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Os Trabalhadores do Mar

de Victor Hugo e tradução de Machado de Assis

Machado de Assis

MAIS PERIPÉCIA QUE DESENLACE

Chegara o tremendo instante.

Tratava-se agora de por a máquina na pança.

Gilliatt ficou pensativo alguns momentos, tendo o cotovelo do braço esquerdo na mão direita, e a fronte na mão esquerda. Depois subiu à Durande, cuja metade, que era a máquina, devia sair e cujo casco devia ficar.

Cortou os quatro cabos que prendiam a estibordo e a bombordo as quatro correntes do cano. Como era corda, bastou-lhe a faca.

As quatro correntes, livres, ficaram pendentes ao longo do cano.

Do navio subiu ele ao aparelho que construíra, bateu com o pé em todas as pranchas, examinou as roldanas, viu as polés, apalpou os cabos, verificou as emendas, assegurou-se de que o massame não estava profundamente molhado, certificou-se de que nada faltava, nem estava bambo, depois, pulando do alto das peças sobre o tombadilho, tomou posição, ao pé do cabrestante, na parte da Durande que devia ficar nas Douvres. Era esse o seu posto de trabalho.

Grave, sentindo somente a comoção útil, lançou um último olhar ao aparelho, depois tomou uma lima e pôs-se a cortar a corrente que sustentava tudo.

Ouvia-se o ranger da lima no meio do murmúrio do mar.

A corrente do cabrestante, presa ao cabo regulador, ficava ao alcance da mão de Gilliatt.

De repente, houve um estalo. A argola que a lima cortava, já limada por metade, tinha-se quebrado; todo o aparelho estava solto. Gilliatt teve apenas tempo de agarrar o grande cabo.

A corrente quebrada bateu no rochedo, os oito cabos retesaram-se, toda a massa cerrada e cortada desprendeu-se do navio, abriu-se o ventre da Durande, o assoalho de ferro da máquina, pesando sobre os cabos, apareceu debaixo da quilha.

Se Gilliatt não tivesse chegado a tempo ao cabo regulador, havia uma queda. Mas a sua mão terrível estava lá; foi apenas uma descida.

Quando o irmão de Jean Bart, Pierre Bart, aquele bêbado possante e sagaz, aquele pobre pescador de Dunquerque que tratava o grande almirante por tu, salvou a galera Langeron, perdida na baía de Ambleteuse, quando, para tirar aquela pesada massa flutuante dos cachopos da baía furiosa, amarrou a vela grande com juncos marinhos, quando ele quis que os juncos, quebrando-se por si, abrissem a vela ao vento, fiou-se na rotura dos juncos, como Gilliatt na fratura da corrente, foi a mesma estranha audácia coroada pela mesma vitória surpreendente. A corda motora, segura por Gilliatt, operou admiravelmente. Devem lembrar-se de que essa corda tinha por fim diminuir as forças convertidas em uma só e reduzidas a um movimento de conjunto. Aquela corda tinha alguma relação com uma bolina; somente em vez de orientar uma vela, equilibrava um maquinismo.

Gilliatt, de pé e com a mão no cabrestante, tinha por assim dizer a mão no pulso do aparelho. Aqui a invenção de Gilliatt manifestou-se toda. Produziu-se uma notável coincidência de forças. Enquanto a máquina da Durande separada em massa, descia para a pança, a pança subia para a máquina. O navio naufragado e o barco salvador, ajudando-se em sentido inverso, iam encontrando-se.

Poupava-se, deste modo, metade do trabalho.

A maré, enchendo sem rumor entre as duas Douvres, levantava a embarcação e aproximava-a da Durande. A maré estava mais que vencida, estava domesticada. O oceano fazia parte do maquinismo.

A vaga subindo, levantava a pança sem choque, brandamente, quase com precaução e como se ela fosse de porcelana.

Gilliatt combinava e proporcionava os dois trabalhos, o da água e do aparelho, e, imóvel, no cabrestante, espécie de estátua temí- vel, obedecida por todos os movimentos ao mesmo tempo, regulava a lentidão da descida pela lentidão da subida.

Nenhum abalo na água, nenhum balanço nas pranchas. Era uma estranha colaboração de todas as forças naturais dominadas. De um lado a gravitação levava a máquina; do outro a maré trazia o barco. A atração dos astros, que é o fluxo, e a atração do globo, que é a gravidade, pareciam harmonizar-se para servir a Gilliatt. A sua subordinação não tinha hesitação nem parada, e, debaixo da pressão de uma alma, aquelas duas potências passivas tornavam-se ativas auxiliares. A obra caminhava de minuto a minuto; o intervalo entre a pança e a Durande diminuía insensivelmente. Fazia-se a aproximação em silêncio e com uma espécie de terror pelo homem que estava ali. O elemento recebia uma ordem e executava-a.

Quase no momento em que a maré cessou de subir, os cabos cessaram de correr subitamente, mas sem comoção; as roldanas pararam. A máquina, como se fosse colocada a mão, assentou-se no fundo da pança. Estava direita, de pé, imóvel, sólida. A placa que a sustentava apoiava-se com os seus quatro ângulos e a prumo no porão.

Estava pronto.

Gilliatt olhou atônito.

A pobre criatura não tinha tido muitas alegrias em sua vida. Sentiu o alquebramento de uma imensa felicidade. Dobravam-se-lhe os membros; e diante do seu triunfo, ele que não se perturbara até então, começou a tremer.

Contemplou a pança debaixo do navio e a máquina dentro da pança. Parecia não acreditar. Dissera-se que ele não contava com aquilo. Saíra-lhe um prodígio das mãos, e ele contemplava-o com espanto.

Mas esse espanto durou pouco.

Gilliatt teve o movimento de um homem que desperta, travou da serra, cortou os oito cabos, depois, separado agora da pança apenas uns 10 pés, deu um salto, caiu dentro, pegou em um rolo de fio, fez quatro cabos, passou-os nas argolas preparadas de antemão e prendeu-se por ambos os lados da pança as quatro correntes do cano que uma hora antes ainda estavam presas na armirada da Durande.

Amarrada ao cano, Gilliatt desembaraçou a parte superior da máquina. Um pedaço do tombadilho da Durande ainda ali estava preso.

Gilliatt despregou-o e limpou a pança daquela porção de tábuas e vergas que atirou sobre os rochedos. útil alívio.

Demais, como é de prever, a pança sustentou com firmeza a carga da máquina. Mergulhou muito pouca coisa. A máquina da Durande, embora maciça, era menos pesada que o montão de pedras e o canhão trazido outrora de Herin pela pança.

Tudo estava acabado. Só restava ir-se embora.

INTERROMPE-SE O ÊXITO

Nem tudo estava acabado.

Abrir a entrada das Douvres, fechada pelo pedaço da armirada da Durande, e levar imediatamente a pança para fora do .

escolho, nada mais claro do que isto.

No mar todos os minutos são urgentes. Pouco vento, apenas uma ruga ao longe; a bela tarde prometia uma bela noite. O mar era de rosas, mas o refluxo começava; excelente momento para partir.

Gilliatt teria a vazante para sair das Douvres, e a enchente para entrar em Guernesey. Podia estar em Saint-Sampson de madrugada.

Mas apresentou-se um obstáculo inesperado. Houve uma lacuna na previdência de Gilliatt.

A máquina estava livre, o cano estava preso.

A maré, aproximando a pança da Durande, tinha diminuído os perigos da descida; mas essa diminuição do intervalo deixou a parte superior do cano metida na espécie de quadro que apresentava o bojo aberto da Durande. O cano estava preso como entre quatro paredes.

O serviço prestado pelo mar complicava-se com esta dissimulação.

Parece que o mar, obrigado a obedecer, teve uma segunda tenção.

É verdade que aquilo que a enchente fizera ia desfaze-lo a vazante.

O cano, tendo mais de 3 toesas, de altura, tinha uns 8 pés metidos na Durande; o nível da água aí baixaria 12 pés; o cano, descendo com a pança, teria 4 pés de espaço acima de si, e poderia sair.

Mas quanto tempo era preciso para isto? Seis horas.

Daí a seis horas seria meia-noite. Que meio tentaria Gilliatt para sair àquela hora, que canal tomaria através daqueles cachopos, já tão inextricáveis de dia, e como arriscar-se no meio da noite em semelhante emboscada de bancos de pedras? Era força esperar até o dia seguinte. Aquelas seis horas perdidas faziam perder ao menos doze horas.

Era mesmo necessário não adiantar trabalho abrindo a entrada ao cachopo. O tapamento era preciso até a maré próxima.

Gilliatt devia repousar.

Cruzar os braços era a única coisa que ele não tinha feito desde que estava no escolho Douvres.

Irritou-o, indignou-o quase, como se fosse culpa dele, aquele descanso.

Disse consigo: Que pensaria de mim Déruchette se me visse aqui sem fazer nada? Contudo, não lhe era inútil refazer as forças.

Estando a pança à sua disposição, Gilliatt resolveu passar a noite a bordo.

Foi buscar a pele de carneiro no alto da grande Douvre, desceu, comeu algumas conchas e duas ou três castanhas do mar, bebeu por ter muita sede os últimos goles da água doce do pichel quase vazio, embrulhou-se na pele cuja lã deu-lhe prazer ao corpo, deitou-se como um cão de guarda ao pé da máquina, abaixou o chapéu sobre os olhos e adormeceu.

Dormiu profundamente. Tem-se daqueles sonos depois das obras acabadas.

AS ADVERTÊNCIAS DO MAR

No meio da noite, bruscamente, e como por mola, Gilliatt acordou.

Abriu os olhos.

As Douvres, acima da cabeça dele, estavam iluminadas como pela reverberação de uma grande brasa branca. Havia em toda a fachada negra do escolho um reflexo de fogo.

Donde vinha o fogo? Da água.

O mar estava extraordinário.

Parecia que a água incendiava-se. Onde os olhos alcançavam, no escolho e fora do escolho, flamejava o oceano. Não era uma flama vermelha; não se parecia com a grande flama viva das crateras e das fornalhas. Nenhuma crepitação, nenhum ardor, nenhum avermelhado, nenhum ruído. Rastilhos azulados imitavam na água as dobras de uma mortalha. Um grande clarão lívido estremecia na água. Não era incêndio; era o espectro dele.

Era uma coisa semelhante ao abrasamento lívido do interior de um sepulcro por uma chama ideal.

Imaginai trevas acesas.

A noite, a vasta noite turva e difusa, parecia ser um combustível daquele fogo gelado. Era uma claridade feita de cegueira. A sombra entrava como elemento naquela luz fantasma.

Os marinheiros da Mancha conhecem todas essas indescritíveis fosforescência, que advertem o navegante. Em parte alguma são mais surpreendentes do que no Grande V, perto de Isigny.

Diante desta luz as coisas perdem a realidade. Uma penetração fantástica torna-as como que transparentes. Os rochedos são apenas lineamentos. Os cabos das âncoras parecem barras de ferro ardentes. As redes dos pescadores parecem um crivo de fogo debaixo da água. Metade do remo é de ébano, a outra metade debaixo da água é de prata. Os pingos da água que caem dos remos fazem estrelas no mar. Todos os barcos arrastam um cometa.

Os marinheiros molhados e luminosos parecem homens que ardem. Mergulha-se a mão no mar e sai calçada de chama: é uma chama morta, não se sente. O braço parece um tição aceso. Vêemse as formas que estão no mar rolarem debaixo das vagas alumiadas.

A espuma cintila. Os peixes são línguas de fogo e uns peda- ços de relâmpago serpenteiam naquela pálida profundidade.

Gilliatt acordou porque o clarão atravessou-lhe as pálpebras fechadas.

Acordou a tempo.

A maré tinha descido; começava a encher de novo.

O cano da máquina, solto durante o sono de Gilliatt, ficou outra vez preso no casco do navio.

Subia lentamente.

Mais palmo e meio, e o cano estaria dentro da Durande.

Para isso ainda havia meia hora. Gilliatt, se quisesse aproveitar a ocasião, tinha essa meia hora diante de si.

Levantou-se sobressaltado.

Por mais urgente que fosse a situação, ele não pode deixar de ficar alguns instantes de pé, contemplando a fosforescência e meditando.

Gilliatt conhecia o mar a fundo. Embora tivesse sido muito maltratado por ele, o mar era já de muito tempo companheiro de Gilliatt.

Aquele ente misterioso que se chama oceano não podia ter nenhuma idéia que Gilliatt não a adivinhasse. Gilliatt, à força de observação, de cisma e de solidão, tornara-se um vidente do tempo, aquilo que se chama, em inglês, um wheater wise.

Gilliatt correu às amarras e guindou-as; depois, já não estando retido pelas âncoras, travou do croque da pança e, apoiando-se nas rochas, afastou-a para fora algumas braças distante da Durande perto do tapamento de tábuas. Havia rang, como dizem os marítimos de Guernesey. Em menos de dez minutos a pança estava fora do casco. Já não havia receio de que o cano pudesse ficar preso.

Entretanto, Gilliatt não se mostrava disposto a partir.

Contemplou ainda a fosforescência e levantou as âncoras; mas não era para navegar, era para ancorar de novo a pança, e muito solidamente; é verdade que o barco ficou junto da porta.

Até então só tinha usado das duas âncoras da pança, e não tinha ainda empregado a pequena âncora da Durande, achada, como se sabe, nos cachopos. Essa colocou-a ele, pronta para as urgências, num canto da pança entre marramos e polés, e juntamente o cabo guarnecido de boças. Gilliatt deitou ao mar essa terceira âncora, tendo cuidado de prender o cabo a outro cabo pequeno, cuja ponta passava na argola da âncora, ficando a outra ponta no ferro de guindar. Deste modo amarrou a pança com três âncoras, o que era mui forte. Indicava isto uma viva preocupação e um redobrar de cautelas. Qualquer marinheiro reconheceria, nessa opera- ção, alguma coisa semelhante a um deitar ferros obrigado, quando há a requeira uma corrente que possa fazer garrar o navio.

A fosforescência sobre a qual Gilliatt tinha os olhos fixos ameaçava-o talvez, mas ao mesmo tempo, servia-o. Se não fosse ela, Gilliatt era prisioneiro do sono e vítima da morte. Ela não só o despertou, senão que o alumiava também.

Havia no escolho uma luz opaca. Mas esse clarão, por mais assustador que parecesse a Gilliatt, foi-lhe útil porque tornou-lhe o perigo visível e a manobra possível.

Agora, quando Gilliatt quisesse abrir vela, a pança, carregando a máquina, estava livre.

Somente, Gilliatt parecia pensar cada vez menos em partir. Ancorada a pança, foi ele buscar a mais forte corrente que tinha no depósito e prendeu-a nos pregos metidos nas duas Douvres, fortificou com ela o baluarte de vergas e barrotes já protegido pelo lado de fora pela outra corrente. Longe de abrir caminho, Gilliatt tapava-o.

A fosforescência ainda iluminava, mas ia diminuindo. É verdade que o dia começava a romper.

De repente, Gilliatt prestou ouvidos.

PARA UM BOM ENTENDEDOR, MEIA PALAVRA BASTA

Pareceu-lhe ouvir, imensamente longe, um que de fraco e indistinto.

As profundezas, em certas horas, tem um certo rugido.

Gilliatt atentou pela segunda vez. O rumor longínquo recomeçou.

Gilliatt sacudiu a cabeça como quem sabia o que era.

Momentos depois, estava ele na outra extremidade da viela do escolho, na entrada de leste, livre até ali, e com grandes marteladas meteu grossos pregos no granito dos portais daquela abertura vizinha do rochedo Homem.

Os buracos desses rochedos estavam preparados e guarnecidos de cavilhas de madeira, quase tudo carvalho. O escolho desse lado estava escalavrado, tinha muitas fendas, e Gilliatt pode meter aí mais pregos ainda que no esvazamento das Douvres.

Num momento dado, e como se lhe soprassem de cima, a fosforescência apagou-se; o crepúsculo, cada vez mais luminoso, substituía-a.

Metidos os pregos, Gilliatt arrastou umas pranchas, depois cordas, depois correntes, e, sem desviar os olhos do trabalho, sem se distrair um momento, começou a construir na abertura do Homem, com tábuas fixadas horizontalmente e presas por cabos, um desses tapamentos de clarabóia, que a ciência já adotou, e qualifica de quebra-mar.

Os que viram, por exemplo, na Rocquaine em Guernesey, ou no Boury-deau na França, o efeito que fazem algumas estacas pregadas no rochedo, compreendem a força desses trabalhos símplices.

O quebra-mar é a combinação daquilo que na França se chama épico e daquilo que na Inglaterra se chama dick. O quebra-mar são os cavalos de frisa das fortificações contra as tempestades. Não se pode lutar contra o mar senão aproveitando a divisibilidade dessa força.

Entretanto, levantara-se o sol, perfeitamente puro. O dia estava claro, o mar calmo.

Gilliatt apressava o trabalho. Também ele estava calmo, mas na sua pressa havia ansiedade.

Passava, em grandes pulos, de rocha em rocha, do tapamento ao depósito e do depósito ao tapamento. Voltava puxando apressadamente, ora um gancho, ora um cabo. Manifestou-se então a necessidade daquele depósito de destroços. Era evidente que Gilliatt estava diante de uma eventualidade prevista.

Uma forte barra de ferro servia-lhe de alavanca para mover os barrotes.

O trabalho executava-se tão depressa que mais parecia um crescimento que uma construção. Quem não viu trabalhar um portageiro militar não pode fazer idéia daquela rapidez.

A abertura de leste era ainda mais estreita que a de oeste. Tinha apenas 5 ou 6 pés de largura. A estreiteza ajudava Gilliatt. Sendo estreito o espaço que tinha de fortificar e fechar, a armadura seria mais sólida e podia ser mais simples. Bastavam, pois, vigas horizontais; as peças verticais eram inúteis.

Postos os primeiros travessões do quebra-mar, Gilliatt trepou em cima e escutou.

O rugido tornava-se expressivo.

Gilliatt continuou a construção. Acrescentou-lhe dois cepos da Durande ligados às pontas das vigas com driças passadas nas três rodas das polés. Ligou tudo com correntes.

Essa construção era nada menos que uma espécie de grade colossal; as pranchas eram as tenazes e as correntes eram os vimes.

Parecia entrançado como parecia construído.

Gilliatt multiplicou os laços e pós mais pregos on preciso.

Tendo muito ferro redondo na Durande, pode faze grande provisão desses pregos.

Ao mesmo tempo que trabalhava ia mastigando. Tinha sede, mas não podia beber, por já não ter água Esgotara o pichel na noite anterior.

Acrescentou ainda quatro ou cinco tábuas, depois em cima de tudo. Escutou.

Cessou o rumor ao longe e calava-se tudo.

O mar estava manso e soberbo; merecia todos os madrigais que lhe dirigem os burgueses quando estão contentes com ele - um espelho, um mar de rosas, um tanque, um mar de leite. O azul profundo do céu correspondia ao verde profundo do oceano. Aquela safira e aquela esmeralda podiam admirar-se ambas. Não tinham de que exprobrar-se. Nenhuma nuvem em cima, nenhuma espuma embaixo. No meio desse esplendor subia magnificamente o sol de abril. Era impossível ver mais belo dia.

No extremo horizonte uma fila negra de aves que atravessavam o céu. Iam depressa. Dirigiam-se para a terra. Parecia uma fuga.

Gilliatt continuou a levantar o quebra-mar.

Levantou-o o mais alto que pôde, tão alto como lhe permitiu a curvatura dos rochedos.

Ao meio-dia, o sol pareceu-lhe mais quente do que estar. Meio-dia é a hora crítica do dia. Gilliatt, de pé na robusta clarabóia que acabava de construir, entrou a contemplar a extensão.

O mar estava mais que tranqüilo, estava estagnado. Não se via uma vela. O céu estava límpido; somente o azul tornara-se mais branco. Era um branco singular. No horizonte, a oeste, havia uma manchazinha de aparência ruim. Essa mancha estava imóvel, mas crescia. Junto dos cachopos o mar palpitava brandamente.

Gilliatt fizera bem em construir o quebra-mar.

Aproximava-se uma tempestade.

O abismo resolvera dar batalha

Livro Terceiro:A Luta

O EXTREMO TOCA O EXTREMO E O CONTRÁRIO ANUNCIA O CONTRÁRIO

Nada tão ameaçador como o equinócio que retarda.

Há no mar um fenômeno medonho que se pode chamar a chegada dos ventos do largo.

Em todas as estações, especialmente na época das sizígias, no momento em que menos se espera, o mar apresenta uma súbita e estranha tranqüilidade. Aplaca-se aquele prodigioso movimento contínuo; cai em madorna e languidez; parece que vai descansar; crer-se-ia que está fatigado. Todos os trapos marinhos, desde as flâmulas de pesca, até às insígnias de guerra, pendem ao longo dos mastros. Os pavilhões almirantes, reais, imperiais, dormem todos.

De repente esses panos começam a mexer-se discretamente.

É a hora, se há nuvens, de espreitar a formação dos cirros; se o sol se põe, é a hora de examinar a cor da tarde; se é de noite e há luar, é a hora de estudar as auréolas planetárias.

Nessa hora, o capitão ou chefe de esquadra que tem a fortuna de possuir um desses vidros de tempestade, cujo inventor não se conhece, observa o vidro com o microscópio e toma as suas precauções contra o vento do sul, se a mistura tem aspecto de açúcar fundido; e contra o vento do norte, se a mistura se esfolha em cristalizações semelhantes aos tufos de ervas ou aos bosques de pinheiro. Nessa hora, depois de ter consultado o gnomo misterioso gravado pelos romanos, ou pelos demônios, numa dessas estreitas pedras enigmáticas que na Bretanha se chamam menires, e na Irlanda cruachs, o pobre pescador irlandes ou bretão retira a sua barca do mar.

Persiste entretanto a serenidade do céu e do oceano. A manhã rompe radiosa e a aurora sorri, o que enchia de religioso horror os antigos poetas e os antigos adivinhos, assustados de que se pudesse crer na deslealdade do sol. Solem quis dicerefaisum audeat? A sombria visão do possível latente é interceptada ao homem pela opacidade fatal das coisas. O mais temível e o mais pérfido aspecto é a máscara do abismo.

Diz-se: anguis in herba; devia dizer-se: borrasca na calma.

Assim se passam horas e, às vezes, dias. Os pilotos assestam os seus óculos. O rosto dos velhos marinheiros tem um ar de severidade que se prende à cólera secreta da expectação.

De súbito ouve-se um grande murmúrio confuso. Há uma espécie de diálogo misterioso no ar.

Não se vê coisa alguma.

A extensão fica impassível.

Entretanto o rumor cresce, engrossa, eleva-se. Acentua-se o diálogo.

Há alguém por trás do horizonte.

Pessoa terrível essa, é o vento.

O vento, isto é, a população de titãs que chamamos Tufões.

Imensa plebe da sombra.

A índia chamava-os Morouts, a Judéia Querubins, a Grécia Aquilões.

São os invisíveis pássaros ferozes do infinito. Esses Bóreas precipitam-se.

OS VENTOS DO LARGO

Donde vem eles? Do incomensurável. Os seus grandes vôos exigem o diâmetro do golfão. As suas asas desmedidas precisam das solidões indefinidas. O Atlântico, o Pacífico, essas vastas aberturas azuis, eis o que lhes convém. Fazem-nas sombrias. Voam em bandos. O Comandante Page viu de uma vez, no mar alto, sete trombas a um tempo. Aí são medonhas. Premeditam os desastres.

tem por trabalho deles, inturmescimento efêmero e eterno dos vagalhões. Ignora-se que eles podem, desconhece-se o que eles querem. São a esfinges do abismo; e Vasco da Gama é o seu Édipo. Faces de nuvens aparecem nessa obscuridade da extensão sempre em movimento. Quem descobre os seus lineamentos lívidos nessa dispersão que é o horizonte do mar sente-se em presença da força irredutível. Dissera-se que a inteligência honraria os assusta, e eriçam-se contra ela. A inteligência é invencível, mas o elemento é indomável. Que fazer contra a ubiqüidade que se não sujeita! O vento faz-se massa e torna - se vento outra vez. Os ventos combatem esmagando e defendem-se esvaindo-se. Quem depara com eles só pode lançar mão de expedientes. Eles frustram-nos pelo assalto diverso e repercutido. Tanto atacam como fogem. São os impalpáveis tenazes.

Como vence-los? A proa do navio Argo, esculpida em um carvalho de Dodona, ao mesmo tempo proa e piloto, costumava falar-lhes. Eles maltratavam aquela proa deusa. Cristóvão Colombo, vendo-os vir de encontro à Pinta, subiu ao tombadilho e dirigiu-lhes os primeiros versículos do Evangelho de São João. Surcouf insultava-os. Aí vem a pandilha, dizia ele. Napier descarregavalhes tiros em cima. Eles tem a ditadura do caos.

Tem o caos. Que fazem dele? Fazem uma coisa implacável. A cova dos ventos é mais monstruosa que a cova dos leões. Quantos cadáveres debaixo dessas dobras sem fundo! Os ventos empurram sem piedade a grande massa obscura e amarga. A gente os ouve sempre, mas eles não ouvem a ninguém. Cometem coisas que parecem crimes. Não se sabe sobre quem atiram eles os punhados brancos de espuma. Que ferocidade ímpia no naufrágio! Que afronta à Providência! Às vezes parecem que cospem em Deus. São os tiranos dos lugares desconhecidos. Luoghi spaventosi, murmuravam os marinheiros de Veneza.

Os espaços trêmulos suportam os seus ataques. É inexprimível o que se passa nesses grandes abandonos. Mistura-se à sombra um elemento eqüestre. O ar faz um rumor de floresta. Não se vê nada, mas ouve-se um ruído de cavalos. É meio-dia, de súbito anoitece; passa um tornado; é meia-noite, de repente esclarece, acende-se o eflúvio polar. Alternam em sentido inverso os turbilhões, espécie de dança hedionda, tripúdio dos flagelos sobre o elemento. Quebra-se pelo meio uma pesada nuvem, e os pedaços vão precipitar-se no mar. Outras nuvens, purpureadas, iluminam e roncam, depois escurecem lugubremente; a nuvem, esvaziada de raio, é carvão apagado. Sacos de chuva rompem-se em bruma. Fornalha em que chove, onda que vomita luz. As nuvens do mar debaixo do aguaceiro iluminam surpreendentes quadros; desfiguram-se espessuras onde se reproduzem as semelhanças. Monstruoso umbigo vai rompendo as nuvens. Volteiam os vapores, saracoteiam as vagas; rolam embriagadas as nítiades; a perder de vista, o mar maciço e mole move-se sempre sem jamais deslocar-se; tudo é lívido; desesperados gritos sobem desse palor.

No fundo da obscuridade inacessível tremem grandes germes de sombra. De quando em quando há paroxismo. O rumor torna-se tumulto, do mesmo modo que a vaga se torna marulho. O horizonte, superposição confusa de vagas, oscilação sem fim, murmura continuamente; ali arrebentam estranhamente uns arremessos de fracasso; parece-se ouvir as hidras espirrando; sopram hálitos frios, seguem-se hálitos quentes. A trepidação do mar anuncia um medo que tudo espera. Inquietação. Angústia. Terror profundo das águas. Subitamente, o furacão, como uma besta, desce a beber no oceano; sorvo inaudito, a água sobe para a boca invisível, forma-se uma ventosa, incha o tumor; é a tromba, o Prester dos antigos, estalactite em cima, estalagmite embaixo, duplo cone inverso girante, uma ponta equilibrada em cima de outra, beijo de duas montanhas, uma montanha de espuma que se levanta, uma montanha de nuvem que desce; coito medonho da vaga e da sombra. A tromba, como a coluna da Bíblia, é tenebrosa de dia e luminosa de noite. Diante da tromba cala-se o trovão. Parece que tem medo.

Há uma escala, na vasta turvação das solidões; temível crescendo; a brisa, a lufada, a borrasca, o temporal, a tormenta, a tempestade, a tromba; as sete cordas da lira do vento, as sete notas do abismo. O céu é uma largura, o mar é um arredondado; passa um vento, já não há nada disso, tudo é fúria e confusão.

Tais são aqueles severos sítios.

Os ventos correm, voam, abatem-se, expiram, revivem, pairam, assoviam, rugem, riem: frenéticos, lascivos, desvairados, tomam conta da vaga irascível. Tem harmonia esses berradores. Tornam sonoro todo o céu. Sopram nas nuvens corno num metal; embocarra o espaço, e cantam no infinito, com todas as vozes amalgamadas dos clarins, buzinas e trombetas, uma espécie de tangeres prometemos.

Quem os ouve, ouve Pá. O que mais assusta é vê-los assim. Tem uma colossal alegria composta de sombra. Fazem nas solidões a batida dos navios. Sem tréguas, noite e dia, em todas as estações, no trópico, corno no pólo, tocando a trombeta delirante, vão eles, por meio do travamento da nuvem e da vaga, fazendo a grande caça negra dos naufrágios. São os donos das matilhas. Divertem-se. Fazem ladrar as ondas, que são os seus cães, contra as rochas. Combinam e desunem as nuvens.

Amassam, como se tivessem milhões de mãos, a flexibilidade da água imensa. A água do esforço. Apertada por um lado, escapa por outro. É assim que a água se faz onda. A vaga é a sua liberdade.

EXPLICAÇÃO DO RUMOR OUVIDO POR GILLIATT

A grande aproximação dos ventos para a terra faz-se nos equinócios. Nessas épocas o grande balanço do trópico e do pólo e a colossal maré atmosférica derramam o seu fluxo em um hemisfério, e o refluxo em outro. Há constelações que significam esses fenômenos. Libra e Aquário. É a hora das tempestades O mar espera silencioso.

Às vezes o céu tem feio aspecto. Fica baço, e como que coberto por um grande pano obscuro; os marinheiros contemplam ansiosos o ar oprimido de sombra.

Mas o que eles temem é o ar alegre. Céu risonho no equinócio é a tempestade com pés de lã. Com céus desses, a Torre das Carpideiras de Amsterdão enchia-se de mulheres que examinavam o horizonte.

Quando se demora a tempestade invernal ou outonal é que está ajuntando uma massa ainda maior. Entesoura para destruir. Desconfia da acumulação de juros. Ango dizia: O mar é bom pagador.

Quando a demora é demasiado longa, o mar trai a sua impaciência pela calma. Somente a tensão magnética se manifesta naquilo que se pode chamar a inflamação da água. Rompem clarões da vaga.

Ar elétrico, água fosfórica. Os marinheiros sentem-se estafados. É uma hora especialmente perigosa para os encouraçados; o casco de ferro pode produzir falsas indicações da bússola e perdê-los.

Assim pereceu o paquete transatlântico Yowa.

Para os que estão familiarizados com o mar, o seu aspecto nesses momentos é estranho; dissera-se que o mar deseja e receia o ciclone. Certos himeneus, aliás impostos pela natureza, são acolhidos assim. A leoa desejosa foge diante do leão. Também a água tem o seu calor, e daí lhe vem o estremecimento.

Vai realizar-se o imenso consórcio.

Este consórcio, como as núpcias dos antigos imperadores, celebra-se com exterminações. É uma festa temperada de desastres.

Atenção, aí vem o fato equinocial.

Conspira a tempestade. A velha mitologia entrevia essas personalidades indistintas misturadas à grande natureza difusa. Eolo harmoniza-se com Bóreas. O acordo do elemento com o elemento é necessário. Distribuem entre si a tarefa. Há impulsões para a vaga, para a nuvem, para o eflúvio; a noite é um auxiliar; deve ser empregada. Há bússolas para desviar, faróis para apagar, estrelas para esconder. É preciso que o mar coopere. Todas as tempestades são precedidas de um murmúrio. Por trás do horizonte há o cochicho prévio dos furacões.

É o que se ouve, na obscuridade, ao longe, por cima do silêncio assustado do mar.

Gilliatt ouviu esse cochichar tremendo. A fosforescência foi a primeira advertência; o rumor foi a segunda.

Se existe o demônio Legião, esse demônio é o Vento, com certeza.

O vento é múltiplo, mas o mar é um.

Daí esta conseqüência: toda tempestade é mista. A unida de ar o exige.

Abismo implica tempestade. O oceano inteiro borrasca. A totalidade das suas forças entra em linha e torna parte nela. Uma vaga é o golfão de baixo; um tufão é o golfão de cima. Lutar com urna tempestade é lutar com o mar inteiro e o céu inteiro.

Messíer, o homem da marinha, o astrônomo pensativo da choça de Cluny, dizia: O vento de toda a parte está em todas as partes.

Ele não acreditava nos ventos presos, mesmo nos mares fechados.

Para ele não havia ventos mediterrâneos. Dizia que os conhecia na passagem. Que em tal dia, a tal hora, o Fohn do lago de Constança, o antigo Favonio de Lucrécio, atravessara no horizonte de Paris; em outro dia era o Bora do Adriático; em outro era o Noto giratório que se pretende estar encerrado nas Cícladas. Especificava os eflúvios. Não pensava que o vento que gira entre Malta e Túnis e o vento que gira entre a Córsega e as Baleares estivessem na impossibilidade de se libertarem. Não admitia os ventos, como ursos, fechados em jaula. Dizia: Todas as chuvas vem do trópico, e todos os raios do pólo. O vento, com efeito, satura-se de eletricidade na intercessão dos coluros, que marca as extremidades do eixo, e da água no equador; traz-nos da linha o líquido e dos pólos o fluido.

Ubiqüidade é o vento.

Não quer isto dizer que não existam as zonas dos ventos. Nada mais demonstrado que as correntes contínuas, e dia virá em que a navegação aérea, servida pelos navios do ar (air-navires) que chamamos, por mania de grego, aeróscafos, utilizará as linhas principais. A canalização do ar pelo vento é incontestável: há rios de vento, ribeiros de vento, riachos de vento; somente ao invés das ramificações da água, são os riachos que saem dos ribeiros, e os ribeiros que saem dos rios, em vez de serem afluentes: em vez de concentração, dispersão.

Essa disposição é que faz a solidariedade dos ventos e a unidade da atmosfera. Uma molécula deslocada desloca outra molécula. Os ventos agitam todos juntos. A estas profundas causas do amálgama, acrescentai o relevo do globo, rasgando a atmosfera com todas as suas montanhas, fazendo nós e torções nas carreiras do vento e determinando em todos os sentidos as contracorrentes. Irradiação ilimitada.

O fenômeno do vento é a oscilação de dois oceanos um sobre outro; o oceano do ar, sobreposto ao oceano de água, apoia-se nessa fuga e vacila nessa vacilação.

O indivisível não usa compartimentos. Não há tabique entre uma onda e outra. As ilhas da Mancha sentem o empurrão do cabo da Boa Esperança. A navegação universal faz frente a um monstro único. Todo o mar é uma só hidra. As vagas cobrem o mar de uma espécie de escama. Oceano é Ceto.

Nessa unidade abate-se o inumerável.

TURBA, TURMA

Para a bússola há 32 ventos, isto é, 32 direções; mas essas direções podem subdividir-se indefinidamente. O vento, classificado por direções, é o incalculável; classificado por. espécie, é o infinito.

Homero recuaria ante esse recenseamento.

A corrente polar roça na corrente tropical. Eis o frio e o calor combinados, o equilíbrio começa pelo choque, sai a onda dos ventos, inchada, esparsa e toda dilacerada em jorros medonhos. A dispersão dos tufões sacode nos quatro cantos do horizonte o prodigioso esgadelhado do ar.

Aí estão todos os rumos; o vento da Gulf Stream, que despeja tanta névoa na Terra Nova; o vento do Peru, região de céu mudo onde jamais se ouviram trovoadas; o vento da Nova Escócia, onde voa o grande Auk, Alca impennis, de bico riscado; os turbilhões de Ferro dos mares da China; o vento de Moçambique que maltrata os juncos; o vento elétrico do Japão denunciado pelo gongo; o vento da África que habita entre a montanha da Mesa e a montanha do Diabo, e que se desencadeia daí; o vento do equador que passa por cima dos ventos regulares, e traça uma parábola cujo cimo fica a oeste; o vento plutônico que sai das crateras e que é o temível sopro das chamas; o estranho vento próprio do vulcão Awu que faz sempre surgir do norte uma nuvem azeitonada; a monção de Java, contra a qual estão construídas aquelas casamatas chamadas casas do furacão; a brisa ramificada que os ingleses chamam busk, bebida; os grãos arqueados do estreito de Malaca observados por Horsburgh; o possante vento de sudoeste, chamado Pampeiro no Chile, e Rebojo em Buenos Aires, que carrega o condor em pleno mar e o salva da cova onde o esperava, debaixo de uma pele de boi arrancada de fresco, o selvagem deitado de costas e retesando o arco com os pés; o vento químico que, segundo Lemery, faz nas nuvens pedras de trovoadas; o Harmattan dos cafres; o sopra-nevespolar, que se prende aos eternos gelos e os arrasta; o vento do golfo de Bengala, que vai até Nijnii-Novogorod devastar o triângulo das barracas de pau onde se faz a feira da Ásia; o vento das cordilheiras, agitador das grandes vagas e das grandes florestas; o vento dos arquipélagos da Austrália onde os caçadores de mel arrancam as colmeias silvestres escondidas nos galhos do eucalipto gigante; o siroco; o mistral; o hurricane; o vento de seca; os ventos de inundação; os diluviados; os tórridos; os que lançam nas ruas de Gênova a poeira das planícies do Brasil; os que obedecem à rotação diurna; os que a contrariam e fazem dizer a Herrera: Malo viento torna contra el sol, os que vão aos pares, para destruir, desfazendo um o que o outro faz; e aqueles ventos antigos que assaltaram Colombo na costa de Veraguas; e os que durante quarenta dias, desde 21 de outubro a 28 de novembro de 1520, puseram em questão Magalhães abordando O Pacífico, e os que desfizeram a Armada, e sopraram sobre Filipe 11.

Outros ventos mais, e como achar-lhes o fim? Os ventos carregadores de sapos e gafanhotos que sopram nuvens e bichos por cima do oceano; os que operam o que se chama salto de vento, e que tem por tarefa acabar com os náufragos; os que, com um sopro único, deslocam a carga do navio e o obrigam a continuar viagem todo inclinado; os ventos que constróem os circum-cúmulos; os ventos que constróem os Circum-estratos; pesados ventos cegos, túmidos de chuva; os ventos do granizo; os ventos da febre; os ventos cuja aproximação faz ferver os salsos e os solfatários da Calábria; os ventos que fazem brilhar o pelo das panteras da África andando nos espinheiros do cabo de Ferro; os que vem sacudindo fora da sua nuvem, como uma língua trigonocéfala, o temível relâmpago de forquilha; os que trazem neves negras. Tal é o exército.

O escolho Douvres, no momento em que Gilliatt construía o quebra-mar, ouvia-lhes o galope longínquo.

Já o dissemos, o Vento compõe-se de todos os ventos.

Acercava-se toda aquela horda.

De um lado, essa legião.

Do outro, Gilliatt.

GILLIATT PODE ESCOLHER

As misteriosas forças escolheram bem o momento.

O acaso, se é que existe, é hábil.

Enquanto a pança esteve guardada na angra do Homem, enquanto a máquina esteve metida no casco da Durande, Gilliatt foi inexpugnável. A pança estava em segurança, a máquina estava abrigada; as Douvres, que sustentavam a máquina, condenavam-na a uma destruição lenta, mas protegiam-na contra uma surpresa.

Em todos os casos, ficava a Gilliatt um recurso. A máquina destruída não destruía a Gilliatt. Tinha a pança para salvar-se.

Mas esperar que a pança estivesse fora do ancoradouro, onde era inacessível, deixá-la por entre as Douvres, esperar que ela lá estivesse presa também pelo escolho, consentir que Gilliatt operasse o salvamento e o transporte da máquina, não impedir esse maravilhoso trabalho, consentir nesse triunfo, esse era o laço. Via-se agora, como uma espécie de lineamento sinistro, a sombria astúcia do abismo.

Agora, a máquina, a pança, Gilliatt, estavam todos reunidos na viela dos rochedos. Eram apenas um. A pança esmigalhada no escolho, a máquina metida a pique, Gilliatt, afogado, era negócio de um esforço único num só ponto. Tudo podia ser desfeito de uma vez, ao mesmo tempo, e sem dispersão; tudo podia ser destruído de um lance.

Não há situação mais crítica do que a de Gilliatt.

A esfinge possível, que os sonhadores suspeitam estar no fundo da sombra, parecia propor-lhe este dilema.

Fica ou parte.

Partir era insensato, ficar era medonho

O COMBATE Gilliatt trepou à grande Douvre.

Daí via todo o mar.

Era surpreendente o oeste. Saía dele uma muralha. Muralha de nuvem, tapando a extensão, subia lentamente do horizonte para o zênite. Essa muralha retilínea, vertical, sem um rombo no alto, sem um rasgão na orla, parecia feita a esquadro, e esticada a corda.

Era a nuvem semelhante a granito. O declive dessa nuvem, completamente perpendicular na extremidade sul, dobrava-se um pouco para o norte, como dobra uma folha, e oferecia o vago aspecto de um plano inclinado. Alargava e crescia sem que a cimalha deixasse um instante de ser paralela à linha do horizonte, quase indistinta na obscuridade que se ia fazendo. Essa muralha do ar subia de uma só peça e silenciosamente. Nenhuma ondulação, nenhuma dobra, nenhuma saliência. Era lúgubre aquela imobilidade em movimento. O sol, lívido por trás de uma certa transparência mórbida, alumiava aquele lineamento de apocalipse. A nuvem invadia já quase metade do espaço. Dissera-se o medonho talude do abismo. Era um como que levantar de montanha de sombra entre a terra e o céu.

Era, em pleno dia, a ascensão da noite.

Havia no ar um calor de fogão. Uma lixívia de estufa saía daquele amontoado misterioso. O céu, que de azul tornara-se branco, de branco tornou-se cinzento. Dissera-se uma grande ardósia. Embaixo o mar escuro e de chumbo era outra ardósia enorme. Nem um sopro, nem um rumor. Ao longe o mar deserto. Nenhuma vela.

Os pássaros tinham-se escondido. Sentia-se a traição do infinito.

O crescimento de toda aquela sombra amplificava-se insensivelmente.

A montanha movediça de vapores que se dirigia para a Douvres era uma dessas nuvens que se podem chama nuvens de combate.

Nuvens vesgas.

Temível era a aproximação.

Gilliatt examinou firmemente a nuvem e murmurou entre dentes: Tenho sede, vais dar-me água.

Ficou alguns momentos imóvel com os olhos fitos na nuvem. Parecia medir a tempestade.

Tinha o barrete no bolso, tirou-o e po-lo na cabeça. Tirou do buraco onde por tanto tempo dormira o fato de reserva, e vestiu tudo, grevas e capotão, como um cavalheiro veste a armadura para entrar em combate. Sabem que perdera os sapatos, mas os pés descalços tinham-se endurecido nos rochedos.

Preparado o vestuário de guerra, contemplou ele o quebra-mar, empunhou vivamente a corda de nós, desceu da plataforma das Douvres, tomou pé nas rochas de baixo, e correu ao depósito.

Instantes depois trabalhava. A vasta nuvem muda pode ouvir-lhe os sons do martelo. Que fazia Gilliatt? Com o resto dos pregos, cordas e vigas, construía na abertura de leste uma segunda porta de 10 a 12 pés por trás da primeira.

Profundo era o silêncio. Os talos de erva nas fendas do escolho nem mesmo tremiam.

Subitamente, o sol desapareceu. Gilliatt levantou a cabeça.

A nuvem ascendente acabava de atingir o sol. Foi como que uma extinção da luz substituída por uma reverberação mesclada e pálida.

A muralha de nuvens mudara de aspecto. Já não tinha unidade.

Encrespara-se horizontalmente tocando o zênite, pendendo em todo o resto do céu. Tinha agora divisões. A formação da tempestade desenhava-se como uma seção dividida. Distinguiam-se as camadas da chuva e os jazigos do granizo. Não havia relâmpago mas um horrível clarão espesso; porque a idéia do horror pode ligar-se à idéia da luz. Ouvia-se o vago respirar da tempestade.

Aquele silêncio palpitava obscuramente. Gilliatt, também silencioso, via agruparem-se por cima dele todos aqueles montões de bruma e compor-se a deformidade das nuvens. No horizonte pesava e estendia-se uma faixa de nevoeiro cor de cinza, e no zênite uma faixa cor de chumbo; lívidos farrapos pendiam das nuvens de cima sobre os nevoeiros de baixo. O fundo, que era a parede de nuvens, estava baço, leitoso, térreo, lívido, indescritível. Uma delgada e alvacenta nuvem transversal, vinda não se sabe donde, cortava obliquamente, de norte a sul, a alta muralha sombria. Uma das extremidades dessa nuvem arrastava no mar. No ponto em que tocava na compressão das nuvens, via-se na obscuridade um abafamento de vapor vermelho. Por baixo da longa nuvem pálida, pequenas nuvens, mui baixas e pretas, voavam em sentido inverso umas das outras, como se não soubessem para onde iriam. A possante nuvem do fundo crescia de todas as partes a um tempo, aumentava o eclipse, e continuava a sua interposição lúgubre. A leste, por trás de Gilliatt, havia apenas um portal de céu claro que ia ser fechado. Sem a menor impressão de vento, passou uma estranha difusão de penugem cinzenta, esparsa em migalhas, como se algum pássaro gigantesco acabasse de ser depenado por trás daquele muro de tenebras. Formou-se um teto de negrume compacto que, no extremo horizonte, tocava no mar e misturava-se na noite. Sentia-se alguma coisa que se avançava. Era vasta e pesada e medonha. A obscuridade tornava-se mais espessa. De súbito, roncou imenso trovão.

Gilliatt sentiu o abalo. Há sonho no trovão. Essa realidade brutal na região visionária tem alguma coisa de terrífico. Acredita-se ouvir a queda de um móvel no aposento dos gigantes.

Nenhum flamejar elétrico acompanhara o som. Foi um trovão negro.

Voltou o silêncio. Houve uma espécie de intervalo como quando se toma posição. Depois um após outro, e lentamente, romperam-se informes relâmpagos. Eram todos mudos. Nem um rugido.

Cada relâmpago iluminava. A muralha de nuvens era agora um antro. Havia nela abóbadas e arcarias. Viam-se traços. Esboçavam-se monstruosas cabeças; distendiam-se pescoços; entreviam-se e desapareciam elefantes carregados de torres. Uma coluna de bruma, reta, redonda, negra, com uma fumaça branca em cima, simulava o cimo de um vapor colossal, engolido, bufando debaixo da vaga fumegante. Ondulavam toalhas de nuvem.

Acreditava-se ver dobras de bandeiras. No centro, debaixo de vermelhas espessuras, mergulhava-se, imóvel, um caroço de nevoeiro denso, inerte, impenetrável às faíscas elétricas, espécie de feto hediondo no ventre da tempestade.

Gilliatt sentiu subitamente que um vento lhe agitou os cabelos.

Três ou quatro largas aranhas de chuva despedaçaram-se em roda dele na rocha. Depois houve um segundo trovão. Começou o vento.

A espera da sombra chegara ao cúmulo; o primeiro trovão agitara o mar, o segundo rachou a muralha de nuvens de alto a baixo, abriu-se uma fenda, toda a bátega suspensa jorrou por esse lado, o buraco tornou-se uma boca aberta cheia de chuva, e o vômito da tempestade começou. Tremendo foi o instante.

Aguaceiro, furacão, relâmpagos, raios, vagas até às nuvens, espuma, detonações, torções frenéticas, gritos, roncos, assovios, tudo a um tempo. Desencadear de monstros.

O vento fulminava. A chuva não caía, desabava.

Para um pobre homem, metido, como Gilliatt, com um barco carregado, num intervalo de dois rochedos, em pleno mar, não há crise mais ameaçadora. O perigo da maré de que Gilliatt triunfara, nada era ao pé do perigo da tempestade.

Eis a situação: Gilliatt, em volta de quem tudo era precipício, descobriu no último momento, e diante do risco supremo, uma estratégia engenhosa. Fez ponto de apoio no próprio inimigo; associou-se ao escolho; o rochedo Douvres, outrora seu adversário, era agora o seu padrinho naquele imenso duelo. Gilliatt tinha-o debaixo de si. Fez daquele sepulcro uma fortaleza. Assestou-se naquele pardieiro formidável do mar. Estava bloqueado, mas entrincheirado. Estava, por assim dizer, agregado ao escolho, face a face com o furacão. Por barricadas ao estreito, essa rua das vagas. Era a única coisa que podia fazer. Parece que o oceano, que é um déspota, pode ser também vencido pelas barricadas. A pança podia ser considerada segura por três lados. Estreitamente apertada, entre as duas fachadas internas do escolho, triplicemente ancorada, estava abrigada ao norte pela pequena Douvre, ao sul pela grande, penedos selvagens, mais afeitos a produzir naufrágios que a impedi-los. A oeste era protegida pelo tapamento de barrotes atados e pregados aos rochedos, tapamento já provado que vencera o rude fluxo do alto-mar, verdadeira porta de cidadela tendo por ombreiras as próprias colunas do escolho, as duas Douvres. Nada havia que recear por esse lado. O perigo estava a leste.

A leste havia apenas o quebra-mar. Um quebra-mar é um aparelho de pulverização. Precisa ao menos duas lumeeiras. Gilliatt teve apenas tempo de fazer uma. Construía a segunda mesmo com a tempestade.

Felizmente o vento chegava de nordeste. O mar tem descaídas.

Aquele vento, que era o galerno antigo, tinha pouco efeito nas Douvres. Assaltava o escolho de través, e não impelia a onda nem sobre uma e nem sobre outra das aberturas da garganta, de modo que em vez de entrar em uma rua esbarrava-se numa muralha. A tempestade atacava mal.

Mas os ataques do vento são curvos, e devia esperar-se alguma viravolta súbita. Se essa viravolta se fizesse a leste, antes que a segunda clarabóia do quebra-mar estivesse construída, o perigo seria grande. A invasão da viela de rochedos pela tempestade realizava-se e tudo estava perdido.

Crescia a vertigem da tempestade. A tempestade é golpe sobre golpe. Essa é a sua força, esse é o seu defeito. À força de ser uma raiva, dá lugar à inteligência, e o homem defende-se; mas debaixo de que destruição! Nada mais monstruoso que isso. Nenhuma dilação, nenhuma interrupção, nenhuma trégua, nenhum descanso para tomar alento. Há um não sei que de covardia nessa prodigalidade do inesgotável.

Toda a imensidade tumultuosa atirava-se sobre o escolho Douvres.

Ouviam-se vozes sem número. Quem gritava assim? Estava ali o antigo terror pânico. De quando em quando, parecia que era alguém que falava, como se fizesse um comando. Depois clamores, clarins, estranhas tremuras, e aquele grande e majestoso urro que os marinheiros dizem ser a chamada do oceano.

As espirais indefinidas e fugazes do vento assobiavam torcendo a onda; as vagas, tornadas discos debaixo daqueles torneamentos eram atiradas contra os parcéis como chapas gigantescas por atletas invisíveis.

A enorme escuma eriçava todas as rochas. Torrentes em cima, saliva embaixo. Depois redobravam os mugidos. Nenhum rumor humano ou bestial poderia dar idéia dos fracassos misturados àquelas deslocações do mar. A nuvem canhoneava, a saraiva metralhava, o marulho escalava. Certos pontos pareciam imóveis, em outros o vento fazia 20 toesas por segundo. O mar ao longe estava todo branco; 10 léguas de água de sabão enchiam o horizonte.

Abriam-se portas de fogo. Algumas nuvens pareciam queimadas por outras, e sobre montões de nuvens vermelhas, semelhantes às brasas, assemelhavam-se essas ao fumo.

Configurações flutuantes esbarravam-se e amalgamavam-se, desfazendo-se umas por outras. Escorria uma água incomensurável, ouviam-se fogos de pelotão no firmamento. Havia no meio do teto de sombra uma espécie de vasta alcofa virada, donde caíam em confusão a tromba, a chuva, as nuvens, as cores rubras, os relâmpagos, a noite, a luz, os raios, tão formidáveis são essas inclinações do golfão! Gilliatt parecia não atender a nada. Tinha a cabeça inclinada no trabalho. A segunda clarabóia começava a levantar-se. A cada trovão respondia ele com uma martelada. Ouvia-se essa cadência naquele caos. Estava com a cabeça descoberta. Urna lufada levou-lhe o chapéu.

Tinha uma sede ardente. Provavelmente estava com febre.

Lagoinhas de chuva tinham-se formado à roda dele nas covas dos rochedos. De quando em quando tirava água com a palma da mão e bebia. Depois, sem examinar em que ia a tempestade, continuava a obra.

Tudo podia depender de um instante. Sabia o que o esperava se não terminasse a tempo o quebra-mar. Por que motivo perder um minuto para ver aproximar-se a face da morte? A desordem em torno dele era como uma caldeira fervendo. Havia fracasso e motim. Às vezes o raio parecia descer uma escada. As percussões elétricas voltavam constantemente aos mesmos pontos do rochedo. Havia pedras de chuva da grossura de uma mão fechada. Gilliatt era obrigado a sacudir as dobras da japona. Até as algibeiras tinham pedras.

O temporal estava já no oeste, e batia o tapamento das duas Douvre. Mas Gilliatt tinha confiança nesse tapamento, e com razão. Esse tapamento, feito do grande pedaço da proa da Durande, recebia sem dureza o choque da onda; a elasticidade é uma resistência; os cálculos de Stevenson estabelecem que, contra a vaga, por si própria elástica, uma reunião de paus, com a dimensão desejada, ligada e amarrada de certo modo, faz melhor obstáculo que um break water de madeira. O tapamento das Douvres preenchia essas condições; era, além disso, tão engenhosamente atado que a onda, batendo em cima, fazia como um martelo que mete o prego, apoiava-o ao rochedo e consolidava-o; para demoli-lo, era preciso derrubar as Douvres. A lufada apenas conseguiu atirar à pança, por cima do obstáculo, alguns jorros de espuma. Por esse lado, graças ao tapamento, a tempestade tornava-se cuspo. Gilliatt voltava as costas a esse esforço. Sentia tranqüilamente atrás de si essa raiva inútil.

Os flocos de espuma, saindo de todos os lados, assemelhavam-se a lã. A água, vasta e irritada, afogava os rochedos, trepava por eles, entrava dentro, penetrava na rede de fendas internas, e saía das massas graníticas por fendas estreitas, espécies de bocas inesgotáveis que faziam naquele dilúvio pequenas fontes plácidas.

Filetes de água caíam graciosamente daqueles buracos no mar.

A clarabóia de reforço do tapamento de leste estava quase concluída. Mais umas voltas de cordas e correntes e aproximava-se o momento de também lutar esse tapamento.

De súbito, fez-se um grande clarão, a chuva cessou, as nuvens separaram-se, era o vento que mudava, uma espécie de janela grande crepuscular abriu-se no zênite, e apagaram-se os relâmpagos, pareceu que estava acabado. Era o começo. Os marinheiros chamam a isso o vento de esboroar. O vento do sul tem mais água, o vento do norte tem mais raios.

Vindo do nordeste, a agressão ia dirigir-se ao ponto fraco.

Desta vez Gilliatt parou o trabalho e olhou. Colocou-se de pé sobre uma saliência de rochedo inclinado por trás da segunda clarabóia quase terminada. Se a primeira chapa do quebra-mar fosse afundada, desabaria a segunda, ainda não consolidada, e debaixo dessa demolição esmagaria Gilliatt. Gilliatt, no lugar que escolhera, seria achatado antes de ver a pança e a máquina e toda a sua obra abismar-se nó golfão.

Tal era a eventualidade. Gilliatt aceitou-a, e, terrível, ele a queria.

Nesse naufrágio de todas as suas esperanças, morrer primeiro convinha-lhe a ele; morrer primeiro, porque a máquina fazia-lhe o efeito de uma pessoa. Levantou com a mão esquerda os cabelos colados nos olhos pela chuva, apertou o martelo, inclinou-se para trás ameaçante, e esperou.

Não esperou muito.

Um ribombo deu o sinal, fechou-se a abertura pálida do zênite, precipitou-se uma rajada de chuva, tudo tornou-se escuro, e não houve outro facho mais que o relâmpago. Começava o sombrio ataque.

Possante vagalhão, visível entre os relâmpagos, levantou-se a leste além do rochedo Homem. Parecia um grande rolo de vidro.

Era verde e sem escuma nem ondas. Inchava aproximando-se; era um largo cilindro de trevas rolando no oceano. A trovoada roncava surdamente.

Esse vagalhão chegou ao rochedo Homem, partiu-se em dois e continuou. Os dois pedaços juntos tornaram a ligar-se, e fizeram uma grande montanha de água, e, de paralela que estava ao quebra-mar, tornou-se perpendicular. Era uma vaga com a forma de uma viga.

Atirou-se ao quebra-mar aquele aríete. Rugiu o choque. Tudo desapareceu em espuma.

Não se pode imaginar o que são essas avalanchas de neve que o mar ajunta, e debaixo das quais engole rochedos de mais de 100 pés de altura, tais, por exemplo, como o grande Anderlo, em Guernesey, e o Pináculo, em Jersey. Em Santa Maria de Madagáscar, saltam por cima da ponta de Tintingue.

Durante alguns instantes o rolo de mar tapou tudo. Só ficou visível um montão furioso, uma escuma imersa, a alvura de um sudário flutuando no vento do sepulcro, uma mistura de ruído e de tempestade debaixo da qual trabalhava o extermínio.

Dissipou-se a escuma. Gilliatt estava de pé.

O tapamento resistira. Nem uma corrente arrebentou, nem um prego saiu. O tapamento mostrou à prova as duas qualidades do quebra-mar; foi flexível como um caniço e sólido como uma parede.

O vagalhão dissolveu-se em chuva.

A espuma escorrendo ao longo dos ziguezagues do estreito foi morrer debaixo da pança.

O homem que fizera aquele açamo ao oceano não repousou.

A tempestade divagou felizmente durante algum tempo. O encarniçamento das vagas voltou-se para as partes muradas do escolho. Foi uma trégua. Gilliatt aproveitou-a para completar a clarabóia de trás.

O dia expirou nesse trabalho. A tormenta continuava as suas viol ências no flanco do escolho com uma solenidade lúgubre. A urna de água e a urna de fogo que existe nas nuvens esvaziava-se sem esgotar nunca. As ondulações altas e baixas do vento pareciam movimentos de um dragão.

Quando a noite chegou, já havia noite; não se pode reparar nela.

, Mas não era obscuridade completa. As tempestades iluminadas e cegas pelo relâmpago tem intermitência de visível e invisível. Tudo está claro, depois tudo fica escuro. Assiste-se à saída das visões e à entrada das trevas.

Uma zona de fósforo, cor da aurora boreal, flutuava como um farrapo de flama espectral. por trás das espessuras de nuvens.

Resultava uma vasta palidez. As chapas de chuva eram luminosas.

E esses clarões ajudavam Gilliatt e o dirigiam. Ele voltou-se para o relâmpago e disse: Segura-me a vela! Com o auxílio dessa claridade pode ele levantar a clarabóia de trás, ainda mais acima. O quebra-amar estava quase completo.

Quando Gilliatt amarrava ao ponto culminante um cabo de reforço, o vento soprou-lhe na cara em cheio. Isto fez-lhe levantar a cabe ça. O vento voltara bruscamente para nordeste. O assalto da abertura de leste recomeçava. Gilliatt olhou para o mar. O quebramar ia ser atacado outra vez. Vinha um novo vagalhão.

Esse foi rudemente vibrado; depois veio outro, mais outro, mais outro, cinco ou seis em tumulto, quase juntos; finalmente um último e tremendo.

Este, que era um como que total de forças, tinha a figura de uma coisa viva. Não era difícil imaginar, naquela intumescência e naquela transparência, inauditos aspectos com escamas. Achatou-se e partiu-se no quebra-mar. A sua forma quase animada dilacerou- se num esguicho. Naquele montão de rochedos e tábuas, foi uma espécie de esmagamento de hidra. A onda morrendo devastava.

Profundo tremor agitou o escolho. Misturava-se a isso um grunhir de animal. A espuma assemelhava-se à saliva de um levita.

A espuma que caía deixava ver uma devastação. O vagalhão fez obra. Dessa vez o quebra-mar sofreu um pouco. Uma longa e pesada viga, arrancada da clarabóia da frente, foi lançada por cima do tapamento de trás, sobre a rocha inclinada, escolhida por Gilliatt para o lugar do combate. Felizmente desta vez não estava ele aí. Ficaria morto.

Houve na queda da viga uma singularidade que, impedindo qualquer movimento da prancha, salvou Gilliatt de qualquer sobressalto perigoso. Foi ainda útil por outro modo, como se vai ver.

Entre a saliência da rocha e o declive interno da garganta, havia um intervalo, um grande hiato semelhante ao encaixe de um machado ou à alvéola de um canto. Uma das extremidades da prancha, atirada ao ar pela vaga, caiu no meio dessa abertura. A abertura alargou-se.

Gilliatt teve uma idéia.

Pesar na outra extremidade.

A prancha, presa por uma ponta na fenda do rochedo que alargara, saía daí como um braço estendido. Essa espécie de braço alargava-se, paralelamente à faixa interna da garganta, e a extremidade livre da prancha afastava-se desse ponto de apoio cerca de 18 ou 20 polegadas. Boa distância para fazer o esforço.

Gilliatt estreitou com os pés, os joelhos e os braços o rochedo e meteu ombros à enorme viga. A viga era comprida, o que aumentava a força do peso. A rocha já estava abalada. Contudo, Gilliatt teve de tentar a coisa quatro vezes. Caía-lhe dos cabelos mais suor do que chuva. O quarto esforço foi frenético. Houve um estalo na rocha, a abertura abriu-se como uma boca e a pesada massa caiu no estreito intervalo com um ruído terrível, réplica aos trovões.

Caiu direita, se esta expressão é possível, isto é, sem quebrar-se.

Imaginai um menir precipitado todo inteiro.

A viga acompanhou o rochedo, e Gilliatt, cedendo ao mesmo tempo, escapou de cair também.

O fundo estava muito atravancado, e tinha pouca água. O monolito, numa agitação de espuma, que foi respingar em Gilliatt, deitou-se entre as duas grandes rochas paralelas da garganta e fez uma parede transversal, espécie de linha de união dos dois rochedos.

Tocavam as duas pontas; era um pouco mais longo, e o cume, que era de rocha macia, ficou esmigalhado. Resultou dessa queda uma espécie de beco sem saída que ainda hoje pode ser visto. A água, por detrás dessa barra de pedra, é quase sempre tranqüila.

Era um baluarte aquele ainda mais invencível que a amurada da Durande ajustada entre as duas Douvres.

Esse tapamento interveio a propósito.

Os vagalhões tinham continuado. A vaga teima sempre contra o obstáculo. A primeira clarabóia começava a desarticular-se. Uma malha de quebra-mar desfeita é uma grande avaria. É inevitável o alargamento do buraco, e nenhum meio pode remediar logo. A vaga carregaria o trabalhador.

Uma descarga elétrica, que iluminou o escolho, descobriu a Gilliatt o estrago que se fazia no quebra-mar, as vigas soltas, as cordas e correntes começando a flutuar ao vento, um rasgão no centro do aparelho. A segunda clarabóia estava intata.

O penedo, tão poderosamente lançado por Gilliatt no intervalo das rochas, por trás do quebra-mar, era a mais sólida barreira, mas tinha um defeito: era demasiado baixo. As vagas não podiam rompe-lo, mas podiam galgá-lo.

Era impossível faze-lo crescer. Só massas da rocha podiam ser utilmente sobrepostas àquele tapamento de pedra; mas como arrancar essas massas, como arrastá-las, como levantá-las, como colocá-las, como fixá-las? Pregam-se tábuas, não se pregam rochedos.

Gilliatt não era Encélado.

A pouca elevação daquele pequeno istmo de granito preocupava Gilliatt.

Breve fez-se sentir o defeito. Os ventos já não deixavam o quebra-mar; já se não encarniçavam, parecia que se aplicavam. Ouvia-se naquela construção abalada uma espécie de escoiceamento regular.

De repente, um pedaço de peça de viga, destacado da deslocação, pulou por cima da segunda clarabóia, voou por cima da rocha transversal, e foi cair na garganta do rochedo, onde a água a levou pelas sinuosidades da viela. É provável que fosse esbarrar na pança. Felizmente, no interior do escolho, a água, fechada por todos os lados, mal se ressentia da agitação exterior. Havia pouco marulho, e o choque não devia ser forte. Gilliatt nem teve tempo de ocupar-se com essa avaria, se avaria houve; todos os perigos se erguiam a um tempo, a tempestade concentrava-se no ponto vulnerável, a iminência estava diante dele.

Profunda foi, por alguns instantes, a escuridão, interrompeu-se o relâmpago, conivência sinistra; a nuvem e a vaga eram a mesma coisa; houve um golpe surdo.

Depois um fracasso.

Gilliatt adiantou a cabeça. A clarabóia que tapava a frente estava deslocada. Viam-se as pontas de vigas saltar na vaga. O mar servia-se do primeiro quebra-mar para atacar o segundo.

Gilliatt sentiu o que sentiria um general vendo voltar a vanguarda.

A segunda tapagem resistiu ao choque. A armadura de trás estava fortemente ligada. Mas a clarabóia despedaçada era pesada, estava à disposição das vagas que a atiravam e tomavam, as ligaduras que lhe restavam impediam-na de partir-se em pedaços e mantinham-lhe todo o volume, e as qualidades que Gilliatt lhe dera como aparelho de defesa faziam agora daquilo uma excelente ferramenta de destruição. De broquel tornara-se maça. Além disso, as fraturas eriçavam-na, saíam-lhe pontas em toda ela, cobriam-na de dentes e esporas.

Nenhuma arma contundente mais temível e própria para ser manejada pela tempestade do que aquela.

Era o projétil, e o mar a catapulta.

Sucediam-se os golpes com uma espécie de regularidade trágica.

Gilliatt, pensativo por trás daquela porta tapada por ele, ouvia esse bater da morte querendo entrar.

Ele refletiu amargamente que, se não fosse o cano da Durande tão fatalmente retido no casco, estaria àquela hora, e desde manhã, em Guernesey, e no porto, com a pança abrigada e a máquina salva.

Realizou-se o tremendo perigo. Fez-se a refração. Foi como uma agonia de moribundo. Todo o madeiramento do quebra-mar, as duas armaduras confundidas e despedaçadas juntas, foi numa tromba-dágua rolar no tapamento de pedra, como um caos numa montanha, e parou. Foi um travamento informe de paus embrenhados, penetrável às vagas, mas pulverizando-as ainda. Aquele baluarte vencido agonizava heróicamente. O mar quebrou-o, ele quebrava o mar. Derrubado, ainda ficava um pouco eficaz. A rocha que servia de tapagem, obstáculo sem recurso possível, retinha-o pelo pé. A garganta, naquele ponto, era muito estreita; a tempestade vitoriosa tinha empurrado, misturado e empilhado todo o quebramar naquele lugar angustioso; a violência da impulsão, misturando a massa, e metendo as fraturas umas nas outras, fez daquela demolição uma coisa sólida. Estava destruído e inabalável. Só algumas peças de pau ficaram destacadas. Dispersou-as a vaga.

Uma passou no ar, perto de Gilliatt. Ele sentiu o ar agitado pela tábua na fronte.

Mas algumas vagas, essas grossas vagas que nos temporais voltam sempre, com uma periodicidade imperturbável, saltavam por cima das ruínas do quebra-mar. Caíam na garganta, e, a despeito dos cotovelos que a viela tinha, chegavam a levantar a água. A onda do estreito começava a agitar-se de um modo feio. Acentuava-se o beijo obscuro das vagas nas rochas.

Como impedir agora que essa agitação se propagasse até a pança? Não precisava muito tempo para que toda a água interior ficasse tempestuosa, e, com algumas ondas, a pança seria estripada, e a máquina iria a pique.

Gilliatt cismava trêmulo.

Mas não se desconcertou. Para aquela alma não havia derrota possível.

O furacão engolfava-se agora freneticamente entre as duas muralhas do estreito.

De súbito, ressoou e prolongou-se a alguma distância por trás de Gilliatt um estalo mais assustador que tudo quanto Gilliatt até então ouvira.

Era do lado da pança.

Passava-se ali alguma coisa funesta.

Gilliatt correu.

Do lado do leste, onde se achava, não podia ele ver a pança por causa dos ziguezagues da viela. Na última volta parou e esperou o relâmpago.

Rompeu o relâmpago e mostrou-lhe a situação.

À vaga da abertura de leste, correspondeu um tufão na abertura de oeste. Esboçava-se um desastre.

A pança não tinha avaria visível; ancorada corno estava, dava pouco flanco, mas o casco da Durande estava em risco de cair.

Aquela ruína, em semelhante tempestade, apresentava uma vítima.

Estava toda fora da água, no ar, oferecida ao temporal. O buraco que Gilliatt praticara para extrair a máquina enfraquecera o casco. O barrote da quilha estava cortado. O esqueleto tinha a coluna vertebral despedaçada.

Soprara em cima o furacão.

Não precisou mais. A amurada dobrou-se como um livro que se abre. Fez-se o desmembramento. Foi esse estalo que, no meio da tempestade, chegara aos ouvidos de Gilliatt.

Dessa abertura fez o vento uma fratura. O corte transversal separava em duas a Durande. A parte posterior, a que ficava em frente de Gilliatt, vizinha da pança, ficara sólida nos rochedos. A parte anterior, que fazia face a Gilliatt, estava pendurada. Uma fratura é um gonzo. Aquela massa oscilava sobre as suas fendas, e o vento balançava-a, com um tremendo rumor.

Felizmente a pança já não estava embaixo.

Mas o balanço abalava a outra metade do casco, ainda presa e imóvel entre as duas Douvres. Do abalo à queda, a distância era pequena. Com a teima do vento, a parte deslocada podia subitamente arrastar a outra que tocava quase na pança, e tudo, pança e máquina, ficaria engolido.

Gilliatt tinha isso diante dos olhos.

Era a catástrofe.

Como desviá-la? Gilliatt era daqueles que tiram recurso do próprio perigo.

Refletiu um momento.

Depois, foi ao depósito e tirou o machado.

O martelo trabalhara muito; era chegada a vez do machado.

Gilliatt subiu à Durande. Firmou-se na parte do navio, que ainda estava segura, e, inclinado sobre o precipício do intervalo das Douvres, pôs-se a cortar as tábuas quebradas e tudo quanto ainda prendia o pedaço de casco pendente.

Consumar a separação dos dois pedaços do casco, libertar a metade sólida, deitar ao mar aquilo que o vento destruíra, dar o quinhão à tempestade, tal era a operação. Era mais perigosa que difícil. A metade pendente do casco, empuxada pelo vento e pelo peso, aderia apenas por alguns pontos. O conjunto do casco assemelhava-se a um díptico, partido em dois pedaços, e batendo ambos um no outro. Cinco ou seis peças, apenas, vergadas e arrebatadas, mas não completamente soltas, ainda sustentavam o casco. As fraturas guinchavam e alargavam-se a cada sopro do vento, e o machado apenas ajudava. Esta circunstância, que tornava fácil o trabalho, tornava-o arriscado também. Tudo podia esboroar ao mesmo tempo debaixo de Gilliatt.

A tempestade atingiu o paroxismo. Até então fora terrível, agora fez-se horrível. A convulsão do mar reproduziu-se no céu. A nuvem até então fora soberana, parecia executar a sua vontade, dava o impulso, derramava às vagas a loucura, conservando sempre uma lucidez sinistra. Embaixo havia demência, em cima cólera.

O céu era o sopro, o oceano era apenas a espuma. Daí vem a autoridade do vento. O furacão e gênio. Entretanto, a embriaguez de seu próprio horror tinha-o perturbado. Agora era o turbilhão.

Era a cegueira produzindo a noite. Há nos temporais um momento insensato; é para o céu uma espécie de sangue que sobe à cabeça.

O abismo já não sabe o que faz. Fulmina às apalpadelas.

Nada mais horrendo. E a hora hedionda. Chegara ao cúmulo o tremor do escolho. A tempestade tem um plano misterioso; mas nesse instante perde-o. É a má hora da tempestade. Nesse instante, o vento, dizia Thomas Fluir, é um doido furioso. É nesse instante que as tempestades fazem essa despesa contínua de eletricidade que Piddington chama a cascata de relâmpagos. É nesse instante que aparece nas nuvens mais negras, não se sabe por que e como que para espiar o terror universal, aquele círculo azul que os velhos marinheiros espanhóis chamavam o olho da tempestade, el ojo de la tempestad Esse olho lúgubre fitava Gilliatt.

Gilliatt, de seu lado, contemplava a nuvem. Levantou a cabeça.

Dava uma machadada e levantava-se altivo. Estava, ou parecia estar demasiado perdido, para que não tivesse orgulho. Desesperava? Não. Ante o supremo acesso de raiva do oceano, Gilliatt era tão prudente quanto audaz. Em cima do casco, só pisava o ponto sólido. Arriscava-se e preservava-se. Também ele, chegara ao paroxismo. Decuplicou-se-lhe o vigor. Estava desvairado de intrepidez.

Os golpes de machado soavam como desafios. Parecia ter ganho o que tinha perdido a tempestade. Conflito patético. De um lado o inesgotável, do outro o infatigável. Estavam a ver qual dos dois venceria. As nuvens terríveis modelavam na imensidade máscaras de górgonas, produzia-se toda a intimidação possível, a chuva surgia das vagas, a espuma tombava das nuvens, curavam-se os fantasmas dos ventos, faces de meteoro avermelhavam-se e eclipsavam-se, e a obscuridade, após tantos desmaios, era mostruosa; havia um só derramamento, vindo por todos os lados ao mesmo tempo; tudo era ebulição; a sombra em massa transbordava; cúmulos carregados de granizo, esfarelados, cor de cinza, pareciam andar num frenesi giratório, havia no ar um rumor de grãos secos, sacudidos numa peneira, as eletricidades inversas observadas por Volta faziam de nuvem em nuvem os fulminantes disparos, os prolongamentos do raio eram terríficos, os relâmpagos aproximavam-se em torno de Gilliatt. O abismo parecia espantado.

Gilliatt andava na Durande fazendo tremer o tombadilho debaixo dos pés, batendo, cortando, rachando, machado em punho, lívido diante dos relâmpagos, esguedelhado, descalço, roto, com a face coberta dos escarros do mar, grande naquela sentina de trovões.

Contra o delírio das forças, só a destreza pode lutar. A destreza era o triunfo de Gilliatt. Ele queria uma queda de todo o destroço deslocado. Por isso enfraqueceu as fraturas sem rompe-las completamente, deixando algumas fibras que sustentavam o resto.

Subitamente, parou com o machado no ar, a operação estava acabada. Todo o pedaço destacou-se. Essa metade do casco rolou entre as duas Douvres abaixo de Gilliatt, que ficou em pé noutra metade, inclinado e olhando; mergulhou-se perpendicularmente, arrombou os rochedos e parou na garganta antes de chegar ao fundo. Ficou uma parte fora da água, tanto quanto era suficiente para dominar a onda mais de 12 pés; foi mais uma barricada entre as duas Douvres; bem como a rocha atirada no estreito, deixava apenas filtrar um pouco de espuma nas suas extremidades, e foi essa a quinta barricada improvisada por Gilliatt, contra a tempestade, naquela rua do mar.

O furacão, cego, trabalhava a última.

Foi uma felicidade que o angustiado das paredes internas impedisse de ir ao fundo aquela tapagem. Dava-lhe mais altura; demais a água podia passar por baixo do obstáculo, o que afetava a força das ondas. Aquilo que passa por baixo não salta por cima. É esse em parte o segredo de quebra-mar flutuante.

Doravante, houvesse o que houvesse, já não havia que recear nem quanto à pança, nem quanto à máquina. A água já não podia agitar-se à roda delas. Entre a tapagem das Douvres que as cobria a oeste e o navio, tapamento que as protegia a leste, nenhuma onda, nenhum vento poderia atingi-las.

Gilliatt tirara da catástrofe a salvação. Ajudara-o a tempestade.

Feito isto, apanhou um punhado de água da chuva, bebeu e disse à nuvem: Cântaro! É uma alegria irônica para a inteligência combatente atestar a vasta estupidez das forças furiosas concluindo por prestar serviços, e Gilliatt sentiu essa imemorial necessidade de insultar o inimigo, que remonta aos heróis de Homero.

Gilliatt desceu à pança e aproveitou os relâmpagos para examiná-la. Era tempo que a pobre barquinha fosse socorrida; tinha sido muito sacudida e começava a arquear. Gilliatt, com aquele olhar sumário, não viu nenhuma avaria. Contudo, era certo que ela devia ter recebido violentos choques. Acalmada a água, endireitou o casco; as âncoras portaram-se bem; quanto à máquina, as quatro correntes mantiveram-na admiravelmente.

Quando Gilliatt acabava a revista, uma coisa branca passou por ele e mergulhou na sombra. Era uma gaivota.

Não há melhor aparição nas tempestades. Quando os pássaros chegam, é que a tempestade vai-se embora.

Outro sinal excelente: o trovão redobrava.

As supremas violências da tempestade desorganizavam-na. Todos os marinheiros o sabem, a última prova é rude mas curta. O excesso do raio anuncia-lhe o fim.

A chuva parou repentinamente. Depois houve apenas um ruído nas nuvens. O temporal cessou como uma prancha que cai no chão.

Quebrou-se por assim dizer. Desfez-se a imensa máquina das nuvens.

Uma fenda de céu claro disjungiu as trevas. Gilliatt ficou espantado; era dia claro.

A tempestade durara quase vinte horas.

O vento que a trouxera levou-a. Um desabamento de escuridão depressa encheu o horizonte. As brumas rotas e fugitivas amontoaram-se em tumulto, houve de uma ponta à outra da linha do horizonte um movimento de retirada, ouviu-se um longo rumor decrescente, caíram algumas gotas últimas de chuva, e toda aquela sombra cheia de trovões foi-se como uma turba de carros terríveis.

Bruscamente, fez-se azul o céu.

Gilliatt reparou que estava cansado. O sono abate-se sobre a fadiga como uma ave de rapina. Gilliatt deixou-se cair na barca sem escolher lugar e dormiu. Ficou assim algumas horas inerte e estendido, pouco distinto das pranchas e barrotes entre os quais adormecera

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