PESSOAS
D. LEOCÁDIA D. ADELAIDE
D. CARLOTA CAVALCANTE
MAGALHÃES
Um gabinete em casa de Magalhães, na Tijuca.
CENA PRIMEIRA
MAGALHÃES, D. ADELAIDE
(MAGALHÃES lê um livro. D. ADELAIDE folheia um livro de gravuras)
MAG. Esta gente não terá vindo?
D. ADE. Parece que não. Já saíram há um bom pedaço;
feliz-mente o dia está fresco. Titia estava tão contente ao
almoço! E ontem? Você viu que risadas que ela dava, ao jantar,
ouvindo o Dr. Cavalcante? E o Cavalcante sério. Meu Deus, que homem
triste! que cara de defunto!
MAG. Coitado do Cavalcante! Mas que quererá ela comigo? Falou-me em
um obséquio.
D. ADE. Sei o que é.
MAG. Que é?
D. ADE. Por ora é segredo. Titia quer que levemos Carlota conosco.
MAG Para a Grécia?
D. ADE. Sim, para a Grécia?
MAG. Talvez ela pense que a Grécia é em Paris. Eu aceitei a
legação de Atenas porque não me dava bem em Guatemala,
e não há outra vaga na América. Nem é só
por isso; você tem vontade de ir acabar a lua-de-mel na Europa... Mas
então Cartola vai ficar conosco?
D. ADE. É só algum tempo. Carlota gostava muito de um tal Rodrigues,
capitão de engenharia, que casou com uma viúva espanhola. Sofreu
muito, e ainda agora anda meia triste; titia diz que há de curá-la.
MAG. (rindo). É a mania dela.
D. ADE. (rindo). Só cura moléstias morais.
MAG. A verdade é que nos curou; mas, por muito que lhe pague-mos em
gratidão, fala-nos sempre da nossa antiga moléstia. "Como
vão os meus doentezinhos? Não é verdade que estão
curados?"
D. ADE. Pois falemo-lhes nós da cura, para lhe dar gosto. Agora quer
curar a filha.
MAG. Do mesmo modo?
D. ADE. Por ora não. Quer mandá-la à Grécia para
que ela esqueça o capitão de engenharia.
MAG. Mas, em qualquer parte se esquece um capitão de engenharia.
D. ADE. Titia pensa que a vista das ruínas e dos costumes diferentes
cura mais depressa. Carlota está com dezoito para dezenove anos, titia
não a quer casar antes dos vinte. Desconfio que já traz um noivo
em mente, um moço que não é feio, mas tem o olhar espantado.
MAG. É um desarranjo para nós; mas, enfim, pode ser que lhe
achemos lá na Grécia algum descendente de Alcibíades
que a preserve do olhar espantado.
D. ADE. Ouço passos. Há de ser titia.. .
MAG. Justamente! Continuemos a estudar a Grécia. (Sentam-se outra vez,
MAGALHÃES lendo, D. ADELAIDE folheando o livro de vistas) .
CENA II
OS MESMOS e D. LEOCÁDIA
D. LEO. (pára à porta, desce pé ante pé, e mete
a cabeça entre os dous). Como vão os meus doentezinhos? Não
é verdade que estão curados?
MAG. (à parte). É isto todos os dias.
D. LEO. Agora estudam a Grécia; fazem muito bem. O país do casamento
é que vocês não precisaram estudar.
D. ADE. A senhora foi a nossa geografia, foi quem nos deu as primeiras lições.
D. LEO. Não diga lições, diga remédios. Eu sou
doutora, eu sou médica. Este (indicando MAGALHÃES), quando voltou
de Guatemala, tinha um ar esquisito; perguntei-lhe se queria ser deputado,
disse-me que não; observei-lhe o nariz, e vi que era um triste nariz
solitário. . .
MAG. Já me disse isto cem vezes.
D. LEO. (voltando-se para ele e continuando). Esta (designando ADELAIDE) andava
hipocondríaca. O médico da casa receitava pílulas, cápsulas,
uma porção de tolices que ela não tomava, porque eu não
deixava; o médico devia ser eu.
D. ADE. Foi uma felicidade. Que é que se ganha em engolir pílulas?
D. LEO. Apanham-se moléstias.
D. ADE. Uma tarde, fitando eu os olhos de Magalhães. . .
D. LEO. Perdão, o nariz.
D. ADE. Vá lá. A senhora disse-me que ele tinha o nariz bonito,
mas muito solitário. Não entendi; dous dias depois, perguntou-me
se queria casar, eu não sei que disse, e acabei casando.
D. LEO. Não é verdade que estão curados?
MAG. Perfeitamente.
D. LEO. A propósito, como irá o Dr. Cavalcante? Que esquisitão!
Disse-me ontem que a cousa mais alegre do mundo era um cemitério.
Perguntei-lhe se gostava aqui da Tijuca, respondeu-me que sim, e que o Rio
de Janeiro era uma grande cidade. "É a segunda vez que a vejo,
disse ele, eu sou do Norte. É uma grande cidade, José Bonifácio
é um grande homem, a Rua do Ouvidor um poema, o chafariz da Carioca
um belo chafariz, o Corcovado, o gigante de pedra, Gonçalves Dias,
os Timbiras, o Maranhão... " Embrulhava tudo a tal ponto que me
fez rir. Ele é doudo?
MAG. Não.
D. LEO. A princípio, cuidei que era. Mas o melhor foi quando se serviu
o peru. Perguntei-lhe que tal achava o peru. Ficou pálido, deixou cair
o garfo, fechou os olhos e não me respondeu. Eu ia chamar a atenção
de vocês, quando ele abriu os olhos e disse com voz surda: "D.
Leocádia, eu não conheço o Peru..." Eu, espantada,
perguntei: "Pois não está comendo?..." "Não
falo desta pobre ave falo-lhe da república".
MAG. Pois conhece a república.
D. LEO. Então mentiu
MAG. Não, porque nunca lá foi.
D. LEO. (a D. ADELAIDE). Mau! seu marido parece que também está
virando o juízo. (A MAGALHÃES) Conhece então o Peru,
como vocês estão conhecendo a Grécia... pelos livros.
MAG. Também não.
D. LEO. Pelos homens?
MAG. Não, senhora.
D. LEO. Então pelas mulheres?
MAG. Nem pelas mulheres.
D. LEO. Por uma mulher?
MAG. Por uma mocinha, filha do ministro do Peru em Guatemala. Já contei
a história a Adelaide. (D. ADELAIDE senta-se folheando o livro de gravuras).
D. LEO. (senta-se). Ouçamos a história. É curta?
MAG. Quatro palavras. Cavalcante estava em comissão do nosso governo,
e freqüentava o corpo diplomático, onde era muito bem visto. Realmente,
não se podia achar criatura mais dada, mais expansiva, mais estimável.
Um dia começou a gostar da peruana. A peruana era bela e alta, com
uns olhos admiráveis. Cavalcante dentro de pouco, estava doudo por
ela, não pensava em mais nada, não falava de outra pessoa. Quando
a via ficava extático. Se ela gostava dele, não sei; é
certo que o animava, e já se falava em casamento. Puro engano! Dolores
voltou para o Peru, onde casou com um primo, segundo me escreveu o pai.
D. LEO. EIe ficou desconsolado, naturalmente.
MAG. Ah! não me fale! Quis matar-se; pude impedir esse ato de desespero,
e o desespero desfez-se em lágrimas. Caiu doente, uma febre que quase
o levou. Pediu dispensa da comissão, e, como eu tinha obtido seis meses
de licença, voltamos juntos. Não imagina o abatimento em que
ficou, a tristeza profunda; chegou a ter as idéias baralhadas. Ainda
agora, diz alguns disparates, mas emenda-se logo e ri de si mesmo.
D. LEO. Quer que lhe diga? Já ontem suspeitei que era negócio
de amores; achei-lhe um riso amargo... Terá bom coração?
MAG. Coração de ouro.
D. LEO. Espirito elevado?
MAG. Sim, senhora.
D. LEO. Espírito elevado, coração de ouro, saudades...
Está entendido.
MAG. Entendido o quê?
D. LEO. Vou curar o seu amigo Cavalcante. De que é que vocês
se espantam?
D. ADE. De nada.
MAG. De nada, mas...
D. LEO. Mas quê?
MAG. Parece-me...
D. LEO. Não parece nada; vocês são uns ingratos. Pois
se confessam que eu curei o nariz de um e a hipocondria do outro, como é
que põem em dúvida que eu possa curar a maluquice do Cavalcante?
Vou curá-lo. Ele virá hoje?
D. ADE. Não vem todos os dias; às vezes passa-se uma semana.
MAG. Mora perto daqui; vou escrever-lhe que venha, e, quando chegar, dir-lhe-ei
que a senhora é o maior médico do século, cura o moral...
Mas, minha tia, devo avisá-la de uma cousa; não lhe fale em
casamento.
D. LEO. Oh! não!
MAG. Fica furioso quando lhe falam em casamento; responde que só se
há de casar com a morte... A senhora exponha-lhe...
D. LEO. Ora, meu sobrinho, vá ensinar o padre-nosso ao vigário.
Eu sei o que ele precisa, mas quero estudar primeiro o doente e a doença.
Já volto.
MAG. Não lhe diga que eu é que lhe contei o caso da peruana.
. .
D. LEO. Pois se eu mesma adivinhei que ele sofria do coração.
(Sai; entra CARLOTA).
CENA III
MAGALHÃES, D. ADELAIDE, D. CARLOTA
D. ADE. Bravo! está mais corada agora!
D. CAR. Foi do passeio.
D. ADE. De que é que você gosta mais, da Tijuca ou da cidade?
D. CAR. Eu por mim, ficava metida aqui na Tijuca.
MAG. Não creio. Sem bailes? sem teatro lírico?
D. CAR. Os bailes cansam, e não temos agora teatro lírico.
MAG. Mas, em suma, aqui ou na cidade, o que é preciso é que
você ria, esse ar tristonho faz-lhe a cara feia.
D. CAR. Mas eu rio. Ainda agora não pude deixar de rir vendo o Dr.
Cavalcante.
MAG. Por quê?
D. CAR. Ele passava ao longe, a cavalo, tão distraído que levava
a cabeça caída entre as orelhas do animal, ri da posição,
mas lembrei-me que podia cair e ferir-se, e estremeci toda.
MAG. Mas não caiu?
D. CAR. Não.
D. ADE. Titia viu também?
D. CAR. Mamãe ia-me falando da Grécia, do céu da Grécia,
dos monumentos da Grécia, do rei da Grécia; toda ela é
Grécia, fala como se tivesse estado na Grécia
D. ADE. Você quer ir conosco para lá?
D. CAR. Mamãe não há de querer.
D. ADE. Talvez queira. (Mostrando-lhes as gravaras do livro) Olhe que bonitas
vistas! Isto são ruínas. Aqui está uma cena de costumes.
Olhe esta rapariga com um pote...
MAG. (à janela). Cavalcante aí vem.
D. CAR. Não quero vê-lo.
D. ADE. Por quê?
D. CAR. Agora que passou o medo, posso rir-me lembrando a figura que ele fazia.
D. ADE. Eu também vou. (Saem as duas; CAVALCANTE aparece à porta,
MAGALHÃES deixa a janela).
CENA IV
CAVALCANTE e MAGALHÃES
MAG. Entra. Como passaste a noite?
CAV. Bem. Dei um belo passeio; fui até ao Vaticano e vi o papa. (MAGALHÃES
olha espantado) Não te assustes, não estou doudo. Eis o que
foi: o meu cavalo ia para um lado e o meu espírito para outro. Eu pensava
em fazer-me frade; então todas as minhas idéias vestiram-se
de burel, e entrei a ver sobrepelizes e tochas; enfim, cheguei a Roma, apresentei-me
à porta do Vaticano e pedi para ver o papa. No momento em que Sua Santidade
apareceu, prosternei-me, depois estremeci, despertei e vi que o meu corpo
seguira atrás do sonho, e que eu ia quase caindo.
MAG. Foi então que a nossa prima Carlota deu contigo ao longe.
CAV. Também eu a vi, e, de vexado, piquei o cavalo.
MAG. Mas, então ainda não perdeste essa idéia de ser
frade?
CAV. Não.
MAG. Que paixão romanesca!
CAV. Não, Magalhães; reconheço agora o que vale o mundo
com as suas perfídias e tempestades. Quero achar um abrigo contra elas;
esse abrigo é o claustro. Não sairei nunca da minha cela, e
buscarei esquecer diante do altar...
MAG. Olha que vais cair do cavalo!
CAV. Não te rias, meu amigo!
MAG. Não; quero só acordar-te. Realmente, estás ficando
maluco. Não penses mais em semelhante moça. Há no mundo
milhares e milhares de moças iguais à bela Dolores.
CAV. Milhares e milhares? Mais uma razão para que eu me esconda em
um convento. Mas é engano; há só uma, e basta.
MAG. Bem; não há remédio senão entregar-te à
minha tia.
CAV. À tua tia?
MAG. Minha tia crê que tu deves padecer de alguma doença moral,
— e adivinhou,— e fala de curar-te. Não sei se sabes que
ela vive na persuasão de que cura todas as enfermidades morais.
CAV. Oh! eu sou incurável!
MAG. Por isso mesmo deves sujeitar-te aos seus remédios. Se te não
curar, dar-te-á alguma distração, e é o que eu
quero. (Abre a charuteira, que está vazia) Olha, espera aqui, lê
algum livro; eu vou buscar charutos. (Sai; CAVALCANTE pega num livro e senta-se).
CENA V
CAVALCANTE, D. CARLOTA, aparecendo ao fundo
D. CAR. Primo... (Vendo Cavalcante) Ah! perdão!
CAV. (erguendo-se). Perdão de quê?
D. CAR. Cuidei que meu primo estava aqui; vim buscar um livro de gravuras
de prima Adelaide; está aqui...
CAV. A senhora viu-me passar a cavalo, há uma hora, numa posição
incômoda e inexplicável.
D. CAR. Perdão, mas...
CAV. Quero dizer-lhe que eu levava na cabeça uma idéia séria,
um negócio grave.
D. CAR. Creio.
CAV. Deus queira que nunca possa entender o que era! Basta crer. Foi a distração
que me deu aquela postura inexplicável. Na minha família quase
todos são distraídos. Um dos meus tios morreu na guerra do Paraguai,
por causa de uma distração; era capitão de engenharia
. . .
D. CAR. (perturbada). Oh! não me fale!
CAV. Por quê? Não pode tê-lo conhecido.
D. CAR. Não, senhor; desculpe-me, sou um pouco tonta. Vou levar o livro
à minha prima.
CAV. Peço-lhe perdão, mas...
D. CAR. Passe bem. (Vai até à porta).
CAV. Mas, eu desejava saber. ..
D. CAR. Não, não, perdoe-me. (Sai).
CENA VI
CAV. (só). Não compreendo; não sei se a ofendi. Falei no tio João Pedro, que morreu no Paraguai, antes dela nascer...
CENA VII
CAVALCANTE, D. LEOCÁDIA
D. LEO. (ao fundo, à parte). Está pensando. (Desce) Bom dia,
Dr. Cavalcante!
CAV. Como passou, minha senhora?
D. LEO. Bem, obrigada. Então meu sobrinho deixou-o aqui só?
CAV. Foi buscar charutos, já volta.
D. LEO. Os senhores são muito amigos.
CAV. Somos como dous irmãos.
D. LEO. Magalhães é um coração de ouro, e o senhor
parece-me outro. Acho-lhe só um defeito, doutor... Desculpe-me esta
franqueza de velha; acho que o senhor fala trocado.
CAV. Disse-lhe ontem algumas tolices, não?
D. LEO. Tolices, é muito; umas palavras sem sentido.
CAV. Sem sentido, insensatas, vem a dar na mesma.
D. LEO. (pegando-lhe nas mãos). Olhe bem para mim. (Pausa) Suspire.
(CAVALCANTE suspira) O senhor está doente; não negue que está
doente, — moralmente, entenda-se; não negue! (Solta-lhe as mãos)
.
CAV. Negar seria mentir. Sim, minha senhora, confesso que tive um grandíssimo
desgosto
D. LEO. Jogo de praça?
CAV. Não, senhora.
D. LEO Ambições políticas malogradas?
CAV. Não conheço política.
D. LEO. Algum livro mal recebido pela imprensa?
CAV. Só escrevo cartas particulares.
D. LEO Não atino. Diga francamente; eu sou médico de enfermidades
morais, e posso curá-lo. Ao médico diz-se tudo. Ande, fale,
conte-me tudo, tudo, tudo. Não se trata de amores?
CAV. (suspirando). Trata-se justamente de amores.
D. LEO. Paixão grande?
CAV. Oh! imensa!
D. LEO. Não quero saber o nome da pessoa, não é preciso.
Naturalmente, bonita?
CAV. Como um anjo!
D. LEO. O coração também era de anjo?
CAV. Pode ser, mas de anjo mau.
D. LEO. Uma ingrata...
CAV. Uma perversa!
D. LEO. Diabólica...
CAV. Sem entranhas!
D. LEO. Vê que estou adivinhando. Console-se; uma criatura dessas não
acha casamento.
CAV. Já achou!
D. LEO. Já?
CAV. Casou, minha senhora; teve a crueldade de casar com um primo.
D. LEO. Os primos quase que não nascem para outra cousa. Diga-me, não
procurou esquecer o mal nas folias próprias de rapazes?
CAV. Oh! não! Meu único prazer é pensar nela.
D. LEO. Desgraçado! Assim nunca há de sarar.
CAV. Vou tratar de esquecê-la.
D. LEO. De que modo?
CAV. De um modo velho, alguns dizem que já obsoleto e arcaico. Penso
em fazer-me frade. Há de haver em algum recanto do mundo um claustro
em que não penetre sol nem lua.
D. LEO. Que ilusão! Lá mesmo achará a sua namorada.
Há de vê-la nas paredes da cela, no tecto, no chão, nas
folhas do
breviário. O silêncio far-se-á boca da moça, a
solidão será o seu corpo.
CAV. Então estou perdido. Onde acharei paz e esquecimento?
D. LEO. Pode ser frade sem ficar no convento. No seu caso o remédio
naturalmente indicado é ir pregar... na China, por
exemplo. Vá pregar aos infiéis na China. Paredes de convento
são mais perigosas que olhos de chinesas. Ande, vá pregar na
China. No fim de dez anos está curado. Volte, meta-se no convento e
não achará lá o diabo.
CAV. Está certa que na China...
D. LEO. Certíssima.
CAV. O seu remédio é muito amargo! Por que é que me não
manda antes para o Egito? Também é país de infiéis.
D. LEO. Não serve; é a terra daquela rainha... Como se chama?
CAV. Cleópatra? Morreu há tantos séculos!
D. LEO. Meu marido disse que era uma desmiolada.
CAV. Seu marido era, talvez, um erudito. Minha senhora, não se aprende
amor nos livros velhos, mas nos olhos bonitos; por
isso estou certo de que ele adorava a V. Ex.a.
D. LEO. Ah! ah! Já o doente começa a adular o médico.
Não, senhor, há de ir à China. Lá há mais
livros velhos que olhos
bonitos. Ou não tem confiança em mim?
CAV. Oh! tenho, tenho. Mas ao doente é permitido fazer uma careta antes
de engolir a pílula. Obedeço; vou para a China.
Dez anos, não?
D. LEO. (levanta-se). Dez ou quinze, se quiser; mas antes dos quinze está
curado.
CAV. Vou.
D. LEO. Muito bem. A sua doença é tal que só com remédios
fortes. Vá; dez anos passam depressa.
CAV. Obrigado, minha senhora.
D. LEO. Até logo.
CAV. Não, minha senhora, vou já.
D. LEO. Já para a China!
CAV. Vou arranjar as malas, e amanhã embarco para a Euròpa;
vou a Roma, depois sigo imediatamente para a China. Até
daqui a dez anos. (Estende-lhe a mão).
D. LEO. Fique ainda uns dias...
CAV. Não posso.
D. LEO. Gosto de ver essa pressa; mas, enfim, pode esperar ainda uma semana.
CAV. Não, não devo esperar. Quero ir às pílulas,
quanto antes; é preciso obedecer religiosamente ao médico.
D. LEO. Como eu gosto de ver um doente assim! O senhor tem fé no médico.
O pior é que daqui a pouco, talvez, não se
lembre dele.
CAV. Oh! não! Hei de lembrar-me sempre, sempre!
D. LEO. No fim de dous anos escreva-me; informe-me sobre o seu estado, e talvez
eu o faça voltar. Mas, não minta, olhe lá;
se já tiver esquecido a namorada, consentirei que volte.
CAV. Obrigado. Vou ter com seu sobrinho, e depois vou arranjar as malas.
D. LEO. Então não volta mais a esta casa?
CAV. Virei daqui a pouco, uma visita de dez minutos, e depois desço,
vou tomar passagem no paquete de amanhã.
D. LEO. Jante, ao menos, conosco.
CAV. Janto na cidade.
D. LEO. Bem, adeus; guardemos o nosso segredo. Adeus, Dr. Cavalcante. Creia-me:
o senhor merece estar doente. Há
pessoas que adoecem sem merecimento nenhum; ao contrário, não
merecem outra cousa mais que uma saúde de ferro. O
senhor nasceu para adoecer; que obediência ao médico! que facilidade
em engolir todas as nossas pílulas! Adeus!
CAV. Adeus, D. Leocádia. (Sai pelo fundo).
CENA VIII
D. LEOCÁDIA, D. ADELAIDE
D. LEO. Com dous anos de China está curado. (Vendo entrar ADELAIDE)
O Dr. Cavalcante saiu agora mesmo. Ouviste o
meu exame médico?
D. ADE. Não. Que lhe pareceu?
D. LEO. Cura-se.
D. ADE. De que modo?
D. LEO. Não posso dizer;. é segredo profissional.
D. ADE. Em quantas semanas fica bom?
D LEO. Em dez anos!
D ADE. Misericórdia! Dez anos!
D. LEO. Talvez dous; é moço, é robusto, a natureza ajudará
a medicina, conquanto esteja muito atacado. Aí vem teu marido.
CENA IX
OS MESMOS, MAGALHÃES
MAG. (a D. LEOCÁDIA). Cavalcante disse-me que vai embora; eu vim correndo
saber o que é que lhe receitou.
D. LEO. Receitei-lhe um remédio enérgico, mas que há
de salvá-lo. Não são consolações de cacaracá.
Coitado! Sofre muito,
está gravemente doente; mas, descansem, meus filhos, juro-lhes, à
fé do meu grau, que hei de curá-lo. Tudo é que me
obedeça, e este obedece. Oh! aquele crê em mim. E vocês,
meus filhos? Como vão os meu doentezinhos? Não é verdade
que
estão curados? (Sai pelo fundo).
CENA X
MAGALHÃES, D. ADELAIDE
MAG. Tinha vontade de saber o que é que ela lhe receitou.
D. ADE. Não falemos disso.
MAG. Sabes o que foi?
D. ADE. Não; mas titia disse-me que a cura se fará em dez anos.
(Espanto de Magalhães) Sim, dez anos, talvez dous, mas a cura certa
é em dez anos.
MAG. (atordoado). Dez anos!
D. ADE. Ou dous.
MAG. Ou dous?
D. ADE. Ou dez.
MAG. Dez anos! Mas é impossivel! Quis brincar contigo. Ninguém
leva dez anos a sarar; ou sara antes ou morre.
D. ADE. Talvez ela pense que a melhor cura é a morte.
MAG. Talvez. Dez anos!
D. ADE. Ou dous; não esqueças.
MAG. Sim, ou dous; dous anos é muito, mas, há casos... Vo ter
com ele.
D. ADE. Se titia quis enganar a gente, não é bom que os estranhos
saibam. Vamos falar com ela, talvez que, pedindo muito,
ela diga a verdade. Não leves essa cara assustada; é preciso
falar-lhe naturalmente, com indiferença.
MAG. Pois vamos.
D. ADE. Pensando bem, é melhor que eu vá só; entre mulheres...
MAG. Não; ela continuará a zombar de ti; vamos juntos; estou
sobre brasas.
D. ADE. Vamos.
MAG. Dez anos!
D. ADE. Ou dous. (Saem pelo fundo).
CENA XI
D. CAR. (entrando pela direita). Ninguém! Afinal foram-se! Esta casa
anda hoje cheia de mistérios. Há um quarto de hora
quis vir aqui, e prima Adelaide disse-me que não, que se tratavam aqui
negócios graves. Pouco depois levantou-se e saiu;
mas antes disso contou-me que mamãe é que quer que eu vá
para a Grécia. A verdade é que todos me falam de Atenas, de
ruínas, dc danças gregas, da Acrópole... Creio que é
Acrópole que se diz. (Pega no livro que MAGALHÃES estivera
lendo, senta-se, abre e lê) "Entre os provérbios gregos,
há um muito fino: Não consultes médico; consulta alguém
que tenha
estado doente". Consultar alguém quc tenha estado doente! Não
sei que possa ser. (Continua a ler em voz baixa).
CENA XII
D. CARLOTA, CAVALCANTE
CAV. (ao fundo). D. Leocádia! (Entra e fala de longe a CARLOTA que
está de costas) Quando eu ia a sair,
lembrei-me...
D. CAR. Quem é? (Levanta-se) Ah! Doutor!
CAV. Desculpe-me, vinha falar à senhora sua mãe para lhe pedir
um favor.
D. CAR. Vou chamá-la.
CAV. Não se incomode, falar-lhe-ei logo. Saberá por acaso se
a senhora sua mãe conhece algum cardeal em Roma?
D. CAR. Não sei, não, senhor.
CAV. Queria pedir-lhe uma carta de apresentação; voltarei mais
tarde. (corteja sai e pára) Ah! aproveito a ocasião para lhe
perguntar ainda uma vez em que é que a ofendi?
D. CAR. O senhor nunca me ofendeu.
CAV. Certamente que não; mas ainda há pouco, falando-lhe de
um tio meu, que morreu no Paraguai, tio João Pedro, capitão
de engenharia...
D. CAR. (atalhando). Por que é que o senhor quer ser apresentado a
um cardeal?
CAV. Bem respondido! Confesso que fui indiscreto com a minha pergunta. Já
há de saber que eu tenho distrações repentinas,
e quando não calo no ridiculo, como hoje de manhã, caio na indiscrição.
São segredos mais graves que os seus. É feliz, é
bonita, pode contar com o futuro, enquanto que eu... Mas eu não quero
aborrecê-la. O meu caso há de andar em romances.
(Indicando o livro que ela tem na mão) Talvez nesse.
D. CAR. Não é romance (Dá-lhe o livro)
CAV. Não? (Lê o título) Como? Está estudando a
Grécia?
D. CAR. Estou.
CAV. Vai para lá?
D. CAR. Vou, com prima Adelaide.
CAV. Viagem de recreio, ou vai tratar-se?
D. CAR. Deixe-me ir chamar mamãe.
CAV. Perdoe-me ainda uma vez fui indiscreto, retiro-me. ( Dá alguns
passos para sair).
D. CAR. Doutor! (CAVALCANTE pára) Não se zangue comigo; sou
um pouco tonta, o senhor é bom...
CAV. (descendo). Não diga que sou bom; os infelizes são apenas
infelizes. A bondade é toda sua. Há poucos dias que nos
conhecemos e já nos zangamos, por minha causa. Não proteste,
a causa é a minha moléstia.
D. CAR. O senhor está doente?
CAV. Mortalmente.
D. CAR. Não diga isso!
CAV. Ou gravemente, se prefere.
D. CAR. Ainda é muito. E que moléstia é?
CAV. Quanto ao nome não há acordo: loucura, espírito
romanesco e muitos outros. Alguns dizem que é amor. Olhe, está
outra vez aborrecida comigo!
D. CAR. Oh! não, não, não. (Procurando rir) É
o contrário; estou até muito alegre. Diz-me então que
está doente, louco...
CAV. Louco de amor, é o que alguns dizem. Os autores divergem. Eu prefiro
amor, por ser mais bonito, mas a moléstia,
qualquer que seja a causa, é cruel e terrível. Não pode
compreender este imbroglio; peça a Deus que a conserve nessa boa e
feliz ignorância. Por que é que me está olhando assim?
Quer talvez saber...
D. CAR. Não, não quero saber nada.
CAV. Não é crime ser curiosa.
D. CAR. Seja ou não loucura, não quero ouvir histórias
como a sua.
CAV. Já sabe qual é?
D.CAR. Não.
CAV. Não tenho direito de interrogá-la; mas há já
dez minutos que estamos neste gabinete, falando de cousas bem esquisitas
para duas pessoas que apenas se conhecem.
D. CAR. (estendendo-lhe a mão). Até logo.
CAV. A sua mão está fria. Não se vá ainda embora;
hão de achá-la agitada. Sossegue um pouco, sente-se. (CARLOTA
senta-se) Eu retiro-me.
D. CAR. Passe bem.
CAV. Até logo.
D.CAR. Volta logo?
CAV. Não, não volto mais; queria enganá-la.
D. CAR. Enganar-me por quê?
CAV. Porque já fui enganado uma vez. Ouça-me; são duas
palavras. Eu gostava muito de uma moça que tinha a sua beleza, e
ela casou com outro. Eis a minha moléstia.
D. CAR. (erguendo-se). Como assim?
CAV. É verdade, casou com outro.
D. CAR. (indignada). Que ação vil!
CAV. Não acha?
D. CAR. E ela gostava do senhor?
CAV. Aparentemente; mas, depois vi que eu não era mais que um passatempo.
D. CAR. (animando-se aos pousos). Um passatempo! Fazia-lhe juramentos, dizia-lhe
que o senhor era a sua única ambição,
o seu verdadeiro Deus, parecia orgulhosa em contemplá-lo por horas
infinitas, dizia-lhe tudo, tudo, umas cousas que pareciam
cair do céu e suspirava...
CAV. Sim, suspirava, mas...
D. CAR. (maito animada). Um dia abandonou-o, sem uma só palavra de
saudade nem de consolação, fugiu e foi casar com
uma viúva espanhola!
CAV. (espantado). Uma viúva espanhola!
D. CAR. Ah! tem muita razão em estar doente!
CAV. Mas que viúva espanhola é essa de que me fala?
D. CAR. (caindo em si). Eu falei-lhe de uma viúva espanhola?
CAV. Falou.
D. CAR. Foi engano... Adeus, Sr. doutor.
CAV. Espere um instante. Creio que me compreendeu. Falou com tal paixão
que os médicos não têm. Oh! como eu execro
os médicos! principalmente os que me mandam para a China.
D. CAR. O senhor vai para a China?
CAV. Vou; mas não diga nada! Foi sua mãe que me deu esta receita.
D. CAR. A China é muito longe!
CAV. Creio até que está fora do mundo.
D. CAR. Tão longe por quê?
CAV. Boa palavra essa. Sim, por que ir à China, se a gente pode sarar
na Grécia? Dizem que a Grécia é muito eficaz para
estas feridas; há quem afirme que não há melhor para
as que são feitas pelos capitães de engenharia. Quanto tempo
vai lá
passar?
D. CAR. Não sei. Um ano, talvez.
CAV. Crê que eu possa sarar num ano?
D. CAR. É possível.
CAV. Talvez sejam precisos dous, — dous ou três.
D. CAR. Ou três.
CAV. Quatro, cinco...
D. CAR. Cinco, seis. . .
CAV. Depende menos do país que da doença.
D. CAR. Ou do doente.
CAV. Ou do doente. Já a passagem do mar pode ser que me faça
bem. A minha moléstia casou com um primo. A sua
(perdoe esta outra indiscrição; é a última) a
sua casou com a viúva espanhola. As espanholas, mormente viúvas,
são
detestáveis. Mas, diga-me uma cousa: se uma pessoa já está
curada, que é que vai fazer à Grécia?
D. CAR. Convalescer, naturalmente. O senhor, como ainda está doente,
vai para a China.
CAV. Tem razão. Entretanto, começo a ter medo de morrer... Pensou
alguma vez na morte?
D. CAR. Pensa-se nela, mas lá vem um dia em que a gente aceita a vida,
seja como for.
CAV. Vejo que sabe muita cousa.
D. CAR. Não sei nada; sou uma tagarela, que o senhor obrigou a dar
por paus e por pedras; mas, como é a última vez que
nos vemos, não importa. Agora, passe bem.
CAV. Adeus, D. Carlota!
D. CAR. Adeus, doutor!
CAV. Adeus. (Dá um passo para a porta do fundo) Talvez eu vá
a Atenas; não fuja se me vir vestido de frade...
D. CAR. (indo a ele). De frade? O senhor vai ser frade?
CAV. Frade. Sua mãe aprova-me, contanto que eu vá à China.
Parece-lhe que devo obedecer a esta vocação, ainda depois
de perdida?
D. CAR. É difícil obedecer a uma vocação perdida.
CAV. Talvez nem a tivesse, e ninguém se deu ao trabalho de me dissuadir.
Foi aqui, a seu lado, que comecei a mudar. A sua
voz sai de um coração que padeceu também, e sabe falar
a quem padece. Olhe, julgue-me doudo, se quiser, mas eu vou
pedir-lhe um favor: conceda-me que a ame. (Carlota, perturbada, volta o rosto)
Não lhe peço que me ame, mas que se
deixe amar; é um modo de ser grato. Se fosse uma santa, não
podia impedir que lhe acendesse uma vela.
D. CAR. Não falemos mais nisto, e separemo-nos
CAV. A sua voz treme; olhe para mim...
D. CAR. Adeus; aí vem mamãe.
CENA XIII
OS MESMOS, D. LEOCÁDIA
D. LEO. Que é isto, doutor? Então o senhor quer só um
ano de China? Vieram pedir-me que reduzisse a sua ausencia.
CAV. D. Carlota lhe dirá o que eu desejo.
D. CAR. O doutor veio saber se mamãe conhece algum cardeal em Roma.
CAV. A princípio era um cardeal; agora basta um vigário.
D. LEO. Um vigário? Para quê?
CAV. Não posso dizer.
D. LEO. (a CARLOTA). Deixa-nos sós, Carlota; o doutor quer fazer-me
uma confidência.
CAV. Não, não, ao contrário... D. Carlota pode ficar.
O que eu quero dizer é que um vigário basta para casar.
D. LEO. Casar a quem?
CAV. Não é já, falta-me ainda a noiva.
D. LEO. Mas quem é que me está falando?
CAV. Sou eu, D. Leocádia.
D LEO O senhor! o senhor! o senhor!
CAV. Eu mesmo. Pedi licença a alguém...
D. LEO. Para casar?
CENA XIV
OS MESMOS, MAGALHÃES, D. ADELAIDE
MAG. Consentiu, titia?
D. LEO. Em reduzir a China a um ano? Mas ele agora quer a vida inteira.
MAG. Estás doudo?
D. LEO. Sim, a vida inteira, mas é para casar. (D. CARLOTA fa1a baixo
a D. Adelaide) Você entende, Magalhães?
CAV. Eu, que devia entender, não entendo.
D. ADE. (que ouviu D. CARLOTA). Entendo eu. O Dr. Cavalcante contou as suas
tristezas a Carlota, e Carlota, meia
curada do seu próprio mal, expôs sem querer o que tinha sentido.
Entenderam-se e casam-se.
D. LEO. (a CARLOTA). Deveras? (D. CARLOTA baixa os olhos) Bem; como é
para saúde dos dous, concedo; são mais
duas curas!
MAG. Perdão; estas fizeram-se pela receita de um provérbio grego
que está aqui neste livro. (Abre o livro) "Não consultes
médico; consulta alguém que tenha estado doente".
FIM
DE "NÃO CONSULTES MÉDICO"
Fonte: www.cce.ufsc.br