"Dentro de pouco tempo, centenas de milhões de camponeses das províncias do centro, do sul e do norte da China se levantarão como uma tempestade, um furacão, como uma força impetuosa e violenta que nada, por poderoso que seja, os poderá deter. Romperão com as amarras e se lançarão pelo caminho da liberdade. Sepultarão a todos os imperialistas, caudilhos militares, funcionários corruptos e déspotas locais. Todos os partidos e camaradas revolucionários serão submetidos a prova perante os camponeses e terão que decidir de que lado se colocam (...)" - Mao Tse-tung "Relatório s/uma investigação do movimento camponês em Hunan, in Obras Escogidas, v. 1, p. 19-20.

A fome, o estigma imemorial da China (1930)
Depois da fragorosa derrota de 1927, o PC chinês foi obrigado a rever sua estratégia de ação política, pois suas organizações urbanas foram dizimadas. Com o afastamento de Chen Tu-siu, a liderança de fato do PC passou para Mao Tse-tung, um revolucionário autodidata, originário da província de Hunan, onde nascera em 1893, filho de uma família de camponeses remediados. Mao Tse-tung, um homem sempre preso as coisas da terra, manifestara velada oposição ao descaso que a direção partidária comunsta tinha para com os camponeses. Um pouco antes do desastre de 1927, fez circular seu célebre relatório sobre as observações que ele fizera sobre a gente do campo na sua província natal. Notando a iniciativa revolucionária deles, disse ele "quem tenha arraigadas concepções revolucionárias e vá alguma vez ao campo e veja o que ali sucede, seguramente se encontrará mais alegre do que nunca. Milhões de escravos...os camponeses estão derrubando seus inimigos, os devoradores do homem (...). Todos os revolucionários devem compreender que a revolução nacional exige uma grande transformação no campo". Mao Tse-tung relatou como os camponeses de Hunan espontaneamente se organizavam para diminuir o poder dos déspotas locais, combater o banditismo, expurgar o vício do ópio, fixar multas aos especuladores, etc... A antiga imagem do homem do campo chinês, paciencioso, humilde, servil e fatalista, deveria ser reavaliada. Havia uma revolução social em andamento no interior da China e os comunistas estavam à margem dela.
Mais adiante no relatório estabelece os pesados cânones a que os chineses estão submetidos e alerta para a sua decomposição: "Na China, os homens vivem dominados geralmente por quatro sistemas de autoridade: 1) o sistema estatal (a autoridade política, estruturada em órgãos de poder em nível nacional, provincial, distrital e cantonal; 2) o sistema de clã (autoridade do clã), que compreende desde os templos ancestrais no clã, na linhagem chegando até os chefes de família; 3) o sistema sobrenatural (a autoridade religiosa) constituído por um conjunto de forças subterrâneas, o rei dos infernos, o deus protetor das cidades e as divindades locais, e pelas forças celestiais; deuses e divindades, desde o Imperador dos Céus até os mais diversos espíritos"; e 4) o sistema marital, que obriga a esposa a uma espécie de submissão permanente ao marido e ao resto da familia dele. Concluiu que "estas quatro formas de autoridade, a da política, do clã, a religiosa e a marital, encarnam a ideologia e o sistema feudo-patriarcal em seu conjunto e são as quatro cordas que mantém amarrado o povo chinês". Mao Tse-tung proclama ao que restou do PC chinês a abraçar a causa camponesa e dirigir o poderoso "furacão" no sentido de transformar radicalmente a sociedade.
Desde 1928, Mao Tse-tung e encontra-se refugiado nos montes de Ching-keng, na Província de Kiangsi, que lhe fornece um abrigo natural, permitindo-lhe sobreviver às constantes investidas do exército nacionalista que mantém um cinturão de fortificações ao redor dele. Lá, no que ele em 1930 designara como "Governo provincial soviético de Kiangsi", recebeu a adesão de Chu Teh, um hábil estrategista militar nascido em 1886, um perito em guerra camponesa, e que foi um dos mais célebres dos comandantes vermelhos. Aquela região inóspita e afastada lhe servirá como a primeira base e como laboratório para suas experiências sociais no que toca à organização do trabalho coletivo, à supressão da propriedade da terra e a difusão do ensino das primeiras letras.O entusiasmo do Comitê Central comunista apesar das derrotas era tal que chegou ao exagero de proclamar em Jiuchin uma "República Soviética Chinesa" em 7 de novembro de 1931, tendo Mao Tse-tung como seu presidente.
O exército vermelho: se Napoleão considerava as campanhas militares "como o Estado em marcha", Mao Yse-tung considerará o seu exército como "a Revolução em marcha". No dizer de Guillermaz: "o exército vermelho se distinguiu de todos os demais por seu comportamento em relação às massas. Não se apresentava como o Exército da Nação, abstração difícil de captar, mas sim como Exército do Povo, ou seja das populações entre as quais vivia e que pretendia libertar, não só do estrangeiro e das forças reacionárias, senão também organizar as massas rurais superficial e profundamente." A organização geral dos vermelhos obedecia ao modelo ternário de três divisões (shih) por exército (chun), cada um com três regimentos (tuan) que se subdividiam em companhias, batalhões, seções e pelotões. Os oficiais eram eleitos pelas tropas e não usavam nenhuma insígnia, nem gozavam de nenhum privilégio. A doutrina básica apoiava-se em três regras e algumas "recomendações" que são: obedecer às ordens, não tirar nada da população, nem sequer fio e agulha e entregar às autoridades os "bens confiscados". Dada a tradição do soldado-saqueador tão comum na história chinesa, não é de admirar que o Exército Vermelho fizesse por conquistar as simpatias da população rural. Mao Tse-tung por sua vez apoiou vigorosamente Chu-Teh no desenvolvimento e aperfeiçoamento de uma estratégia própria para a atuação nas condições que enfrentava, baseada na guerra de guerrilhas que será muito útil aos comunistas, não só contra as tropas nacionalistas como também contra os japoneses. Ela assentava-se em quatro proposições bem simples: " se o inimigo ataca, eu retrocedo; se o inimigo recua, eu o persigo; se o inimigo se detém, eu o hostilizo; se o inimigo se reagrupa, eu me disperso". (6). Deve-se a este "Napoleão Vermelho"a transformação da guerra de guerrilha, considerada pelos militares em geral como uma atividade de menor importância, de apoio apenas, numa arte digna dos grandes estrategistas. Chu Teh conseguiu ainda a façanha de aumentar o seu exército de 5 mil integrantes em 1929 para 200 mil em 1933. (6) Snow, Edgar - Red. Star Over China, p. 202.

Estado-maior revolucionário em 1931, entre outros Chu Teh e Mao Tse-tung
Isolados numa província interiorana, os comunistas aparentemente encontravam-se neutralizados naquele fim-de-mundo. Chiang Kai-shek inclinou-se então para a campanha ideológica estimulando o Movimento "Vida Nova", lançado como antídoto à influência marxista que ainda pairava nos meios intelectuais e estudantis das grandes cidades. A orientação do Kuomintang, cada vez mais direitista, fez com que o "Vida Nova" se abeberasse no fascismo, em alguns elementos do cristianismo e, sobretudo, na restauração confuciana. O domínio que o caudilho militar exerce sobre o país, é no entanto precário. Para solidificar sua autoridade e ao mesmo tempo combater o maoísmo, Chiang Kai-shek estabelece uma série de acordos com os senhores da guerra e aproxima-se da Alemanha Hitlerista, que lhe fornece equipamentos militares, instrutores qualificados, e até um número razoável de aviões de guerra. Com eles esperava poder fustigar os comunistas nas montanhas longínqüas. Este alinhamento com a Alemanha Nazista gorou quando o Japão, aliado preferencial de Hitler, atacou a China em 1937. O generalíssimo Chiang Kai-shek então buscou auxílio junto aos Estados Unidos, interessados por sua vez em impedir a expansão nipônica.
Estabelecidos no feudo vermelho de Kiangsi, os maoístas suportaram milagrosamente quatro grandes "campanhas de extermínio" ordenadas por Chiang Kai-shek. Refletindo sobre as peculiaridades dessa situação incrível, que permitiu a resistência do seu partido apesar dos ataques sistemáticos dos nacionalistas, Mao Tse-tung indicou as seguintes razões: a) as contradições e lutas entre as diversas camarilhas de caudilhos militares refletem as contradições e lutas entre as potências imperialistas", impedindo a formação de uma frente interna sólida o suficiente para liquidar com ele; b) a sobrevivência de feudos vermelhos "somente é possível num país como a China, economicamente atrasado, semicolonial e dominado indiretamente pelo imperialismo", alicerçado pelas rivalidades dos senhores da guerra, tendo como pano de fundo "uma economia agrícola local não unificada pelo capitalismo" - resultado da múltipla dominação que a China sofria.
Ele acreditava no sucesso futuro dos comunistas na medida em que o Kuomintang não conseguiu realizar as mínimas reformas necessárias para fazer a China transitar para uma libertação nacional autêntica e completa. Interpreta o fracasso dos nacionalistas na medida em que tanto a burguesia nacional como a burguesia "compradora", que a ditadura Chiank Kai-shek representa, temem o enfrentamento mais radical e definitivo com as potências coloniais, tornando-se incapazes de realizar aquilo que denomina de "revolução democrática chinesa", que implicaria simultaneamente "derrotar o imperialismo e seus instrumentos, os caudilhos militares", e realizar a "revolução agrária para liquidar a exploração feudal dos latifundiários sobre os camponeses". Portanto, tanto o movimento republicano de 1911, como o movimento nacionalista de 1923, fracassaram no seu objetivo maior, configurando-se como "revoluções burguesas abortadas". Assim só restou ao Partido Nacionalista virar num movimento contra-revolucionário (7).
Finalmente, somente no biênio de 1933/34, os nacionalistas puderam dispor de farto armamento e de instrutores militares alemães, supervisionados pelo general von Seeck, que permitem apertar o cerco e quase derrotar o Exército Vermelho. A liquidação dos sovietes rurais não foi completa graças à modificação da conjuntura internacional. Em primeiro lugar, a ascensão do nazismo obrigou a uma alteração na estratégia do movimento esquerdista em escala internacional. Apartir do 7º Congresso do Komintern, realizado em agosto de 1935, a determinação da Internacional Comunistas controlada por Stalin era pela formação de "Frentes Populares" que congregassem todas as forças antifascistas numa frente de luta em comum. Comunistas deviam aliar-se aos sociais-democratas e aos liberais anti-fascistas no mundo inteiro. Em segundo lugar, a China encontrava-se ameaçada pela expansão japonesa.
Desde 1931, aproveitando-se de um incidente forjado em torno de uma estrada-de-ferro na fronteira da Manchuria, os nipônicos transformaram as províncias do noroeste da China num "protetorado" - o Manchukuo, fundado em 1932, colocando nele como governante um fantoche dos nipônicos - o ex-imperador Puyi (ele fora deposto ainda menino em 1911). Um enorme naco do território chinês simplesmente foi engolido pelos miliatristas japoneses.
Em vista dessa ameaça, cresceu em toda a China o clamor para que nacionalistas e comunistas cessassem a luta e se unissem para enfrentar a agressão japonesa que se avizinhava terrível. (7) Mao Tse-tung - Por que pude existir el poder rojo em China? In Escritos Militares, p. 5 e segs.
A Longa Marcha: aproveitando-se da hesitação dos nacionalistas em dar o golpe final nos comunistas cercados, Mao Tse-tung, juntamente com seu comandante militar Chu Teh, resolveram-se por uma retirada. Começava então o episódio que celebrizou-se na história chinesa como a Longa Marcha (outubro de 1934 - outubro de 1935), que foi o grande épico do movimento maoísta. Combatendo ao mesmo tempo em que se retirava, o Exército Vermelho conseguiu romper com quatro linhas de cerco que os nacionalistas haviam construido para impedi-los de fugir. Houve momentos extraordinários quando por exemplo atravessaram o caudaloso rio Wu em jangadas de bambu e derrubaram as defesas dos inimigos na outra margem, ou ainda a incrível passagem pela ponte pêncil do Luding, estendida sobre o rio Datong, quando um punhado de homens armados de granadas, equilibrando-se como podiam, transpuzeram-na asseguraram a sua posse, permitindo com seu destemor que a marcha seguisse em frente. No total estimou-se que o Exército Vermelho, que nesta retirada chegou a roçar nas fronteiras do Tibet, percorreu 10 mil quilometros a pé pelo interior da China em busca de um refúgio permanente. No trajeto, dizimados pela fome, pela doença - na travessia do monte Grande Neve, de 5 mil metros de altitude, Mao Tse-Tung teve que ser carregado porque a malária o derrubara - pelos combates e escaramuças que enfrentaram, apenas uns 8 ou 9 mil guerrilheiros, dos 80 mil que partiram de Kiangsi, sobeviveram. Alcançaram Yenam, a capital da província de Shensi, no remoto noroeste do país, em farrapos, meio mortos-vivos. A região semi-deserta, de pura pedra - limitava-se com a Mongólia interior e estava protegida pela Muralha da China -, serviu como um santuário ideal, distanciada o bastante para manter os maoístas a salvo dos ataques do Kuomintang. (8).
(8) Já se encontravam em Shensi cerca de 15 mil guerrilheiros,vindo de outras partes do país. Posteriormente Yenan tornou-se centro de uma infindável romaria de camponeses, intelectuais e estudantes bem como de soldados e oficiais nacionalistas desiludidos com o pouco empenho de Chiang Kai-shek na guerra contra os japoneses.

Mao Tse-tung com sua segunda mulher, Ho Tzu-ch'en
A "Longa Marcha" transcendeu em importância ao notável feito militar, provocando conseqüências políticas de longo praso nos destinos futuros do país. Antes de tudo, assegurou a sobrevivência do movimento comunista na China, pois não se tratava apenas em alguns combatentes que se deslocavam e sim de que com eles bivaqueava todo alto comando do partido - o birô político, o comitê central e seus serviços, enfim todos os responsáveis políticos e militares existentes no momento. A destruição deles liquidaria o partido em definitivo e dificilmente os camponeses seriam capazes por si sós de se organizarem sem a armadura militar e intelectual fornecida pelos maoístas. Por último, a "Longa Marcha" contribuiu para dar ao PC chinês a mais ampla autonomia em relação a Moscou, projetando Mao Tse-tung como um líder de dimensões nacionais, e não um títere dos soviéticos, além de envolver o partido comunista chinês numa aura de invencibilidade e indestrutibilidade aos olhos da população rural.
O incidente de Sian: ao tentar reanimar suas tropas para o combate contra os comunistas, ignorando a ameaça cada vez maior da presença japonesa, o generalíssimo Chiang Kai-shek, ao visitar a guarnição militar de Sian, provocou um motim das tropas comandadas pelo Jovem Marechal Zhang Xueliang, que o deteve em 12 de dezembro de 1936. O qual só o libertou duas semanas depois, no Natal de 1936, com a promessa formal do generalíssimo de dali em diante concentrar os esforços nacionais somente na luta contra o Japão. Este inusitado episódio, onde o generalíssimo do exército chinês foi seqüestrado por um dos seus marechais, abalando a sua autoridade - chamado de incidente de Sian -, era demonstrativo da insatisfação com que Chiang Kai-shek conduzi o país. A exigência de uma cessar fogo entre os rivais partia não apenas dos oficiais do Exército governamental mas também da intelectualidade e dos estudantes. Não foi necessário esperar muito tempo para que o acordo entre os nacionalistas e comunistas se concretizasse, pois a 7 de julho de 1937 os nipônicos, depois dos graves incidentes na Ponte de Marco Polo (Lukeukiao), a 10 quilometros de Pequim, desencadearam a ofensiva geral sobre as províncias do Norte chinês. Começava naquele ano, dois anos da guerra generalizar-se pela Europa, uma das mais longas e brutais conflagrações da História Contemporânea, que vitimou 10 milhões de chineses (grande parte deles civis) e que só se encerraria em 1945 com a capitulação do Japão.
Primeiro período da guerra sino-japonesa - 1937-1941: divide-se a guerra sino-japonesa em dois grandes períodos: o primeiro deles, denominado de período crítico, teve seu início em julho de 1937 quando os nipônicos lançam sua ofensiva-relâmpago sobre as províncias do Norte e Leste (Hopei, Shantung, Shansi, Chamar e Suyan) com o objetivo de separá-las da China, seguindo os ditames do "Memorial Tanaka". Numa audaciosa operação de desembarque, ocuparam mais ao sul Cantão e em uns anos depois Hong Kong (que era colônia inglesa). Os invasores tiveram seu caminho facilitado por encontrarem pela frente uma China politicamente desorganizada, onde a rivalidade militar entre nacionalistas e comunistas havia sido suspensa a contra gosto, vendo-se ainda subdividida em várias "autoridades locais"" que se mostraram relutantes em oferecer-lhes uma resistência efetiva e coerente.
Mesmo assim Chiang Kai-shek e Mao Tse-tung assinam um acordo em 22 de setembro de 1937, pelo qual os comunistas abandonam seu projeto de um governo revolucionário e passavam a designar sua área de domínio como Governo Autônomo da Região Fronteiriça, enquanto o Exército Vermelho mudou seu nome para ser o Exército Revolucionário Nacional, renunciando a insurgir-se contra o governo de Chiang Kai-shek que, pelo seu lado, comprometeu-se a suspender as operações anticomunistas.
A estratégia japonesa baseava-se em sua mobilidade, fruto do desenvolvimento industrial do país, e na grande motivação da população em formar um império nipônico sobre a Ásia inteira. A ofensiva-relâmpago deles rapidamente ocupou Pequim em 8 de agosto de 1937, seguidas da capitulação de Tientsin e Shangai. Depois de quebrarem a encarniçada resistência das tropas chinesas, que lhes resstiram por três meses numa batalha nas ruas de Shangai, os japoneses marcharam para dentro do continente e, logo depois, em 13 de dezembro de 1937 entram em Nanquin.

Japoneses executam os prisioneiros em Nanquin, 1937
O estrupo de Nanquim: nesta antiga capital imperial, e também ex-sede do governo nacionalista de Chiang Kai-shek, os soldados japoneses sob o comando do general Iwane Matsui realizaram a partir de dezembro de 1937 um efeito-demonstração que converteu-se numa das maiores atrocidades da história contemporânea - o "estupro de Nanquin" (Nanjing Datusha). Visando a humilhação total dos chineses, o Alto Comando japonês permitiu que por três semanas suas tropas submetessem os habitantes da venerável cidade ao saque e a um bárbaro e indiscritível massacre que vitimou (entre torturados, fuzilados e mulheres estupradas) mais de 300 mil civis chineses - um verdadeiro, mas esquecido holocausto oriental.
Um ano depois de terem tomado a ofensiva, os nipônicos controlam amplas margens do Mar da China, ocupando uma boa parte da costa, na tentativa de isolar o país de qualquer auxílio ocidental. Apesar das simpatias americanas e britânicas inclinarem-se para os chineses, devido a rivalidade colonial que tinha com os nipônicos pela hegemonia sobre a Ásia, nada podem fazer de prático para ajudá-los.

o exército japonês realizou um massacre que vitimou mais de 300
mil civis chineses
Este período de seguidos triunfos japoneses chegou ao seu climax com a invasão de outras partes da Ásia pelo Exército e pela Marinha Imperial (Indochina, Indonésia, Malásia, Filipinas e Birmânia), seguida da desastrosa decisão do Micado de extender a guerra aos Estados Unidos. O surpreendente ataque japonês à base naval americana de Pearl Harbour em 7 de dezembro de 1941, obrigou o império do Sol Nascente a espalhar os seus recursos militares pelo Pacífico Ocidental, declinando como conseqüência disso as atividades bélicas no fronte da China.
O segundo período da guerra sino-japonesa - 1941-1945: no segundo período, que vai de dezembro de 1941 até agosto de 1945, os Estados Unidos assumem a tarefa de derrotar os japoneses, enquanto os exércitos nacionalistas chineses atuam apenas em pequenas escaramuças visando fixação e ao desgaste do inimigo.
Consciente da sua absoluta inferioridade militar e estratégica, Chiang Kai-shek após sete meses de infrutífera resistência, ordenara a adoção da política de "vender espaço para ganhar tempo", que implicava na renúncia de enormes extensões territoriais chinesas. Ao mesmo tempo em que recuavam as tropas nacionalistas dedicaram-se à tática da destruição sistemática da infra-estrutura rural e urbana das regiões que fatalmente seriam ocupadas pelos invasores, tal como a explosão de diques do Rio Amarelo, que provocou a inundação de milhares de quilômetros quadrados de terras aráveis, arrasando e arruinando por muitos anos as propriedades camponesas, mas que somente atrasou o japoneses em três meses, ou o incêndio precipitado de Changsha, a capital de Hunan (fruto do pânico das tropas chinesas em debandada).
A estratégia de Chiang Kai-shek: O generalíssimo chinês na primeira fase da guerra, de 1937 a 1941, limitou-se pois a abandonar territórios ao invasor, ao mesmo tempo em que transferia a capital e todos os órgãos diretivos do regime para Chung-king, 1600 quilometros Yang-tse acima, uma zona remota, na expectativa de que a evolução da crise internacional levasse o Japão a abrir um novo fronte de guerra (fosse contra os E.U.A., ou contra a URSS), dando um tempo para o seu regime respirar. Desiteressado em fazer qualquer resistência mais efetiva, o generalíssimo obtou por "marcar passo", entregando-se às mãos do destino. Talvez pudesse ter lançado mão da mobilização total das massas, mas por temer fenômenos sociais e políticos incontroláveis renunciou a isto. Como observou Guilhermaz "...o lamentável estado de seu exército, as dificuldades logísticas e a certeza de que a derrota japonesa seria, antes de tudo, obra do Ocidente, incitaram Chinag a limitar seus esforços ao mínimo e a conservar o essencial de seus meios para um enfrentamento com os comunistas que parecia inevitável no futuro". (9).
Rapidamente os japoneses deram-se conta de suas limitações. Possuíam tropas somente para uma ocupação extensiva (controle das cidades, portos, pontes, vias férreas, estradas, passagens fluviais e posições fortificadas), mas não intensiva, impedindo-os de aprofundar suas conquistas. O complexo de redes aldeãs que compreeendia milhares de vilarejos espalhados pelo interior da China ficou fora do seu controle direto. Em vista disso, para explorá-los e vigiá-los, eles estimularam a política do colaboracionismo. Os elementos pró-nipônicos eram recrutados em meio aos notáveis locais - donos de terras, senhores da guerra, grandes comerciantes, os mais abonados enfim que sempre tendem a pactuar com o inimigo na expectativa de manter seu patrimônio e seus bens, e que não haviam abandonados as regiões dominadas. Os japoneses transferiram a eles a ingrata e infame função de espoliar os camponeses dos seus recursos agrícolas e denunciar os que acreditavam ser subversivos. O mais tristemente célebre dos colaboracionistas foi um ex-integrante do Kuomintang, Wang Ching-wei. Se houve um fato positivo na política do colaboracionismo, sob o ponto de vista dos revolucionários, foi a absoluta e completa desmoralização de parte substancial das classes dominantes tradicionais da China. Os notáveis locais, que há mais de século mostravam-se subservenientes aos estrangeiros, passaram a merecer o mais absoluto desprezo dos camponeses que, revoltados, permitiam a infiltração dos guerrilheiros maoístas nas aldeias e vilarejos.
(9) A China iniciou a guerra com 1.788.000 de soldados. Nos anos seguintes mobilizou 14 milhões de homens. A guerra provocou mais mortes por privações e enfermidades do que pelos combates. Segundo as cifras oficiais, tiveram 3.211.419 baixas, das quais 1.761.335 feridos, 1.319.958 mortos e 130.116 desaparecidos (Guillermaz, pags. 337 e 38).
A estratégia de Mao Tse-tung: mesmo participando da "Frente Unida Antijaponesa", onde ofereceu-se para que o Exército Vermelho se subordinasse a um comando únificado chefiado por um general do Kuomintang, Mao Tse-tung estabeleceu uma estratégia própria para enfrentar o invasor. A China, segundo ele, não podia esperar resolver a curto praso o conflito mediante uma paz de compromisso, pois seria perpetuar a ocupação e a opressão dos japoneses sobre mais de 170 milhões de chineses que habitavam as mais férteis terras do país extendidas numa área de mais de 1,5 milhões de quilômetros quadrados. Mas também não tinha forças suficientes para manter o inimigo fora do território nacional devido à notória debilidade interna. Podia, no entanto, numa perspectiva a longo prazo, tornar impossível ao invasor o controle territorial da China bem como a exploração tranqüila dos seus recursos. Para infernizar os japoneses era preciso fazer entrar em jogo uma vastíssima rede de guerrilhas camponesas que, construindo uma série de labirintos subterrâneos, defenderiam as colheitas e as vidas dos aldeões ao mesmo tempo que cortavam ou destruíam sistematicamente a rede de comunicações do inimigo.
Exemplo dessa determinação dos maoístas em lutar a qualquer custo contra o invasor foi a adoção do sistema de recompensas que premiava com 50 yuans, a moeda oficial de então, a cada camponês que recolhesse dos campos de batalha uma metralhadora, e de 10 a 20 yuans por cada rifle que encontrassem, mas, dizia o manual de orientação, se não conseguissem armas modernas que trouxessem o que achassem: "armas de fogo antigas, lanças, facas, varas, machados, enxadas e pedras", serviam pois todas podem matar os inimigos.
A estratégia de "luta de longa duração" deu seu primeiro resultado em Pinghsingkuan, em 25 de setembro de 1937, onde Lin Piao, um dos mais ativos lugares-tenentes de Mao, travou, com excelentes resultados, uma clássica batalha de guerrilhas contra os japoneses. Simultaneamente guerra de guerrilhas, os maoístas elaboraram a reestruturação política das zonas liberadas. Operada a eliminação dos colaboracionistas, instituía-se uma administração comunal, apoiada nas milícias aldeãs. Paralelamente à transformação cultural e política que sofriam os camponeses, arrancando-os do marasmo e da submissão secular, as aldeias forneciam o apoio logístico - rede de informações, abastecimento e subsistência e proteção para os feridos. Ficou evidente que os maoístas lançavam no campo as sementes de uma estrutura econômica e política radicalmente nova e perigosamente ameaçadora ao Kuomintang. As guerrilhas viam seus quadros se ampliarem na medida em que cada vez era maior o número de desgostosos com a "apatia estudada" de Chiang Kai-shek e com a brutal repressão japonesa calcada nos "três tudo: "matar tudo, queimar tudo, destruir tudo - adotada a partir de 1941. (10). Esses fatores fizeram brotar nos camponeses uma consciência nacional, um "nacionalismo de massas", que até então era atributo das populações urbanas, levando a que eles identificassem em Mao Tse-tung o seu líder inconteste.
(10) Os efetivos maoístas, que em 1937 oscilavam de 40 a 80 mil homens, chegaram a ter de 600 a 900 mil guerrilheiros, ao fim da guerra. Se calcularmos que para cada guerrilheiro existiam cinco milicianos, seu apoio se estendia para 3 ou 4 milhões e meio de camponeses. Nas zonas controladas pelo Kuomintang, os camponeses se mostravam arredios em colaborar, pois seu pior inimigo era o exército nacionalista que cometia saques, confiscos e conscrições forçadas (L. Bianco, Las origenes...p. 203).

leo de Luo Zhong, intitulado "Meu Pai"
A divisão da China na época da Guerra sino-japonesa: desde 1941 vamos encontrar a China dividida mais ou menos em três áreas 1) a de domínio dos japonesas que ocupavam as regiões mais ricas e industrializadas do país, tendo Nanquim como sede do governo militar de ocupação, e que também abrigava o governo colaboracionista; 2) a que ficava sob controle de Chiang Kai-shek, o ditador chefe do Koumintang que instalara-se em Chung-King na Província de Szechwan no sul do país, onde passou a receber assistência militar anglo-americano e; 3) e o santuário de Mao Tse-tung, no afastado e paupérrimo enclave de Yenan na província nortista de Shansi, de onde partiam as diretivas da guerra de guerrilhas contra as zonas ocupadas pelos japoneses.
| Japoneses (Exército imperial) | Nacionalistas (Kuomintang) | Comunistas (Maoístas) |
|---|---|---|
| Área de controle: Norte e Leste da China | Área de controle: Sul da China | Área de controle:Noroeste da China |
| Sede: Nanquin | Sede: Chung-king | Sede: Yenan |
Chiang Kai-shek, temendo mais os comunistas do que os invasores, fez com que parte substancial do arsenal militar recebido dos aliados ocidentais fosse armazenado esperando a hora do acerto final de contas com Mao Tse-tung, que fatalmente se daria depois da Segunda Guerra encerrada. Envolvido por colaboradores corrompidos e especuladores de toda a sorte de coisas, terminou cedendo, pelos menos aos olhos da opinião pública chinesa, ao seu rival comunista a direção de fato da luta contra o Japão.
A infrutífera aliança: conforme o fim da guerra foi se aproximando, tornando inevitável a derrota japonesa, tanto os EUA como a URSS insistiram na necessidade de um governo de coalizão nacional para promover a unidade da China no período pós-guerra. Que Chiang Kai-shek e Mao Tse-tung encontrassem um meio de conviver. Este acerto entre os integrantes da Grande Aliança (EUA,GB e URSS) não se fez apenas na escala chinesa, sendo adotada internacionalmente. Stalin conclamou os comunistas a apoiar os governos anti-facistas que começaram a ser formados nos países já liberados, enquanto Roosevelt e Churchill, pelo lado deles, incentivavam a aliança da classe média liberal com os comunistas, pelo menos até a conclusão da guerra. Os desacertos da política estratégica chinesa eram tamanhos e a inoperancia dos exércitos do general Chiank Kai-shek era tão evidente que os Estados Unidos chegaram a tentar impor o General Stewell como supremo comandante das forças chinesas (unindo nacionalistas e comunistas), o que foi rejeitado com veemência pelo caudilho nacionalista (11).
(11) Os Estados Unidos enviaram duas missões para promover a conciliação entre nacionalistas e comunistas, a primeira chefiada pelo então vice-presidente, Henry Wallace em 1944, a Segunda pelo General Marshall em 1946. Quanto à corrupção no governo do Kuomintang é significativo o testemunho do General Stillwell que o definia como idêntico aos nazistas "...mesmo gênero de governo...o mesmo gangsterismo" (M. Crouzet, A época contemporânea: o Mundo Dividido, VIII, p. 227).
O acirramento da rivalidade entre Chiang e Mao: o avanço das forças soviéticas pela Manchúria a 8 de agosto de 1945 e o lançamento em 6 e 9 de agosto de duas bombas atômicas sobre o Japão, destruindo Hiroxima e Nagasaki, encerrou num repente a guerra na Ásia. O Japão rendeu-se incondicionalmente em 10 de agosto de 1945. Tanto Chiang Kai-shek como Mao Tse-tung trataram então de ocupar, numa espécie de corrida preliminar à guerra civil que se avizinhava, o espaço vazio deixado pela evacuação dos exércitos nipônicos. O general Mac Arthur, supremo comandante americano do Pacífico, recebeu ordens de apoiar ChiangKai-Shek nesta operação. Milhares de soldados nacionalistas foram então enviados para as províncias do norte-nordeste - onde até então havia se concentrado o grosso da força de ocupação japonesa -, com a colaboração da esquadra e da força aérea americana. Os soviéticos, no que lhes coube, permitiram que os guerrilheiros de Lin Piao se apropriassem do valioso equipamento militar deixado pelos japoneses na Manchúria.
Apesar desses evidentes preparativos que indicavam a retomada para breve da guerra civil, Chiang Kai-shek e Mao Tse-tung encontraram-se em Chung-King em 10 de outubro de 1945, tentando inutilmente algum tipo de acordo. Discordância que se explica na medida em que a guerra lançara as sementes não só da resistência mas também as da revolução social. O governo nacionalista de Chung-king, socialmente isolado, pagando o preço da sua hesitação frente ao inimigo externo, e claramente responsável pelo descalabro de uma economia inflacionária, acabou sendo identificado com a "velha ordem" a ser destruída. Assim, apesar do acautelamento de Moscou e das reticências de muitos membros do PC chinês conquanto da possibilidade dos comunistas virem a tomar o poder na China, a revolução social teve seu andamento. A Chiang Kai-shek só restou declarar novamente a guerra civil em janeiro de 1946, para deter os comunistas em definitivo.
A vitória do maoísmo: lançado sua ofensiva em julho de 1946, o caudilho nacionalista deu por encerrado o período de trégua entre o Kuomintang e os comunistas. Ela durara apenas 7 meses. Os nacionalistas dispunham de três milhões de homens em armas além de contar com a ajuda financeira e bélica dos EUA, bem como o controle sobre as áreas mais prósperas e povoadas da China. Em seu desfavor tinham uma liderança desgastada tanto pelo mau desempenho durante a guerra contra o Japão, e um imagem associada à corrosiva corrupção que se enraizara em todos os escalões burocráticos-militares do governo de Chiang Kai-shek. Os maoístas, por seu lado, dispunham, para o que chamaram de Guerra de Libertação, de apenas um terço das forças com que o Kuomintang contava, mas seu moral era elevado e eram herdeiros de uma tradição de luta que remontava às barricadas de Shangai de 1927, à epopéia da Longa Marcha de 1934-5, e à duríssima guerra de guerrilhas travada contra o exército japonês que durara oito anos. A liderança de Mao Tse-tung não sofreu nenhuma descontinuidade de comando desde os tempos de Kiangsi, o primeiro refúgio dos maoístas, como também. Neste tempo todo, ele revelou-se um inquebrantável condutor de homens, sendo capaz de fazer seus seguidores entregar a vida à causa. Numa entrevista feita a Edgar Snow, Mao Tse-tung revelou-lhe que dos 50 mil homens que militavam no PC chinês antes das operações de assassinatos ordenadas por Chiang Kai-shek em 1927, restaram-lhe uns 10 mil e que, posteriormente, na parte final da guerra civil, o aparato partidário foi conduzido apenas por uns 800 sobreviventes (12). O seu principal assessor era Chou En Lai, um descendente de uma familia tradicional, nascido em 1898, que aderira revolução nos anos 20, e que revelou-se um hábil diplomata e sutil articulador político. No campo militar contava com o estrategista Chu Teh e com o líder guerrilheiro Lin Piao, além de outros experientes combatentes como Chen Keng e Liu Pocheng, que comandavam tropas aguerridas e calejadas por inúmeras batalhas.
(12) Quanto à origem social dos membros do PC chinês, 27,4% deles provinham da nobreza rural, 29,4% da burguesia e da alta classe média, 17,6% eram de classe média, enquanto apenas 4% eram de operários e 21,5% de origem camponesa. Quanto a sua atividade profissional, 86,5% deles exerciam tarefas intelectuais (estudantes, professores, escritores, jornalistas, etc.). Dados extraídos a partir das notas bibliográficas existentes em E. Snow, pag. 512 a 587).
O ataque final de Mao Tse-tung: após ter revertido a ofensiva nacionalista que procura atingir suas bases em Yenan (Shensi), onde o general nacionalista Hu Tsung-nan teve seu exército detido e esfacelado pelas táticas da guerrilha, Mao Tse-tung, refeito, ordenou uma contra-ofensiva geral sobre as áreas nacionalistas baseado na "Estratégia da Terceira Guerra Civil" ou seja: 1) atacar primeiro as forças dispersas do inimigo, depois atacar as forças concentradas, mais fortes; 2) tomar primeiro as cidades pequenas e médias e extensas áreas rurais, depois as grandes cidades; 3) considerar como principal objetivo o extermínio dos efetivos militares do inimigo e não ter como intenção principal manter ou sustentar uma cidade ou um lugar qualquer; 4) em todas as batalhas a serem travadas, procurar sempre concentrar uma força militar absolutamente superior para poder cercar completamente o inimigo e lutar para exterminá-lo por completo,"não deixando um só escapar..."
Em 1948, uma série dessas operações, em que conjugou táticas guerrilheiras com concentrações de força em grande escala, fazem o agora rebatizado Exército de Libertação Popular sair-se vitorioso em Lo-yang, Honan e Tsisan, culminando com sua vitória sobre os nacionalistas em Huai-hai (novembro de 1948 - janeiro de 1949), os quais sofreram a perda de 550 mil homens, sendo que 327 mil deles cairam prisioneiros.
Muitas dessas batalhas, apesar de estarem envolvidos milhares de soldados de cada lado, tiveram bem poucos mortos em razão de um antigo hábito de combate chinês que podemos chamar de "negociação e conversão". Em diversas ocasiões, exércitos inteiros de nacionalistas se entregaram sem disparar um tiro porque seus comandantes, sentindo-se inferiorizados em forças e em ânimo, sem condições portanto de levar o combate às suas últimas conseqüências, decidiam-se por negociar a sua conversão, passando-se em massa com suas armas e bagagens para o lado dos maoístas.
A China Popular e a China Nacionalista: com a debandada crescente dos nacionalistas abriram-se finalmente as portas para a ocupação de Nanquin, a ex-capital do Kuomintang, ocorrida no dia 24 de abril de 1949. A essa altura dos acontecimentos, não restava mais nenhuma força organizada no interior da China para se opor aos exércitos maoístas. Apesar de já terem conquistado Pequim em 20 de janeiro de 1949, Mao Tse-tung só proclamou a República Popular da China no dia 1º de outubro de 1949, dando por encerrada a guerra civil. Chiang Kai-shek e seu Estado-Maior em fuga, negada qualquer conciliação com ele pela ala da extrema esquerda do partido comunista liderada por Liu Chao-chi, refugiou-se com os remanescentes do seu regime na pequena ilha de Taiwan (Formosa), onde ele contará com o apoio dos EUA para a formação de uma entidade política rival à China Popular, a China Nacionalista. Desde então a China ficou dividida politicamente numa parte continental, a China Popular; e numa parte insular, a China Nacionalista. A primeira aliou-se com a URSS até que, por razões ideológicas, ambas romperam em 1960, enquanto que a segunda continua até hoje um satélite da politica norte-americana na Ásia.Quanto ao povo chinês, pela primeira vez em mais de um século da sua história voltava a ver um governo restabelecer o controle único sobre o país inteiro (com exceção do Tibete e de Taiwan) e despachar os estrangeiros para fora da China, suprimindo-lhes completamente com os privilégios coloniais que ainda usufruiam. Uma das primeiras medidas dos revolucionários foi franquear ao povo da capital os portões da Cidade Proibida, o milenar núcleo do poder imperial da velha China.
Mao Tse-tung ocupa um lugar especial como teórico no movimento marxista. Tornou-se um dos maiores estrategistas dos países do Terceiro Mundo ao elaborar uma doutrina teórico-prática adaptada às peculiaridades da Ásia colonizada e semi-colonizada: uma fusão de nacionalismo (reconhecendo a importância das expressões da cultura nacional) com o marxismo (o conceito de lutas de classe e a perspectiva internacional). Os principais textos de militares e politicos de Mao Tse-tung, com exceção do renomado "relatório", foram escritos depois da Longa Marcha quando ele fixou-se em Yenan e encontrou o tempo necessário para pensar e redigir. Num primeiro momento, como se sabe, os marxistas chineses, na época da fundação do PC chinês no começo dos anos 20, estavam - como os demais marxistas espalhados pelo mundo - embebidos pelos conceitos bolcheviques, com sua ênfase na classe operária e nas lutas urbanas. Para eles, era indiscutível que a liderança na luta contra o imperialismo e a estrutura feudal ainda vigente na China cabia ao proletariado industrial, gente das grandes cidades, restando aos camponeses a função de "reserva tática".
A primeira mudança nessa orientação foi lançada por Mao Tse-tung com seu "Relatório sobre a província de Hunan" aparecido em 1927. No entanto, isso só lhe causou dissabores. Os militantes do PC chinês daquela época estavam fascinados pela Revolução Russa e continuavam estruturalmente vinculados às áreas urbanas, mostrando-se reticentes em aceitar a "hegemonia camponesa", proposta implicitamente no relatório. A ruptura com o Kuomintang em 1927 e a caça aos quadros comunistas urbanos que se seguiu vieram dar razão a Mao Tse-tung.
A política da Frente Popular: na década de trinta, respirando o clima de "Frente Unida" contra a expansão japonesa e contra o nazi-fascismo, observa-se um abandono por parte de Mao Tse-tung de suas posições mais radicais contidas no "Relatório" de 1927. A premência em derrotar os japoneses obrigou-o a alterar substancialmente a política agrária igualitária que defendera nos tempos de Kiangsi, pois doravante tratava-se de conseguir obter a adesão de um leque social o mais vasto possível, que englobasse não só os camponeses pobres, mas todos os que exploravam as terras com suas próprias mãos, o que incluía os chamados camponeses remediados e até mesmo os ricos que não haviam se seduzido pelo colaboracinismo. Devia isolar-se apenas os latifundiários e os usuários, geralmente simpáticos ao invasor. A política de frente ampla levou Mao a reconhecer potencialidades revolucionárias na burguesia nacional chinesa, na medida em que tanto os japoneses (pela ocupação e expropriação) como os ocidentais (pelos tratados econômicos e acordos comerciais) impediam o crescimento econômico e social dela.
Exemplo dessa moderação foi a formação de governos aldeãos nas áreas ocupadas pelos comunistas, onde os militares do PC tinham sua presença limitada a 1/3 dos representantes, deixando as demais classes comporem os restantes. Para proteger os camponeses pobres, limitou-se sua contribuição em espécie a 30% da colheita, mantendo-se a pratica da conciliação com os arrendatários. Mao Tse-tung compreendia perfeitamente bem que os camponese chineses não se tornavariam revolucionários do dia para a noite. Deparou-se com obstáculos milenares, entre elas a tradição servil deles que só muito lentamente poderia ser subvertida. Era o ritmo dos acontecimentos, isto é, as pilhagens e saques feitas na área rural pelo Exército Imperial japonês e a inoperância do Exércio Nacionalista que fariam os camponeses reagir. E tudo isso demandava tempo.
O caminho da revolução social: este implicava na adoção de uma estratégia política própria. Taticamente, devido a insuficiência de forças, seja contra o Kuomintang, seja contra os japoneses, era preciso adotar a guerra de guerrilhas. Este tipo de luta tinha uma dupla função: formar um exército de novo tipo, estreitamente vinculado à causa do povo pobre, e partir para uma longa guerra contra os adversários, levando-os à inanição e ao desespero. A aglutinação de forças para a batalha definitiva só se daria na etapa final quando o inimigo não tivesse mais condições de resistir ao poder militar dos maoístas. Para a elaboração da sua doutrina, Mao Tse-tung publicou uma série de textos entre 1938 e 1940, que são os seguintes: Sobre a guerra prolongada (1938), A Revolução Chinesa e o Partido Comunista da China (1939), e Sobre a Nova Democracia (1940).
A Nova Democracia: Mao Tse-tung neste último texto, elabora a teoria que lhe servirá de orientação na condução da guerra contra o Japão e no posterior enfrentamento com Kuomintang. Num primeiro momento ele acredita que a China passaria por duas etapas políticas distintas; a primeira delas seria dominada pela formação da Nova Democracia baseada numa ditadura policlassista. O estado futuro na China, ao contrário da ditadura monoclassista bolchevique na URSS, resultaria de uma aliança de várias classes sob hegemonia dos camponeses. Neste primeiro momento, o regime não será proletário nem burguês, mas democrático centralizado baseado em eleições em todos os níveis (das aldeias ao Congresso Nacional). A complementação econômica dessa fase será eclética: o estado será proprietário das atividades monopolíticas (bancos, indústrias importantes, infra-estrutura de transportes, etc...), formando o setor socialista da economia, constituíndo-se na força dirigente da economia nacional. Haveria a continuidade de toda uma gama de atividades de pequeno porte que se manteriam sob controle privado (artesanato, pequenas e médias indústrias e o comércio de pequeno porte). No campo só seriam expropriadas as terras dos latifundiários, mantendo-se a existência econômica do camponês rico, desde de que obedecido o princípio da "terra para quem nela trabalha". Após cumprida essa etapa - a da Nova Democracia -, é que a China estaria em condições de dar seu salto rumo ao socialismo, amplamente apoiada pela União Soviética. A velha sociedade semicolonial e semifeudal teria desaparecido e uma nova nação surgiria.
A Nova Democracia naufragou devido a Guerra da Coréia (1950-1953). A presença das Forças Armadas norte-americanas nas proximidades da fronteira da Manchúria chinesa e as ameaças da parte do General Douglas MacArthur, o supremo comandante americano na Ásia, de uma ataque atômico preventivo no território chinês fizeram com que as intenções conciliadores e moderadas dos primeiros tempos do maoísmo fossem rapidamente substituidas pela clima de "pátria em perigo", frustando assim os que esperavam uma atitude mais liberal por parte dos comunistas.
Fonte: educaterra.terra.com.br