Facebook do Portal São Francisco Google+
+ circle
Home  Cícero Dias - Página 3  Voltar

Cícero Dias

Artista brasileiro de grande renome internacional, Cícero Dias combina as mais genuínas tradições pernambucanas com a essência universal da arte. Sempre adotando posições vanguardistas, participa do movimento modernista brasileiro, aproxima-se do surrealismo e é um dos pioneiros dos Abstracionismos no pós-Segunda Guerra. Utilizando-se das cores tropicais, inspiradas pelo "verde canavial", "vermelho sangue-de-boi" e "azul céu sertanejo", ficou conhecido desde cedo como o "Pequeno Chagall dos Trópicos". Sua obra prima principalmente pela combinação inusitada de elementos aparentemente contraditórios, que são dispostos pelo artista de forma única e original.

Neto de senhor de engenho, Cícero passa a infância descobrindo a vida na terra, as brincadeiras e os sonhos de criança. Ainda menino, vai estudar em Recife; mas é no Rio de Janeiro, onde está a partir de 1920, que o pintor começa a ter contato com o movimento modernista. Estuda arquitetura por três anos, trocando este ofício pela pintura em 1928, ano em que realiza sua primeira exposição. Embora não tenha participado da Semana de 22 devido a sua pouca idade, Cícero é logo reconhecido como membro do grupo, recebendo elogios de nomes como Di Cavalcati, Ismael Nery, Murilo Mendes, Oswald de Andrade, entre outros. Em seus primeiros trabalhos, o pintor é tido como pioneiro do surrealismo no Brasil, mesmo sem ter recebido influência direta deste estilo, principalmente pela abordagem do universo da juventude, como as paixões, o carnaval e o sonho. Em 1929, juntamente com Gilberto Freyre e Manuel Bandeira, organiza em Recife o I Congresso Afrobrasileiro, evento comparado ao de 22 pela sua repercussão, consolidando o movimento modernista em Pernambuco. Dois anos mais tarde, participa também do I Salão de Arte Moderna, ao lado de Lúcio Costa, onde causa enorme polêmica com o painel "Eu vi o mundo... Ele começava no Recife". Devido as cenas de nudez e erotismo, esta obra foi parcialmente depredada pelo público.

Em 1937, Cicero se fixa em Paris, cidade em que passará a maior parte de sua vida. Uma vez na França, o pintor entra em contato com surrealistas, especialmente Paul Eluard e Pablo Picasso. Com este último, estabelece um forte laço de amizade que possibilita, anos mais tarde, a vinda do famoso Guernica para a Bienal paulista de 1953. Preso pelos nazistas durante a ocupação da França, o pernambucano só retorna a Paris depois de um apelo do amigo. Eluard compara Cícero e Picasso dizendo que ambos combinavam a herança de sua terra natal com a realização de uma arte de entendimento mundial.

Durante a década de 40, o pintor se aproxima dos abstracionistas, especialmente dos seguidores da vertente geométrica, e se torna pioneiro deste estilo. Integra-se ao grupo da Galeria Denise-René, juntamente com Victor Vasarely, Serge Poliakoff e outros. Suas obras do período valorizam a geometria e a abstração, mas mantém o lado lírico e regional, principalmente na escolha das cores tropicais. Entre os anos de 1946 e 1948 realiza em Recife o primeiro mural abstrato da América Latina, no mesmo período em que os muralistas mexicanos pregavam a revolução em seu país. Dentro da polêmica estabelecida entre a arte abstrata e a arte realista revolucionária, o artista provoca, mostrando que não há incompatibilidade entre consciência política e não-figuração.

A partir dos anos 60, o artista retoma a figuração e a sua temática inicial. A valorização da mulher, símbolo constante na obra de Cícero, remete a sexualidade e ao universo do inconsciente. O último dos modernistas vivo, passa pelos mais diversos estilos artísticos do século XX, mas sempre valorizando a tentativa modernista de combinar os elementos nacionais com uma linguagem universal e vanguardista.

Fonte: www.mac.usp.br

Cícero Dias

Cícero Dias nasceu no dia 5 de março de 1907, no Engenho Jundiá, no município de Escada, em Pernambuco. Foi o sétimo, dos onze filhos de Pedro dos Santos Dias e Maria Gentil de Barros e, ainda, pelo lado materno, neto do Barão de Contendas. Aos 13 anos de idade, foi para o Rio de Janeiro. Surpreendendo os seus familiares, decidiu tornar-se um pintor.

Em 1928, porém, na Cidade Maravilhosa, nenhuma galeria de arte se interessava por arte moderna. Neste sentido, a primeira exposição de Cícero - o mural Eu vi o mundo, que possuía quinze metros de largura - teve lugar em um hospício: foi o único espaço disponível que se conseguiu. Três anos depois, entretanto, ele abriria uma exposição no Salão de Belas Artes, a convite do pintor Di Cavalcanti. Rompendo com a escola clássica, as exposições e trabalhos do artista geravam debates e escândalos, já que poucos os entendiam. Inclusive, houve o caso de um homem que, com o auxílio de uma navalha, tentou destruir as suas obras.

Cícero Dias era amigo de Gilberto Freyre e, com o antropólogo, relembraria o seu passado de menino criado em engenho. Por ser simpatizante do Partido Comunista Brasileiro (PCB), o artista foi perseguido em 1937, quando o então Presidente Getúlio Vargas instalou a ditadura do Estado Novo. E, várias vezes, ele teve o ateliê invadido por tropas policiais. Por essa razão, desgostoso com a realidade, o artista decidiu se mudar para Paris. Nesta cidade, em 1943, ele se casaria com a francesa Raymonde e teria uma filha.

Durante a II Guerra Mundial, cabe registrar também que, por ser brasileiro, depois que o país rompeu relações diplomáticas com a Alemanha nazista e a Itália fascista, Cícero foi preso na cidade alemã de Baden-Baden, juntamente com o escritor João Guimarães Rosa, que fazia parte do mesmo grupo de detentos. Felizmente, entretanto, este grupo foi trocado por espiões nazistas que estavam encarcerados no Brasil.

Cícero Dias foi o autor do primeiro mural abstrato da América Latina. O mural, elaborado em 1948, foi pintado no prédio da Secretaria da Fazenda de Pernambuco. Apesar de viver tão longe do Recife, os seus canaviais, casas-grandes, sobrados, bem como o rio Capibaribe e o mar de Boa Viagem, sempre estavam presentes no imaginário do pintor. Na década de 1960, ele produziria várias telas com retratos de mulheres. Depois dessa fase, pintaria flores, paisagens e personagens diversos.

Em sua primeira fase artística, Cícero Dias privilegiou aquarelas e óleos, e produziu os seguintes quadros: Sonho de uma prostituta (1930-1932), Engenho Noruega (1933), Lavouras (1933), Porto (1933) e Ladeira de São Francisco (1933). Durante a segunda fase (1936-1960), onde prevaleceram a figuração e a abstração,se destacaram as seguintes obras do artista plástico: Mulher na janela (1936), Mulher na praia (1944), Mulher sentada com espelho (1944), Composição sem título (1948), Exact (1958), Entropie (1959). Por fim, em sua terceira fase (1960-2000), onde a mulher era um símbolo constante, ele pintaria a Composição sem título, em 1986.

Considerado como um dos pioneiros do modernismo no Brasil, Cícero Dias foi amigo de vários artistas modernistas, tais como o compositor Heitor Villa-Lobos, o artista plástico Ismael Nery e o poeta Murilo Mendes. E, na França, fez amizade com várias personalidades ilustres, a exemplo dos poetas André Breton e Paul Eluard, e do pintor Pablo Picasso, que se encontrava asilado em Paris antes do fim da Guerra Civil Espanhola. Este último tornara-se padrinho de sua filha e, junto a ele, Cícero acompanharia a elaboração do quadro Guernica, o famoso épico sobre aquela guerra. Além disso, pode-se dizer que Picasso exerceu uma influência marcante nos trabalhos do artista pernambucano.

No ano 2000, o pintor esteve no Recife para uma justa homenagem: a inauguração de uma praça com o seu nome. Vale lembrar, contudo, que o logradouro público foi projetado pelo próprio artista. E, em fevereiro de 2002, ele retornaria ao Recife para o lançamento do livro Cícero Dias:uma vida pela pintura, de autoria do jornalista Mário Hélio. Na ocasião, expôs algumas de suas obras na Galeria Portal, em São Paulo. Neste mesmo ano, aos 93 anos de idade, inspirado em sua obra Eu vi o mundo ele começava no Recife, o artista criaria um trabalho relevante para o Recife: o piso da Praça do Marco Zero, uma bela e enorme rosa dos ventos plantada no centro da cidade.

O artista plástico conservou-se lúcido, saudável e produtivo até o fim de sua vida. No dia 28 de janeiro de 2003, aos 95 anos, ele faleceu em sua casa, na Rue Long Champ, em Paris, onde residia há quarenta anos. Junto ao pintor, estavam presentes a esposa, Raymonde, a única filha, Sylvia, e seus dois netos. Cícero Dias foi sepultado no cemitério de Montparnasse, na capital francesa.

Fonte: www.fundaj.gov.br

Cícero Dias

Escada é um pequeno município distante 53 quilômetros de Recife. O engenho Jundya, hoje inativo, como tantos outros espalhados pela zona da mata, desempenhou papel muito importante no desenvolvimento da economia regional pernambucana. Nele nasceu Cícero dos Santos Dias em 05 de mArço de 1907, sétimo filho de Pedro dos Santos Dias e Maria Gentil de Barros Dias. Seus pais tiveram mas dez filhos: Antônio, Manuel, José, Maria de Lourdes, Pedro, Feliciana, João, Maria, Mário e Rômulo. Cícero é neto do barão de Contendas pelo lado materno. Em Usina (1936) o escritor José Lins do Rego descreve os hábitos e costumes da família de engenho. O espelho para esse livro é a família Santos Dias.

Cícero Dias

A infância de Cícero foi semelhante a de qualquer menino de engenho, com banhos ruidosos, proibidos, as brincadeiras e traquinagens, a presença do cangaço, as visitas aos engenhos vizinhos, a enchente, a escola, a professora, as primeiras letras, as lições de sexo... Naquela época os senhores de engenho abandonavam em desleixo os filhos, não se importando com a infância. Depois recorriam ao colégio para corrigi-los. Cícero não fugiu a essa regra. Viveu seus primeiros anos pelos engenhos do interior de Pernambuco.

"Eu vivi... intensivamente tudo. Por exemplo: onde nós estamos aqui, onde é o Hotel Boa Viagem, eu tenho a impressão que foi a primeira vez que eu vi o mar, porque as famílias se transportavam dos engenhos para as praias. Primeiro fui para Gaibu e depois Boa Viagem. Eu tenho a impressão que a primeira vez que vi o mar, tenho certeza, foi aqui em Boa Viagem, porque tinha o trenzinho de burro que saía da estação de Boa Viagem e trazia os passageiros p'ra orla marítima."

O mar e a lua são elementos constantes na pintura de Cícero, bem como as lembranças que guarda de tia Angelina e da velha avó, em seu sobrado grande e antigo onde ele passa a residir para terminar o curso primário, já que a escolinha do engenho só alfabetizava os seus alunos. Nessas recordações, ocupa um espaço grande a babá Maria Bernarda da Silva e seus quitutes. Ela, por sua vez, considerava o garoto como sossegado e bom. Vivia cortando papel, pintando coisas, sonhando...

Em 1920, aos 13 anos de idade, Cícero foi para o Rio de Janeiro, ficando interno no mosteiro de São Bento. Nessa época, alimentado pela leitura precoce e intensiva, desenvolve-se o traço mais marcante de sua formação: a imaginação criativa.

Entre os anos de 1925 a 1927 Cícero conheceu os modernistas. José Lins do Rego descreveu os velhos tempos no Rio, numa crônica entitulada “Cícero Dias em 29”, escrita em 1952: a casa de dona Nazareth Prado, o velho Graça Aranha, Jayme Ovale e Anibal Machado inéditos, Manuel Bandeira na rua Curvelo, Murilo Mendes ainda na fase satânica, Di Cavalcanti querendo salvar a humanidade e os restos do futurismo na poesia, as querelas da Semana de Arte dividindo a literatura, João Ribeiro aceitando os novos.

Foi então que apareceu Cícero Dias. Era um menino de engenho com a loucura da arte. Seus trabalhos revelavam o mundo estranho dos canaviais, das paixões furiosas, dos sonhos que eram verdadeiros incêndios dos sentidos.

Cícero Dias

Em 1928 realizou sua primeira exposição no Rio de Janeiro. A mostra aconteceu paralela ao 1º Congresso de Psicanálise da América Latina. Arte e sonhos falam do/e ao inconsciente. Graça Aranha ao afirmar o quanto os quadros do pintor combinavam com o congresso, provavelmente, não percebeu a dupla conotação de suas palavras. Por outro lado não é o inconsciente quem pinta, a intervenção da ação refletida é fundamental para a produção de qualquer forma de arte, e as imagens oníricas são consideradas como a melhor expressão possível dos fatos ainda inconscientes. Graça Aranha ressaltou ainda que se tratava da primeira manifestação do surrealismo no Brasil, concluindo que "o artista com suas extraordinárias qualidades pictóricas, exprime em seu trabalho a poesia deliciosa de seu estranho e maravilhoso inconsciente."

Nem todos entenderam os trabalhos expostos. Um senhor que comprovadamente não gostou deles, tentou destruí-los com uma navalha.

A maior parte de sua obra, nesse período, é composta de desenhos e aquarelas, onde ele obtém uma leveza, uma delicadeza de efeito, que a pintura a óleo não consegue dar.

Inicialmente um simbolismo explícito e inequívoco sobrepõe-se à técnica de elaboração exata e minuciosa.

A visão da mulher como objeto sexual insinuada em alguns trabalhos reflete a plena expressão do pensamento da época. Esse tratamento é dado à Sonho de uma prostituta. O desenho de linha fluida e livre revela a sexualidade relaxada e provocativa de uma moça cuja disponibilidade tem um paralelo com a Olympia de Edouard Manet. Essa impressão não provém do título e sim da expressão pictórica. Dias e Manet usam na elaboração do espaço plástico o recurso da perspectiva cromática, cujas características são o espaço plano e a linha recorte, dando aos quadros uma grande tactilidade.

Nessa primeira fase o pintor mergulhou fundo em busca da realidade interior do homem transitando entre o real e o imaginário à procura de um estilo próprio, adotando certas preocupações comuns ao surrealismo.

Suas figuras flutuam no espaço, enquanto as casas e a linha do horizonte assumem inesperadas posições. Nesses desenhos as imagens fundem-se. Existe uma ruptura com o ponto de fuga e o espaço está fragmentado em segmentos visuais.

Sua produção desse período está composta de figuras com elementos díspares retiradas de lugares comuns e tradicionais. A alteração da aparência real dos objetos e do corpo humano é uma tentativa de arrancar o observador de sua complacente confiança na realidade.

As distorções por ele realizadas alcançam seu grau mais extremo. Cícero Dias ao transpor os limites da existência demarcados pelo hábito e frieza da razão, desloca-se em direção ao mundo do inconsciente e do sonho, deixando-se conduzir pelos olhos da imaginação. O artista exibe uma abundância de imagens e revela uma espécie de diário poético em que o individual e o coletivo estão entremeados. Existe, ainda, o colorido suave e harmonioso adaptado à sua índole pessoal, e, no qual, o verde encontra-se sempre presente.

A partir de 1932, Cícero voltou ao seu estado natal. Sua permanência em Recife transformou-se em um momento de íntima relação com a sua terra e seu povo. Com Gilberto Freyre relembrou o seu passado de menino criado em engenho. O sociólogo falou-me de suas andanças com o pintor pelos engenhos e senzalas de todo o estado por quase um ano, em busca de material para sua obra Casa Grande & Senzala , editada em 1933, com desenhos executados por Cícero Dias.

Em relação a temática, a nova inclinação liga-se à tradição pernambucana com a paisagem rural alternando-se à paisagem urbana de Recife e Olinda , identificada nos quadros da coleção do Museu do Estado de Pernambuco. Realiza perfeitamente seu sentido de cor nessas telas, destacando-se a preferência pela simetria e por formas geométricas estilizadas. A maioria das composições baseia-se na forma triangular tradicional, criando uma aparência de repouso concentrado, evidenciando o quanto a excessiva excitabilidade dos primeiros tempos está disciplinada e controlada. Em 1938, Cícero Dias realizou suas primeiras exposições em Paris. Os trabalhos apresentados são a síntese de uma fase definitivamente encerrada. Ele está na cidade à procura de novos rumos. Naquele momento entrou em contato direto com as obras dos artistas da Escola de Paris. O encontro causou no jovem pintor brasileiro um impacto muito grande, o que não é difícil de perceber observando-se os quadros produzidos no princípio da década de 40, dentre eles: Mulher na Praia e Mulher sentada com espelho, bem como as fontes em que o artista se inspirou.O protótipo mais próximo dessas composições são as obras de Pablo Picasso.

No entanto, ainda mais importante, do ponto de vista para seu subseqüente desenvolvimento como artista, é o passo seguinte, levando-o à abstração absoluta no final dos anos 40. Abstração preparada desde 1932, com uma série de aquarelas com desenhos abstratos e predomínio de amarelos e vermelhos: manchas de traços e cores jorram, literalmente, nesses trabalhos. No período compreendido entre 1938 e 1948, tendo como paradigmas Mulher na Janela e Composição sem título aconteceu um progressivo abandono, uma prudente caminhada em direção ao abstracionismo.

Na década de 30 há uma oposição clara entre surrealismo e abstracionismo conduzindo à dissociação aparente entre abstração e inconsciente. Ao longo de sua evolução, a arte abstrata compreende que o campo do inconsciente é ilimitado e avança em direção a uma pintura mais livre.

Em 1945, ao juntar-se ao grupo Espace, Cícero Dias tenta dominar o inconsciente — essa região tão pouco clara e poderosa — na qual se manifesta, além do material artístico, todas as atividades culturais do homem. Dessa maneira, procedeu a um retorno ao passado recente da pintura abstrata e a estética dos anos 30, adotando em primeiro lugar a forma geométrica. Essa concepção de pintura torna-se comum na França , após a segunda grande guerra, encontrando-se em plena expansão.

No ano seguinte, expôs os trabalhos produzidos naquele período na Exposition Internationale d'Art Moderne, no Museu de Arte Moderna de Paris. Graças ao seu talento de colorista, o pintor conseguiu ultrapassar a frieza da tendência geométrica. A parte luminosa de suas telas tem como cor fundamental o vermelho/laranja, enquanto a parte escura tem como cor dominante o azul. Essa unidade harmônica é dada pelo contraste do acorde azul-verde/vermelho-laranja, característica pessoal de Cícero Dias, e denota o possível contato do artista com a teoria de cores de Goethe e com os escritos de André Lhote. O rigor formal dessa abstração vai diluindo-se progressivamente na década de 50 e, aos poucos, abandonou as formas rigorosas e passou para o abstracionismo informal.

No início dos anos 60, Cícero pintou diversas telas com retratos de mulheres. Apesar da aparência pouco natural, o retrato guarda profunda identidade com o modelo. Tendo se familiarizado com um repertório de configurações abstratas, e sob a influência da arte tradicional, começou a construir suas imagens à base de formas e figuras que, vistas isoladamente, não teriam função ou significado preciso. Da maneira como estão dispostas, no entanto, adquirem valor representativo: dois círculos podem ser vistos como dois seios. O pintor desligava-se da abstração, convicto de que seu caminho era, novamente, a figuração. E ao invés de sígnos da figura feminina, sua preocupação voltou-se para a própria imagem da mulher.

Desde o princípio a mulher aparece nas pinturas e desenhos de Cícero Dias, simultaneamente como foco de desejo, frustração, conflito, humor, ironia. Mulher em mutação e constantemente presente , assumindo formas significativas retomadas pelo pintor em todas as variações.

Atualmente as figuras são submetidas a uma simplificação geométrica que lembra o cubismo de Braque e Picasso, mas a construção da superfície é feita com a cor, uma das lições básicas de Cézanne. Permanece vinculado à disciplina geométrica, seja na busca do plano, seja na integração figura/fundo. Os contrastes são mínimos, o que deixa a composição quase nos estritos limites bidimensionais.

Essas composições são uma mistura de mar, céu, sol, lua, folhagens, praias, barcos, pescadores, mulheres, flores. Os quadros revelam a sensibilidade do criador a temas amplos e a problemas puramente artísticos. A exuberância de cores, o humor, a poesia que o pintor transmite, são reflexos da fase feliz que atravessa em sua vida particular.

Cícero Dias faz uso insistente de alguns tópicos tradicionais da pintura, como os braços estendidos para o alto com as mãos abertas. Há um sentimento recluso de intimidade, de duração lenta, de silêncio. Os problemas da forma e da composição constituem a preocupação essencial do artista. Essa última fase deixa de ser criação direta como em seus primeiros trabalhos. Mesmo assim, a pintura de Cícero Dias guarda sempre uma extraordinária modernidade. Vive de uma permuta entre o presente e o passado. Essa figuração que povoa suas telas recentes são imagens reais e anteriores, vistas agora através do poético cristal da memória. Imagens muitas vezes fusão de outras, já vividas e imaginadas e que ressurgem agora livremente pintadas. Sua produção artística possui a força, a surpresa e a amplitude emocional não encontradas na maioria dos pintores brasileiros contemporâneos, pois a arte do século XX sofreu uma retração de imaginação por pressões de fórmulas.

Fonte: www.galeriaerrolflynn.com.br

Cícero Dias

Artista plástico, considerado um dos pioneiros do modernismo no Brasil, Cícero Dias nasceu a 05 de março de 1907, no Engenho Jundiá, município de Escada, Pernambuco, onde ainda menino teve os primeiros contatos com a pintura: "eu ficava olhando minha tia Angelina pintar belos quadros, ela era filha do barão de Penedo e tinha uma escola de pintura na década de 20".

De sua cidade natal, veio para o Recife e, em 1925, foi para o Rio de Janeiro, estudar arquitetura na Escola Nacional de Belas Artes.

Foi no Rio que Cícero Dias estreou profissionalmente, expondo seus trabalhos pela primeira vez. A exposição aconteceu em 1928 no saguão de uma clínica médica porque, à época, havia grande desconfiança em torno do tipo de pintura que ele fazia e quase nenhuma galeria carioca tinha interesse pela arte moderna.

Como predominava a arte acadêmica, a mostra não fez grande sucesso mas foi visitada por todos os modernistas, entre os quais Villa-Lobos, o poeta Murilo Mendes, o artista plástico Ismael Nery e outros.

Do período de "iniciante" até ser considerado, na década de 90, um dos maiores pintores brasileiros, Cícero Dias viveu muitas histórias. De arte e de política.

Simpatizante do Partido Comunista, ele foi perseguido em 1937 quando Getúlio Vargas instalou a ditadura do Estado Novo. Era chamado pelas autoridades pernambucanas como "o artista que pinta retratos de Lênin a pedido de estudantes esquerdistas" e, por várias vezes, seu atelier no Recife foi invadido por tropas policiais. Foi aí que ele decidiu viver em Paris.

Para Cícero Dias, morar em Paris não foi uma novidade: em 1937 sua família já tinha apartamento montado na cidade e ali ele construiu toda uma vida. Prosseguiu o seu trabalho como pintor, conheceu vários dos maiores artistas e intelectuais do século e em 1943 casou com a francesa Raymonde, que conheceu numa roda de amigos num café parisiense e com quem tem uma filha brasileira chamada Sílvia.

Desde que deixou Pernambuco, vem anualmente ao Recife rever amigos e "preservar as raízes". Mas, a vida de Cícero Dias fora do Brasil não foi só maravilhas. Durante a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, depois que o Brasil rompeu relações diplomáticas com a Alemanha nazista e a Itália fascista, ele foi preso num hotel da cidade alemã de Baden-Baden. No grupo, estava também o escritor Guimarães Rosa.

O motivo da prisão foi apenas o fato de ser brasileiro. Em seguida, numa ação diplomática, o grupo foi trocado por espiões nazistas que se encontravam presos no Brasil. Libertado, Dias seguiu para Portugal.

Em Lisboa, exilado mais uma vez, Cícero Dias continua sua luta pela liberdade humana. Num encontro com intelectuais europeus, recebe um recado do poeta francês Paul Éluard, que atuava na Resistência e queria que o pintor brasileiro desse um jeito de ir buscar e fazer chegar a Londres um poema dele chamado "Liberté", para ser divulgado entre as tropas aliadas.

A missão era ousada, pois Paris estava ocupada pelos nazistas, mas Cícero Dias topou. Tempos depois, ele contaria essa aventura: "Fui à França atravessando clandestinamente a fronteira. Com receio dos nazistas, risquei a palavra liberté do poema, porque a palavra liberdade poderia me custar a vida diante de um pelotão de fuzilamento.

De volta a Lisboa, procurei a embaixada britânica e pedi ajuda ao secretário do embaixador, mister Marshall.

O poeta inglês Rolland Penthouse traduziu o poema para o inglês e "Liberté", já impresso em milhares de panfletos, foi jogado sobre as tropas aliadas no front". Por esse sua atitude, Cícero Dias acabou virando herói: no dia 27 de maio de 1998 foi condecorado com a Ordem Nacional do Mérito da França, maior honraria concedida pelo Estado francês.

Ao ser informado sobre a condecoração, ele comentou em entrevista à imprensa: "Para os intelectuais, foi importante a distribuição do poema por toda a Europa. Ajudou na libertação da França e de outros países. Se Éluard fosse vivo, nós dois seríamos condecorados".

Autor do primeiro mural abstrato da América Latina, feito em 1948 no prédio da Secretaria da Fazenda de Pernambuco, Cícero Dias fez grandes amigos na Europa. Um deles foi o pintor espanhol Pablo Picasso. Os dois se conheceram pouco antes do final da Guerra Civil Espanhola, quando Picasso encontrava-se exilado em Paris.

"Nós nos reuníamos num café com republicanos espanhóis contrários ao regime de Franco e a partir daí comecei uma forte amizade com Picasso, que acabou sendo padrinho da minha filha".

Aliás, foi por conta dessa amizade do pintor pernambucano com o gênio catalão que o público brasileiro pôde apreciar o famoso mural "Guernica".

Picasso era supersticioso e não queria que sua obra saísse dos Estados Unidos enquanto durasse a ditadura de Franco. Cícero Dias usou muitos argumentos, entre os quais o de que o Brasil era um país pobre e merecia ter acesso às grandes obras de arte, dobrando o amigo: Picasso acabou emprestando "Guernica" que foi mostrado na Bienal de São Paulo.

Cícero Dias sempre manteve uma rígida rotina de trabalho, que mesmo depois dos seus 90 anos não acabava antes das três horas da madrugada, incluindo pintura e leitura. Colecionador de suas próprias obras, um conselho do amigo Picasso, guardou os trabalhos mais significativos.

Autor de uma obra universal, exposta em centenas de países, nunca negou suas origens: "Toda minha obra foi fundada em Pernambuco, no início dos anos 20. Em mim, as raízes são mais fortes do que tudo".

Ao longo de toda sua vida, tanto no Brasil quanto no exterior o reconhecimento ao trabalho do pintor pernambucano foi unânime. Picasso considerava Cícero Dias "um poeta que também é pintor". Já Oswald de Andrade julgava-o o maior pintor brasileiro de todos os tempos. E, para não deixar suspeitas sobre esse julgamento, afirmava: "E ninguém poderia imaginar que estou falando por camaradagem, uma vez que minhas relações com ele são geladas".

Fonte: www.pe-az.com.br

voltar 123avançar

Sobre o Portal | Política de Privacidade | Fale Conosco | Anuncie | Indique o Portal