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O Namorador

Machado de Assis

CENA XIV

Luís só.

LUÍS - Quando os ciúmes metem-se na cabeça de uma mulher é isto. E se é velha como esta... Mau agouro para mim. Ora. Sr. Luís, é então verdade que o senhor está resolvido a casar-se? Já se não lembra do que dizia do casamento e dos grandes inconvenientes que lhe achava? Quer deixar a sua bela vida de namorador? O que é isto? Que resolução foi a sua? Que dirá a Ritinha, a Joaninha, a viuvinha, a Joaquinhinha, a Emília, a Henriqueta, a Cocota, a Quitinha, a Lulu, a Leopoldina, a Deolinda e as outras namoradas? Responde, Sr. Luís. Os diabos me levem se eu sei responder. (Assenta-se no banco de relva. Ouve-se dentro de casa a voz de Júlio, que canta uma modinha, acompanhado por piano. [N.B.:] A modinha fica a escolha do autor. Logo que a tiver acabado de cantar, dão palmas. Tudo isto, porém, não interromperá a continuação das cenas.) Lá está cantando modinhas! Se estivesse como eu, não havia de ter vontade de cantar. Então? O caso não me tem feito impressão. (Aqui aparece no fundo, caminhando para a frente da cena, Clementina.) Ainda não sei o que farei. Creio que mesmo depois dos pregões corridos sou capaz de mandar tudo à tabua. Mas o meu capricho? Estou arranjado!

CENA XV

Clementina e Luís.

CLEMENTINA, sem ver Luís - Estou com curiosidade de ver como estará o ovo... (Vai para ver o copo e Luís levanta-se.)

LUÍS - Priminha?

CLEMENTINA - Ai!

LUÍS - Não se assuste.

CLEMENTINA - Não gosto destes brinquedos. Que susto! Eu vinha ver o ovo.

LUÍS - Encontraste com um amante; é o mesmo. O amante é como o ovo, que muitas vezes gora.

CLEMENTINA - Fala de si? (Rindo-se.)

LUÍS - Antigamente assim fui, mas agora, priminha da minha alma, estou mudado. A noite de S. João fez um milagre. Ai, ai! (Suspira ruidosamente.)

CLEMENTINA - Bravo! Por quem é esse suspiro tão puxado?

LUÍS, caindo de joelhos - Por ti, minha priminha.

CLEMENTINA, desata a rir - Ah, ah! Por mim? Ó Ritinha?

LUÍS - Cala-te!

CLEMENTINA - Quero que ela venha ver isto e que caminho leva o seu amor.

LUÍS - Ms há já três meses que ela me ama!

CLEMENTINA - Boa razão! Não a ama porque ela ainda o ama. É isto?

LUÍS - Pois priminha, há três meses que ela me ama, e isto já é teima, e eu não me caso com mulher teimosa, isso nem pelo diabo.

CLEMENTINA - É teima? Quem te ensinará!

LUÍS - Amei-a como amei a Quitinha, etc.

CLEMENTINA - O que aí vai! E todas essas foram teimosas?

LUÍS - Umas mais, outras menos, mas tu, minha querida priminha...

CLEMENTINA - Oh, não se canse, que não sou teimosa; cedo desde já.

LUÍS - Contigo o caso é outro; hoje mesmo te principiei a amar, hoje mesmo nos casaremos e hoje mesmo...

CLEMENTINA, interrompendo-o - Ah, ah, ah! Ó Ritinha? Ritinha? (Ritinha aparece e encaminha-se para eles. Traz na mão uma vara com uma rodinha acesa. Os negros acendem a fogueira.)

LUÍS - Também isto agora é teima!

CLEMENTINA - Vem cá.

RITINHA - O que é?

CLEMENTINA - Não te dizia que me admirava dos três meses?

RITINHA - Ah!

CLEMENTINA - Já te não ama, e chama-te de teimosa.

LUÍS - Priminha!

RITINHA - Já me não ama? (Ritinha diz estas palavras dirigindo-se para Luís, que salta para evitar o fogo da rodinha que Ritinha dirige contra ele.)

LUÍS, saltando - Cuidado com o fogo!

CLEMENTINA - Fazia-me protestos de amor.

RITINHA, mesmo jogo - Ah, fazia protestos de amor?

LUÍS - Não me queime! ( O velho fecha a janela com receio, que o vejam.)

CLEMENTINA - Disse que ardia por mim.

LUÍS, fugindo de Ritinha, que o persegue com a rodinha - Agora é que eu arderei, se me deitam fogo.

RITINHA, mesmo jogo - Assim é que me pagas!

LUÍS - Assim é que me pagas! (Fugindo sempre.)

CLEMENTINA - Fogo nele, para não ser bandoleiro! (Ritinha segue mais de perto Luís, que foge e refugia-se em cima da carroça.) Assim, assim, Ritinha, ensina-o.

RITINHA - Desce cá para baixo!

LUÍS - Assim era eu asno!

CLEMENTINA - Ritinha, vá buscar lá dentro duas pistolas de lágrimas.

LUÍS - Nem pistola, nem espingarda, nem peças não me farão gostar de vocês. Agora não me caso nem à bala.

CLEMENTINA - E também, quem é que quer casar com você?

RITINHA - Eu não!

CLEMENTINA - Quem é que acredita nas palavras de um namora-paredes?

LUÍS - Muita gente!

CLEMENTINA - Estás desacreditado!

LUÍS - Na praça?

CLEMENTINA - Não, com todas as moças.

LUÍS - Melhor, mais gostarão de mim.

RITINHA - Isto não se pode aturar! Vamo-nos embora.

CLEMENTINA - Presunçoso! (Vai a sair pelo fundo.)

LUÍS - Adeus! Viva S. João! (Dentro respondem a gritos.)

CENA XVI

Luís, só, de cima da carroça.

LUÍS - Fi-la bonita! Agora nem uma nem outra. Ainda bem! Mas o diabo é ficar o maroto do Júlio muito ufano com eu ter cedido. Histórias! Não cedo em outras coisas, que namorada pouco se me dá; acho cem por uma que deixo. Contudo estou zangado. Maldita noite de S. João!

CENA XVII

Maria vem do fundo da cena e vai a entrar na casinha.

LUÍS, saltando da carroça - Psiu, psiu!

MARIA, parando - Quem é?

LUÍS, chegando-se para ela - Escuta uma coisa.

MARIA - Ai! O senhor que quer comigo?

LUÍS - Desde o dia que principiaram a chegar a esta terra carregamentos de colonos, como antigamente chegavam carregamentos de cebolas, ainda cá não apareceu uma ilhoazinha com esses olhos matadores, com esses beicinhos rosados.

MARIA - Ai, o senhor está a mangar comigo.

LUÍS - As mais que eu por aí vejo são feias como uma lacraia e vermelhas como a crista do galo; mas tu és a nata das ilhoas. (Quer abraçá-la.)

MARIA - Chegue-se para lá, que vou contar a meu marido. (Quer sair, Luís a retém.)

LUÍS - Espera. É pena que estejas casada com teu marido.

MARIA - Ai, pois eu podia estar casada com um homem que não fosse meu marido?

LUÍS - Pois não.

MARIA - Está zombando? (Neste tempo a fogueira está de todo acesa e todas as pessoas que estão na casa saem e ficam ao redor da fogueira, ad libitum.)

LUÍS - Sentemo-nos neste banco, que te explicarei como pode isto ser. Aqui nos podem ver lá de cima com o clarão da fogueira.

MARIA - Estou com curiosidade.

LUÍS, à parte - Isto sei eu. (Assentam-se no banco.) Supõe que nunca tenhas visto teu marido... Que mãozinhas! (Pega-lhes nas mãos.)

MARIA - Largue minha mão!

LUÍS - Nem encontrado com ele... Que olhinhos!

MARIA - Deixe meus olhos!

LUÍS - Ora, se nunca o tivesse visto nem encontrado, está claro que agora não estarias casada com o teu marido.

MARIA - Ora vejam! E é verdade!

LUÍS - Não terias dado essa mão, (pega-lhe na mão) que tanto estimo... (Aqui atravessa a cena Manuel, vestido de mulher, e entra no seu quarto.)

MANUEL, atravessando a cena - Custou-me o arranjar-me...

MARIA - O senhor tem um modo de explicar as coisas que entram pelos olhos... De sorte que se eu não tivesse encontrado a Manuel, não estava hoje casada?

LUÍS - Decerto.

MARIA - Sabe o senhor quando eu o vi? Foi numa festa que se deu no Funchal. (Manuel, depois de entrar no quarto, fecha a porta e fica dentro do quarto, defronte da janela. Chega-se para ele, como vindo do interior, João, que supondo ser a Maria, o abraça.)

JOÃO - Minha ilhoazinha, minha Mariquinha! (Dá abraços e beijos, que Manuel corresponde.)

MARIA - Hem?

LUÍS - Não disse nada. Continua. (Continua a ter a mão dela na sua.)

MARIA - Eu ia para a festa. Ai, agora é que me lembro que se não fosse a festa também não estava casada!

LUÍS, dando-lhe um abraço - Maldita festa!

MARIA - Fique quieto! Veja o diabo as arma.

LUÍS - É verdade! (Manuel e João, que ouvem as vozes dos dois, chegam-se para a janela, e dando com os dois no banco abaixo, ficam observando, dando sinais de grande surpresa.)

MARIA - Estive quase não indo à festa, e se não fosse o meu vestido novo... Ai, senhor, e se não fosse o vestido novo, eu também não estava casada.

LUÍS, abraçando - Maldito vestido!

MARIA - Foi minha tia que mo deu. Ai, que se eu também não tivesse tia, não era agora mulher de meu marido. (Manuel debruça-se pela janela e a agarra no pescoço.)

MANUEL - Maldita mulher! (Maria dá um grito e levanta-se; o mesmo faz Luís. Maria, conhecendo o marido, deita a correr, atravessando a cena. Manuel salta pela janela e a persegue, gritando. Saem ambos da cena.)

LUÍS, vendo Manuel saltar - Que diabo é isto? (Reconhecendo João, que fica à janela:) O tio João!

JOÃO - Cala-te! (Esconde-se.)

LUÍS, rindo-se - No quarto da ilhoa! (Acodem todos, isto é, Clara, Clementina, Ritinha, Júlio e os convidados.)

CENA XVIII

CLARA - O que é? Que gritos são estes?

CLEMENTINA, ao mesmo tempo - O que aconteceu?

RITINHA, ao mesmo tempo - O que foi? (Luís ri-se.)

CLARA - O que é isto, Luís? Fala. (Luís continua a rir-se.)

CLEMENTINA - De que se ri tanto o primo?

CLARA - Não falarás?

LUÍS - Quer que eu fale? Ah, ah, ah!

CLARA - E esta?

CLEMENTINA - Eu ouvi a voz da Maria.

CENA XIX

Entra Maria adiante de Manuel, gemendo. Manuel conserva-se vestido de mulher.

RITINHA - Aí vem ela.

CLARA - A gemer. Que foi?

MANUEL, que traz um pau na mão - Anda! (Maria vem gemendo, assenta-se no banco debaixo da janela.)

CLARA - Ai, o Manuel vestido de mulher! Que mascarada é esta?

CLEMENTINA - Como está feio!

CLARA - Mas que é isto? Por que gemes?

MARIA - Ai, ai, ai! Minhas costas...

MANUEL - É uma vergonha!

CLARA, para Manuel - O que fez ela?

MARIA, gemendo - Minha costela... minha cabeça...

MANUEL - O que fez? Um desaforo! Mas eu lhe ensinei com este pau.

CLARA - Deste-lhe com o pau?

CLEMENTINA - Pobre Maria!

MARIA - Ai, ai, ai! Minhas pernas...

CLARA, para Manuel - Mas por quê?

MANUEL - Estava a desencaminhar-se com o Sr. Luís.

CLARA - Com meu sobrinho?

CLEMENTINA, ao mesmo tempo - Com o primo?

RITINHA, ao mesmo tempo - Com ele?

JÚLIO, ao mesmo tempo - É bom saber!

LUÍS - Não há tal, tia. Este diabo está bêbado! Não vê como está vestido?

MANUEL - Olhe, senhora, que não estou bêbado. Eu bem vi, com estes olhos que a terra há-de comer, o senhor dar abraços na Maria.

CLARA - Ai, que indecência!

CLEMENTINA - Que vergonha! Namorando uma ilhoa!

RITINHA - Que humilhação!

JÚLIO - De que se admiram, minhas senhoras? É esse o costume do Sr. Luís. Tudo lhe faz conta - a velha, a moça, a bonita, a feia, a branca, a cabocla...

CLEMENTINA - Que horror!

RITINHA, ao mesmo tempo - Que horror! (Alguns convidados riem-se.)

LUÍS - Psiu! Alto lá, Sr. Júlio, cá ninguém o chamou!

JÚLIO - E o melhor é, minhas senhoras, que ele nutre grandes esperanças de casar-se com uma das senhoras desta roda.

TODAS AS SENHORAS - Comigo não!

LUÍS, chegando-se para Júlio - Já estás cantando vitória?

JÚLIO, para as senhoras - Vejam o que faz a presunção!

LUÍS - Ainda é cedo, meu menino! Pensa que eu cedo com essa facilidade? (Aqui João sai do quarto do ilhéu, pé ante pé, para não ser visto, e encaminha-se para o fundo.)

JÚLIO - Cederás, que te digo eu!

LUÍS - Deverás? (Zombando. Volta para trás e vê João, que se retira para o fundo.) Ó tio João? Tio João? Venha cá! (Vai buscá-lo e trá-lo para frente.)

CLARA - Ai, onde estava este homem metido?

CLEMENTINA - O que quererá ele fazer?

JÚLIO - O que pretenderá?

LUÍS - Tio?

CLARA, interrompendo e puxando João pelo braço - Aonde estavas?

LUÍS, puxando-o pelo braço - Espere, tio, deixe que eu...

CLARA, mesmo jogo - Quero que me diga o que fez estas duas horas.

LUÍS, mesmo jogo - Logo perguntará por isso, que agora tenho eu que lhe falar.

CLARA, mesmo jogo - Nada; primeiro há-de me dizer onde esteve escondido. Isto se faz? Eu a procurá-lo...

LUÍS, mesmo jogo - Dê-me atenção!

CLARA, mesmo jogo - Responda!

LUÍS, mesmo jogo - Deixe-o!

CLARA, mesmo jogo - Deixa-o tu também!

LUÍS, metendo-se entre Clara e João - Ora tia, que impertinência é essa? Tem tempo de fazer-lhe perguntas e ralhar como quiser. (Enquanto Luís fala com Clara, Júlio segura João pelo braço.)

JÚLIO - Lembre-se da sua promessa!

LUÍS, puxando João pelo braço e falando-lhe à parte - Eu bem vi aonde estava... No quarto da ilhoa.

JÚLIO, mesmo jogo - Espero que não falte; quando não, digo tudo à Senhora D. Clara.

LUÍS, mesmo jogo - Se não consentir no que eu lhe quero pedir, descubro tudo à tia.

CLARA - O que quer isto dizer?

JÚLIO, mesmo jogo, mas falando alto - Dá-me a sua filha por esposa?

LUÍS, mesmo jogo - Concede-me a mão da prima?

JÚLIO, mesmo jogo, à parte - Olhe que eu falo...

LUÍS, mesmo jogo - Se ma não der, conto tudo...

JÚLIO, mesmo jogo, alto - Então?

LUÍS, mesmo jogo - O que resolve?

JÚLIO e LUÍS, mesmo jogo - Sim ou não?

JOÃO - Casem-se ambos, e deixem-me!

CLEMENTINA, RITINHA, JÚLIO, LUÍS - Ambos?

CLARA, puxando por João - Que história são essas?

MANUEL, mesmo jogo - Pague-me o que deve!

LUÍS, mesmo jogo - Dê-me a prima!

JÚLIO, mesmo jogo - Assim falta à sua palavra?

MANUEL, mesmo jogo - O meu dinheiro?

JÚLIO, mesmo jogo - Falarei!

LUÍS, mesmo jogo - O que decide? (Todos quatro rodeiam João, que assenta-se no chão e mergulha a cabeça, tapando-a com os braços.)

CLARA - Não o deixo enquanto não me disser aonde esteve, o que fez. Se isto são modos!

JÚLIO, ao mesmo tempo - Vossa Senhoria prometeu-me. Se não quer que eu fale, cumpra a sua palavra.

MANUEL, ao mesmo tempo - Quero-me ir embora! Nem um instante mais aqui! Paga-me o que me deve.

LUÍS - Basta! Deixem-no! Levante-se, tio; aqui está a minha mão. (João levanta-se.) Tranqüilize-se. (À parte, para João:) Faça o que lhe eu mandar, que o salvarei. (Para Júlio:) Bem vê que eu ainda podia lutar, mas sou generoso; não quero. (Para João:) Tio, dê-lhe a mão da prima, (ao ouvido:) que nos calaremos. (João, sem dizer palavra, vai apressado para Clementina, lava-a para junto de Júlio, a quem a entrega, e os abençoa.)

JÚLIO - Ó felicidade!

LUÍS - Disto estou livre. (Para João:) Pague ao Sr. Manuel o que lhe deve. (João mete a mão na algibeira do colete, tira um maço de bilhetes e entrega a Manuel.)

MANUEL - É pouco. (João dá-lhe mais dinheiro.) Agora sim, vou comprar uma carroça!

LUÍS - Agora dê um abraço na tia. (João vai abraçar a Clara.)

LUÍS - Anda, e diga à tia que estava lá fora no portão, ajustando com o italiano das fazendas dois vestidos de crepe bordado dos quais lhe queria fazer mimo.

CLARA - Dous vestidos?

LUÍS - E riquíssimos!

CLARA - Ai, vidinha, e eu estava desconfiando de ti! (Abraça-o)

LUÍS, tomando a João à parte - Não se meta noutra. Deixe o namoro para os moços solteiros.

JOÃO - Estou castigado! E emendado!

RITINHA, que se tem aproximado de Luís - E nós?

LUÍS, fingindo que a não ouve - Viva S. João! Vamos ao fogo! (Ritinha bate o pé de raiva. Acendem o fogo de artifício, e no meio de Viva S. João! e gritos de alegria desce o pano.

Fonte: www.bibvirt.futuro.usp.br

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