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Os Trabalhadores do Mar

de Victor Hugo e tradução de Machado de Assis

Machado de Assis

Livro Segundo:Mess Lethierry

Capítulo I — Vida agitada e consciência tranqüila

Mess Lethierry, o homem notável de Saint-Sampson, era um marinheiro terrível. Tinha navegado muito. Foi grumete, gajeiro, timoneiro, contramestre, mestre de equipagem, piloto, arrais. Agora era armador. Ninguém conhecia o mar como ele. Era intrépido para salvar gente. Quando havia temporal, Mess Lethierry ia passear à praia, com os olhos no horizonte. Que é aquilo lá ao longe? E alguém que está em perigo. É um barco de Weymouth, ou de Aurigny, ou de Courseulle, é o iate de um lorde, um inglês, um francês, um pobre, um rico, é o diabo, fosse quem fosse, ele saltava dentro da lancha, chamava dois ou três homens valentes, dispensava-os quando não tinha, equipava ele só, desatava a amarra, travava dó remo, fazia-se ao largo, subia e descia nas cavas das ondas, mergulhava no furacão, ia ao perigo. Viam-no assim de longe, no meio das lufadas do vento, de pé sobre a embarcação, gotejante de chuva, confundido com os relâmpagos, face de leão e juba de espuma. Passava assim às vezes um dia inteiro no perigo, e nas vagas à saraiva e ao vento, costeando os navios que soçobravam, salvando homens, salvando cargas, disputando com a tempestade. Voltava à noite para casa, e tecia um par de meias.

Passou esta vida cinqüenta anos, desde os dez até os sessenta, enquanto foi moço. Aos sessenta anos, viu que já não Podia levantar com um braço a bigorna da forja de Varclin; pesava aquela bigorna 300 libras; foi atacado repentinamente de reumatismo.

Teve de deixar o mar. Passou da idade heróica à idade patriarcal.

Já não era mais que um bonachão.

Mess Lethierry alcançou a um tempo o reumatismo e a abastança.

Estes dois produtos do trabalho acompanhavam-se voluntariamente.

Quem chega a ser rico, fica inutilizado. É a coroa da vida.

Diz-se então: vamos gozar agora.

Nas ilhas como Gueresey, a população é composta de homens que passaram a vida a andar à roda do campo, e de homens que passaram a vida a viajar à roda do mundo. São duas espécies de lavradores, uns da terra, outros do mar. Mess Lethierry era dos últimos. Conhecia, porém, a terra. Tinha trabalhado muito. Viajara no continente. Foi algum tempo carpinteiro de navio em Rochefort, depois em Cette.

Falamos nas viagens à roda do mundo; Mess Lethierry viajou a França toda como carpinteiro. Trabalhou nos aparelhos para esgoto das salinas de Franche-Comté. Aquele honrado homem teve uma vida de aventureiro. Na França aprendeu a ler, a pensar, a querer. Fez tudo, e de quanto fez extraiu a probidade. O fundo da sua natureza era o marinheiro. A água lhe pertencia. Os peixes estão em minha casa, dizia ele. Em suma, toda a sua existência, com exceção de dois ou três anos, foi consagrada ao oceano; atirada à água, dizia ele. Navegara nos grandes mares, no Atlântico e no Pacífico; mas preferia a Mancha. Aquele é que é rude, exclamava ele com amor. Nasceu ali, ali queria morrer. Depois de ter feito duas ou três vezes a volta do mundo, e sabendo o que devia escolher, voltou a Guernesey, e não se mexeu dali. As suas viagens, então, eram Granville e Saint-Malo.

Mess Lethierry era guemesiano, isto é, normando, inglês, francês.

Tinha essa pátria quádrupla, imersa e como que afogada na sua grande pátria, o oceano. Durante a sua vida, e em toda parte, conservou os costumes de pescador normando.

Isso, porém, não tolhia que ele abrisse de quando em quando um alfarrábio, gostasse de ler um livro, de saber os nomes dos filósofos e poetas, e taramelar em vasconço um pouquinho de cada língua

Capítulo II — Uma preferência de Mess Lethierry

Gilliatt era um selvagem. Mess Lethierry era outro.

Este, porém, era um selvagem elegante.

Era exigente a respeito de mãos de mulheres.

Ainda moço, quase menino, estando entre marinheiro e grumete, ouviu dizer ao bailio de Suffren: Bonita rapariga, mas que grandes mãos vermelhas que ela tem! Um dito de almirante impõe, em qualquer assunto que seja. Acima de um oráculo está uma senha.

A exclamação do bailio de Suffren fez com que Mess Lethierry se tornasse delicado e exigente acerca de mãos alvas. A dele era uma larga espátula, escura na cor; na agilidade era uma clava, nas carícias uma torques; quebrava um seixo com um soco.

Não era casado. Não quis ou não encontrou mulher. Naturalmente, o marinheiro queria mãos de duquesa. Não se encontram mãos dessas nas pescadoras de Port-Bail.

Conta-se entretanto que em Rochefort (Charente) achou ele um dia uma grisette que realizava o seu ideal Linda moça e lindas mãos. Detraía e arranhava. Afrontá-la era perigoso. As suas unhas, extremamente asseadas, tornavam-se garras destemidas, quando era necessário. Tão belas unhas encantaram Mess Lethierry; mas depois, receando que viesse a perder a autoridade sobre a amante, resolveu não levar aquele namorico à presença do senhor matre.

De outra feita, em Aurigny, gostou de uma rapariga. Já cuidava dos esponsais, quando um residente do lugar lhe disse: Dou-lhe os meus parabéns. Leva uma boa esterqueira. Lethierry pediu explicações deste elogio. Em Aurigny há uma moda. Apanha-se esterco de vaca e deita-se às paredes. Depois de seco, cai o esterco e serve para aquecer a gente. Ninguém casa com uma rapariga, senão quando é boa esterqueira. Esta habilidade afugentou Mess Lethierry.

Demais, em assunto de amor ou namoro, tinha ele uma boa filosofia rústica, uma ciência de marinheiro: apanhado sempre, encadeado nunca. Lethierry gabava-se de ter-se deixado vencer sempre pela vasquinha, no tempo da sua mocidade. O que hoje se chama crinolina chamava-se, então, vasquinha. Significa mais e menos que unia mulher.

Os rudes marinheiros do arquipélago normando são inteligentes.

Quase todos sabem ler. Vêem-se, aos domingos, rapazitos de oito anos, assentados em um grande novelo de cabos, com um livro na mão. Os marinheiros normandos foram sempre sardonicos, e sabem dizer coisas chistosas. Foi um deles, o atrevido piloto Queripel, quem atirou a Montgomery, refugiado em Jersey depois da funesta lançada contra Henrique II, esta apóstrofe: Cabeça doida feriu a cabeça vazia. Outro marinheiro, por nome Touzeau, arrais em Saint-Brelade, fez o trocadilho filosófico atribuído ao Bispo Camus: Aprés Ia mort les papes deviennent papillons et les sires deviennent cirons (Depois da morte tornam-se os papas borboletas, e os reis.

Capítulo III — A velha língua do mar

Os marinheiros das Channel-Islands são puros gauleses. Estas ilhas, que se vão fazendo inglesas, conservaram-se muito tempo autóctones.

O camponês de Serk fala a língua de Luís XIV.

- Há quarenta anos, achava-se ainda na boca dos marinheiros de Jersey e de Aurigny o idioma marítimo clássico. Fazia crer que estávamos em plena marinha do século XVII. Um arqueólogo especialista poderia ir estudar ali a antiga linguagem de manobra e de batalha esbravejada por Jean Bart naquele porta-voz que aterrava o Almirante Hidde.

O vocabulário marítimo dos nossos pais, quase inteiramente renovado hoje, era ainda usado em Gueresey, em 1820. O navio que suporta o vento era bom boulinier (bom de bolina); dizia-se do navio que se afeiçoa ao vento, por si mesmo, apesar das velas de proa e do leme, vaisseau ardent (navio que se aguça); entrar em movimento era prendre aire (tomar o vento); pôr-se à capa era capeyer (capear); apanhar o vento por cima era faire chapelle (tocar em vento); agüentar bem sôbre a amarra era faire teste; estar em confusão a bordo era être en pantenne; ter o vento nas velas era porter-plain (levar em cheio).

Hoje nada disto se diz. Diz-se hoje louvoyer (bolinar); dizia-se leauvoyer, diz-se naviguer (navegar), dizia-se nager; diz-se virer vent devant (virar por davante), dizia-se vidonner vent devant; diz-se aller de ávant (seguir avante), dizia-se tailler de l'avant, diz-se tirer d áccord (alar à uma), dizia-se haller d áccord, diz-se déraper (arrancar o ferro), dizia-se déplanter; diz-se embraquer (tesar), dizia-se abraquer, diz-se taquets (cunhas), dizia-se billons; diz-se burins (passadores), dizia-se tappes; diz-se balancines (amantilhos), dizia-se valancines; diz-se tribord (estibordo), dizia-se stribord, diz-se les hommes de quart à bâbord (homens de quarto a bombordo), dizia-se les basbourdis.

Tourville escrevia a Hocquincourt: Nous avons single (singramos).

Em vez de Ia-rafale (a lufada), le raffal; em vez de bossoir (turcos), boussoir; em vez de drosse (bossa), drousse; em vez de loffer (arribar), faire une olofée; em vez de elonger (alongar), alonger, em vez deforte brise (vento fresco), survent, em vez de sout (paiol),fosse; em vez de jouail (cepo de âncora), jas; tal era, no começo deste século, a língua de bordo nas ilhas da Mancha.

Ouvindo falar um marinheiro de Jersey, Ango ficaria abalado. Em quanto no resto do mundo as velas faseyaint (panejavam), barbeyaient nas ilhas da Mancha. Saute-de-vent (cambar o vento) era folle-vente. Só ali se empregavam os dois modos góticos de amarração, a valturre e a portuguesa. Só ali se davam ordens destas: Tour-et-choque! - Bosse et Bitte! - Já um marinheiro de Granville dizia le clan (o gorne); e ainda o marinheiro de Saint-Aubin ou de Saint-Sampson dizia lè canal de pouliot. O que era bout-dálonge (postura) em Saint-Malo, era em Saint-Hélier oreille d'âne. Mess Lethierry, como o duque de Vivonne, chamava o tosado de convés la tonture.

Foi com este idioma extravagante que Duquesne bateu Ruyter, que Duguay Trouin bateu Wasnaer, e Tourville em 1681 atravessou em pleno dia a primeira galera que bombardeou Argel. Hoje é língua morta. A gíria do mar é outra. Duperré não poderia entender Suffren.

Não menos se transformou a língua dos sinais; e há grande distância entre as flâmulas encarnada, branca, azul e amarela de Labourquedonnaye e os dezoito pavilhões de hoje, arvorados dois a dois, três a três e quatro a quatro, dão para as necessidades da combinação distante, 70 000 combinações, suprem tudo, e, por assim dizer, prevêem o imprevisto.

Capítulo IV — Vulnerabilidade por amor

Mess Lethierry tinha o coração nas mãos; mãos largas e coração grande. O defeito dele era a admirável qualidade da confiança.

Tinha uma maneira especial de contrair uma obrigação; era solene: Dou a minha palavra de honra a Deus. Dito isto, cumpria a promessa. Acreditava em Deus, e nada mais. Ia poucas vezes à igreja, e isso mesmo, por cortesia. No mar, era supersticioso.

Nunca houve, porém, tempestade que o fizesse recuar; é que ele era pouco acessível à contradição. Não a tolerava, nem num homem, nem no oceano. Queria ser obedecido; tanto pior para o mar se resistia; tinha de lutar com ele. Mess Lethierry não cedia nunca.

Vaga que se empinasse, vizinho que contendesse, nada lhe detinha a mão. O que dizia estava dito, o que planeava estava feito. Não se curvava, nem diante de uma objeção, nem diante de uma tempestade. Não, para ele, era palavra que não existia, nem na boca de um homem, nem no ribombo de uma nuvem. Passava adiante. Não consentia que se lhe recusasse nada. Daí vinha a sua pertinácia na vida e a sua intrepidez no oceano.

Era ele próprio quem temperava a sua sopa de peixe; sabia que porção de sal, pimenta e ervas era preciso, e gostava tanto de fazê-la como de come-la.

Criatura que um riso transfigura, e um casaco embrutece, assemelhando-se, com os cabelos soltos, a Jean Bart, e, com o chap éu redondo, a Jocrisse, acanhado na cidade, estranho e temível no mar, espádua de carregador, sem imprecações, quase sem cólera, voz doce e meiga que o porta-voz transforma em trovão, campônio que leu a Enciclopédia, guernesiano que viu a revolução, ignorante instruído, ermo de carolice, dado às visões, mais fé na Dama Branca que na Santa Virgem, lógica de ventoinha, vontade de Cristóvão Colombo, um tanto de touro e um tanto de criança, nariz quase rombo, faces grossas, boca com todos os dentes, rosto enrugado, cara que parece ter sido feita pelo mar, beijada pelos ventos durante quarenta anos, ar de tempestade na fronte, carnação de rocha em pleno mar; põe agora um olhar bom neste rosto agreste, e terás Mess Lethierry.

Mess Lethierry tinha dois amores: Durande e Déruchette.

Livro Terceiro:Durande e Déruchette

Capítulo I— Garrulice e Eflúvios

O corpo humano é talvez uma simples aparência, escondendo a nossa realidade, e condensando-se sobre a nossa luz ou sobre a nossa sombra. A realidade é a alma. A bem dizer, o rosto é uma máscara. O verdadeiro homem é o que está debaixo do homem.

Mais de uma surpresa haveria se pudesse vê-lo agachado e escondido debaixo da ilusão que se chama carne. O erro comum é ver no ente exterior um ente real. Tal criaturinha, por exemplo, se pudéssemos vê-la como realmente é, em vez de moça, mostrar-se-ia pássaro.

Pássaro com forma de moça, que há aí de mais delicado? Imagina que a tens em casa. Supõe que é Déruchette. Deliciosa criatura! Dá vontade de dizer: Bom dia, mademoiselle alvéloa. Não se lhe vêem as asas, mas ouve-se-lhe o gorjeio. Canta às vezes. Na tagarelice está abaixo do homem; no canto, está acima dele. Tem mistérios aquele canto; uma virgem é o invólucro de um anjo.

Feita a mulher, desaparece o anjo; volta, porém, depois trazendo uma alma de criança à mãe. Esperando a vida, aquela que há de ser mãe algum dia, conserva-se muito tempo criança, a menina persiste na moça; é uma calhandra. Pensa-se, ao vê-la: que boa que ela é em não bater as asas para ir-se embora!

A meiga e familiar criatura acomoda-se em casa, de ramo em ramo, isto é, de quarto em quarto, entra, sai, acerca-se, afasta-se, alisa as penas, ou penteia os cabelos, faz toda espécie de rumores delicados, murmura um não sei que de inefável aos teus ouvidos. Quando ela interroga, responde-se-lhe; interrogada, gorjeia.

Tagarela-se com ela. A tagarelice serve para descansar de falar. Há uma porção celeste nessa menina. É um pensamento azul misturado ao teu pensamento negro. Alegras-te por vê-la tão esquiva, tão ligeira, tão fugitiva; agradeces-lhe a bondade de não ser invisível, ela, que poderia, creio eu, ser impalpável. Neste mundo o lindo é o necessário. Há mui poucas funções tão importantes como esta de ser encantadora. Que desespero na floresta se não houvesse o colibri! Exalar alegrias, irradiar venturas, possuir no meio das coisas sombrias uma transmudação de luz, ser o dourado do destino, a harmonia, a gentileza, a graça, é favorecer-te. A beleza basta ser bela para fazer bem. Há criatura que tem consigo a magia de fascinar tudo quanto a rodeia; às vezes nem ela mesmo o sabe, e é quando o prestígio é mais poderoso; a sua presença ilumina, o seu contato aquece; se ela passa, ficas contente; se papa, és feliz; contemplá-la é viver; é a aurora com figura humana; não faz nada, nada que não seja estar presente, e é quanto basta para edenizar o lar doméstico; de todos os poros sai-lhe um paraíso; é um êxtase que ela distribui aos outros, sem mais trabalho que o de respirar ao pé deles. Ter um sorriso que -ninguém sabe a razão — diminui o peso da cadeia enorme arrastada em comum por todos os viventes, que queres que te diga? é divino. Déruchette tinha esse sorriso. Mais ainda, era o próprio sorriso. Há alguma coisa mais parecida que o nosso rosto, é a nossa fisionomia; e outra mais parecida que a nossa fisionomia, é o nosso sorriso. Déruchette, risonha, era Déruchette.

É particularmente sedutor o sangue de Jersey e de Guernesey. As mulheres, as raparigas, sobretudo, tem uma beleza florida e cândida.

É a combinação da alvura saxonia com a frescura normanda.

Faces rosadas e olhos azuis. Falta-lhes brilho nos olhos. A educação inglesa amortece-os. Serão irresistíveis aqueles olhos límpidos no dia em que tiverem a profundeza do olhar parisiense. A parisiense ainda não se fez inglesa, felizmente. Déruchette não era parisiense, mas também não era guernesiana. Nascera em Saint-Pierre-Port, mas Mess Lethierry foi quem a educou. Educou-a para ser mimosa, a menina o era.

Déruchette tinha o olhar indolente e agressivo, sem que o soubesse.

Não conhecia talvez o sentido da palavra amor e fazia com que a gente se apaixonasse por ela. Mas era sem má intenção.

Déruchette nem pensava em casamento. O velho fidalgo emigrado que fora residir em Sait-Sampson dizia: Esta rapariga seduz a matar.

Déruchette tinha as mais lindas mãozinhas deste mundo, e pés iguais às mãos, quatro pezinhos de mosca, dizia Mess Lethierry.

Tinha em si a bondade e a doçura; o tio Lethierry era toda a sua família e riqueza; o trabalho dela era deixar-se viver; tinha por talento algumas canções, por ciência a beleza, por espírito a inocência, por coração a ignorância; tinha a graciosa indolência crioula, mesclada de travessura e de viveza, a jovialidade traquinas da infância com um pendor à melancolia, vestuários um pouco insulares, elegantes, mas incorretos, chapéus de flores todo o ano, fronte ingênua, pescoço flexível e tentador, cabelos castanhos, pele branca com alguns toques arruivados no verão, boca grande e sã, e nessa boca o adorável e perigoso esplendor do sorriso. Eis o que era Déruchette.

Algumas vezes, à noite, após o por do sol, no momento em que a noite se mistura com o mar, à hora em que o crepúsculo dá uma espécie de terror às vagas, via-se entrar na barra de Saint-Sampson, ao tumulto sinistro das ondas, uma certa massa informe, uma coisa monstruosa que silvava e cuspia, que roncava como uma besta e fumegava como um vulcão, uma espécie de hidra babando espuma e arrastando um nevoeiro, atilando-se sobre a cidade com um horrível movimento de barbatanas e uma goela donde as chamas irrompiam. Era Durande.

Capítulo II— A eterna história da utopia

Era uma prodigiosa novidade o aparecimento de um navio a vapor nas águas da Mancha em 1822 ... Toda a costa normanda esteve por muito tempo assombrada. Hoje dez ou doze vapores cruzam-se em sentido inverso no horizonte do mar, sem atrair os olhos de ninguém. Quando muito, algum observador especialista distingue, pela cor da fumaça, se o carvão que consome o navio é de Gales ou de Newcastle. Passam; é quanto basta. Se partem: Boa viagem!; se chegam: Welcome!

Não era tão grande a calma a respeito de tais invenções no primeiro quarto do nosso século, e estas máquinas fumegantes eram particularmente suspeitas entre os insulares da Mancha. Neste arquipélago puritano onde a rainha da Inglaterra foi censurada por violar a Bíblia narcotizando-se para dar à luz, o navio a vapor teve como primeiro cumprimento o ser batizado com este nome: Devil Boat — Navio-Diabo.

A esses bons pescadores de então, outrora católicos, agora calvinistas, e sempre beatos, pareceu-lhes aquilo o inferno flutuante.

Um pregador da terra tratou da questão: Temos nós o direito de fazer trabalhar juntos o fogo e a água que Deus separou? Aquele animal de ferro e fogo não era a imagem de Leviatã?

Não era isso refazer o homem, a seu modo, o primitivo caos? Não é a primeira vez que acontece qualificar a ascensão do progresso de retrogradação ao caos.

Idéia louca, erro grosseiro, absurdo: tal foi o veredicto da Academia das Ciências consultada por Napoleão no começo deste século, acerca do vapor. Os pescadores de Saint-Sampson tem desculpa, em matéria científica, ao nível dos geômetras de Paris; e, em matéria religiosa, uma pequena ilha como Guernesey não tem obrigação de ser mais ilustrada que um grande continente como a América. Em 1807, quando o primeiro navio de Fulton, patrocinado por Livingston, provido da máquina de Watt mandada da Inglaterra, e tripulado, além da equipagem, por dois francêses, somente, André Michaux e outro, fez a sua primeira viagem de Nova York a Albany, deu-se o caso de acontecer isso no dia 17 de agosto. Esta coincidência deu origem a que o metodismo tomasse a palavra, e em todas as capelas os pregadores amaldiçoaram a máquina, declarando que o número dezessete era o total das dez antenas e das sete cabeças da besta do Apocalipse. Na América invocava-se contra o vapor a besta do Apocalipse; na Europa a besta do Gênesis. Nisto consistia toda a diferença.

Os sábios haviam rejeitado o vapor como impossível; os padres, a seu turno, rejeitavam-no como ímpio. Fulton era uma variante de Lúcifer. Os habitantes simplórios das costas e dos campos aderiam à reprovação pelo incomodo que lhes causava a novidade. Na presença do vapor, o ponto de vista religioso era este: a água e o fogo são um divórcio. Este divórcio é ordenado por Deus. Não se deve desunir o que Deus uniu, nem unir o que ele desuniu. O ponto de vista do camponês era: isto mete-me medo.

Para cometer, naquela época remota, a empresa de uma navegação a vapor entre Guernesey e Saint-Malo, nada menos era preciso que um homem como Mess Lethierry. Só ele podia concebe-la na qualidade de livre pensador, e realizá-la na qualidade de marinheiro atrevido. O seu eu francês concebeu a idéia; o seu eu inglês executou-a.

Em que ocasião? Digamo-lo.

Capítulo III— Rantaine

Quarenta anos antes da época em que se passam os fatos que narramos, havia em um arrabalde de Paris, entre a Fosse-aux- Loups e a Tombe Issoire, um albergue suspeito. Era uma casinha isolada e baixa. Morava ai, com a mulher e o filho, uma espécie de burguês bandido, antigo escrevente de tabelião no Châtelet, e ao depois ladrão descarado. Já havia figurado no tribunal criminal. O apelido da família era Rantaine. No referido pardieiro, em cima de uma cômoda de mogno, viam-se duas xícaras de porcelana pintada: em uma delas lia-se em letras douradas o seguinte dístico: Lembrança de Amizade na outra: Sinal de Estima A criança vivia ali na lama de parceria com o crime. Como o pai e a mãe pertenciam à burguesia mediana, o menino aprendia a ler: educavam-no. A mãe, pálida, quase esfarrapada, dava maquinalmente educação a seu filho: ensinava-o a soletrar; e interrompia o trabalho, ora para ajudar o marido em alguma emboscada, ora para entregar-se ao primeiro viandante. Durante esse tempo a Cruz de Jesus, aberta no lugar em que a deixavam, ficava sobre a mesa, e ao pé do livro o menino pensativo.

O pai e a mãe, presos em algum flagrante delito, desapareceram na noite penal. A criança desapareceu também. Lethierry, em suas excursões, encontrou um aventureiro como ele, livrou-o, não se sabe de que aperto, prestou-lhe serviços, afeiçoou-se-lhe, chamou-o a si, levou-o para Guernesey, achou-o inteligente para a navegação costeira, e deu-lhe sociedade. Era o pequeno Rantaine feito homem.

Rantaine, como Lethierry, tinha uma cabeça robusta, espáduas largas e possantes e quadris de Hércules Farnese. Lethierry e ele tinham o mesmo ar e a mesma aparência; Rantaine era mais alto.

Quem os via, pelas costas, passear ao lado um do outro, dizia: lá estão os dois irmãos. De frente, o caso era diverso. Havia tanto de franco em Lethierry, como de reservado em Rantaine. Rantaine era circunspecto. Rantaine era esgrimista, tocava harmônica, espevitava uma vela com uma bala a vinte passos. dava um soco magnífico, recitava versos da Hemíada, e adivinhava sonhos. Sabia de cor os Êmulos de São Denis, por Treneuil; dizia ter tido amizade com o sultão de Calicut a quem os portugueses chamam Camorim. Se pudesse folhear a carteira de lembranças que andava sempre no bolso dele, ter-se-iam encontrado, entre outras notas, algumas do gênero desta: Em Lião, numa das frestas da parede do calabouço de São José, há uma lima escondida. Falava com uma lentidão discreta. Dizia-se filho de um cavalheiro de São Luís.

A sua roupa era toda misturada e marcada com iniciais diferentes.

Ninguém mais suscetível em coisas de honra. Batia-se e matava.

A força servindo de invólucro à astúcia, tal era Rantaine.

A beleza de um soco aplicado por ele numa feira, sobre uma cabeça de moro, conquistara-lhe outrora a simpatia de Lethierry.

Suas aventuras eram completamente ignoradas em Guernesey. Variavam muito. Se os destinos tem um traje, o destino de Rantaine vestia a moda de arlequim. Tinha visto o mundo: tinha trabalhado muito. Era um circunavegador. Teve inumeráveis ofícios. Foi cozinheiro em Madagascar, criador de pássaros em Sumatra, general em Honolulu, jornalista religioso nas ilhas de Galápagos, poeta em Oomrawuttee e pedreiro-livre no Haiti. Neste último emprego pronunciara no Grande Goave uma oração fúnebre de que os jornais locais conservaram este fragmento: Adeus, pois, bela alma! na abóbada azulada dos céus onde agora desferes o vôo, encontrar ás sem dúvida o bom Padre Leandro Crameau do Pequeno Goave.

Dize-lhe que, graças a dez anos de esforços gloriosos, terminasse a Igreja de Anse-à-Veau. Adeus! gênio transcendente, modelo! A máscara de pedreiro-livre não lhe impedia, como se vê, trazer o nariz católico. A primeira conciliava-o com os homens do progresso; o segundo com os homens da ordem. Apregoava-se branco de raça pura, odiava os negros: apesar disso teria admirado a Soluque.

Em Bordeaux, em 1815, foi ele verdete. Naquela época a fumaça de seu realismo saía-lhe pela cabeça fora, na forma de um imenso penacho branco. Passava a vida a fazer eclipses, aparecendo, desaparecendo e tornando a aparecer. Era um velhaco a girar como uma rodinha de fogo. Sabia o turco: em vez de guilhotinado, dizia neboissé. Fora escravo em Trípoli, na casa de um thaleb, e aí aprendera o turco à força de bengaladas; tinha por obrigação ir à noite à porta das mesquitas ler em alta voz diante dos fiéis o Alcorão, escrito em pranchas de madeira ou em omoplatas de camelo. Provavelmente era renegado.

Era capaz de tudo e mais alguma coisa.

Ria a gargalhadas e enrugava as sobrancelhas, a um tempo. Dizia: Em política, só estimo as pessoas inacessíveis às influências.

Dizia: Sou pelos costumes. Dizia: É preciso repor a pirâmide na base. Era mais alegre e cordial que outra coisa. A forma da boca desmentia-lhe o sentido das palavras. As suas narinas eram antes ventas de animal. Tinha no canto dos olhos uma encruzilhada de rugas onde toda a sorte de pensamentos obscuros davam entrevista.

Aí é que se podia decifrar o segredo da fisionomia dele.

Assemelhavam-se as tais rugas a uma garra de abutre. O crânio era chato em cima e largo nas têmporas. A orelha disforme e embrenhada de cabelos parecia dizer: Não fales ao animal que está aqui neste antro.

Rantaine desapareceu um dia de Guernesey.

O sócio de Lethierry raspou-se, deixando vazia a caixa da sociedade.

Havia dinheiro dele na caixa, é certo; mas havia também 50 000 francos de Lethierry.

Lethierry ganhara uns 100 000 francos em quarenta anos de indústria e de probidade, no seu oficio de navegador costeiro e carpinteiro de navio; Rantaine levou-lhe metade.

Lethierry, meio arruinado, não cedeu, e tratou imediatamente de levantar-se. Aos homens de boa têmpera arruina-se a fortuna, não a coragem. Começava-se então a falar do vapor. Lethierry teve a idéia de tentar a máquina de Fulton, tão contestada, e ligar por meio de um vapor o arquipélago normando à França. Jogou tudo nessa idéia. Aplicou-lhe os restos da fortuna. Seis meses depois da fuga de Rantaine a gente de Saint-Sampson viu estupefata sair daquele porto um navio deitando fumo, e produzindo o efeito de um incêndio no mar: foi o primeiro vapor que sulcou as águas da Mancha.

Aquele navio, alcunhado Galeota de Lethierry, pelo desdém e ódio de todos, foi anunciado para fazer a carreira de Guernesey a Saint-Malo

Capítulo IV— Continuação da história da utopia

Compreende-se que a coisa fosse muito mal recebida. Todos os proprietários de navios ide carreira entre a ilha guernesiana e a costa francesa clamaram imediatamente. Denunciaram aquele atentado feito às Santas Escrituras e ao monopólio. Alguns templos fulminaram. Um reverendo, por nome Elihu, chamou ao vapor uma libertinagem. O barco a vela foi declarado ortodoxo. Viu-se distintamente que eram pontas do diabo as pontas dos bois que o vapor trazia e desembarcava. Durou o protesto um bom par de dias. Mas a pouco e pouco foram vendo que os tais bois chegavam menos estafados, e vendiam-se melhor, por ser a carne mais tenra;, que também para os homens eram menores os riscos do mar; que a passagem, menos dispendiosa, era segura e mais curta; que eram fixas as horas da saída e da chegada; que o peixe, viajando mais depressa, chegava mais fresco, e que se podia levar aos mercados franceses as sobras das grandes pescas, tão freqüentes em Guernesey; que a manteiga das admiráveis vacas de Guernesey fazia mais rapidamente o trajeto no Devil Boat que nas chalupas à vela, e não perdia na qualidade, de maneira que afluíam as encomendas de Dinan, de Saint-Brieuc e de Rennes; finalmente que, graças ao que se chamava Galeota de Lethierry, havia segurança de viagem, regularidade de comunicação, tráfego fácil e pronto, aumento de circulação, multiplicação de mercados, extensão de comércio; em suma, que era preciso aproveitar o Devil-Boat que violava a Bíblia e enriquecia a ilha. Alguns espíritos fortes arriscaram- se a aprovar o vapor com certa precaução. O Sr. Landoys, o escrevente, votou ao navio a sua estima. Era imparcialidade, porque ele não gostava de Lethierry: primeiro, porque Lethierry era Mess, e Landoys era apenas senhor; depois porque, embora escrevente em Saint-Pierre-Port, Landoys era paroquiano de Saint-Sampson; ora, na paróquia, só havia dois homens sem preconceitos, Lethierry e Landoys; o menos que podia acontecer era que um detestasse o outro. A bordo do mesmo navio distanciam-se duas criaturas.

Contudo, o Sr. Landoys teve o cavalheirismo de aprovar o vapor.

Outras pessoas o imitaram. Insensivelmente, o fato foi subindo; os fatos são como as marés; e, com o tempo, com o sucesso continuado e crescente, com a evidência do serviço prestado, o aumento da comodidade pública, lá veio um dia em que, à exceção de alguns homens de juízo, toda a gente admirou a Galeota de Lethierry.

Hoje seria menos admirada. Aquele vapor de há quarenta anos faria sorrir os nossos atuais construtores. Era uma maravilha disforme, um prodígio raquítico.

Entre os nossos grandes paquetes transatlânticos de hoje e o navio de rodas e fogo que Dionísio Papin fez manobrar na Fulde em 1707, não há menor distância que entre a nau Montebello, de 200 pés de comprimento, 50 de largura, com lima verga de 115 pés, arqueando 2 000 toneladas, levando 1 100 homens, 120 peças, 10 000 balas e 160 volumes de metralha, deitando 3 300 litros de ferro por banda e desenrolando ao vento em viagem 5 600 metros de lona, e o dromon dinamarquês do II século, que se achou cheio de pedras, arcos e clavas, nos atoleiros de Wester-Satrup, e depositado na municipalidade de Flensburgo.

Cem anos justos, 1707-1807, separam o primeiro barco de Papin do primeiro navio de Fulton. A Galeota de Lethierry era decerto um progresso sobre aqueles dois esboços, mas era esboço também.

Nem por isso deixava de ser uma obra-prima. Todo embrião de ciência tem este duplo aspecto: monstro, como feto; maravilha, como germe.

Capítulo V— O navio-diabo

A Galeota de Lethierry não era mastreada no ponto vélico, e não era isso defeito, porque é uma das leis da construção naval; demais, sendo o fogo o propulsor do navio, o velame era simplesmente acessório; um navio de rodas é quase insensível ao velame que se lhe põe. A Galeota era demasiado curta e arredondada; grande bochecha e largos quadris; Lethierry não teve a ousadia de fazê-la mais ligeira. A Galeota tinha alguns dos inconvenientes e das qualidades da pança: arfava pouco, mas rangia muito. A caixa das rodas era muito alta. A viga da coberta era maior do que comportava o comprimento. A máquina, que era massuda, atravancava o navio, e, para torná-lo capaz de um grande carregamento, foi preciso levantar muito a amurada, o que deu à Galeota, mais ou menos, o defeito das naus de 74, que só arrasando-as podem navegar e combater.

Sendo curta, devia girar depressa, visto que o tempo empregado em uma evolução está na razão do comprimento do navio; mas o peso tirava-lhe a vantagem que lhe provinha de ser curta. O pontal era muito largo, o que lhe atrasava a marcha, porque a resistência da água é proporcional à maior seção imergida e à velocidade do navio. A proa era vertical, o que não seria defeito hoje, mas naquele tempo era uso incliná-la uns 45 graus. Todas as curvas do casco estavam bem emparelhadas, mas não eram suficientemente longas para a obliqüidade e paralelismo com o lume da água, que deve ser rechaçada lateralmente. No mau tempo, calava muita água, ora na proa, ora na popa, o que mostrava ter vício de construção no centro de gravidade. Não estando o carregamento no lugar próprio, por causa do peso da máquina, acontecia que o centro de gravidade passava às vezes para trás do mastro grande, e então era preciso contar só com o vapor, e desconfiar da vela grande, porque o efeito da vela grande nesses casos fazia antes arribar que sustentar o vento. O recurso era, ao aproximar-se do vento, soltar a grande escota; deste modo o vento fixava-se na proa, pela amurada, e a vela grande fazia o efeito de uma vela de popa. A manobra era difícil. O leme era o leme antigo, não de roda como hoje, mas de cana, voltando sobre os eixos firmados no cadaste, e movido por uma trave horizontal que passava por cima da cava da culatra.

Tinha duas faluas suspensas. O navio era de quatro âncoras, a âncora grande, a segunda âncora, que é a que trabalha, workinganchor, e duas âncoras de amarra. Essas quatro âncoras, atadas por correntes, eram manobradas, segundo as ocasiões, pelo grande cabrestante da popa e o pequeno cabrestante da proa. Tendo apenas duas âncoras de amarra, uma a estibordo, outra a bombordo, o navio não podia ancorar em cruz, o que o desarmava quando sopravam certos ventos. Mas neste caso podia usar da segunda âncora. As bóias eram normais, e construídas de maneira a suportar um cabo da âncora, ficando sempre à flor da água. A chalupa tinha as dimensões úteis. A novidade do navio é que era, em parte, aparelhado com correntes; o que não lhe diminuía a mobilidade nem a tensão das manobras.

A mastreação, posto que secundária, não era incorreta; era fácil o manejo dos ovéns. As peças de madeira eram sólidas, mas grosseiras, pois que o vapor não exige madeiras tão delicadas como exigem as velas. Tinha aquele navio uma velocidade de 2 léguas por hora. Quando panejava, afeiçoava-se bem ao vento. A Galeota de Lethierry suportava bem o mar, mas não tinha boa quilha para dividir o líquido, nem se podia dizer que fosse airosa. Via-se que, em ocasião de perigo, cachopo ou tromba, não poderia ser bem manobrada. Tinha o ranger de uma coisa informe. Fazia na água o ruído que fazem as solas novas.

Era navio de comércio e não de guerra, e por isso mais exclusivamente disposto para a arrumação das cargas. Admitia poucos passageiros.

O transporte do gado tornava difícil e especial a arrumação das cargas. Punham-se os bois no porão, o que complicava muito. Hoje os bois ficam no convés. As caixas das rodas do Devil Boat Lethierry eram pintadas de branco, o casco até o lume da água de vermelho, e o resto de preto, segundo o uso assaz feio deste século.

Vazio, calava 7 pés; carregado, 14.

Quanto à máquina, era poderosa. Tinha a força de um cavalo por 3 toneladas, o que é quase a força de um rebocador. As rodas estavam bem colocadas, um pouco adiante do centro de gravidade do navio. A máquina tinha a pressão máxima de 2 atmosferas. Gastava muito carvão. O ponto de apoio era instável, mas remediava-se, como ainda hoje se faz, por meio de um duplo aparelho alternado de duas manivelas fixas nas extremidades da árvore de rotação, e dispostas de maneira que uma estivesse no ponto forte quando a outra estava no ponto inerte. Toda a máquina repousava em uma só placa fundida; de modo que, mesmo em caso de grande avaria, nenhum lanço do mar lhe tirava o equilíbrio, e o casco disforme não podia deslocar a máquina. Para torná-la ainda mais sólida, puseram a redouça principal perto do cilindro, o que transportava do meio à extremidade o centro de oscilação do pêndulo. Inventaram-se depois os cilindros oscilantes que suprimem a redouça antiga; mas naquele tempo parecia que o sistema usado era a última palavra da mecânica.

A caldeira era dividida, e tinha a bomba competente. As rodas eram grandes, o que diminuía a perda de força, e o cano alto, o que aumentava a extração da fornalha; mas o tamanho das rodas dava aso às vagas, e a altura do cano dava aso ao vento. Raios de pau, fateixas de ferro, cubos de metal; eis o que eram as rodas bem construídas (o que admira) podendo ser desmontadas. Havia sempre três rodízios mergulhados; a velocidade do centro da roda não passava de um sexto da velocidade do navio; era esse o defeito. Além disso, a trave da manivela era muito comprida, e o vapor era distribuído no cilindro com demasiado atrito. Naquele tempo a máquina parecia e era admirável.

Foi ela feita na França, nas forjas de Bercy. Mess Lethierry delineou-a; o maquinista que a construiu morreu; de modo que aquela máquina era única e impossível de ser substituída. Existia o desenhista, mas faltava o construtor.

Custou a máquina 40 000 francos.

Lethierry construiu a Galeota na grande estiva coberta que rica ao lado da primeira torre entre Saint-Pierre-Port e Saint-Sampson.

Empregou nessa construção tudo o que sabia em carpintaria do mar, e mostrou os seus talentos na construção do costado, cujas costuras eram estreitas e iguais, untadas de sarangousti, betume da índia, melhor que alcatrão. O forro estava bem pregado. Para remediar a rotundidade do casco, ajustou ele um botalós ao gurupés, o que lhe permitia acrescentar à cevadeira uma cevadeira falsa.

No dia do lançamento ao mar, disse Lethierry: Estou na água! E realmente a Galeota foi bem sucedida.

Por acaso ou de propósito, a Galeota caiu ao mar no dia 14 de julho. Nesse dia Lethierry, de pé sobre o convés, entre as duas caixas das rodas, olhou fixamente para o mar e exclamou: Agora tu! Os parisienses tomaram a Bastilha; agora tomamo-te nós!

A Galeota de Lethierry fazia, uma vez por semana, a viagem de Guernesey a Saint-Malo. Partia na quinta-feira e voltava na sexta à tarde, véspera do mercado, que era no sábado. Era uma massa de madeira mais volumosa que as maiores chalupas costeiras do arquipélago, e, sendo a sua capacidade na razão das dimensões, uma só das suas viagens valia por quatro viagens de um cúter ordinário. Tirava por isso grandes lucros. A reputação de um navio depende da sua arrumação de cargas, e Lethierry era admirável neste mister. Quando ficou impossibilitado de trabalhar no mar, ensinou um marinheiro para substituí-lo. No fim de dois anos, o vapor dava líquidas umas 705 libras esterlinas por ano. A libra esterlina de Guernesey vale 24 francos, a da Inglaterra 25, e a de Jersey 26. Estas fantasmagorias são menos fantasmagóricas do que parecem; os bancos é que lucram com elas.

Capítulo VI— Lethierry entra na glória

Prosperava a Galeota, Mess Lethierry via chegar o dia em que ele seria gentleman. Em Guernesey não se pode ser gentleman da noite para o dia. Há uma escala entre o homem e o gentleman; o primeiro degrau é o nome simplesmente, Pedro, suponhamos; depois, vizinho Pedro; terceiro degrau, pai Pedro; quarto degrau,, Senhor (Síeur) Pedro; quinto degrau, Mess Pedro; último degrau, gentleman (Monsieur) Pedro.

Esta escada, que sai da terra, interna-se pelo céu acima. Entra nela toda a hierarquia inglesa. Eis os degraus mais luminosos; acima de senhor (gentleman) há esq. (escudeiro), acima de esq., o cavalheiro (sir vitalício), depois o baronete (sir hereditário), depois o lorde (7aird na Escócia), depois o barão, depois o visconde, depois o conde (earl na Inglaterra, jarl na Noruega), depois o marques, depois o duque, depois o par da Inglaterra, depois o príncipe de sangue real, depois o rei. Esta escada sobe do povo à burguesia, da burguesia ao baronato. do baronato ao variato, do pariato à realeza.

Graças aos seus triunfos, ao vapor, ao Navio-diabo, Mess Lethierry já era alguém. Para construir a Galeota teve de pedir dinheiro emprestado; endividou-se em Bremen e em Saint-Malo, mas ia amortizando a dívida todos os anos.

Lethierry comprou fiado, na entrada do porto de Saint-Sampson, uma linda casa de pedra e cal, novazinha, entre o mar e o jardim; no ângulo estava este nome: Bravees. A casa, cuja frente fazia parte da muralha do porto, era notável por duas fileiras de janelas, ao norte, do lado de um cercado cheio de flores, ao sul, do lado do mar; de modo que era uma casa com duas fachadas, dando uma para as tempestades, outra para as rosas.

As fachadas pareciam feitas para os dois moradores: Mess Lethierry e Miss Déruchette.

Era popular a casa de Lethierry, porque ele próprio acabou sendo popular. A popularidade nascia em parte da bondade, da educação e da coragem dele, parte dos homens que ele salvara de perigos iminentes, em grande parte do bom êxito da Galeota, e também por ter dado ao porto de Saint-Sampson o privilégio das partidas e chegadas do vapor. Vendo que decididamente o Devil Boat era um bom negócio, Saint-Pierre, capital, reclamou o vapor para si, mas Lethierry conservou-o para Saint-Sampson. Era a sua cidade natal.

Daqui é que eu fui lançado ao mar, dizia ele. Tinha por isso grande popularidade local.

A qualidade de proprietário e contribuinte fazia dele o que em Guernesey se chama um unhabitant. Deram-lhe um cargo. O pobre marinheiro galgou cinco degraus, dos seis que tem a ordem social guernesiana; era mess; estava quase gendeman, e quem sabe mesmo se não passaria daí? Quem sabe se algum dia não se havia de ler no almanaque de Guernesey, no capítulo Gentry and Nobility, esta inscrição inaudita e soberba: Lethierry esq. Mess Lethierry, porém, desdenhava, ou antes, ignorava o que era a vaidade das coisas. Sentia-se útil, era a satisfação dele; ser popular comoviao menos que ser necessário. Já o dissemos, tinha dois amores, e, por conseqüência, duas ambições: Durande e Déruchette.

Fosse como fosse, Lethierry arriscou-se na loteria do mar, e tirou a sorte grande.

A sorte grande era Durande navegando.

Capítulo VII— O mesmo padrinho e a mesma padroeira

Depois de criar o vapor, Lethierry batizou-o, deu-lhe o nome de Durande. Não lhe daremos daqui em diante senão este nome. Seja-nos lícito igualmente, qualquer que seja o uso tipográfico, escrever Durande sem ser em grifo, conformando-nos nisto ao pensamento de Mess Lethierry, para quem Durande era quase uma pessoa.

Durande e Déruchette é o mesmo nome. Déruchette é o diminutivo.

É muito usado esse diminutivo no oeste da França.

No campo, os santos tem muitas vezes o seu nome com todos os diminutivos e aumentativos. Parece que há muitas pessoas e é só uma. Esta identidade de padroeiros e padroeiras com diferentes nomes não é rara; Lise, Lisette, Lisa, Elisa, Isabel, Lisbeth, Betsy, tudo isto é Elisabeth. É provável que Mahout, Machut, Malo e Magloire sejam o mesmo santo.

Mas não fazemos cabedal disso.

Santa Durande é uma santa de Angournois e da Charente. Será correto? Isso é lá com os bolandistas. Correto ou não, esta santa tem muitas igrejas. Estando em Rochefort, e sendo ainda rapaz, Lethierry tomou conhecimento com aquela santa, provàvelmente na pessoa de alguma formosa charentesa, talvez a rapariga das unhas bonitas. Restou-lhe recordação bastante para dar aquele nome às duas coisas que ele amava; Durande à Galeota, Déruchette à menina.

Lethierry era pai de uma e tio da outra.

Déruchette era filha de um irmão que ele teve. Morreram-lhe os pais. Lethierry adotou a criança e substituiu o pai e a mãe.

Déruchette não era somente sobrinha, era também afilhada de Lethierry. Foi ele quem a levou à pia, dando-lhe por padroeira Santa Durande, e por nome Déruchette.

Déruchette, já o dissemos, nasceu em Saint-Pierre-Port. Estava inscrita no registro da paróquia.

Enquanto a sobrinha foi criança e o tio pobre, ninguém se importou com o nome Déruchette; mas, quando a mocinha chegou a miss e o marinheiro a gentIeman, Déruchette começou a desagradar a todos. Perguntavam a Mess Lethierry: Por que lhe dá esse nome?

É um nome assim — respondia ele.

Tentaram mudar-lhe o nome. Lethierry não quis. Uma senhora da alta sociedade de Saint-Sampson, mulher de um ferreiro abastado, e que já não trabalhava, disse um dia a Mess Lethierry: — Daqui em diante chamarei Nancy à sua filha.

— Por que não lhe chamará Lons-le-Saulnier? — disse ele.

A bela senhora não desistiu e, no dia seguinte, disse-lhe: — Decididamente, não queremos que ela se chame Déruchette.

Achei um lindo nome: Marianne.

— Lindo nome, realmente — disse Mess Lethierry—, mas composto de dois animais bem ruins, um mari (marido) e um âne (asno).

Lethierry manteve o nome de Déruchette.

Enganar-se-ia aquele que concluísse pelas últimas palavras de Lethierry que ele não queria casar a sobrinha. Queria casá-la, decerto, mas ao seu modo. Queria um marido da sua têmpera, muito trabalhador, de maneira que Déruchette não fizesse nada.

Gostava das mãos tostadas do homem e das mãos alvas da mulher.

Para que Déruchette não estragasse as lindas mãos que tinha, dava-lhe ocupações elegantes, mestre de música, piano, biblioteca, e bem assim alguma linha e agulhas em uma cestinha de costura.

Déruchette lia mais do que cosia, cantava e tocava mais do que lia. Mess Lethierry queria isso mesmo. Não lhe pedia nada mais que o encanto e a fascinação. Educou-a mais para ser flor do que para ser mulher. Quem tiver estudado os marinheiros há de compreender isto. As rudezas amam as delicadezas. Para que a sobrinha realizasse o ideal do tio, era preciso que fosse opulenta. Era isso o que Mess Lethierry compreendia perfeitamente. A máquina do mar trabalhava com esse fim. Durande devia dotar Dértichette.

Capítulo VIII— A melodia Bonny Dundee

Déruchette ocupava o mais lindo quarto da casa, com duas janelas, mobília de mogno, cama de cortinas riscadas de verde e branco, tendo vista para o jardim e para a colina onde está o castelo do Vale. Do outro lado desta colina é que estava o Tutu da Rua.

Déruchette tinha no quarto a música e o piano. Acompanhava-se ao piano cantando a canção de sua preferência, a melancólica melodia escocesa Bonny Dundee; a noite encerra-se toda naquela ária, a aurora encerrava-se toda naquela voz; isto produzia insólito contraste. Dizia-se: Miss Déruchette está ao piano; e os que passavam ao sopé da colina paravam algumas vezes diante do muro do jardim para ouvir aquele canto tão fresco e aquela canção tão triste.

Déruchette era a alegria perpassando a casa toda, e fazendo ali uma eterna primavera. Era formosa, porém, mais linda que formosa, e mais gentil que linda. Fazia lembrar aos velhos pilotos amigos de Mess Lethierry aquela princesa de uIna canção de soldados e marujos, tão bela que passava por tal no regimento.

— Déruchette tem um cabo de cabelos — dizia Mess Lethierry.

Era lindíssima desde a irírancia. Receou-se por muito tempo que o nariz fosse disforme, mas a pequena, provavelmente disposta a ficar bonita, manteve-se de modo que não adquiriu defeito algum até tornar-se moça; o nariz nem ficou comprido nem curto; e, chegando à juventude, Déruchette conservou-se encantadora.

Dava o nome de pai ao tio.

Mess Lethierry concedia-lhe algumas funções de jardineira e mesmo de dona de casa. A moça regava os canteiros de malvaísco, de verbasco, de flox e erva-benta; cultivava oxálida rosada; utilizava o clima da ilha de Guernesey, tão hospitaleira às flores. Tinha, como toda a gente, aloés plantado no chão, e, o que é mais difícil, fazia pegar a potentilha de Nepaul. Tinha uma horta habilmente arranjada; plantava espinafres, rabanetes e ervilhas; sabia semear a couve-flor da Holanda e a couve-de-bruxelas; transplantava-as em julho; nabos para agosto, chicória para setembro, pastinaca para o outono, e rapúncio para o inverno. Mess Lethierry consentia em tudo isso, contanto que não trabalhasse muito com a pá e o ancinho, e sobretudo que não fosse ela própria quem estrumasse a terra. Deu-lhe duas criadas. uma chamada Graça, e a outra Doce, nomes usados em Guernesey. Graça e Doce faziam o serviço da casa e do jardim, e tinham o direito de andar com as mãos vermelhas.

O quarto de Mess Lethierry era retirado, dava para o porto e era contíguo à sala grande do rés-do-chão, onde havia a porta de entrada e onde iam ter as diversas escadas da casa. A mobília do quarto compunha-se de uma maca de marujo, um cronometro, uma mesa, uma cadeira e um cachimbo. O teto, construído com vigas, era caiado, bem como as paredes; à direita da porta estava pregado o arquipélago da Mancha, bela carta marítima, onde se lia a seguinte inscrição: W. Faden, 5, Charing Cross, Geographer to His Majesty; e à esquerda estava pendurado um desses grandes lenços de algodão que trazem figurados os sinais de todas as marinhas do globo, tendo nos quatro cantos os estandartes da França, da RÜssia, da Espanha e dos Estados Unidos da América, e no centro a Union Jack da Inglaterra.

Doce e Graça eram duas criaturas ordinárias, devendo tomar-se esta palavra à boa parte. Doce não era má e Graça não era feia.

Não lhes ficavam mal tão perigosos nomes. Doce, que era solteira, tinha um amante. Nas ilhas da Mancha usa-se tanto a palavra como a coisa. As duas criadas faziam o serviço com uma espécie de lentidão própria à domesticidade normanda no arquipélago. Graça, faceira e bonita, contemplava constantemente o horizonte com uma inquietação de gato. Era porque, tendo também o seu amante, tinha, de mais a mais, dizia-se, marido marinheiro, cuja volta receava. Mas nós não temos nada com isto. A diferença entre Graça e Doce é que, numa casa menos austera e menos inocente, Doce ficaria criada de servir e Graça subiria à posição de criada grave. Os talentos possíveis de Graça eram nulos para uma moça cândida como Déruchette. Demais, os amores de Doce e Graça eram latentes. Nada chegava aos ouvidos de Mess Lethierry, nada salpicava sobre Déruchette.

A sala baixa do rés-do-chão, com chaminé, e rodeada de bancos e mesas, servira no século passado para as reuniões de um conventículo de refugiados francêses protestantes. A parede de pedra nua não tinha ornamento algum a não ser um quadro de madeira preta com um cartaz de pergaminho ornado das proezas de Benigno Bossuet, bispo de Meaux. Alguns pobres diocesanos daquele genio, perseguidos por ele na ocasião da revocação do Edito de Nantes, e abrigados em Guernesey, penduraram aquele quadro na parede como um testemunho.

Quem podia decifrar a letra tosca e a tinta amarelada lia naquele cartaz os seguintes fatos pouco conhecidos: A 29 de outubro de 1685, demolição dos templos de Morcef` e de Nanteuil, requerida ao rei pelo Sr. Bispo de Meaux. A 2 de abril de 1686, prisão de Cochard pai e filho por motivo de religião, a requerimento do Sr.Bispo de Meaux. Foram soltos Por terem abjurado. A 28 de outubro de 1699 o Sr. Bispo de Meaux envia ao Sr. de Pontchartrain uma memória expondo a necessidade de transportar as Sras. de Chalandes e de Netiville, donzelas da religião reformada, para a casa das Novas Católicas de Paris. A 7 de julho de 1703 executou-se a ordem pedida ao rei pelo Sr. Bispo de Meaux de encerrar no hospital um tal Beaudoin e sua mulher, maus católicos, de Fliblaines.

No fundo da sala, ao pé da porta do quarto de Mess Lethierry, havia uma pequena divisão de tábuas, que tinha sido tribuna huguenote, e era então, graças a uma grade arranjada, o office do vapor, isto é, escritório da Durande ocupado por Mess Lethierry em pessoa. Na velha estante de carvalho um registro com as páginas cotadas. Deve e Há de Haver, substituía a Bíblia.

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