tumulto exterior; acho que é dispersar a alma e crestar a flor dos sentimentos. Nasci para monge... e creio que também para déspota,
porque estou a planear uma vida ignorada e deserta, sem consultar tuas preferências. Sou um Cromwell com tendências de frade; ou, por dizer
tudo numa só palavra: sou um Lutero... muito inferior.
Pobre Helena! Já lá vão quatro páginas só a falar de mim. Vejamos o que tens feito. Andas muito triste? passeias? lês? jogas? tocas?
Conta-me a tua vida o mais miudamente que puderes. Conta-me a vida de todos. Não me escondas nada; se, por exemplo, ao abrir um livro ou
tocar uma tecla do piano, pensares em mim, escreve isso mesmo, marcando o dia e até a hora, se puder ser. E depois dou-te o direito de
perguntar onde ficou a minha gravidade, e responderei que há uma puerilidade séria, e que os extremos se tocam. Quando assim não seja, a
culpa é do céu, que me não deu uma irmã criança; agora é preciso que comecemos pela primeira fase da vida.
Deixei muito recomendado ao Mendonça que fosse à nossa casa com freqüência. Não sei se ele se terá lembrado e cumprido a promessa que
me fez. Se não tiver cumprido, hás de mandar-lhe dizer que eu o detesto e abomino; que ele é o maior traidor que o céu cobre; que tudo fica
acabado entre mim e ele; que a amizade é um culto, etc. Dize o que te parecer e pelo modo que te é usual.
Lembro-me de ti a propósito de tudo. Hoje de tarde, por exemplo, o terreiro oferecia um aspecto bonito e característico. Se ela estivesse aqui,
disse comigo, faria um magnífico desenho. Peguei de um lápis que trouxe, meia folha de papel, e quis reproduzir o panorama. Escrevi um
problema algébrico! Foi um conselho que me deu o lápis: ninguém se meta a fazer aquilo que ignora. Eu ignorava o que era estar ausente da
família; por que motivo me determinei a tentá-lo?
Interrompi esta carta para receber o Dr. Fróis, que é o médico de D. Clara; veio ao meu quarto para me dizer que o estado da doente é perdido,
que a morte é certa; mas que a vida pode prolongar-se ainda por muitos dias. Vê que perspectiva! Estou com raiva de mim mesmo; esses últimos
dias da enferma pesam sobre mim como se fora o punho fechado do destino. Se a morte é certa, por que viver alguns dias mais? E é vida isso,
ou é morrer aos goles, sem consciência do que se perde nem do que se vai ganhar?
Está decidido; posso ir daqui a seis dias ou daqui a um mês. Será o que Deus quiser. Manda-me, entretanto, alguns livros. No meu quarto só
achei um Manual de medicina prática. Manda-me alguma coisa que me faça lembrar o Andaraí. Tira da estante oito ou dez volumes, à tua
escolha. Manda também algum trabalho de agulha teu; quero mostrá-lo à cunhada de D. Clara, a quem gabei muito os teus talentos. Se puderes
desenhar alguma coisa, à pressa, o tanque, a varanda ou qualquer outro lugar, faze-o, e manda com o resto. Escreve-me longamente; conta-me
tudo o que houver interessante; fala-me de ti, que é o meio de consolar minhas saudades, que são imensas, imensas como este amor que tenho
à minha família toda. Vou fazer por voltar breve. Adeus, minha boa Helena; adeus, minha vida, adeus, ó mais bela e doce de todas as irmãs!

P.S. Reli a carta, e fiquei envergonhado do trecho a respeito da vida da doente. Perdoa-me a ferocidade, e leva-a em conta da solidão.

CAPÍTULO XVI

HELENA leu e releu a carta. Depois ficou silenciosa, a olhar para as folhas da trepadeira, que do lado de fora viera a subir
pela muralha da varanda e a debruçar-se enfim do parapeito para dentro. A carta ficara aberta sobre os joelhos da moça.
Mendonça, a poucos passos, olhava para esta, sem ousar falar-lhe.

Goethe escreveu um dia que a linha vertical é a lei da inteligência humana. Pode dizer-se, do mesmo modo, que a linha curva
é a lei da graça feminil. Mendonça o sentiu, contemplando o busto de Helena e a casta ondulação da espádua e do seio,
cobertos pela cassa fina do vestido. A moça estava um pouco inclinada. Do lugar em que ficava, Mendonça via-lhe o perfil
correto e pensativo, a curva mole do braço, e a ponta indiscreta e curiosa do sapatinho raso que ela trazia. A atitude convinha
à beleza melancólica de Helena. O rapaz olhava para ela sem movimento nem voz.

A tarde expirava; a cor verde do morro fronteiro ia tomando o aspecto cinzento-escuro que precede a cor fechada da noite.
A própria noite desceu, e um escravo entrou na varanda a acender as duas lâmpadas que pendiam do teto. Esta circunstância
acordou a moça, e bastou-lhe voltar um pouco a cabeça para ver o amigo de Estácio a alguns passos de distância.

— Estava aí? perguntou Helena, estremecendo.

— D. Úrsula não voltou, respondeu Mendonça com timidez; não quis interromper a leitura que a senhora fazia.

— A leitura? A leitura acabou há muito tempo.

— Mas também se lê de cor.

Helena lançou-lhe um olhar suspeitoso.

— Não sei ler de cor, disse ela, erguendo-se e saindo da varanda.

Mendonça ficou aturdido. Que lhe dissera ele tão grave que a pudesse ofender? Repetiu as próprias palavras e não lhes
achou sentido mau. Certo, porém, de que a molestara, ali ficou aborrecido de si mesmo, desejoso de lhe explicar tudo, se
alguma coisa houvesse explicável. Após alguns instantes, resolveu entrar também. Entrou; Helena não estava nem na sala de
jantar, nem na do jogo, onde achou D. Úrsula com o Dr. Matos e o coronel-major. Dali passou à sala de visitas. Helena não o
viu entrar; estava mergulhada numa poltrona com a cabeça nas mãos. Comovido, deteve-se alguns instantes a contemplá-la;
depois caminhou para ela e falou-lhe.

Helena ergueu a cabeça.

— Perdoe-me, disse ele, se alguma coisa lhe disse que a magoou. Confesso que não sei o que poderia haver em minhas
palavras. Ficou triste por isso?

A moça cravou nele um olhar ainda suspeitoso, e não lhe respondeu logo. Mendonça adotou o melhor dos alvitres naquela
ocasião; inclinou-se e recuou para sair. Helena chamou-o; ele aproximou-se outra vez, com um ar de tão doce resignação que
lisonjearia o mais levantado orgulho. Helena estendeu-lhe a mão; ele apertou-a e teve ímpetos de a beijar uma e muitas vezes,
triunfando naquele único instante da hesitação de todos os dias; faltou-lhe resolução. Helena mostrou-lhe o trecho da carta em
que Estácio se referia a ele; falaram dos ausentes e dos presentes, de todos e de tudo, menos do assunto que exclusivamente
preocupava o moço. Ele saiu dali sem haver dito nada de seu coração. Chegando à rua, achou-se poltrão e ridículo, disse mil
nomes feios a si próprio; enfim, prometeu declarar tudo a Helena no dia seguinte.

No dia seguinte, que era domingo, Helena dirigiu-se à capela a ouvir a missa do padre Melchior. Acabada a cerimônia, não
seguiu para casa, com D. Úrsula, mas foi ter à sacristia, onde o padre acabava de tirar os paramentos. Melchior, logo que
soubera da carta de Estácio, nessa manhã, pedira a Helena que lha deixasse ver.

— Falam sempre ao coração as letras dos amigos, dissera ele.

Helena deu-lhe a carta, que o padre recebeu com uma expressão antes de curiosidade que de afeto. Leu-a vagarosamente,
como escrutando o sentido e as palavras; e sendo longa a epístola, longo foi o tempo que ele despendeu em a interpretar.
Durante esse tempo, Helena admirava-lhe a figura austera, a serenidade religiosa. A sacristia era pequena; duas altas janelas
deixavam entrar a luz, o ar e o aroma das folhas e das flores da chácara. Entre a cimalha e o telhado algumas andorinhas
haviam fabricado os ninhos, donde saíam, como pensamentos de juventude, a adejar ao sol da manhã. Ao pé daquele quadro
exterior de alegria e verdura, a sacristia tinha certo ar melancólico e severo, que lançava n’alma o esquecimento das
vicissitudes humanas. Helena deixou-se cativar desse sentimento de abstenção e elevação; se alguma dor ou remorso a
pungia, esqueceu-os, por um minuto ao menos, entre aquelas paredes desataviadas, diante de um padre, entre uma imagem de
Jesus e as obras vivas do Criador.

Lida a carta, Melchior dobrou-a com ar pensativo; depois entregou-a à moça.

— Já respondeu? perguntou ele.

— Já; trouxe-lhe a carta que vou mandar hoje mesmo.

Melchior abriu-a e leu; não gastou menos tempo, ainda que era de menores dimensões. O estilo era afetuoso, mas muito
menos exuberante que o da carta de Estácio. Ela contava-lhe, em suas feições gerais, a vida que ali passavam, desde que ele
partira, as ocupações de cada dia e as distrações da noite.

Vivemos, dizia a moça, como podem viver duas criaturas que sabem a afeição que lhes tem um parente amigo, ausente embora, mas não
esquecido, — nem ingrato. O padre Melchior, algum dos vizinhos, e o Dr. Mendonça são as nossas visitas habituais. Você sabe o que vale o
padre; é a mais bela alma que Deus mandou ao mundo. Os vizinhos são afáveis, como sempre. O Dr. Mendonça é verdadeiramente digno da
nossa afeição e confiança. Disse-lhe o que você me escreveu; ele riu, como homem seguro de escapar à punição.
Pena é que você tenha de se demorar aí tanto tempo; mas, se alguma esperança pode haver de salvar a doente, damo-nos por bem pagas da
demora. É verdade que você não é médico; mas há aí outra doente, para quem é, não só médico, mas até toda a medicina. Por que razão me não
escreveu Eugênia? Eu não cuidei que essa amiga me esquecesse na véspera de ser minha cunhada. Se estivéssemos mais perto, ia puxar-lhe as
orelhas. Diga-lhe isto; e se tiver ocasião de emprestar-me os seus dedos, aplique-lhe o castigo, declarando-lhe o delito cometido e o juiz que a
sentenciou.
O que você diz da vida solitária é muito justo, mas impraticável. Os amigos não nos iriam ver; e poderíamos nós dispensá-los? Tal é a opinião
de titia e a minha. O melhor de tudo é este meio-termo de Andaraí; nem estamos fora do mundo nem no meio dele. O ruído externo pode ter os
efeitos de que você fala; mas ele é às vezes preciso para aturdir e distrair o espírito. Também a solidão tem suas dores, e fundas; também ela
abala o coração. Nem um extremo nem outro.

A carta continha alguns períodos mais, não muitos; três ou quatro vezes falava em Eugênia, com tamanha insistência que
punha em relevo o silêncio a tal respeito conservado por Estácio; falava-lhe da beleza da noiva, do casamento próximo, do
amor que os faria felizes, e da ventura que ambos dariam a todos os seus.

Quando o padre acabou de ler a resposta, abriu os braços a Helena; depois abrangeu com as mãos a cabeça da moça e
contemplou-a durante alguns segundos.

— Toda a sua alma está nesse escrito, disse ele; vejo aí a reflexão e o afeto. Tanto melhor! Há contudo uma lacuna: não
transmite a seu irmão as minhas saudades; há também uma excrescência: louva méritos que não possuo. Embora! Mande-a...

— Escreverei duas linhas mais.

— Pois sim. Diga-lhe que se apresse, porque estou velho e posso morrer antes.

— Oh! protestou Helena.

Melchior olhou para ela silenciosamente.

— Crê que Estácio seja feliz? perguntou ele enfim.

— Creio.

— Também eu.

Outro silêncio. O primeiro que o rompeu foi o padre.

— Por que se não casa também? disse ele.

— Eu?

— Decerto. Pode ser que muito breve, talvez...

— Talvez nunca.

Melchior franziu a testa; a fisionomia, de ordinário meiga, tornou-se severa, como a consciência dele. O padre tinha uma das
mãos de Helena entre as suas; deixou-a insensivelmente cair. Entre os dois estabeleceu-se um silêncio que os acabrunhava e
que não ousavam romper; como subjugados por um mistério, receava cada um deles que o outro lho lesse na fronte;
instintivamente desviaram os olhos.

Melchior foi o primeiro que voltou a si. A reflexão corrigiu a espontaneidade, e o padre reassumiu o gesto usual, com essa
dissimulação que é um dever, quando a sinceridade é um perigo.

— Vamos lá, disse ele; ninguém pode decidir o que há de fazer amanhã; Deus escreve as páginas do nosso destino; nós não
fazemos mais que transcrevê-las na terra.

— É verdade! confirmou ela com um gesto de cabeça, e sem erguer os olhos.

— Amanhã, continuou o padre, o acaso, — isso a que os incrédulos chamam acaso, e que é a deliberação da vontade
infinita, — lhe apontará um homem digno da senhora, e seu coração lhe dirá: é este; e o suspiro desalentado de hoje
converter-se-á num olhar de graças ao céu. Ora, o que eu lhe peço, o que eu desejo, é que se apresse tanto que eu possa
casá-los...

— Oh! mas não vai morrer amanhã, interrompeu Helena.

— Estou velho, minha filha; estes cabelos brancos são já a neve desse mar polar para onde navegamos todos. Conto
sessenta anos. A morte pode colher-me um dia próximo...

— Vamos almoçar, disse Helena sorrindo.

Saíram da sacristia, atravessaram a capela, e penetraram na chácara. Na ocasião em que iam transpor a porta da capela,
viram Mendonça entrar em casa. Melchior estacou e olhou para Helena. Esta ia como acabrunhada e absorta. O gesto do
padre, quando ela lhe declarou que não se casaria talvez nunca, ficara-lhe gravado na memória, como um enigma, que talvez
receava decifrar. Poucos minutos eram passados; contudo, ela pôde refletir, e coligir os elementos de uma resolução.
Detendo-se, com o padre, à porta da capela, viu também entrar Mendonça. Os olhos da moça e do padre interrogaram-se de
novo, mas desta vez nenhum deles os desviou.

— Vê aquele homem? perguntou Helena. Parece-lhe que seria bom marido?

— Excelente, decerto, disse vivamente Melchior; caráter, educação, sentimentos...

— Tem ainda uma virtude particular: ama-me.

— Sei.

— Ele lho disse?

— Não, mas vê-se. É sabido de todos os que freqüentam esta casa. A probabilidade do casamento é objeto de
comentários, e a opinião geral é que ele se fará dentro de pouco tempo. Confessou-lhe alguma coisa?

— Nada; mas os olhos da mulher amada não são menos sagazes que os dos padres amigos. Acha que devo confirmar a
opinião dos outros?

— Acho; consulte, porém, seu coração.

— Já consultei.

— Neste único instante?

— Nada menos.

— Deveras? disse Melchior, derramando um olhar de paternal ternura no rosto sério de Helena.

— Não digo que o ame desde já; mas a afeição que ele me tem, refletirá em meu coração, e eu virei a amá-lo. O que
importa saber é que é digno de mim. De todos os que me pretendessem nenhum lhe seria superior.

— Ainda bem! Contudo, repare que vai contrair uma obrigação perpétua, e que um contrato destes não pode ser
deliberado em poucos instantes.

— Oh! nesse ponto a minha ignorância sabe mais do que a sua teologia. Que são minutos e que são meses? Paixões de
largos anos, chegando ao casamento, acabam muitas vezes pela separação ou pelo ódio, quando menos pela indiferença. O
amor não é mais que um instrumento de escolha; amar é eleger a criatura que há de ser companheira na vida, não é afiançar a
perpétua felicidade de duas pessoas, porque essa pode esvair-se ou corromper-se. Que resta à maior parte dos casamentos,
logo após os anos de paixão? Uma afeição pacífica, a estima, a intimidade. Não peço mais ao casamento, nem lhe posso dar
mais do que isso.

— Não gosto de tanta reflexão em tão verde idade, replicou benevolamente Melchior; todavia, encanta-me esse raciocínio
que, ao cabo de tudo, pode ser verdadeiro. Mas não me desdigo; alguns minutos é pouco tempo; reflita ainda vinte e quatro
horas.

— Nem um instante mais, insistiu Helena. Minhas reflexões são lentas ou súbitas: ou cinco minutos ou um ano; escolha.

— Pois reflita cinco minutos, replicou o padre sorrindo.

— Já lá vão quatro; aproveitarei o último para lhe dizer que em nada disto falaria, se não fossem as qualidades notáveis
desse moço; e para acrescentar que a ele me liga certa simpatia de gênios... é talvez a semente do amor.

Tinham chegado ao primeiro degrau da escada da varanda. Subiram e penetraram na sala de jantar, onde acharam D.
Úrsula e Mendonça, este a percorrer com os olhos um jornal do dia. O almoço serviu-se imediatamente.

— Padre-mestre, disse D. Úrsula, demorou-se tanto que cuidei... tivesse idéia de me arrebatar Helena.

— Estive-a ouvindo de confissão, respondeu Melchior.

— E pôde absolvê-la?

— Decerto.

— Mas com grande penitência, não?

— A mais fácil de todas, acudiu Helena, olhando para o padre.

— Oh! então é que os pecados são leves! concluiu D. Úrsula. Não lhe parece?

Estas últimas palavras foram dirigidas a Mendonça, na ocasião em que todos caminhavam para a mesa. Mendonça não
respondeu nada. Contra o costume, falava pouco, — menos ainda que na véspera e nos dias anteriores. D. Úrsula via a
diferença mas não a compreendia.

— Não quero saber que pecados confessou, disse ela sentando-se; estou certa de que o maior deles não levaria ninguém
ao purgatório.

— Veja o que é uma tia indulgente, observou Helena a Mendonça, sentando-se ao seu lado.

Preocupado com a conversa que acabava de ter na sacristia e na chácara, Melchior pouca atenção prestou a princípio ao
filho do comerciante. Analisava as circunstâncias do momento e pesava a responsabilidade que lhe podia vir de qualquer
resolução que adotasse. Após um longo diálogo com a consciência, o velho sacerdote inclinou os olhos ao mancebo, que lhe
ficava defronte, ao lado de Helena. Viu-os conversar. Ela mostrava-se graciosa, solícita e atenta, como uma esposa amante;
ele parecia enamorado da voz e das falas da donzela; como que um clarão interior lhe desvendara à alma os horizontes infinitos
da esperança. Familiarizado com Helena, tratado por ela com esquisita atenção, era contudo a primeira vez que ela lhe falava,
não como a um confidente amigo, mas como a um homem que poderia vir a ser seu esposo. Alguma seriedade, um olhar
submisso, uma atenção continuada, fizeram essa diferença, que antes foi sentida pelo coração do que descoberta pelos
olhos.

No fim do almoço, Melchior dirigiu-se para a sala de visitas, com Helena. Mendonça acompanhou-os. A resolução do
padre estava assentada de raiz; ele aceitava aquele casamento como um presente do céu. Apenas entrados na sala, travou as
mãos de um e outro e lhes disse, com voz comovida:

— Prometem não zangar-se comigo?

— Por quê? interrogou Mendonça com os olhos.

Helena baixara os seus.

— Prometem?

— Padre-mestre... começou Mendonça sem poder concluir a frase.

O padre olhou silenciosamente para um e outro. Talvez hesitava falar; talvez buscava o melhor meio de dizer o que tinha no
coração. Urgia romper o silêncio; fê-lo com solenidade:

— Serei duas vezes padre: segundo a natureza e segundo o Evangelho. Quando duas criaturas se merecem, é servir a Deus
emprestar a voz ao coração que não ousa falar. O senhor ama esta menina; leio-lhe nos olhos o sentimento que o arrasta para
ela; são dignos um do outro. Se é a timidez que lhe fecha os lábios, eu sou a voz da verdade e do amor infinito; se outro
motivo, serei juiz complacente para escutá-lo.

Ouvindo estas palavras, Mendonça ficou aturdido e mudo. Não só a fortuna lhe chegava às mãos, quando ele menos
esperava, mas até escolhera um caminho desusado e estranho. A realidade confundia-se ali com o sonho. A presença de um
terceiro era suficiente motivo para acanhar os mais resolutos; acrescia a veste sacra do sacerdote, que dava àquilo um ar de
solenidade e consagração. Mendonça recobrou, enfim o uso dos sentidos; a resposta única e eloqüente foi estender a mão a
Helena, gesto a que a moça correspondeu com simpleza e naturalidade.

— Não se enganaram meus olhos, disse o padre. Ama-a, e pode dar-lhe a felicidade que lhe desejo a ela. Também Helena
o fará venturoso, não? perguntou ele, voltando-se para a moça.

— Mas é isto um sonho? perguntou enfim Mendonça.

— A vida não é outra coisa, retorquiu o capelão; velho pensamento e velha verdade. Façamos por que o sonho seja
agradável e não árido ou triste. Prometem-me que se farão felizes?

— Não ambiciono outra coisa, disse o rapaz; será o meu cuidado e a minha glória.

— Seu amor, continuou Melchior, é mais forte que o de Helena; eu consultei-a antes, e li em seu coração. Elege-o com
prazer, embora sem entusiasmo. Não é a paixão cega que a faz falar; é um sentimento brando e singelo, por isso mesmo
duradouro. A reflexão de um corrigirá a violência do outro e os dois sentimentos se completarão pela virtude especial de cada
um.

Esta explicação franca de Melchior teve o condão de ser agradável aos dois. Helena estimou que ele nem lisonjeasse as
ilusões de Mendonça, nem a desse como aceitando indiferente e estouvada o casamento proposto. Pela sua parte, Mendonça
viu nas palavras do padre um indício da sinceridade de Helena, e aceitou o pouco oferecido, com a certeza de multiplicá-lo. O
caráter de Melchior e a veneração que mereciam suas virtudes, eram fianças de veracidade e davam ao ato singelo que ali se
passava, um forte cunho de santidade e elevação. Não era uma vulgar declaração de amor, sujeita às variações do espírito ou
do interesse, mas verdadeiros esponsais em que a religião era inspiradora e testemunha.

voltar 1 2 3 4 5 6 7 8 9 avançar
Sobre o Portal | Política de Privacidade | Fale Conosco | Anuncie | Indique o Portal