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Memorial de Aires

Machado de Assis

A marinha está quase pronta. Mana Rita veio encantada da tela, da autora e da dona, porque Fidélia destina a obra a D. Carmo. Esteve só com as duas amigas; não achou lá Tristão nem Aguiar, e conversaram as três longamente, até que a viúva se despediu e tornou para Botafogo, apesar de instada para jantar no Flamengo; não podia e partiu antes de cair a tarde.

Rita ficou e ainda bem que ficou, porque ouviu a D. Carmo a notícia do amor de Tristão, com um acréscimo que aqui vai para ligar ao que escrevi nestes últimos dias. Esse acréscimo é nada menos que o desejo de D. Carmo é de os ver casados.

— Digo isto só à senhora e peço-lhe que não conte a ninguém, acabou D. Carmo, eu gostaria de os ver casados, não só porque se merecem, como pela amizade que lhes tenho e que eles me pagam do mesmo modo.

Rita achou que D. Carmo dizia verdade, e achou mais que, casando-os, teria assim um meio de prender o filho aqui. A mana é dessas pessoas que não podem reter o que pensam, e confiou logo o achado à amiga. D. Carmo sorriu com expressão de acordo; e foi o que pensou e me disse a própria Rita. Também assim me pareceu, mas eu quis deitar a minha gota de fel do costume, e disse:

— Talvez a terceira razão seja a principal, se não foi única.

Rita acudiu que não. Única não era, não podia ser. Eu, por maldade e riso, teimei que sim, mas dentro de mim acabei concordando com ela. As três razões podiam combinar-se bem naquela senhora. A última, quando muito, daria maior alma às duas primeiras: era natural. Não tardaria a perder o filho postiço, que se vai embora, e a filha de empréstimo pode vir a amar outro e casar, e ainda que não saia daqui, seguirá outra família. Unidos os dous aqui, amados aqui, tê-los-ia ela abraçados ao próprio peito, e eles a ajudariam a morrer. Resumo assim o que pensei e agora confirmo, acrescentando que o confiei também à mana.

— O que eu disse há pouco foi por gracejo; acho que você tem razão. E parece-lhe que ela alcance o que deseja?

— Não afirmo nem nego, mas já me parece difícil; aqui está por quê. Tristão e Aguiar chegaram pouco antes da hora de jantar, e jantamos. Aguiar indagou da pintura, D. Carmo respondeu-lhe, ele ouviu com interesse, e creio que ele e ela olharam alguma vez para o afilhado; Tristão não dizia nada; parecia até não atender ao que eles diziam.

— Talvez fingisse.

— No fim do jantar, antes do café, Tristão declarou aos padrinhos que talvez parta antes do fim do ano...

— Antes?

— Antes.

— E eles neo sabiam?

— Parece que não, porque ficaram desconsolados, e o jantar acabou triste.

— Mas como é que ele não dissera isso ao padrinho, vindo com ele de fora?

— Não vieram juntos; Tristão chegou depois do Aguiar. Pensávamos até que jantasse fora de casa. Foi assim; no fim deu notícia da partida. Contou que uma carta atrasada... mas não mostrou a carta; terá mostrado depois que saí de lá.

Pensei comigo, e expliquei:

— Mana, pode ser até que não haja carta nenhuma; ele foge-lhe, não tem esperanças, quer ir quanto antes. Já isso de chegar tarde a casa prova que não quer encontrar a viúva; é o que é. Os dous velhos não procuraram dissuadi-lo da resolução?

— A princípio não disseram nada; ficaram acabrunhados. Depois o Aguiar entrou a dizer alguma cousa que D. Carmo ouviu e apoiou apenas com os olhos; estava triste, e para me não deixar só, falava comigo; eu respondia apertando-lhe os dedos com piedade sincera. Olhe, mano, até eu cuidei de pedir ao rapaz que se demorasse mais tempo. Ele agradeceu a minha intervenção com um sorriso também triste, mas declarou que não podia; pedem-lhe muito que volte.

— Bem, disse eu rindo, você mostrou aí que se compadeceu da amiga D. Carmo, mas você esquece agora neste mês de dezembro a aposta que fez comigo no princípio de janeiro. Não se lembra do que me disse no cemitério? Não apostou que a viúva Noronha não tornaria a casar? Como é que pediu hoje ao Tristão que ficasse — com o pensamento íntimo de o ver casar com ela?

Concluí pegando-lhe no queixo e levantando-lhe o rosto para mim, que estava de pé. A mana confessou a contradição e explicou-a. Antes de tudo, o seu pensamento era poupar a tristeza da amiga; seriam alguns dias ou semanas mais que passariam juntos, eles e o afilhado. Mas bem podia ser também que Fidélia, aconselhada por eles, acabasse desposando Tristão; as circunstâncias seriam outras.

— Logo, eu tinha razão naquele dia?

— Inteiramente não; mas tudo pode acontecer neste mundo.

— Neste mundo e no outro.

Quis acabar a conversação notando-lhe que, a despeito do pedido de D. Carmo, quando lhe confiou a intenção recôndita e lhe recomendou segredo, ela acabava de me revelar tudo; mas o coração tolheu-me o remoque, por mais fraternal e inocente que me saísse. Podia ressentir-se, e ela não o merece; ela é boa.

Em resumo, pode ser que Rita tivesse razão no cemitério. Se a viúva Noronha, como lá escrevi há dias, foge a si mesma, é que tem medo de cair e prefere a viuvez ao outro estado.

10 de dezembro

Fidélia sabe já que Tristão resolveu partir no dia 24. Foi ele mesmo que lho disse em casa dela.

15 de dezembro

Se eu estivesse certo de poder casar os dous, casava-os, por mais que me custe confessá-lo a mim mesmo, e, à rigor, não custa muito. Estou só, entre quatro paredes, e os meus sessenta e três anos não rejeitam a idéia do ofício eclesiástico. Ego conjugo vos...

A razão de tal sentimento é a tristeza que vejo nos padrinhos, à medida que se aproxima o dia 24. D. Carmo perguntou a Tristão implorativamente por que é que não adiava para 9 de janeiro a viagem; eram mais quinze dias que lhe dava. Ele respondeu que não pode. Eu, algo incrédulo, perguntei-lhe se já comprara bilhete; disse-nos que vai comprá-lo amanhã. A minha idéia é que ele espera achar todas as passagens tomadas, e adiar a viagem por força maior. Não lho disse, mas tudo se deve esperar dos homens, e particularmente dos namorados.

Foi ontem que falamos disso os três; Aguiar estava presente e não opinou. Pouco depois chegou o desembargador com a sobrinha; tinham saído em visita ao presidente do tribunal, mas apenas na rua, Fidélia propôs ao tio virem passar a noite no Flamengo, e vieram; eram nove horas.

Tudo o que se passou até às dez e meia teria aqui três ou quatro páginas, se eu não sentisse algum cansaço nos dedos. Páginas de conjeturas, porque os dous apenas se falaram, mas conjeturas firmadas na comoção visível de um e de outro, nos silêncios da Fidélia, embora orlados da atenção que dava à amiga. Os quatro homens pouco a pouco nos ligamos. Campos chegou a propor cartas, nenhum de nós três aceitou a idéia. Aguiar ia aceitando, ainda que a meia voz, mas Tristão alegou dor de cabeça ou dor nas costas, e era verdade; tinha passado toda a manhã curvado, a arranjar cousas velhas. O mesmo cansaço dos dedos agora é resto da fadiga de ontem; ficamos a conversar, até que as duas visitas saíram, e eu com elas.

20 de dezembro

Sucedeu como eu cuidava. Tristão achou todas as passagens de 24 vendidas. Vai no dia 9. O pior é que, sendo natural comprar bilhete desde logo, para lhe não acontecer o mesmo, não comprou cousa nenhuma. Sei disto por ele, a quem perguntei se se não aparelhava já; respondeu que não, que há tempo. Agora imagino que, se houver tempo e achar bilhete, ele pode converter a necessidade de amar a moça no desejo de ceder aos velhos, e ficará mais duas ou três semanas. Os velhos não serão a causa verdadeira, mas não há só filhos de empréstimo, há também causas de empréstimo.

22 de dezembro

A verdadeira causa — ou uma delas, estava hoje no Flamengo, acabando a marinha. Tristão lá estava também, e ambos faziam a estética um do outro. Ele admirava menos a tela que a pintora, ela menos o espetáculo que o admirador, e eu via-os com estes olhos que a terra fria há de comer.

D. Carmo dava-me a parte de atenção a que a cortesia a obrigava, mas tão-somente essa. Olhava para os dous a miúdo, a espreitá-los, e, se fosse preciso, a animá-los. Mas já não era preciso. Um e outro esqueciam-se de nós e deixavam-se ir ao som daquela música interior, que não é nova para ela.

Observando a moça e os seus gestos, pensei no que me disseram há uma semana, a idéia que ela teve de ir passar o verão em Santa-Pia, que ainda não vendeu. Não lhe importaria lá ficar com os seus libertos; faltou-lhe pessoa que a acompanhasse. Ultimamente pensou em ir para Petrópolis, mas aí é provável que fosse também Tristão, e a intenção dela era fugir-lhe, creio eu. Creio também que ela foi sincera em ambos os projetos. Fidélia ouviu à porta do coração aquele outro coração que lhe bate, e sentiu tais ou quais veleidades de trancar o seu. Digo veleidades, que não obrigam nem arrastam a pessoa. A pessoa quer cousa diversa e oposta, e o sentimento, se não é já dominante, para lá caminha.

Uma impressão que trago do Flamengo é que D. Carmo despediu-se de mim, quando me levantei, com o mesmo prazer que lhe dei há dias, para ficar a sós com eles. Não lhes terá dito nada com palavras, mas até onde pode ir a alma sem elas, foi decerto. Só a compostura da boa senhora terá impedido que os abrace e lhes diga: Amem-se, meus filhos!

28 de dezembro

Estive hoje com Tristão, e não lhe ouvi nada a não ser que recebeu cartas de Lisboa, cartas políticas; também as recebeu do pai e da mãe. A mãe, se ele se demorar muito, diz que virá ver a sua terra. Deu-me notícias dos seus outros pais de cá, mas não falou da moça.

1889

2 de janeiro

Enfim, amam-se. A viúva fugiu-lhe e fugiu a si mesma, enquanto pôde, mas já não pode. Agora parece dele, ri com ele, e no dia 9 chorará por ele, naturalmente, se ele lhe não estancar a fonte das lágrimas com um gesto. As visitas são agora diárias, os jantares freqüentes; D. Carmo acompanha algumas vezes o afilhado a Botafogo, e Aguiar vai buscá-los.

Se já estão formalmente declarados é o que não sei; terá faltado ocasião ou ânimo a ele para confiar à outra o que ela sabe pelos olhos, mas não tardará muito. O que aí digo é o que sei por observações e conjeturas, e principalmente pela felicidade que há no rosto do casal Aguiar. A mana não tem saído de casa; no dia de ano-bom fui jantar com ela, mas não falamos disso.

7 de janeiro

Tristão já não vai a 9, por uma razão que me não deu, nem lha pedi. Só me disse que não vai; escreveu para Lisboa e ia levar as cartas ao correio.

9 de janeiro

Segundo aniversário da minha volta definitiva ao Rio. Não ouvi hoje os pregões do ano passado e do outro. Desta vez lembrou-me a data sem nenhum som exterior; veio de si mesma. Esperei ver a mana entrar-me em casa e convidar-me a ir com ela ao cemitério. Não veio (são quatro horas da tarde) ou porque se não lembrou, ou por lhe não parecer necessário todos os anos.

Quem sabe se não iríamos dar com a viúva Noronha ao pé da sepultura do marido, as mãos cruzadas, rezando, como há um ano? Se eu tivesse ainda agora a impressão que me levou a apostar com Rita o casamento da moça, poderia crer que tal presença e tal atitude me dariam gosto. Acharia nelas o sinal de que não ama a Tristão, e, não podendo eu desposá-la, preferia que amasse o defunto. Mas não, não é isso; é o que vou dizer.

Se eu a visse no mesmo lugar e postura, não duvidaria ainda assim do amor que Tristão lhe inspira. Tudo poderia existir na mesma pessoa, sem hipocrisia da viúva nem infidelidade da próxima esposa. Era o acordo ou o contraste do indivíduo e da espécie. A recordação do finado vive nela, sem embargo da ação do pretendente; vive com todas as doçuras e melancolias antigas, com o segredo das estréias de um coração que aprendeu na escola do morto. Mas o gênio da espécie faz reviver o extinto em outra forma, e aqui lho dá, aqui lho entrega e recomenda. Enquanto pôde fugir, fugiu-lhe, como escrevi há dias, e agora o repito, para me não esquecer nunca.

12 de janeiro

Amanhã (13) faz anos a bela Fidélia. Tal a razão que levou Tristão a transferir a viagem de 9 para outro dia que ainda não fixou. Assim o disse aos padrinhos que o aprovaram naturalmente e alegremente; esta mesma razão me foi confessada por ele hoje, quando o encontrei a buscar uma lembrança para deixar à viúva. Tais foram as suas palavras, mas não traziam alma de convicção. A razão da ficada é outra.

13 de janeiro

Antes de me despir quero escrever o que ouvi agora há pouco (meia-noite) à picante Cesária. Vim com ela e o marido da casa do desembargador onde fomos tomar chá com a graciosa viúva. Os amigos desta lá estiveram, menos Rita, que mandou cartão de cumprimentos; parece que está adoentada.

Não escrevo porque seja verdade o que D. Cesária me disse, mas por ser maligno. Esta senhora se não tivesse fel talvez não prestasse; eu nunca a vejo sem ele, e é uma delícia. Ou já sabia da afeição da viúva ao Tristão, ou reparou nela esta noite. Fosse como fosse, disse-me que Tristão não voltará tão cedo a Lisboa.

— Sim, concordei, parece que lhe custa muito deixar os padrinhos.

— Os padrinhos? redargüiu Cesária rindo. Ora, conselheiro! Certamente chama assim aos dous olhos da viúva, que são bem ruins padrinhos. Mas lá tem consigo a água benta para o batizado.

Não entendendo, perguntei-lhe que água benta era, e que batizado. O marido, com a sua rabugem do costume, respondeu que a água benta era o dinheiro, e esfregou o polegar e o índice; ela riu apoiando, e eu compreendi que atribuíam ao moço uma afeição de interesse.

Quis ponderar à dama que isto que me dizia agora estava em contradição com o que uma vez lhe ouvi. Ouvi-lhe então (e creio que o escrevi neste Memorial) que Tristão preferia a política à viúva, e por isso a deixava. Não lho lembrei por duas razões, a primeira é que seria inútil, e até prejudicial às nossas relações; a segunda é que ofenderia a própria natureza. D. Cesária pensa realmente o mal que diz. A contradição é aparente; está toda no ódio que ela tem a Fidélia, e este sentimento é a causa íntima e única das duas opiniões opostas. Preterida pela política ou preferida pelo dinheiro, tudo é diminuir a outra dama. A essas duas razões para ouvi-la calado acresceu a forma. Tudo lhe sai com palavras relativamente doces e honestas, ficando o veneno ou a intenção no fundo. Há ocasiões em que a graça de D. Cesária é tanta que a gente tem pena de que não seja verdade o que ela diz, e facilmente lho perdoa.

Tudo isto considerado, e mais a hora, a viagem curta, e a presença do marido, que diabo ganhava eu em desfazer o que ela dizia? Comigo, sim, logo que eles me deixararn, vim pensando no Tristão, que é também rico, que ama deveras a viúva, é amado por ela, e acabará casando. Vim recordando a noite e os seus episódios, que não escrevo por ser tarde, mas foram interessantes. O desembargador parece que já descobriu a inclinação da sobrinha, e não a desaprova. O casal Aguiar estava feliz; ainda lá ficou para vir com o afilhado.

23 de janeiro

Agora me lembra que amanhã faz um ano das bodas de prata do casal Aguiar. Lá estive naquela festa íntima, que me deu prazer grande. Também lá esteve Fidélia, e fez o seu brinde de filha à boa Carmo, tudo correu na melhor harmonia. Ainda cá não chegara Tristão, nem era esperado. Oxalá me não esqueça de lhes mandar cedo o meu bilhete de felicitações, e pode ser que lá vá de noite. Vou, vou.

... Rita escreveu-me agora (seis da tarde) pedindo que a espere amanhã, à noite, para irmos juntos ao Flamengo. Vou; há seis dias que lá não piso.

25 de janeiro

Não havia muita gente no Flamengo. Os quatro — casal Aguiar, Tristão e Fidélia (não conto o desembargador, que estava jogando), os quatro pareciam viver de uma novidade recente e desejada. Quem sabe se a mão da viúva não foi já pedida e concedida por ela? Comuniquei esta suposição a Rita, que me disse suspeitá-la também.

29 de janeiro

Tínhamos razão na noite de 24. Os namorados estão declarados. A mão da viúva foi pedida naquele mesmo dia, justamente por ser o 26.° aniversário do casamento dos padrinhos de Tristão; foi pedida em Botafogo, na casa do tio, e em presença deste, concedida pela dona, com assentimento do desembargador, que aliás nada tinha que opor a dous corações que se amam. Mas tudo neste negócio devia sair assim, de acordo uns com outros, e todos consigo.

D. Carmo e Aguiar, que haviam abraçado a Tristão com grande ternura antes e depois do pedido, estavam naquela noite em plena aurora de bem-aventurança. Valha-me Deus, pareciam ainda mais felizes que os dous. A viúva punha certa moderação na ventura, necessária à contigüidade dos dous estados, mas esquecia-se algumas vezes, e totalmente no fim. Nada se sabia então da novidade, e agora mesmo creio que só eu a sei (assim mo disse hoje o noivo); alguns poderiam supô-la, como a mana Rita, que já sabia metade dela; os menos sagazes terão dito consigo, ao vê-los, que é bom que Fidélia vá aliviando o luto do coração.

Referindo-me o que se passou há cinco dias, Tristão explicou esta comunicação nova: sentia-se obrigado a contar-me o final de um idílio, cujo princípio me confiara em forma elegíaca. Usou dessas mesmas expressões, e quase me citou Teócrito. Eu apertei-lhe a mão com sincero gosto, e prometi calar.

Em verdade, estimo vê-los unidos. Já escrevi que era um modo de acudir à tristeza do casal Aguiar. Agora acrescento (se já o não disse também) que eles se merecem, são moços, belos, amam-se, têm o direito natural e legítimo de se possuírem.

— Não publicamos oficialmente o nosso casamento próximo, concluiu Tristão, porque eu escrevi a meus pais, e só nos casaremos depois que me chegar a resposta. A resposta é sabida, e se pudesse ser contrária, nem por isso deixaríamos de casar-nos; todavia, não quero publicar já o acordo, é uma forma de respeito aos velhos.

Em seguida começou a desfiar as excelentes qualidades da moça. Já lhe ouvira algumas e conhecia-as todas, mas quando se trata com esta espécie de gente é preciso ter a maior indulgência do mundo. Tristão falava com tal sinceridade e gosto que seria duro não lhe dar ouvidos complacentes e palavras de aprovação; dei-lhos; ele acabou pedindo-me o primeiro abraço de pessoa estranha; dei-lho apertado.

2 de fevereiro

O abraço que lá contei atrás fez-me bem; foi sincero. Podia ser afetado ou apenas de cortesia, mas não foi; gostei de ver feliz aquele rapaz, e com ele a dama, e com eles os dous velhos de cá e os de lá.

Talvez seja engano meu, mas acho a viúva agora mais bonita. A causa disto pode ser a mudança próxima do estado. A melancolia de antes era verdadeira, mas estranha ou hóspede, não sei como diga para significar uma espécie de visita de pêsames, poucos minutos e poucas palavras. Já lá escrevi, há três semanas, a 9 do mês passado, alguma cousa que de certo modo explica e ata os dous estados.

6 de fevereiro

Não há como um grande segredo para ser divulgado depressa. Além de mim, que sei, e de Rita, que desconfia, há já quem afirme que os dous se casam; ou porque o sabem ou porque desconfiam somente, mas afirmam. Osório, que ouviu falar disso, recebeu a notícia como um grande golpe novo e inesperado. Nem faltarão outros que gostem dela ou morram por ela, e façam figas ao Tristão.

Verdade é que Osório estava já desenganado, mas foi isto mesmo que lhe reabriu a ferida. O desengano da parte dela era a fidelidade ao morto; desde que ela vai para outro, podia ir para ele, e é isto que o irrita, como sucede ao parceiro do gamão que dá com o copo no tabuleiro se lhe sai o pior número de dados.

10 de fevereiro

A felicidade é palreira. D. Carmo ainda não me disse que os dous estão para casar, mas já hoje me confiou que escreveu à comadre, mãe de Tristão, a quem não escreve há muito. Justamente pelo mesmo paquete que levou a carta do afilhado. Naturalmente reforçou o pedido e analisou as graças físicas e morais de Fidélia, e se lhe não pediu que os deixe cá, e venha ela também, acabará por aí. Nessa ocasião me dirá o resto, ou antes.

12 de fevereiro

Estava com desejo de ir passar um mês em Petrópolis, mas o gosto de acompanhar aqueles dous namorados me faz hesitar um pouco, e acabará por me prender aqui. Rita tem o mesmo gosto, e já agora os freqüenta mais. Ontem disse-me que o casamento é certo.

— Mas quem disse a você que eles se casam?

— Ninguém me disse; eu é que adivinhei. D. Carmo, a quem falei nisto, ficou um pouco embaraçada; não queria confessar e tinha vergonha de negar, é o que é; mas eu desconversei e falei de outra cousa. Só se eles não lhe disseram ainda nada...

Não sei que escrúpulo me deteve a língua; não lhe contei o que sabia da parte do próprio Tristão, mas não me custou nada; apenas retruquei disfarçando:

— Bem, a viúva não casa comigo, casa com outro, segundo lhe parece: mas então você confessa que perdeu a aposta.

— Não digo que não. Tudo está nas mãos de Deus.

— Lembra-se daquele dia no cemitério?

— Lembra-me; há um ano.

Repito, não me custou ser discreto; é virtude em que não tenho merecimento. Algum dia, quando sentir que vou morrer, hei de ler esta página a mana Rita; e se eu morrer de repente, ela que me leia e me desculpe; não foi por duvidar dela que lhe não contei o que já escrevi atrás.

Leia, e leia também esta outra confissão que faço das suas qualidades de senhora e de parenta. Talvez eu, se vivêssemos juntos, lhe descobrisse algum pequenino defeito, ou ela em mim, mas assim separados é um gosto particular ver-nos. Quando eu lia clássicos lembra-me que achei em João de Barros, certa resposta de um rei africano aos navegadores portugueses que o convidaram a dar-lhes ali um pedaço de terra para um pouso de amigos. Respondeu-lhes o rei que era melhor ficarem amigos de longe; amigos ao pé seriam como aquele penedo contíguo ao mar, que batia nele com violência. A imagem era viva, e se não foi a própria ouvida ao rei de África, era contudo verdadeira.

12 de fevereiro, onze horas da noite

Antes de me deitar, reli o que escrevi hoje ao meio-dia, e achei o final demasiado céptico. A mana que me perdoe.

Chego do Flamengo, onde achei Aguiar meio adoentado, na sala, numa cadeira de extensão, as portas fechadas, grande silêncio, os dous sós. Tristão saíra para Botafogo, não que não quisesse ficar, mas padrinho e madrinha disseram-lhe que fosse, que Fidélia podia ficar assustada se ele não aparecesse, que lhe desse lembranças. Tristão cedeu e foi. Eu cederia também, sem teimar muito, como provavelmente este não teimou nada.

Não me disseram as cousas naqueles termos instantes, mas os que empregaram vinham a dar neles. Continuam a calar o negócio do casamento.

A doença do Aguiar parece que é um resfriado, e desaparecerá com um suadouro; nem por isso ele me despediu mais cedo. D. Carmo teimava em fazê-lo recolher, e eu em sair, mas o homem temia que eu viesse meter-me em casa sozinho e aborrecido; foi o que ele mesmo me disse, e reteve-me enquanto pôde. Não saí muito tarde, mas tive tempo de ver a dona da casa ir de um para outro cabo do espírito, entre os cuidados de um e as alegrias de outro. Interrogativa e inquieta, apalpava a testa e o pulso ao marido; logo depois aceitava a ponta da conversação que ele lhe dava, acerca da Fidélia ou do Tristão, e a noite passou assim alternada, entre o bater do mar e do relógio.

13 de fevereiro

Mandei saber do Aguiar; amanheceu bom; não sai para se não arriscar, mas está bom. Escreveu-me que vá jantar com eles. Respondi-lhe que a doença foi um pretexto para passar o dia de hoje ao pé da esposa, e por isso mesmo não me é possível ir contemplar de perto esse quadro de Teócrito.

Realmente, não posso, tenho de ir jantar com o encarregado de negócios da Bélgica. Confesso que preferia os Aguiares, não que o diplomata seja aborrecido, ao contrário; mas os dous velhos vão com a minha velhice, e acho neles um pouco da perdida mocidade. O belga é moço, mas é belga. Quero dizer que, cansado de ouvir e de falar a língua francesa, achei vida nova e original na minha língua, e já agora quero morrer com ela na boca e nas orelhas. Todos os meus dias vão contados, não há recobrar sombra do que se perder.

"Quadro de Teócrito, escreveu-me Aguiar em resposta à minha recusa, quer dizer alguma cousa mais particular do que parece. Venha explicar-mo amanhã, entre a sopa e o café, e contar-me-á então os planos secretos da Bélgica. Tristão diz-me que jantará também, se V. Ex.ª vier. Veja a que ponto chegou este ingrato, que só janta conosco, se houver visitas; se não, some-se. Virá, conselheiro?"

Respondi que sim, e vou. A frase final do bilhete traz uma afetação de mágoa, algo parecido com prazer que se encobre; por outras palavras, sabe-lhes aquela ausência do rapaz, uma vez que tudo é amarem-se duas criaturas que os amam, e a quem eles amam também. Hei de ver que, acabado o jantar, os primeiros que o remetem para Botafogo são eles mesmos.

15 de fevereiro

Não, não remeteram Tristão para Botafogo. Creio que o desejassem e o fizessem, mas não tiveram tempo. Tão depressa acabamos de jantar, apareceram Fidélia e o tio. Conclui que os dous namorados houvessem concertado isto mesmo.

Noite boa para todos. Eu próprio achei prazer em observar os dous. Não é que eles não buscassem disfarçar, ela principalmente, mas não há disfarce que baste em tais lances. A agitação interior transtornava os cálculos, e os olhos contavam os segredos. Quando falavam pouco ou nada, o silêncio dizia mais que palavras, e eles davam por si pendentes um do outro, e ambos do céu. Foi o que me pareceu. Não me pareceu menos que o céu os animava e que eles os mandavam a todos os diabos, a mim e aos três velhos, e aos pais de Tristão, aos paquetes, às malas, às cartas que esperavam, a tudo que não fosse um padre e latim — latim breve e padre brevíssimo, que os aliviasse do celibato e da viuvez. E desta maneira diziam tudo o que sabiam de si.

Sabiam tudo. Parece incrível como duas pessoas que se não viram nunca, ou só alguma vez de passagem e sem maior interesse, parece incrível como agora se conhecem textualmente e de cor. Conheciam-se integralmente. Se alguma célula ou desvão lhes faltava descobrir, eles iam logo e pronto, e penetravam um no outro, com uma luz viva que ninguém acendeu. Isto que digo pode ser obscuro, mas não é fantasia; foi o que vi com estes olhos. E tive-lhes inveja. Não emendo esta frase, tive inveja aos dous, porque naquela transfusão desapareciam os sexos diferentes para só ficar um estado único.

16 de fevereiro

Esqueceu-me notar ontem uma cousa que se passou anteontem, no começo do jantar do Flamengo. Aqui vai ela; talvez me seja precisa amanhã ou depois.

As primeiras colheres de sopa foram tanto ou quanto caladas e atadas. Tinham chegado cartas da Europa (duas) e Tristão as leu à janela, rapidamente, parecendo não haver gostado do assunto. Comeu sem atenção nem prazer, a principio. Naturalmente os padrinhos desconfiaram alguma cousa, mas não se atreveram a perguntar-lhe nada. Olharam para ele, à socapa; eu, para lhes não perturbar o espírito, não trazia assunto estranho, e comia comigo. Depressa acabou o constrangimento, e o resto do jantar foi alegre. Já lá deixei notado o que foi o resto da noite.

Se eu quisesse saber o que diziam as cartas bastaria ser indiscreto ou descortês; era perguntar-lho em particular. Tristão me confiaria, creio, visto que entro cada vez mais no coração daquele moço. Ouve-me, fala-me, busca-me, quer os meus conselhos e opiniões. Mas a impressão má foi tão breve que provavelmente não foi grande, e ele acabaria referindo tudo aos padrinhos quando ficaram sós, e mais certamente à noiva, ontem. Devam estar já no período dos segredos comuns.

18 de fevereiro

Telegrama dos pais de Tristão, dizendo-lhe que sim, que aprovam, que os abençoam. O estilo telegráfico é mais conciso, mas foi assim que Tristão mo traduziu de cor; contentamento traz derramamento. Apertei-lhe a mão com prazer; ele quis um abraço. Foi aqui em casa, quando eu ia a sair, duas horas da tarde. Saímos juntos, e tive de ouvir três panegíricos, um dos pais, outro dos padrinhos, e o terceiro (aliás vigésimo) da própria dama dos seus pensamentos.

— D. Fidélia ficou contentíssima; diz que nunca duvidou da resposta, mas a declaração telegráfica mostra que os velhos não se puderam guardar para o correio, e responderam logo. Agora esperamos cartas, mas a publicação do casamento faz-se já.

Ao sair do bonde ouvi um quarto panegírico, o dos seus chefes políticos que estão ansiosos por vê-lo na câmara dos deputados e escreveram-lhe. Um deles chegou a confessar-lhe que abandonaria a política, se ele a deixasse também.

— É exagero, concluiu Tristão sorrindo, mas isto prova que me querem. Também pode ter sido um meio de me chamar depressa; o outro limitou-se a dizer que a minha eleição é certa, e a candidatura vai ser apresentada.

— Sim? Felicito-o.

— Não já, nem publicamente. Não disse nada disto aos padrinhos; a D. Fidélia, sim, contei-lho em particular, e agora a V. Ex.ª, pedindo-lhe a maior reserva.

Provavelmente eram as duas cartas do outro dia. Mas, de fato, partirá ele, ou ainda está incerto se cederá ou não à esposa, caso ela pense em ficar? A reserva que me pediu explicará uma e outra solução...

22 de fevereiro

Está publicado o casamento de Tristão e de Fidélia, não nos jornais, e antes fosse neles também; está só publicado entre as relações das duas famílias...

Eu gosto de ver impressas as notícias particulares, é bom uso, faz da vida de cada um ocupação de todos. Já as tenho visto assim, e não só impressas, mas até gravadas. Tempo há de vir em que a fotografia entrará no quarto dos moribundos para lhes fixar os últimos instantes; e se ocorrer maior intimidade entrará também.

25 de fevereiro

Quando mana Rita veio trazer-me a notícia oficial do casamento mostrei-lhe a minha carta de participação, e fiz um gesto de triunfo, perguntando-lhe quem tinha razão no cemitério, há um ano. Ainda uma vez concordou que era eu, mas emendou em parte, dizendo que a nossa aposta é que ela casaria comigo, e citou a aposta entre Deus e o Diabo a propósito de Fausto, que eu lhe li aqui em casa no texto de Goethe.

— Não, trapalhona, você é que me incitou a tentá-lo, e desculpou a minha idade, com palavras bonitas, lembra-se?

Lembrava-se, sorrimos, e entramos a falar dos noivos. Eu disse bem de ambos, ela não disse mal de nenhum, mas falou sem calor. Talvez não gostasse de ver casar a viúva, como se fosse cousa condenável ou nova. Não tendo casado outra vez, pareceu-lhe que ninguém deve passar a segundas núpcias. Ou então (releve-me a doce mana, se algum dia ler este papel), ou então padeceu agora tais ou quais remorsos de não havê-lo feito também... Mas, não, seria suspeitar demais de pessoa tão excelente.

Aí fica, mal resumida, a nossa conversação. Não falamos da data do casamento, nem da partida do casal, se partisse. Rita era pouca para referir anedotas, repetir ditos e boatos, nenhum malévolo nem feio, todos interessantes, ouvidos à gente Aguiar.

Seis horas da tarde

Vim agora da rua, onde me confirmaram que o corretor Miranda teve hoje de manhã uma congestão cerebral. Rita só me falou disso ao sair daqui, e esqueceu-me escrevê-lo. Estávamos no patamar da escada quando ela me contou que ouvira a notícia, no bonde, a dous desconhecidos.

— Só agora é que você me dá esta novidade? disse-lhe eu. Tem razão; a vida tem os seus direitos imprescritíveis; primeiro os vivos e os seus consórcios; os mortos e os seus enterros que esperem.

Também eu fiz o mesmo; só agora falo do homem.

26 de fevereiro

Miranda morreu ontem às dez horas; enterra-se hoje às quatro. Creio que deixa a família bem. Dávamo-nos sem ser grandes amigos. Eu, se fosse a somar os amigos que tenho perdido por esse mundo, chegaria a algumas dúzias deles. Os jornais dizem que não há convites para o enterro; irei ao enterro sem convite.

Dez horas da noite

Lá fui a enterrar o Miranda. Não valeria a pena contá-lo, se não fosse o que me sucedeu no fim. Muita gente, as tristezas do costume. A própria Cesária parecia abatida; não digo se chorava ou não. Aguiar e Campos também compareceram, e outros conhecidos.

No cemitério, deitada a última pá de terra na cova, lembrou-me ir ao jazigo dos meus. Desviei-me e fui; achei-o lavado como de costume, e depois de alguns minutos, vendo que a gente não acabava de sair, caminhei para o túmulo do Noronha, marido de Fidélia. Sabia onde ficava, mas ainda lá não fora.

Agora que a viúva está prestes a enterrá-lo de novo, pareceu-me interessante mirá-lo também, se é que não levara tal ou qual sabor em atribuir ao defunto o verso de Shelley que já pusera na minha boca, a respeito da mesma bela dama: I can, etc. Túmulo grave e bonito, bem conservado, com dous vasos de flores naturais, não ali plantadas, mas colhidas e trazidas naquela mesma manhã. Esta circunstância fez-me crer que as flores seriam da própria Fidélia, e um coveiro que vinha chegando respondeu à minha pergunta: "São de uma senhora que aí as traz de vez em quando..."

A pergunta foi feita tão naturalmente que o coveiro não teve dúvida em responder, nem eu em contá-lo aqui. Também não quero calar o que vim pensando comigo. Já não havia ninguém dos que acompanharam o enterro do Miranda. Chegava outro, e entre um e outro meti-me no carro e vim para casa. Em caminho pensei que a viúva Noronha, se efetivamente ainda leva flores ao túmulo do marido, é que lhe ficou este costume, se lhe não ficou essa afeição. Escolha quem quiser; eu estudei a questão por ambos os lados, e quando ia a achar terceira solução chegara à porta da casa. Desci, dei ao cocheiro a molhadura de uso, e enfiei pelo corredor. Vinha cansado, despi-me, escrevi esta nota e vou jantar. Ao fim da noite, se puder, direi a terceira solução: se não, amanhã. A terceira solução é a que lá fica atrás, não me lembra o dia... ah! foi no segundo aniversário do meu regresso ao Rio de Janeiro, quando eu imaginei poder encontrá-la diante da pessoa extinta, como se fosse a pessoa futura, fazendo de ambas uma só criatura presente. Não me explico melhor, porque me entendo assim mesmo, ainda que pouco. D. Cesária, se vier a sabê-lo, é capaz de ir dizê-lo ao próprio Tristão, com uma gota amarga ou corrupta, ou ambas as cousas para variar... Já já, não; está ainda com a morte do cunhado na garganta, mas tudo passa, até os cunhados.

Sem data

Já lá vão dias que não escrevo nada. A princípio foi um pouco de reumatismo no dedo, depois visitas, falta de matéria, enfim preguiça. Sacudo a preguiça.

A noite passada estive em casa da viúva Noronha, quase que a sós com ela; havia a mais o tio, um colega da Relação e uma parenta velha. Tristão fora a Petrópolis, levado pelos padrinhos até à barca da Prainha, e por mim que os vi passar na Rua da Quitanda, e subi ao carro convidado por eles. Não lhes ouvi então o motivo da ida a Petrópolis, mas já o sabia de véspera; foi examinar uma casa para o noivado. Concluí, não sei por quê, que eles ficavam morando aqui.

Posso dizer que verdadeiramente fiquei a sós com ela. Tendo ouvido ao tio que a sobrinha andava com saudades do velho amigo — que sou eu, imaginei que era mentira; o tio queria parceiro para cartas. Não fui e acertei; a parenta foi ao voltarete com os dous magistrados.

Eu, relativamente a Fidélia, já cheguei à liberdade de lhe perguntar se não tinha saudades do noivo. A resposta foi afirmativa, mas calada, um sorriso breve e um gesto de sobrancelhas. Tristão foi o assunto mais freqüente da conversação, dizendo eu todo o bem que penso dele e francamente é muito, ao que ela retrucava sem vaidade, antes com modéstia e discrição; em si mesma devia estar feliz. Disse-me que ele recebera cartas da família, confirmando por extenso o que já lhe mandara em resumo. A da mãe era toda ternura, citou-me algumas frases da futura sogra, e foi buscar a carta dela para que eu a lesse também.

— Cartas políticas não vieram?

— Parece que vieram.

Li e louvei muito a carta da paulista, que achei efetivamente terna, ainda que derramada, mas ternura de mãe não conhece sobriedade de estilo. Era escrita à própria Fidélia.

Vendo que esta gostava da conversa, não lhe pedi música; ela é que foi de si mesma tocar piano, um trecho não sei de que autor, que se Tristão não ouviu em Petrópolis não foi por falta de expressão da pianista. A eternidade é mais longe, e ela já lá mandou outros pedaços da alma; vantagem grande da música, que fala a mortos e ausentes.

Sábado

Fidélia parece retrair-se agora depois das primeiras confidências que me fez, e é natural. Como eu lhe pedisse notícias de Tristão, respondeu-me que não as tinha, e falou de outra cousa; mas, falando-lhe eu da alegria recente de D. Carmo, referiu-me as tristezas que lhe ouviu uma vez a propósito da volta do afilhado, e do conselho que então lhe deu de ir com ele; ao que a boa senhora retrucou que seria preciso separar-se do marido e não podia.

— Veja o perigo de dividir a alma com duas pessoas; eu, em moço, nunca o fiz, menos o faria agora depois de velho.

Sobre isto (que não tinha sentido claro nem intenção) dissemos cousas que não importa escrever aqui. Ela falou com graça, e provavelmente com verdade, mas não tratamos do assunto principal do coração da moça. Eu deleitava-me em apreciá-la por dentro, e por fora, não a achando menos curiosa interna que externamente. Sem perder a discrição que lhe vai tão bem, Fidélia abre a alma sem biocos, cheia de confiança que lhe agradeço daqui.

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