Clubin não foi à Pousada João, nem na noite de terça-feira, nem na noite de quarta-feira. Nesta noite, ao escurecer, dois homens entraram Coutanchez; pararam diante da Jacressarde. Um deles bateu na vidraça. Abriu-se a porta da loja. Entraram ambos. A mulher da perna de pau deu-lhes o sorriso reservado aos burgueses.
Havia urna vela sobre uma mesa.
Os dois homens eram efetivamente burgueses. O homem que tinha batido na vidraça disse: - Boa noite, mulher. Venho por aquilo.
A mulher da perna de pau sorriu segunda vez e saiu pela porta que dava para o pátio. Minutos depois abriu-se de novo a porta, e apareceu um homem pela fresta, trazendo boné e blusa, debaixo da qual havia uni objeto volumoso. Tinha uns fios de palha nas dobras da blusa e pelos olhos via-se que acabava de acordar.
O homem avançou. Olharam-se todos. O homem da blusa tinha um ar turvado e esperto.
- O senhor é o armeiro? - disse ele.
O homem que tinha batido respondeu: - Sim. O senhor é o Parisiense? - Chamado Reaurouge. Sim.
- Deixe ver.
- Aqui está.
O homem tirou debaixo da blusa um instrumento muito raro na Europa naquela época, um revólver.
O revólver era novo e brilhante. Os dois burgueses examinaram-no.
O que pareceu conhecer a casa e a quem o homem da blusa chamou armeiro fez mover o mecanismo. Entregou depois a arma ao outro burgues, que parecia não ser morador na cidade, e que se conservava com as costas voltadas para a luz.
O armeiro perguntou: - Quanto custa? O homem da blusa respondeu: - Venho da América. Há pessoas que trazem macacos, papagaios, animais, como se os franceses fossem selvagens. Eu. trouxe isto.
É uma invenção útil.
- Quanto custa? - perguntou de novo o armeiro.
- É uma pistola que faz molinete.
- Quanto custa? - Paf. Primeiro tiro. Paf. Segundo tiro. Paf... é uma saraivada! Isto faz obra.
- Quanto custa? - Tem seis canos.
- Mas quanto custa? - Seis canos são 6 luíses.
- Quer 5 luíses? - Impossível. Um luís por cada bala. É o preço.
- Quer fazer negócio, seja razoável.
- Já disse o preço. Examine-me esta obra, senhor arcabuzeiro.
- Já examinei.
- O molinete anda de roda como o Sr. Talleyrand. Podiam por este molinete no dicionário das ventoinhas. É uma jóia.
- Já vi.
- Os canos são de fábrica espanhola.
- Já reparei.
- São lavrados. A coisa arranja-se assim. Deita-se na forja uma alcofá de ferros velhos, cravos, ferraduras quebradas ...
- E velhas lâminas de foices.
- Ia dize-lo, senhor armeiro. Depois deita-se em cima uma boa porção de fogo, e sai disto tudo um magnífico instrumento de ferro.
- Sim, mas pode ter gretas e buraquinhos; pode sair.
- Sim. Mas tudo se arranja.
- O senhor é do oficio? - Tenho todos os oficios.
- Os canos são brancos.
- É beleza, senhor armeiro. Faz-se isto com borra de antimônio.
- Dizíamos nós que isto custa 5 luíses.
- Tomo a liberdade de observar que eu tive a honra de dizer 6 luíses.
O armeiro abaixou a voz.
- Ouça, Parisiense. Aproveite a ocasião. Desfaça-se disto. isto para vocês não vale nada. Chama a atenção.
- Na verdade - disse Parisiense -, é um tanto vistoso. É melhor para um burgues.
- Quer 5 luíses? - Não, 6. Um por cada buraco.
- Pois bem, 6 napoleões.
- Quero 6 luíses.
- Não é bonapartista. Prefere um luís a um napoleão? Parisiense sorriu.
- Napoleão é melhor - disse ele -, mas luís vale mais.
-Seis napoleões.
- Seis luíses. É para mim uma diferença de 80 francos.
- Então não fazemos nada.
- Pois sim. Guardo o revólver.
- Guarde.
- Abater o preço! pois não! não se dirá que eu me desfiz sem mais nem menos de uma invenção destas! Então, boa noite. É um progresso sobre a pistola, que os indios chesapeakes chamam Nortayu- Hoh.
- Cinco luíses a vista, é ouro.
- Nortay-u-Hoh quer dizer espingarda pequena Muitas pessoas ignoram isto.
- Quer 5 luíses e mais 1 escudo? - Eu já disse que custa 6.
O homem que estava de costas para a luz e que ainda não tinha falado, fazia mover o mecanismo. Aproximou-se do armeiro e disse- lhe ao ouvido: - A arma é boa? - Excelente.
- Eu dou os 6 luíses.
Cinco minutos depois, enquanto Parisiense apertava em um buraco feito na manga da blusa os 6 luises de ouro que acabava de receber, o armeiro e o comprador, levando no bolso da calça o revólver, saíram da viela Coutanchez.
No dia seguinte, que era quinta-feira, a pouca distância de Saint-Malo, perto da ponta do Decollé, num lugar em que as rochas das praias são altas, e o mar profundo, passou-se uma coisa trágica.
Nada mais freqüente na arquitetura do mar que uma língua de rochedos em forma de lança, que se prende à terra por um istmo estreito, prolonga-se na água e acaba-se aí bruscamente em forma de rochedo a pique. Para chegar ao alto desse rochedo, indo da praia, segue-se um plano inclinado cuja subida é às vezes assaz difícil No alto de um rochedo desse gênero, achava-se em pé; pelas 4 horas da tarde, um homem embrulhado em uma larga capa de uniforme, e provàvelmente armado, o que era fácil de reconhecer por certas dobras retas e angulosas do manto. O sítio em que estava esse homem era uma plataforma assaz vasta semeada de cubos à semelhança de seixos imensos, deixando entre si estreita passagem. Esta plataforma onde brotava uma ervazinha estreita e curta terminava do lado do mar por um espaço livre, que ia dar a um despenhadeiro, de uns 60 pés de altura, acima do mar, e parecia talhado com um prumo. Entretanto, o ângulo da esquerda ia-se arruinando e oferecia uma dessas escadas naturais próprias aos granitos marinhos, cujos degraus pouco cômodos exigem às vezes pernas de gigante ou pulos de clowns. Descia perpendicularmente ao mar e mergulhava nas águas. Era um quebra-costas.
Podia-se, contudo, a rigor, ir por ali embarcar na muralha da língua de rochas.
Soprava uma brisa. O homem, apertado na capa, firme nas pernas, com o cotovelo direito na mão esquerda, piscava um olho e aplicava ao outro um óculo. Parecia absorto em uma atenção séria.
Aproximou-se da borda do rochedo, e ali estava imóvel com o olhar imperturbavelmente fito no horizonte. A maré estava cheia.
A vaga batia por baixo dele no sopé do rochedo.
O que o homem observava era um navio ao largo que fazia manobras singulares.
Esse navio, que apenas uma hora antes saíra de Saint-Malo, tinha parado por trás dos Banquetiers. Era uma galera. Não tinha deitado âncora, talvez porque o fundo não lho permitisse, e porque o navio teria prendido a âncora debaixo do gurupés. Limitou-se a por-se à capa.
O homem, que era guarda-costa, como o uniforme indicava, espiava todas as manobras do navio e parecia tomar nota mentalmente.
O navio tinha atravessado: era o que indicava a vela ré alada a barlavento, e as de proa largas por mão; tinha braceado o pano de ré o mais que lhe foi possível, de forma que neutralizava a força dos de proa. Deste modo, caindo a sotavento, não perdia mais de milha e meia por hora.
O dia ainda estava claro, sobretudo em pleno mar e no alto das rochas. Mas ao pé das costas começava a escurecer.
O guarda-costa, entregue ao seu trabalho, e espionando conscienciosamente ao largo, não tinha pensado em examinar o rochedo ao lado e embaixo. Dava as costas para a escada pouco praticável que punha em comunicação a plataforma com o mar. Não reparou que alguma coisa andava ali em movimento. Havia nessa escada, por trás da anfratuosidade, alguma pessoa, um homem escondido ali, segundo parecia, antes da chegada do guarda-costa. De tempos a tempos na sombra, aparecia uma cabeça por baixo da rocha, olhava para cima e espiava o espião. Essa cabeça coberta por um largo chapéu americano, era a cabeça do quaker, que, uns dez dias antes falara nas pedras do Petit Bey ao Capitão ZueIa.
De repente pareceu redobrar a atenção do guarda-costa.
Limpou rápidamente com a manga o vidro do óculo e firmou-o com energia sobre o navio.
Destacara-se um ponto negro.
O ponto negro, semelhante a uma formiga no mar, era uma barcaça.
A barcaça parecia querer ganhar a terra. Era tripulada por alguns marinheiros que remavam vigorosamente.
Já obliquava a pouco e pouco e dirigia-se para a ponta do Decollé.
A espreita do guarda-costa chegou ao seu maior grau de fixidez.
Ele não perdia nenhum dos movimentos da barcaça. Aproximou-se mais ainda da borda do rochedo.
Neste momento um homem de alta estatura, o quaker, surgiu por trás do guarda-costa, no alto da escada. O espião não viu o quaker.
Parou este alguns instantes, com os braços caídos e os punhos crispados, e, com o olhar do caçador que aponta, olhou para as costas do espião.
Quatro passos apenas o separavam do guarda-costa; adiantou um pé, depois parou; deu outro passo e parou outra vez; o único movimento que fazia era andar, o resto do corpo era estátua; o pé firmava-se na relva sem rumor; deu terceiro passo e parou; estava quase tocando o guarda-costa, sempre imóvel, com o óculo fixo. O homem ajuntou as duas mãos fechadas na altura das suas clavículas, depois, bruscamente, abateram-se os antebraços, e os dois punhos, como que soltos por uma mola, bateram nos ombros do guarda-costa. O choque foi sinistro. O guarda-costa nem teve tempo de soltar um ai. Caiu de cabeça no mar. Viram-se-lhe os pés durante o tempo de um relâmpago. Foi uma pedra na água.
A água cerrou-se depois, descrevendo dois ou três grandes círculos.
Ficou apenas o óculo escapo às mãos do guarda-costa e caído no chão.
O quaker inclinou-se à borda das rochas, viu acalmar-se a água, esperou alguns minutos, depois endireitou-se, cantando entre os dentes:
Monsieur de la police est mortEn perdant la vie.
Inclinou-se outra vez. Nada reapareceu. Sómente no lugar onde o guarda-costa tinha caído, formou-se na superfície da água uma espécie de espessura negra, que se alargava no movimento da vaga. Era provável que o guarda-costa tivesse quebrado o crânio em alguma rocha submarina. O sangue subira e fazia aquela mancha na espuma.
O quaker, contemplando aquela mancha, continuou:
Un quart d'heure avant sa mort,Il était encore...
Não acabou.
Ouviu atrás de si uma voz doce que lhe dizia: - Ora viva, Rantaine. Acaba o senhor de matar um homem. Ele voltou-se, e viu a quinze passos, no intervalo de dois rochedos, um homem baixo que tinha um revólver na mão.
Respondeu: - Como vê. Bom dia, Sr. Clubin.
O homem baixo estremeceu.
- Reconheceu-me? - Não me reconheceu o senhor? - disse Rantaine.
Entretanto, ouviu-se um rumor de remos no mar. Era a barcaça observada pelo guarda-costa que se aproximava.
O Sr. Clubin disse a meia voz como se falasse consigo: - A coisa foi rápida.
- Em que precisa de mim? - perguntou Rantaine.
- Pouca coisa. Há quase dez anos que nos não vemos.
O senhor há de ter feito bons negócios. Como está de saúde? - Bem - disse Rantaine. - E o senhor? - Perfeitamente - respondeu Clubin.
Rantaine deu um passo para o Sr. Clubin.
Um pequeno som chegou aos seus ouvidos. Era o Sr. Clubin. que armava o revólver.
- Rantaine, estamos a quinze passos. É uma boa distância. Fique onde está.
- Ali! Mas o que quer o senhor de mim? - Venho conversar.
Rantaine não se mexeu. O Sr. Clubin continuou: - O senhor matou agora mesmo um guarda-costa.
Rantaine levantou a aba do chapéu e respondeu: - Já me fez a honra de dize-lo.
- Em termos menos precisos. Disse há pouco: um homem; agora digo: um guarda-costa. O guarda-costa tinha o número 619. Era um pai de família. Deixa mulher e cinco filhos.
- Deve ser assim - disse Rantaine.
Houve um imperceptível tempo de silêncio.
- São homens escolhidos esses guarda-costas - disse Clubin. Quase todos antigos marítimos.
- Notei que em geral deixam mulher e cinco filhos.
Clubin continuou: - Adivinhe quanto me custou este revólver.
- É um lindo instrumento - respondeu Rantaine.
- Quanto vale? - Vale muito.
- Custou-me 144 francos.
- Comprou naturalmente na loja de armas da Rua Coutanchez.
Clubin continuou.
- O guarda-costa nem gritou. A queda corta a voz.
- Sr. Clubin, há de ventar esta noite.
- Eu sou o único que sei do segredo.
- Continua a morar na Pousada João? - Sim. Vive-se bem ali.
Já lá comi muito boa couve fermentada.
Rantaine, o senhor deve ser excessivamente forte. Tem cada espádua! Não seria eu quem lhe levariaum piparote. Era tão raquítico quando vim ao mundo, que nem se sabia se me poderiam criar.
- Felizmente criou-se.
- Sim, e continuo a morar na Pousada João.
- Sabe por que motivo eu o reconheci, Sr. Clubin? Porque o senhor me tinha reconhecido. Disse comigo: só Clubin pode reconhecer-me.
E adiantou um passo.
- Fique onde estava, Rantaine.
Rantaine recuou e disse à parte: - A gente torna-se criança diante destes instrumentos.
O Sr. Clubin continuou.
-Situação. Temos aqui à direita, do lado de Saint-Enogat, a trezentos passos, outro guarda-costa, número 618, que está vivo, e à esquerda, do lado de Saint-Lunaire, um posto de alfândega.
Sete homens armados que podem estar aqui dentro de cinco minutos.
O rochedo ficará cercado. O desfiladeiro ficará guardado.
Impossível fugir. Há um cadáver ao pé da rocha.
Rantaine deitou um olhar oblíquo ao revólver.
- Como diz, Rantaine. É um lindo instrumento. Talvez esteja carregado com pólvora seca. Mas que importa? Basta um tiro para fazer correr a força armada. Tenho seis tiros.
O choque alternativo dos remos tornava-se mais distinto. A barca- ça não estava longe.
O homem alto olhava estranhamente para o homem baixo. Sr. Clubin falava com um ar cada vez mais tranqüilo e doce.
- Rantaine, os homens da barcaça que vai chegar, sabendo o que fez há pouco, ajudar-me-iam a prende-lo. O senhor paga 10 000 francos de passagem ao Capitão Zuela. Entre parentesis, a passagem ficaria mais barata se tratasse com os contrabandistas de Plainmont, mas estes só o levariam para Inglaterra, e demais o senhor não pode arriscar-se a ir a Guernesey, onde há quem tenha a honra de conhece-lo. Volto à situação. Se eu disparar, prendem-no.
Nesse caso pagará a Zuela 10 000 francos de fuga. Já lhe deu 5 000 francos; ZueIa guardará esses 5 000 francos e vai-se embora.
É isto, Rantaine, acho-o bem rebuçado. Esse chapéu, esse casaco e essas polainas disfarçam-no. Esqueceram-lhe os óculos.
Fez bem em deixar crescer as suíças.
Rantaine sorriu como quem range os dentes. Clubin continuou: - Rantaine, o senhor tem uma calça americana com duas algibeiras.
Numa delas tem o seu relógio. Guarde-o.
- Obrigado, Sr. Clubin.
- Na outra há uma caixinha de ferro batido, que abre e fecha por molas. É uma velha boceta de marinheiro. Tire-a do bolso e atirea para cá.
- Mas isto é um roubo! - Pode chamar a guarda.
E Clubin fixou os olhos em Rantaine.
- Olhe, Mess Clubin. .
. - disse Rantaine dando um passo e estendendo a mão aberta.
Mess era uma lisonja.
- Fique onde está, Rantaine.
- Mess Clubin, arranjemos as coisas. Ofereço-lhe metade.
Clubin executou um cruzar de braços, mostrando a boca do revólver.
- Rantaine, que pensa que eu sou? Sou um homem honrado. E acrescentou, depois de uma pausa: - Quero tudo.
Rantaine disse entre dentes: - É temível este.
Entretanto, acenderam-se os olhos de Clubin. A voz tornou-se cortante como o aço. Disse ele: - Creio que se engana. O seu nome é que é Roubo, o meu é Restituição. Ouça, Rantaine. Há dez anos saiu o senhor de Guernesey à noite, tomando da caixa de uma sociedade 50 000 francos que lhe pertenciam e esquecendo de lá deixar 50 000 francos que pertenciam a outro. Esses 50 000 francos roubados ao seu sócio, o excelente e digno Mess Lethierry, fazem hoje, com os juros acumulados de dez anos, 80 666 francos e 66 cêntimos. O senhor entrou ontem na casa de um cambista. Reluchet chama-se ele, Rua de São Vicente. Deu-lhe 76 000 francos em bilhetes de banco francêses e em troca deu-lhe ele três bank-notes da Inglaterra de 1000 libras esterlinas cada uma, e mais uns trocos. O senhor pOs essas banknotes na boceta de ferro e a boceta de ferro na algibeira direita. As 3 000 libras esterlinas fazem 75 000 francos. Em nome de Mess Lethierry contento-me com isso. Parto amanhã para Guernesey, e vou levar-lhos. Rantaine, a galera que ali está à capa é o Tarnaulipas. O senhor embarcou ali esta noite as malas misturadas com os sacos e canastras da equipagem.
Quer sair da França. Tem suas razões para isso. Vai a Arequipa. A barcaça vem buscá-lo. Está à espera dela. Ela aí vem. Já a estamos ouvindo. Depende de mim deixá-lo partir ou obrigá-lo a ficar. Basta de palavras. Atire cá a boceta de ferro.
Rantaine abriu a bolsa, tirou uma caixinha de ferro e atirou-a a Clubin. A caixinha foi rolar aos pés de Clubin.
Clubin inclinou-se sem abaixar a cabeça, e apanhou a boceta, tendo dirigidos contra Rantaine os dois olhos e os canos do revólver.
Depois disse: - Meu amigo, volte as costas.
Rantaine voltou as costas.
O Sr. Clubin pos o revólver debaixo do braço e apertou a mola da caixinha. A caixinha abriu-se.
Havia dentro quatro bank-notes, três de 1000 libras, e uma de 10 libras.
Clubin dobrou as três notas de 1000 libras, po-las outra vez na caixinha, fechou-a e meteu-a no bolso.
Depois apanhou no chão uma pedra. Embrulhou a pedra no bilhete de 10 libras e disse: - Volte para cá.
Rantaine voltou-se.
O Sr. Clubin continuou: - Disse-lhe que me contentava com as 3 000 libras. Aqui vão as 10.
libras.
E atirou a Rantaine o bilhete e mais o lastro de pedra.
Rantaine, com um pontapé, deitou o bilhete e a pedra ao mar.
- Como queira - disse Clubin. - Vamos lá, o senhor há de estar rico. Estou tranqüilo.
O rumor dos remos que se tinha aproximado durante o diálogo cessou. Indicava isto que a barcaça estava ao pé das rochas.
- Está embaixo o seu carro. Pode ir, Rantaine.
Rantaine dirigia-se para a escada e desceu.
Clubin foi com precaução até a borda do rochedo e adiantando a cabeça, viu descer Rantaine.
A barcaça tinha parado ao pé do último degrau do rochedo, no mesmo lugar em que tinha caído o guarda-costa.
Vendo descer Rantaine, Clubin murmurou: - Bom número 619! Pensava que estava só. Rantaine pensava que eram apenas dois. Só eu sabia que éramos três.
Clubin viu no chão o óculo do guarda-costa; apanhou-o.
Começou o ruído dos remos. Rantaine acabou de pular na barcaça e esta tomava o largo.
Quando Rantaine achou-se na barca, indo-se já afastando dos rochedos, levantou-se bruscamente, a face tornou-se-lhe monstruosa; mostrou o punho e gritou: - Ah! o próprio diabo é um canalha! Instantes depois, Clubin do alto das rochas e fixando o óculo na barcaça, ouviu distintamente estas palavras, articuladas por uma voz grossa, no meio do rumor do mar: - O Sr. Clubin é um homem honrado, mas consinta que eu escreva a Lethierry para participar-lhe o fato, e aqui vai nesta barcaça um marinheiro de Guernesey que é da equipagem do Tamaufipas, que se chama Ahier Tortevin, e que há de voltar a Saint-Malo, na próxima viagem de Zuela, e que será testemunha de que eu lhe entreguei para Mess Lethierry a soma de 3 000 libras esterlinas.
Era a voz de Rantaine.
Clubin era o homem das coisas bem feitas. Imóvel como estivera o guarda-costa, e no mesmo lugar, com o óculo no olho, não perdeu de vista a barcaça. Viu diminuirem-se os remos, desaparecer, reaparecer, aproximar-se a barcaça do navio; e pode reconhecer a alta corpulência de Rantaine no tombadilho do Tamaulipas.
Quando a barcaça foi içada, o Tamaulipas entrou a preparar-se. A brisa soprava de terra, o navio abriu as velas todas, o óculo de Clubin continuava fixo no lineamento cada vez mais simplificado e, meia hora depois, o Tamaulipas era apenas um ponto negro que ia a diminuir-se, a diminuir-se, a diminuir-se no céu amarelo do crepúsculo.
Nessa noite, o Sr. Clubin recolheu-se tarde.
Uma das causas da sua demora é que antes de recolher-se foi ele até a porta Dinan, onde havia tavernas. Tinha comprado em uma dessas tavernas, onde não era conhecido, uma garrafa de aguardente que pos em uma larga algibeira da japona como se quisesse esconde-la; depois, devendo a Durande sair no dia seguinte de manhã, foi a bordo para ver se tudo estava em ordem.
Quando o Sr. Clubin entrou na Pousada João, já não havia na sala baixa senão o velho capitão de longo curso, Gertrais Gaboureau, bebendo e fumando cachimbo.
O Capitão Gertrais-Gaboureau cumprimentou o Sr. Clubin entre um gole e uma baforada.
- Good-bye, Capitão Clubin.
- Boa noite, Capitão Gertrais.
- Com que então, lá se foi o Tamaufipas.
- Ah! - disse Clubin -, não reparei.
O Capitão Gertrais-Gaboureau cuspiu e disse: - Raspou-se o Zuela.
- Quando? - Esta noite.
- Onde vai? - Vai ao diabo.
- Sim, mas onde? - A Arequipa.
- Não sabia - disse Clubin.
Acrescentou: - Vou dormir.
Acendeu a vela, caminhou para a porta e voltou.
- Já foi a Arequipa, Capitão Gertrais? - Sim. Há anos.
- Onde se costuma a arribar? - Em diversos portos. Mas o Tamaulipas não arribará em parte alguma.
O Sr. Gertrais-Gaboureau deitou na borda de um prato a cinza do cachimbo e continuou: - Conhece o Cheval-de-Troie e o Trentemousin, que foram a Cardiff.
Não opinei a favor da partida por causa do tempo. Voltaram em belo estado. Chevai-de-Troie levava terebintina e abriu água, e fazendo trabalhar as bombas perdeu no meio da água todo o carregamento.
Quanto ao Trentemousin, ficou bem estragado; quebrou-se-lhe o cepo da âncora, o botalós, ovéns; não sofreu o mastro de mesena, mas teve um forte abalo. Caiu o ferro dogurupés, que aliás não só ficou machucado, mas completamentenu. Veja o que resulta de não ouvir conselhos.
Clubin tinha posto a vela na mesa, e pos-se a pregar de novo uma porção de alf inetes que tinha na japona.
Disse:
- Não dizia, capitão, que o Tamaulipas não arriba em porto algum? - Não. Vai direito ao Chile.
- Neste caso não pode mandar notícia alguma em caminho - Perdão, Capitão Clubin. Primeiramente pode entregar despachos a todos os navios que encontrar em caminho para a Europa.
- É justo.
- Depois, tem a caixa de cartas do mar.
- A que chama o senhor caixa de cartas do mar? - Não sabe, Capitão Clubin? - Não.
- É quando se passa pelo estreito de Magalhães.
- Que há então? - Neva em toda a parte, temporal sempre, ruins ventos, mar de trezentos diabos.
- Depois? - Quando se dobra o cabo Monmouth.
- Bem. Depois? - Depois, dobra-se o cabo Valentin.
- E depois? - Depois dobra-se o cabo Isidoro.
- E depois? - Dobra-se a ponta Ana.
- Bem. Mas o que é que chama caixa das cartas do mar? - Chegamos à caixa. Montanhas à direita, montanhas à esquerda.
De todos os lados aves marinhas. Terrível sítio! Ah! com um milhão de diabos! que clitisma e que matinada! A borrasca ali não precisa de auxílio. Toca a vigiar a cinta da popa! toca a diminuir as velas! Da vela grande passava ao juanete! Lufada sobre lufada! Quatro, cinco, seis dias de capa. Quantas vezes de um velame novinho em rolha não nos fica senão o fio. Que dança! furacões capazes de fazer saltar uma galera como fosse uma pulga. Já vi num brigue inglês, o True Blue, um grumete ocupado com o pau da giba ser levado por um milheiro de ventos, com pau e tudo. Anda-se no ar como borboletas! Vi o contramestre da Revenue ser arrancado do navio e morrer: A cinta do meu navio quebrou-se, e todas as peças de madeira do convés ficaram despedaçadas. A gente sai dali com as velas comidas, até fragatas de cinqüenta fazem água como se rossem cestos. E a endiabrada costa! É o que há de mais danado. Rochedos retalhados como por criancice. Aproxima-se a gente de Porto Fome. Aí é pior que pior. São as lâminas mais agudas que tenho visto. Paragens do inferno. De repente veem-se estas duas palavras escritas com tinta vermelha: Post-Office.
- Que quer dizer, Capitão Gertrais? - Quero dizer, Capitão Clubin, que logo depois de dobrar o cabo Ana vê-se em uma pedra de 100 pés de altura um grande pau. É um poste com uma barrica no alto. Essa barrica é a caixa das cartas. Os inglêses escreveram em cima: Post-Office.
Por que se meteram eles nisto? Aquilo é o correio do oceano; não pertence a esse honrado gentieman, o rei da Inglaterra. A caixa das cartas é comum. Pertence a todas as bandeiras. Post-Office, há nada mais chines! Parece uma xícara de chá que o diabo oferece em pleno oceano. Eis como se faz o serviço. Todos os navios que passam expedem ao poste um escaler com os seus despachos. O navio que vem do Atlântico envia cartas para a Europa, e o navio que vem do Pacífico manda cartas para a América. O oficial que comanda o escaler põe na barrica o maço de cartas e tira o maço que lá encontra. Toma-se conta dessas à espera que o próximo navio tome conta das cartas que se deixam. Como se navega em sentido contrário, o continente donde o senhor vem é aquele para onde eu vou. Levo as suas cartas, o senhor leva as minhas. A barrica está presa ao poste por uma corrente de ferro. E chove! E neva! Mar dos diabos! O Tamaulipas ficará aí. A barrica tem uma tampa mas sem fechadura nem cadeado. Bem vê que se pode escrever aos amigos. As cartas chegam ao seu destino.
- É esquisito - murmurou Clubin, pensativo.
O Capitão Gertrais-Gaboureau voltou-se para a bebida.
- Suponhamos que o brejeiro do Zuela me escreva, meta as suas garatujas na barrica de Magalhães, e dentro de quatro meses tenho as cartas do patife. Diga-me lá, Capitão Clubin, sai amanhã? Clubin, absorto em uma espécie de sonambulismo, não ouviu. O Capitão Gertrais repetiu a pergunta.
Clubin despertou.
- Sem dúvida, Capitão Gertrais. É o dia marcado. Devo sair amanhã de manhã.
- Pois olhe, eu não saía. Capitão Clubin, os cães tem o pelo molhado.
As aves marinhas andam há duas noites à roda do farol. Mau sinal. Estamos no segundo quarto da lua; é o máximo da umidade.
Vi há pouco pimpinelas que fechavam as rolhas e um campo de trevo cujas hastes estavam retesadas. Os vermes saem do chão, as moscas mordem, as abelhas não se afastam dos cortiços, os pardais consultam-se. Ouve-se o som dos sinos de longe. Eu ouvi hoje o sino de Saint-Lunaire dar ave-marias. E ao por do sol havia muitas nuvens no horizonte. Amanhã há de haver grande nevoeiro. Não lhe digo que parta. Receio mais o nevoeiro que o furacão.
Grande sonso o nevoeiro
OS ROCHEDOS DOUVRES
Cerca de 5 léguas, em pleno mar, ao sul de Guernesey, em face da ponta de Plaínmont, entre as ilhas da Mancha e Saint-Malo, há um grupo de cabeços chamados rochedos Douvres. Funesto lugar esse.
Esta denominação Douvre (Dover) pertence a muitos cachopos e rochedos. Há especialmente perto das costas do norte uma rocha Douvre na qual se constrói agora mesmo um farol, escolho perigoso, mas que não deve ser confundido com este.
O ponto da França mais próximo do rochedo Douvres é o cabo Brehant. O rochedo Douvres é um pouco mais longe da costa da França que a primeira ilha do arquipélago normando. A distância desse escolho a Jersey mede-se pouco mais ou menos pela grande diagonal de Jersey. Se a ilha de Jersey se voltasse sobre a Corbière: como sobre um eixo, a ponta de Santa Catarina iria quase bater nos Douvres. É uma distância de quase 4 léguas.
Nesses mares da civilização os rochedos mais selvagens são raramente desertos. Encontram-se contrabandistas em Hagot, guardas da alfândega em Binic, cultivadores de ostras em Cancale, caçadores de coelhos em Césambre, ilha de César, apanhadores de caranguejos em Brecq-Hou, pescadores de rede em Minquiers e Ecré-Hou. Nos rochedos Douvres, ninguém.
As aves marinhas estão ali em sua casa.
Não há pior encontro. Os Casquets, onde dizem que se perdeu a Blanche Nef, o banco Calvados, as pontas da ilha de Wight, a Ronesse que faz a costa de Beaulieu tão perigosa, os baixios de Préel que tornam tão angustiosa a entrada de Merquel e que obrigam a deitar a umas 20 braças a baliza vermelha, as proximidades pérfidas de Étables e de Plouha, as duas druidas de granito do sul de Guernesey, o velho Anderlo e o pequeno Anderlo, a Corbière, os Hanois, a ilha de Ras, recomendada ao medo por este provérbio: Quando passares o Ras, se não morreres, tremerás; as Mortes Femmes, a passagem do Boue e de Frouquie, a Deroute entre Guernesey e Jersey, a Hardent entre os Minquiers e Chausey, o Mativais-Cheval entre o Boulay-Bay e Berneville, são mal afamados.
Vale mais afrontar todos os cachopos do que o Douvres uma só vez.
Em todo o perigoso mar da Mancha que é o mar Egeu do Ocidente, o rochedo Douvres só tem um rochedo igual no terror que inspira, é o escolho Pater Noster entre Guernesey e Serk.
E ainda no Pater Noster pode-se fazer um sinal; quem está ali em perigo pode ser socorrido. Vê-se ao norte a ponta Dicard ou de Icaro, ao sul, Gros-Nez. Do rochedo Douvres não se vê nada.
O vento, a água, a nuvem, o ilimitado, o inabitado.
Só se passa ali perdido. Os granitos são de uma estatura brutal e hedionda. Avultam as rochas escarpadas. Severa inospitalidade do abismo.
É mar alto. A água é profunda. Um escolho absolutamente isolado, como o rochedo Douvres, atrai e abriga os animais que precisam afastar-se dos homens. É uma espécie de vasta madrépora submarina.
É um labirinto afogàdo. Há ali, em profundezas que difícilmente alcançam os mergulhadores, antros, cavas, cavernas, cruzamentos de ruas tenebrosas. Pululam as espécies monstruosas.
Devoram-se umas às outras. Os caranguejos comem os peixes, e são devorados também. Formas medonhas, feitas para não serem vistas por olhos humanos, andam vivas naquela obscuridade.
Vagos lineamentos de goelas, antenas, tentáculos, barbatanas, bOcas abértas, escamas, garras, unhas flutuam, tremem, engrossam, decompõem-se e desfazem-se na transparência sinistra.
Tremendos nadadores andam ali na labutação. É uma colmeia de hidras.
Ali o horrível é ideal.
Imagina, se podes, um formigueiro de holotúrias.
Ver o interior do mar é ver a imaginação do Ignoto. É veIa do lado terrível. O golfão é análogo à noite. Também aí há sono, sono aparente ao menos, da consciência da criação. Cometem-se ali em plena segurança os crimes da irresponsabilidade. Os esboços da vida, fantasmas quase, completos demônios, vagam ali, em medonha paz, nas sombrias ocupações da sombra.
Há quarenta anos, duas rochas de forma extraordinária assinalavam de longe o escolho Douvres aos viandantes do oceano. Eram duas pontas verticais e recurvadas, tocando-se quase no cume.
Parecia ver-se irrompendo do mar dois dentes de um elefante engolido. Mas eram dentes de tamanhos de torres que só poderiam pertencer a elefantes do tamanho de uma montanha. Essas duas tórres naturais da obscura cidade dos monstros não deixavam entre si mais que uma passagem estreita onde a vaga se atirava. Essa passagem, tortuosa e de alguns covados de comprimento, parecia um pedaço de rua entre duas paredes. A essas duas rochas gemeas charnavam-se as duas Douvres. Havia a grande Douvre e a pequena Douvre; uma tinha 60 pés de altura, a outra 40. O vaivém das ondas fez na base dessas torres um aspecto de serra, e o violento furacão do equinócio de 26 de outubro de 1859 derrubou uma delas. A que ficou, a pequena, está mutilada e gasta.
Um dos mais estranhos rochedos do grupo Douvres chama-se o Homem. Esse ainda existe. No século passado alguns pescadores, perdidos naqueles cachopos, acharam um cadáver. Ao pé do cad áver havia uma porção de conchas vazias. Tinha naufragado ali um homem, refugiou-se naqueles rochedos, alimentou-se algum tempo de conchas, até que morreu. Veio dai chamar-se Homem ao rochedo.
São singulares as solidões da água. É o tumulto e o silêncio. O que aí se faz já nada tem com o gênero humano. É a utilidade desconhecida.
Tal é o isolamento do rochedo Douvres. Em derredor, a perder de vista, o imenso tormento das vagas.
CONHAQUE INESPERADO
Na sexta-feira de manhã, um dia depois da partida do Tarnaulipas, a Durande partiu para Guernesey.
Deixou Saint-Malo às 9 horas.
Claro estava o tempo, não havia nevoeiro; parece que o velho Capitão Gertrais-Gaboureau tinha delirado.
As preocupações do Sr. Clubin fizeram com que embarcasse pouco carregamento. Apenas meteu a bordo alguns fardos de Paris para as lojas de Saint-Pierre-Port, três caixas para o hospital de Guernesey, uma de sabão amarelo, outra de velas e a terceira de couro de sola e cordavão fino. Levava também, da precedente viagem, uma caixa de açúcar crushed e três caixas de chá, que a alfândega francesa não quis receber. O Sr. Clubin embarcou pouco gado; alguns bois apenas. Os bois foram postos no porão e bem mal arranjados.
Havia a bordo seis passageiros: um guernesiano, dois inaloenses vendedores de animais, um turista, como já se dizia nesse tempo, um parisiense meio burguês, provavelmente turista do comércio, e um americano distribuidor de Bíblias.
A Durande, sem contar com Clubin, tinha sete homens de tripulação; um timoneiro, um carvoeiro, um marinheiro carpinteiro, um cozinheiro, manobrista quando era preciso, dois trabalhadores da máquina e um grumete. Um dos penúltimos era também mecânico.
Era um valente e inteligente negro holandês, evadido das fábricas de açúcar do Suriname; chamava-se Imbrancam. O negro Imbrancam compreendia e servia admiravelmente a máquina. Nos primeiros tempos, contribuiu ele não pouco, quando aparecia na fornalha, para dar um ar diabólico à Durande.
O timoneiro, jerseiano de nascimento, originário da costa, chamava-se Tangrouille. Tangrouille era de alta nobreza.
É verdade isto. As ilhas da Mancha são, como a Inglaterra, países hierárquicos. Ainda existem castas nessas ilhas. As castas tem as suas idéias, que são os seus dentes. Essas idéias são as mesmas em toda a parte, na índia, como na Alemanha. A nobreza conquista- se pela espada e perde-se pelo trabalho. Conserva-se pela ociosidade. Não fazer coisa alguma é viver fidalgamente; quem não trabalha e reverenciado. Oficio faz decair. Na França de outrora só se excetuavam os operários de vidro. Sendo glória para os fidalgos esvaziar garrafas, faze-las não era desonra alguma.
Nas ilhas da Mancha, assim como na Grã-Bretanha, quem quiser ser nobre deve conservar-se opulento. Um workman não pode ser gentleman. Ainda que o tenha sido, já não o é mais. Tal marujo descende de cavalheiros e é apenas marujo. Há trinta anos, em Aurigny, um Georges autentico, que ao que parece tinha direitos à senhoria de Georges confiscada por Filipe Augusto, apanhava sargaço com os pés nus. Há em Serk um Carteret que é carreiro.
Existe em Jersey um mercador de panos, e em Guernesey um sapateiro, que tem o nome de Gruchy, que se declaram Grouchy e primos do marechal de Waterloo. Os antigos registros do bispado de Coutances mencionam uma senhoria de Tangroville, parenta evidente de Tancarville no Baixo-Sena, que é Montmorency. No século XV Johan de Heroudeville, besteiro e afim do Sr. de Tangroville, levava sempre consigo justilhos e arneses. Em maio de 1371, em Pontorson, o Sr. Tangroville fez o seu dever como cavalheiro. Nas ilhas normandas quem cai em pobreza é logo eliminado da fidalguia.
Basta uma mudança de nome. De Tangroville faz Tangrouille, e tudo se arranja.
Foi o que aconteceu ao timoneiro da Durande.
Há em Saint-Pierre-Port, no Bordage, um mercador de ferros chamado Ingroville, que é provavelmente Ingroville. No reinado de Luís, o Gordo, os Ingroville possuíam três paróquias em Valognes.
Fez um padre Trigan a História Eclesiástica da Normandia. este cronista Trigan era cura de Digoville. O Sr. de Digoville, se caísse no populacho, chamar-se-ia Digouille.
Tangrouille, Tancarville provável e Montmorency possível, tinha esta antiga qualidade de fidalgo, defeito grave num timoneiro: embriagava- se.
O Sr. Clubin teimava em conservá-lo. Respondia por ele a Mess Lethierry.
O timoneiro Tangrouille não saía nunca do navio e dormia a bordo.
Na véspera da partida, quando o Sr. Clubin foi, já a horas mortas, visitar o navio, Tangrouille estava na sua maca e dormia. Acordou de noite. Era-lhe isso costume antigo. Quando o bêbado não é senhor de si tem um esconderijo. Tangrouille tinha o seu, a que chamava despensa. A despensa secreta de Tangrouille era no por ão onde se guardava a água. Po-la aí para torná-la inverossímil.
Estava certo de que só ele conhecia aquele esconderijo. O Capitão era severo, porque era sóbrio. O pouco rum e gim, que o timoneiro podia subtrair à vigilância do capitão, punha de reserva naquele misterioso cantinho, no fundo de uma selha de sonda, e quase todas as noites tinha entrevista amorosa com aquela despensa.
Era rigorosa a vigilância, pobre devia ser a orgia, e de ordinário os excessos noturnos de Tangrouille limitavam-se a dois ou três goles furtivamente bebidos. Muitas vezes a despensa estava vazia. Nessa noite Tangrouille achou lá uma garrafa de aguardente inesperada.
Alegrou-se muito, e espantou-se ainda mais. De que céus lhe caiu aquela garrafa? Não pode lembrar-se nem quando nem como levou-a para o navio. Bebeu-a imediatamente. Em parte fe-lo por prudência; tinha medo que a aguardente fosse descoberta e confiscada. Atirou a garrafa ao mar. No dia seguinte, quando tomou a cana do leme, Tangrouille tinha certa oscilação.
Todavia governou o barco quase como nos outros dias.
Quanto a Clubin, sabe-se que voltou a dormir na Pousada João.
Clubin trazia sempre debaixo da camisa um cinto de couro, de viagem, onde guardava uns 20 guinéus, e que só tirava à noite. No interior do cinto estava escrito o nome dele, escrito por ele mesmo no couro bruto com tinta litográfica, que é indelével.
Ao levantar, antes de partir, pós no cinto a caixinha de ferro contendo 75 000 francos em notas de banco, depois atou o cinto como costumava, à roda do corpo.
PALESTRA INTERROMPIDA
Fui alegre a partida. Os passageiros, apenas arranjadas as malas por baixo e em cima dos bancos, passaram, ao navio, essa revista que nunca falta, e que parece obrigatória, tal é o costume. Dois passageiros, o turista e o parisiense, nunca tinham visto vapores, e, desde os primeiros movimentos da roda, contemplaram a espuma, depois o fumo. Examinaram peça por peça, e quase fio por fio, na cobertura e entre ponte, todos os aparelhos marítimos, argolas, ganchos, fateixas, cilindros, que, à força de precisão e justeza, são uma espécie de colossal ourivesaria; ourivesaria de ferro dourado com ferrugem pela tempestade. Circularam o pequeno canhão de rebate atado na coberta, com uma corrente de cão de sentinela, observou o turista, e coberto com blusa de linho alcatroado para impedir as constipações, acrescentou o parisiense.
Afastando-se de terra, trocaram-se as observações do costume acerca da perspectiva de Saint-Malo; um passageiro emitiu o axioma de que as perspectivas do mar iludem, e que, a 1 légua da costa, nada se parece mais com Ostende como Dunquerque, Completou- se o que havia a dizer de Dunquerque, observando-se que os seus navios de vigia, pintados de vermelho, chamam-se um tingue e o outro Mardyck.
Saint-Malo foi diminuindo até que desvaneceu-se de todo.
O aspecto do mar era o vasto calmo. O rasto do navio fazia no oceano uma rua franjada de espuma que se prolongava quase sem torção a perder de vista.
Guernesey está no centro de uma linha reta tirada de Saint-Malo na França, e Exeter na Inglaterra. A linha reta no mar nem sempre é a linha lógica. Entretanto, os vapores tem, até certo ponto, o poder de seguir a linha reta que não podem seguir os navios de vela.
O mar e o vento formam um composto de forças. O navio é um composto de máquinas. As forças são máquinas infinitas, as máquinas são forças limitadas. Entre os dois organismos, um inesgotável, outro inteligente, trava-se o combate que se chama navega ção.
Uma vontade no mecanismo faz contrapeso ao infinito. Também o infinito encerra um mecanismo. Os elementos sabem o que fazem e para onde vão. Não há força cega. Cabe ao homem espreitar as forças e descobrir-lhes o itinerário.
Enquanto se não descobre a lei, prossegue a luta, e nessa luta a navegação a vapor é uma espécie de vitória perpétua que o gênio humano vai ganhando a todas as horas do dia em todos os pontos do mar. A navegação a vapor é admirável porque disciplina o navio.
Diminui a obediência ao vento e aumenta a obediência ao homem.
Nunca a Durande trabalhou no mar como naquele dia, Andava maravilhosamente.
Pelas 11 horas, soprando uma fresca brisa de nor-nordeste, achou-se a Durande do lado de Mínquiers, trabalhando com pouco vapor, navegando a oeste e conchegada ao vento. Claro e belo estava o céu. Todavia iam voltando para terra todos os pescadores.
A pouco e pouco, como se todos pensassem em ancorar nos portos, ia-se o mar limpando de navios.
Não se podia dizer que a Durande estivesse no caminho do costume.
A tripulação não se preocupava com isso, era absoluta a confiança no capitão; entretanto, talvez por culpa do timoneiro, havia algum desvio. A Durande parecia antes ir para Jersey que para Guernesey. Pouco depois das 11 horas, o capitão retificou a direção e aproou para o lado de Guernesey. Perdeu-se algum tempo.
Nos dias curtos o tempo perdido tem inconvenientes. Fazia um belo sol de fevereiro.
Tangrouille, no estado em que estava, já não tinha nem pés nem braços firmes. Resultava daí que o bravo timoneiro desviava-se da costa e atrasava a marcha.
O vento ia amainando.
O passageiro guernesiano, que tinha um óculo na mão, firmava-o de tempos a tempos para um floco de espuma coada pelo vento no extremo horizonte de oeste, assemelhando-se a um pouco de algodão, empoeirado em roda.
O Capitão Clubin tinha o aspecto puritano do costume. Parecia redobrar de atenção.
Tudo estava calmo e quase risonho a bordo da Durande; os passageiros conversavam.
Fechando os olhos, no meio de uma viagem, pode-se avaliar do estado do mar pelo trêmulo da conversa. A plena liberdade de espírito dos passageiros corresponde à perfeita tranqüilidade da água.
É impossível, por exemplo, que houvesse uma conversa, como esta que se segue, em mar que não fosse calmo.
- Perdeu-se no mar e descansa no navio.
- As moscas não se cansam muito.
- Pudera! São tão leves. Carrega-as o próprio vento.
- Já se pesou 1 onça de moscas e, contadas depois, viu-se que eram 6 268.
O guernesiano do óculo tinha-se chegado aos maioenses mercadores de gado, e a conversa deles era pouco mais ou menos esta: - O boi de Aubrac tem o tronco redondo e bojudo, as pernas curtas, o pelo amarelo. É demorado no trabalho por causa da pequenez das pernas.
Neste ponto, o Salers vale mais que o Aubrac.
Vi dois magníficos bois em minha vida. O primeiro tinha as pernas curtas, o joelho espesso, alcatra grossa, as nádegas largas, bom comprimento da nuca à garupa, boa altura no garrote, manejo fácil, pele boa de arrancar-se. O segundo apresentava todos os sinais de um engordamento judicioso, tronco reforçado, pescoço robusto, pernas leves, pele branca e vermelha, alcatra caída.
- Isso é raça da costa.
- Sim, mas com certa semelhança com o touro Angus ou o touro Suffolk.
Acredite se quer, no meio-dia há concurso de bestas.
- De bestas? - De bestas. Como tenho a honra de lhe dizer. E as feias é que são bonitas.
- Então são como as jumentas. As feias é que são boas.
- Justamente. A jumenta deve ter barriga grossa e pernas grossas.
- A melhor jumenta deste mundo é uma barrica sobre quatro estacas.
- A beleza dos animais não é como a beleza dos homens.
- E sobretudo das mulheres.
- Justo.
- Eu cá, quero que a mulher seja bonita.
- Prefiro-a bem trajada.
- Sim, limpa, asseada, esticadinha.
- Ares de mocidade. Urna rapariga deve parecer que sai do joalheiro.
- Volto aos bois. Vi vender os tais bois no mercado de Thouars.
- Conheço o mercado. Os Bonneau de ia Rochelle, e os Baliu, os mercadores de trigo de Marans, não sei se ouviu falar deles, devem ter ido a esse mercado.
O turista e o parisiense conversavam com o americano das Bíblias; a conversação aí era como nos outros grupos.
Dizia o turista: - Eis a tonelagem flutuante do mundo civilizado: França, 716 000 toneladas; Alemanha 1 milhão; Estados Unidos, 5 milhões; Inglaterra, 5 milhões e meio. Acrescente-se o contingente das pequenas bandeiras. Total: 12 904 000 toneladas distribuídas por 145 000 navios na água do globo.
O americano interrompeu: - Os Estados Unidos é que tem 5 milhões e meio.
- Convenho - disse o turista. - O senhor é americano? - Sim, senhor.
Houve um silêncio; o americano missionário perguntou a si mesmo se era ocasião de oferecer uma Bíblia.
- Será verdade - continuou o turista - que os senhores à na América gostam tanto das alcunhas a ponto de as por em todos os homens célebres? Será verdade que chamaram ao famoso banqueiro do Missouri, Thomas Benton, a velha barra de ouro? - Do mesmo modo que chamamos ao Zacharias Taylor o velho Zach? - E o General Harrison, o velho Tip? E o General Jackson, o velho Hickory? - Sim, porque Jackson é duro como pau hickory e Harrison bateu os peles-vermelhas em Tippecanoe.
É um costume bizantino esse.
É costume nosso. Chamamos Van Buren o feiticeirinho; Seward, que mandou fazer bilhetes miúdos do banco, o bilhete miúdo; e Douglas, o senador democrata do Illinois, que tem 4 pés de altura e uma grande eloqüência, o gigantinho. Percorra do Texas ao Maine, não encontrará ninguém que diga esse nome: Cass; todos dizem: o grande Michigantier; nem este nome: Clay; dizem todos: o rapaz do moinho acutilado. Clay é filho de um moleiro.
- Eu prefiro Clay ou Cass - observou o parisiense -, é mais curto.
Pois estaria fora do uso. Nós chamamos Corwin, que é secretário do Tesouro, o rapaz da carreta. Daniel Webster é o negro Dan.
Quanto a Winfield Scott, como a sua primeira ida, depois de bater os ingleses em Chippeway, foi assentar-se à mesa, chama-mo-lo Dá-cá-um-prato-de-sopa-depressa.
Tinha se agigantado o floco de neve. Ocupava no horizonte um segmento de cerca de 15 graus. Dissera-se uma nuvem arrastada à flor da água por falta de vento. Não havia um sopro de brisa sequer. Embora fosse apenas meio-dia, o sol ia empalidecendo.
Alumiava, mas já não aquecia.
- Creio - disse o turista - que o tempo vai mudar.
- Talvez haja chuva - disse o parisiense.
- Ou nevoeiro - disse o americano.
- Na Itália - continuou o turista - o lugar em que cai menos chuva é Molfetta, e onde cai mais 6 em Tolmezzo.
Ao meio-dia, segundo o uso do arquipélago, tocou a sineta para jantar. Jantou quem quis. Alguns passageiros levavam comida consigo e comeram no convés. Clubin não jantou.
Ao jantar, a palestra continuou.
O guernesiano, tendo o faro das Bíblias, aproximou-se do americano.
O americano disse-lhe: - Conhece este mar? - Sem dúvida, sou filho dele.
- E também eu .
O guernesiano aderiu com um cumprimento, e continuou: - Agora estarmos ao largo mas não me agradava nada ter nevoeiro enquanto estávamos ao pé dos Minquiers.
O americano disse ao maloense: - Os insulares são mais homens do mar que a gente da costa.
- É exato, nós, os filhos da costa, temos apenas metade do mar.
- Que coisa é essa dos Minquiers? - continuou o americano.
O inaloense respondeu: - São umas pedras ruins.
- Há também os Grelets - disse o guernesiano.
- Ora! - disse o maloense.
- E os Chouas - acrescentou o guernesiano.
O inaloense deu uma gargalhada.
- Dessa forma - disse ele -, temos também os Sauvages.
- E os Maine - observou o guernesiano.
- E o Canard, - disse o maloense.
- O senhor tem resposta para tudo - disse o guernesiano com rapidez.
- Maloense, malicioso.
Dando esta resposta, o maloense piscou o olho.
O turista interpôs uma pergunta: - Dar-se-á o caso que vamos atravessar toda essa pedraria de que os senhores falam? - Qual! Deixamo-la a sudoeste. Já ficou atrás de nós.
E o guernesiano continuou: - Entre grandes e pequenos os Grelets tem 57 pontas de rocha.
- E os Minquiers 48 - disse o maloense.
Aqui o diálogo concentrou-se entre o maloense e o guernesiano.
- Parece-me, senhor de Saint-Malo, que há três rochedos que o senhor deixou de contar.
- Contei tudo.
- A Derée da Maitre-Ile? - Sim.
- E Maisons também? - Que são sete rochas no meio dos Minquiers. Sim.
- Já vejo que conhece os cachopos.
- Quem não os conhece não é de Saint-Malo.
- Causa gosto ouvir o raciocínio dos franceses.
O maloense cumprimentou, e disse: - Sativages são três rochedos.
- E Maines são dois.
- Canard é um.
- Basta dizer Canard; já se sabe que é um.
- Não, porque a Suarde são quatro rochedos.
- Que é a Suarde? - perguntou o guernesiano.
- Chamamos Suarde ao que o senhor chama Chouas.
- Não é bom passar entre Chouas e Canard.
- Só os pássaros podem passar aí.
- E os peixes.
- Nem sempre. Quando há mau tempo, os peixes esbarram-se nas rochas.
- Há areia em Minquiers.
- A roda de Maisons.
- Vêem-se oito rochedos de Jersey.
- Da praia de Azette, é justo. Não são oito, são sete.
- Nas vazantes pode-se passear entre os Minquiers.
- Sem dúvida, há espaço.
- E Dirouilles? - Dirouilles não tem nada com Minquiers.
- Quero dizer que é perigoso.
- É do lado de Granville.
- Vê-se que, como nós, os senhores de Saint-Malo gostam de navegar nestes mares.
- Sim - disse o maloense -, com a diferença de que nós dizemos: estamos acostumados, e os senhores dizem: gostamos.
- São bons marinheiros os senhores.
- Eu sou mercador de gado.
- Quem é que foi também de Saint-Malo? - Surcouf.
- Não, outro.
- Duguay-Trouin.
Aqui o viajante parisiense interrompeu.
- Duguay-Trouin? Foi apanhado pelos ingleses. Era tão amável quão valente. Agradou a uma jovem inglesa. Foi ela quem lhe quebrou os ferros.
Neste momento uma voz tremenda gritou: - Estás bêbado!