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Polêmicas e Reflexões

Machado de Assis

IV

Vede estoutro que palestra com um homem público. Palestra, disse eu? Não; é o outro que fala; ele nem fala, nem ouve. Os olhos entornam-se-lhe em roda, aos que passam, a espreitar se o vêem, se o admiram, se o invejam. Não corteja as palavras do outro; não lhes abre sequer as portas da atenção respeitosa. Ao contrário, parece ouvi-las com familiaridade, com indiferença, quase com enfado. Tu, que passas, dizes contigo:

-- São íntimos; o homem público é familiar deste cidadão; talvez parente. Quem lhe faz obter esse teu juízo, senão eu? Como eu vivo da opinião e para a opinião, dou àquele meu aluno as vantagens que resultam de uma boa opinião, isto é, dou-lhe tudo.

Agora, contemplai aquele que tão apressadamente oferece o braço a uma senhora. Ela aceita-lho; quer seguir até a carruagem, e há muita gente na rua. Se a Modéstia animara o braço do cavalheiro, ele cumprira o seu dever de cortesania, com uma parcimônia de palavras, uma moderação de maneiras, assaz miseráveis. Mas quem lho anima sou eu, e é por isso que ele cuida menos de guiar a dama, do que de ser visto dos outros olhos. Por que não? Ela é bonita, graciosa, elegante; a firmeza com que assenta o pé é verdadeiramente senhoril. Vede como ele se inclina e bamboleia! Riu-se'? Não vos iludais com aquele riso familiar, amplo, doméstico; ela disse apenas que o calor é grande. Mas é tão bom rir para os outros! É tão bom fazer supor uma intimidade elegante.

Não deveríeis crer que me é vedada a sacristia? Decerto; e contudo, acho meio de lá penetrar, uma ou outra vez, às escondidas, até às meias roxas daquela grave dignidade, a ponto de lhe fazer esquecer as glórias do céu pelas vanglórias da terra. Verto-lhe o meu óleo no coração, e ela sente-se melhor, mais excelsa, mais su-blime do que esse outro ministro subalterno do altar, que ali vai queimar o puro incenso da fé. Por que não há de ser assim, se agora mesmo penetrou no santuário esta garrida matrona, ataviada das melhores fitas, para vir falar ao seu, Criador? Que farfalhar! Que voltear de cabeças! A antífona continua, a música não cessa; mas a matrona suplantou Jesus, na atenção dos ouvintes. Ei-la que dobra as curvas, abre o livro, compõe as rendas, murmura a oração, acomoda o leque. Traz no coração duas flores, a fé e eu; a celeste, colheu-o no catecismo, que lhe deram aos dez anos; a terrestre colheu-a no espelho, que lhe deram aos oito; são os seus dois testamentos e eu sou o mais antigo.

V

Mas eu perderia o tempo, se me detivesse a mostrar um por um todos os meus súditos; perderia o tempo e o latim. Omnia vanitas. Para que citá-los, arrolá-los, se quase toda a terra me pertence? E digo quase, porque não há negar que há tristezas na terra e onde há tristezas aí governa a minha irmã bastarda, aquela que ali vedes com os olhos rio chão. Mas a alegria sobrepuja o enfado e a alegria sou eu. Deus dá um anjo guardador a cada homem; a natureza dá-lhe outro, e esse outro é nem mais nem menos esta vossa criada, que recebe o homem no berço, para deixá-lo somente na cova. Que digo? Na eternidade; porque o arranco final da modéstia, que aí lês nesse testamento, essa recomendação de ser levado ao chão por quatro mendigos, essa cláusula sou eu que a inspiro e dito; última e genuína vitória do meu poder, que é imitar os meneios da outra.

Oh! A outra! Que tem ela feito no mundo que valha a pena de ser citado? Foram as suas mãos que carregaram as pedras das Pirâmides? Foi a sua arte que entreteceu os louros de Temístocles? Que vale a charrua do seu Cincinato, ao pé do capelo do meu cardeal de Retz? Virtudes de cenóbios, são virtudes? Engenhos de gabinete, são engenhos? Traga-me ela uma lista de seus feitos, de seus heróis, de suas obras duradouras; traga-me, e eu a suplantarei, mostrando-lhe que a vida, que a história, que os séculos nada são sem mim.

Não vos deixeis cair na tentação da Modéstia: é a virtude dos pecos. Achareis decerto, algum filósofo, que vos louve, e pode ser que algum poeta, que vos cante. Mas, louvaminhas e cantarolas têm a existência e o efeito da flor que a Modéstia elegeu para emblema; cheiram bem, mas morrem depressa. Escasso é o prazer que dão, e ao cabo definhareis na soledade. Comigo é outra coisa: achareis, é verdade, algum filósofo que vos talhe na pele; algum frade que vos dirá que eu sou inimiga da boa consciência. Petas! Não sou inimiga da consciência, boa ou má; limito-me a substituí-la, quando a veio em frangalhos; se é ainda nova, ponho-lhe diante de um espelho de cristal, vidro de aumento. Se vos parece preferível o narcótico da Modéstia, dizei-o; mas ficai certos de que excluireis do mundo, o fervor, a alegria, a fraternidade.

Ora, pois, cuido haver mostrado o que sou e o que ela é; e nisso mesmo revelei a minha sinceridade, porque disse tudo, sem vexame, nem reserva; fiz o meu próprio elogio que é vitupério, segundo um antigo rifão: mas eu não faço caso de rifões. Vistes que sou a mãe da vida e do contentamento ' o vínculo da sociabilidade, o conforto, o vigor a ventura dos homens; alço a uns, realço a outros, e a todos amo; e quem é isto é tudo, e não se deixa vencer de quem não é nada.

E reparai que nenhum grande vício se encobriu ainda comigo; ao contrário, quando Tartufo entra em casa de Orgon dá um lenço a Dorina para que cubra os seios. A modéstia serve de conduta a seus intentos. E por que não seria assim, se ela ali está de olhos baixos rosto caído, boca taciturna? Poderíeis afirmar que é Virgínia e não Locusta? Pode ser uma ou outra, porque ninguém lhe vê o coração. Mas comigo? Quem se pode enganar com este riso franco, irradiação do meu próprio ser; com esta face jovial, este rosto satisfeito, que um quase nada obumbra, que outro quase nada ilumina; estes olhos, que não se escondem, que se não esgueiram por entre as pálpebras, mas fitam serenamente o sol e as estrelas?

VI

O quê? Credes que não é assim? Querem ver que perdi toda a minha retórica, e que ao cabo da pregação, deixo um auditório de relapsos? Céus! Dar-se-á caso que a minha rival vos arrebatasse outra vez? Todos o dirão ao ver a cara com que me escuta este cavalheiro; ao ver o desdém do leque daquela matrona. Uma levanta os ombros; outro ri de escárnio. Vejo ali um rapaz a fazer-me figas: outro abana tristemente a cabeça; e todas, todas as pálpebras parecem baixar, movidas por um sentimento único. Percebo, percebo! Tendes a volúpia suprema da vaidade, que é a vaidade da modéstia.

CHERCHEZ LA FEMME

QUEM INVENTOU esta frase, como uma advertência própria a devassar a origem de todos os crimes, era talvez um ruim magistrado, mas, com certeza, excelente filósofo. Como arma policial, a frase não tem valor, ou pouco e restrito; mas aprofundai-a, e vereis tudo que ela abrange; vereis a vida inteira do homem.

Antes da sociedade, antes da família, antes das artes e do conforto, antes das belas rendas e sedas que constituem o sonho da leitora assídua deste jornal, antes das valsas de Strauss, dos Huguenotes, de Petrópolis, dos landaus e das luvas de pelica; antes, muito antes do primeiro esboço da civilização, toda a civilização estava em gérmen na mulher. Neste tempo ainda não havia pai, mas já havia mãe. O pai era o varão adventício, erradio e fero que se ia, sem curar da prole que deixava. A mãe ficava; guardava consigo o fruto do seu amor casual e momentâneo, filho de suas dores e cuidados; mantinha-lhe a vida. Não desvie a leitora os seus belos olhos desse infante bárbaro, rude e primitivo; é talvez o milionésimo avô daquele que lhe fabricou agora o seu véu de Malines ou Bruxelas; ou -- provável conjetura!-- é talvez o milionésimo avô de Meyerbeer, -- a não ser que o seja do Sr. Gladstone ou da própria leitora.

Se quereis procurar a mulher, é preciso ir até lá, até esse tempo, d'ogni luce mutto, antes dos primeiros albores. Depois, regressai. Vinde, rio abaixo dos séculos, e onde quer que pareis, a mulher vos aparecerá, com o seu grande influxo, algumas vezes maléfico, mas sempre irrecusável; achá-la-eis na origem do homem e no fim dele; e se devemos aceitar a original teoria de um filósofo, ela é quem transmite a porção intelectual do homem.

Assim, amável leitora, quando alguém vier dizer-vos que a educação da mulher é uma grande necessidade social, não acrediteis que é a voz da adulação, mas da verdade. O assunto é decerto prestádio à declamação; mas a idéia é justa. Não vos queremos para reformadoras sociais, evangelizadoras de teorias abstrusas, que mal entendeis, que em todo caso desdizem do vosso papel; mas entre isso e a ignorância e a frivolidade, há um abismo; enchamos esse abismo.

A companheira do homem precisa entender o homem. A graça da sociedade deve contribuir para ela mais do que com o influxo de suas qualidades tradicionais. Enfim, é preciso que a mulher se descative de uma dependência, que lhe é imortal, que não lhe deixa muita vez outra alternativa entre a miséria e a devassidão.

Vindo à nossa sociedade brasileira, urge dar à mulher certa orientação que lhe falta. Duas são as nossas classes feminis, -- uma crosta elegante fina, superficial, dada ao gosto das sociedades artificiais e cultas; depois a grande massa ignorante, inerte e virtuosa, mas sem impulsos, e em caso de desamparo, sem iniciativa nem experiência. Esta tem jus a que lhe dêem os meios necessários para a luta da vida social; e tal é a obra que ora empreende uma instituição antiga nesta cidade, que não nomeio porque está na boca de todos, e aliás vai antiga noutra parte desta publicação.

A ocasião é excelente para uns apanhados de estilo, uma exposição grave e longa do papel da mulher no futuro, para uma dissertação acerca do valor da mulher, como filha, esposa, mãe, irmã, enfermeira e mestra, tudo antiga dos nomes de Rute e Cornélia, Récamier e a Marquesa de Alorna. Não faltaria dizer que a mulher é a estrela que leva o homem pela vida adiante, e que principalmente as leitoras d’A Estação a merecem o culto de todos os espíritos elegantes. Mas estas cousas subentendem-se e não se dizem por ociosas. Baste-nos isto: educar a mulher é educar o próprio homem, a mãe completará o filho.

METAFÍSICA DAS ROSAS

Pour la rose, le jardinier est immortel, car de mémoire de rose, on n'a pas vu mouir un jardinier.

FONTENELLE

LIVRO PRIMEIRO

NO PRINCÍPIO era o Jardineiro. E o Jardineiro criou as Rosas. E tendo criado as Rosas, criou a chácara e o jardim, com todas as coisas que neles vivem para glória e contemplação das Rosas. Criou a palmeira, a grama. Criou as folhas, os galhos, os troncos e botões. Criou a terra e o estrume. Criou as árvores grandes para que amparassem o toldo azul que cobre o jardim e a chácara e ele não caísse e esmagasse as Rosas. Criou as borboletas e os vermes. Criou o sol, as brisas, o orvalho e as chuvas.

Grande é o Jardineiro! Suas longas pernas são feitas de tronco eterno. Os braços são galhos que nunca morrem; a espádua é como um forte muro por onde a erva trepa. As mãos, largas, espalham benefícios às Rosas.

Vede agora mesmo. A noite voou, amanhã clareia o céu, cruzam-se as borboletas e os passarinhos, há uma chuva de pilipos e trimados no ar. Mas a terra estremece. É o pé do Jardineiro que caminha para as Rosas. Vede: traz nas mãos o regador que borrifa sobre as Rosas a água fresca e pura, e assim também sobre as outras plantas, todas criadas para glória das Rosas. Ele o formou no dia em que, tendo criado o sol que dá vida às Rosas, este começou a arder sobre a terra. Ele o enche de água todas as manhãs, uma, duas, cinco, dez vezes. Para a noite, pôs ele no ar um grande regador invisível que peneira orvalho e quando a terra seca e o calor abafa, enche o grande regador das chuvas que alagam a terra de água e de vida.

LIVRO II

Entretanto, as Rosas estavam tristes, porque a contemplação das coisas era muda e os olhos dos pássaros e das borboletas não se ocupavam bastantemente das Rosas. E o Jardineiro, vendo-as tristes, perguntou-lhes:

-- Que tendes vós, que inclinais as pétalas para o chão? Dei-vos a chácara e o jardim; criei o sol e os ventos frescos; derramo sobre vós o orvalho e a chuva; criei todas as plantas para que vos amem e vos contemplem. A minha mão detém no meio do ar os grandes pássaros para que vos não esmaguem ou devorem. Sois as princesas da terra. Por que inclinais as pétalas para o chão?

Então as Rosas murmuraram que estavam tristes porque a contemplação das coisas era muda, e elas queriam quem cantasse os seus grandes méritos e as servisse.

O Jardineiro sacudiu a cabeça com um gesto terrível; o jardim e a chácara estremeceram até aos fundamentos. E assim falou ele, encostado ao bastão que trazia:

-- Dei-vos tudo e não estais satisfeitas? Criei tudo para vós e pedis mais? Pedis a contemplação de outros olhos; ides tê-la. Vou criar um ente à minha imagem que vos servirá, contemplará e viverá milhares e milhares para que vos sirva e ame.

E, dizendo isto, tomou de um velho tronco de palmeira e de um tronco de palmeira e de um facão. No alto do tronco abriu duas fendas iguais aos seus olhos divinos, mais abaixo outra igual à boca; recortou as orelhas, alisou o nariz, abriu-lhe os braços, as pernas, as espáduas. E, tendo feito o vulto, soprou-lhe em cima e ficou um homem. E então lançou mão de um tronco de laranjeira, rasgou os olhos e a boca, contornou os braços e as pernas e soprou-lhe também em cima, e ficou uma Mulher.

E como o homem e a mulher adorassem o Jardineiro, ele disse-lhes:

-- Criei-vos para o único fim de amardes e servirdes as Rosas, sob a pena de morte e abominação, porque eu sou o Jardineiro e elas são as senhoras da terra, donas de tudo o que existe: o sol e chuva, o dia e a noite, o orvalho e os ventos, os besouros, os colibris as andorinhas, as plantas todas, grandes e pequenas, e as flor e as sementes das flores, as formigas, as borboletas, as cigarras os filhos das cigarras.

LIVRO III

O homem e a mulher tiveram filhos e os filhos outros filhos, disseram eles entre si:

-- O Jardineiro criou-nos para amar e servir as Rosas; façam festas e danças para que as Rosas vivam alegres.

Então vieram à chácara e ao jardim, e bailaram e riram, e giraram em volta das Rosas, cortejando-as e sorrindo para elas. Vieram também outros e cantaram em verso os merecimentos das Rosas. E quando queriam falar da beleza de alguma filha das mulheres faziam comparação com as Rosas, porque as Rosas são as maiores belezas do Universo, elas são as senhoras de tudo o que vive e respira.

Mas, como as Rosas parecessem enfaradas da glória que tinham no jardim, disseram os filhos dos homens às filhas das mulheres: Façamos outras grandes festas que as alegrem. Ouvindo isto, o jardineiro disse-lhes: - Não; colhei-as primeiro, levai-as depois a lugar de delícias que vos indicarei.

Vieram então os filhos dos homens e as filhas colheram as Rosas, não só as que estavam abertas como algumas ainda não desabrochadas; e depois as puseram no peito, na cabeça ou em grandes molhos, tudo conforme ordenara o Jardineiro. E levando-as para fora do jardim, foram com elas a um lugar de delícias, misterioso e remoto, onde todos os filhos dos homens e todas as filhas das mulheres as adoram prostrados no chão. E depois que o jardineiro manda embora o sol, pega as Rosas cortadas pelos homens e pelas mulheres, e uma por uma prega-as no toldo azul que cobre a chácara e o jardim, onde elas ficam cintilantes durante a noite. E é assim que não faltam luzes que clareiem a noite quando o sol vai descansar por trás das grandes árvores do acaso.

Elas brilham, elas cheiram, elas dão as cores mais lindas da terra.
Sem elas nada haveria na terra, nem o sol, nem o jardim, nem a chácara, nem os ventos, nem as chuvas, nem os nem os homens, nem as mulheres, nada mais do que o Jardineiro, que as tirou do seu cérebro porque elas são os pensamentos do Jardineiro, desabrochadas no ar e postas na terra, criada para elas e para glória delas. Grande é o Jardineiro! Grande e eterno é o pai sublime das rosas sublimes.

JOSÉ DE ALENCAR

CADA ANO que passa é uma expansão da glória de José de Alencar.

Outros apagam-se com o tempo; ele é dos que fulguram a mais e mais, serenamente, sem tumulto, mas com segurança.

São assim as glórias definitivas.

Na história do romance e na do teatro, para não sair das letras, José de Alencar escreveu as paginas que todos lemos, e que há de ler a geração futura.

O futuro nunca se engana.

CARTA A UM AMIGO [RJ. Jun. 1884.]

MEU AMIGO, -- Prometia-lhe um artigo para o livro que se vai imprimir, comemorando mais um progresso do Liceu Literário Português, e sou obrigado a não lhe dar nada do que era minha intenção. Tinha planeado uma apreciação longa e minuciosa das instituições literárias e outras dos portugueses no Brasil, faltou-me o tempo e descanso do espírito.

Escrever somente algumas reflexões acerca do papel dos portugueses na América é cair na repetição. Louvar o ardor com que eles se organizam em associações de beneficência, de leitura e de ensino, a tenacidade dos seus esforços, a dedicação de todos constante e obscura, com os olhos no bem comum e no lustre do nome coletivo, é dizer, o menos bem, o que em todos os tempos se tem escrito, pouco depois que o Brasil se separou da mãe-pátria para continuar na América o que a nossa língua produziu na Europa.

Não é menos sabido, -- e, porventura, é ainda mais notável, no que respeita às associações de ensino e leitura, -- que todos esses esforços e trabalhos saem das mãos de uma classe de homens geralmente despreocupada da vida mental. Tem-se por efetiva e constante a incompatibilidade do ofício mercantil com os hábitos do espírito puro; os portugueses na América não raro mostram que as duas cousas podem ser paralelas, não inimigas, que há um arrabalde em Cartago por uma aula de Atenas.

Desenvolver essa observação por meio de um estudo minucioso e individual das instituições portuguesas, entre nós, -- tal era a minha idéia. Entre elas ocuparia brilhante lugar o Liceu Literário Português, uma das mais antigas e notáveis. Há longos anos criada, trabalhando na sombra, com diversa fortuna, ao que parece, mas nunca extinta, nem desamparada, veio galgando os tempos até o grau próspero em que a vemos. Homens, em cujos ombros pesam cuidados de outra ordem e vária espécie, deram a esse grêmio o melhor das afeições, a devoção do espírito, e um zelo que, se alguma vez afrouxou, não morreu nunca, nem lhe entrou o desalento, e a prova e que do tronco pujante brotam novos galhos, onde circula a mesma vida donde penderão frutos de saúde, que incitarão a outros e ainda a outros. Cultores do pão, sabem que nem só de pão vive o homem.

Desculpe se não acudo como quisera ao seu amável convite e creia na afeição e estima do MACHADO DE ASSIS

PEDRO LUIS

JORNALISTA, poeta, deputado, administrador, ministro e homem da mais fina sociedade fluminense, pertencia este moço à geração que começou por 1860.

Chamava-se Pedro Luís Pereira de Sousa e nasceu no município de Araruama, Província do Rio de Janeiro, a 15 de dezembro de 1839, filho do Comendador Luís Pereira de Sousa e de D. Maria Carlota de Viterbo e Sousa. Era formado em ciências sociais e jurídicas pela Faculdade de S. Paulo.

Começou a vida política na folha de Flávio Farnese, a Atualidade, de colaboração com Lafayette Rodrigues Pereira, atualmente senador, e com Bernardo Guimarães, mavioso poeta mineiro, há pouco falecido. Ao mesmo tempo iniciou vida de advogado no escritório de F. Otaviano.

Essa primeira fase da vida de Pedro Luís dá vontade de ir longe.

A figura de Flávio Farnese surge debaixo da pena e incita a recompor com ela uma quadra inteira de fé e de entusiasmo liberal. Ao lado de Farnese, de Lafayette, de Pedro Luís, vieram outros nomes que, ou cresceram também, ou pararam de todo, por morte ou por outras causas. Sobre tal tempo é passado um quarto de século, o espaço de uma vida ou de um reinado. Olha-se para ele com saudade e com orgulho.

Conheci Pedro Luís na imprensa. Íamos ao Senado tomar nota dos debates, ele, Bernardo Guimarães e eu, cada qual para o seu jornal. Bernardo Guimarães era da geração anterior, companheiro de Álvares de Azevedo, mas realmente não tinha idade; não a teve nunca. A nota juvenil era nele a expressão de humor e do talento,

Nem Bernardo nem eu íamos para a milícia política; Pedro Luís dentro de pouco foi eleito deputado pelo 2.º distrito da Província do Rio de Janeiro com os conselheiros Manuel de Jesus Valdetaro e Eduardo de Andrade Pinto. A estréia de Padre Luís na tribuna foi um grande sucesso do tempo, e está comemorada nos jornais com a justiça que merecia. Tratava-se de um projeto concedendo um pedaço de terra a um Padre Janrard, lazarista. Padre Luís fez desse negócio insignificante uma batalha de eloquência, e proferiu um discurso cheio de grande alento liberal. Surdiram-lhe em frente dous adversários respeitáveis: Monsenhor Pinto de Campos, que reunia aos sentimentos de conservador o caráter sacerdotal e o Dr. Junqueira queira, atual senador: eram dous nomes feitos e tanto bastava a honrar o estreante orador.

As vicissitudes políticas fizeram-se sentir em breve.
Pedro Luís não foi reeleito na legislatura seguinte. Em 1868 a situação liberal, o Conselheiro Otaviano tratou da funda Reforma, e convidou Padre Luís, que ali trabalhou ao lado flor do partido.

Então, como antes, cultivou as letras, deixando algumas composições notáveis, como "Os Voluntários da Morte", "Terribilis Dea "Tiradentes" e "Nunes Machado". A primeira destas tinha sido r citada por ele mesmo em uma casa da Rua da Quitanda, onde se reuniam alguns amigos e homens de letras; e foi uma revelação de primeira ordem. Recitada pouco depois no teatro e divulgada pela imprensa, correu o império e atravessou o oceano, sendo reproduzida em Lisboa, donde o Visconde de Castilho escreveu ao poeta dizendo-lhe que essa ode era um rugido de leão.

Todas as demais composições tiveram o mesmo efeito. São, na verdade, cheias de grande vigor poético, raro calor e movimento lírico.

Não tardou que a política ativa o tomasse inteiramente. Em 1877 subiu ao poder o Partido Liberal e ele tornou à Câmara dos Deputado, representando a Província do Rio de Janeiro. A 28 de março de 1880, organizando o Sr. Senador Saraiva o seu ministério, confiou a Pedro Luís a pasta dos negócios estrangeiros, para a qual parecia indicá-lo especialmente as qualidades pessoais. Nem ocupou somente essa pasta: foi sucessivamente ministro interino da marinha, do império e da agricultura.

No ministério da agricultura, que ele regeu duas vezes, e a segunda por morte do Conselheiro Buarque de Macedo, encontramo-nos os dous, trabalhando juntos, como em 1860, mas ele agora era ministro de Estado, e eu tão-somente oficial de gabinete. Cito esta circunstância para afirmar com o meu testemunho pessoal, que esse moço suposto sibarita e indolente, era nada menos que um trabalhador ativo, zeloso do cargo e da pessoa; todos os que o praticaram de perto podem atestar isto mesmo. Deixou o seu nome ligado a muitos atos de administração interior ou de natureza diplomática.

Posta em execução a reforma eleitoral, obra do próprio ministério dele, o Conselheiro Pedro Luís, que então era ministro de duas pastas, não conseguiu ser eleito. Aceitou a derrota com o bom humor que lhe era próprio, embora tivesse de padecer na legítima ambição política; mas estava moço e forte, e a derrota era das que laureiam. Não ter algumas centenas de votos é apenas não dispor da confiança de outras tantas pessoas, cousa que não prejulga nada. O desdouro seria cair mal, e ele caiu com gentileza.

Pouco tempo depois foi nomeado presidente da província da Bahia donde voltou enfermo, com a morte em si. Na Bahia deixou verdadeiras saudades; era estimado de toda a gente, respeitado e benquisto.

O organismo, porém, começou a deperecer, e o repouso e tratamento tornaram-se-lhe indispensáveis; alcançou a demissão do cargo e regressou à vida particular.

Faleceu na sua fazenda da Barra Mansa, às 4 horas da madrugada do dia 16 de julho do corrente ano de 1884.

Era casado com D. Amélia Valim Pereira de Sousa, filha Comendador Manuel de Aguiar Valim, fazendeiro do município Bananal e chefe ali do Partido Conservador. Um dos jornais Rio de Janeiro mencionou esta circunstância:

Tal era a amenidade do caráter de Pedro Luís, que, a despeito de suas opiniões políticas, seu sogro o prezava e distinguia muito, assim como outros muitos fazendeiros importantes daquele município, sem distinção de partido.

Ninguém que o praticou intimamente deixou de trazer a impressão de uma verdadeira personalidade, podendo acrescentar-se que e não deu tudo que era de esperar do seu talento, e que valia ainda mais do que a sua reputação.

Posto que um tanto céptico, era sensível, profundamente sensível; tinha instrução variada, gosto fino e puro, nada trivial nem choco era cheio de bons ditos, e observador como raros.

ARTUR BARREIROS

MEU CARO VALENTIM MAGALHÕES. -- Não sei que lhe diga que possa adiantar ao que sabe do nosso Artur Barreiros. Conhecemo-lo: tanto basta para dizer que o amamos. Era um dos melhores da sua gera geração inteligente, estudioso, severo consigo, entusiasta das cousas belas dourando essas qualidades com um caráter exemplar e raro: e se não deu tudo o que podia dar, foi porque cuidados de outra ordem lhe tomaram o espírito nos últimos tempos. Creio que, em tendo a vida repousada, aumentaria os frutos do seu talento, tão apropriado aos estudos longos e solitários e ao trabalho polido e refletido.

A fortuna, porém, nunca teve grandes olhos benignos para o nosso amigo; e a natureza, que o fez probo, não o fez insensível. Daí algumas síncopes do animo, e umas intermitência de misantropia a que vieram arrancá-lo ultimamente a esposa que tomou e os dois, filhinhos que lhe sobrevieram. Essa mesma fortuna parece ter ajustado as cousas de modo que ele, tão austero e recolhido, deixasse a vida em pleno carnaval. Não era preciso tanto para mostrar contraste e a confusão das cousas humanas.

Não posso lembrar-me dele, sem recordar também outro Artur, o Artur de Oliveira, ambos tão meus amigos. A mesma moléstia os levou, aos trinta anos, casados de pouco. A feição do espírito era
diferente neles, mas uma cousa os aproxima, além da minha saudade, é que também o Artur de Oliveira não deu tudo o que podia, e podia muito.

Ao escrever-lhe as primeiras linhas desta carta, chovia copiosamente, e o ar estava carregado e sombrio. Agora, porém, urna nesga azul do céu, não sei se duradoura ou não, parece dizer-nos que nada está mudado para ele, que é eterno. Um homem de mais ou de menos importa o mesmo que a folha que vamos arrancar à árvore para juncar o chão das nossas festas. Que nos importa a folha?

Esta advertência, que não chega a abater a mocidade tinge de melancolia os que já não são rapazes. Estes têm atrás de si uma longa fileira de mortos. Cada um dos recentes lembra-lhe os outros. Alguns desses mortos encheram a vida com ações ou escritos, e fizeram ecoar o nome além dos limites da cidade. Artur Barreiros ( e não é dos menores motivos de tristeza) gastou o aço em labutações estranhas ao seu gosto particular; entre este e a necessidade não hesitou nunca, e acanhou em parte as faculdades por um excessivo sentimento de modéstia e desconfiança. A extrema desconfiança não e menos perniciosa que a extrema presunção. "As dúvidas são traidoras", escreveu Shakespeare; e pode-se dizer que muita vez o foram com o nosso amigo. O tempo dar-lhe-ia a completa vitória; mas o mesmo tempo o levou, depois de longa e cruel enfermidade. Não levará a nossa saudade nem a estima que lhes devemos.
MACHADO DE ASSIS

ANTES A ROCHA TARPÉIA ...

COMO É que me achei ali em cima? Era um pedaço de telhado, inclinado, velho, estreitinho, com cinco palmos de muro por trás. Não sei se fui ali buscar alguma coisa; parece que sim, mas qualquer que ela fosse, tinha caído ou voado, já não estava comigo. Eu é que fiquei ali no alto, sozinho, sem nenhum meio de voltar abaixo.

Começara a entender que era pesadelo. Já lá vão alguns anos. A rua ou estrada em que se achava aquela construção era deserta. Eu, do alto, olhava para todos os lados sem descobrir sombra de homem. Nada que me salvasse; pau nem corda. Ia aflito de um para outro lado, vagaroso, cauteloso, porque as telhas eram antigas, e também porque o menor descuido far-me-ia escorregar e ir ao chão. Continuava a Olhar ao longe, a ver se aparecia um salvador; olhava também para baixo, mas a idéia de dar um pulo era impossível; a altura era grande, a morte certa.

De repente, sem saber donde tinham vindo, vi embaixo algumas pessoas, em pequeno número, andando, umas da direita, outras da esquerda. Bradei de cima à que passava mais perto.

-- Ó senhor acuda-me!

Mas o sujeito não ouviu nada, e foi andando. Bradei a outro e outro; todos iam passando sem ouvir a minha voz. Eu, parado, cosido ao muro, gritava mais alto, como um trovão. O temor ia crescendo, a vertigem começava; e eu gritava que me acudissem, que me salvassem a vida, pela escada, corda, um pau, pedia um lençol, ao menos, que me apanhasse na queda. Tudo era vão. Das pessoas que passavam só restavam três, depois duas, depois uma. Bradei a essa última com todas as forças que me restavam:

-- Acuda! Acuda!

Era um rapaz, vestido de novo, que ia andando e mirando as botas e as calças. Não me ouviu, continuou a andar, e desapareceu.

Ficando só, nem por isso cessei de gritar. Não via ninguém, mas via o perigo. A aflição era já insuportável, o terror chegara ao paroxismo...Olhava para baixo, olhava para longe, bradava que me
acudissem, e tinha a cabeça tonta e os cabelos em pé...Não sei se cheguei a cair; de repente, achei-me na cama acordado.

Respirei à larga, com o sentimento da pessoa que sai de um pesadelo. Mas aqui deu-se um fenômeno particular; livre de perigo, entrei a saboreá-lo. Em verdade, tivera alguns minutos ou segundos de sensações extraordinárias; vivi de puro terror, vertigem e desespero, entre a vida e a morte, como uma peteca entre as mãos destes dois mistérios. A certeza, porém, de que tinha sido sonho dava agora outro aspecto ao perigo, e trazia à alma o desejo vago de achar-me nele outra vez. Que tinha, se era sonho?

Ia assim pensando, com os olhos fechados, meio adormecido; não esquecera as circunstâncias do pesadelo, e a certeza de que não chegaria a cair acendeu de todo o desejo de achar-me outra vez no alto do muro, desamparado e aterrado. Então apertei muito os olhos para não despertar de todo, e para que a imaginação não tivesse tempo de passar a outra ordem de visões.

Dormi logo. Os sonhos vieram vindo, aos pedaços, aqui uma voz, ali um perfil, grupos de gente, de casas, um morro, gás, sol, trinta, mil coisas confusas que se cosiam e descosiam. De repente vi um telhado, lembrei-me do outro, e como dormira com a esperança de reatar o pesadelo, tive uma sensação misturada de gosto e pavor. Era o telhado de uma casa: a casa tinha uma janela; à janela estava um homem; este homem cumprimentou-me risonho, abriu a porta, fez-me entrar, fechou a porta outra vez e meteu a chave no bolso.

-- Que é isto? Perguntei-lhe.

-- É para que nos não incomodem, acudiu ele risonho.

Contou-me depois que trazia um livro entre mãos, tinha uma demanda e era candidato a um lugar de deputado: três matérias infinitas. Falou-me do livro, trezentas páginas, com citações, notas, apêndices: referiu-me a doutrina, o método, o estilo, leu-me três capítulos. Gabei-os, leu-me mais quatro. Depois, enrolando o manuscrito disse-me que previa as críticas e objeções; declarou quais eram e refutou-as por uma.

Eu sentado, afiava o ouvido, a ver se aparecia alguém; pedia a Deus um salteador ou a justiça, que arrombasse a porta. Ele, se falou em justiça, foi para contar-me a demanda, que era uma ladroeira do adversário, mas havia de vencê-lo a todo custo. Não me ocultou nada; ouvi o motivo e todos os trâmites da causa, com anedotas pelo meio, uma do escrivão que estava vendido ao adversário, outra de um procurador, as conversações com os juízes, três acórdãos e os respectivos fundamentos. À força de pleitear, o homem conhecia muito texto, decretos, leis, ordenações, citava os livros e os parágrafos, salpicava tudo de perdigotos latinos. Às vezes, falava andando para descrever o terreno, - era uma questão de terras - aqui o rio, descendo por ali. pegando com o outro mais abaixo: deste lado as terras de Fulano, daquele as de Sicrano. . . Uma ladroeira clara, que me parecia?

-- Que sim.

Enxugou a testa, e passou à candidatura. Era legítima; não negava que pudesse haver outras aceitáveis; mas a dele era a mais legítima. Tinha serviços ao partido, não era aí qualquer coisa, não vinha pedir esmola de votos. E contava os serviços prestados em vinte anos de lutas eleitorais, luta de imprensa, apoio aos amigos, obediência aos chefes. E isso não se premiava? Devia ceder o seu lugar a filhos? Leu a circular; tinha três páginas apenas; com os comentários verbais, sete. E era a um homem destes que queriam deter o passo? Podiam intrigá-lo; ele sabia que o estavam intrigando, choviam cartas anônimas... Que chovessem! Podiam vasculhar no passado dele, não achariam nada, nada mais que uma vida pura, e, modéstia à parte, um modelo de excelentes qualidades. Começou pobre, muito pobre; se tinha alguma cousa era graças ao trabalho e à economia, — as duas alavancas do progresso.

Uma só dessas velhas alavancas que ali estivesse bastava para deitar a porta abaixo; mas nem uma nem outra, era só ele, que prosseguia, dizendo-me tudo o que era, o que não era, o que seria, e o que teria sido e o que viria a ser, um Hércules, que limparia a estrebaria de Augias, — um varão forte, que não pedia mais que tempo e justiça. Fizessem-lhe justiça, dando-lhe votos e ele se incumbiria do resto. E o resto foi ainda muito mais do, que pensei. . . Eu, abatido, olhava para a porta, e a porta calada, impenetrável, não me dava a menor esperança. Lasciati ogni speranza...

Não, cá está mais que a esperança; a realidade deu outra vez comigo acordado, na cama. Era ainda noite alta; mas nem por isso tentei, como da primeira vez, conciliar o sono. Fui ler para não dormir. Por quê? Um homem, um livro, uma demanda uma candidatura, porque é que temi reavê-los, se ia antes, de cara alegre, meter-me outra vez no telhado em que... ?

Leitor, a razão é simples. Cuido que há na vida em perigo um sabor particular e atrativo; mas na paciência em perigo não há nada. A gente recorda-se de um abismo com prazer; não se pode recordar de um maçante sem pavor. Antes a rocha Tarpéia que um autor de má nota.

O FUTURO DOS ARGENTINOS

QUANDO hoje contemplo o rápido progresso da nação Argentina, recordo-me sempre da primeira e única vez que vi o Dr. Sarmiento, presidente que sucedeu ao General Mitre no governo da república.

Foi em 1868. Estávamos alguns amigos no Club Fluminense, Praça da Constituição, casa onde é hoje a Secretaria do Império. Eram nove horas da noite. Vimos entrar na sala do chá um homem que ali se hospedara na véspera. Não era moço; olhos grandes e inteligentes, barba raspada, um tanto cheio. Demorou-se pouco tempo; de quando em quando, olhava para nós, que o examinávamos também, sem saber quem era. Era justamente o Dr. Sarmiento, vinha dos Estados Unidos, onde representava a Confederação Argentina, e donde saíra porque acabava de ser eleito presidente da república. Tinha estado com o imperador, e vinha de uma sessão científica. Deus ou três dias depois, seguiu para Buenos Aires.

A impressão que nos deixara esse homem foi, em verdade, profunda. Naquela visão rápida do presidente eleito pode-se dizer que nos aparecia o futuro da nação Argentina.

Com efeito, uma nação abafada pelo despotismo, sangrada pelas revoluções, na qual o poder não decorria mais que da força vencedora e da vontade pessoal, apresentava este espetáculo interessante: um general patriota, que alguns anos antes, após uma revolução e uma batalha decisiva, fora elevado ao poder e fundara a liberdade constitucional, ia entregar tranqüilamente as rédeas do Estado não a outro general triunfante, depois de nova revolução, mas a um simples legista, ausente da pátria, eleito livremente por seus concidadãos. Era evidente que esse povo, apesar da escola em que aprendera, tinha a aptidão da liberdade; era claro também, que os seus homens públicos, em meio das competências que os separavam, e porventura ainda os separam, sabiam unir-se para um fim comum e superior.

Sarmiento chegou a Buenos Aires o General Mitre entregou-lhe o poder, tal qual o constituíra e preservara da violência e do desânimo. Então os amigos deste claro e subido espírito lembraram-se (se a minha reminiscência é exata) de lhe dar uma prova de afeto e admiração, um como prêmio da sua lealdade política, e criaram-lhe um jornal, essa mesma Nación, que é hoje uma das primeira folhas da América do Sul. Fato não menos expressivo que o outro.

Vinte anos depois, a nação Argentina chegou ao ponto em que se acha, próspera, rica, pacífica, naturalmente ambiciosa de progresso e esplendor. Esqueceu a opressão, desaprendeu a caudilhagem; conhece os benefícios da liberdade e da ordem. Vinte anos apenas; digamos vinte e oito, porque a campanha de Mitre foi o primeiro passo dessa marcha vitoriosa.

Agora, no dia em que os argentinos celebram a sua festa constitucional lembro-me daqueles tempos, e comparo-os com estes, quando, em vez de soldados que os vão auxiliar a derrocar uma tirania odiosa, mandamos-lhe uma simples comissão de jornalistas, uma em baixada da opinião à opinião; tão confiados somos de que não há já entre nós melhor campo de combate. Oxalá caminhem sempre o Império e a República, de mãos dadas, prósperos e amigos.

JOAQUIM SERRA

QUANDO HÁ DIAS fui enterrar o meu querido Serra, vi que naquele féretro ia também uma parte da minha juventude. Logo de manhã relembrei-a toda. Enquanto a vida chamava ao combate diurno todas as suas legiões infinitas, tão alegre e indiferente, com. se não acabasse de perder na véspera um dos mais robustos legionários, recolhi-me às memórias de outro tempo, fui reler algumas cartas do meu amado amigo.

Cartas íntimas e familiares, mais letras que política. As primeiras embora velhas, eram ainda moças, daquela mocidade que ele sabia comunicar às coisas que tratava. Relê-las era conversar com o morto cuja alma ali estava derramada no papel, tão viçosa como no primeiro dia. A cintilação do espírito era a mesma; a frase brotava e corria pela folha abaixo, como a água de um córrego, rumorosa e fresca.

Os dedos que tinham lavrado aquelas folhas de outro tempo, quando os vi depois cruzados, sobre o cadáver, lívidos e hirtos, não pude deixar de os contemplar longamente, recordando as páginas públicas que trabalharam, e que ele soltou ao vento, ora com o desperdício de um engenho fértil, ora com a tenacidade de apóstolo. Versos sobre versos, prosa e mais prosa, artigos de toda casta, políticos,
literários, o epigrama fino, o epíteto certo ou jovial, e, durante os últimos anos, a luta pela abolição, tudo caiu daqueles dedos infatigáveis prestadios, tão cheios de força como de desinteresse.

A morte trouxe ao espírito de todos o contraste singular entre os méritos de Joaquim Serra e os seus destinos políticos. Se a vida política é, como a demais vida universal, uma luta em que a vitória há de caber ao mais aparelhado, aí deve estar a explicação do fenômeno. Podemos concluir então, que não bastam o talento e a dedicação, se não é que o próprio talento pode faltar, às vezes, sem dano algum para a carreira do homem. A posse de outras qualidades pode ser também negativa para os efeitos do combate. Serra possuía a virtude do sacrifício pessoal, e mui cedo a aprendeu e cumpriu, segundo o que ele próprio mandou me dizer um dia da Paraíba do Norte, em 10 de março de 1867:

Já te escrevi algumas linhas acerca da minha adiada viagem em maio. Foi mister. . . Não sei mesmo como se exigem sacrifícios da ordem daqueles que ultimamente se me têm exigido. Se eu contasse tudo, talvez não o acreditarias. Enfim, não te verei em maio, mas hei de ir ao Rio este ano.

Não me referiu, nem então, nem depois, outras particularidades, porque também possuía o dom de esquecer, -- negativo e impróprio da vida política.

Era modesto até à reclusão absoluta. Suas idéias saíam todas endossadas por pseudônimos. Eram como moedas de ouro, sem efígie, com o próprio e único valor do metal. Daí o fenômeno observado ainda este ano. Quando chegou o dia da vitória abolicionista, todos Os seus valentes companheiros de batalha citaram gloriosamente o nome de Joaquim Serra entre os discípulos da primeira hora, entre os mais estrênuos, fortes e devotados; mas a multidão não o repetiu não o conhecia. Ela, que nunca desaprendeu de aclamar e agradecer os benefícios, não sabia nada do homem que, no momento em que a nação inteira celebrava o grande ato, recolhia-se satisfeito ao seio da família. Tendo ajudado a soletrar a liberdade, Joaquim Serra ia continuar a ler o amor aos que lhe ensinavam todos os dias a consolação.

Mas eu vou além. Creio que Joaquim Serra era principalmente um artista. Amava a justiça e a liberdade, pela razão de amar também o arquitrave e a coluna, por uma necessidade de estética social.
Onde outros podiam ver artigos de programa, intuitos partidários, revolução econômica, Joaquim Serra via uma retificação e um complemento; e, porque era bom e punha em tudo a sua alma inteira, pugnou pela correção da ordem pública, cheio daquela tenacidade silenciosa, se assim se pode dizer, de um escritor de todos os dias, intrépido e generoso, sem pavor e sem reproche.

Não importa, pois, que os destinos políticos de Joaquim Serra hajam desmentido dos seus méritos pessoais. A história destes últimos anos lhe dará um couto luminoso. Outrossim, recolherá mais de uma amostra daquele estilo tão dele, feito de simplicidade, e sagacidade, correntio, franco, fácil, jovial. sem afetação nem reticências. Não era o humour de Swift, que não sorri, sequer. Ao contrário, o nosso querido morto ria largamente, ria como Voltaire, com a mesma graça transparente e fina, e sem o fel de umas frases nem a vingança cruel de outras, que compõem a ironia do velho filósofo.

A MORTE DE FRANCISCO OTAVIANO

MORREU um homem. Homem pelo que sofreu; ele mesmo o definiu, em belos versos, quando disse que passar pela vida sem padecer, era ser apenas um espectro de homem, não era ser homem. Raros terão padecido mais; nenhum com resignação maior. Homem ainda pelo complexo de qualidades superiores de alma e de espírito, de sentimentos e de raciocínio, raros e fortes, tais que o aparelharam para a luta, que o fizeram artista e político, mestre da pena elegante e vibrante. Vous êtes un homme, monsieur Goethe, foi à saudação de Napoleão ao criador do Fausto. E o nosso Otaviano, que não trocara a alma pela juventude, como o herói alemão, mas que a trouxera sempre verde, a despeito da dor cruel que o roía, que não desaprendera na alegria boa e fecunda, nem a faculdade de amar de admirar e de crer, que adorava a pátria como a arte, o nosso Otaviano era deveras um homem. A melhor homenagem àquele egrégio espírito é a tristeza dos seus adversários.

SECRETARIA DA AGRICULTURA [11 set. 1890]

O SR. DR. JOÃO BRÍGID0 escreveu no Libertador do Ceará, de 20 do mês findo, um artigo, a que é mister dar alguma resposta. Não recebi a folha, mas várias pessoas a receberam, naturalmente o artigo marcado, como está no exemplar que um amigo me fez chegar às mãos. Este sistema não é novo, mas é útil; é o que se pode chamar uma carta anônima assinada.

Trata-se das minas da Viçosa. O Sr. João Brígido é advogado de Antônio Rodrigues Carneiro, que contende com o Barão de Ibiapaba. De duas petições deste há certidões, uma do Sr.Guimarães, meu respeitável antecessor, datada de 9 de janeiro de 1889, e outra minha, datada de 18 de maio. Pouco depois de expedida, escreveu-me o Sr. Dr. João Brígido, dizendo que a certidão de janeiro dava as duas petições assinadas pelo Sr. Conselheiro Tristão de Alencar Araripe, como procurador, e a de maio pelo Dr. Artur de Alencar Ararípe, filho daquele cidadão.
Concluía assim:

Uma das duas certidões, portanto, há de não ser verdadeira e dá-se o caso de ter sido induzido em erro, ou V. ou o Sr. Barão de Guimarães, pelo oficial que extraiu uma das duas certidões. Trazendo este fato ao conhecimento de V., cuja probidade folgo de reconhecer, peço-lhe a explicação que julgar razoável, e sendo preciso me obrigo a produzir os dous documentos que estão a se desmentirem.

Respondi que, tendo verificado nas petições aludidas que a assinatura era justamente a do Dr. Artur de Alencar Ararípe, não podia suspeitar do oficial que extraiu a certidão; acrescentei que o empregado que extraíra a primeira já não estava na secretaria, e concluí que não podia adiantar mais nada.

Contentou-se o Sr. Dr. João Brígido com a resposta, tanto que, chegando do Ceará, para tratar da questão das minas, veio ter comigo e falou-me, não uma, nem duas, mas muitas vezes, e sempre o achei cortês e afável. Ouvi-lhe a história do litígio da Viçosa, sobre a qual me deu vários folhetos. Pediu-me umas certidões; e dizendo-lhe o Sr. Dr. Tomás Cochrane chefe da seção por onde corre a questão, que as certidões só podiam ser dadas depois que os papéis baixassem do gabinete do Sr. ministro, aceitou a resposta naturalmente, sem fazer nenhuma objeção, que seria escusada. Ao retirar-se para o Ceará, veio despedir-se, sem ressentimento, menos ainda indignação.

Eis aparece agora o artigo do Libertador, em que o Sr. Dr. João Brígido me acusa pela carta que lhe escrevi, há um ano, pela demora das certidões, diz que os créditos da secretaria desceram tanto, no regime anterior que muitos ministros saíram com reputação prejudicada; e, finalmente, escreve isto: que eu, ao passo que lhe guardava sigilo inviolável acerca das conclusões do meu parecer, não o guardava para o plutocrata, que, pelo vapor de 30 de junho ou outro, assegurara que o meu parecer era a seu favor.

Não sei o que assegurou o Sr. Barão de Ibiapaba, a quem só de vista conheço. Desde, porém, que eu afirmo que jamais confiei a ninguém, sobre nenhum negócio da secretaria, a minha opinião dada ou por dar nos papéis que examino — e desafio a que alguém me diga o contrário — creio responder suficientemente ao artigo do Sr Dr. João Brígido.

Plutocrata exprime bem a insinuação maliciosa do Sr. Dr. João Brígido; e o processo de Filipe de Macedônia, frase empregada no mesmo período, ainda melhor exprime o seu pensamento. Eu sou mais moderado; faço ao Sr. Dr. João Brígido a justiça de crer que em tudo o que escreveu contra mim não teve a menor convicção.

HENRIQUE CHAVES

HENRIQUE CHAVES é um desmentido a duas velhas superstições. Nasceu em dia 13 e sexta-feira. Não podia nascer pior e, entretanto, é um dos homens felizes deste mundo. Em vez de ruins fadas, em volta do berço, cantando-lhe o coro melancólico dos caiporas, desceram anjos do céu, que lhe anunciaram muitas coisas futuras. Para os que nunca viram Lisboa, e têm pena, como o poeta, Henrique Chaves é ainda um venturoso: nasceu nela. Enfim, conta apenas quarenta e quatro anos, feitos em janeiro último.

Um dia, tinha apenas vinte anos, transportou-se de Lisboa ao 1 de Janeiro. Para explicar esta viagem, é preciso remontar ao primeiro consulado de César. Este grande homem, assumindo aquela magistratura, teve idéia de fazer publicar os trabalhos do seriado romano. Não era ainda a taquigrafia; mas, com boa vontade, boa e muita podemos achar ali o gérmen deste invento moderno. A taquigrafia trouxe Henrique Chaves ao Rio de Janeiro. Foi essa arte mágica de pôr no papel, integralmente, as idéias e as falas de um orador que o fez atravessar o oceano, pelos anos de 1869.

Refiro-me à taquigrafia política. Ela o pôs em contacto com nossos parlamentares dos últimos vinte anos. Há de haver na vida do taquígrafo parlamentar uma boa parte anedótica, que merece só por si a pena de umas memórias. As emendas, bastam as emendas dos discursos, as posturas novas, o trabalho do toucador, as trunfas desfeitas e refeitas, com os grampos de erudição, ou os cabelos apenas alisados, basta só isso para caracterizar o modo de cada orador, e dar-nos perfis interessantes. Um velho taquígrafo conto me, quase com lágrimas, um caso mui particular. Passou-se há trinta anos. Um senador, orador medíocre, fizera um discurso mais que medíocre, trinta dias antes de acabar a sessão. Recebeu as notas taquigráficas no dia imediato, e só as restituiu três meses depois sessão acabada. O discurso vinha todo por letra dele, e não havia uma só palavra das proferidas; era outro e pior. Ajuntai a esta parte anedótica aquela outra de psicologia que deve ser a principal, com uma estatística das palavras, um estudo dos oradores cansativos, apesar de pausados, ou por isso mesmo, e dos que não cansam, posto que velozes.

Mas uma coisa é o ganha-pão, outra é a vocação. Henrique Chaves trazia nas veias o sangue do jornalismo. Tem a facilidade, a naturalidade, o gosto e o tato precisos a este ofício tão árduo e tão duro. Pega de um assunto, o primeiro à mão, o preciso, o do dia e compõe o artigo com aquela presteza e lucidez que a folha diária exige, e com a nota própria da ocasião. Não lhe peçam longos períodos de exposição, nem deduções complicadas. Cai logo in medias res, como a regra clássica dos poemas. As primeiras palavras parecem uma conversação. O leitor acaba supondo ter feito um monólogo.

Não esqueçamos que o seu temperamento é o da própria folha em que escreve, a Gazeta de Notícias, que trouxe ao jornalismo desta cidade outra nota e diversa feição. Vinte anos antes de encetar a car-reira, não sei se o faria, — ao menos, com igual amor. A imprensa de há trinta anos não tinha este movimento vertiginoso. A notícia era como a rima de Boileau, une esclave et ne doit qu'obéir. Teve o seu Treze de Maio, e passou da posição subalterna à sala de recepção.

Os quarenta e quatro anos de Henrique Chaves podem subir a sessenta e seis; nunca passarão dos vinte e dous. Não falo por causa de ilusões; ninguém lhas peça, que é o mesmo que pedir um santo ao diabo. Uma das feições do seu espírito é a incredulidade a res-peito de um sem-número de coisas que se impõem pela aparência. Outra das feições é a alegria; ele ri bem e largo, comunicativamente. A conversação é viva é lépida. Considerai que ele é o avesso do medalhão. Considerai também que é difícil saber aturar uma narração enfadonha com mais fina arte. Não se impacienta, não suspira, puxa o bigode; o narrador cuida que é um sinal de atenção, e ele pensa em outra coisa.

HENRIQUE LOMBAERTS

DURANTE MUITOS anos entretive com Henrique Lombaerts as mais amistosas relações. Era um homem bom, e bastava isso para fazer sentir a perda dele; mas era também um chefe cabal da casa herdada de seu pai e continuada por ele com tanto zelo e esforço. Posto que enfermo, nunca deixou de ser o mesmo homem de trabalho. Tinha amor ao estabelecimento que achou fundado, fez prosperar e transmitiu ao seu digno amigo e parente, atual chefe. A Estação e outras publicações acharam nele editor esclarecido e pontual. Era desinteressado, em prejuízo dos negócios a cuja frente esteve até o último dia útil da sua atividade.

Não é demais dizer que foi um exemplo a vida deste homem, um exemplo especial, por que no esforço continuado e eficaz, ao trabalho de todos os dias e de todas as horas não juntou o ruído exterior. Relativamente expirou obscuro; o tempo que lhe sobrava da direção da casa era dado à esposa, e, quando perdeu a esposa, às suas recordações de viúvo.

FERREIRA DE ARAÚJO [RJ, 20 set. 1900.]

MEU CARO HENRIQUE.-- Esqueçamos a morte do nosso amigo. Nem sempre haverá tamanho contraste entre a vida e a morte de alguém. Araújo tinha direito de falecer entre uma linha grave e outra jovial, como indo a passeio risonho e feliz. A sorte determinou outra cousa.

Quem o via por aquelas noitadas de estudante, e o acompanhou de perto ou de longe, na vida de escritor, de cidadão e de pai de família, sabe que não se perdeu nele somente um jornalista emérito e um diretor seguro; perdeu-se também a perpétua alegria. Ninguém desliga dele essa feição característica. Ninguém esqueceu as boas horas que ele fazia viver ao pé de si. Nenhum melancólico praticou com ele que não sentisse de empréstimo outro temperamento. Vimo-lo debater os negócios públicos, expor e analisar os problemas do dia, com a gravidade e a ponderação que eles impunham, mas o riso vinha prestes retomar o lugar que era seu, e o bom humor expelia a cólera e a indignação deste mundo.

Tal era o condão daquela mocidade. A madureza não alterou a alegria dos anos verdes. Na velhice ela seria como a planta que se agarra ao muro antigo. E por que esta virtude é ordinariamente gêmea da bondade, o nosso amigo era bom. Se teve desgostos , -- e devias tê-los porque era sensível, -- esqueceu-os depressa. O ressentimento era-lhe insuportável. Era desses espíritos feitos para a hora presente, que não padecem das ânsias do futuro, e escassamente terão saudades terão saudades do passado; bastam-se a si mesmos, na mesma hora que vai passando, viva e garrida, cheia de promessas eternas.

Mal se compreende que uma vida assim acabasse tão longa e doloridamente; mas, refletindo melhor, não podia ser de outra maneira. A inimizade entre a vida e a morte tem gradações; não admira que uma seja feroz na proporção da lepidez da outra. É o modo de balancear as duas colunas da escrita.

Agora que ele se foi, podemos avaliar bem as qual homem. Esse polemista não deixou um inimigo. Pronto, fácil, franco, não poupando a verdade, não infringindo a cortesia, liberal sem partido, patriota sem confissão, atento aos fatos e aos homens, cumpriu o seu ofício com pontualidade, largueza de ânimo e aquele estilo vivo e conversado que era o encanto dos seus escritos. As letras foram os primeiros ensaios de uma pena que nunca as esqueceu inteiramente. O teatro foi a sua primeira sedução de autor.

Vindo à imprensa diária, não cedeu ao acaso, mas à própria inclinação do talento. Quando fundou esta folha, começou alguma cousa que, trazendo vida nova ao jornalismo, ia também com o seu espírito vivaz e saltitante, de vária feição, curioso e original. Já está dito redito o efeito prodigioso desta folha, desde que apareceu; podia ser a novidade, mas foram também a direção e o movimento que ele lhe imprimiu.

Nem se contentou de si e dos companheiros da primeira hora. Foi chamando a todos os que podiam construir alguma cousa, os nomes feitos e as vocações novas. Bastava falar a língua do espírito para vir a esta assembléia, ocupar um lugar e discretear com os outros. A condição era ter o alento da vida e a nota do interesse. Que poetasse, que contasse, que dissesse do passado, do presente ou do futuro, da política ou da literatura, da ciência ou das artes, que maldissesse também, contanto que dissesse bem ou com bom humor, a todos aceitava e buscava, para tornar a Gazeta um centro comum de atividade.

A todos esses operários bastava fazê-los companheiros, mas era difícil viver com Araújo sem acabar amigo dele, nem ele consigo que se não fizesse amigo de todos. A Gazeta ficou sendo assim uma comunhão em que o dissentimento de idéias, quando algum houvesse, não atacaria o coração, que era um para todos.

Tu que eras dos seus mais íntimos, meu caro Henrique Chaves, dirás se o nosso amigo não foi sempre isso mesmo. Quanto à admiração e afeição públicas, já todas as vozes idôneas proclamaram o grau em que ele as possuiu, sem quebra de tempo, nem reserva de pessoa. O enterramento foi uma aclamação muda, triste e unânime. As exéquias de amanhã dir-lhe-ão o último adeus da terra e da sua terra.

MACHADO DE ASSIS

A PAIXÃO DE JESUS

QUEM RELÊ neste dia os evangelistas, por mais que os traga no coração ou de memória, acha uma comoção nova na tragédia do Calvário. A tragédia é velha; os lances que a compõem passaram, desde a prisão de Jesus até a condenação judaica e a sanção romana; as horas daquele dia acabaram com a noite de sexta-feira, mas a comoção fica sempre nova; por mais que os séculos se tenham acumulado sobre tais livros. A causa, independente da fé que acende o coração dos homens, bem se pode dizer de duas ordens.

Não é preciso falar de uma. A história daqueles que, pelos tempos adiante, vieram confessando a Jesus, padecendo e morrendo por Ele, e o grande espírito soprado do Evangelho ao mundo antigo, a força da doutrina, a fortaleza da crença, a extensão dos sacrifícios, a obra dos místicos, tudo se acumula naturalmente diante dos olhos, como efeito daquelas páginas primitivas. Não menos surge à vista o furor dos que combateram, pelos séculos fora, as máximas cristãs ouvidas, escritas e guardadas, alguma vez esquecidas, outras desentendidas, mas acabando sempre por animar as gerações fiéis. Tudo isso, porém, que será a história ulterior, é neste dia dominado pela simples narração evangélica.

A narração basta. Já lá vai a entrada de Jesus em Jerusalém escolhida para o drama da paixão. A carreira estava acabada. Os ensinamentos do jovem profeta corriam as cidades e as aldeias, e todos se podiam dizer compendiados naquele sermão da montanha, que, por palavras simples e chãs, exprimia uma doutrina moral nova, a humildade e a resignação, o perdão das injúrias, o amor dos inimigos, a prece pelo que calunia e persegue, a esmola às escondidas, a oração secreta. Nessa prédica da montanha a lei e os profetas são confessados, mas a reforma é proclamada aos ventos da terra. Nela está a promessa do benefício aos que padecem, a consolação aos que choram, a justiça aos que dela tiverem fome e sede. Jerusalém destina-se a vê-lo morrer. Foi logo à entrada, quando gente do povo correu a receber Jesus, juncando o chão de palmas e ramos e aclamando o nome daquele que lhe vinha trazer a boa-nova, foi desde logo que os escribas e fariseus cuidaram de lhe dar perseguição e morte, não o fazendo sem demora, por medo do povo que recebia Jesus com hosanas de amor e de alegria. Jesus reatou então os seus atos e parábolas, mostrando o que era e o que trazia no coração. Os fariseus viram que ele expelia do templo os que lá vendiam e compravam, e ouviram que pregava no templo ou fora dele a doutrina com que vinha extirpar os pecados da terra. Alguma vez as imprecações que lhe saiam da boca, eram contra eles próprios: “Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, porque devorais as casas das viúvas, fazendo longas orações ... " -- Ai de vós, escribas e fariseus, porque alimpais o que está por fora do copo e do prato, e por dentro estais cheios de rapinas e de imundícies ... " -- Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, por que rodeais o mar e a terra por fazerdes um prosélito e depois de o terdes feito, o fazeis em dobro mais digno do inferno do que vós". Era assim que bradava contra os que já dali tinham saído alguma vez, a outras partes, a fim de o enganar e enlear e ouviram que ele os penetrava e respondia com o que era acertado e cabido. As imprecações seguiram assim muitas e ásperas, mas de envolta com elas a alma boa e pura de Jesus voltava àquela doce e familiar metáfora contra a cidade de Jerusalém: "Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados, quantas vezes quis eu ajuntar teus filhos, do modo que uma galinha recolhe debaixo das asas os seus pintos, e tu não o quiseste!"

A diferença que vai desta fala grave e dura àquele sermão da montanha, em que Jesus incluiu a primeira e ingênua oração da futura igreja, claramente mostra o desespero do jovem profeta de Nazaré. Não havia esperar de homens que a tal ponto abusavam do templo e da lei, e, em nome de ambos, afivelavam a máscara de piedade para atrair os que buscavam as doutrinas antigas de Israel. Sabendo que tinha de morrer às mãos deles, não lhes quis certamente negar o perdão que viessem a merecer, mas condenar neles a obra da iniqüidade e da perdição. Todo o mal recente de Israel estava nos que se davam falsamente por defensores do bem antigo.

A comoção nova que achamos na narração evangélica abrange o espaço contado da ceia à morte de Jesus. Judeus futuros, ainda de hoje, ao passo que negam a culpa da sua raça, confessam não poder ler sem mágoa essa página sombria. Em verdade, a melancolia do drama é grande, não menor que a do próprio Cristo, quando declara ter a alma mortalmente triste. Era já depois da ceia, naquele horto de Gethsemani, a sós com Pedro e mais dous, enquanto outros discípulos dormiam, foi ali que ele confessou aquela profunda aflição. Tinha já predito a proximidade da morte. A aversão dos escribas e fariseus, indo a crescer com o poder moral do Nazareno, punha em ação o desejo de o levar ao julgamento e ao suplício cumprir assim o prenúncio do jovem Mestre. Tudo foi realizado: a noite não acabou sem que, pela traição de Iscariotes, Jesus levado à casa de Anás e Caifás e, pela negação de Pedro , se visse abandonado dos seus amigos. Ele predissera os dois atos, que um pagou pelo suicídio e o outro pelas lágrimas do arrependimento.

Talvez ambos pudessem ser dispensados, não menos o primeiro que o segundo, por mais que o grupo dos discípulos escondesse o Mestre aos olhos dos inimigos. Se assim fosse, o suplício seria igualmente certo, mas a tragédia divina não teria aquela nota humana nem tudo é lealdade, nem tudo é resistência na mesma família.

A parte humana nasceu ainda, não já naqueles que deviam amor a Jesus, se não nos que o perseguiam; tal foi esse processo de poucas horas. Jesus ouviu o interrogatório dos seus atos religiosos e políticos. Era acusado de querer destruir a lei de Moisés e não aceitar a dominação romana fazendo-se Rei dos Judeus. "Mestre, devemos pagar o imposto a César? ", Tinham-lhe perguntado antes para arrastá-lo a alguma palavra de rebelião. A resposta (uma de tantas palavras que passaram daqueles livros às línguas dos homens) foi que era preciso dar a César o que era de César e a Deus o que era de Deus. Caifás e o Conselho acabaram pela condenação; para o crime político e para a pena de morte era preciso Pilatos. Segundo o sacerdote da lei, era preciso que um homem morresse pelo povo.

Pilatos foi ainda a nota humana, e acaso mais humana que todas. Esse magistrado romano, que, depois de interrogar a Cristo, não lhe acha delito nenhum, que, ainda querendo salvá-lo da morte, pensa em soltá-lo pelo direito que lhe cabia em tal ocasião, mas consulta ao povo, e ouve deste que solte Barrabás, e condene a Jesus; que obedece ao clamor público, e faz a única ressalva de lavar as mãos inocentes de tal sangue: esse homem não finge sequer a convicção. A consciência brada contra o crime que lhe querem impor, mas a fraqueza cede aos que lho pedem, e entrega o acusado à morte.

A morte, fecho da Paixão, termo de uma vida breve e cheia, foi cercada de todos os elementos que a podiam fazer mais trágica. O riso deu as mãos à ferocidade, e o açoite alternou com a coroa de espinhos. Fizeram do profeta um rei de praça, com a púrpura aos ombros e a vara na mão. Vieram injúrias por atos e palavras, agravação do suplício dado entre dois ladrões; mais ainda nos falta alguma cousa para completar a parte humana daquela cena última.

As mulheres vieram rodear o instrumento do suplício. Com outro ânimo que faltou alguma vez aos homens, elas trouxeram a consolação e a paciência aos pés do crucificado. Nenhum egoísmo as conservou longe, nenhum tremor as fez estremecer de susto. A piedade era como alma nova incutida naqueles corpos feitos para ela. Com os olhos nos derradeiros lampejos de vida, que estavam a sair daquele corpo, aguardavam que este fosse amortalhado e sepultado Para lhe darem os bálsamos e os aromas.

Tal foi a última nota humana, docemente humana, que completou drama da estreita Jerusalém. Ela, e o mais que se passou entre a noite de um dia e a tarde de outro completaram o prefácio dos tempos. A doutrina produzirá os seus efeitos, a história será deduzida de uma lei, superior ao conselho dos homens. Quando nada houvesse ou nenhuma fosse, a simples crise da Paixão era de sobra para dar uma comoção nova aos que lêem neste dia os evangelistas.

Fonte: www.cce.ufsc.br

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