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Os Trabalhadores do Mar

de Victor Hugo e tradução de Machado de Assis

Machado de Assis

MOSTRAM-SE TODAS AS QUALIDADES DO CAPITÃO CLUBIN

Voltaram-se todos.

Era o Capitão Clubin que interpelava o timoneiro.

O Sr. Clubin não tratava ninguém por tu. Para que ele atirasse a Tangrouille semelhante apóstrofe era preciso que estivesse colérico ou quisesse mostrar-se assim.

Uma expressão de cólera, vindo a propósito, demite a responsabilidade, e algumas vezes deita-a para as costas de outrem.

O capitão, de pé no lugar de comando, entre as caixas das rodas, olhava fixamente para o timoneiro. Repetiu entre dentes: Beberrão! O honesto Tangrouille abaixou a cabeça.

Desenvolvia-se o nevoeiro. Já ocupava metade do horizonte. Avançava em todos os sentidos ao mesmo tempo; o nevoeiro parece-se com a gota de óleo. A bruma alargava-se insensivelmente. O vento soprava-a sem pressa e sem rumor. A pouco e pouco ia ele apoderando-se do oceano. Vinha de nordeste e o navio estava com ela pela proa. Era um vasto penedo movediço e vago. Cortavase no mar como se fosse uma muralha. Havia um ponto preciso em que a água imensa entrava por baixo do nevoeiro e desaparecia.

Este ponto de entrada no nevoeiro estava ainda a meia légua de distância. Se o vento mudasse, podia-se evitar a imersão na bruma; mas era preciso que mudasse logo. A meia légua de intervalo enchia-se e diminuía a olhos vistos; a Durande caminhava, o nevoeiro também. O nevoeiro ia para o navio, o navio para o nevoeiro.

Clubin mandou aumentar o vapor e obliquar a leste.

Deste modo costeou-se algum tempo o nevoeiro, mas ele avançava sempre. Todavia o navio continuava a andar em pleno sol.

Perdia-se o tempo naquelas manobras que dificilmente podiam dar bom resultado. Anoitece cedo em fevereiro.

O guernesiano contemplava a bruma. Disse aos maloenses: - É atrevido este nevoeiro.

- Desasseio do mar - observou um dos maloenses.

O outro acrescentou: - Isto atrasa a viagem.

O guernesiano aproximou-se de Clubin.

- Capitão Clubin, receio que sejamos envolvidos pelo nevoeiro.

Clubin respondeu: - Eu queria ficar em Saint-Malo, mas aconselharam-me que partisse.

- Quem? - Veteranos do mar.

- Fez bem em partir - continuou o guernesiano. - Quem sabe se não haverá tempestade amanhã. Nesta estação espera-se o pior.

Alguns minutos depois a Durande entrava no nevoeiro.

Foi singular esse momento. Toda a gente que estava na popa ficou de repente sem ver a gente que ia na proa. Tênue tabique cinzento cortou o navio ao meio.

Depois, todo o navio mergulhou na bruma. O sol parecia uma lua. Súbito todos começaram a tiritar. Os passageiros vestiram as capas, e os marinheiros as japonas. O mar, quase sem uma dobra, tinha a fria ameaça da tranqüilidade. Tudo estava pálido e enfiado. O negro cano e a fumaça negra lutavam contra a lividez que cercava o navio.

A derivação a leste já não tinha razão de ser. O capitão aproou de novo sobre Guernesey e aumentou o vapor.

O passageiro guernesiano, andando à roda da máquina, ouviu o negro Imbrancam que falava a um dos companheiros. O passageiro prestou ouvidos. Dizia o negro: - Quando havia sol, íamos devagar; agora que há nevoeiro vamos depressa.

O guernesiano foi ter com o Sr. Clubin.

- Capitão Clubin, não há cuidado; mas não acha que vamos depressa demais? - Que quer, senhor? É preciso ganhar o tempo perdido por culpa daquele bêbado.

- É verdade, Capitão Clubin.

E Clubin acrescentou: - Quero chegar quanto antes. Já basta o nevoeiro; com a noite ficaríamos asseados.

O guernesiano foi ter com os maioenses e disse-lhes: - Temos um excelente capitão.

De quando em quando ondas grandes de bruma, que pareciam cardadas, passavam e escondiam o sol. Depois o sol reapareceu mais pálido e como que enfermo. O pouco céu que se via assemelhava-se às faixas de ar sujas e manchadas de uma velha decoração de teatro.

A Durande passou junto de um cúter que tinha ancorado por prudência. Era o Shealtiel, de Guernesey. O patrão do cúter notou a rapidez com que ia a Durande. Pareceu-lhe que não estava no caminho exato; afigurou-se-lhe que obliquava a oeste. Vendo aquele navio, andando a todo vapor no meio do nevoeiro, o homem pasmou.

Pelas 2 horas a bruma era tão espessa, que o capitão foi obrigado a deixar o lugar do costume, e a aproximar-se do timoneiro. O sol desmaiara, tudo era nevoeiro. Havia na Durande uma espécie de escuridão branca. Navegava-se na palidez difusa. Já se não via nem o céu nem o mar.

Não ventava.

A ancoreta da terebintina suspensa em uma argola ao pé da caixa das rodas já não tinha oscilação.

Os passageiros tornaram-se silenciosos.

Contudo o parisiense cantarolava entre dentes a canção de Béranger Un Jour lè Bon Dieu s'Éveillant.

Um dos maloenses dirigiu-lhe a palavra: - O senhor vem de Paris? - Sim, senhor. Il mit la tete à la fenêtre.

- Que se faz por lá? - Leur planète a péri peut-être. Lá em Paris tudo anda mal.

- Então é tanto lá em terra como aqui no mar.

- Realmente, este nevoeiro é o diabo.

- E pode causar desgraças.

O parisiense exclamou: Mas por que desgraças? A propósito de que? De que servem desgraças? É o caso do incêndio do Odeon 1 Ficou uma porção de famílias reduzidas à miséria! É justo isto? Olhe cá, eu não sei qual é a sua religião, mas digo-lhe que não estou contente.

- Nem eu - disse o maloense.

- Tudo o que se passa neste mundo - falou o parisiense - parece um desconcerto. Creio que Deus não entra nisto.

O maloense coçou o alto da cabeça, como quem procura compreender.

O parisiense continuou: - Deus está ausente. Devia-se lavrar um decreto para obrigá-lo a residir aqui. Anda lá na sua casa de campo e não se importa conosco. E tudo vai torto e mal encaminhado. É evidente, meu bom senhor, que Deus já não está no governo, está em férias, e é o vigário, algum anjo seminarista, algum beócio com asas de pardal, quem dirige os negócios.

O Capitão Clubin, que se aproximara, pôs a mão no ombro do parisiense.

- silêncio - disse ele. - Cuidado nas palavras. Estamos no mar.

Ninguém mais falou.

No fim de cinco minutos o guernesiano, que tudo ouvira, murmurou aos ouvintes: - É um capitão religioso.

Não chovia e todos estavam molhados. Só se reparava no caminho que o navio descrevia por uma espécie de mal-estar. Parecia que se entrava na tristeza. O nevoeiro emudece o oceano, adormenta a vaga e sopita o vento. Naquele silêncio, o rumor da Durande tinha um não sei que de inquieto e lamentoso.

Já se não encontravam navios. Só ao longe, quer do lado de Guernesey, quer do lado de Saint-Malo, alguns navios estavam no mar, fora do nevoeiro; para esses a Durande, submergida na bruma, não era visível, e a sua longa fumaça, presa a coisa nenhuma, parecia-lhes um cometa negro no céu branco.

De repente Clubin exclamou: - Com seiscentos! Estás dirigindo mal. Olha que me avarias o barco.

Mereces bem que te ponha a ferros. Vai-te, bêbado! E tomou a cana do leme.

O timoneiro humilhado refugiou-se na cordoalha da proa.

Disse o guernesiano: - Estamos salvos.

A marcha continuou rápida.

- Pelas 3 horas, a orla inferior do nevoeiro começou a levantar-se e viu-se o mar.

- Mau! - disse o guernesiano.

Só o sol ou o vento deve levantar a bruma. Quando é o sol, é bom sinal; quando é o vento, não é tão bom sinal. Era tarde já para ser o sol. Às 3 horas, em fevereiro, o sol está fraco. Não era coisa desejável a volta do vento naquela situação crítica. Muitas vezes anuncia o furacão.

Verdade seja que se havia brisa, mal se sentia.

Clubin, com o olhar na bitácula, governando o leme, mastigava algumas palavras que chegavam aos passageiros; era isto mais ou menos: - Não há tempo a perder. Aquele bêbado demorou a viagem.

O seu rosto, porém, não tinha expressão alguma.

O mar estava menos adormecido. Já se enxergavam algumas vagas.

Luzes geladas flutuavam na água. Essas placas de clarão nas ondas preocupam os marinheiros. Indicam que o vento faz buracos por cima do nevoeiro. A bruma levantava-se e tornava a cair mais densa. Às vezes a opacidade era completa. O navio estava numa verdadeira montanha de nevoeiro. De quando em quando aquele círculo tremendo abria-se como uma tenaz, deixava ver o horizonte, e fechava-se depois.

O guernesiano, armado de um óculo, estava como uma vedeta, na frente do navio.

Clareou, depois escureceu outra vez.

O guernesiano voltou-se assustado: - Capitão Clubin! - Que é? - Vamos direto aos cachopos de Hanois.

- É engano - disse Clubin friamente.

O guernesiano insistiu: - Estou certo.

- Impossível.

- Vi uma pedra no horizonte.

- Onde? - Ali! - É ao largo. Impossível.

E Clubin continuou a por o navio no ponto indicado pelo passageiro.

O guernesiano travou do óculo.

Minutos depois correu para o capitão.

- Capitão! - Que é? - Vire- de bordo.

- Por que? - Vi uma rocha muito alta e muito perto. É o grande Hanois.

- Há de ser algum nevoeiro mais escuro - É o grande Hanois. Vire de bordo, em nome do céu!

Clubin deu uma volta à cana do leme

CLUBIN LEVA A ADMIRAÇÃO AO CÚMULO

Ouviu-se um estalo. O rasgamento do flanco de um navio, em um cachopo, em mar alto, é um dos sons mais lúgubres que se pode imaginar. A Durande parou.

Com o choque muitos passageiros caíram e rolaram no tombadilho.

O guernesiano levantou as mãos para o céu.

- Nos Hanois! Eu bem dizia! Longo grito soou no navio.

- Estamos perdidos! A voz de Clubin, seca e breve, dominou o grito.

- Ninguém está perdido! E silêncio! O corpo negro de Imbrancam, nu até a cintura, saiu do espaço da máquina.

O negro disse com calma: - Capitão, a água está entrando. A máquina vai apagar-se.

Terrível foi o momento.

O choque assemelhava-se a um suicídio. Se fosse de propósito, não seria mais terrível. A Durande atirou-se como se atacasse o rochedo. Uma ponta da rocha penetrou no navio como um prego.

Mais de 1 toesa quadrada de vergas rebentou, rompeu-se a roda de proa, fracassou a quilha, Partiu-se o gurupés, o casco aberto bebia água aos borbotões. Era uma chaga por onde entrava o naufrágio. A reação foi tão violenta que quebrou na popa a caixa do leme, que ficou solto e oscilante. O cachopo arrancara o fundo e à roda do navio não se via nada, além do nevoeiro espesso e compacto e agora quase negro. Chegava a noite.

A Durande mergulhava pela proa. Era o cavalo que tem nas entranhas a ponta do touro. Estava morta.

Sentia-se no mar a hora da maré.

Tangrouille estava desperto da embriaguez; ninguém fica bêbado em um naufrágio; desceu abaixo, subiu e disse: - Capitão, a água enche o porão. Dentro de dez minutos está nos embornais.

Os passageiros corriam no tombadilho fora de si, torcendo os braços, inclinando-se na amurada, olhando para a máquina, fazendo todos os movimentos inúteis do terror. O turista desmaiou.

Clubin fez um sinal com a mão, calaram-se todos. Interrogou Imbrancam: - Quanto tempo pode a máquina trabalhar ainda? - Cinco ou seis minutos.

Depois interrogou o passageiro: - Eu estava ao leme. O senhor observou o rochedo. Em qual dos Hanois estamos nós? - Na Mative. Reconheci ainda agora, com um pouco de claridade.

- Sendo a Mative - continuou Clubin - temos o grande Hanois a bombordo e o pequeno Hanois a estibordo. Estamos a 1 milha de terra.

A equipagem e os passageiros escutavam, trêmulos de ansiedade e de atenção, com os olhos fixos no capitão.

Alijar o navio era inútil e, demais, impossível. Para por a carga ao mar, era preciso abrir às portinholas e aumentar as probabilidades de entrar água. Atirar a âncora era inútil; estavam pregados. Demais podia ficar presa. Não estava avariada a máquina, e continuando à disposição do navio enquanto o fogo não estava apagado, isto é, por alguns minutos, podia-se, à força de rodas e de vapor, recuar e arrancar o navio do escolho. Nesse caso iria ao fundo imediatamente. O rochedo, até certo ponto, tapava o rombo e tolhia a passagem da água. Servia de obstáculo. Desobstruída a abertura, seria impossível impedir a entrada da água. Quem retira o punhal de uma ferida no coração, mata logo o ferido. Sair do cachopo era ir ao fundo. Clubin ordenou: Os bois, atacados pela água, começavam a mugir. - A chalupa ao mar. Imbrancam e Tangrouille precipitaram-se e desataram as amarras. O resto da tripulação olhava petrificado. - Todos à obra - gritou Clubin. Desta vez obedeceram todos.

Clubin, impassível, continuou a dar ordens, naquela velha língua do mar, que os marinheiros de hoje não compreenderiam.

A chalupa estava no mar.

No mesmo instante, as rodas da Durande pararam, cessou o fumo, a fornalha estava cheia de água.

Os passageiros, resvalando ao longo da escada ou pendurando-se nas enxárcias, deixavam-se antes cair que descer na chalupa.

Imbrancam. apanhou o turista desmaiado, levou-o para a chalupa, depois subiu ao navio.

Os marinheiros atiravam-se após os passageiros. O grumete rolou; eles pisavam o rapaz. Imbrancam barrou a passagem: - Ninguém antes do moço - disse ele.

Afastou com os braços negros os marinheiros, o grumete, e estendeu- o ao passageiro guernesiano, de pé na chalupa, recebeu o rapaz.

O grumete salvo, Imbrancam deu caminho e disse: Passem.

Entretanto, o Sr. Clubin foi ao seu camarote e fez um embrulho dos papéis de bordo e dos instrumentos. Tirou a bússola da bitácula.

Entregou os papéis e os instrumentos a Imbrancam. e a bússola a Tangrouille, e disse-lhes: - Desçam à chalupa.

Eles desceram. A tripulação tinha-os precedido. A chalupa estava cheia. Estava quase rasa.

- Agora - disse Clubin - vão embora.

- E o senhor, capitão? - Fico.

As pessoas que naufragam tem pouco tempo de deliberar e ainda menos de enternecer-se. Entretanto, os que estavam na Chalupa, e relativamente em segurança, tiveram uma comoção que não era por eles. Todas as vozes insistiram ao mesmo tempo: - Venha conosco, capitão.

- Fico.

O guernesiano, que conhecia o mar, replicou: - Ouça, capitão. O senhor naufragou nos Hanois. A nado há apenas 1 milha até Plainmont. Mas na chalupa só se pode abordar na Rocquaine, e são 2 milhas. Há cachopos e nevoeiro. Esta chalupa não chega à Rocquaine antes de 2 horas. Não tarda a anoitecer.

Enchendo a maré, refresca o vento. Está próxima a borrasca. É nosso desejo vir buscá-lo depois, mas se romper o temporal, não será possível. Se fica está perdido. Venha.

O parisiense interveio: - A chalupa está cheia, e cheia demais, é verdade, e um homem de mais seria ainda pior. Mas nós somos treze, é mau número para a barca, e é melhor sobrecarregá-la de um homem que de algarismo.

Tangrouille acrescentou: - A culpa é minha, não é sua. Não é justo que o senhor fique.

- Fico - disse Clubin. - O navio será despedaçado pela tempestade hoje de noite. Não o deixarei. Quando o navio se perde, morre o capitão. Dir-se-á de mim que eu cumpri o meu dever. Perdôo-te, Tangrouille.

E cruzando os braços, gritou: - Atenção às ordens. Larguem a banda da amarra. Partam ! Abalou-se a chalupa. Imbrancam tomou o leme. Todas as mãos que não remavam voltaram-se para o capitão. Todas as bocas gritaram: Hurrah para o Capitão Clubin! - Eis um homem admirável - disse o americano.

- É o mais honrado homem do mar - respondeu o guernesiano.

Tangrouille chorava.

- Eu devia ter ficado com ele.

A chalupa internou-se por entre o nevoeiro, e desapareceu.

Não se viu mais nada.

O rumor dos remos diminuiu e perdeu-se.

Clubin estava só

ALUMIA -SE O INTERIOR DE UM ABISMO

Quando aquele homem achou-se naquele rochedo debaixo daquela nuvem, no meio daquela água, longe do contato humano, deixado por morto, sozinho entre o mar que subia e a noite que descia, teve profundo júbilo.

Alcançara o que queria.

Realizara-se-lhe o sonho. Estava paga a letra de longo prazo que ele sacou sobre o destino.

Para ele, ficar abandonado, era ficar livre. Estava no Hanois, a 1 milha de terra; tinha 75 000 francos. Nunca se realizou mais acertado naufrágio. Nada falhou; é verdade que tudo estava previsto.

Desde a juventude, Clubin teve uma idéia; fazer da honestidade uma parada no jogo da roleta da vida, passar por homem probo, e partir daí, esperando que a sorte corresse; não apalpar, segurar; fazer um lance, mas só um, agarrar tudo, e deixar atrás os papalvos.

Assentava que devia alcançar de uma vez aquilo que os larápios tolos deixam de agarrar vinte vezes, e, enquanto estes vão ter à forca, ele iria à fortuna. O encontro de Rantaine foi o raio de luz. Construiu imediatamente o plano: obrigar Rantaine à restitui ção; quanto às suas revelações possíveis, anulá-las desaparecendo; passar por morto, que é a melhor desaparição do mundo; para isso fazer naufragar a Durande. O naufrágio era necessário.

Além de tudo, ir-se embora deixando boa fama, era fazer da sua existência uma obra-prima. Quem pudesse ver Clubin naquele naufrágio acreditaria ver um demônio feliz.

Viveu toda a sua vida naquele minuto.

Toda a sua pessoa exprimia esta palavra: enfim! Tremenda serenidade empalideceu aquela fronte obscura. Os olhos embaciados, no fundo dos quais parecia haver um tabique, tornaram-se profundos e terríveis. O abrasamento interno daquela alma reverberou-se neles.

O foro íntimo, como a natureza externa, tem a sua tensão elástica.

Uma idéia é um meteoro; no momento do triunfo, entreabremse as meditações acumuladas que o preparam, e jorra uma faísca; ter em si uma garra do mal, e sentir nela uma presa, ventura é esta que tem a sua irradiação; mau pensamento que triunfa e ilumina o rosto daquele que o concebeu; certas combinações triunfantes, certos desejos realizados, certas felicidades ferozes fazem aparecer e desaparecer nos olhos dos homens lúgubres e luminosas dilatações. É a tempestade jubilosa, é a aurora ameaçadora. Tudo isso sai da consciência, que se faz sombria e enevoada.

Foi esse fulgor que iluminou aqueles olhos.

Relâmpago que não se parecia com coisa alguma do que se pode ver no céu e na terra.

O velhaco comprimido que havia em Clubin fez explosão.

Clubin fitou a imensa obscuridade, e não pode reter uma gargalhada baixa e sinistra.

Estava livre! Estava rico! Achara a incógnita. Resolvera o problema.

Clubin tinha tempo de cuidar de si. A maré enchia e por conseguinte sustentava a Durande e afinal devia pô-la a nado. Mas o navio aderia solidamente ao rochedo; não havia perigo de soçobrar. Além disso, era preciso deixar à chalupa o tempo de afastar-se, perder-se talvez; Clubin contava com isso.

De pé sobre a Durande naufragada, cruzou os braços, saboreando aquele abandono nas trevas.

A hipocrisia pesou àquele homem durante trinta anos. Era o mal, e consorciou-se com a probidade. Odiava a virtude com um ódio de mal casado. Teve sempre uma premeditação malvada; desde que se fizera homem, trazia aquela armadura rígida, a aparência. Era monstro internamente; vivia em uma pele de homem de bem, com um coração de bandido. Era o pirata ameno. Era prisioneiro da honestidade, estava fechado naquele caixão de múmia, a inocência; tinha nas costas asas de anjo, esmagadoras para um velhaco.

Pesava-lhe demais a estima pública. Passar por homem honrado é duro! Manter constante equilíbrio, pensar mal e falar bem, que labutação 1 Clubin era o fantasma da retidão, sendo o espectro do crime. Este contra-senso foi o destino dele. Era-lhe preciso mostrar ares apresentáveis, escumar por baixo do nível, sorrir em vez de ranger. A virtude, para ele, era coisa que esmagava. Passou a vida a ter vontade de morder aquela mão que lhe tapava a boca.

E querendo morde-la foi obrigado a beijá-la.

Ter mentido é ter sofrido. O hipócrita é um paciente na dupla acepção da palavra; calcula um triunfo e sofre um suplício. A premeditação indefinida de uma ação ruim, acompanhada por doses de austeridade, a infâmia interior temperada de excelente reputação, enganar continuadamente, não ser jamais quem é, fazer ilusão, é uma fadiga. Compor a candura com todos os elementos negros que trabalham no cérebro, querer devorar os que o veneram, acariciar, reter-se, reprimir-se, estar sempre alerta, espiar constantemente, compor o rosto do crime latente, fazer da disformidade uma beleza, fabricar uma perfeição com a perversidade, fazer cócegas com o punhal, por açúcar no veneno, velar na franqueza do gesto e na música da voz, não ter o próprio olhar, nada mais difícil, nada mais doloroso. O odioso da hipocrisia começa obscuramente no hipócrita. Causa náuseas beber perpétuamente a impostura. A meiguice com que a astúcia disfarça a malvadez repugna ao malvado, continuamente obrigado a trazer essa mistura na boca, e há momentos de enjôo em que o hipócrita vomita quase o seu pensamento. Engolir essa saliva é coisa horrível. Ajuntai a isto o profundo orgulho. Existem horas estranhas em que o hipócrita se estima. Há um eu desmedido no impostor. O verme resvala como o dragão e como ele retesa-se e levanta-se. O traidor não é mais que um déspota tolhido que não pode fazer a sua vontade senão resignando-se ao segundo papel. É a mesquinhez capaz da enormidade. O hipócrita é um titã-anão.

Clubin imaginava de boa fé que tinha sido oprimido. Por que razão não nascera rico? O que ele queria era que os pais lhe houvessem deixado 100 000 libras de renda. Por que não as tinha? Não era culpa dele. Por que motivo, não lhe dando todos os gozos da vida, forçaram-no a trabalhar, isto é, a enganar, a trair, a destruir? Por que motivo condenaram-no assim a essa tortura de adular, de rastejar, de comprazer, de fazer-se amar e respeitar, e trazer dia e noite no rosto um rosto que não era dele? Dissimular é uma violência imposta. Odeia-se diante de quem se mente. Soara enfim a hora. Clubin vingava-se.

De quem? De todos e de tudo.

Lethierry não lhe fez senão bem: queixava-se demais; vingava-se de Lethierry. Vingava-se de todos aqueles ante quem foi obrigado a constranger-se. Desforrava-se. Quem quer que pensasse bem dele, era seu inimigo, porque ele foi cativo desse homem.

Clubin achava-se livre. Realizava-se a fuga. Estava fora dos homens.

O que se tinha por morte, era vida; ele ia começar agora. O verdadeiro Clubin despojava-se do falso Clubin. De um lance dissolveu tudo. Empurrou, com o pé, Rantaine ao espaço, Lethierry à ruína, a justiça humana às trevas, a opinião ao erro, a humanidade inteira para longe de si. Tinha eliminado o mundo.

Quanto a Deus, Clubin curava pouco dessa palavra de quatro letras.

Passou como religioso. Que importa? Há cavernas no hipócrita ou, antes, o hipócrita é uma caverna.

Quando Clubin ficou só, abriu-se-lhe o antro. Teve um instante de delícias; arejou a alma.

Respirou largamente o seu crime.

O fundo do mal tornou-se visível naquele rosto. Clubin abriu-se.

Nesse momento o olhar de Rantaine ao pé daqueles olhos pareceria um olhar de recém-nascido.

Arrancar a máscara, que livramento! A consciência de Clubin alegrou- se por ver-se hediondamente nua, e por tomar livremente um banho ignóbil no mal. O constrangimento de um longo respeito humano acaba por inspirar um gesto violento à impudência. Chega-se a uma certa lascívia na perversidade. Existe nessas tremendas profundezas morais tão pouco sondadas uma não sei que ostenta ção atroz e agradável, que é a obscenidade do crime. A insipidez da falsa reputação dá apetite de vergonha. Desdenham se os homens a ponto tal que se deseja o desprezo deles. Ser estimado aborrece. Admira-se a franqueza da degradação. Olha-se cobiçosamente a torpeza que se mostra tão a seu gesto na ignomínia. Os olhos obrigados a baixar-se tem muitas vezes destes olhares oblíquos. Nada se aproxima tanto de Messalina como Maria Alacoque. Vede Cadière e a religiosa de Louviers.

Clubin vivera debaixo do véu. O descaramento foi sempre a sua ambição. Invejava a mulher pública e a fronte de bronze do opró- brio aceito; sentia-se mais mulher pública do que ela e tinha desgosto em passar por virgem. Foi o Tântalo do cinismo. Enfim, naquela solidão, podia ser franco; era-o. Que volúpia não é sentir-se sinceramente abominável! Todos os extases possíveis no inferno teve-os Clubin naquele momento; foram-lhe pagos todos os atrasados da dissimulação; a hipocrisia é um adiantamento; Satanás embolsou-o, Clubin embriagou-se de desfaçamento, pois que os homens tinham desaparecido e apenas ficara o céu. Disse consigo: Sou um pícaro! E ficou satisfeito.

Jamais houve coisa igual em uma consciência humana.

Erupção de um hipócrita, não há rompimento de cratera igual a esse.

Achava-se feliz por não haver ali ninguém, e não desgostaria que alguém o visse. Teria prazer em ser medonho à vista de uma testemunha.

Teria prazer em dizer ao gênero humano: és idiota! A ausência de homens assegurava-lhe o triunfo, mas diminuía-o.

Só ele era o espectador da sua glória.

Há certo encanto em estar de golilha. Toda a gente vê que és infame.

Obrigar a multidão a examinar-te é reconhecer a tua força. Um galé sobre um estrado, com uma coleira de ferro ao pescoço, é o déspota de todos os olhares que ele obriga a voltarem-se para si.

Aquele cadafalso é ao mesmo tempo pedestal. Que mais belo triunfo do que esse de ficar no centro de convergência para a atenção geral? Obrigar o olhar público é uma das formas de supremacia.

Os que tem o mal por ideal acham no opróbrio uma auréola.

Domina-se daí. Olha-se de cima de alguma coisa. Mostra-se com soberania. Um poste, à vista de todo o universo, tem alguma analogia com um trono.

Estar exposto é ser contemplado.

Um mau reinado tem evidentemente júbilos do pelourinho. Nero incendiando Roma, Luis XIV tomando traiçoeiramente o Palatinado, o Regente Jorge matando lentamente Napoleão, Nicolau assassinando a Polônia em face da civilização, deviam sentir um pouco daquela volúpia sonhada por Clubin. A imensidade do desprezo parece grandeza ao desprezado.

Ser desmascarado é uma derrota, mas desmascarar-se é uma vit ória. É a ebriedade, é a imprudência insolente e satisfeita, é uma nudez transportada que insulta tudo diante de si. Suprema felicidade.

Estas idéias em um hipócrita parecem contradição, e não são.

Toda a infâmia é conseqüente. O mel é fel. Escobar confina no Marques de Sade. Prova: Léotade. O hipócrita, sendo perverso completo, tem em si os dois pólos da perversidade. De um lado é padre, do outro cortesão. O seu sexo de demônio é duplo. O hipócrita é o horrível hermafrodita do mal. Fecunda-se a si próprio; gera-se, transforma-se. Queres vê-lo formoso? Olha-o. Queres vê-lo horrível? Vira-o.

Clubin tinha em si toda esta sombra de idéias confusas. Pouco as percebia, mas gozava-as muito.

Uma porção de faíscas do inferno, atravessando a noite, era a sucessão dos pensamentos naquela alma.

Clubin conservou-se pensativo algum tempo; olhava para a sua honestidade com o ar com que a serpente contempla a pele que despiu.

Toda a gente acreditou naquela honestidade, ele próprio acreditou um bocadinho nela.

Deu segunda gargalhada.

Iam pensar que ele estava morto, e estava vivo.

Pensavam que estava perdido, e estava salvo. Que boa caçoada à tolice universal! E nessa tolice universal contava-se Rantaine. Clubin pensava em Rantaine com um desdém sem limites. Desdém da fuinha para com um tigre. Tinha conseguido o que falhara a Rantaine. Rantaine retirara-se enfiado, e Clubin triunfante. Tomou o lugar de Rantaine no leito da sua má ação, e foi ele quem teve a boa fortuna.

Quanto ao futuro, Clubin não tinha plano. Possuía os bilhetes do banco na boceta de ferro atada à cintura; bastava-lhe esta certeza.

Mudaria de nome. Há países onde 60 000 francos valem 600 000. Não seria má solução ir para um desses lugares viver honestamente com o dinheiro apanhado ao ladrão Rantaine. Especular, entrar em um grande negócio, engrossar o capital, tornar-se seriamente milionário também não era mau.

Por exemplo, em Costa Rica, como era o começo do grande com ércio do café, podia ganhar tonéis de ouro. Veria isso.

Demais, pouco importava. Clubin tinha tempo de pensar nessas coisas. O mais difícil estava feito. Despojar Rantaine, desaparecer com a Durande era o mais importante. Estava feito. O resto era simples. Não havia obstáculo possível. Nada a temer. Não podia acontecer nada. Nadaria para a costa, abordaria a Plainmont, de noite, galgaria as rochas da praia, iria à casa mal-assombrada, entraria facilmente por meio da corda de nós escondida de antem ão no buraco do rochedo; acharia na casa a mala contendo roupa e víveres, dentro de oito dias lá estavam os contrabandistas da Espanha, Blasquito provavelmente; por alguns guinéus, far-se- ia transportar, não a Tor Bay, como disse a Blasco para iludir, mas a Pasages ou a Bilbao. Daí iria a Vera Cruz ou a Nova Orleans.

Já era tempo de atirar-se ao mar, a chalupa estava longe, uma hora a nado era coisa nenhuma para Clubin, só 1 milha o separava da terra, pois que estava no Hanois.

Neste ponto dos seus cálculos, rasgou-se uma fresta do nevoeiro.

O formidável rochedo Douvres surgiu aos seus olhos

INTERVÉM O INESPERADO

Clubin olhou espantado.

Era o medonho escolho isolado.

Não era possível a ilusão a respeito daquela configuração disforme.

As duas Douvres gêmeas campeavam horríveis deixando ver entre si, como uma armadilha, a garganta de que falamos. Dissera- se um quebra-costas do oceano.

Estavam perto dele as rochas Douvres; o nevoeiro, como cúmplice, escondera-as.

Clubin errara o caminho por causa do nevoeiro. Apesar de toda a atenção, aconteceu-lhe o mesmo que a dois grandes navegadores, a González, que descobriu o cabo Branco, e a Fernandez, que descobriu o cabo Verde. A bruma desencaminhou-o. Pareceu-lhe excelente para a execução do projeto, mas tinha os seus perigos.

Clubin desviou-se para o oeste e enganou-se. O passageiro guernesiano, acreditando ver o Hanois, determinou o movimento do leme final; Clubin cuidou que se atirava ao Hanois.

A Durande, arrombada por um dos bancos do escolho, estava separada das Douvres apenas por algumas centenas de braças.

A 200 braças mais longe via-se um maciço cubo de granito. Descobriam-se nas faces escarpadas desta rocha algumas estrias e relevos apropriados para galgá-la.

Os cantos retilíneos dessas rudes muralhas de ângulo reto faziam pressentir no cume uma planura.

Era o Homem.

A rocha Homem era mais alta ainda que as Douvres. A sua plataforma dominava as pontas inacessíveis das duas rochas. Essa plataforma, abatendo-se pelas bordas, tinha uma cimalha e mostrava uma certa regularidade arquitetural. Não se podia imaginar nada mais triste e funesto. As vagas iam dobrar as suas tranqüilas toalhas nas faces quadradas daquele enorme rochedo negro, espécie de pedestal para os espectros imensos do mar e da noite.

Tudo aquilo estava mudo e morto. Havia apenas um sopro no ar e uma ruga nas ondas. Debaixo daquela superfície muda da água adivinhava-se a vasta vida afogada das profundezas.

Clubin vira muitas vezes de longe o escolho Douvres.

Convenceu-se bem que eram ali as Douvres.

Não podia duvidar.

Súbita e terrível mudança. As Douvres em vez de Hanois. Em vez de 1 milha, 5 léguas do mar! O impossível. A rocha Douvres, para o náufrago solitário, é a presença visível e palpável dos últimos momentos.

É impossível chegar à terra.

Clubin estremeceu. Tinha se metido na goela da sombra. Não havia outro refúgio além do rochedo Homem. Era provável que a tempestade sobreviesse de noite, e que a chalupa da Durande, sobrecarregada, soçobrasse. Nenhum aviso do naufrágio chegaria à terra. Não se saberia mesmo que Clubin ficara no rochedo Douvres.

Não havia outra perspectiva senão a morte por frio e fome. Os seus 75 000 francos nem mesmo lhe davam um bocado de pão.

Tudo quanto ele construíra deu em resultado aquela cilada; foi ele próprio o arquiteto laborioso de sua emboscada. Nenhum recurso.

Nenhuma solução possível. O triunfo fazia-se precipício. Em vez da liberdade, a captura. Em vez de um futuro próspero e longo, a agonia. De um relance esboroou-se-lhe o edifício. O paraíso sonhado por aquele demônio retomou a sua verdadeira figura: o sepulcro.

Entretanto, soprava o vento. O nevoeiro, sacudido, furado, repuxado, desfazia-se no horizonte em grandes lanhos informes. Reapareceu o mar.

Os bois, cada vez mais invadidos pela água, continuavam a berrar no porão.

Aproximava-se a noite; provavelmente a tempestade.

A Durande, a pouco e pouco levantada pelo mar, oscilava da direita para a esquerda, depois da esquerda para a direita, .

e começava a girar sobre o escolho como sobre um eixo.

Podia-se pressentir o momento em que uma vaga arrancaria o navio e o levaria água abaixo.

Havia menos obscuridade do que no momento do naufrágio. Apesar da hora ser já avançada, estava mais claro. O nevoeiro levou consigo uma parte da escuridão. O oeste limpou-se de nuvens. O crepúsculo é um vasto céu branco. Essa vasta claridade alumiava o mar.

A Durande naufragara em plano inclinado de popa a proa. Clubin trepou à proa que estava quase fora da água. Fitou no horizonte os olhos.

É próprio da hipocrisia ater-se à esperança. O hipócrita é homem que espera. A hipocrisia é uma esperança horrível: - O fundo dessa mentira é feito desta virtude, tornada vicio.

Coisa estranha de dizer, há confiança na hipocrisia. O hipócrita confia-se a certa indiferença do desconhecido, que consente no mal.

Clubin olhava para a extensão.

A situação era desesperada: aquela alma sinistra não desesperou.

Dizia consigo que depois daquele longo nevoeiro os navios conservados na bruma, à capa ou ancorados, iam continuar viagem e algum passaria no horizonte.

E, com efeito, apareceu uma vela.

Vinha de leste e ia para oeste.

Aproximando-se, desenhava-se o navio; tinha apenas um mastro, e estava armado em goleta. O gurupés era quase horizontal.

Antes de meia hora devia passar por perto do escolho Douvres.

Clubin disse consigo: Estou salvo.

Em momentos semelhantes, pensa-se primeiro na vida.

O cúter era quase estrangeiro. Quem sabe se não era um dos contrabandistas que iam a Plainmont? Quem sabe se não era Blasquito? Nesse caso, não somente salvava a vida como a fortuna; e o encontro do rochedo Douvres, apressando a conclusão, suprimindo a espera na casa mal-assombrada, dando desfecho à aventura em pleno mar, seria um incidente feliz.

Toda a certeza do bom êxito entrou freneticamente naquele espírito sombrio.

Estranha coisa é ver com que facilidade os tratantes acreditam que devem ser bem sucedidos.

Cumpria fazer apenas uma coisa.

A Durande, metida nos rochedos, misturava a sua configuração à deles, confundia-se com os seus recortes, sobre os quais parecia apenas um lineamento, ficava indistinta e perdida, e não bastava, com o pouco dia que havia, para atrair a atenção da embarcação que ia passar.

Mas uma figura humana, desenhando-se na alvura crepuscular, de pé na planura do rochedo Homem, e fazendo sinais de perigo, seria vista, sem dúvida alguma. Mandariam um escaler para recolher o náufrago.

O rochedo Homem ficava a 200 braças. Era simples atingi-lo a nado, fácil trepar por ele.

Não havia tempo a perder.

Estando a proa da Durande-sobre a rocha, era do alto da popa e do ponto em que estava que Clubin devia atirar-se ao mar.

Começou por deitar uma sonda, e reconheceu que havia ao pé da popa muito fundo. As conchas microscópicas de foraminíferos e de policistináceos que à sonda trouxe consigo estavam intatas, o que indicava que havia ali profundas cavas de rocha, onde a água, qualquer que fosse a agitação da superfície, era sempre tranqüila.

Despiu-se, deixando as roupas no tombadilho. Acharia roupa no cúter.

Conservou apenas o cinto de couro.

Depois de despir-se, levou a mão ao cinto, apertou-o bem, apalpou a caixinha de ferro, estudou rapidamente com o olhar a direção que devia seguir no meio dos parcéis e das vagas para alcançar o rochedo Homem; depois, precipitou-se de cabeça para baixo.

Como caiu de alto, mergulhou muito.

Chegou ao fundo do mar, tocou-o. Costeou alguns instantes as rochas submarinas, depois fez um movimento para subir à superfície.

Nesse momento sentiu-se agarrado pelo pé

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