Gilliatt dormiu bem. Mas sentiu frio, e por isso acordou várias vezes.
Tinha naturalmente os pés colocados no fundo do buraco, e a cabeça à borda. Não teve o cuidado de tirar daquele leito uma porção de seixos agudos que não lhe davam melhor sono.
De quando em quando entreabria os olhos.
Ouvia em certos instantes detonações profundas. Era o mar que enchia e entrava nas cavas do escolho com um ruído de canhão.
Tudo ali em roda apresentava o extraordinário da visão; Gilliatt tinha a quimera à roda de si. O meio espanto da noite contribuía para que ele se visse mergulhado no impossível. Gilliatt dizia consigo: Estou sonhando.
Depois tornava a dormir e, sonhando então, achava-se na casa dele, na de Lethierry, em Saint-Sampson; ouvia cantar Déruchette; estava no real. Enquanto dormia acreditava estar acordado e viver; quando acordava, pensava dormir.
Com efeito, era um sonho aquilo.
Lá pelo meio da noite, ouviu-se um vasto rumor no céu. Gilliatt teve confusamente consciência disso através do sono. Era provável que fosse o vento.
De uma vez que ele acordou, com um estremecimento de frio, abriu as pálpebras mais do que até então. Havia largas nuvens no zênite; a lua fugia e uma grande estrela ia atrás dela.
Gilliatt tinha o espirito cheio da difusão dos sonhos, e esse crescimento do sonho complicava as medonhas paisagens da noite.
De madrugada estava gelado e dormia profundamente.
A aurora tirou-o daquele sono talvez perigoso. A alcova de Gilliatt estava em frente ao sol nascente.
Gilliatt bocejou, espreguiçou-se e levantou-se do buraco.
Dormira tão bem que não compreendeu nada.
A pouco e pouco foi-lhe voltando o sentimento da realidade, e ele exclamou: Almocemos! O tempo estava calmo, o céu estava frio e sereno, não havia nuvens, a vassoura da noite limpara o horizonte, o sol levantava-se bem. Era um segundo dia bonito que começava. Gilliatt sentiu-se alegre.
Tirou a japona, envolveu-a na pele de carneiro, atou tudo e meteu o embrulho no fundo do buraco ao abrigo de alguma chuva eventual.
Depois fez a cama, isto é, pós fora os seixos agudos.
Feita a cama, deixou-se rolar ao longo da corda sobre o tombadilho da Durande, e correu para o nicho onde pusera o cesto de provisões.
Não achou o cesto; como estava muito à beira, o vento da noite atirou-o ao mar.
Isto anunciava uma intenção de luta.
Era preciso que houvesse no vento uma certa vontade para ir buscar o cesto.
Era um começo de hostilidades. Gilliatt compreendeu isso. É difícil, quando se vive em familiaridade com o mar, não ver no vento e nas rochas criaturas e personagens.
Só restava a Gilliatt, além do biscoito e da farinha de centeio, o recurso das conchas com que se alimentou o náufrago morto de fome no rochedo Homem.
A pesca era impossível. O peixe, inimigo dos choques, evita os escolhos; as redes perdem o seu tempo nos recifes; as pontas da rocha só servem para rasgar as redes.
Gilliatt almoçou alguns mariscos que arrancou da pedra com dificuldade, escapando-se-lhe de quebrar a faca; feito este guapo lanche, ouviu um estranho tumulto no mar. Olhou.
Era o bando de goelanos e gaivotas que caía sobre uma das rochas baixas, batendo as asas, empurrando-se, gritando. Formigavam no mesmo ponto. Aquela horda de bicos e unhas saqueava alguma coisa.
Essa coisa era o cesto de Gilliatt.
O cesto, lançado sobre um banco pelo vento, rasgou-se. Os pássaros correram logo. Levaram no bico toda a espécie de pedaços de comida. Gilliatt reconheceu de longe a sua carne fumada e o seu stockfish.
Era a vez de entrarem também em luta os pássaros. Faziam represálias. Gilliatt tomara-lhes a casa; eles tomavam-lhe a comida
Passou-se uma semana.
Embora fosse a estação das chuvas, não chovia, o que alegrava Gilliatt.
Mas o que ele empreendia estava acima da força humana, em aparência ao menos, O sucesso era de tal modo inverossímil que a tentativa parecia louca.
As operações encaradas de perto mostram os seus empecilhos e perigos. Basta começar para ver como é difícil concluir. Todo come ço resiste. O primeiro passo que se dá é um revelador inexorável.
A dificuldade que se toca fere como um espinho.
Gilliatt teve logo de contar com o obstáculo.
Para salvar a máquina da Durande, para tentar com alguma probabilidade um tal salvamento naquele lugar e naquela estação, parecia que seria necessário uma grande porção de homens. Gilliatt era só; precisava ter uma ferramenta completa de carpinteiro e maquinista, e Gilliatt apenas tinha uma serra, um machado, uma faca e um martelo; precisava ter uma boa oficina e um bom telheiro; Gilliatt não tinha nada disso; precisava ter provisões e víveres.
Gilliatt não tinha pão.
Alguém que, durante essa primeira semana, visse Gilliatt trabalhando no escolho, não saberia o que pretendia ele. Parecia não pensar nem na Durande nem nas Douvres. Estava ocupado com o que havia nos bancos; parecia absorto no salvamento dos pequenos destroços do naufrágio. Aproveitava as marés baixas, para limpar os recifes de tudo o que o naufrágio lhes tinha dado. Andou de rocha em rocha apanhando o que o mar aí depusera. pedaços de velame, pedaços de corda, pedaços de ferro, tábuas rasgadas, vergas destruídas, aqui um barrete, ali uma corrente, além uma roldana.
Ao mesmo tempo estudava todas as anfractuosidade do escolho.
Nenhum deles era habitável, com grande decepção de Gilliatt, que sentia frio de noite no buraco arranjado na grande Douvre, e desejaria achar melhor pousada.
Duas dessas anfractuosidade eram assaz espaçosas, posto que o chão de rocha natural fosse quase geralmente oblíquo e desigual, podia-se andar ali de pé. A chuva e o vento entravam ali a gosto, mas as altas marés não lhes chegavam. Eram vizinhas da pequena Douvre e fáceis de trepar a qualquer hora. Gilliatt decidiu que uma seria um depósito e a outra uma forja.
Com todos os cabos que pode recolher fez pacotes dos restos do naufrágio, ligando os destroços em molhos e as lonas em embrulhos.
Apertou tudo cuidadosamente. À proporção que a maré enchente batia nesses pacotes, Gilliatt arrastava-os através dos recifes até o depósito. Achou na cava de uma rocha um cabo de guindar, por meio do qual podia levantar mesmo os grossos pedaços de madeira. Do mesmo modo arrancou ao mar os numerosos pedaços de corrente esparsos nos escolhos.
Gilliatt era tenaz e admirável nesse trabalho. Fazia quanto queria.
Nada resiste a um encarniçamento de formiga.
No fim da semana, Gilliatt tinha nesse depósito de granito todo o arsenal de objetos destruídos pela tempestade. Havia o lugar dos cabos e o das escotas; as bolinas não estavam misturadas com as driças; as bigotas estavam arranjadas conforme a quantidade de buracos que tinham; as roldanas estavam classificadas separadamente; as cavilhas do papa-figo, as machadinhas, os cabos e mil outros objetos ocupavam, uma vez que não estivessem completamente desfigurados pela avaria, compartimentos diferentes; tudo quanto era de carpintaria estava à parte; de cada vez que era possível, as tábuas dos fragmentos do casco eram ajustadas umas às outras; não havia confusão de viradores, nem amuradas com precintas; um dos recantos era reservado à tabuiga da Durande que apoiava os ovéns do cesto de gávea e as gabundonas. Cada destroço tinha o seu lugar. Todo o naufrágio estava ali classificado e com o rótulo competente. Era uma coisa semelhante ao caos armazenado.
Uma vela de estais, presa por pedras, cobria, aliás rota, o que a chuva podia estragar.
Por mais quebrada que estivesse a proa da Durande, Gilliatt conseguiu salvar os dois cepos da âncora, com as três rodas de polé.
Achou o gurupés, e teve muito trabalho em desvencilhá-lo das cordas; estavam seguras, e foram postas em tempo seco. Gilliatt, porém, tirou-as porque o maçame podia ser-lhe útil.
Recolheu igualmente a pequena âncora que ficara pendurada em uma cava do banco onde o mar a encalhara.
Achou no que fora camarote de Tangrouilie um pedaço de giz e guardou-o cuidadosamente. Podia ter necessidade de fazer algumas marcas.
Uma selha de couro para incêndio e algumas tinas em bom estado completavam a ferramenta de trabalho.
O resto de carvão que havia na Durande foi levado para o armazém.
Em oito dias o salvamento dos destroços estava acabado; o escolho estava limpo e a Durande aliviada. No casco só restava a máquina.
O pedaço da amurada que ainda aderia ao resto não fatigava o casco. Pendia sem peso, pois que era sustentada embaixo por uma saliência de pedra; demais era largo e vasto, e pesado, e não podia ficar no armazém. Parecia uma jangada aquele pedaço de madeira. Gilliatt deixou-o onde estava.
Gilliatt, profundamente pensativo neste labor, procurou em vão a boneca da Durande. Era uma dessas coisas que a onda tinha levado para sempre, Gilliatt para achá-la daria os seus dois braços, se não precisasse tanto deles.
Na entrada do armazém, e fora, viam-se dois montes de rebotalho, um de ferro, para fundir, outro de pau para queimar.
Gilliatt trabalhava desde a madrugada. Fora do tempo do sono, não descansava nunca.
Os corvos-marinhos, voando aqui e ali, contemplavam-no a trabalhar
Feito o depósito, Gilliatt fez a forja.
A segunda anfractuosidade escolhida por Gilliatt oferecia um reflágio, espécie de garganta, assaz profunda. Gilliatt teve a principio a idéia de dormir aí, mas o vento, renovando-se constantemente, era tão contínuo e teimoso nesse corredor que ele teve de renunciar à morada. O vento deu-lhe idéia de fazer a forja. Se a caverna não podia ser quarto, podia ser oficina. Utilizar o obstá- culo é um grande passo para o triunfo. O vento era o inimigo de Gilliatt, Gilliatt resolveu fazer dele o seu lacaio.
O que se diz de certos homens: próprios para tudo, bons para nada, pode-se dizer das cavas de rochedo. Não dão o que oferecem.
Tal cava de rochedo é uma banheira, mas deixa escapar a água; outra é um leito de musgo, porém molhado; outra é uma cadeira, mas de pedra.
A forja que Gilliatt queria estabelecer estava esboçada pela natureza; mas domar esse esboço, até torná-lo apropriado, e transformar a caverna em laboratório, nada mais áspero e difícil. Com três ou quatro rochas largas, abertas como funil, e abrindo para uma fenda estreita, o acaso fizera ali um vasto fole informe, muito melhor que os antigos foles de 14 pés de comprimento, que davam, por cada vez, 98 000 polegadas de ar. Aquilo era outra coisa.
As proporções de operação não se calculam.
O excesso de força era incomodo; era difícil regularizar aquele sopro.
A caverna tinha dois inconvenientes; o ar e a água atravessavam de um lado para o outro.
Não era a onda, era um pequeno esgoto perpétuo, mais semelhante a uma destilação que a uma torrente.
A espuma, continuamente lançada pela ressaca sobre o escolho, algumas vezes a mais de 100 pés no ar, acabara por encher de água do mar uma bacia natural situada nas altas rochas que dominavam a escavação. A abundância de água nesse reservatório fazia, um pouco atrás, no declive, uma pequena queda-dágua, de cerca de 1 polegada, caindo de 4 a 5 toesas. Ajuntava-se a isso um contingente de chuva. De tempos a tempos uma nuvem de passagem derramava algumas gotas naquele reservatório inesgotável e sempre transbordando.
A água era salobra, não potável, mas límpida, embora salgada. A queda escorria graciosamente nas extremidades dos filamentos verdes como nas pontas de uma cabeleira.
Gilliatt pensou em servir-se dessa água para disciplinar o vento.
Por meio de um funil de dois ou três tubos de tábuas, arranjados à pressa, sendo um de torneira, e de uma larga tina disposta como reservatório inferior, sem contrapeso, Gilliatt, que era, como dissemos, um pouco ferreiro e um pouco mecânico, conseguiu compor, para substituir o fole da forja, que não tinha, um aparelho menos perfeito do que aquele que se chama hoje cagniardelle, porém menos rudimentar do que o que se chamava outrora nos Pirineus uma trompa.
Tinha farinha de centeio, fez cola, tinha corda branca, fez estopa.
Com essa estopa e essa cola e alguns pedacinhos de pau, tapou ele todas as fendas do rochedo, deixando apenas um bico, feito com um pedaço de espoleta que achou na Durande e que servira à pedra de sinal. O bico ficava horizontalmente dirigido contra uma larga pedra onde Gilliatt pós a lareira da forja. Gilliatt fez uma rolha para tapar o bico quando fosse preciso.
Depois disto, Gilliatt ajuntou carvão e lenha na lareira, arranjou a pedra de ferir fogo no próprio rochedo, fez cair a faísca em um punhado de estopa, com a estopa acesa acendeu a lenha e o carvão.
Experimentou o fole. Era admirável.
Gilliatt sentiu essa altivez de ciclope, senhor do ar, da água e do fogo.
Senhor do ar, deu ao vento uma espécie de pulmão, criou no granito um aparelho respiratório, e fez um fole; senhor da água, da pequena cascata fez um tubo; senhor do fogo, tirou a flama daquele rochedo inundado.
Estando a escavação quase toda aberta, o fumo saía livremente, enegrecendo o rochedo. Aquele rochedo, que parecia feito para a espuma, conheceu a ferrugem.
Gilliatt tomou por bigorna um seixo multicor oferecendo a forma e as dimensões que se quisesse. Era uma perigosa base para bater, e podia acontecer que rebentasse. Uma das extremidades do seixo, arredondada, e acabando em ponta, podia a rigor figurar de bigorna conóide, mas faltava a bigorna piramidal. Era a antiga bigorna de pedra dos trogloditas. A superfície polida pela água tinha a rigidez do aço.
Gilliatt lastimava não ter trazido a sua bigorna. Como ignorava que a Durande estivesse partida pelo meio, esperava achar toda a ferramenta de carpintaria, ordinariamente colocada no porão da proa. Ora, era exatamente a proa que faltava.
As duas escavações, conquistadas no escolho por Gilliatt, eram vizinhas uma da outra. O depósito e a forja comunicavam-se.
Todas as noites, acabado o trabalho, Gilliatt ceava um pedaço de biscoito molhado em água, um ursozinho da água, ou algumas castanhas do mar, caça única daquele rochedo, e, tiritando como a corda, trepava para ir dormir na grande Douvre.
A espécie de abstração em que Gilliatt vivia aumentava-se pela materialidade das suas ocupações. A realidade era em alta dose. O trabalho corporal com os seus pormenores inumeráveis não diminuía a estupefação que sentia de achar-se ali, e de fazer o que estava fazendo. Ordinariamente o cansaço material é um fio que puxa para terra; mas a própria singularidade do trabalho empreendido por Gilliatt mantinha-o em um trabalho de região ideal e crepuscular.
Parecia-lhe às vezes estar dando marteladas nas nuvens.
Outras vezes parecia-lhe que as suas ferramentas eram armas. Tinha o singular sentimento de um ataque latente que ele repelia ou prevenia. Tecer maçame, desfiar uma vela, escorar duas pranchas, era fabricar máquinas de guerra. Os mil cuidados minuciosos deste salvamento acabavam por assemelhar-se a precau- ções contra as agressões inteligentes, mui pouco dissimuladas e muito transparentes. Gilliatt não sabia as palavras que exprimem as idéias, mas percebia as idéias. Sentia-se cada vez menos operário e cada vez mais pelejador.
Entrou ali como um domador. Compreendia isso quase. Estranha ampliação para o seu espírito.
Além disso, tinha à roda de si, a perder de vista, o imenso sonho do trabalho perdido. Nada mais perturbador do que ver manobrar a difusão das forças no insondável e no ilimitado. Procuram-se os fins. O espaço sempre em movimento, a água infatigável, as nuvens que parecem afadigadas, o vasto esforço obscuro, toda essa convulsão é um problema. Que faz este perpétuo tremor? Que constróem estes ventos? Que levantam estes abalos? Em que se ocupam os choques, os soluços, os gritos? Que faz todo esse tumulto? O fluxo e refluxo dessas questões é eternoromo a maré.
Gilliatt sabia o que fazia; mas a agitação da extensão era um enigma que o aturdia confusamente. Sem querer, mecanicamente, imperiosamente, por pressão e penetração, sem outro resultado mais que uma fascinação inconsciente e quase feroz, Gilliatt pensativo ajuntava, ao seu trabalho, o prodigioso trabalho inútil do mar. Na verdade, como não impressionar-se e sondar, ali à vista, o mistério da tremenda vaga laboriosa? Como não meditar; na propor ção da meditação que se tem, a oscilação da onda, a impetuosidade da espuma, a usura imperceptível do rochedo, o esfalfâmento insensato dos quatro ventos? Que terror para o pensamento não é o recomeçar perpétuo, o oceano poço, as nuvens Danaides, todo esse trabalho para coisa nenhuma! Para coisa nenhuma, não; só o Ignoto o sabe!
Um escolho próximo da costa é algumas vezes visitado pelos homens; um escolho em mar largo, nunca. Que se iria buscar aí? Não é uma ilha. Não se pode contar com vitualhas, nem árvores com fruta, nem pastos, nem animais, nem fontes de água potável. É uma nudeza numa solidão. É uma rocha, com declives fora da água e pontas debaixo da água. Nada se encontra aí - a não ser o naufrágio.
Essa espécie de escolhos, que a velha língua marinha chama os Isolados, são, como dissemos, lugares estranhos. Só há o mar. O mar faz ali o que lhe parece. Nenhuma aparição terrestre o perturba.
O homem assusta o mar; o mar desconfia dele; esconde-lhe o que é e o que faz. No escolho está seguro; lá não vai o homem.
Não será perturbado o monólogo da onda. A água trabalha no escolho, repara-lhe as avarias, aguça-lhe as pontas, eriça-o, conserta- o. Empreende a abertura do rochedo, desconjunta a pedra mole, desnuda a pedra dura, tira a carne, deixa o osso, remexe, fura, esburaca, canaliza, põe os intestinos em comunicação, enche o escolho de células, imita a esponja em grande, cava o interior, esculpe o exterior.
Nessa montanha, que lhe pertence, o mar faz para si antros, santuários, palácios; tem uma vegetação hedionda e esplendida; comp õe-se de ervas flutuantes que mordem e monstros que se enraízamente na sombra da água essa horrível magnificência. No escolho isolado, ninguém o espreita, nem o incomoda; o mar desenvolve aí a gosto o seu lado misterioso e inacessível ao homem.
Depõe aí as secreções vivas e horríveis. Acha-se ali todo o ignorado do mar.
Os promontórios, os cabos, os cachopos, os arrecifes, são verdadeiras construções. A formação geológica é pouca coisa comparada à formação oceânica. Os escolhos, casas de vaga, pirâmides da espuma, pertencem à arte misteriosa que o autor deste livro chamou algures a Arte da Natureza, e tem uma espécie de estilo enorme. Ali o fortuito parece intencional. Essas construções são multiformes. Tem o embaraçado do pólipo, a sublimidade da catedral, a extravagância do pagode, a amplidão da montanha, a delicadeza da jóia, o horror do sepulcro. Tem alvéolos como uma colmeia, patíbulos como um pátio de bichos, túneis como um combro de toupeiras, cárceres como uma bastilha, emboscadas como um campo. Tem portas, mas tapadas colunas, mas truncadas, torres, mas inclinadas, pontes, mas despedaçadas. Os seus compartimentos são inextricáveis; isto é só para os pássaros; aquilo é só para os peixes. Não se passa. A figura arquitetural transforma-se, desconcerta-se, afirma e nega a estática, quebra-se, detém-se, começa em arquivolta, acaba em arquitrave; seixo sobre seixo.
Encélado é o pedreiro. Uma dinâmica extraordinária ostenta ali os seus problemas resolvidos. Terríveis abóbadas pendentes ameaçam cair, mas não caem. Ninguém sabe como se seguram estes edifícios vertiginosos. Declives, lacunas, suspensões insensatas; desconhecesse a lei desse babelismo. O Ignoto, imenso arquiteto, nada calcula e tudo consegue; os rochedos, construídos confusamente, compõem um monumento monstro; nenhuma lógica, um vasto equilíbrio. É mais do que a solidez, é a eternidade. É a desordem ao mesmo tempo. O tumulto da vaga parece ter passado no granito. Um escolho é a tempestade petrificada. Nada mais impassível para o espírito do que essa medonha arquitetura, sempre esboroante, sempre de pé. Tudo ali se ajuda e se contraria. É um combate de linhas donde resulta um edifício. Reconhece-se a colaboração dessas duas querelas, o oceano e o furacão.
Arquitetura que tem terríveis obras-primas. O escolho Douvres era uma delas.
Esse foi construído e aperfeiçoado pelo mar com um amor formidável. Lambia-o a água rabugenta. Era hediondo, pérfido, obscuro; cheio de cavas.
Tinha um sistema de veias que eram fendas submarinas, ramificando- se em profundezas insondáveis. Muitos orifícios desse rasg ão inextricável ficavam a seco nas vazantes.
Podia-se entrar, então, com risco.
Gilliatt, pela necessidade do trabalho, teve de explorar todas essas grotas. Nenhuma delas deixava de ser terrível. Em todas as cavas, reproduzia-se, com as dimensões exageradas do oceano, aquele aspecto de matadouro e açougue estranhamente imitado do centro das Douvres. Quem não viu as escavações desse gênero, na parede do eterno granito, esses horríveis frescos da natureza, não pode fazer uma idéia do que é.
Eram dissimuladas essas grotas ferozes, era inconveniente demorar- se nelas. A maré enchente invadia-as até o teto.
Abundavam os mariscos e os frutos do mar.
Estavam cheias de seixos rolados e amontoados no fundo. Muitos pesavam mais de 1 tonelada. Eram de todas as proporções e de todas as cores, a maior parte pareciam ensangüentados, alguns, cobertos de filamentos peludos e viscosos, pareciam grossas toupeiras verdes focinhando no rochedo.
Muitas dessas cavas terminavam como um forno. Outras, artérias de uma circulação misteriosa, prolongavam-se no rochedo em fendas tortuosas e negras. Eram as ruas do golfão. Essas fendas estreitavam-se constantemente de modo a não deixar passar um homem. Um brandão aceso deixava ver obscuridades gotejantes.
Gilliatt aventurou-se uma vez numa dessas fendas. A hora da maré prestava-se a isso. Era um belo dia de calma e de sol. Não havia que temer nenhum acidente do mar que pudesse complicar o perigo.
Duas necessidades, como dissemos, levavam Gilliatt a essas explorações: procurar os destroços úteis e achar lagostas para comer.
Já lhe faltavam conchas nas Douvres.
A fenda era estreita e a passagem quase impossível. Gilliatt via claridade do outro lado. Fez esforço, espremeu-se como pode e entrou até onde lhe foi possível.
Achou-se, sem pensar, no interior do rochedo da ponta do qual Clubin atirara-se da Durande. Gilliatt estava debaixo dessa ponta.
O rochedo abrupto exteriormente, e inacessível, era vazio no interior.
Tinha galerias, poços e quartos como o túmulo de um rei do Egito. Aquele dédalo era dos mais complicados, trabalho da água, infatigável solapa do mar. As divisões daquele subterrâneo submarino comunicavam provavelmente com a água imensa do exterior por mais de uma saída, umas abertas ao nível da água, outras profundos funis invisíveis. Perto dali, Gilliatt nem o sabia, foi que Clubin. atirou-se ao mar.
Gilliatt, naquela fisga de crocodilos, onde na verdade não havia medo de achá-los, serpenteava, arrastava-se, esbarrava, curvava-se, levantava-se, perdia o pé, encontrava o chão, avançava penosamente. A pouco e pouco alargou-se o bocal, apareceu uma meia luz, e de repente Gilliatt entrou em uma caverna extraordinária
A luz vinha a propósito.
Um passo mais, Gilliatt estaria em uma água talvez sem fundo. As águas das cavas tem um tal resfriamento e uma paralisia tão súbita, que lá ficam muitas vezes os mais fortes nadadores.
Demais, não havia meio de subir e agarrar às rochas entre as quais ficaria preso. Gilliatt parou.
A grota, donde ele saíra, ia ter a mesma saliência estreita e viscosa, espécie de vulcão na muralha a pique. Gilliatt encostou-se à muralha e olhou.
Estava numa grande cava. Tinha acima de si alguma coisa semelhante ao interior de um crânio dissecado. E parecia dissecado de fresco. As nervuras gotejantes das estrias do rochedo imitavam na abóbada as fibras dentadas de uma bola. Por teto, a pedra; por assoalho, o mar; as ondas apertadas entre as quatro paredes da grota pareciam vastos ladrilhos flutuantes. A grota estava fechada por todos os lados. Nenhuma trapeira, nenhum respiradouro, nenhuma fenda na parede. A luz vinha de baixo, através da água.
Era um resplendor tenebroso.
Gilliatt, cujas pupilas se dilataram durante o trajeto obscuro do corredor, distinguia tudo naquele crepúsculo.
Conhecia, por lá ter ido mais de uma vez, as cavas de Pleinmont em Jersey, o Croux-Maillé em Guernesey, as Boutiques ein Jerk, assim chamadas por causa dos contrabandistas que ali depunham as suas mercadorias; nenhum desses maravilhosos antros era compar ável ao quarto subterrâneo e submarino onde penetrara.
Gilliatt via diante dele, debaixo da vaga, uma espécie de arcada afogada. Essa arcada, ogiva natural, trabalhada pela onda, era brilhante entre as suas duas colunas profundas e negras. Era por aquele pórtico submergido que entrava na caverna a claridade do alto-mar. Luz estranha que vinha por um buraco na água.
Essa claridade esvazava-se debaixo da água como um largo leque e repercutia no rochedo. Os raios retilíneos, cortados em longas fitas negras, sobre a opacidade do fundo, clareando ou escurecendo de uma anfractuosidade a outra, imitavam interposições de lâminas de vidro. Havia luz, mas luz desconhecida. Já não era a nossa luz. Podia-se crer que se estava em outro planeta. A luz era um enigma; dissera-se o verde clarão da pupila de uma esfinge. A cava figurava o interior de uma cabeça enorme; a esplendida abó- bada era o crânio, e a arcada era a boca; não havia buracos dos olhos. A boca engolindo e vomitando o fluxo e o refluxo, aberta em pleno meio-dia exterior, bebia a luz e vomitava o amargor.
Certos entes, inteligentes e maus, assemelham-se a isto. O raio do sol, atravessando aquele pórtico obstruído de uma espessura vidrenta da água do mar, tornava-se verde como um raio de Aldebarã. A água, cheia dessa luz molhada, parecia esmeralda em fusão. Um reflexo de água-marinha de incrível delicadeza tingia brandamente toda a caverna.
A abóbada, com os seus lóbulos quase cerebrais e as suas ramifica ções semelhantes a nervos, tinha um fraco reflexo de crisópraso.
O chamalote da onda, reverberado no teto, decompunha-se e recompunha-se constantemente, alargando e estreitando as suas rodas de ouro com um movimento de dança misteriosa. Saia dali uma impressão espectral; o espírito podia perguntar que presa ou que espera era aquela que fazia tão alegremente aquele magnífico filete de fogo vivo. Nos relevos da abóbada e nas asperidades da rocha pendiam longas e finas vegetações banhando provavelmente as raízes através do granito em alguma toalha de água superior, e desbagando, nas pontas, uma gota de água, uma pérola. Essas pérolas caíam no golfão com um pequeno rumor. Todo esse conjunto era inexprimível. Não se podia imaginar nada mais lindo nem mais lúgubre. Era ali o palácio da Morte, alegre
Sombra que deslumbra, tal era aquele sítio surpreendente.
A palpitação do mar fazia-se sentir naquela cava. A oscilação externa inchava e deprimia a toalha de água interior com a regularidade de uma respiração. Cuidava-se ver uma alma misteriosa naquele grande diafragma verde elevando-se e abaixando-se em silêncio.
A água era magicamente límpida, e Gilliatt distinguia, em profundezas diversas, estações imersas, superfícies de rochas de um verde carregado a mais e mais. Certas cavas obscuras eram provavelmente insondáveis.
Dos dois lados do pórtico submarino esboços de címbrios abatidos, cheios de trevas, indicavam pequenas cavas laterais, pontos inferiores da caverna central, acessíveis talvez na época das marés extremamente baixas.
Essas anfractuosidade tinham tetos em plano inclinado, em ângulos mais ou menos abertos. Pequenas plagas, descobertas pelas escavações do mar, mergulhavam-se e perdiam-se debaixo dessas obliqüidade.
Longas ervas espessas, de mais de 1 toesa, ondulavam debaixo da água como um balancear de cabelos ao vento. Entreviam-se florestas de sargaço.
Fora da água, e dentro da água, toda a muralha da cava, de alto a baixo, desde a abóbada até ao desaparecimento no invisível, era tapetada dessas prodigiosas florescências do oceano, tão raramente visíveis ao olho humano, que os velhos navegadores espanh óis chamaram praderias del mar. Espesso musgo, com todos os matizes da azeitona, escondia e ampliava os granitos. De todos os declives rompiam os delgados loros lavrados do sargaço com que os pescadores fazem barômetros. O hálito obscuro da caverna agitava essas correias luzentes.
Debaixo dessas vegetações escondiam-se e mostravam-se ao mesmo tempo as mais raras jóias do escrínio do oceano, os marfins, as mitras, os elmos, as púrpuras, os búzios, os estrutiolários, as conchas univalves. As campanas de lapas, semelhantes a barracas microscópicas, aderiam ao rochedo e grupavam-se em aldeias em cujas ruas rolavam as multivalves, esses escarabeus da vaga. Não podendo os seixos de mariscos entrar facilmente nessa grota, aí se refugiavam as conchas. As conchas são grandes fidalgos que, bordados e paramentados, evitam o rude e incivil contato do populacho das pedras. A fúlgida reunião das conchas fazia debaixo da água, em certos lugares, inefáveis irradiações através das quais entrevia-se um grupo de azuis e vermelhos, e todos os reflexos da água.
Na parede da caverna, um pouco acima da linha de flutuação da maré, uma planta magnífica e singular prendia-se como um debrum à tapeçaria do sargaço, continuava-o e terminava-o. Essa planta, fibrosa, vasta, inextrincavelmente dobrada, e quase negra, oferecia ao olhar largas toalhas embaraçadas e obscuras, ornadas em toda a extensão de numerosas florinhas cor de lápis-lazúli. Na água parecia que essas fores acendiam-se, e cuidava-se ver brasas azuis. Fora da água eram flores, dentro da água eram safiras, de modo que a onda, subindo e inundando o esvazamento da grota, revestia essas plantas e cobria o rochedo de carbúnculos.
A cada enchimento da vaga túmida como um pulmão, essas flores banhadas resplandeciam, a cada abaixamento apagavam-se; melanc ólica semelhança com o destino. Era a aspiração, que é a vida; era a expiração, que é a morte.
Uma das maravilhas daquela caverna era a rocha. Essa rocha, ora muralha, ora címbrio, ora pilastra, era em alguns lugares bruta e nua, em outros trabalhada pelos mais delicados lavores naturais.
Um não sei que, aliás de espírito, misturava-se à estupidez maciça da pedra. Que artista não é o abismo! Tal pedaço de parede, cortado em quadro, e cheio de altos e baixos representando atitudes, figurava um vago baixo relevo; ante essa escultura, em que havia um tanto de nuvem, podia-se sonhar com Prometeu esbo- çando para Miguel Angelo. Parecia que com alguns toques de cinzel o gênio poderia acabar o que o gigante começara. Em outros lugares a rocha era embutida como um broquel sarraceno ou traçada como uma florentina. Tinha almofadas que pareciam bronze de Corinto, arabescos como uma porta de mesquita; como uma pedra rúnica tinha sinais de unha obscuros e improváveis. Plantas com ramos torcidos em forma de verruma, cruzando-se no dourado do musgo, cobriam-na de filigranas. Era um antro e um alhambra. Era o encontro da selvajaria e da ourivesaria na augusta e disforme arquitetura do acaso.
O magnífico bolor do mar aveludava os ângulos de granito. As pedras estavam adornadas de lianas grande floras, tão destras que não caíam, e pareciam inteligentes tão bem adornavam elas.
Parietárias com estranhos ramalhetes mostravam os seus tufos a propósito e com gesto. Havia aí a casquilhice possível. numa caverna.
A surpreendente luz edênica que vinha de baixo da água, a um tempo penumbra marinha e radiação paradisíaca, esfumava todos os lineamentos em uma espécie de difusão visionária. Cada vaga era um prisma. O contorno das coisas debaixo desses ondeamentos iriados tinha o cromatismo das lentes de óptica demasiado convexas; espectros solares flutuavam debaixo da água.
Acredítar-se-ia ver torcer-se nessa diafaneidade auroreal pedaços de arco-íris afogados. Em outros lugares havia na água um certo luar. Todos os esplendores pareciam amalgamados ali para fazer um que de cego e de noturno. Nada mais impossível e enigmático do que aquele fasto naquela cava. O que dominava ali era o encanto. A vegetação fantástica e a estratificação informe acordavam-se e compunham uma harmonia. Era de belo efeito aquele consórcio de coisas medonhas. Penduravam-se as ramificações parecendo apenas tocar de leve. Era profundo o afago da rocha selvagem e da flor ruiva.
Pilares maciços tinham, por capitéis e por ligaduras, frágeis e trêmulas grinaldas; parecia ver-se dedos de fada fazendo cócegas nas patas de um hipopótamo, e o rochedo sustentava a planta e a planta abraçava o rochedo com uma graça monstruosa.
Resultava dessa deformidade misteriosamente ajustada uma beleza soberana. As obras da natureza, não menos supremas que as obras do gênio, contem o absoluto e impõem-se. O inesperado delas faz-se obedecer imperiosamente pelo espírito; sente-se uma premeditação que fica fora do homem, e elas não são mais surpreendentes do que quando fazem subitamente sair o delicado do terrível.
Aquela grota estava, por assim dizer, e se tal expressão é admissível, sideralizada. Sentia-se ali o imprevisto do espanto. O que enchia aquela cripta era luz do apocalipse. Não havia certeza de que aquilo existisse. Tinha-se diante dos olhos uma realidade cheia de impossível. Olhava-se isto, tocava-se, presenciava-se; mas era difícil crer.
Era luz aquilo que jorrava daquela janela debaixo da água? Era água aquilo que tremia naquela bacia obscura? Aqueles címbrios e pórticos não eram nuvem celeste imitando uma caverna? Que pedra era aquela que se pisava? Aquele apoio não ia desconjuntar-se e tornar-se fumo? Que joalheria de conchas era aquela que se entrevia? Que distância havia dali à vida, à terra, aos homens? Que encanto era aquele misturado àquelas trevas? Comoção inaudita, quase sagrada, à qual misturava-se a doce inquietação das ervas no fundo da água.
Na extremidade da cava, que era oblonga, debaixo de uma arquivolta ciclópica singularmente correta, em um buraco quase indistinto, espécie de antro no antro, espécie de tabernáculo no santuário, atrás de uma toalha de luz verde, interposta como um véu de templo, descobria-se fora da água uma pedra de ângulos cortados em quadro com urna parecença de altar. A água circundava essa pedra. Parecia que uma deusa tinha descido dali. Era impossível deixar de pensar, debaixo daquela cripta, em cima daquele altar, em alguma nudeza celeste eternamente pensativa, que a entrada de um homem tinha feito fugir. Era difícil conceber aquela célula augusta sem uma visão dentro dela; a aparição, evocada pelo devaneio, recompunha-se por si; um porejar de casta luz sobre espáduas apenas entrevistas, uma fronte banhada de alvores, um oval de rosto olímpico, uns misteriosos seios arredondados, uns braços pudicos, uma coma esparsa em uma aurora, uns quadris inefáveis, modelados em luz pálida, no meio da sagrada bruma, umas formas de ninfa, um olhar de virgem, uma Venus saindo do mar, uma Eva saindo do caos; tal era o sonho que forçosamente assaltava a imaginação. Era inverossímil que não estivesse antes um fantasma naquele lugar. Uma mulher nua, com um astro em si, devia provavelmente ter ocupado aquele altar. Sobre aquele pedestal, donde emanava um êxtase inexprimível, imaginava-se uma alvura, viva e de pé. O espírito criava, no meio da adoração muda daquela caverna, uma Afrodite; uma Tétis, alguma Diana que pudesse amar, estátua do ideal formada de um raio e contemplando a sombra com meiguice. Foi ela quem, ao esquivar-se, deixou na caverna aquela claridade, espécie de perfume-luz saído daquele corpo-estrela. A fascinação daquele fantasma já não estava ali; já se não via a figura, feita para ser vista somente pelo invisível, mas sentia-se; recebia-se aquele estremecimento que é uma volúpia. A deusa estava ausente, mas a divindade estava presente.
A beleza do antro parecia feita para aquela presença. Era por causa dessa deidade, dessa fada dos nácares, dessa rainha das brisas, dessa graça nascida das vagas, era por causa dela, ao menos supunha-se isto, que o subterrâneo estava religiosamente murado, a fim de que nada perturbasse nunca, em derredor daquele divino fantasma, a obscuridade que é um respeito, o silêncio que é uma majestade.
Gilliatt, que era uma espécie de vidente da natureza, cismava, confusamente comovido.
De súbito, alguns palmos abaixo dele, na transparência encantadora daquela água, que eram pedras preciosas dissolvidas, Gilliatt viu alguma coisa inexprimível. Uma espécie de longo andrajo movia- se na oscilação das vagas. Esse andrajo não flutuava, vogava; tinha a forma de um cetro de truão com pontas; essas pontas tinham reflexos; parecia que uma poeira impossível de molhar-se cobria aquele todo. Era mais que horrível, era nojento. Tinha um que de quimérico; era um ente, a menos que não fosse uma aparência. Parecia dirigir-se para o obscuro da cava e mergulhava-se ali. As espessuras da água tornaram-se sombrias sobre aquela coisa que resvalou e desapareceu, sinistra.