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Memorial de Aires

Machado de Assis

9 de março

Tristão voltou de Petrópolis. Deixou casa alugada em Westfalia, casa posta pelo comendador Josino, que a vai deixar por algum tempo e segue com a família para o sul; passou-lhe o contrato por três meses. D. Carmo e Fidélia sobem a vê-la esta semana. Andam agora muito mais juntas, em casa ou na rua, naturalmente a confidência é maior. Também eu ando com elas se as encontro, também ouço as palavras de ambas.

— Mana, disse eu a Rita contando-lhe estas cousas em Andaraí, eis aqui em que acaba um velho e grave diplomata aposentado, sem os cansaços do ofício, é certo, mas também sem as esperanças da promoção.

Rita entendeu e quase me puxou o nariz; preferiu dizer com saudade e consolação que não tivesse idéias de cemitério. Esta alusão à visita que fizemos ao jazigo da família, há mais de um ano, levou-me quase a confessar o sentimento paterno que Fidélia acaso acorda em mim, mas recuei a tempo. Era provável que Rita me dissesse, como fez um dia, que eram desculpas de mau pagador. A mana gosta de mofar, sem criar ódio a ninguém, e menos a mim que a outro. Ao cabo, há cousas que apenas se devem escrever e calar, é o que eu faço a esta espécie de afeição nova que acho na viúva.

13 de março

Não há como a paixão do amor para fazer original o que é comum, e novo o que morre de velho. Tais são os dous noivos, a quem não me canso de ouvir por serem interessantes. Aquele drama de amor, que parece haver nascido da perfídia da serpente e da desobediência do homem, ainda não deixou de dar enchentes a este mundo. Uma vez ou outra algum poeta empresta-lhe a sua língua, entre as lágrimas dos espectadores; só isso. O drama é de todos os dias e de todas as formas, e novo como o sol, que também é velho.

20 de março

D. Carmo tomou a si adornar a casa dos noivos. Soube isto pelo desembargador, que chegou de Petrópolis e deixou a casa "uma beleza" com a ordem em que ela dispõe os móveis e os adornos, alguns destes obra já de suas mãos.

— Já? perguntei.

— Já; D. Carmo trabalha depressa, e neste momento com grande afeição; deu-lhes também muitos trabalhos seus. Converse com o Aguiar, que lhe dirá a mesma cousa, e Tristão também; Fidélia é do mesmo parecer.

Rita, sem nada ver, acredita que seja assim; foi o que me respondeu. Quanto a D. Cesária também não viu nada, mas inclina-se a crer que lhe falte alguma harmonia.

— Pode ser que não, aventurei.

— Não digo que D. Carmo não pudesse fazer alguma cousa capaz, mas com esta pressa, às carreiras, não é provável. Demais ela não possui tanto gosto como se quer; algum tem, mas falta-lhe graça. Aos noivos também; ele parece-me espalhafatoso...

Quis defender os três, mas a certeza de que ela não tem de mim melhor opinião, fez-me recuar, e dizer-lhe que nunca lhe achei tanto espírito. Fui além; gabei-lhe os olhos. Como então passasse os dedos pelas sobrancelhas, gabei-lhe a mão, e iria aos pés, se me mostrasse os pés, mas não me mostrou mais nada.

21 de março

Explico o texto de ontem. Não foi o medo que me levou a admirar o espírito de D. Cesária, os olhos, as mãos, e implicitamente o resto da pessoa. Já confessei alguns dos seus merecimentos. A verdade, porém, é que o gosto de dizer mal não se perde com elogios recebidos, e aquela dama, por mais que eu lhe ache os dentes bonitos, não deixará de mos meter pelas costas, se for oportuno. Não; não a elogiei para desarmá-la, mas para divertir-me, e o resto da noite não passei mal. Estava em casa dela, onde a irmã escurecia tudo com a sua viuvez recente. D. Cesária disse muitas cousas de fel e de mel, trocando-as e completando-as com tal arte que alguma vez uma cousa parecia outra, e ambas pareciam as duas unidas.

22 de março

A reflexão que vou fazer é curta; se tal não fora, melhor seria guardá-la para amanhã, ou logo mais tarde, quando me recolher; mas é curta.

Curta e lúcida. Tristão pode acabar deitando ao mar a candidatura política Pelo que ouvi e escrevi o ano passado da primeira parte da vida dele, não se fixou logo, logo, em uma só cousa, mudou de afeições, mudou de preferências, a própria carreira ia ser outra, e acabou médico e político; agora mesmo, vindo a negócios e recreios, acaba casando. Nesta parte não há que admirar; o destino trouxe-lhe um feliz encontro, e o homem aceitará algemas, se as houver bonitas, e aqui são lindas.

Já me fala menos de partidos e eleições, e não me conta o que os chefes lhe escrevem. Comigo, ao menos, só me fala da viúva, e não creio que com outros seja mais franco, nem mais extenso, dizendo as suas ambições políticas próximas e remotas. Não; todo ele é Fidélia, e pode bem mandar a cadeira das Cortes ao Diabo, se a noiva lho pedir. Dir-se-á que é um versátil, cativo do mais recente encanto? Pode ser; tanto melhor para os Aguiares. Se assim acontecer, lerei esta página aos dous velhos, com esta mesma linha última.

25 de março

Era minha idéia hoje, aniversário da Constituição, ir cumprimentar o imperador, mas a visita de Tristão fez-me abrir mão do plano. Deixei-me estar a conversar com ele de mil cousas várias, depois saímos, passeamos e tornamos a casa.

Não aceitou jantar comigo por ter de ir jantar com ela. Naturalmente falamos dela algumas vezes, ele com entusiasmo, eu com simpatia. Talvez eu falasse menos que ele, é verdade; mas eu sou apenas amigo de ambos, e, de costume, prefiro ouvir.

Outro assunto que nos prendeu também, menos que ela, foi a política, não a de cá nem a de lá, mas a de além e de outras línguas. Tristão assistiu à Comuna, em França, e parece ter temperamento conservador fora da Inglaterra; em Inglaterra é liberal; na Itália continua latino. Tudo se pega e se ajusta naquele espírito diverso. O que lhe notei bem é que em qualquer parte gosta da política. Vê-se que nasceu em terra dela e vive em terra dela. Também se vê que não conhece a política do ódio, nem saberá perseguir; em suma, um bom rapaz, não me canso de o escrever, nem o calaria agora que ele vai casar; todos os noivos são bons rapazes.

26 de março

Or bene, marcou-se o dia do casamento de Tristão e Fidélia; é a 15 de maio. Já estava disposto entre eles, secretamente, para que os papéis corressem em Lisboa, a tempo. Os de cá vão correr já.

Foi a própria D. Carmo que me deu a notícia hoje, antes que me venha por carta, como se tratasse de pessoas minhas, noivo e noiva, tão freqüentes somos os três e os quatro, mas logo reduziu tudo a si mesma.

— Realiza-se um grande sonho meu, conselheiro, disse ela. Tê-los-ei finalmente comigo. Espero arranjar-lhes casa aqui mesmo no Flamengo. Ela disse-me uma vez que seria minha filha...

— Foi por ocasião das suas bodas de prata, não foi?

— Ouviu?

— Não ouvi; mas vi-lhe um gesto que vinha a dar na mesma. Lembre-se que eu estava a seu lado, e ela ao pé de seu marido; a distância era curta, e eu não esqueço nada.

— Justamente. Senti-me feliz, mas não contei que a felicidade viesse a ser maior.

Eu, para levar a conversa a outro ponto, insisti que não esqueço nada, e referi várias anedotas de lembrança viva, todas verdadeiras, mas da minha mocidade. Agora muita cousa me passa, muitas se confundem, algumas trocam-se. Mas, enfim, mudara o caminho da conversação, que é o que eu queria para não atalhar a felicidade da boa Aguiar com pergunta indiscreta acerca de política Não contei que ela própria falasse disso, como fez. Tristão já lhe não toca em política e as cartas escasseiam ou tratam de matéria aborrecida, que ele não comunica a ninguém, guardando-as ou lendo-as por alto e de passagem. A mãe escreveu-lhe ultimamente.

— A comadre mandou-me dizer que eu lhe quero roubar o filho, e ameaçou-me de o vir buscar com uma esquadra; respondi-lhe gracejando também.

D. Cesária, que entrava então na sala, recebeu a notícia do dia do casamento; ouvira falar disso, e vinha saber se era verdade. O alvoroço e doçura com que falou à outra compensou em grande parte o mal que me dissera dela, e por outra maneira confirmou o que lá pensei uma vez (e não sei se escrevi) sobre a propriedade deste mundo. Deus vencia aqui o Diabo, com um sorriso tão manso e terno que faria esquecer a existência do imundo consócio. O marido daquela dama não seria capaz de tamanho contraste, creio eu; falta-lhe disposição, e principalmente maneiras. É sujeito capaz de pagar com um pontapé a notícia que lhe trouxeram da sorte grande. Não sabe ser feliz, posto não lhe custe nada; não sei se me explico bem, mas basta que o sinta comigo. Isto e outras cousas que fui pensando vieram comendo o tempo, e às onze horas estava em casa.

Antes de me meter na cama, refleti que efetivamente Tristão já me não fala em política, nem me cita as cartas que recebe, e pode ser que elas escasseiem deveras. Soubesse eu fazer versos e acabaria com um cântico ao deus do amor; não sabendo, vá mesmo em prosa: "Amor, partido grande entre os partidos, tu és o mais forte partido da terra..." Lerei esta outra página aos dous moços, depois de casados.

4 de abril

Não esperava por esta. Tristão veio pedir-me que lhe sirva de padrinho ao casamento. Não podia negar-lho, e aceitei o convite, ainda que sem grande gosto. Aí tinha ele o Aguiar, ou o Campos, mas enfim, quero ajudar a felicidade de todos. Deu-me outros pormenores: casamento à capucha, entre onze horas e meio-dia, almoço no Flamengo, em família, e os dous serão levados à Prainha modestamente, embarcarão ali para Petrópolis. Minúcias escusadas, mas tudo se deve escutar com interesse a um coração que ama.

8 de abril

— Sabe o que D. Fidélia me escreveu agora? Perguntou-me Aguiar. Que o Banco tome a si vender Santa-Pia.

— Creio que já ouvi falar nisso...


— Sim, há tempos, mas era idéia que podia passar; vejo agora que não passou.

— Os libertos têm continuado no trabalho?

— Têm, mas dizem que é por ela.

Não me lembra se fiz alguma reflexão acerca da liberdade e da escravidão, mas é possível, não me interessando em nada que Santa-Pia seja ou não vendida. O que me interessa particularmente é a fazendeira — esta fazendeira da cidade, que vai casar na cidade. Já se fala no casamento com alguma insistência, bastante admiração, e provavelmente inveja. Não falta quem pergunte pelo Noronha. Onde está o Noronha? Mas que fim levou o Noronha?

Não são muitos que perguntam, mas as mulheres são mais numerosas — ou porque as afligiam as lágrimas de Fidélia — ou porque achem Tristão interessante —, ou porque não neguem beleza à viúva. Também pode ser que as três razões concorram juntas para tanta curiosidade; mas, enfim, a pergunta faz-se, e a resposta é um gesto parecido com esta ou outra resposta equivalente: — Ah! minha amiga (ou meu amigo), se eu fosse a indagar onde param os mortos, andaria o infinito e acabaria na eternidade.

É engenhoso, mas não é bom, principalmente não é certo. Os mortos param no cemitério, e lá vai ter a afeição dos vivos, com as suas flores e recordações. Tal sucederá à própria Fidélia, quando para lá for; tal sucede ao Noronha, que lá está. A questão é que virtualmente não se quebre este laço, e que a lei da vida não destrua o que foi da vida e da morte. Creio nas afeições de Fidélia; chego a crer que as duas formam uma só, continuada.

Quando eu era do corpo diplomático efetivo não acreditava em tanta cousa junta, era inquieto e desconfiado; mas, se me aposentei foi justamente para crer na sinceridade dos outros. Que os efetivos desconfiem!

15 de abril

Já se não vende Santa-Pia, não por falta de compradores, ao contrário; em cinco dias apareceram logo dous, que conhecem a fazenda, e só o primeiro recusou o preço. Não se vende; é o que me disseram hoje de manhã. Concluí que o casal Tristão iria lá passar o resto dos seus dias. Podia ser, mas é ainda mais inesperado.

O que ouvi depois é que Tristão, sabendo da resolução da viúva, formulou um plano e foi comunicar-lho. Não o fez nos próprios termos claros e diretos, mas por insinuação. Uma vez que os libertos conservam a enxada por amor da sinhá-moça, que impedia que ela pegasse da fazenda e a desse aos seus cativos antigos? Eles que a trabalhem para si. Não foi bem assim que lhe falou; pôs-lhe uma nota voluntariamente seca, em maneira que lhe apagasse a cor generosa da lembrança. Assim o interpretou a própria Fidélia, que o referiu a D. Carmo, que mo contou, acrescentando:

— Tristão é capaz da intenção e do disfarce, mas eu também acho possível que o principal motivo fosse arredar qualquer suspeita de interesse no casamento. Seja o que for, parece que assim se fará. — E andam críticos a contender sobre romantismos e naturalismos!

Parece que D. Carmo não me achou graça à exclamação, e eu mesmo não lhe acho graça nem sentido. Aplaudi a mudança do plano, e aliás o novo me parece bem. Se eles não têm de ir viver na roga, e não precisam do valor da fazenda, melhor é dá-la aos libertos. Poderão estes fazer a obra comum e corresponder à boa vontade da sinhá-moça? É outra questão, mas não se me dá de a ver ou não resolvida; há muita outra cousa neste mundo mais interessante.

19 de abril

Tristão, a quem falei da doação de Santa-Pia, não me confiou os seus motivos secretos; disse-me só que Fidélia vai assinar o documento amanhã ou depois. Estávamos no Carceler tomando café. Ouvi-lhe também dizer que recebeu cartas de Lisboa, duas políticas; instam por ele. Quis saber se acudiria ao chamado, mas o gesto com que ele via subir o fumo do charuto parecia mirar tão-somente a noiva, o altar e a felicidade; não ousei passar adiante.

Saindo do Carceler, ouvi-lhe que ia fazer uma encomenda; talvez algum presente para a noiva, mas não me disse o que era, nem o destino. Falou-me, sim, da madrinha e da amizade que ela lhe tem; ao que redargüi, confirmando:

— Posso dizer-lhe que é grande.

— É grande e antiga.

Contou-me então o que eu já sei, anedotas da infância e da adolescência, e nisto me entreteve andando alguns minutos largos; parece-me realmente bom e amigo. A idade em que foi daqui e o tempo que tem vivido lá fora dão a este moço uma pronúncia mesclada do Rio e de Lisboa que lhe não fica mal, ao contrário. Despedimo-nos à porta de um ourives; há de ser alguma jóia.

28 de abril

— Lá se foi Santa-Pia para os libertos, que a receberão provavelmente com danças e com lágrimas; mas também pode ser que esta responsabilidade nova ou primeira...

6 de maio

A gente Aguiar parece estar sobressaltada. Tristão recebeu novas cartas e alguns jornais de Lisboa, e longamente os leu para si, agora alegre, logo carrancudo. O que leu nos jornais foram trechos marcados a lápis azul e a tinta preta, e nada referiu aos dous velhos. Ao contrário, levou os jornais para o quarto, onde nenhum deles lhos foi pedir nem ver. Também não lhe perguntaram nada, ele ficou a pensar consigo, e assim correu o resto da tarde. Depois de jantar foram para Botafogo.

Lá se desfizeram as sombras, porque o encontro de Tristão e Fidélia era sempre uma aurora para ambos, a preocupação dos Aguiares passou, e a noite acabou com a mesma família de bem-aventurados.

Não estive lá; soube isto por mana Rita, que conversou com D. Carmo, e veio confiar-me tudo "como a um cofre", disse ela. Eu aceitei a confidência e agradeci a definição, e aqui as deixo com esta linha última. Em verdade, Tristão é feito de modo que a política o pode levar sem esforço, e Fidélia retê-lo sem dificuldade.

8 de maio

Tristão quer ser casado pelo padre Bessa e pediu-lho. O padre mal pôde ouvir o pedido, consentiu e agradeceu deslumbrado. Há uma idéia de simetria na bênção do casamento dada pelo mesmo sacerdote que o batizou, que entrará por alguma cousa na resolução do noivo, mas também pode ser que a principal intenção fosse fazê-lo feliz. Aquele sacerdote obscuro e escondido na Praia Formosa virá subir a escadaria da matriz da Glória (o casamento é na matriz da Glória) para abençoar o casamento de duas pessoas lustrosas e vistosas. Aguiar disse-me que o padre está que parecia ser ele próprio o noivo.

— Note bem, conselheiro, concluiu ele, dando-me aquela notícia que é já de alguns dias, note que quando Tristão lhe fez presente de uma batina nova, o padre Bessa recebeu-a vexado, porque então a velhice da sua lhe entrou melhor pelos olhos. Agora a alegria é grande e franca, não imagina. Creio que é do papel espiritual e sacramental que lhe oferecem; ele já não casa ninguém há muitos anos.

15 de maio

Enfim, casados. Venho agora da Prainha, aonde os fui embarcar para Petrópolis. O casamento foi ao meio-dia em ponto na matriz da Glória, poucas pessoas, muita comoção. Fidélia vestia escuro e afogado, as mangas presas nos pulsos por botões de granada, e o gesto grave. D. Carmo, austeramente posta, é verdade, ia cheia de riso, e o marido também. Tristão estava radiante. Ao subir a escadaria, troquei um olhar com a mana Rita, e creio que sorrimos; não sei se nela, mas em mim era a lembrança daquele dia do cemitério, e do que lhe ouvi sobre a viúva Noronha. Aí vínhamos nós com ela a outras núpcias. Tal era a vontade do Destino. Chamo-lhe assim, para dar um nome a que a leitura antiga me acostumou, e francamente gosto dele. Tem um ar fixo e definitivo. Ao cabo, rima com divino, e poupa-me a cogitações filosóficas.

Na igreja havia curiosos do bairro, damas principalmente. Cada uma destas era pouca para apanhar com os olhos as figuras dos noivos, desde a porta até o altar-mor. Movimento, sussurro, cabeças inclinadas, tudo isso encheria este pedaço de papel sem proveito. Mais interessante seria o que alguma boca disse do primeiro casamento e suas alegrias, e da viúva e suas tristezas, e os demais quartos dessa perpétua lua da criação.

Quando acabou a cerimônia e o padre Bessa deixou o altar, a efusão da madrinha foi grande. Vi o abraço que deu aos dous, um depois de outro, e afinal juntos; Tristão beijou-lhe a mão, Fidélia também, ambos comovidos, e ela, ainda mais comovida que eles, selou tudo com dous beijos de mãe. À uma hora da tarde estávamos de volta ao Flamengo, e pouco depois almoçávamos. Venho cansado demais para dizer tudo o que ali se passou antes, durante e depois da comida, até à hora em que fomos levar os recém-casados à Prainha. Passou-se o costume, salvo a nota particular que os quatro me deram e foi profunda. Não citei entre os assistentes o Campos, que não era dos menos satisfeitos, embora Tristão lhe leve a sobrinha, meia esposa e meia filha pela ordem que lhe punha em casa desde que foi viver com ele. Também não falei do filho dele, primo dela. O resto, pessoas íntimas e poucas.

Um incidente, tão ajustado que pareceu de encomenda. Em meio do almoço chegou um telegrama de Lisboa para Tristão com duas palavras, dous nomes e a data: "Deus abençoe". Os pais sabiam pelo correio que o casamento era hoje, e quiseram mandar-lhes a bênção pelo cabo. Tristão leu as palavras para si e depois para todos, e o papel correu a mesa. Naturalmente os recém-casados apertaram as mãos, e D. Carmo adotou o texto da verdadeira mãe com o seu olhar de mãe postiça. Eu deixei-me ir atrás daquela ternura, não que a compartisse, mas fazia-me bem. Já não sou deste mundo, mas não é mau afastar-se a gente da praia com os olhos na gente que fica.

Daí a brindar pelos noivos não me custou nada; fi-lo discretamente, e estendi o brinde à gente Aguiar, que me ficou reconhecida. Rita disse-me, ao voltar da Prainha, que as minhas palavras foram deliciosas. Confessei-lhe que seriam mais adequadas se eu as resumisse em emendar Bernardim Ribeiro: "Viúva e noiva me levaram da casa de meus pais para longes terras..." Mas, além de lembrar o primeiro marido, podia estender as longas terras além de Petrópolis, e viria afligir a festa tão bonita.

— Foi melhor ficar nas palavras deliciosas que eu disse, concluí modestamente.

26 de maio

Nestes últimos dias só tenho visitado o casal Aguiar, que parece meter-me cada vez mais no coração. Vivem felizes, recebem e mandam notícias aos dous filhos de empréstimo. Estes descerão na semana próxima para subir no mesmo dia; o único fim é abraçar os velhos.

Em Petrópolis tem chovido, mas também há dias bonitos, e deles e das chuvas Fidélia manda impressões interessantes; talvez a principal causa destas seja o próprio estado conjugal. A alma da gente dá vida às cousas externas, amarga ou doce, conforme ela for ou estiver, e o texto de Fidélia é dulcíssimo. D. Carmo mostrou-me ontem a última carta da moça, escrita nas quatro páginas, letra miúda e cerrada, e linhas estreitas. A ternura não embarga a discrição nem esta diminui aquela. No fim da carta, Fidélia insinua a idéia de irem todos quatro à Europa, ou os três, se Aguiar não puder deixar o Banco. A velha vai dizer que não pode ser por ora.

— Nem por ora, nem jamais, concluiu dobrando a carta; estou cansada e fraca, conselheiro, e meia doente. Não dou para folias de viagens.

— Viagens dão saúde e força, opinei.

— Pode ser, mas em outra idade; na minha é já impossível.

Seguiu-se uma pausa, durante a qual Aguiar olhou de soslaio para a mulher, ela para si, e eu para ambos alternadamente. Entrou um vizinho, e falamos de outras cousas.

Quinta-feira

Tristão e Fidélia desceram hoje e Aguiar os foi buscar à Prainha. Dali vieram almoçar ao Flamengo, onde D. Carmo esperava os recém-casados e os abraçou cheia de coração. O velho ficou de ir do Banco à Prainha, quando a barca houvesse de sair à tarde para Petrópolis.

Tudo isso ouvi de noite aos dous velhos, e ouvi mais que a velha e os moços passaram um dia deleitosíssimo. Não foi este o próprio vocábulo empregado por ela; já lá disse algures que D. Carmo não possui o estilo enfático. Mas o total do que me disse vem a dar nele.

Conversaram os três de várias cousas, de Petrópolis, de música e de pintura; os dous tocaram piano, e logo depois saíram à praia, com a velha. Justamente na praia, Fidélia pegou da idéia que propusera em carta de fazerem uma viagem à Europa, à qual D. Carmo se recusou por débil e cansada. Então Fidélia explicou o que seria a viagem; em primeiro lugar curta, a Lisboa, para ver a mãe de Tristão, depois a Paris, e se houvesse tempo, à Itália; partiriam em agosto ou setembro, e em dezembro estariam de volta.

— Não é o tempo, filha, replicou D. Carmo; pouco ou muito, desde que lá estivesse iria ao fim, mas é este corpo já cansado, e depois, não indo Aguiar, quem há de cuidar dele?

— Pois ele que vá também, acudiu Tristão.

— Este ano não pode.

A conversação foi andando com eles, ao longo da praia, onde o mar, indo e vindo, era como se os convidasse a meterem-se nele até desembarcar "no porto da ínclita Ulisséia", como diz o poeta. D. Carmo ainda se lembrou de lhes perguntar por que não transferiam a viagem para o ano; Aguiar poderia ir também. Não responderam.

— Recusaria o acordo eu, disse Aguiar à noite, ao me contarem isto. Assim repliquei aos dous na Prainha, quando ali os fui meter na barca. Também eu não deixaria Carmo.

11 de junho

Hoje apareceram-me os recém-casados pela primeira vez, encontro casual, na Rua do Ouvidor, às duas horas da tarde; iam a compras. Gostei de os ouvir, e ainda mais de a ver. A graça com que ela dava o braço ao marido e deslizava na rua era mais completa que a anterior ao casamento; obra do casamento e da felicidade. Iam ouvindo, iam falando, iam parando aos mostradores.

Descem definitivamente no dia 20 deste mês, e partem nos primeiros dias de agosto para Lisboa; irão logo a outras partes.

— Por que não vem daí, conselheiro? Perguntou-me Tristão.

— Depois de tanta viagem? Sou agora pouco para reconciliar-me com a nossa terra.

Sublinho este nossa, porque disse a palavra meio sublinhada; mas ele creio que não a ouviu de nenhuma espécie. Olhava para a consorte, como avivando o programa da viagem que iam fazer, e seguiram pela rua abaixo com a mesma graça vagarosa.

25 de junho

Campos e Aguiar queriam, à sua vez, que o jovem casal viesse aposentar-se em casa deles, e alegaram a razão de ser por poucos dias, pois que tinham de embarcar. Tristão e Fidélia recusaram e foram para o Hotel dos Estrangeiros. A razão alegada por estes foi a mesma dos poucos dias, e eu creio que era verdadeira, mas principalmente seria a de não dar preferência a um nem a outro.

— Passaremos estes últimos dias nas duas casas, alternadamente, propôs Tristão.

— Não, isso não, acudiu o desembargador; passaremos todos no Flamengo.

Era natural e cortês, sendo ele só e Aguiar casado. Assim fazem desde o dia 20, em que os dous desceram de Petrópolis; lá os vi ontem, dia de S. João.

Não escrevo o que lá se passou para me não demorar a dizer tudo, que é muito. Vi-os felizes a todos quatro. D. Carmo parecia esconder a tristeza da viagem que se aproxima, ou temperá-la com a idéia da volta, a que aludia freqüentemente e a propósito de tudo, como a avivar a obrigação. Assim correram as horas depressa. Saí com eles até o Hotel; dali seguiu Campos para Botafogo e vim eu para o Catete.

29 de junho

A outra visita foi por noite de S. João; hoje, noite de S. Pedro, chegarei também ao Flamengo, e, se couber, falaremos também das cousas antigas.

30 de junho

Lá estive na casa Aguiar. Não falamos de cousas velhas nem de cousas novas, mas só das futuras. No fim da noite adverti que falávamos todos, menos o casal recente; esse, depois de algumas palavras mal atadas, entrou a dizer de si mesmo, um dizer calado, espraiado e fundido. De quando em quando os dous davam alguma sílaba à conversação, e logo tornavam ao puro silêncio. Também tocaram piano. Também foram falar entre si ao canto da janela. Sós os quatro velhos — o desembargador com os três, — fazíamos planos futuros.

Certo é que D. Carmo alguma vez acompanhou os dous com os seus olhos inquietos, como a perguntar-lhes que parte viriam eles ter no futuro que ela e nós imaginávamos; mas o receio de os interromper na felicidade tapava-lhe a boca, e a santa senhora contentava-se de os mirar e amar. Ao chá a conversação fez-se de todos, e Tristão referiu alguns casos de Lisboa, casos de política e de recreação.

Vindo para casa acudiu-me em caminho uma idéia, indiscreta, decerto, mas felizmente não a disse a ninguém, e mal a deixo nesta folha de papel. A idéia é saber se Fidélia terá voltado ao cemitério depois de casada. Possivelmente, sim; possivelmente não. Não a censurarei, se não: a alma de uma pessoa pode ser estreita para duas afeições grandes. Se sim, não lhe ficarei querendo mal, ao contrário. Os mortos podem muito bem combater os vivos, sem os vencer inteiramente.

Sem data

Hoje foi a última recepção dos Aguiares, e eu quis despedir-me dos viajantes que embarcam depois de amanhã. Bastante gente, entre ela o Faria e D. Cesária, e a viúva do corretor Miranda, ainda abatida. A nota geral da noite não era alegre, ao contrário: todos buscavam ir pelo tom da casa, que era tristonho. A própria Fidélia parecia definhar-se ao pé da amiga, e uma vez a mana Rita a foi achar que dizia à outra:

— D. Carmo, por que não vem conosco? Ainda é tempo de comprar bilhetes, e se os não houver, Tristão adia a viagem, e vamos no outro paquete.

D. Carmo respondia que não; sentia-se cansada e abatida.

— Viagem não cansa, e lá chegando cria alma nova.

Rita juntou o seu voto ao da moca, e ambas teimaram com ela, mas não puderam nada. Como última razão, vinha a separação do marido, razão velha e parece que decisiva. Rita notou que as duas estavam sinceramente desconsoladas, mas D. Carmo buscava fortalecer-se, enquanto que Fidélia não acabava de vencer o desgosto.

— Olhe, mano, eu ainda creio que ela desfaz a viagem....

Era no escuro, à vinda da praia; por isso a mana não me pôde ver o gesto incrédulo, mas certamente o adivinhou e trocou o que disse. "Não, que desfaça não digo, mas daria muito para não ter consentido em partir." Repetiu-me as palavras que Fidélia lhe disse de D. Carmo, chamando-lhe boa e santa, "a santa Aguiar".

Confesso que vim de lá aborrecido; preferia não ter ido, ou quisera ter saído logo. Tristão vem cá almoçar comigo amanhã.

Véspera do embarque

Tristão cumpriu a promessa, veio almoçar comigo, eram onze horas e meia. Vinha triste — triste e calado. Quer dizer que falamos muito pouco. Não havendo melhor assunto de conversa que esse mesmo silêncio, lembrou-me dizer-lhe que compreendia as saudades que ele levava daqui, já da terra, já das pessoas, e particularmente das duas pessoas que lhe queriam tanto. A ocasião era boa para dizer dos dous velhos as melhores cousas — ou repeti-las, pois já mas tinha confiado várias vezes; outrossim, inteirar-me dos seus planos de futuro, até onde ia a viagem, e em que tempo tornaria com a formosa esposa. Não me disse nada; afirmou de cabeça e mergulhou no mesmo grande silêncio do princípio. Creio que não me ouviu metade.

No fim do almoço, como fumássemos, deu-me novamente a indicação da casa em Lisboa, o título da folha política em que colabora, e ia confiar-me alguma cousa mais que calou, pareceu-me. Mergulhou outra vez no silêncio. Eu respeitava aquela melancolia e deixava-me ir atrás do fumo do charuto. Tristão finalmente despediu-se.

— Não nos veremos mais? Perguntou-me.

— Irei ao Cais Pharoux, pode ser que a bordo também.

— Até amanhã; vá fazendo as encomendas.

Levei-o até à escada, que ele começou a descer vagarosamente, depois de me apertar a mão com força. A meio caminho deteve-se e subiu outra vez.

— Olhe, conselheiro, Fidélia e eu fizemos tudo para que a velha e o velho vão conosco; não podem, ela diz que está cansada, ele que não se separa dela, e ambos esperam que voltemos.

— Pois voltem depressa, aconselhei.

Tristão fitou-me os olhos cheios de mistérios, e tornou à sala; vim com ele.

— Conselheiro, vou fazer-lhe uma confidência, que não fiz nem faço a ninguém mais; fio do seu silêncio.

Fiz um gesto de assentimento. Tristão meteu a mão na algibeira das calças e tirou de lá um papel de cor; abriu-o e entregou-mo que lesse. Era um telegrama do pai, datado da véspera; anuncia-lhe a eleição para daqui a oito dias.

Ficamos a olhar um para o outro, calados ambos, ele como que a apertar os dentes. Depois de alguns segundos de pausa:

— Eleição certa, disse ele. As cartas já me faziam crer isto, mas não cuidei que fosse tão próxima.

Restitui-lhe o telegrama. Tristão insistiu pelo meu silêncio, e acrescentou:

— Queria que eles viessem conosco; eu lhes diria a bordo o que conviesse, e o resto seria regulado entre as duas — ou entre as três, contando minha mãe. Fidélia mesma é que me lembrou este plano, e trabalhou por ele, mas não alcançamos nada; ficam esperando.

Quis dizer-lhe que era esperarem por sapatos de defunto, mas evitei o dito, e mudei de pensamento. Como ele não dissesse mais, fiquei um tanto acanhado; Tristão, porém, completou a intenção do ato, acrescentando:

— Confesso-lhe isto para que alguém que nos merece a todos dê um dia testemunho do que fiz e tentei para me não separar dos meus velhos pais de estimação; fica sabendo que não alcancei nada. Que quer, conselheiro? A vida é assim cheia de liames e de imprevistos...

Não sei que disse mais; a mim chegava-me outra idéia que também deixei passar, não querendo ser indiscreto. Era indagar se Fidélia sabia já do telegrama; ele dissera-me que o não mostrara a ninguém, mas é claro que a mulher era ele mesmo, e estava excluída do silêncio que tivera com os outros.

18 de julho

Vim de bordo, aonde fui acompanhar os dous, com o velho Aguiar, o desembargador Campos e outros amigos. D. Carmo foi só até o cais; estava sucumbida, e enxugava os olhos. Ficou parada, a ver a lancha em que íamos, dizendo adeus com o lenço; não tardou que o espaço nos separasse inteiramente da vista.

Fidélia ia realmente triste; o mar não tardaria em espancar as sombras, e depois a outra terra, que a receberia com a outra gente. Eu, no tombadilho do paquete, imaginei o cemitério, o túmulo, a figura, as mãos postas e o resto. Tristão, à despedida, disse palavras amigas e saudosas a Aguiar, mandou outras para a madrinha, e a mim pediu-me que não esquecesse os pais de empréstimo e os fosse ver e consolar. Prometi que sim. Descemos para a lancha e afastamo-nos do paquete.

Tenho embarcado e desembarcado muitas vezes, devia estar gasto. Pois não estou. Não sentia a separação, é verdade; trazia os olhos no velho Aguiar e o pensamento na velha Carmo. Quanto ao desembargador vinha triste com a separação, mas a sobrinha obrigou-o a prometer, à última hora, que iria vê-la no ano próximo, e ele não advertiu que o pedido desdizia da promessa que lhe tinha feito de regressar no fim do ano ao Rio de Janeiro.

Despedimo-nos no cais. Aguiar seguiu para o Banco, eu vim para casa, onde escrevo isto. De noite irei ao Flamengo, a cumprir desde já a promessa que fiz a Tristão e a Fidélia.

Não acabarei esta página sem dizer que me passou agora pela frente a figura de Fidélia, tal como a deixei a bordo, mas sem lágrimas. Sentou-se no canapé e ficamos a olhar um para o outro, ela desfeita em graça, eu desmentindo Shelley com todas as forças sexagenárias restantes. Ah! basta! Cuidemos de ir logo aos velhos.

Dez horas da noite

Venho do Flamengo. Quisera ficar mais tempo, mas eles precisavam descansar da separação. Campos também lá foi, e ambos saímos cedo, nove e meia; não se falou dos viajantes.

29 de agosto

Chegou paquete da Europa, trouxe cartas de Lisboa e notícias políticas. As cartas eram saudosas, e as notícias interessantes; aliás só vieram à noite. Na rua tinha-me Aguiar dito o que havia nas cartas de Tristão e de Fidélia e na que a comadre escrevera a D. Carmo; fui vê-las ao Flamengo. A da comadre era cheia de louvores à nora, que achava mais bela que no retrato, e mais terna que ninguém; foram as próprias palavras dela, e para uma sogra não me destoaram muito. Assim o disse a D. Carmo, que sorria complacente, com uma espécie de ternura mórbida. Éramos sós os três, e a saudade grande.

Pouco depois chegou Campos. Vinha aturdido, e ao dar comigo pareceu querer falar-me em particular. Em particular, a um canto, disse-me que Tristão lhe escrevera dizendo achar-se eleito deputado quando desembarcou em Lisboa, e pedindo-lhe que desse a notícia à gente Aguiar como entendesse melhor; não lhes escrevia a eles sobre isso para evitar o sobressalto. Que me parecia?

— Sempre se lhes há de dizer tudo, respondi; o melhor é que seja logo, e aqui estamos para dizer as cousas cautelosamente.

— Também me parece.

— Eu engenharei uma fábula...

Engenhei o que pude. Falei do golpe que o moço recebeu quando desembarcou deputado, e viu misturadas as alegrias dos pais com as dos amigos políticos; devia dizer também que a primeira idéia de Tristão foi rejeitar o diploma e vir para Santa-Pia; mas que o partido, os chefes, os pais... Não fui tão longe; seria mentir demais. Ao cabo, não teria tempo. Os dous velhos ficaram fulminados, a mulher verteu algumas lágrimas silenciosas, e o marido cuidou de lhas enxugar.

Assim correram as cousas, a mentira e os efeitos. Os dous procuramos levantar-lhes o ânimo. Eu empreguei algumas reflexões e metáforas, afirmando que eles viriam este ano mesmo ou no princípio do outro; bastava saberem a dor que causava aqui a notícia.

D. Carmo não parecia ouvir-me, nem ele; olhavam para lá, para longe, para onde se perde a vida presente, e tudo se esvai depressa. Aguiar ainda pegou na carta que o desembargador lhe mostrava; leu para si as palavras de Tristão, que eram aborrecidas em si mesmas, além da nota que o autor intencionalmente lhes pôs. D. Carmo pediu-lha com o gesto, ele meteu-a na carteira. A boa velha não insistiu. Campos e eu saímos pouco depois.

30 de agosto

Praia fora (esqueceu-me notar isto ontem), praia fora viemos falando daquela orfandade às avessas em que os dous velhos ficavam, e eu acrescentei, lembrando-me do marido defunto:

— Desembargador, se os mortos vão depressa, os velhos ainda vão mais depressa que os mortos... Viva a mocidade!

Campos não me entendeu, nem logo, nem completamente. Tive então de lhe dizer que aludia ao marido defunto, e aos dous velhos deixados pelos dous moços, e concluí que a mocidade tem o direito de viver e amar, e separar-se alegremente do extinto e do caduco. Não concordou — o que mostra que ainda então não me entendeu completamente.

Sem data

Há seis ou sete dias que eu não ia ao Flamengo. Agora à tarde lembrou-me lá passar antes de vir para casa. Fui a pé; achei aberta a porta do jardim, entrei e parei logo.

— Lá estão eles, disse comigo.

Ao fundo, à entrada do saguão, dei com os dous velhos sentados, olhando um para o outro. Aguiar estava encostado ao portal direito, com as mãos sobre os joelhos. D Carmo, à esquerda, tinha os braços cruzados à cinta. Hesitei entre ir adiante ou desandar o caminho; continuei parado alguns segundos até que recuei pé ante pé. Ao transpor a porta para a rua, vi-lhes no rosto e na atitude uma expressão a que não acho nome certo ou claro; digo o que me pareceu. Queriam ser risonhos e mal se podiam consolar. Consolava-os a saudade de si mesm

Fonte: www.biblio.com.br

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