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Memorial de Aires

Machado de Assis

6 de outubro

Mana Rita, mana Rita,

Foi a última visita,

e o resto do poema em prosa, que a minha musa não dá para mais. Foi assim que o compus, não na outra noite, a de 3, mas na de hoje, 6, depois de levar a mana a Andaraí. Apareceu-me aqui de manhã. Já outros, amigos e até indiferentes, me tinham visitado, como aquele Dr. Faria, que me deixou lembranças da mulher, e o corretor Miranda, que também mas trouxe da sua. Tristão esteve cá anteontem, e eu saí à tarde e ontem de manhã. Estou bom, nem por isso deixei de lhe chamar ingrata. Rita confessou-me que há mais de três semanas não sai de casa para ver se tinha um irmão que se lembrasse dela.

— Tinha e tem, retorqui-lhe, mas um irmão que só agora convalesceu de todo.

Contei-lhe a dor e a reclusão. Rita, que a princípio não queria crer e ria, acabou convencida e contristada. Censurou-me naturalmente; eu disse-lhe que continuava a guardá-la para a doença mortal e última. Assim trocamos muitas palavras amigas e doces, algumas alegres. Como lhe perguntasse se estivera com a gente Aguiar ou com a família Campos, respondeu-me que não. Se fosse a uma daquelas casas teria sabido do meu incômodo, e não receberia a notícia aqui, acrescentou.

— Então você não sabe nada do projeto de ir à fazenda? perguntei-lhe.

— Projeto de quem?

— Da viúva Noronha.

— Ir à fazenda?

— Sim, ir a Santa-Pia, para ver como andam lá as cousas; parece que os libertos estão abandonando a roça. Foi o que me disse o tio da viúva.

— Não ouvi dizer nada. Há perto de um mês que não saio de casa. Mas o tio por que não vai?

— O tio vai, mas é com ela; a sobrinha quer a companhia dele, mas só a companhia, parece, não quererá também a colaboração. Vão pelas férias. Eu não compreendo esta necessidade de ir ela mesma, quando era melhor um homem.

Rita quis ir saber da própria Fidélia. Ponderei-lhe que era indiscreto, e faria crer da nossa parte alguma curiosidade. Saiu a voltas, e tornou. Confesso uma cousa; depois que a vi sair imaginei se teria ido saber da viúva ou dos amigos a verdadeira causa da viagem, e disse-lho ao jantar. Ela ficou séria e abanou a cabeça. Se me tem jurado que não, é provável que me enterrasse o espinho da dúvida, mas falou com simplicidade, e nomeou as visitas que fez. Uma delas foi a D. Carmo.

— Carmo está sã como um pêro, disse-me; recebeu-me rindo como só ela sabe rir, um rir de dentro, tão simples, tão franco... Falamos de Fidélia, falamos de Tritão, ela com a ternura e a amizade que você já lhe tem visto.

— Ainda não sabe da viagem à fazenda?

— Sabe, e parece que nem esperam as férias; é daqui a dias. Sabe da viagem e do motivo, e aprova; diz que a viúva tem muito prestígio entre os libertos. Se pudesse iria também, mas Aguiar não ficaria só, e ele não pode deixar agora o banco.

— Mas ele não ficaria só; o Tristão aí está.

— Não, por duas razões; a primeira é que Tristão nem ninguém supre a boa Carmo. A viagem que ela fez este ano a Nova Friburgo custou muito ao marido. Não foi ela que me disse isto; eu é que soube, e percebe-se, todos sabem; Aguiar sem Carmo é nada. A segunda razão é que o próprio Tristão está com vontade de acompanhar o desembargador e Fidélia; nunca viu uma fazenda, e tem vontade, antes de voltar para Lisboa...

— E a nossa amiga, diante desse eclipse dos dous, não está aborrecida?

— Foi o que lhe perguntei; disse-me que é por poucos dias, e espera; em todo caso, se houver demora dos outros, Tristão virá embora. Quer passar com ela e o marido o mais tempo que puder.

Mana Rita (percebe-se) está com vontade de achar algum defeito grande no afilhado do Aguiar, mas não acha nenhum, grande ou pequeno, e pesa-lho. O bem que diz dele é repetição confessada do que ouviu. Eu não penso mal, antes bem, creio que já o escrevi em algumas destas páginas; mas não disse se bem nem mal. Deixei-me ficar a condenar o meu pobre jantar, que foi ruim, só o frango prestou e a fruta, menos as pêras...

Ao café, mana Rita contou-me algumas anedotas de Andaraí, aonde a fui levar, seriam dez horas e donde voltei para escrever isto, acabar e repetir como principiei:

Mana Rita. mana Rita,

Foi a última visita.

10 de outubro

Entendam lá mulheres! Tanta necessidade de ir à fazenda e já. Campos alcança uma licença de alguns dias, Tristão apronta a mala, e, tudo feito, cessa a necessidade de partir. Foram só o Campos e o Tristão. Tal a notícia que me deram as duas (Carmo e Fidélia) hoje, à tarde, quando eu ia a entrar no jardim da casa do Flamengo. As duas vinham chegando ao portão.

— Não fui, confirmou Fidélia as primeiras palavras de D. Carmo. Um homem basta e sobra, e acaba depressa todas as dúvidas. Também as notícias agora são melhores.

— Lucram os seus amigos, retorqui.

D. Carmo disse o mesmo que eu, mas sem palavras, com os olhos apenas. Como iam a passeio, dispus-me a acompanhá-las, depois de algumas notícias que trocamos, D. Carmo e eu, sobre os nossos reumatismos; estamos bons. As duas iam de braço, eu ao lado, entre elas e o mar que não batia com força. A conversação não foi constante, porque a viúva levava os olhos no chão. A amiga falava-me, mas olhava de quando em quando para ela, e eu também. Fidélia falava pouco, e só então olhava para a outra.

O passeio foi curto; tornei com elas ao jardim, aonde pouco depois chegou Aguiar trazendo cartas de Lisboa para Tristão, três ou quatro. Conhecia a letra de uma, era do pai, e provavelmente havia dentro outra da mãe, tão volumosa era. A idéia de as mandar para Santa-Pia passara-lhe pela cabeça, mas recuou por não saber se o rapaz voltará amanhã ou depois, ou se ficará mais tempo. Se voltar já, espera; se ficar, manda-lhas. Queria consultar a mulher.

D. Carmo achou mais prático escrever-lhe um bilhete perguntando quando conta vir, para lhe mandar ou não a correspondência. Fidélia não sabia nada da volta do tio. Acha provável que fique alguns dias mais para dar as últimas providências e coligir as notas necessárias à venda da casa e das terras; ia vendê-las, por intermédio do Banco do Sul, mas nem ela nem Aguiar sabiam nada positivamente.

Eu, convidado a opinar, disse que o rapaz, sabendo de correspondência numerosa e presumindo alguma dela política, pediria logo a remessa, se não viesse abri-la em pessoa. A segunda hipótese não foi mal acolhida pela madrinha; pareceu-lhe certa. Ao cabo, que faria ele lá depois de ver a fazenda? A fazenda naturalmente via-se depressa, não tendo ele nenhuma cousa de recordação pessoal, ou costume velho que reviver. Assim disse eu, por outras palavras, e os dous concordaram comigo. Como perguntasse a Fidélia se não sentiria saudades da casa em que nasceu e se criou, respondeu-me que sim, mas já não terá gosto em lá viver.

— Aquilo agora é para mãos de homem, concluiu.

Estas palavras foram ouvidas por D. Carmo, com vivo prazer. Aguiar provavelmente teria a mesma sensação, mas saíra à calçada para falar a um vizinho, e não as ouviu. Quando voltou, achou que me despedia das duas senhoras, e nem por isso deixou de me pedir que ficasse e jantasse. Recusei, e saí. Andando, ouvi que ele dizia à mulher e à amiga:

— Quem sabe o que trarão estas cartas?

Em caminho, arrependi-me de não ter ficado para jantar. Ouviria o grande talento que arrancou a voz exclamativa ao Tristão. Não seria novo para mim, mas seria mais uma vez, conquanto pareça que ela anda a recusar-se agora ao piano. É verdade que talvez os dous a vão levar à noite a Botafogo. Também pode ser que ela durma ali hoje, em casa dos pais postiços.

12 de outubro

Aguiar e D. Carmo foram ontem levar a amiga a Botafogo, e voltaram cedo. Assim o soube hoje por ele, à porta do Banco, onde me achava a conversar com o corretor Miranda. Nenhuma notícia de Tristão, mas o bilhete do padrinho já está no correio, e segue hoje mesmo para Santa-Pia.

Que as asas postais o levem, digo eu aqui neste cantinho de papel, sem advertir no rebuscado da imagem. Advirto agora, e não a risco nem substituo; asas postais servem, uma vez que vão ter à fazenda e não percam o bilhete em caminho. Quer-me parecer que também eu estou curioso de saber o que trazem as tais cartas de Lisboa, curioso apenas, e aliás não admira que desta vez são numerosas e bastas; escrevem-se geralmente pouco. Seja o que for os dous velhos estão ansiosos de saber se o mandam voltar de cá. Não o dizem, mas vê-se.

Miranda continuou a dizer das saudades que a mulher, a cunhada Cesária, o cunhado Faria, toda a casa dele tem de mim —; cousas que ouvi agradecido, prometendo ir devolvê-las em pessoa um dia destes. Em suma, o corretor não é mau homem, e já me serviu uma vez em negócio do seu ofício. Usa a nota alegre, sem juvenilidade, e acha grande interesse em cousas que nenhum tem.

13 de outubro

Campos escreveu à sobrinha, referindo-lhe o estado da fazenda, e contando os passeios que deu por ela com o moço Tristão. Este é curioso e discreto no exame das cousas que vê e nas notícias que pede. Lá está o capelão, e mais o juiz municipal. A carta é anterior ao bilhete do Aguiar, não fala nele, mas diz que Tristão não se demorará muito; conta vir daqui a dias.

D. Carmo espera que os dias serão abreviados logo que ele receba o bilhete do marido. Não mo disse a mim, quando lá estive ontem, à noite, nem o ouvi a ninguém; eu é que pensei haver-lho lido no rosto. A carta do desembargador foi-lhe levada pela própria Fidélia, que lá estava ontem, e desta vez tocou piano, não sei se tão bem como Tristão, mas bem; os dous podiam tocar juntos. Éramos apenas cinco; o estudante primo de Fidélia viera trazê-la e tornou com ela para Botafogo, às dez horas.

17 de outubro

Chegou Tristão. Ignoro o que terá lido nas cartas de Lisboa, não falei a nenhuma das pessoas que poderiam sabê-lo. Irei ao Flamengo um dia destes, amanhã.

Hoje conto não sair de casa, que faço anos. Chego aos meus sessenta e... Não escrevas todo o algarismo, querido velho; basta que o saiba teu coração e vá sendo contado pelo Tempo no livro de lucros e perdas. Não escrevas tudo, querido amigo.

Não saio de casa. Se a mana Rita vier jantar, como fez o ano passado, irei levá-la à noite a Andaraí. Se não vier, deixo-me ficar sozinho.

Vou ocupar o tempo em reler uns papéis velhos que o meu criado José achou dentro de uma velha mala e me trouxe agora. A cara dele tinha a expressão de prazer que dá o serviço inesperado; aquele gosto de descobrir papéis que podem ser importantes fazia-o risonho, olhos escancarados, quase comovido.

— Vossa Excelência talvez os procure há muito tempo.

Eram cartas, apontamentos, minutas, contas, um inferno de lembranças que era melhor não se terem achado. Que perdia eu sem elas? Já não curava delas; provavelmente não me fariam falta. Agora estou entre estes dous extremos, ou lê-las primeiro, ou queimá-las já. Inclino-me ao segundo. Ante mim continuava o meu José com a mesma expressão de gosto que lhe deu o achado. Naturalmente agradecia à sua boa Fortuna que lho deparou; contará que é mais um elo que nos prenda. Talvez a idéia que o levou à mala fosse a esperança de algum valor extraviado, uma jóia, por exemplo, ou ainda menos, uma camisa, um colete, um lenço, e sendo assim o silêncio era mui possível. Achou papéis velhos, veio fielmente entregar-mos.

Não lhe quero mal por isso. Não lho quis no dia em que descobri que ele me levava dos coletes, ao escová-los, dous ou três tostões por dia. Foi há dous meses e possivelmente já o faria antes, desde que entrou cá em casa. Não me zanguei com ele; tratei de acautelar os níqueis, isso sim; mas, para que não se creia descoberto, lá deixo alguns, uma vez ou outra, que ele pontualmente diminui; não me vendo zangar é provável que me chame nomes feios, descuidado, tonto, papalvo que seja... Não lhe quero mal do furto nem dos nomes. Ele serve bem e gosta de mim; podia levar mais e chamar-me pior.

Resolvo mandar queimar os papéis, ainda que dê grande mágoa ao José, que imaginou haver achado recordações grandes e saudades. Poderia dizer-lhe que a gente traz na cabeça outros papéis velhos que não ardem nunca nem se perdem por malas antigas; não me entenderia.

17 de outubro, duas horas

Começo a receber cartões de visita pelo dia de hoje, entre eles os do casal Aguiar e do Tristão, e um de Fidélia. A viúva escreveu estas palavras: cumprimentos de boa amizade. Agora me lembra que no dia 12, quando a encontrei no Flamengo, em casa do Aguiar, usei desta expressão "boa amizade", como a mais doce que podia desejar dela; foi um modo de concluir o elogio discreto que lhe fazia, apoiando a outro que D. Carmo lhe fazia também. Daí este cumprimento de hoje. O bilhete de Tristão traz a fórmula admirativa, os dos Aguiares afeto e apreço. Rita não me escreveu; certamente virá jantar.

Meia-noite

Veio, veio, Rita veio jantar com a alegria do costume, e examinou todas as cartas e cartões de cumprimentos. Explicou-me que estivera ontem no Flamengo, onde dera notícia do meu aniversário; daí as cortesias de hoje.

Ouvindo isto, não me pude ter que lhe não falasse das cartas que aguardavam o Tristão. Disse-me que sabia delas; eram dos pais e de amigos políticos. Entre as primeiras vinha uma para D. Carmo, com um post-scriptum para o marido. Depois de alguma hesitação, perguntei-lhe se instavam pela volta dele.

— Os pais não, respondeu-me Rita; os amigos não sei, apenas ouvi de D. Carmo que eles falam muito da política de lá. E dizia-me isto um pouco aborrecida, como receosa, e ela teme já a separação; entretanto, é a cousa mais natural do mundo.

— Tristão não disse nada?

— Que eu ouvisse, nada. Passei lá uma boa meia hora de conversa, e o principal assunto foi a visita de Tristão a Santa-Pia, que ele achou interessante como documento de costumes. Gostou de ver a varanda, a senzala antiga, a cisterna, a plantação, o sino. Chegou a desenhar algumas cousas. Fidélia ouvia tudo com muito interesse, e perguntava também, e ele lhe respondia.

— Ela vai sempre vender a fazenda?

— Não ouvi falar disso.

— Vai, vai vendê-la. Ao menos, era plano há tempos, e o desembargador lá ficou para cuidar de apontamentos. Ele quando vem?

— Ouvi dizer que daqui a oito ou sete dias; duas semanas, quando muito.

— Fidélia jantou com eles, naturalmente?

— Não. Quando eu saí às quatro horas, Carmo pediu-me que ficasse. Tendo de fazer outra visita, recusei. Fidélia disse então que aproveitava a minha companhia. A outra instou com ela que jantasse, mas a amiga alegou que era esperada em casa e não podia; voltaria hoje ou amanhã. Carmo e Tristão acompanharam-nos à porta do jardim. Eu e Fidélia viemos andando, e, ao chegar à esquina da Rua da Princesa, não me lembrou logo voltar a cabeça. Fidélia lembrou-se, eu imitei-a, e os dous parados na calçada diziam-nos adeus com a mão.

Rita contou-me que foi até Botafogo com a viúva Noronha. De caminho falaram pouco, ou antes Fidélia é que não falou muito; ia preocupada. Apesar disso, mostrou-se o que sempre foi, afável, quase meiga; pareceu interessar-se pela vida de Rita, confessou saudades, sentia que se não vissem mais vezes, e pediu desculpa de não ir, há muito, a Andaraí. Se as palavras eram poucas, não eram secas, ao contrário.

Naturalmente falaram de D. Carmo e de Aguiar; também disseram alguma cousa de Tristão, concordaram que parecia amigo dos padrinhos.

Perto da casa do tio, Fidélia entrou em uma fábrica de flores para encomendar as que levará no dia 2 de novembro à sepultura do marido. Rita, que aliás não pensara ainda nisso, deixou de encomendar as suas; fá-lo-á quando o dia dos mortos estiver mais próximo, e trá-las-á consigo da cidade. Referiu-me as encomendas da viúva, a escolha, as exigências, o número de grinaldas, três, e a composição das cores que teriam; não quis deixar nada ao fabricante.

Ouvi todas essas minúcias e ainda outras com interesse. Sempre me sucedeu apreciar a maneira por que os caracteres se exprimem e se compõem, e muita vez não me desgosta o arranjo dos próprios fatos. Gosto de ver e antever, e também de concluir. Esta Fidélia foge a alguma cousa, se não foge a si mesma. Querendo dizer isto a Rita, usei do conselho antigo, dei sete voltas à língua, primeiro que falasse, e não falei nada; a mana podia entornar o caldo. Também pode ser que me engane.

Não escrevo o resto. Quando ela acabou e contou o regresso, perguntei-lhe por que não viera ontem jantar comigo. Respondeu-me que, tendo de vir hoje, não queria ser convidada de véspera. Ri-me e fomos para a mesa, que estava posta. Ao centro um ramo de flores, idéia dela, que o mandou trazer às escondidas, e, como eu lhe perguntasse se eram das que Fidélia encomendara, riu-se também. Agradeci-lhe a lembrança, exprimindo-lhe todo o meu afeto, comemos alegremente, recordando anedotas da infância e da família

18 de outubro

Ao levantar da cama, a primeira idéia que me acudiu foi aquela que escrevi ontem, à meia-noite: "Esta moça (Fidélia) foge a alguma cousa, se não foge a si mesma".

22 de outubro

Fidélia não voltou ao Flamengo, apesar da promessa que D. Carmo lhe fez fazer. D. Carmo fora achá-la a pintar; Fidélia lembrara-se de haver pintado em menina, e começara um trecho do jardim da própria casa. Prometeu voltar ao Flamengo no dia seguinte, e não foi.

Tristão, ao saber do motivo da ausência, advertiu que a viúva Noronha podia ter em pintura talento igual ao da música, e não sei se lho chamou grande; não mo disse. Que ele mesmo é que me referiu o que aí fica, e mais o que vou incluir nesta página antes que me esqueça. Tinha vindo almoçar comigo.

— Venho almoçar, conselheiro; voltando agora do meu passeio, lembrou-me subir e perguntar por Vossa Excelência. O seu criado disse-me que ia almoçar; ouso pedir-lhe um lugar à mesa.

— Um, dous, três, doutor, acudi eu, quantos a sua amizade pedir para o seu apetite.

Deu-me notícias da gente Aguiar; estão bons; falou-me dos seus e das cartas políticas de Lisboa. Já as leu ao padrinho e à madrinha. Uma só delas alude ao desejo de o ver tornar breve: "esperamos que não se demorará muito no Rio de Janeiro".

— E demora-se muito? perguntei-lhe.

— Não sei, mas é natural que pouco; a política chama-me.

Ao almoço é que Tristão me contou a história da tela que a viúva está pintando, da promessa que fez à amiga e não cumpriu. E disse-me depois:

— Se ela sabe pintar pareceu-me que, melhor quadro que o seu jardim, é um trecho marinho do Flamengo, por exemplo, com a serra ao longe, a entrada da barra, alguma das ilhas, uma lancha etc. A madrinha concordou logo, e foi propor à amiga a troca do quadro. Agradou-lhe este outro, prometeu vir ao Flamengo desenhá-lo, e não veio.

— É que está namorada do seu jardim. Geralmente os artistas sentem melhor as próprias imaginações. Ela ainda saberá pintar, como diz que pintou em menina?

— A madrinha viu-lhe apenas algumas linhas de desenho, e pareceram-lhe boas.

Concordamos que deviam ser boas. Uma cousa traz outra, falamos das graças da viúva, da compostura, da discrição, da memória das viagens, do gosto, dos gestos e creio que dos olhos também. Eu, com certeza, falei dos olhos, e agora me lembra que ele disse serem juntamente lindos e graves. Opinião ou diversão, acrescentou que os olhos das suas antigas patrícias eram em geral belos, e falou compridamente de outras damas; assim não parecia louvar somente a viúva Noronha. Achei isto bem, como eqüidade e como estética. No meio da conversação tive uma idéia; disse-lhe que D. Carmo, que lhes queria tanto, em vez de propor à amiga a simples tela da praia, devia propor-lha com alguma figura humana. A dele ficaria bem para lhe lembrar, quando ele partisse, a pessoa do filho pintada pela filha. Tristão ouviu sorrindo isto que lhe disse; depois repetiu, como quem pensava:

— A pessoa do filho pintada pela filha...

Não ponho aqui o sorriso porque foi uma mistura de desejo, de esperança e de saudade, e eu não sei descrever nem pintar. Mas foi, foi isso mesmo que aí digo, se as três palavras podem dar idéia da mistura, ou se a mistura não era ainda maior. Daí saltamos às galerias de arte da Europa, e falamos do que sabíamos. Quando demos por nós, tínhamos acabado de almoçar. Ofereci-lhe charutos e o meu coração. Quero dizer que lhe pedi viesse muitas vezes dar-me aquela hora deliciosa. Retorquiu-me que dá-la não, mas tomá-la para si. Era a volta do cumprimento, e com graça.

Despediu-se e saiu. Quis sair logo, mas vim primeiro escrever isto, para que me não esqueça, como lá digo atrás. E agora que o escrevi confirmo a impressão que me deixou o rapaz, e foi boa, como a princípio. Talvez ele tenha alguma dissimulação, além de outros defeitos de sociedade, mas neste mundo a imperfeição é cousa precisa. Pronto; vou sair, e amanhã ou depois irei saber da paisagem ou da marinha da bela Fidélia.

28 de outubro

Nem marinha nem paisagem, não soube de nada. Fidélia não tem aparecido no Flamengo, e escreveu hoje à velha amiga um bilhete de desculpas; está tomando as contas ao tio, que voltou ontem da fazenda. Não me lembra se já escrevi que o Banco do Sul é que fará a transferência de Santa-Pia.

D. Carmo, a pretexto do estilo, deu-me o bilhete a ler. Tem graça, decerto, mas o verdadeiro motivo é a ternura que ela sente em ler a amiga e fazê-la ler aos outros. Depois que lho restitui, leu-o outra vez para si. Já devia trazê-lo de cor. Em meio disto achou modo de aprovar a minha idéia do filho pintado pela filha, ouvida ao Tristão.

— Hei de dizê-la a Fidélia.

Tristão não estava presente; fora jantar com um ministro. Francamente, era mais fácil à moça prometer que pintar a marinha. O que a boa Carmo disse que faria penso que o não fará; não irá propor à viúva que venha copiar a figura do afilhado na marinha do Flamengo. A familiaridade que haja porventura entre eles não se ajustará muito a esta ação de arte, incômoda ou não sei que diga...

Suspendo aqui a pena para ir dormir, e escreverei amanhã o resto da noite.

29 de outubro

O resto da noite foi passado em casa do Faria. Eram anos dele e estive lá mais tempo do que contava. Havia gente e alegria, algum canto e piano, e também conversa.

Faria, apesar do dia e da festa, ria mal, ria sério, ria aborrecido, não acho forma de dizer que exprima com exação a verdade. É um desses homens nascidos para enfadar, todo arestas, todo secura. A mulher, D. Cesária, estava alegre e tinha a pilhéria do costume. Não disse mal de ninguém por falta de tempo, não de matéria, creio; tudo é matéria a línguas agudas. A maneira por que aprovava alguma cousa era quase sarcástica, e difícil de entender a quem não tivesse a prática e o gosto destas criaturas, como eu, velho maldizente que sou também. Ou serei o contrário, quem sabe? No primeiro dia de chuva implicante hei de fazer a análise de mim mesmo.

Quando saí de lá, Faria agradeceu-me, com o seu prazer nasal e surdo — assim defino as palavras que lhe ouvi, acompanhadas de um fugaz sorriso de cárcere.

1º de novembro

Este é o dia de todos os santos; amanhã é o de todos os mortos. A igreja andou bem marcando uma data para comemorar os que se foram. No tumulto da vida e suas seduções, fique um dia para eles... A reticência que aí deixo exprime o esforço que fiz para acabar esta página em melancolia; não posso, nunca pude. Tristezas não são comigo. Entretanto, em rapaz — quando fiz versos, nunca os fiz senão tristíssimos. As lágrimas que verti então — pretas, porque a tinta era preta — podiam encher este mundo, vale delas.

2 de novembro

Mana Rita foi hoje ao cemitério levar flores aos nossos.

— Você não imagina; acordei às cinco e meia para me vestir e estar cedo em S. João Batista. Cheguei às oito e pouco; achei muita gente, não tanta, porém, como há de ser logo, à tarde. Não vim buscar você, porque sei que não iria.

— Pois eu fui à missa da Glória.

— A igreja é perto.

— Talvez fosse ao cemitério. Muitas sepulturas bonitas?

— Bastantes; entre elas a do marido de Fidélia. As coroas e flores que ela encomendou há dias lá estavam bem dispostas e faziam grande efeito; parece que o desembargador mandou também o seu ramo; estava escrito numa fita.

— Vocês falaram-se?

— Não; ela já tinha saído.


— Como sabe você que ela é que foi levar as flores e coroas?

— Adivinha-se pela disposição.

— Sim?

— Decerto, mano. A disposição, o arranjo, a combinação, tudo era de mulher. Há dessas cousas que mão de homem não faz; mão de homem é pesada ou trapalhona, e mais se é de desembargador, como ele. Por exemplo, o nome do marido, o nome próprio só, não todo, estava cercado de perpétuas; isto é cousa que só uma senhora inventa e faz. As outras flores, rosas e papoulas, distribuíam-se com tal simetria que pediu tempo e gosto. Um homem chegava ali, pegava das flores e espalhava-as à toa.

— Admira que você a não visse.

— É que foi muito cedo.

— Mas num dia como o de hoje, tendo tanta cousa que arranjar. Daquela vez que a encontramos era mais tarde.

— Era, mas o dia era outro; hoje havia muita gente, não quis que a vissem, é o que foi.

Mana Rita desenvolveu esta idéia, que achei aceitável; depois falou dos outros jazigos. Como dos jazigos passamos ao ministério e a D. Cesária não me lembra, mas falamos dele e dela com interesse, e a mana com graça. Tinham estado juntas as duas, ontem à tarde; Rita desculpara-se de não ter lá ido no dia 28. Contou-me parte do que lhe ouviu acerca de duas pessoas que lá estiveram...

— Que lá estiveram?

— Parece que sim.

E entrou a repetir uma série de anedotas e ditos, que ouvi durante uns dez minutos, com atenção. A maledicência não é tão mau costume como parece. Um espírito vadio ou vazio, ou ambas estas cousas acha nela útil emprego. E depois a intenção de mostrar que outros não prestam para nada, se nem sempre é fundada, muita vez o é, e basta que o seja alguma vez para justificar as outras. Disse isto a Rita por palavras graciosas, que ela reprovou e deitou à conta da minha perversidade.

9 de novembro

A marinha interrompeu a paisagem, ou de todo a pôs de lado. Fidélia consentiu em ir pintar um trecho da praia do Flamengo, não sei se com Tristão ou sem ele. Aguiar, que me deu a notícia, limitou-se a dizer que ela já começou a tela com muito gosto.

— Vá lá amanhã, conselheiro, entre uma e duas horas.

11 de novembro

Não fui ontem, fui hoje ver a marinha. Achei Fidélia no jardim, junto da casa, com o pincel e a palheta nas mãos, os olhos no mar e na tela, em pé. Ao lado, sentada, estava D. Carmo, com o seu riso bom e maternal. Viu-me à porta do jardim, e fez um gesto convidando-me a entrar; entrei.

— Venha, disse ela, ande ver a minha artista.

Fidélia pareceu vexada com estas palavras, e estendeu-me a mão, já livre do pincel, dizendo:

— Não olhe, não olhe que não presta.

Olhei, prestava. Está ainda em começo, e não será obra-prima; a polidez obrigava-me a achá-la excelente, e disse-lho, com um gesto de admiração; mas, em verdade, presta. O fundo, serra e céu, faz bom efeito; a água creio que terá movimento e boa cor. Faltava Tristão; não vi nem sombra do "filho pintado pela filha". Posto não estranhasse a ausência, lembrou-me insinuá-la. Disse-lhe que podia pôr na praia a figura da boa amiga, que ali estava a acompanhá-la com os seus dous olhos amigos. Esta ia a dizer alguma cousa, mas Fidélia replicou:

— Não me atrevi, por não conhecer bem a arte de figura; no colégio pintava flores e paisagens, algum pedaço de mar ou de céu. Se não fosse isso, tirava o retrato de D. Carmo.

D. Carmo confirmou:

— Eu pedi-lhe que pintasse Tristão neste quadro, e ela respondeu-me a mesma cousa.

Aceitei a razão, aceitei uma cadeira vaga que ali estava, e pedi à viúva que continuasse a obra. Queria vê-la pintar. Na Europa tinha assistido ao trabalho de alguns artistas homens; era a primeira vez que uma senhora pintava diante de mim. Fidélia dispôs-se e continuou. Após alguns minutos os três falávamos de várias cousas. A viúva estava em toda a graça do costume, sem nenhum ar petulante que porventura pudesse tirar do exercício; pintava modestamente. Alguma vez interrompia o trabalho, ou para ouvir melhor, ou para dizer mais longo — e logo tornava ao pincel e à tela.

Ao cabo de alguns minutos cuidava eu de sair, quando vi aparecer à porta da casa nada menos que Tristão. A porta é larga, dá para um saguão, donde se comunica para cima por dous pequenos lanços de degraus, teto baixo. Tristão vinha de concluir a correspondência que vai mandar para o correio, segundo soube logo depois, e tornava ao lugar em que estivera, ao pé das duas. Mandou vir cadeira; a que eu ocupava era a que ele ocupava antes, e não havia outra. Talvez estes pormenores não tenham valor, mas cabem aqui para o fim de acentuar bem que Tristão estava com elas antes da minha chegada, e para lembrar que antes de vir a cadeira me consultou acerca da pintura; respondi o que cumpria.

— Não é? disse ele contente do meu apoio.

E acrescentou algumas palavras de louvor, cálidas, sinceras decerto, que a viúva apreciou consigo naturalmente; não as contestou, também não sorriu como sucede quando a gente aprova interiormente uma cousa que lhe vai bem com a alma. Ouviu pintando, recuando ou chegando, e deitando os olhos para longe. Quando os encaminhou para ele (já então sentado) não esperou que Tristão afastasse os seus; encontrou-os e deixou-os ficar onde estavam, indo continuar a marinha com tanta atenção que era como se nós outros não falássemos de nada, e nós falávamos de muita cousa, ele acaso menos, para ver melhor a pintura.

Aquele silêncio de Fidélia, em contraste com a palestra de pouco antes, pareceu-me indicar que ela considerava a obra em atraso. Também podia ser que o amor da arte a retivesse agora mais que a princípio, e a convidasse a pintar exclusivamente. A causa secreta de um ato escapa muita vez a olhos agudos, e muito mais aos meus que perderam com a idade a natural agudeza; mas creio que seria uma daquelas, e não há razão para descrer que fossem ambas sucessivamente.

Quem parecia contente de tudo, palavras e silêncios, era a dona da casa. Posto me desse a principal atenção, não o fazia em maneira que esquecesse a tela e os filhos. Mirava a tela e falava aos filhos com a ternura velha que já estou cansado de notar, e talvez a ternura fosse agora maior que de outras vezes; pelo menos, trazia certo alvoroço como de alma que soletra uma felicidade nova ou inesperada; não digo tudo para me não arriscar a engano.

A verdade é que eu, que pensara em sair, fui ficando, ficando, até que a viúva Noronha suspendeu o trabalho; tinha passado quase uma hora. Confessou que estava cansada, e cuidou de recolher os pincéis e cobrir a pintura, ajudada nisso pelo moço Tristão, que o fazia com a mesma graça que ela, e um desejo de bem servir, que é a alma da polidez. Eu, além de velho, não podia deixar a boa Carmo, que só os ajudou com os olhos, e ajudou-os bem; iam de um para outro, não só alegres, mas ainda interrogativos. Eles acabaram tudo e vieram sentar-se diante de nós, um cheio de riso, outra não cheia, mas tocada apenas do seu, que era igualmente agradecido e bom.

A minha presença era já longa, e apesar das relações que há entre nós, começaria a parecer indiscreta. Era tempo de sair; quis sair e ficar a um tempo, cousa impossível; vivi assim alguns instantes de impulsos contrários. Tristão podia resolver esta minha luta interior cantando alguma cousa que me obrigasse a ouvi-lo, mas estava então ocupado em dizer finezas à artista, à viúva, à irmã, a todas aquelas três pessoas consubstanciadas na mesma dama encantadora. Fidélia sorria com recato e atenção, e respondia também. Despedi-me, e achei (se não foi engano) que D. Carmo estimou a minha saída para se dar inteiramente aos dous filhos. Certo é, porém, que os três me falaram com apreço e cortesia. Vim por aí fora pensando neles.

12 de novembro

Fiz mal em não pôr aqui ontem o que trouxe de lá comigo. Creio que Tristão anda namorado de Fidélia. No meu tempo de rapaz dizia-se mordido; era mais enérgico, mas menos gracioso, e não tinha a espiritualidade da outra expressão, que é clássica. Namoro é banal, dá idéia de uma ocupação de vadios ou sensuais, mas namorado é bonito. "Ala de namorados" era a daqueles cavaleiros antigos que se bateram por amor das damas... Ó tempos!

A minha impressão é que ele anda ou começa a andar namorado da viúva. Outra impressão que também não escrevi é que a madrinha parece perceber o mesmo, e tira daí certo alvoroço. Quando lá for agora hei de abrir todas as velas à minha sagacidade, a ver se confirmo ou desminto estas duas impressões. Pode ser engano, mas pode ser verdade.

Hoje, que não saio, vou glosar este mote. Acudo assim à necessidade de falar comigo, já que o não posso fazer com outros; é o meu mal. A índole e a vida me deram o gosto e o costume de conversar. A diplomacia me ensinou a aturar com paciência uma infinidade de sujeitos intoleráveis que este mundo nutre para os seus propósitos secretos. A aposentação me restituiu a mim mesmo; mas lá vem dia em que, não saindo de casa e cansado de ler, sou obrigado a falar, e, não podendo falar só, escrevo.

13 de novembro

Aguiar veio a mim, e disse:

— Já sei que gostou da marinha.

— Gostei muito. Está adiantada?

— Está.

— A artista não tem parado?

— Não; vai lá todos os dias e pinta com amor.

— Com amor? Essa é a corda principal dela. Não sei se já lhe disse que o que me encanta na afeição que ela tem aos senhores, e particularmente a D. Carmo, é o toque de subordinação graciosa, que lhe dá totalmente um ar de filha. É isso, é a obediência discreta e pontual com que ela acode aos desejos dos seus pais de coração.

— Diz bem, conselheiro.

Estávamos no Tesouro, aonde fomos por negócios, e saímos dali a pé, caminho do Rocio, a pegar um bonde, mas não pegamos nada. A conversação foi o melhor veículo; é desses que têm as rodas surdas e rápidas, e fazem andar sem solavancos. Viemos descendo, a continuar o assunto, e a dizer cousas interessantes; eu, pelo menos, porque ele vivia mais nos olhos e nos ouvidos que na boca. Ouvia com atenção, e alguma vez com desatenção; no segundo caso, era todo olhos, mas tão alongados, que esqueciam a rua e o companheiro.

Uma das confidências que me faz merece ser posta aqui. Para me dar razão no que lhe disse da subordinação graciosa da viúva, referiu-me que as duas costumavam ir à missa, ao domingo, na matriz da Glória; a viúva vinha sempre acompanhar D. Carmo ao Flamengo, donde tornava logo para Botafogo, se não almoçava com eles.

Carmo, para a não obrigar a vir tão longe, ia algum domingo ouvir missa a Botafogo, mas Fidélia vinha quase sempre à Glória.

— E agora já não vem?

— Agora Carmo é que não vai a uma nem a outra parte, ou só raro. A minha pobre mulher anda cansada; lá tem o seu livro, com as suas rezas marcadas. Ao domingo, à mesma hora, antes de catar notícias nas gazetas, pega em si e no livro, e acompanha a missa toda. Eu, que já sei a hora, não a perturbo nunca; se me acontece por acaso entrar no gabinete onde ela tem o seu altarzinho e o seu Cristo, recuo a tempo, mas não lhe arranco os olhos da página; é como se não entrasse ninguém. Acaba, beija a imagem e torna ao mundo. Não sai de casa sem a beijar primeiro, como um pedido de proteção, nem volta sem fazer o mesmo, ainda vestida e de chapéu, como a dar graças. O mesmo ao deitar e ao levantar.

Como esses, referiu Aguiar outros hábitos caseiros da consorte, que ouvi com agrado. Não seriam grandemente interessantes, mas eu tenho a alma feita em maneira que dou apreço ao mínimo, uma vez que seja sincero. Não diria isto a ninguém cara a cara, mas a ti, papel, a ti que me recebes com paciência, e alguma vez com satisfação, a ti, amigo velho, a ti digo e direi, ainda que me custe, e não me custa nada. Creio que outras damas leiam também a missa em casa, ou por fadiga, ou por doença, ou por estar chovendo, e há sempre que louvar em pessoa que respeita os seus elos espirituais. Só me aborrece a que os enfia ao modo de colar para dar melhor vista ao pescoço. Tal não é aquela boa senhora do Flamengo. A piedade dessa estende-se à memória da mãe e do pai, à saudade das amigas, e (ainda que me canse repeti-lo) à amizade dos seus dous filhos de empréstimo.

20 de novembro

Já lá voltei três vezes. Achei sempre D. Carmo, Fidélia e Tristão. Da terceira vez Aguiar chegou mais cedo, e assistiu às últimas pinceladas.

Creio que sim; creio que o moço admira menos a tela que a pintora, ou mais a pintora que a tela, à escolha. Uma ou outra hipótese, é já certo que está namorado. Chegou ao ponto de esquecer-nos e ficar preso dela, embebido nela, levado por ela. Eu, com a arte que o Diabo me deu, divido a atenção entre a mãe e os dous filhos para concertar a cortesia e a curiosidade, e ambas saem satisfeitas do meu gesto.

Quando escrevi há dias (duas ou três vezes) que "a moça Fidélia foge a alguma cousa, se não foge a si mesma", tinha em mira o afastamento em que ela vinha estando da casa da amiga. Ei-la que continua a lá ir, e se deixar ver do irmão que a amiga lhe deu. Ou não lhe quer fugir — ou (cousa mais grave) não quer fugir a si mesma. Mas ainda não vi nada claro; parece antes perdoar.

30 de novembro

Tristão convidou-me a subir às Paineiras, amanhã; aceitei e vou.

Há dez dias não escrevo nada. Não é doença ou achaque de qualquer espécie, nem preguiça. Também não é falta de matéria, ao contrário. Nestes dez dias soube que novas cartas chamam Tristão à Europa, agora formalmente, ainda que sem instância; há eleições próximas. Tristão resolveu não ir já, antes do princípio do ano, mas não pode deixar de ir. Tais foram as novidades que me deram no Flamengo e fora dali. Fora ouvi-as de boca da graciosa Cesária, que me disse com melancolia:

— Ele gosta da Fidélia, mas é claro que lhe prefere a política.

Era a melancolia do prazer recôndito, ou como se deva dizer para explicar um achado gostoso que a gente precisa disfarçar em tristeza. Havia naquela palavra tal ou qual condenação do moço, mas só aparente; o sentido verdadeiro era o gosto de ver a dama preterida. Para encobri-lo bem, D. Cesária disse todo o mal que pensa do rapaz, e não é pouco. A graça foi a mesma de seu uso, as lembranças agudas, as maneiras elegantes. Ri-me naturalmente, negando ou calando. Dentro de mim achei que a opinião era injusta, mas talvez este meu conceito seja filho da afeição que vou tendo ao moço. Ela cresce-me, com a vista e a prática dos seus dotes, e naturalmente com a afeição e a confiança que me tem, ou parece ter. Seja o que for, a verdade é que não o defendi de todo, mas só em parte, e a graciosa dama apelou para o meu gosto, o equilíbrio do meu espírito, o longo conhecimento que tenho dos homens... Todas as grandes qualidades deste mundo.

1º de dezembro

Volto espantado das Paineiras. Lá fui hoje com Tristão. No fim do almoço, acima da cidade e do mar, ouvi-lhe nem mais nem menos que a confissão do amor que dedica à formosa Fidélia. Uso os seus próprios termos: dedica à formosa Fidélia. O verbo não é vivo, mas pode ser elegante, e em todo caso, exprime a unidade do destino. As teses escolares dedicam-se a pais, a parentes, a amigos; o amor é tese para uma só pessoa.

Novidade não era, a confissão é que me espantou, e provavelmente ele leu esse efeito em mim. Não lhe respondi logo, salvo por um gesto de aquiescência, preciso em tais casos, não se devendo duvidar nunca da boa escolha, ao contrário.

— Não disse isto a ninguém, conselheiro, nem à madrinha nem ao padrinho. Se lho faço aqui é que não ouso fazê-lo àqueles dous, e não tenho terceira pessoa a quem o diga. Di-lo-ia à sua irmã, se me atrevesse a tanto; mas apesar do bom trato, não lhe acho franqueza igual à sua. Parece-lhe que o meu coração escolhe bem?

— Pergunta ociosa, doutor; basta amar para escolher bem. Ao Diabo que fosse era sempre boa escolha.

— Essa é a regra, sei; mas no caso particular daquela senhora não acha que é admirável?

— Acho.

— Também assim penso; independentemente da cegueira que me daria a paixão, vejo claro que a escolha é perfeita. Já tivemos ocasião de falar nela, e combinamos no parecer. Digo-lhe até que foi esse o motivo que me levou a confessar-me hoje. Lembra-se que há algum tempo, em sua casa, almoçando...? Concordamos em achar-lhe todas as prendas morais e físicas. Compreendi que me aprovaria, e resolvi falar-lhe acerca deste sentimento e seus efeitos.

— A resposta estava dada, como diz; não há consulta nova.

— Há; ainda lhe não disse tudo.

— Pois diga o resto. Disponho-me a ouvi-lo, como se eu mesmo fosse rapaz. Gosta dela há muito tempo?

— Logo que cheguei comecei a gostar dela.

— Não reparei.

— Nem ela, nem eu também. Senti que lhe achava alguma cousa, mas a austeridade de viúva e a minha próxima volta não deixavam entender bem o que era. Poderia ser dessas preferências que se dão a mulheres, não havendo plano nem possibilidade de as receber na vida. Além dessa cousa, gostava de a ouvir falar, de lhe comunicar idéias e observações, e todas as nossas conversas eram interessantes. Os seus modos, aquele gesto de acordo manso e calado, tudo me prendia. Um dia entrei a pensar nela com tal insistência que desconfiei. Recorda-se quando resolvi ir à fazenda de Santa-Pia com ela e o tio?

— Recordo-me.

— Era já a dificuldade de ficar aqui sem ela, não sabia por quanto tempo; e depois contava que na roça, mais a sós, chegaria a fazer-lhe sentir tudo o que me pesava e dispô-la a ouvir-me. Resolução perdida; ela não foi e eu tive de acompanhar o desembargador sozinho; pouco depois voltei...

— Lembra-me.

Tristão deteve-se naquele ponto e estendeu os olhos abaixo e ao longo. Um criado veio servir-nos café, enquanto dous grandes pássaros negros cortavam o ar, um atrás do outro. Podia ser um casal, ele que a perseguia, ela que negava. Então eu, para sorrir da confidência, sugeri a idéia de que a bela Fidélia estivesse a fazer o mesmo gesto da ave fugitiva; talvez já gostasse dele. Não me retrucou sim, nem não, mas a expressão do rosto era negativa, e eu, para não perder o resto, perguntei-lhe:

— Quem lhe diz que não, doutor?

A curiosidade ia-me fazendo deslizar da discrição, e acaso da compostura; nem só a curiosidade, um pouco de temperamento também. Tem-se visto muito rapaz falar de damas amadas, e muita viúva sair da viuvez ou ficar nela. Naquele caso os dous personagens davam interesse especial à aventura. Cá me acordava a afirmação de mana Rita. Que Fidélia não casa. Que não casará nunca. A situação de ambos, a vida que chama Tristão para. fora daqui, a morte que prende a viúva à terra e às suas saudades, tudo somava o interesse da aventura, não contando que a esses motivos de separação, eu próprio ia-me a outros de união possível dos dous.

Tristão não se deixou rogar muito; desfiou vários dos seus enganos e desenganos. Custou-lhe a princípio, mas, dito um caso, vieram outros, e com pouco sabia eu que aparências iludiram as suas esperanças, e que desilusões as mataram. Agora crê deveras o pior.

Não lhe dei as minhas razões contrárias; podiam não ser mais que aparências. Também não aludi às suspeitas que atribuo à madrinha e ao padrinho; eles podem enganar-se como eu. Ao demais — e é o principal —, isso viria dando ao meu papel aspecto menos grave do que convinha. Basta que já aquela conversação lhe fosse deitando as manguinhas de fora — e a mim também; no fim dos charutos, estávamos quase como dous estudantes do primeiro ano e do primeiro namoro, ainda que com outro estilo.

Creio que, ao descer, vinha arrependido ou vexado da confissão; trocou de assunto, conversamos de cousas alheias, do trem e da estrada, do mato e do morro, e cá embaixo um pouco da política de ambos os países.

2 de dezembro

Uma observação. Como é que Tristão foi tão franco ontem nas Paineiras, e tão cauteloso naquele dia do Largo de S. Francisco, onde dei com ele embebido a ver entrar a moça no carro. "Grande talento!" exclamou então, o talento de pianista, que ela não levava nas saias. E já então gostava dela, pelo que lhe ouvi ontem, visto que começou a querer-lhe pouco depois de chegado. A razão é que só agora a paixão subiu tão alto; isso, e a confiança que lhe inspiro. Não se pôde conter, é o que foi.

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