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China Antiga

AS CIDADES NA CHINA ANTIGA

No presente artigo estudaremos de forma introdutória o processo de formação das cidades na China antiga.

Para tal, devemos apontar para dois fatores fundamentais na compreensão da cultura chinesa: a questão do ritual e da estrutura de longa duração que envolve o desenvolvimento das formas de pensar nesta sociedade.

Em primeiro lugar, devemos conceituar de forma razoável a noção de ritual aqui aplicada(1): ela está ligada a constituição de uma série de modelos(2) sucessivos de adaptação ao ambiente, e a operacionalização e eficácia do mesmo, se comprovada, era fixada sob forma ritualística , absorvendo posteriormente os elementos místicos que lhes eram atribuídos. Daí se incorre que a prática de fixação desses modelos constituía uma necessidade de “sobrevivência”, e sua reprodução transformava-se quase em lei, dada sua significação.

Devido à essa concepção do ritual, articulamos o segundo ponto de análise: a estrutura de longa duração do pensamento chinês(3). Em virtude da apreciação do domínio do território, os chineses criaram uma idéia de passado mítico, onde os antigos líderes eram filhos de deuses que ensinaram aos homens como viver.

Neste ponto, muitos dos rituais são sacralizados, deixando de possuir tão somente suas características práticas para também ganharem um caráter religioso (embora nem todos os rituais fossem igualmente absorvidos pelas diversas religiões da China, e nem as mesmas os compreenderiam da mesma forma). O que importa, porém, é que se criou aí um ponto de atrito estrutural onde o modelo (ritual) construído para manter e expandir a vida começava a se chocar com as novas necessidades advindas da própria expansão possibilitada pelo modelo! Entenderemos isso observando melhor o desenvolvimento desses modelos(4) de complexo urbano criados na China antiga.

Inicialmente, tivemos a criação de comunidades rurais, cujo território era coletivamente trabalhado por duas (no máximo três) famílias de poder patriarcal (mas em menor número também matriarcais), onde a liderança era exercida por conselhos de anciãos. Posteriormente, com a agregação de novos trabalhadores vindos de outros territórios, essas famílias iniciaram uma fase de liderança, exercendo poder servil através de obrigações de trabalho em troca de habitação, comida e defesa aos estrangeiros que vinham habitar suas terras.

Na organização desta primeira comunidade, é de fundamental importância a análise do "Lugar-santo" (que podia ser um campo-santo, um ponto de culto ou até mesmo um cemitério). Esse espaço era um centro de importância comunitária, pois se acreditava que nele estava depositado um grande poder, uma fabulosa energia acumulada pela terra e pela natureza resultante das orgias, da prática dos ritos e que, por conseguinte, atraía a presença dos antepassados e dos espíritos.

O fato de que as primeiras cidades eram construídas em círculos, tais como aldeias muradas, com uma função protetora que dispensava a privacidade entre seus habitantes. Assim, o lugar dos ritos, dos mortos (5) era o único que ficava fora do restritíssimo perímetro urbano, além dos campos, claro.

É no "Lugar-santo" que os chineses jovens fogem com suas amadas e deixam cair no chão seu esperma fecundo; lá, encontram-se os antepassados quando as árvores florescem; é onde se realiza a orgia, onde se bebe, onde se deixa parte da vida pelo vinho, pois o esquecimento da bebedeira é um momento roubado da mesma.

Quem detém o poder sobre o "lugar-santo" é o líder da aldeia, pois seu poder é igual ao do campo santo para os membros de sua comunidade: é ele quem observa os ritos, quem controla as leis, que lida com as áreas consagradas aos espíritos. De lá, ele retira parte do fundamento de seu poder Esse simples, porém complexo modelo, surge como o embrião das vilas chinesas, que depois seriam como “ilhas produtivas” (cf. GRANET, 1979, v.1, 1o cap.)

Nessas vilas, o trabalho é dividido, mas todos alternam-se nos serviços existentes Com a unificação de territórios no período de feudalização (6) (aproximadamente século XII A.C.) temos o desenvolvimento de atividades mercantis, que aperfeiçoam o comércio de trocas e o especializam. Porém, como conciliar essa pequena comunidade agrária cujo modelo ritual é "abençoado" por um novo tipo de comunidade mais dinâmica e integrada?

Temos aí duas respostas: gradativamente, essa evolução veio pelo próprio poder do "campo-santo", que gerava um pequeno mercado a sua volta, e pela conquista de novas terras advindas do crescimento das comunidades em virtude do sucesso de seu modelo produtivo e da ritualização dos relacionamentos matrimoniais, através da sacralização das orgias. Esse crescimento força a expansão da comunidade, e de suas atividades produtivas. Por outro lado , temos também o aperfeiçoamento do domínio das técnicas de habitação e do controle das forças naturais, que dariam origem ao "feng shui' (arte da água e do vento)(7), cujo domínio possibilitava a escolha dos melhores locais para moradia, produção, etc. Essa técnica possuía, originalmente, um sentido prático, e não apenas os caracteres estéticos que hoje lhe são atribuídos.

Por conseguinte, temos o surgimento de um novo modelo de cidade: um lugar escolhido, que possui um campo santo, um mercado e uma guarda. O perímetro aumenta, surgindo então as grandes cidadelas ou muralhas.

Neste período feudalizado, a delimitação das cidades pelas muralhas também muda, ganhando novas características: sua forma de ser construída e o perímetro que as mesmas vão cobrir passam a ser definidos pelos senhores locais.

Este processo ocorre, obviamente, em decorrência do pragmatismo desses líderes: afinal, só se investiria tempo em muralhas mais fortes para cidades mais importantes.

Existiam três tipos de amuradas: para as cidades sem templo, ou com templo não consagrado, havia uma muralha de barro; para as cidades com templo consagrado, uma de tijolos; e por fim, para as cidades sagradas, dos líderes ou com mais de um templo, muralhas de pedra.

A consagração de um templo está ligada a importância da cidade na região: é preciso um alto funcionário para fazê-la, Ela só existe com um grande campo santo e um grande mercado.

A muralha é feita pelos súditos em regime de convocação: eles tiram alguns dias de seu trabalho para construí-la. São estimulados por guardas de bastões, recebendo comida e tendo direito de amaldiçoar a muralha e cantar.(cf. GRANET, 1979, v.2, p.91).

Neste contexto, a sacralização de alguns rituais, principalmente no tocante ao da construção das cidades, leva à algumas diferenciações antes não existentes ou identificáveis: os nobres começam a morar no lado esquerdo, virados para o sul, a direção sagrada; os camponeses e mercadores do lado direito, virados para o norte. Estes detalhes apontam para o início do convívio entre eles, mas ao mesmo tempo da separação mais distinta de grupos dentro da sociedade chinesa.

O que se concebe, dessa forma, é o surgimento de um novo modelo de cidade adequado ao novo contexto, cujo processo de fundação deve ser identificado por suas inovadoras singularidades.

Foram identificadas três formas de surgimento de uma cidade na China antiga: o espontâneo, baseado na antiga comunidade rural, e de certa forma quase inexistente no século X AC; a escolhida, onde uma nova cidade era formada, segundo o interesse de algum senhor de terras em aglutinar trabalhadores, arrotear terras novas, conquistar território, etc, forma essa que se aperfeiçoou com a evolução do "feng shui", utilizado também para remodelar as cidades existentes. E uma terceira forma, "meng", surgida principalmente durante o período imperial, em torno do século IV AC. Esta era uma cidade para fins comerciais, surgida do interesse de mercadores em estabelecerem-se em uma região. Estes procuravam o senhor das terras, ou o governo local, e acordavam a construção de uma cidade fundamentada no mercado, e não no campo ou no "campo-santo". Possivelmente fruto do modo de pensar mascate, esse novo modelo de cidade estava de acordo com os padrões e modelos de construção, sendo a diferença sua função e origem. Esse tipo de cidade recebeu grande impulso imperial porque favorecia o domínio de rotas comercias e de novos territórios.

A cidade "meng" era singular: seus mercadores pagavam a proteção do senhor local (ou de uma guarda) e uma taxa pela entrada e saída de produtos estrangeiros de seus perímetros: podiam vender o que quisessem (concessão especial da cidade “meng”, já que outros tipos de perímetros urbanos sofriam restrições nesse sentido, não podendo negociar mercadorias sem autorização dos protetores locais), construíam a cidade segundo seus interesses, mas não podiam obrigar o senhor das terras ou o governo local a comprar seus produtos. Da mesma forma, esses líderes locais não podiam exigir, sob forma alguma, qualquer espécie de tributação em mercadorias dos comerciantes instalados em suas “meng”, além das taxas anteriormente citadas.

Este novo modelo de cidade aparece em um momento de transformação da China: antes, um país que vivia da pobreza do campo, "salvo" por seus rituais antigos, e depois, uma civlização em expansão que lutava para se expandir e, ao mesmo tempo, manter uma estrutura que respondeu a todos os seus questionamentos anteriores...mas como dar o próximo passo? Como ir contra a razão de sua própria grandeza?

Nestas condições, a idéia de recorrer à tradição terminou por permear o pensamento chinês em todos os sentidos. Nenhuma resposta era encontrada fora do ritual, e se este mudava, era por que assim os deuses queriam. Logo, sacralizar este tipo de cidade também era importante, já que no momento em que se domina o seu modo de construção, e que este se encontra abençoado pelo céu, os homens passam a operacionalizar sua existência, controlando-o e o expandindo segundo sua vontade.

Desta forma, podemos concluir que a ritualização da pratica de construção das cidades na China Antiga manifesta-se como parte integrante do desenvolvimento das ciências chinesas, onde o conhecimento , quando funcional, e demonstrando respostas satisfatórias as questões materiais, é logo associado ( ou ainda, interpretado) á luz da ascendência mítica que a vontade celeste e o culto as tradições antigas impunham ao sistema representativo e simbólico do pensamento chinês.

Apesar do aparente imobilismo que se insere na cultura chinesa justamente pela formação dessa estrutura de pensamento, completamente voltada para um passado mítico glorioso, devemos notar que a materialização de algumas respostas no campo material, mesmo que pautadas nesse pensamento, representam avanços respeitáveis; afinal, em Chang An, capital da dinastia Han ( século III AC a III DC) o nível de domínio da natureza permitiu as técnicos de "feng shui" construírem um porão de pedra onde era guardado gelo para servir uma espécie de "sorvete" ao imperador no verão.... Esse é apenas um detalhe no complexo sistema de pensamento chinês onde a construção das cidades nada mais é do que uma manifestação em grande escala de uma estrutura cultural onde a questão ritual domina todos os sentidos e áreas produtivas da civilização...

NOTAS

(1) Entendemos aqui o conceito de ritual dentro da perspectiva Funcionalista de Robertson Smith (1889), que afirmava que os rituais não surgiam para “satisfazer uma necessidade teórica ou técnica, mas por uma necessidade “prática” (V.V. Rito Enciclopédia Einaudi. Lisboa, Imprensa Nacional, 1994 v.30 p.328.) A partir de uma determinada problemática material, a civilização chinesa desenvolvia uma série de respostas que, se comprovadas em eficácia, eram fixadas sob forma mecanizada e posteriormente ritualística, quando sua função original se perdia e a atribuição de elementos místicos a integrava no contexto geral dos conhecimentos culturais.

(2) A Noção de modelo aqui apresentada refere-se a conceituação de FREITAS, G. Vocabulário da História, Lisboa, Plátano, 1996. P.184 . ao definir Modelo, ele emprega três interpretações dos quais duas nos são pertinentes; 1. “Instrumento de trabalho mental que consiste em reproduzir qualquer realidade complexa duma maneira simbólica e simplificada, em ordem a permitir verificar seu comportamentono caso de uma modificação de qualquer uma de suas variáveis” e 2. “padrão que se destina à ser copiado ou reproduzido”. Embora seja necessário avaliar, ao longo do texto, as modificações que surgem do desenvolvimento dos modelos de cidades chinesas, empregamos o termo aqui em sua segunda significação.

(3) No livro O Pensamento Chinês, GRANET nos dá uma elucidação abrangente sobre o desenvolvimento da maneira de pensar da civilização chinesa. Em linhas gerais, ela se caracteriza pelo “quase imobilismo” causado pela fixação das práticas operacionais sob forma ritual, o que dificultava o desenvolvimento de novas respostas técnicas às crescentes demandas materiais em virtudes das mesma “confrontarem” o sagrado. O modo de pensar chinês chinês tendia a não diferenciar sob qualquer forma ao avanços técnicos do estudo da natureza, da religiosidade e do misticismo. Assim, o desenvolvimento técnico , muito vezes embasados no próprio arcabouço cultural chinês, era visto sob a ótica de uma “ciência-ritual”, ao qual as respostas obtidas eram tidas como “abençoadas” ou derivadas do divino. Um exemplo bem claro está na produção dos cereais, citado na p.245 (v.1) do livro Civilização Chinesa , do mesmo autor, onde a descoberta do cultivo do painço é conscientemente entendido com prática humana, mas atribuída, por sua eficácia, ao Deus Heou Tsi, ou “príncipe painço”. Para compreender mais sobre os avanços técnicos, recomendamos também a consulta do grande trabalho de NEEDHAM, Joseph; Science and civilization in China, Cambridge, Cambridge Univer. Press, 1976.

(4) Nos remetemos novamente a idéia de modelo aqui apresentada, como um padrão à ser copiado. Ela resulta do conjunto de práticas pelo qual o esquema de construção de uma cidade, em todas as suas características, atinge potencialidade, reconhecimento, sendo por fim sacralizado.

(5) GRANET (1979) conceitua de forma singular a questão do “lugar-santo”. Anteriormente, acreditávamos que a formação dos campos sagrados estava ligada diretamente aos cemitérios, quando na verdade, sua origem é mais antiga: nas páginas 293-294 (vol.1)do seu livro Civilização Chinesa , ele concebe uma nova significação do termo: os “lugares santos” seriam inicialmente lugares de orgias sagradas ou cultos anímicos que conquistaram gradativamente dentro das comunidades sua importância ritual, atraindo então a prática das crenças religiosas. Assim, a construção de cemitérios próximos à esse locais foi uma derivação do culto aos antepassados ( advindo do culto as eras passadas, ou da tradição de uma “antigüidade” mais próxima dos deuses), objetivando a aproximação dos mortos com um centro de energia ou “poder”. No entanto, segundo afirmação do autor , não devemos restringir o “lugar santo” à um local pré-determinado: ele pode ser um lugar na natureza, ou mesmo um rio. Mas em todos os casos, sem exceção, a presença desse espaços fora dos perímetros urbanos está fundamentada justamente em seu processo de formação espontânea além do perímetro urbano, onde seus aspectos práticos ( fosse a prática do sexo longe dos olhares da comunidade, fosse a execução de um ato religioso em particular de contato com a natureza, etc.) exigiam certa distância da cidade.

(6) O termo feudalização ,aqui, é empregado em sentido bem próximo ao ocidental, embora temporalmente distante. O processo ao qual aludimos se refere, na China, a concentração das terras por senhores e barões locais, em troca de proteção contra estrangeiros e invasores, economicamente vinculados em contratos de arrendamento e politicamente organizados segundo práticas de servidão e vassalidade, estabelecidas poe meio de juramentos de fidelidade ao senhor maior. No livro Civilização Chinesa vol. 1, p.121, GRANET utiliza o termo por compreendê-lo como conveniente.

(7) Feng Shui, (pronuncia-se Fon shue) é a arte ou técnica de domínio do espaço, empregada na estética e na arquitetura chinesa. Sua descoberta foi atribuída ao místico Duque Chou, ou por vezes ao lendário primeiro imperador, Shi Huang Ti. Controvérsias à parte, sua efetividade foi provada diversas vezes ao longo do desenvolvimento da arquitetura chinesa e sua inserção nas práticas culturais chinesas foi plena. Para saber um pouco mais sobre o assunto, dois bons manuais são o Livro do Feng Shui, do mestre Lam Kan Chuen, São Paulo, Manole, 1998 e Feng Shui- arte milenar chinesa da organização do espaço, de Richard Craze, São paulo, Campus, 1998.

BIBLIOGRAFIA

DOCUMENTAÇÃO TEXTUAL
TUCÍDIDES . História da Guerra do Peloponeso tradução Mário da Gama Kury. Brasília, editora UNB 1999
HIPPOCRATES,Nature of Man translation by Jones Loeb classical Library, Harvardm University Press, 1995
HIPPOCRATES. Prognosis, translation by Jones Loeb Classical Llibrary. Harvard University Press, 1995
HOMERO/ A Iliada, tradução de Fernando C de Araújo. Rio de Janeiro: Ediouro, 1997

DICIONÁRIOS

CHEVALIER. Dicionário dos Símbolos 12a ed. Rio de Janeiro: José Olímpio, 1998
AURELIO, Mini Dicionário da Língua Potuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985

BIBLIOGRAFIA GERAL

CHAUNI, M. Introdução a história da FIilosofia vol 1. São Paulo: Editora Brasiliense, 1995
DETTIENE, M. Dionisio a Céu Aberto. Rio de Janeiro Jorge Zahar, 1988
ENTRALGO, P.L. La medicina hipocrática. Madrid: Alianza Editorial, 1970
GINZBURG, C A Micro História e Outros Ensaios. Rio de Janeiro: Difel, 1989
HAVELOCH. A Revolução da Escrita na Grécia. São Paulo: Unesp 1996
JONES, P. O Mundo de Atenas. São Paulo: Martins Fontes, 1997
RICHARD SENNET Carne e Pedra o corpo e a cidade na civilização ocidental São
Paulo: Record, 1994
SNELL, B. A descoberta do Espirito. Rio de Janeiro: Editora 70, 1997
VERMANT, J.P. . O Homem Grego. Lisboa: Presença, 1994.

André Bueno

Fonte: www.gaialhia.kit.net

China Antiga

China Antiga
Crânio do homem de Pequim, um dos mais antigos fósseis de hominídeos

A civilização chinesa é uma das mais antigas conhecidas, quase tão antiga quanto as que existiram no Egito e na Mesopotâmia. O Império chinês já existia muitos séculos antes de Roma se tornar uma das maiores potências do mundo antigo e continuou existindo séculos após a queda do Império romano.

Assim como a cultura grega serviu de modelo e inspiração para diversos povos do Ocidente, a cultura chinesa influenciou o desenvolvimento cultural de diversos países vizinhos, dentre os quais, o Japão e a Coréia. Os chineses também foram responsáveis pela descoberta da pólvora e pelas invenções do papel e da bússola.

Não bastasse tudo isso, a cultura chinesa sobrevive em nossos dias e, segundo muitos analistas econômicos, a China deverá se tornar em décadas futuras a maior economia do mundo, posição atualmente ocupada pelos Estados Unidos. Que tal conhecer um pouco mais a respeito do passado dessa civilização fascinante?

Homem de Pequim

A China atual é um país continental, ou seja, seu território é muito grande. A presença de grupos humanos no território que hoje é a China é bastante remota. Só para se ter uma idéia, foi lá que foram achados os vestígios fósseis do chamado Homem de Pequim, cujo nome científico é Homo erectus pekinensis, um dos mais antigos hominídeos (a família a qual pertence a nossa espécie). Esse nosso provável antepassado viveu há mais de 400 mil anos, andava ereto e é possível que já soubesse utilizar o fogo.

Na parte leste do território que veio a se tornar a nação chinesa, é onde se encontra a chamada Grande Planície de China.

Dois rios que nascem nas montanhas, correm por ela: o Huang-Ho (também chamado de rio Amarelo) e o Yang-Tsé-Kiang. Semelhante ao que ocorreu no Egito em relação ao rio Nilo, o rio Huang-Ho favoreceu o desenvolvimento da agricultura e o surgimento de cidades na região.

Esse rio se torna muito raso e arenoso durante as secas. Após as chuvas, ele se enche e cobre as planícies por dezenas e mesmo centenas de quilômetros.

Quando isso acontecia, os camponeses aproveitavam para irrigar as terras. Além disso, uma espécie de poeira fina e amarela, trazida de longe pelo vento, ajudava a fertilizar as terras.

Às margens do rio Amarelo

Durante muito tempo, acreditou-se que as margens do rio Huang-Ho foram o berço de toda a civilização chinesa. Escavações arqueológicas mais recentes levaram os historiadores a concluírem que as margens do rio Huang-Ho foram apenas um dos centros de difusão de uma das várias culturas que originou a civilização chinesa.

Em 1986, foram encontrados no sudoeste da China, na vila de Sanxingdui, objetos de bronze da mesma época da Dinastia Shang (aproximadamente 1500-1050 a.C.), mas com um estilo muito diferente do de objetos da mesma época encontrados no leste do país. Esses e outros achados são exemplos de que o processo de povoamento e o desenvolvimento cultural da China antiga foram muito mais complexos do que se imaginava.

A ênfase exagerada no estudo das populações que viviam próximas ao rio Huang-Ho, fez com que os arqueólogos não dessem a a devida atenção ao estudo das populações que viviam em outras regiões da China. Atualmente, esse erro está sendo corrigido. Exemplo disso é a atenção que vem sendo dada ao estudo da culturas que se desenvolveram no vale do rio Yang-Tsé-Kiang, que também era muito fértil.

No passado, esse vale era coberto por densas florestas. O vale do Yang-Tsé-Kiang era um dos vários importantes centros culturais da China Antiga. Alguns historiadores chineses chegam até a afirmar que a cultura surgida no vale do Yang-Tsé-Kiang chegava a ser tecnicamente superior à surgida nas margens do rio Huang-Ho.

Dificuldades geográficas

Na China Antiga, os grupos que viviam na parte oeste tiveram um desenvolvimento bem diferente daquele dos grupos que viviam próximos das margens do rios Huang-Ho e Yang-Tsé-Kiang. Em parte, isso pode ser explicado pelo fato de que os grupos que viviam no oeste encontraram condições geográficas mais adversas e tiveram que encontrar outras soluções para sobreviverem.

Quanto mais ao oeste da China nos dirigimos, menos chuvas ocorrem. Por isso, secas severas são comuns no oeste do país, que é uma região montanhosa, coberta por estepes e desertos. Isso dificultava as viagens e travessias, tornando-as mais árduas e perigosas.

Enquanto as condições geográficas no leste favoreceram o surgimento de grupos sedentários que se dedicavam ao cultivo do arroz e de outros cereais, as condições geográficas no oeste favoreceram o surgimento de grupos nômades.

As primeiras dinastias

Diferentes linhagens de reis e imperadores governaram a China. Costuma-se dividir a história da China Antiga nos períodos em que cada uma dessas linhagens ou dinastias governou o país.

Por sua vez, podemos dividir esses períodos em duas épocas: Época da três dinastias régias e Época Imperial, que durou de 221 a.C. ao ano 1911 da nossa Era.

Por razões de espaço e para não fugir do tema China antiga, trataremos a seguir apenas das cinco primeiras dinastias.

As cinco primeiras dinastias chinesas

China Antiga
Retrato do primeiro imperador, datado do século 19

 

As cinco primeiras dinastias chinesas foram as seguintes:

1) Xia, 2205-1818 a.C.

A existência dessa dinastia ainda é motivo de controvérsia entre os historiadores. Mesmo entre os que acreditam que essa dinastia tenha existido, não há consenso em relação às datas de sua duração.

2) Shang, aproximadamente 1500-1050 a.C.

Até uns cem anos atrás aproximadamente, tudo que se sabia a respeito dessa dinastia era o que estava escrito em documentos produzidos durante as épocas da dinastias Zhou e Han, centenas de anos após a queda da dinastia Shang. Por isso, muitos historiadores ocidentais duvidavam da existência dessa dinastia, afirmando que os relatos sobre ela não passavam de mitos.

No entanto, a maioria dos historiadores chineses sempre aceitou esses relatos, citando-os como fontes históricas confiáveis. Descobertas arqueológicas comprovaram a existência da Dinastia Shang. Entre os achados arqueológicos estavam objetos de bronze; inscrições gravadas em ossos e cascos de tartaruga e sepulturas. Podemos dizer que os mais antigos registros escritos da história da China surgiram durante a dinastia Shang. A mais antiga forma de escrita conhecida surgiu na China dos Shang.

Em muitos textos antigos, os Shang eram geralmente descritos como governantes cruéis, corruptos e decadentes. Até onde esses relatos seriam verdadeiros?

Vale lembrar que a maioria desses textos foram escritos séculos após o domínio dos Shang, durante as dinastias que os sucederam. Ao retratarem os Shang como corruptos e os seus sucessores como "virtuosos", esses textos tinham a intenção de fazer propaganda a favor das dinastias Zhou e Han.

3) Zhou, aproximadamente 1050-256 a.C.

Os Zhou (também chamados de 'Chou") eram uma poderosa família vinda do oeste do país, derrubaram os Shang e assumiram o poder. Para obter apoio, costumavam distribuir terras aos seus aliados. Esse apoio vinha de famílias nobres, que detinham riquezas. Cada uma dessas famílias governava uma cidade ou província.

Em caso de guerra, eles ajudavam o exército do rei fornecendo soldados, armas ou alimentos. Os territórios controlados por essas famílias foram ficando cada vez maiores e a China acabou sendo dividida em sete principados. Na prática, essa divisão acabou fortalecendo essas famílias e diminuindo o poder do imperador. Era uma situação muito semelhante ao que ocorreu mais tarde na Europa ocidental durante o feudalismo, em que o poder dos senhores feudais era, na prática, maior que o dos reis.

Não demorou para os sete principados entrarem em guerra entre si. Essa guerra durou anos (480-221 a.C., período conhecido como "Época dos Estados Guerreiros") e foi vencida pelo primeiro reino de Qin (ou Chin). Esse reino era afastado dos outros que se enfrentaram entre si. Por isso, sofreu menos os efeitos das guerras e se tornou o mais rico e poderoso. Os reis de Qin organizaram um grande exército e equiparam seus soldados com espadas e lanças de ferro, uma inovação para a época. A vantagem sobre os inimigos era que uma espada de ferro podia cortar ao meio uma feita de bronze.

4) Qin, 221-207 a.C.

Usando de extrema força, o rei de Qin, que saiu vencedor da guerra que marcou o final da dinastia Zhou, conquistou um território após o outro e os incorporou ao seu reino. Por volta do ano 221 a.C. ele já havia conquistado quase toda a China. Esse rei assumiu o título de Qin Shi Huangdi, que significa "primeiro rei de Qin". Ao concentrar o poder em suas mãos, Qin Shi Huangdi se tornou o fundador do Império Chinês. Foi ele quem estabeleceu, pela primeira vez na História, um Estado unificado chinês.

Entre as medidas adotadas por Huangdi para garantir a unidade do império estavam: adoção de um único sistema de pesos e medidas, de escrita e de moeda em todo o Império. Para vigiar os outros nobres, Huangdi ordenou que os antigos governantes dos principados se mudassem para a capital. Esses nobres foram obrigados a entregar suas armas, que foram fundidas e transformadas em estátuas e sinos.

Huangdi também promoveu a realização de concursos públicos para o preenchimento de cargos. A intenção do imperador era selecionar os candidatos mais qualificados para ocupar os cargos públicos. Tratava-se de um sistema inovador para a época, pois os candidatos eram escolhidos com base no mérito e não na origem social ou por "apadrinhamento".

Por isso, costuma-se dizer que foi na China que surgiu a idéia de meritocracia. Os funcionários que ocupavam esses cargos públicos se encarregavam de tarefas como cobrar e arrecadar impostos, administrar os recursos etc.

Exército de esculturas

Outra medida adotada por Huangdi foi o recrutamento de camponeses para trabalharem na construção de obras públicas. Uma dessas obras foi a construção da famosa Grande Muralha, cujo primeiro trecho começou a ser construído durante o reinado desse imperador. Os camponeses também eram recrutados para o serviço militar.

Antes de morrer, Huangdi ordenou que fossem feitas cerca de sete mil estátuas de guerreiros para serem colocadas a 1.500 metros a leste de seu túmulo. Essas estátuas eram de terracota (argila cozida em forno) e foram feitas em tamanho natural. Além disso, foram feitas algumas estátuas de cavalos em tamanho natural, e mais de cem carros de madeira. Esse "exército" guardaria o túmulo do imperador, afugentando ladrões e intrusos.

Para a construção do mausoléu do imperador foram utilizados cerca de 700 mil trabalhadores. Após alguns anos de serviço, esses trabalhadores teriam sido enterrados vivos por ordem do imperador, para que a obra permanecesse em segredo.

5) Han, 206 a.C. - 220 d.C.

Com a morte do imperador Huangdi, teve início uma grande crise política na china. Aproveitando-se dessa crise, um líder chamado Liu Bang tomou o poder e inaugurou a dinastia Han. Uma das características dessa dinastia foi a política de presentes, que consistia em conceder presentes caros aos seus vizinhos da Ásia central. Tratava-se de uma forma de comprar aliados.

Esses presentes consistiam em grandes quantidades de tecidos de seda, espelhos de bronze, perfumes, peças de cerâmica e jóias. Além dos presentes, os Han ofereciam banquetes e festas a seus vizinhos.

Foi na época dos Han que os chineses, que se julgavam o centro do mundo (daí chamarem seu país de "Império do Meio") descobriram que outros povos viviam a oeste de suas fronteiras, souberam inclusive da existência de um certo Império romano. Isso ocorreu quando Wu Ti, um imperador Han, enviou no ano 138 a.C. uma missão diplomática à Ásia Central, com o objetivo de estabelecer uma aliança com os turcos para combater os hunos.

Rota da seda

A construção de outros trechos da Grande Muralha nessa mesma época ajudou a abrir um caminho da china para o Ocidente. Ao ser ampliada, a Muralha acabou atravessando regiões montanhosas e desertos (inclusive o famoso deserto de Gobi). Poços profundos foram cavados para fornecer água para as caravanas. O caminho ficou conhecido como "A Rota da seda".

A demanda por seda chinesa estava alta em mercados como a Pérsia, a Turquia, a Índia e até o Império romano. Os dois impérios, romano e chinês, sabiam um da existência do outro, mas a enorme distância, aliada a dificuldade de transporte da época, tornou inviável um contato mais estreito entre eles.

Durante a Dinastia Han, a China conheceu um considerável aumento da população e uma série de avanços técnicos. Entre esses avanços estavam a invenção do carrinho de mão (bastante útil para transportar cargas pesadas em caminhos estreitos e tortuosos); o aperfeiçoamento da produção de ferro (com o qual faziam objetos como espadas e estribos) e a invenção do moinho movido a água, usado para moer cereais e na fundição de ferro e cobre.

Revoltas camponesas

Apesar do desenvolvimento técnico, os camponeses, que constituíam a imensa maioria da população, continuavam enfrentando condições ainda muito precárias de vida. Por isso, durante os dois primeiros séculos da Era Cristã, ocorreram violentas revoltas camponesas que foram duramente reprimidas. Segundo historiadores da corrente marxista, especialmente nos países que adotaram o regime socialista, a escravidão por dívidas era comum na China durante a Dinastia Han.

Outros historiadores discordam, afirmando que não existia escravidão, mas sim uma forma de servidão.

Em todo caso, escravos ou servos, a certeza é uma só: os camponeses viviam em condições miseráveis e eram extremamente explorados pelos poderosos.

As revoltas camponesas contribuíram para o enfraquecimento do Império, o que trouxe o fim do domínio dos Han.

O Império da China acabou se dividindo em três reinos: Wei (no norte), Wu (no oeste) e Shu (no leste e no sul). Essa divisão em três reinos durou do ano 220 ao ano 265 da Era Cristã.

Túlio Vilela

Fonte: 4shared.com

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