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Os Trabalhadores do Mar

de Victor Hugo e tradução de Machado de Assis

Machado de Assis

Capítulo IX— O homem que advinhou quem era Rantaine

Mess Lethierry governou a Durande enquanto pode navegar, e nunca teve outro piloto nem outro capitão; mas lá chegou um dia em que ele foi obrigado a deixar o mar. Escolheu para substituí-lo o Sr. Clubin, de Torteval, homem silencioso. O Sr. Clubin tinha, em toda a costa, fama de severa probidade. Era o alter ego e o vigário de Mess Lethierry.

O Sr. Clubin, embora desse mais ares de tabelião que de marinheiro, era um marítimo capaz e raro. Tinha todos os talentos que exige o perigo perpetuamente transformado. Era arrumador hábil, gajeiro meticuloso, contramestre desvelado e perito, timoneiro robusto, piloto instruído e atrevido capitão. Era prudente e algumas vezes levava a prudência ao ponto de ousar, o que é uma grande qualidade na vida marítima. Tinha o receio do provável temperado pelo instinto do possível. Era um desses marinheiros que afrontam o perigo em uma proporção conhecida deles, sabendo triunfar em todas as aventuras. Toda a certeza que o mar pode deixar a um homem, ele a tinha. Era, afém. disso, nadador de fama; pertencia a essa raça de homens exercitados na ginástica da vaga, que se conservam na água o tempo que se quer, e que, partindo de Havredes-Pas, dobram a Colette, fazem a volta de Ermitage e a do Castelo Elisabeth e voltam ao cabo de duas horas ao ponto de partida. Era de Torteval e dizia-se que fizera muitas vezes a nado o temível trajeto desde Manois até a ponta de Plaintmont.

Uma das coisas que mais recomendaram o Sr. Clubin a Mess Lethierry foi que, conhecendo ou penetrando Rantaine, assinalou a Mess Lethierry a improbidade daquele homem, e disse-lhe: Rantaine há de roubá-lo. Verificou-se a profecia.

Mais de uma vez, em negócios pouco importantes, é verdade, Mess Lethierry experimentou a escrupulosa honestidade do Sr. Clubin, e descansava nele. Mess Lethierry dizia: Consciência quer confiança.

Capítulo X— Narrativas de viagens de longo curso

Mess Lethierry, que se não acomodava de outro modo, vestia sempre a sua roupa de bordo, preferindo mesmo a japona de marinheiro à japona de piloto. Déruchette torcia o núiz por isso. Nada é tão belo como uma caretazinha da formosura em cólera.

Déruchette ralhava e ria: Bom paizinho, dizia ela, está cheirando a alcatrio. — E dava uma palmadinha na larga espádua do marinheiro.

Aquele velho herói do mar trouxe das suas viagens narrativas maravilhosas.

Viu em Madagáscar plumas de pássaro das quais bastavam três para cobrir uma casa. Viu na índia hastes de azedinhas de 9 pés de altura. Viu na Nova Holanda bandos de perus e de patos dirigidos e guardados por um cão de pastor, que naquela terra é um pássaro e chama-se galinha-silvestre. Viu cemitérios de elefantes. Viu na África uma espécie de homens-tigres de 7 pés de altura. Conhecia os costumes de todos os macacos, desde o macaco bravo até o macaco barbado. No Chile viu uma bugia comover os caçadores apresentando-lhes o filho.

Viu na Califórnia um tronco de árvore oco, no interior do qual um homem a cavalo podia andar 150 passos. Viu em Marrocos os mozabitas e os biskris baterem-se com matrah e barras de ferro, os biskris por terem sido tratados de kelb, que quer dizer cães, e os mozabitas por terem sido tratados de khamsi, que quer dizer gente da quinta seita. Viu na China cortarem em pedacinhos o pirata Chanh-thong-quan-harhQuoi, por ter assassinado o âp de uma aldeia. Em ThudanInot, viu um leão arrebatar uma mulher velha do meio do mercado da cidade. Assistiu à chegada da grande cobra mandada de Cantão a Saigon, para celebrar, no Pagode de ChoCen, a festa de Quan-riam, deusa dos navegantes. Contemplou na terra o grande Quan-Su.

No Rio de Janeiro, viu as senhoras brasileiras colocarem nos cabelos pequenas bolas de gaze contendo cada uma delas um vagalume, o que lhes fazia uma coifa de estrelas. Destruiu no Uruguai os formigueiros, e no Paraguai um certo bichinho, que ocupa com as patas um diâmetro de um terço de vara, e ataca o homem. por meio dos próprios pelos, que lhe atira em cima, e que se cravam na carne, produzindo pústulas. No rio Arinos, afluente do Tocantins, nas matas virgens do norte da Diamantina, verificou a existência do terrível povomorcego, os murcilagos, homens que nascem com os cabelos brancos e os olhos vermelhos, habitam os bosques sombrios, dorrúem de dia, acordam de noite e pescam e caçam nas trevas, vendo melhor de que quando há lua.

Perto de Beirute no acampamento de uma expedição de que fazia parte, foi roubado de uma tenda um pluviometro; então um feiticeiro vestido de duas ou três faixas de couro, assemelhando-se a um homem vestido com os próprios suspensórios, agitou tão furiosamente uma campainha na ponta de um chifre que apareceu logo uma hiena trazendo o pluviometro. A hiena é que o tinha roubado.

Estas histórias verdadeiras assemelhavam-se tanto a histórias da carochinha que divertiam Déruchette.

A boneca de Durande era o elo entre o vapor e a moça. Chama-se boneca nas ilhas normandas a figura talhada na proa, estátua de madeira mais ou menos esculpida. Daí vem que, para dizer navegar, a gente das ilhas usa desta locução: estar entre popa e boneca (poupe etpoupée).

A boneca de Durande tinha as predileções de Mess Lethierry. Ele encomendara ao carpinteiro que a fizesse parecida com Déruchette.

Parecia-se como obra feita a machado. Era uma acha de lenha esforçando-se por ser moça bonita.

Mas a coisa, embora disforme, iludia Mess Lethierry. Contemplava-a como um crente. Estava de boa fé diante daquela figura. Reconhecia nela a imagem de Déruchette. É mais ou menos assim que o dogma se parece com a verdade, e o ídolo com Deus Mess Lethierry tinha duas grandes alegrias por semana; uma na terça-feira e outra na sexta. Primeira alegria, ver partir Durande; segunda alegria, vê-la chegar. Encostava-se à janela, contemplava a sua obra, era feliz. Há alguma coisa assim no Genesis: Et vidit quod esset bonum.

Na sexta-feira, a presença de Mess Lethierry na janela era um sinal. Quem o via chegar à janela da casa de Bravees, acender o cachimbo, dizia logo: Ali! o vapor está a chegar. Uma fumaça anunciava a outra.

A Durande, — entrando no porto, atava amarra debaixo das janelas de Mess Lethierry, numa grande argola de ferro. Nessas noites Lethierry gozava um admirável sono na sua maca, sentindo de um lado Déruchette adormecida, do outro Durande amarrada.

O ancoradouro de Durande era perto do porto. Diante da casa de Lethierry havia um pequeno cais.

O cais, a casa, o jardim, as marinhas, orladas de sebes, a maior parte das casas vizinhas, nada existe hoje. A exploração do granito de Guernesey fez vender os terrenos todos. Aquele lugar está hoje ocupado por estâncias de quebradores de pedra.

Capítulo XI— Lance de olhos aos maridos eventuais

Déruchette ia crescendo e não se casava.

Mess Lethierry vê-la uma moça de mãozinhas alvas, mas tornou-a exigente. Educações daquelas voltam-se sempre contra os pais.

Ele próprio era mais exigente ainda que a filha. Imaginava um marido para Déruchette que fosse também marido de Durande.

Queria de um lance prover as duas filhas. Queria que o companheiro de uma fosse o piloto da outra. Que é um marido? É o capitão de uma viagem. Por que motivo não dar uni só capitão ao navio e à filha? O casal obedece às marés. Quem sabe guiar uma barca sabe guiar uma mulher. Ambas são sujeitas à lua e ao vento. O Sr. Clubin, tendo apenas quinze anos menos que Mess Lethierry, não podia ser para Durande senão um capitão provisório; era preciso um piloto moço, um capitão definitivo, um verdadeiro sucessor do inventor, do criador. O piloto de Durande seria o genro de Mess Lethierry. Por que motivo não fundir os dois genros em um só? Lethierry afagava esta idéia. Via aparecer-lhe em sonhos um noivo.

Um gajeiro possante e tostado, um atleta do mar, eis o seu ideal. Não era esse o ideal de Déruchette, o sonho da moça era mais cor-de-rosa.

Fosse como fosse, o tio e a sobrinha pareciam estar de acordo em não ter pressa. Quando viram Déruchette torna-se herdeira prov ável, apresentaram-se pedidos aos centos. Estas solicitudes nem sempre são de boa qualidade. Mess Lethierry sentia isso, e dizia entre dentes: Moça de ouro, noivo de cobre. E despedia os pretendentes. Esperava. Ela também.

Coisa singular, Lethierry não fazia cabedal da aristocracia. Por esse lado era um inglês inverossímil. Dificilmente se acreditará que ele chegou a recusar um Ganduel, de Jersey, e um Bugnet-Necolin, de Serk. Houve mesmo quem ousasse afirmar, mas nós não acreditamos, que ele recusou uma proposta da aristocracia de Aurigny, indeferindo o pedido de um membro da família Edou, que evidentemente descende de Edouard, o Confessor.

Capítulo XII— Exceção no caráter de Lethierry

Mess Lethierry tinha um defeito, e grande. Odiava, não uma pessoa, mas uma coisa, o padre. Lendo um dia, em Voltaire — costumava ler e lia Voltaire —, estas palavras: os padres são gatos, Mess Lethierry pos o livro de parte, e ouviram-no murmurar baixinho: —sinto-me cão.

Cumpre não esquecer que os padres luteranos, calvinistas e católicos atacaram-no vivamente e perseguiram-no docemente, por causa da construção do Devil Boat local. Ser revolucionário em navegação, tentar introduzir um progresso no arquipélago normando, impor à pobre ilha de Guernesey os esboços de uma invenção nova era, conforme dissemos, uma temeridade condenável Lethierry não escapou a uma certa condenação. Não se esqueçam que falamos do clero antigo, diferente do cléro atual, que, em quase todas as igrejas locais, tem uma tendência liberal para o progresso.

Pearam-no de todos os modos; opuseram-lhe toda a soma de obstáculos que pode haver nas prédicas e nos sermões. Odiado pelos homens da igreja, Lethierry aborrecia-os também.

Ódio dos outros era a circunstância atenuante do ódio dele. Mas a sua aversão pelos padres era idiossincrática. Para odiá-los não precisava ser odiado. Como ele próprio dizia, era o cão daqueles gatos. Era contra eles pela idéia, e, o que é mais irredutível, pelo instinto. Sentia as garras latentes dos patires, e mostrava-lhes os dentes. A torto e a direito, e nem sempre a propósito. É erro não distinguir. Não são bons os ódios absolutos. Nem mesmo o vigário saboiano mereceria as simpatias de Lethierry. Não é certo que para ele houvesse um bom padre. À força de filosofar, ia perdendo a circunspecção. Existe a intolerância dos tolerantes, como existe o furor dos moderados. Mas Lethierry era tio boa alma que não podia ser odiento. Antes repelia que atacava. Fugia dos homens da Igreja. Tinham-lhe feito mal, Lethierry limitava-se a não querer-lhes bem. A diferença entre o ódio dos outros e o dele é que o dos outros era animosidade, e o dele antipatia.

Guernesey, apesar de ilha pequena, tem lugar para duas religiões.

Existem nela a religião católica e a religião protestante. Devemos acrescentar que aí não entram as duas religiões na mesma igreja.

Cada culto tem a sua capela ou o seu templo. Na Alemanha, em Heidelberg, por exemplo, a coisa arranja-se menos escrupulosamente; divide-se uma igreja; metade para São Pedro, metade para Calvino; entre as duas há um tabique para prevenir os murros e pescoções; partes iguais; os católicos tem três altares; os huguenotes tem três altares; como as horas do oficio são sempre as mesmas, o sino comum chama na mesma ocasião para os dois serviços. Convoca a um tempo os fiéis para Deus e para o diabo.

Simplificação.

A fleuma alemã acomoda-se com estas iniquidades. Mas, em Guernesey, cada religião tem casa própria. Há uma ortodoxa e paróquia herética. Pode-se escolher. Nem uma nem outra foi a escolha de Mess Lethierry.

Aquele marinheiro, aquele operário, aquele filósofo, aquele povo do trabalho, simples na aparência, não o era em substância. Tinha lá as suas contradições e pertinácias. Era inabalável a respeito do padre. Daria quinaus a Montlosier.

Costumava dizer chufas muito descabidas. Tinha expressões próprias dele, extravagantes, mas sem deixar de ter um sentido. Ir confessar-se era para ele pentear a consciência. Os poucos estudos que tinha, pouquíssimos, feitos aqui e ali, entre duas borrascas, complicavam-se com erros de ortografia. Tinha também erros de pronúncia, nem sempre ingênuos. Quando se fez a paz entre a França de Luís XVIII e a Inglaterra de Wellington, Mess Lethierry disse: Bourmont foi o traitre dIunion traidor por traço) entre os dois campos. Lethierry escreveu uma vez a palavra papado (papauté) do seguinte modo : pape oté (papa arrancado). Não acreditamos que ele fizesse isto de propósito.

Este anti-papismo não o conciliava com os anglicanos. Os presbíteros protestantes não o estimavam mais que os curas católicos. Ante os mais graves dogmas, ostentava-se quase sem reservas a irreligião de Lethierry. Deu-se o acaso de ser levado a ouvir um sermão acerca do inferno, pregado pelo Reverendo Jaquemin Herodes, sermão magnífico, empachado de textos sagrados, que provavam as penas eternas, os suplícios, os tormentos, as condenações, os castigos inexoráveis, os fogaréus sem fim, as maldições inextinguíveis, as cóleras do Onipotente, os furores celestes, as vinganças divinas, coisas incontestáveis; Lethierry ouviou o sermão e, ao sair com um dos fiéis, disse-lhe baixinho: ora, quer ver? Eu cá tenho uma idéia ratona. Suponho que Deus é bom.

Adquiriu este germe de ateísmo quando residiu na França.

Posto que fosse guernesiano, e de raça pura, chamavam-no na ilha o francês, por causa de seu espírito impróprio. Nem ele o ocultava; estava impregnado de idéias subversivas. A sanha de fazer o vapor, o Devil Boat, provava bem isto.

Lethierry costumava dizer: Eu mamei o leite 89. Mau leite.

E que despropósitos fazia! É difícil viver intato nos lugares pequenos.

Na França, guardar as aparências, na Inglaterra, ser respeit ável é quanto basta para passar a vida tranqüilo. Ser respeitável é coisa que implica uma imensidade de observâncias, desde o domingo bem santificado até a gravata bem atada.

Não te faças apontar com dedo, eis uma lei terrível. Ser apontado é o diminutivo de anátema. As pequenas cidades, charcos de mexeriqueiros, são exímias nesta malignidade isoladora, que é a maldição vista ao invés do óculo. Os mais intrépidos arreceiam-se disto. Afronta-se a metralha, afrontasse o furacão, recua-se diante da malignidade. Mess Lethierry era mais tenaz que lógico.

Mas debaixo dessa pressão dobrava-se-lhe a tenacidade. Deitava água no vinho, locução prenhe de concessões latentes e às vezes inconfessáveis. Afastava-se dos homens do clero, mas não lhes fechava resolutamente a porta. Nas ocasiões oficiais e nas épocas das visitas pastorais, recebia atenciosamente tanto o presbítero luterano como o capelão papista. Acontecia-lhe de quando em quando acompanhar à paróquia anglicana a menina Déruchette, que, aliás, só ia lá nas quatro grandes festas do ano.

Em resumo, esses compromissos, que lhe custavam muito, irritavam-no, e, longe de incliná-lo para os homens da Igreja, aumentavam o seu pendor interno. Aquela criatura sem azedume era acrimoniosa apenas nesse ponto. Não havia meio de emendá-la.

De fato, e sem remissão, era esse o temperamento de Lethierry.

Aborrecia todos os cleros. Tinha a irreverência revolucionária. Distinguia pouco entre duas formas de culto. Nem mesmo fazia justiça a este grande progresso: não acreditar na presença real. A sua miopia nestas coisas chegava ao ponto de não ver a diferença entre um ministro e um sacerdote. Confundia um reverendo doutor com um reverendo padre. Wesley não vale mais que Loyola, dizia ele. Quando via passar um pastor protestante de braço com a mulher, desviava os olhos. Padre casado!, dizia ele, com o acento absurdo que essas duas palavras tinham na França naquela época. Contava que na viagem à Inglaterra tinha visto a bispa de Londres. A sua revolta contra essas uniões ia até a Cólera. Vestido não casa com vestido!, exclamava ele. O sacerdote fazia-lhe efeito de um sexo. Não teria dúvida em dizer: Nem homem nem mulher: padre. Aplicava com mau gôsto tanto ao clero anglicano como ao papista os mesmos desdenhosos; enrolava as duas sotainas na mesma fraseologia; e não se dava ao trabalho de variar, a propósito de padres, quaisquer que fossem, católicos e luteranos, as mesmas soldadescas usadas naquele tempo.

— Casa-te com quem quiseres — dizia ele a Déruchette -, contanto que não seja com algum padreco.

Capítulo XIII— O desleixo faz parte da graça

Dita uma coisa, Mess Lethierry não a esquecia mais; de uma coisa, Miss Déruchette esquecia-a logo. Esta era a diferença entre o tio e a sobrinha.

Déruchette, educada como os leitores viram, acostumou-se a pouca responsabilidade. Há mais um perigo latente numa educação tomada muito a sério. Querer tornar felizes os filhos, antes do tempo, é talvez uma imprudência.

Déruchette acreditava que, estando ela contente, tudo o mais ia muito bem. Via o tio alegre quando ela estava alegre. As suas idéias eram pouco mais ou menos as mesmas de Mess Lethierry.

Satisfazia os sentimentos religiosos indo à paróquia quatro vezes por ano. Já a encontramos vestida para a festa do Natal. Da vida humana não sabia coisa alguma. Tinha disposições para amar um dia loucamente. Enquanto não chegava esse dia, era menina folgazã.

Déruchette cantava ao acaso, tagarelava ao acaso, vivia sem esforço, soltava uma palavra e passava, fazia um gesto e fugia, era encantadora. Ajunte-se a isto a liberdade inglesa. Na Inglaterra as crianças andam sós, as meninas são senhoras de si, a adolescência vai à rédia solta. Tais são os costumes. Mais tarde, as moças livres fazem-se mulheres escravas. Tomem à boa parte estas duas expressões: livres no crescimento, escravas no dever.

Déruchette acordava todos os dias com a inconsciência das suas ações da véspera. Bem embaraçado ficaria quem lhe perguntasse o que ela havia feito na semana anterior. Isto, porém, não impedia que ela tivesse, em certas horas turvas, uma indisposição misteriosa, e sentisse uma tal ou qual passagem do sombrio da vida no seu desabrochamento e na sua jovialidade.

Há nuvens dessas nos céus como aquele; mas passavam depressa.

Déruchette voltava a si com uma gargalhada, sem saber nem por que estivera triste, nem por que estava serena.

Brincava com tudo. De travessa que era, bulia com quem passava.

Caçoava com os rapazes. Não escaparia o próprio diabo, se o encontrasse em caminho. Era gentil, e ao mesmo tempo tão inocente que abusava de si própria. Dava um sorriso como um gatinho dá um bofete. Tanto pior para quem ficasse arranhado. Nem pensava mais nisso. O dia de ontem não existia para ela; vivia na plenitude do dia de hoje. Eis o que é a excessiva felicidade. Naquela moça a lembrança dissipava-se como neve que se funde.

Livro Quarto:“O Bagpipe”

Primeiros Rubores de Aurora ou de Incêndio
Gilliatt não trocara nunca uma palavra com Déruchette.

Conhecia-a por te-la visto de longe, como se conhece a estrela da manhã.

Na época em que Déruchette encontrou Gilliatt, no caminho de Saint-Pierre-Port ao Vale, e reze-lhe a surpresa de traçar na neve o nome dele, tinha dezesseis anos. Exatamente na véspera Mess Lethierry disse-lhe as seguintes palavras:

— Deixa-te de seres travessa; estás moça feita.

O nome Gilliatt, escrito por aquela menina, caiu em uma profundidade desconhecida.

Que eram as mulheres para Gilliatt? Nem mesmo ele poderia dizelo.

Quando encontrava alguma, causava-lhe medo e cobrava-lhe medo. Só na última extremidade falava às mulheres. Nunca foi amante de nenhuma camponesa. Quando se achava só em um caminho e avistava alguma mulher ao longe, Gilliatt galgava um cercado, ou metia-se em uma moita e ia-se embora. Até das velhas fugia. Só tinha visto uma parisiense. Parisiense de arribação, estranho acontecimento em Guernesey naqueles tempos idos. E Gilliatt ouvira a parisiense contar nestes termos os seus infortúnios: Estou muito maçada, caíram-me uns chuviscos no chapéu, esta cor é muito sujeita a ficar manchada.

Tendo encontrado, tempo depois, entre as rolhas de um livro uma antiga gravura de modas representando uma dama da calçada de Antin em grande toalete, pregou-a na parede como lembrança dessa aparição. Nas noites de estio, escondia-se atrás das rochas de Houmet-Paradis para ver as camponesas banharem-se no mar.

Um dia, através de uma cerca, viu a feiticeira de Torteval atar a liga que lhe tinha caído. Provavelmente Gilliatt era virgem.

Naquela manhã de Natal em que Déruchette escrevera rindo o nome dele, Gilliatt voltou para casa não sabendo já por que motivo tinha saído. Não dormiu de noite. Pensou em mil coisas: de que faria bem se cultivasse rabanetes no jardim; que não tinha visto passar o navio de Serk e talvez lhe houvesse acontecido alguma coisa; que tinha visto erva-pinheira em flor, coisa rara naquela estação.

Gilliatt nunca soubera com certeza que parentesco havia entre ele e a velha que morrera em casa; disse consigo que devia ser sua mãe e pensou nela com redobrada ternura. Lembrou-se do enxoval de mulher que estava na mala de couro. Pensou que o Reverendo Jaquemin Herodes seria provavelmente nomeado decano de Saint-Pierre-Port, e que a paróquia de Saint-Sampson ficaria vaga. Pensou que o dia seguinte ao de Natal, seria o 27.

1 dia de lua, e que por conseqüência a maré enchente seria às 3 horas e 21 minutos, a média às 7 horas e 15 minutos, a vazante às 9 horas e 36 minutos. Recordou até nas menores particularidades, o vestuário de highIander que lhe vendera o bagpipe, boné enfeitado com um cardo à claymore, a casaca de abas curtas ,e quadradas, o saiote, o scilt or philaberg, adornado com uma bolsa e uma boceta de chifre, o alfinete feito de uma pedra escocesa, os dois cintos, as sashwises, o belts, a espada, o swond, o sabre, o dirk e o skene dhu, faca preta de cabo preto ornada de dois cairgorums, e os joelhos nus do soldado, as meias, as polainas riscadas e os sapatos de borlas. Tudo aquilo tornou-se espectro, perseguiu-o, deu-lhe febre até que ele adormeceu.

Gilliatt acordou quando o sol já ia alto e o seu primeiro pensamento foi Déruchette.

Adormeceu no dia seguinte e sonhou toda a noite com o soldado escoces. Sonhou também com o velho cura Jaquemin Herodes.

Quando acordou pensou outra vez em Déruchette e teve contra ela uma violenta cólera; lamentou não ser criança para ir atirar pedras nas vidraças da moça.

Depois lembrou-se de que, se fosse criança, teria ainda sua mãe, e entrou a chorar.

Projetou ir passar uns esses meses em Chausey ou em Minquiers, mas não partiu.

Não tornou a por os pés na estrada de Saint-Pierre-Port ao Vale.

Imaginava que o seu nome ficara gravado na terra e que todos os viandantes deviam olhar para ele.

[editar] Gilliatt vai Entrando Passo a Passo no Desconhecido
Gilliatt ia todos os dias ver a casa de Lethierry. Não o fazia de propósito, mas encaminhava-se para esse lado. Acontecia então passar sempre pelo caminho que costeava o muro do jardim de Déruchette.

Estando um dia naquele caminho, ouviu a uma mulher do mercado, que falava a outra, e vinha da casa de Lethierry: Miss Lethierry gosta muito de sea kales .

Gilliatt fez no jardim da casa mal-assombrada uma fossa de sea kales. O sea kale é uma couve que tem o sabor de aspargo.

O muro do jardim da casa de Déruchette era baixinho; podia-se pular fácilmente. Esta idéia pareceu terrível a Gilliatt. Mas quem passava não podia deixar de ouvir as vozes das pessoas que falavam nos quartos ou no jardim. Gilliatt. não escutava, mas ouvia.

De uma vez ouviu disputar as duas criadas, Graça e Doce. Como o rumor vinha daquela casa, soou-lhe como se fosse música.

De outra vez, distinguiu uma voz que não era como as outras, e que lhe pareceu ser a voz de Déruchette. Deitou a correr.

As palavras que ouviu à moça ficaram para sempre gravadas no seu pensamento. Repetia-as a cada instante. Essas palavras eram: Faz favor de me dar a vassoura?

Gilliatt foi ousando a pouco e pouco. Já se atrevia a ficar parado.

Aconteceu uma vez que Déruchette, que não podia ser vista de fora, embora tivesse a janela aberta, estava ao piano e cantava.

Cantava a canção Bonny Dundee. Gilliatt empalideceu, mas levou a firmeza até ouvir a canção toda.

Chegou a primavera. Gilliatt teve uma visão: abriu-se o céu. Gilliatt viu Déruchette regando uns pés de alface.

Dai a pouco já ele fazia mais do que parar. Observava os hábitos da moça, notava as horas em que ela aparecia, e esperava.

Tinha cuidado de não ser visto por ela.

A pouco e pouco, ao tempo em que as noites se enchem de borboletas e de rosas, imóvel e mudo horas inteiras sem ser visto por ninguém, retendo a respiração, Gilliatt acostumou-se a ver Déruchette andar pelo jardim. É fácil acostumar-se ao veneno.

Do lugar em que se escondia, Gilliatt ouvia Déruchette conversar com Mess Lethierry, debaixo de um espesso caramanchão feito de caniço, dentro do qual havia um banco. As palavras chegavam-lhe distintamente aos ouvidos.

Quanto já não tinha andado! Chegou até a espiar e prestar ouvido.

Ali! o coração humano é um velho espião!

Havia outro banco visível e próximo, no fim de uma alameda.

Déruchette assentava-se ali algumas vezes.

Pelas flores que ele via Déruchette colher e cheirar, adivinhou as preferências da moça a respeito de perfumes.

A moça preferia antes de tudo a campânula, depois o cravo, depois a madressilva, depois o jasmim. A rosa estava em quinto lugar. Quanto aos lírios, olhava para eles, mas não os cheirava. A vista da escolha dos perfumes, Gilliatt compunha-a no seu pensamento.

Cada cheiro significava para ele uma perfeição. Só a idéia de falar a Déruchetie fazia-lhe arrepiar os cabelos. Uma boa velha que mascateava, e por esse motivo ia algumas vezes à rua que costeava o muro do jardim de Déruchette, veio a notar confusamente a assiduidade de Gilliatt junto daquele muro e a sua devoção por aquele lugar deserto. Ligaria ela a presença daquele homem à possibilidade de uma mulher que estivesse atrás do muro?

Descobriria esse vago fio invisível? Restava-lhe acaso, na sua decrepitute mendicante, um pouco de mocidade para lembrar-se de alguma coisa dos belos tempos, e saberia ela, já no inverno e na noite, que coisa é o alvor da madrugada? Ignoramo-lo, mas parece que, passando uma vez perto de Gilliatt, que estava de sentinela, dirigiu para o lado dele toda a quantidade de sorriso de que ainda era capaz e murmurou entre as gengivas: Aquece, aquece!

Gilliatt ouviu a palavra, que lhe fez impressão, e murmurou com um ponto de interrogação interior: Aquece? Que quer dizer a velha? Repetiu maquinalmente a palavra durante todo o dia, mas não chegou a compreende-la.

Estando um dia à janela da casa mal-assombrada, cinco ou seis raparigas de Ancresse foram banhar-se por pagode na angra de Houmet-Paradis. Brincavam ingenuamente na água, a cem passos dele. Gilliatt fechou violentamente a janela. Reparou então que uma mulher nua causava-lhe horror.

[editar] A Canção Bonny Dundee acha um Eco na Colina
Atrás do muro do jardim, em um ângulo do muro coberto de azevinho e hera, empachado de urtigas, com um pé de malva silvestre arborescente e um grande verbasco do mato que brotava do granito, passou Gilliatt quase todo o verão. Ficava ali inexprimivelmente pensativo. As lagartixas, que se iam acostumando a Gilliatt, aqueciam-se ao sol nas mesmas pedras. O verão foi luminoso e suave.

Gilliatt tinha sobre a cabeça as nuvens que perpassavam no céu.

Assentava-se na relva. Tudo estava cheio de um rumorejar de pássaros. Punha a cabeça nas mãos e perguntava a si próprio: Mas por que escreveu ela o meu nome na neve?

O vento do mar soprava ao longe grandes lufadas. De quando em quando, nas pedreiras longínquas de Vaudue, troava bruscamente a trombeta dos pedreiros, advertindo os passantes de que ia rebentar uma mina. Não se via o porto de Saint-Sampson; mas via-se a ponta dos mastros por cima das árvores. As gaivotas voavam esparsas. Gilliatt ouvira dizer a sua mãe que as mulheres podem amar os homens, e que isso acontecia algumas vezes. Lembrava-se, e respondia a si mesmo: É isso. Compreendo. Déruchette ama-me. Sentia-se profundamente triste. Dizia ele: Mas também ela pensa em mim; faz bem. Pensava em que Déruchette era rica, e ele pobre. Pensava que o vapor era uma invenção execrável.

Não podia lembrar nunca em que dia do mês estava. Contemplava vagamente os grandes zangões negros, de lombo amarelo e asas curtas, que penetram zumbindo nos buracos das paredes.

Déruchette recolhia-se uma noite ao quarto. Aproximou-se da janela para fechá-la. A noite estava escura. De repente, Déruchette aplicou o ouvido. Havia uma música no meio daquela noite profunda.

Alguém que provavelmente estava na vertente da colina, ou ao pé das torres do castelo do Vale, ou talvez mais longe, executava uma canção num instrumento. Déruchette reconheceu a sua melodia favorita Bonny Dundee tocada em bagpipe. Não compreendeu nada.

Desde então, ouviu ela muitas vezes a mesma coisa, à mesma hora, especialmente nas noites escuras.

Déruchette não gostava muito daquilo.

Passaram-se quatro anos.

Déruchette aproximava-se dos 21 anos e conservava-se solteira.

Já alguém escreveu algures: Uma idéia fixa é uma verruma. Vai-se enterrando de ano para ano. Para extirpá-la no primeiro ano é preciso arrancar os cabelos; no segundo rasga-se a pele; no terceiro ano quebra o osso; no quarto saem os miolos. Gilliatt estava no quarto ano.

Não tinha trocado uma só palavra com Déruchette. Pensava nela; era tudo.

Aconteceu-lhe uma vez, estando por acaso em Saint-Sampson, ver Déruchette conversando com Mess Lethierry diante da porta da casa que dava para a calçada do porto. Gilliatt arriscou-se a aproximar-se dela. Cuidava estar certo de que sorrira quando ele passou. Não era coisa impossível.

Também Mess Lethierry ouvia o bagpipe e notou a persistência desta música perto da janela de Déruchette. Música terna, circunst ância agravante. Não lhe agradavam namorados noturnos.

Queria casar Déruchette com dia claro, quando ela e ele quisessem e simplesmente, sem romance e sem música. Exasperado, procurou descobrir o amador e pareceu-lhe entrever Gilliatt. Meteu as unhas na barba em sinal de cólera e disse: Por que motivo vem aquele animal sanfonear-me à porta? Ama Déruchette, é claro.

Perde o tempo. Quem quiser Déruchette deve vir falar-me, e sem música.

Previsto desde muito, veio a realizar-se um acontecimento importante.

Anunciou-se que o Reverendo Jaquemin Herodes fora nomeado delegado do bispo de Winchester, decano da ilha e cura de Saint-Pierre-Port, e que partiria de Saint-Sampson logo depois de instalar o seu sucessor.

Estava a chegar o novo cura. Era ele gentleman de origem normanda, e chamava-se Joe Ebenezer Caudray.

A respeito dele havia circunstâncias que a benevolência e a malevolência comentavam em sentido inverso. Diziam que era moço e pobre, mas a mocidade era temperada por muita doutrina, e a pobreza por muita esperança. Na língua especial criada para a herança e a riqueza, a morte chama-se esperança. Era sobrinho e herdeiro do velho e opulento decano de Saint-Asaph. Morto este, ficava o outro rico. O Sr. Ebenezer Caudray era bem aparentado; tinha quase direito à qualidade de honorable. Quanto à sua doutrina, era julgada diversamente. Era anglicano, mas, segundo a express ão do Bispo Tilleston, era muito libertino, isto é, muito severo.

Repudiava o farisaísmo; ligava-se antes ao presbitério que ao episcopado.

Sonhava com a Igreja primitiva, onde Adão tinha o direito de escolher Eva, e Frumentanus, bispo de Hierópolis, raptava uma moça para ser mulher déle, dizendo aos pais: Ela quer e eu quero, já não sois nem pai nem mãe, eu sou o anjo de Hierópolis, e esta é minha esposa. O pai é Deus. A dar crédito aos boatos, o Sr.

Ebenezer Caudray subordinava o texto : Honrai pai e mãe ao texto, segundo ele, superior: A mulher é a carne do homem. A mulher deixará pai e mãe para acompanhar o marido. Mas, afinal de contas, esta tendência para circunscrever a autoridade paternal e favorecer religiosamente todos os modos de formar o vínculo conjugal é própria a todo o protestantismo, particularmente na Inglaterra e singularmente na América.

[editar] Justa Vitória é Sempre Malquista
Eis o balanço de Mess Lethierry, no tempo em que ocorria isto.

Durande cumpriu o que prometera. Mess Lethierry pagou as dívidas, reparou os prejuízos, satisfez as letras de Bremen, fez face aos vencimentos de Saint-Malo. Exonerou a casa em que morava das hipotecas, comprou todas as rendas locais inscritas sobre a casa. Era possuidor de um grande capital produtivo, a Durande. O rendimento líquido do navio era então de 1000 libras esterlinas e ia crescendo. A bem dizer, Durande era toda a fortuna dele. Era também a fortuna da terra. O transporte dos bois era dos que davam mais lucro; assim, para melhorar a arrumação a . bordo, e facilitar a entrada e saída do gado, suprimiram-se as malas e as faluas. Foi talvez imprudência. A Durande veio a ter apenas a chalupa. É verdade que a chalupa era excelente.

Já havia dez anos que Rantaine tinha roubado Mess Lethierry.

A prosperidade de Durande tinha um lado fraco, é que não inspirava confiança; acreditava-se que era puro acaso. A situação de Mess Lethierry era aceita como exceção. Dizia-se que ele fizera uma loucura feliz. Quis alguém fazer o mesmo em Cowes, na ilha de Wight, e teve mau êxito na tentativa. A tentativa arruinou os acionistas. Dizia Lethierry: É que a máquina foi mal construída.

Mas os outros abanavam a testa. As novidades tem contra si, o ódio de todos; o menor erro compromete-as.

Consultado acerca de um negócio de vapores, disse o banqueiro Jauge, de Paris, um dos oráculos comerciais do arquipélago normando: É uma conversão o que me propondes. Conversão de dinheiro em fumo. Os capitães teimavam em estar do lado da lona contra a caldeira.

. Em Guernesey a Durande era um fato, mas o vapor não era um princípio. Tal era a pertinácia da navegação diante do progresso. Dizia-se de Lethierry: Fez coisa boa, mas não há de meter-se em outra. Longe de animar, o exemplo dele causava medo. Ninguém ousaria arriscar segunda Durande.

[editar] Fortuna dos Náufragos Encontrando a Chalupa
Cedo anuncia-se o equinócio na Mancha. É um mar estreito, tolhe o vento e irrita-o. Desde fevereiro começam ali os ventos do oeste sacudindo as águas em todos os sentidos. A navegação torna-se inquieta; a gente da costa contempla o mastro de sinal; a todos preocupam os navios que podem estar em perigo. O mar aparece como uma emboscada; invisível clarim troa para uma estranha guerra. Longas e furiosas lufadas abalam o horizonte; é terrível o vento. A sombra silva e sopra. Na profundeza das nuvens o rosto negro da tempestade entumece as bochechas.

O vento é um perigo; o nevoeiro outro.

Os nevoeiros causam sempre medo aos navegadores. Há nevoeiros que trazem suspensos prismas microscópicos de gelo, aos quais Mariotti atribui as auréolas, os parélios e os paraselenes. Os nevoeiros tempestuosos são compósitos; vapores diversos de peso específico desigual combinam-se com o vapor da água e surperpõem-se em uma ordem que divide a bruma em zonas e faz do nevoeiro uma verdadeira formação.

Embaixo fica o iodo, acima do iodo o enxofre, acima do enxofre o bromo, acima do bromo o fósforo.

Isto, em certa proporção, deduzindo a tensão elétrica e magnética, explica muitos fenômenos, o santelmo de Colombo e de Magalh ães, as estrelas volantes de que fala Seneca, as duas chamas, Castor e Pólux, de que fala Plutarco, a legião romana que a César pareceu ver arderem os dardos, a lança do castelo do Duino no Frioul, que a sentinela acendia tocando com o ferro da sua lança, e talvez mesmo as fulgurações que os antigos chamavam relâmpagos terrestres de Satumo.

No equador, imensa bruma permanente parece cingir o globo, é o Cloud-ring, anel de nuvens.

O Cloud-ring resfria o trópico, do mesmo modo que o Gulf Stream aquece o pólo. Debaixo do Cloud-ring o nevoeiro é fatal. São essas as latitudes dos cavalos, Horse latitude; os navegadores dos últimos séculos, quando passavam ali, atiravam os cavalos ao mar, em ocasião de temporal para alijar o navio, em tempo de calma para economizar a água.

Dizia Colombo: Nube abajo és muerte. (Nuvem baixa, morte certa.

) Os etruscos, que são para a meteorologia o que os caldeus são para a astronomia, tinham dois pontificados - o pontificado do trovão e o pontificado da nuvem: uns observavam o relâmpago, outros o nevoeiro. O colégio dos átigures de Tarqüínia era consultado pelos tírios, fenícios e pelágicos, e de todos os navegadores primitivos do antigo Marinterno. O modo de geração das tempestades era entrevisto; ligava-se intimamente ao modo de geração dos nevoeiros, e, a bem dizer, é o mesmo fenômeno. Existem no mesmo oceano três regiões de brumas, uma equatorial, duas polares; os marinheiros dão-lhe um só nome - le pot au noir.

Em todas as paragens, e sobretudo na Mancha, os nevoeiros de equinócio são mui perigosos. Fazem anoitecer de súbito. Um dos perigos do nevoeiro, mesmo quando não é muito cerrado, é impedir que se reconheça a mudança de fundo pela mudança da cor da água; resulta daqui ficarem dissimulados os cachopos e parcéis. O navegador aproxima-se de um escolho sem ser advertido.

Muitas vezes os nevoeiros não deixam ao navio em marcha outro recurso que não seja por-se à capa ou ancorar. Há tantos naufrágios causados pelo nevoeiro como pelo vento.

Entretanto, após uma violentíssima borrasca que sucedeu a um dia de nevoeiro, a chalupa Cashemere chegou perfeitamente da Inglaterra.

Entrou em Saint-Pierre-Port aos primeiros raios do dia, no momento em que o Castelo Comet salvava o sol com um tiro.

Iluminava-se o horizonte. A chalupa Cashemere era esperada como devendo trazer o novo cura de Saint-Sampson. Pouco depois de chegar a chalupa, espalhou-se o boato de que encontrara à noite no mar outra chalUpa com uma equipagem. naufragada.

Boa Fortuna de Aparecer a Tempo

Naquela noite, Gilliatt, quando o vento amainou, saiu a pescar, sem afastar-se muito da costa.

Na volta, estando a maré a encher, pelas 2 horas da tarde, e fazendo um sol esplendido, quando Gilliatt passou por diante da Corne de Ia Bete para entrar na angra em que ficava a pança, pareceu-lhe ver na projeção da Cadeira Gild Holm-Ur uma sombra que não era a do rochedo. Deixou a pança chegar até ali e reconheceu que um homem estava assentado na Cadeira Gild-Holm- Ur. O mar já estava alto, a rocha estava cercada pela água, não era possível ao homem voltar para terra. Gilliatt gesticulou para o homem, o homem ficou imóvel. Gilliatt aproximou-se. O homem estava adormecido.

Tinha ele vestuário preto. Parece padre, pensou Gilliatt. Aproximou-se ainda mais e viu um rosto de adolescente.

Não conheceu quem era.

A rocha felizmente era a pique; havia muito fundo; Gilliatt Costeou a muralha. A maré levantava a barca quanto bastava Para que Gilliatt, pondo-se de pé sobre a pança, pudesse tocar os pés do homem. Gilliatt levantou-se sobre a borda e ergueu os braços. Se caísse naquele momento, é duvidoso que tornasse a aparecer. A vaga batia entre a pança e o rochedo, era inevitável ser esmagado.

Gilliatt puxou o pé do homem adormecido.

— Olá, que faz aí?

O homem acordou.

— Estou olhando - disse ele.

Depois, acordando de todo, continuou: — Cheguei há pouco à terra, vim passear aqui; passei a noite no mar, achei a vista bonita, estava cansado, adormeci.

— Dez minutos mais, afogar-se-ia - disse Gilliatt.

— Ah!

— Salte para a barca.

Gilliatt susteve a barca com o pé, pós uma das mãos no rochedo e estendeu a outra ao homem, que pulou lentamente na barca. Era um bonito rapaz.

Gilliatt tomou o leme; em dois minutos, a pança chegou à angra da casa mal-assombrada.

O moço tinha chapéu redondo e gravata branca. Trazia abotoada até o pescoço a comprida sobrecasaca preta. Tinha cabelos loiros, rosto feminino, olhar puro, ar grave.

Entretanto a pança tocou em terra. Gilliatt passou o cabo na argola da amarra, depois voltou-se, e viu a mão do moço que lhe apresentou um soberano de ouro.

Gilliatt repeliu docemente a mão.

Houve um silêncio. O moço falou: — Salvou-me a vida - disse ele.

— Talvez - respondeu Gilliatt.

A pança estava amarrada. Saíram da barca.

O moço continuou: — Devo-lhe a vida, senhor.

— Que importa isso?

Essa resposta de Gilliatt foi acompanhada de novo silêncio. É desta paróquia o senhor? - perguntou o mancebo. Não - respondeu Gilliatt. De que paróquia é então?

Gilliatt levantou a mão direita, mostrou o céu e disse: — Daquela.

O moço cumprimentou e foi caminhando.

Depois de alguns passos, voltou, meteu a mão no bolso, tirou um livro e voltou-se para Gilliatt.

— Consinta que lhe ofereça isto.

Gilliatt tomou o livro.

Era uma Bíblia.

Instantes depois, Gilliatt, encostado ao parapeito, olhava para o moço, que voltava o ângulo do caminho que, ia ter a Saint-Sampson.

A pouco e pouco abateu a cabeça, esqueceu o mancebo, não soube mais se existia a Cadeira Gild-Holm-Ur, e tudo desapareceu, na imersão sem fundo do cismar. Gilliatt tinha um abismo, Déruchette.

Tirou-o daquele abismo uma voz que lhe gritou: — Olá, Gilliatt!

Reconheceu a voz e ergueu os olhos.

— Que há, Sr. Landoys?

Era com efeito o Sr. Landoys, que passava na estrada a cem passos da casa, no seu faeton, com um pequeno cavalo. Parou a fim de chamar Gilliatt à fala, mas parecia atarefado e apressado: — Há novidade, Gilliatt.

— Onde?

— Na casa de Mess Lethierry.

— O que há?

— Estou longe para lhe contar o caso.

Gilliatt estremeceu.

— Casa-se Miss Déruchette?

— Não. Mas — Que quer dizer?

— Vá lá à casa dele, que há de saber.

E o Sr. Landoys chicoteou o cavalo

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