Entre os anos de 1937 e 1941, o avanço japonês na China foi fulminante. Em Xangai, as tropas do Império do Sol Nascente (Japão) cometeram inenarráveis atrocidades, inclusive atacando a Zona Internacional da Cruz Vermelha, que abrigava as comunidades estrangeiras da cidade. A própria capital, Beijing, caiu sob ocupação nipônica. O governo nacionalista, encabeçado por Chiang Kai-shek, estava à beira do total colapso, apesar do apoio de pilotos americanos que se apresentaram como voluntários das famosas esquadrilhas dos "Tigres Voadores". Em dezembro de 1941, o Japão atacava a base aeronaval norte-americana em Pearl Harbor: os EUA entravam na Segunda Guerra Mundial. Rapidamente, bilhões de dólares vieram reforçar os exauridos cofres do governo chinês, agora apoiado por boa parte da população nacional em função das atrocidades japonesas. Através da famosa estrada denominada a "Rota da Birmânia" e por meio de uma "ponte aérea", os EUA abasteciam e alimentavam o esforço de guerra chinês. Em 1945, com a derrota do Japão, o governo nacionalista ganhou, pelo menos aparentemente, um novo impulso, graças aos seguintes fatos:
Retomada dos territórios tomados pelo Japão, inclusive Beijing
Reconhecimento internacional como nação vencedora da Segunda
Guerra Mundial
Membro fundador da Organização das Nações Unidas,
ocupando cargo permanente no Conselho de Segurança daquela entidade
Participação em todas as conferências internacionais do
pós-guerra
Contudo, Chiang Kai-shek tinha de fazer face a um grande problema: os comunistas.
Findo o conflito mundial, reinicia-se a guerra civil entre o Exército Regular e o governo nacionalista e as milícias guerrilheiras comunistas de Mao Zedong. Já em 1946, o Partido Comunista Chinês, que controlava a maior parte do nordeste do território chinês, levava a efeito intensa guerra de guerrilha na extremidade meridional do país. A corrupção generalizada dos militares, os erros táticos - fundamentalmente a concentração de forças nas áreas urbanas, deixando os campos em mãos comunistas, a grande extensão do país, o apoio campesino aos vermelhos e a brutal inflação, que então assolava a China, facilitaram a vitória comunista. No dia 1º de outubro de 1959, Mao Zedong entrava em Beijing, fundando a República Popular da China. Para fugir à total derrota, o governo nacionalista instalou-se em Taiwan (Formosa), recriando a República da China, com capital em Taipé.
"No segundo semestre de 1947, começa a contra-ofensiva estratégica do Exército Popular de Libertação (EPL). Na Manchúria, as tropas comandadas por Lin Biao lançam-se ao ataque, secundadas pelas forças de Liu Bo-Cheng e Chen Yi, que atravessam o rio Amarelo e ameaçam as províncias centrais da China. Em junho de 1948, os comunistas reúnem 3 milhões de soldados regulares e as "áreas libertadas" abrangem 168 milhões de habitantes. Numa primeira fase, os comunistas concentram-se em "aniquilar" as forças armadas inimigas, colocando num plano secundário a ocupação de territórios ou cidades. Mais tarde, a partir do segundo semestre de 1948 e, gradualmente, começaram a atacar cidades médias e grandes, passando para a guerra de posições. Em fins de 1948 e começo de 1949, realizam-se três grandes e decisivas batalhas: a da Manchúria, de setembro a novembro de 1948; a do rio Huai, entre novembro de 1948 e janeiro de 1949; e a do norte da China, entre dezembro de 1948 e janeiro de 1949. As forças do Exército Popular de Libertação saem vitoriosas, ocupando as cidades da Manchúria e importantes centros urbanos e industriais no norte e no centro da China. Em janeiro de 1949, caíram Kalgan, Tientsin e Beijing. A sorte da guerra estava decidida - em abril os comunistas atravessam o Yangzi e ocupam Nanquim; em maio foi a vez de Shangai; em outubro, finalmente, Cantão passa às mãos dos comunistas. Desde o início de 1949, Chiang Kai-shek partira para Taiwan, onde instalaria o "seu" governo.
Os comunistas tentaram adequar-se ao ritmo vertiginoso das vitórias militares. A principal preocupação foi alargar ao máximo a frente social e política contra o Kuomintang. Os revolucionários criticaram os "excessos" verificados na aplicação da Lei de Reforma Agrária (perseguição aos médios camponeses, arbitrariedades em geral etc.) e restringiram seus efeitos às "velhas" áreas libertadas, ou seja, àquelas que já existiam como tal durante a guerra antijaponesa. Em relação s áreas libertadas depois de agosto de 1947 (chamadas de "novas"), a política agrária seria bem mais flexível (limitações do direito de cobrança de arrendamentos, diminuição das taxas de juros e impostos progressivos, segundo a riqueza de cada um). Também em relação às cidades, a política seria bastante moderada: apelos à concórdia, conclamações aos quadros de funcionários e intelectuais para não abandonarem os empregos, garantias aos proprietários em geral - comerciantes e industriais - contra expropriações "arbitrárias", apelos específicos à "nova" classe média urbana e à burguesia "nacional" (não comprometida com os traidores da pátria) para permanecerem em seus afazeres habituais.
Em novembro de 1948, os comunistas relançaram a idéia da Conferência Política Consultiva, reunindo os pequenos partidos de "centro", inclusive um "Comitê Revolucionário do Kuomintang", formado em Hong Kong em oposição ao caráter antidemocrático e antinacional do governo de Chiang Kai-Shek. Em junho de 1949, instalou-se um comitê preparatório da Conferência, em Beijing. A 21 de setembro de 1949, abre-se formalmente a Conferência com um amplo leque de forças políticas: 142 delegados representam os diversos partidos políticos (16 são enviados pelo PCC); 102 delegados representam as áreas libertadas; 60 falam em nome do Exército Popular de Libertação; 206 vêm pelas organizações populares (mulheres, jovens, sindicatos etc.), registrando-se ainda a presença de 75 personalidades independentes. A Conferência aprova um Programa Comum e elege um governo presidido por Mao Zedong. No dia 1º de outubro de 1949, proclama-se a República Popular da China (RPC). Mao Zedong exclama: "Nunca mais os chineses serão um povo escravo!"."
A República Popular da China, buscando implantar o socialismo, passou pelas seguintes fases:
PLANEJAMENTO ECONÔMICO CENTRALIZADO (1949 - 1954) - adotando
o modelo soviético de "Planos Qüinqüenais", o
governo de Beijing, de início, deu prioridade aos investimentos na
indústria pesada, preterindo os bens de consumo e a indústria
leve. Além disso, foi levada adiante a reforma agrária, implantando-se
a propriedade coletiva do campo. Essa ênfase na industrialização
drenou recursos da produção rural, empobrecendo os camponeses
sem conseguir um crescimento urbano-industrial significativo
"A POLÍTICA DAS CEM FLORES" - em meados
dos anos 50, em razão do fracasso da industrialização,
o Partido Comunista Chinês lançou a seguinte palavra de ordem:
"que brotem cem flores de pensamento" para definir os rumos do
socialismo. Noutros termos, os quadros do Partido deveriam discutir as diversas
propostas para a construção da sociedade comunista. Entretanto,
quando muitos membros do PCC começaram a questionar a ausência
de democracia e apontar os erros do governo, foi lançada uma "campanha
antidireitista" para eliminar a oposição
"O GRANDE SALTO PARA FRENTE"(1958) - O PCC formulou
um projeto de aceleração da industrialização num
país de base camponesa. A idéia era transformar a China numa
nação desenvolvida e igualitária num curto período
de tempo. Os camponeses foram obrigados a se agrupar em gigantescas comunas
agrícolas, sendo instalados pequenos fornos siderúrgicos em
todas as regiões do país. Esses, como matéria-prima,
usavam todos os utensílios de metal que as famílias possuíam,
tais como panelas, talheres e objetos de adorno. A grande conseqüência
do "grande salto para frente" foi uma total desorganização
da economia chinesa, o que causou a morte, pela fome, de milhares de camponeses
UM PROBLEMA PARA MAO ZEDONG - em 1962, o líder comunista
faz uma autocrítica de seus erros na direção da economia,
sendo substituído por Liu Shao-chi e Deng Xiaoping na condução
dos assuntos internos. Entretanto, Mao mantinha o controle do Exército
Popular de Libertação e era o responsável pela política
externa
ANOS 60 - a China rompe com a União Soviética.
Os motivos dessa cisão foram: conflitos fronteiriços entre os
dois países e, fundamentalmente, as críticas feitas pelo governo
chinês ao XXº Congresso do Partido Comunista da União Soviética
(1956), quando Nikita Krutschev, em seu famoso "Relatório Secreto",
denunciava os crimes cometidos por Stalin. A China alega que a União
Soviética renegara o socialismo, incorrendo no "social-revisionismo".
Outro motivo da irritação chinesa foi o fato de que os soviéticos
não repassaram os segredos da tecnologia nuclear para o governo de
Beijing
"A REVOLUÇÃO CULTURAL" (1966 - 1975)
- buscando retomar plenos poderes, Mao Zedong acusa os quadros partidários
de "direitismo", "elitismo burguês" e "vícios
burocráticos". Tornava-se, portanto, necessário uma campanha
de implantação de "valores culturais socialistas".
Baseados no então bastante difundido "Livro Vermelho" do
Camarada Mao, composto de alguns slogans simplistas de caráter didático,
milhões de estudantes, os "Guardas Vermelhos", saíram
s ruas para combater os "desvios burgueses" da sociedade
e do Partido. Fábricas e universidades foram fechadas, pois, na opinião
em voga, era preciso combater a "ideologia fascista da hierarquia do
saber"; nas escolas que permaneceram, foram abolidas provas e exames,
"típicos exemplos da competitividade burguesa"; professores
foram espancados e intelectuais tiveram de se deslocar para o campo, onde
trabalhariam e seriam submetidos à crítica por parte das massas;
combateu-se a medicina mais sofisticada, substituída pelos "médicos
de pés no chão", jovens que recebiam um rápido
treinamento para ajudar na cura de endemias e outras doenças que afetavam
a imensa maioria da população: doenças cardiovasculares
são "enfermidades burguesas"; a malária, o impaludismo,
a febre amarela são males das camadas populares, era então o
slogan em moda na China. Durante o período da "Revolução
Cultural" foi terminantemente proibida a entrada dos valores e idéias
ocidentais: livros que expunham o pensamento do ocidente foram queimados;
a China se fechou para o mundo; seus atores, que viviam personagens individuais,
foram colocados no ostracismo: só as massas podem estar representadas
nos filmes e nos palcos
A TEORIA DO "CAMPO CONTRA A CIDADE" - coerente
com os preceitos da Revolução Cultural e rompida com a União
Soviética, a China, no plano da política externa, busca se tornar
uma nova "Meca" do comunismo internacional, liderando os países
pobres do hemisfério sul contra as nações ricas do norte:
uma versão mundial da revolução campesina que tomava
poder na China. Em quase todos os países do mundo, os Partidos Comunistas,
até então monoliticamente fiéis a Moscou, foram vitimados
por cisões internas: proliferaram "alas chinesas" nas agremiações
partidárias comunistas. Na Península Balcânica, a Albânia
aderia ao "modelo chinês". Seguindo essa orientação,
no Brasil seria fundado o Partido Comunista do Brasil (PC do B), rompendo
com o pró-soviético Partido Comunista Brasileiro (PCB)
UMA VITÓRIA - em 1971 o governo comunista substituiu
Taiwan como representante da China na Organização das Nações
Unidas (ONU)
UMA CURIOSA APROXIMAÇÃO - nos anos 70, os EUA,
buscando isolar a União Soviética, estabeleceu contatos com
o governo de Beijing e, em 1976, os EUA e a República Popular da China
anunciaram a retomada de relações diplomáticas.
A MORTE FAZ DIFERENÇA - em 1975, morria Mao Zedong:
eclodia um conflito interno no PCC; de um lado, os radicais (então
chefiados pelo "Grupo dos Quatro" de Xangai, destacando-se a viúva
de Mao, Jiang Qing); de outro, os "pragmáticos", que privilegiavam
a eficiência econômica e administrativa em detrimento da "pureza
ideológica"
"NÃO IMPORTA SE O GATO É CINZA OU PRETO, IMPORTA
QUE ELE CACE O RATO" - baseado nesse slogan, a linha pragmática,
liderado por Deng Xiaoping, toma o poder, implantando o curioso "socialismo
de mercado", buscando conciliar o dirigismo político comunista
com a abertura e liberalização econômicas
A CHINA, HOJE - o país, nesses últimos anos,
vem experimentando uma série de profundas reformas: maior liberdade
de expressão e crítica; dissolução das comunas
populares agrícolas, sendo as terras, ainda sob posse estatal, distribuídas
entre as famílias; permissão de produção para
o mercado; criação das Zonas Econômicas Especiais (nas
proximidades de Hong Kong e Macau), abertas aos investimentos estrangeiros;
maior autonomia aos gerentes das fábricas; progressiva retirada dos
subsídios estatais aos preços dos bens de consumo, agora regulados
pelo mercado e fechamento das empresas deficitárias, o que vem aumentando,
de forma alarmante, o desemprego no país
A abertura econômica e a relativa liberalização do regime estimularam a juventude, principalmente a estudantil, a pedir uma plena democratização. Em abril de 1989, milhares de estudantes se reuniram na praça Tiananmen ("Praça da Paz Celestial"), no centro de Beijing. Este agrupamento de jovens estimulou centenas de grupos dissidentes a contestar publicamente o monopólio do poder exercido pelo Partido Comunista. O regime socialista parecia estar vivendo seus estertores finais. Em 4 de junho, após uma longa hesitação e acalorados debates entre as lideranças reformistas e conservadoras, o governo reagiu com violência: tropas e tanques expulsaram os oposicionistas, esmagando milhares de pessoas que então ocupavam a praça agora ironicamente denominada "Paz Celestial". A ação governamental deixava clara a orientação do PCC: reformas econômicas devem ser feitas, mas o controle político do país tem de permanecer sob absoluto controle do Partido.
O projeto geopolítico da China tem como base a reintegração dos territórios que, por longo tempo, permaneceram em mãos estrangeiras. Em 1997, a República Popular da China recuperou Hong Kong, firmando o princípio de "uma nação e dois regimes". Dois anos depois, a possessão portuguesa de Macau foi retomada pelo governo de Beijing.
"A pequena colônia britânica de Hong Kong, situada na costa sul da China, é considerada o terceiro centro financeiro do mundo, depois de Nova Iorque e Londres, e ocupa o décimo-sétimo lugar no comércio internacional.
O Território era parte do antigo e bem organizado sistema administrativo chinês. A ilha de Hong Kong foi cedida ao Reino Unido em caráter "perpétuo" em 1842, quando os ingleses atacaram a China na Primeira Guerra do ópio. Em 1898, os britânicos obrigaram Pequim (atual Beijing) a ceder, por um arrendamento de 99 anos, a zona rural situada ao norte de Kowloon, conhecida com Novos Territórios.
Hong Kong foi utilizada como centro comercial, sendo um ponto de entrada para a China. Na década de 50, após a vitória comunista, os Estados Unidos e o Reino Unido impuseram um bloqueio comercial à China. Hong Kong teve que importar todo seu consumo básico do ultramar e fomentar as exportações. Após isso, tornou-se um grande exportador de têxteis, peças de vestuário, produtos de plástico e eletrônicos. Da mesma forma que em Taiwan e na Coréia do Sul, esse desenvolvimento foi generosamente apoiado pelas potências ocidentais, interessadas em promover esses "bastiões" da Guerra Fria.
O crescimento do comércio e da indústria de exportação transformou Hong Kong em um centro financeiro, de comunicações e de transporte. Para isso, também contribuiu a política de governo, estabelecendo baixos impostos, tarifas aduaneiras mínimas, confiabilidade e liberdade para os movimentos do capital.
No final dos anos 70, Hong Kong tinha um dos melhores portos naturais do mundo, sofisticados sistemas internacionais de investimentos e comércio e grandes e modernos terminais de carga. Estima-se que entre 30 e 50% do comércio exterior da China seja realizado através de Hong Kong. (...)
O governador de Hong Kong, indicado pelo governo britânico, tinha poderes absolutos na administração cotidiana do território. Ele era assistido por um Conselho Executivo e um Legislativo, cuja maioria de membros representava grupos empresariais, financeiros e profissionais.
No começo da década de 80, Londres e Pequim iniciaram conversações sobre o futuro de Hong Kong, pois o arrendamento por 99 anos da maior parte do território terminava em 1977.
Antes de começar as negociações com a China, Londres aprovou leis de imigração especiais que rebaixavam o status dos 3,25 milhões de residentes nascidos em Hong Kong, que possuíam passaporte e cidadania britânicos. As mudanças aprovadas retiravam dessas pessoas todos os direitos de fixarem residência no Reino Unido e de transmitirem a nacionalidade a seus descendentes. Criou-se o passaporte de cidadão de Território Britânico Dependente, que não confere cidadania real em nenhuma nação. O afã de obter passaportes estrangeiros (com freqüência caribenhos e latino-americanos), muitas vezes através de compra ou suborno, fez surgir um verdadeiro tráfico ilegal e escândalos internacionais.
As negociações sino-britânicas resultaram em um acordo em que ficou acertado que a China recuperaria a soberania sobre a totalidade do território em 1997, porém este contaria com um "alto grau de autonomia" como Região Administrativa Especial da China. Hong Kong, manteria seu atual "sistema social e econômico" por pelo menos 50 anos a partir de 1997; disporia de poderes executivo, legislativo e judiciário, emitiria sua própria moeda e continuaria a ser um território regido por leis próprias em relação imigração e a controles aduaneiros. Pequim, por seu lado, reservou-se o controle da defesa e das relações exteriores.
A China anunciou que o acordo continha um novo e importante conceito - "um país, dois sistemas" - também aplicado na colônia portuguesa de Macau, e insinuou, mais de uma vez, que podia ser o princípio de reincorporação de Taiwan. Ficou acertado que uma Lei Básica, com detalhes sobre o funcionamento do território após 1977, funcionaria como uma Constituição. (...)
No dia 1º de julho de 1997, a zero hora, a China recuperou o controle de Hong Kong, depois de 155 anos de domínio colonial britânico. O empresário Tung Chi Hua foi designado para liderar o novo governo da ilha, assistido por um Conselho Legislativo.
De acordo com a nova lei, Hong Kong conservará por 50 anos seus direitos e liberdades, sua autonomia judicial, sua natureza de centro financeiro, bem como seu modo de vida. A China reservou para si o controle da defesa e das relações exteriores.
A reunificação iniciou a etapa "um país, dois sistemas", pela combinação da economia de livre mercado de Hong Kong com o rígido controle político do resto a China."
Durante centenas de anos, Macau representou o ponto de contato principal para as relações comerciais entre a Europa e o vasto império chinês. Com o aparecimento da vizinha colônia britânica de Hong Kong e de Portugal como polêmica colonial, Macau perdeu importância.
Em 1974, logo depois da queda do regime de Antônio de Oliveira Salazar, o governo português voltou a oferecer à China a devolução da colônia. Preocupada em não alarmar Hong Kong ou Taiwan, a China tampouco aceitou. Então, o governo português declarou unilateralmente que Macau era "território chinês, administrado por Portugal."
Em 1985, como as negociações sino-britânicas sobre o futuro de Hong Kong estavam encaminhadas, a China chegou a um acordo com Portugal, segundo o qual Macau seria devolvido em 1999, em condições similares as de Hong Kong, em relação à manutenção de certa autonomia.
Para Portugal, Macau era um enclave de pouca utilidade, isolado do governo central a milhares de quilômetros de distância, com uma administração apática.(...)
Em 1988, o governo começou a permitir a entrada de trabalhadores chineses, o que foi considerado pelas organizações sindicais uma manobra para não aumentar os salários.
Macau possui poucos recursos naturais. A China fornecia parte da água consumida e, desde 1984, energia elétrica. No entanto, a partir de de 1989, mais de 90% da eletricidade consumida era produzida no país. A colônia dependia do turismo, de algum intercâmbio comercial com a China e da indústria leve (especialmente de brinquedos e têxteis). Quando a China começou a liberalização econômica e criou uma Zona Econômica Especial do outro lado da fronteira, iniciou-se a construção de um hotel e de um aeroporto.
Em 1991, o novo governador Vasco Rocha Vieira franqueou as funções públicas aos cidadãos chineses, e declarou o chinês, junto com o português, língua oficial. Nas eleições legislativas de setembro de 1992, as organizações pró-China obtiveram a maioria dos assentos.
Em 1993, foi aprovado o esboço final da Lei Básica, que serviria de Constituição para o território a partir de 1999, quando Macau se tornou uma região administrativa especial da China Popular, com governo designado por um colégio eleitoral local e um Conselho Legislativo com mandato até 2001.
Ao menos por esse período, o texto garante a continuidade da economia de mercado e de cassinos, proíbe a imposição de tarifas chinesas e não inclui a pena de morte nem as condenações prisão perpétua, vigentes no resto da China.
Em 20 de dezembro de 1999, Macau tornou-se uma das Zonas Econômicas Especiais, criadas por Deng Xiaoping nas províncias de Cantão, Shenzhen, Zhuhai e Shatou, onde são permitidos alguns aspectos da economia de mercado."
O governo de Beijing tem evidentes e bem definidos interesses geopolíticos. Em primeiro lugar, a recuperação de Taiwan, denominada pelos comunistas de "província rebelde". Em hipótese alguma, a República Popular da China aceitaria uma declaração formal de independência de Formosa, que se auto-intitula de República da China. Sem dúvida, qualquer atitude nesse sentido, por parte do governo de Taipé, provocaria uma violenta ação militar chinesa. Após a reintegração de Hong Kong e Macau, Beijing vem propondo para Taiwan a mesma fórmula adotada naqueles dois territórios: "uma nação e dois sistemas". Com a intenção de provocar agressivamente Taiwan, a China ocupou o arquipélago Dongsha ("Pratas"), situado nas proximidades de Formosa, além de ambicionar a ilha de Penghú ("Pescadores"), também desejada pelo governo de Taipé.
O segundo objetivo chinês é a expansão para o Mar da China Meridional, onde reivindica soberania sobre uma área de mais de 800 mil quilômetros quadrados. Essa região é também disputada pelo Vietnã e por Taiwan, desejosos, assim como a China, do total controle dela - e pela Malásia, Brunei e Filipinas, que ambicionam uma parte dela. Nessa região, os conflitos vêm ocorrendo no arquipélago Spratly, localizado no mar territorial filipino, e também no arquipélago de Natuna, onde existem ricos campos de petróleo e gás natural, atualmente explorados pela Indonésia. O arquipélago de Spratly é formado por quase 500 ilhas e recifes coralíneos, abrangendo uma área de 700 quilômetros de comprimento e 300 de largura. 24 dessas ilhas foram ocupadas pela República Democrática do Vietnã; 7, pela China; 6, pelas Filipinas; 3, pela Malásia e 2 tomadas por Taiwan. Em 1995, as pendências na região foram agravadas pela ocupação chinesa de uma ilha até então de domínio filipino, Mischief.