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Ciclo do Café

O Ciclo do Café Vale-paraibano

Considerações iniciais A história do café no Vale do rio Paraíba do Sul, no século XIX — das fazendas cafeeiras, das famílias que eram suas proprietárias, dos escravos que constituíam a mão-de-obra empregada na produção, tratamento e beneficiamento dos grãos e de tudo o mais que se observava nos complexos agrícolas de então — seguiu um modelo bem definido, criando um cenário uniforme, que caracterizou o “Ciclo” nas suas mais diversas formas de manifestação.

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Missa na Capela da Fazenda Água Limpa, 1870. Barra do Piraí (inexistente), RJ.

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Fazenda Boa União, Três Rios, RJ.

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Colheita. Marc Ferrez. 1885.

Assim, o cultivo do café, que teve como área geográfica todo o Vale do rio Paraíba do Sul, ao longo dos seus quase cem anos de vida —- do nascimento à derrocada com a “gota d’água” da Abolição — cristalizou uma cultura própria que, por sua vez, se sustentava em antigas variáveis culturais e sociológicas, dentre as quais se destacavam: o patriarcado; o uso do escravo negro que, por transferência ou similaridade com as funções anteriores que exercia, era visto como a mão-de-obra perfeita para o plantio do café; o poder da religião católica, a sua atuação como parceira do Estado, protetora do capital e legitimadora do modelo escravocrata de trabalho; o apoio às comunidades e a benemerência, através da qual se buscava o reconhecimento e, também, a obtenção de títulos, status e poder; e o conservadorismo, abrangente e enraizado, que presidiu os mais variados aspectos do cotidiano urbano e rural da civilização cafeeira.

Tudo isso foi favorecido por um ambiente econômico e cultural criado a partir da consolidação do crescente e avassalador hábito de consumir café no “novo mundo” industrializado. Este texto busca abordar alguns dos principais aspectos que marcaram de uma maneira geral a história do café no Vale do Paraíba e o seu reflexo na construção de significsignificativo patrimônio histórico, arquitetônico e paisagístico, símbolos da identidade cultural de sua gente.

A origem do café e sua chegada ao Rio de Janeiro

O café, fruto exótico, a partir de seu habitat natural na África, difundiu-se por vários lugares do mundo e, dentre eles, chegou à Guiana Francesa. Daí, por obra e graça, dizem, da simpatia que o militar português Francisco de Melo Palheta despertou na mulher do governador local, aquele trouxe para o Brasil algumas sementes que foram plantadas no Pará em 1730.

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Carta de L`Aire à Café Du Brésil Central. D`aprés C. F. Van Delden- Laérne. 1884.

O café no Vale: caminhos de acesso Do Rio de Janeiro, no final do século XVIII, o café fez sua entrada triunfal no Vale, através da província fluminense, por dois caminhos. O primeiro, o da “Serra Acima”, a chamada “Diretriz de Resende”, local das primeiras plantações e de onde, subindo e descendo o curso do rio Paraíba do Sul e de seus afluentes, alcançou, por um lado, as serras do então norte paulista e, por outro, as da velha província e parte da mata mineira. O segundo, a “Diretriz de São Gonçalo”, cobrindo a região litorânea até Campos dos Goitacazes onde, também subindo a serra, atingiu as regiões montanhosas de Cantagalo e Madalena.

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Fazenda do Pocinho - Vassouras, RJ.

No Vale do Paraíba, onde inúmeros e importantes afluentes formam imensa bacia hidrográfica, com 57.000 km² de área — sendo 39,6 % em terras fluminenses, 36,7% em terras mineiras e 23,7% em terras paulistas6 — o café, encontrando condições favoráveis de solo, clima e topografia e abundância de terras disponíveis para plantação em larga escala, criou um extraordinário sistema social e financeiro, conhecido historicamente como o “Ciclo Econômico do Café” e que, em sentido amplo, ocorreu ao longo de todo o século XIX.

A ocupação do Vale-paraibano: correntes migratórias

Embora a ocupação no Vale paulista do Paraíba tenha ocorrido já nos séculos XVII e XVIII e, no Vale fluminense, a abertura de alguns antigos caminhos e a busca de metais preciosos tenham levado, no século XVIII, à instalação de pequenos núcleos urbanos como, por exemplo, os de Paraíba do Sul, São João Marcos e Resende, a ocupação das vertentes fluminense e mineira do Vale ocorreu com muito mais intensidade e rapidez, por conta do café, ao final do século XVIII e ao longo do XIX.

Nesse sentido, duas correntes migratórias se destacaram. A primeira e mais numerosa ficou conhecida como a “1ª Invasão Mineira”, quando famílias inteiras vieram das “Gerais” plantar café no Vale do Paraíba, onde empregaram todo o arrojo, coragem e determinação, ao lado dos capitais amealhados com a mineração do ouro e contando com a mão-de-obra dos seus escravos que, com elas, participaram ativamente do ciclo que havia se exaurido. A segunda ocorreu em sentido inverso, isto é, do litoral para a serra. Eram portugueses, comerciantes da corte, aristocratas, burocratas do Reino e do Império, entre outros, que, estimulados pelo governo através do fornecimento de sementes da rubiácea e de terras, vieram para a região plantar café.

O comércio do café

A ocupação do solo com as plantações de café se deu de forma rápida e intensa, daí a expressão “avalanche cafeeira”. Isto se tornou particularmente possível com o crescente volume de café consumido no mundo, quando a característica de produto elegante, refinado e de luxo cedeu espaço ao hábito de tomar café como estimulante. O hábito difundiu-se e a expansão do consumo foi viabilizada pelo persistente desenvolvimento dos mercados da Europa e, sobretudo, dos Estados Unidos, baseados em uma crescente classe operária — fruto da geração e da movimentação da riqueza proveniente da Revolução Industrial — que criou milhares de novos consumidores urbanos de café.

Nesse contexto, o governo vislumbrava no novo produto a obtenção das divisas imprescindíveis à importação dos produtos manufaturados e também o acesso aos “luxos” e “modernidades”, dos quais o país, em especial a corte, tanto necessitava. Isto, em substituição ao algodão e, principalmente, ao açúcar, que davam sinais de enfraquecimento comercial, entre outros motivos pela concorrência mais organizada e eficiente dos produtores americanos e das colônias européias do Caribe, em especial, Cuba.

O Brasil soube aproveitar, também, a desorganização da produção ocorrida em São Domingos, até então o maior produtor mundial de café, em função de revoltas de escravos contra os fazendeiros, havidas a partir da última década dos setecentos. Ocupando o espaço comercial aberto, expandiu suas exportações, assumindo a liderança que ostentou por praticamente todo o século XIX, para ficar restrito ao horizonte temporal do “Ciclo” no Vale.

Pretendia também o Império criar uma elite agrária no Vale-paraibano para apoiá-lo e se contrapor ao peso e à influência da elite nordestina dos senhores de engenho e dos estancieiros do Rio Grande do Sul, que não simpatizavam, em um primeiro momento, com o poder central e se insurgiam contra os impostos cobrados, cujo retorno não se fazia sentir nos locais de origem e muito mais privilegiava as despesas da Corte.

Principais períodos do ciclo cafeeiro e a introdução da pecuária leiteira

Ao longo dos cem anos de café no Vale, embora não haja unanimidade entre os historiadores, seria razoável dividir o ciclo em três períodos distintos. O primeiro — nascimento / crescimento — que iria de 1800 a 1840. O segundo, o apogeu, de 1840 a 1875 e, o terceiro, a partir daí até 1900, o de declínio / derrocada. Naturalmente, essas datas e períodos não são estanques e, mesmo nos anos do declínio, por conta de um grande esforço de expansão da área plantada, o Vale ainda continuou produzindo crescente quantidade de café, o que, paradoxalmente, pela falta de capital, apressou a derrocada final, como será visto adiante.

Os períodos citados correspondem aos que alguns pesquisadores conceituam como: a geração dos “pais ricos”, os pioneiros, cuja preocupação era acumular riqueza, que empregavam em mais escravos, terras e cafezais; a dos “filhos nobres”, que usufruíram dessa riqueza consolidada e foram nobilitados e/ou condecorados, estudaram na Europa ou em escolas conceituadas como a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo, talvez a mais expressiva geradora de homens públicos do país à época; e, finalmente, a dos “netos pobres”, que viram a riqueza escoar por entre os dedos e conviveram com a derrocada do ciclo.

Depois do café, as fazendas decadentes e/ou abandonadas do Vale e a paisagem característica dos “mares de morros”, agora desnudados de sua exuberante cobertura original de Mata Atlântica, viveram a “2a Invasão Mineira”, na qual eles desceram com suas boiadas e ocuparam as terras baratas, quase doadas, para produzir leite, derivados e alguma carne. Este “subciclo”, que ainda persiste em vários municípios do Vale do Paraíba, perdurou até meados do século XX, sendo depois substituído pela industrialização ou por outras atividades.

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Fazenda do Secretário.

Vassouras, RJ.

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Fazenda Santa Cecília.

Barra do Piraí.(Inexistente), RJ.

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Fazenda São Roque Vassouras, RJ.

Um exemplo deste processo sucessivo de transformação econômica ocorreu no município fluminense de Barra Mansa, que, após ter sido grande produtor de café, abrigou a maior bacia leiteira do Brasil e, hoje, ao lado do seu ex-distrito Volta Redonda, forma uma região industrializada, prestadora de serviços de alta tecnologia e de comércio forte.

Personagens do café

Dois personagens foram, realmente, as maiores e mais representativas figuras deste período e fizeram o Ciclo do Café no Vale acontecer. Os fazendeiros de café, genericamente chamados de “barões do café”, tenham ou não sido nobilitados como tal pelo Império, responsáveis pelo capital, pela abertura, consolidação, crescimento e administração das “Empresas Agrícolas do Café”, muitas delas verdadeiros feudos autônomos e fechados em si mesmos, e que só não produziam, latu senso, o ferro, o sal e o vinho; e o negro, mão-de-obra feita escrava na sua África natal que, verdadeiramente, produziu a riqueza verde (ouro verde) e tantos benefícios trouxe à cultura e à vida do país, a ele se incorporando definitivamente na sua formação racial e histórico cultural.

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Partida para colheita (detalhe). Marc Ferrez. 1885. Coleção Gilberto Ferrez. IMS.

Poderiam ser citados outros importantes personagens como o tropeiro, responsável pelo escoamento / transporte do café até os portos de embarque; o comissário de café, que respondia pelos interesses do fazendeiro na negociação / venda do café, mediante comissão nas vendas, além de outros serviços que a ele prestava; os exportadores e outros.

No entanto, aqueles que, de fato, deram sustentabilidade a tamanha empreitada, foram os representantes diretos do capital e do trabalho: o fazendeiro e o escravo negro.

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Barão de São José del Rei, esposa, filha, genro e netos.

Produção de café nas províncias

O Vale foi o principal produtor de café do Brasil Império e a província fluminense foi o seu maior destaque ao longo de todo o “Ciclo”. Em 1852, ocasião em que produziu 7 milhões e 193 mil arrobas (15 kg cada), respondia por 77% das exportações brasileiras, São Paulo, 13,8% e Minas Gerais, 7,6%.

Em 1860, o Rio exportou 81,6% do total brasileiro que, em 1881, representou 61,5% do total mundial. O Rio começou a perder a hegemonia para São Paulo ao final do ciclo, já próximo da Abolição e, definitivamente, nos primeiros anos da República. São Paulo já contava, então, com o grande volume de café produzido no “Oeste” da província (para onde o café emigrou), posto que também no Vale paulista do Paraíba, inclusive na sua região mais representativa, a de Bananal, a decadência já havia também se instalado.

Não se deve esquecer que uma região do Estado do Rio de Janeiro ainda teve expressivo volume de produção cafeeira após a derrocada do Vale e os primeiros tempos do século XX.

Trata-se do norte fluminense, capitaneado pela cidade de Itaperuna — na realidade, também Vale do Paraíba, pois fica às margens do importante rio Muriaé que, vindo das Gerais, é afluente do Paraíba pela sua margem esquerda, próximo à cidade de Campos dos Goytacazes.

Em 1927, a despeito da vanguarda indiscutível de São Paulo em termos de produção, ainda era, isoladamente, o maior município produtor de café no Brasil, por conta de um início tardio em relação às demais regiões produtoras do “antigo” Vale.

Na época, o Estado do Rio contribuía com cerca de 10% da produção brasileira e Itaperuna produzia, sozinha, 1 milhão e 220 mil arrobas, chegando, alguns anos depois, a 1 milhão e 800 mil arrobas (São Paulo produzia 60 milhões e o Rio 6,5 milhões). Vassouras, no auge do ciclo no Vale, em 1856/7, produziu cerca de 1 milhão e 500 mil arrobas e a província fluminense, com algo em torno de 8 milhões de arrobas, respondia por, aproximadamente, 80% da produção brasileira.

Esses números mostram a “gangorra” produtiva entre cidades da mesma região e, principalmente, o extraordinário crescimento do café nas terras roxas do “Oeste” paulista. Até hoje o Brasil ainda produz muito café e mantém presença forte no mercado mundial do produto.

Cidades expoentes do Vale-paraibano

Ao longo do século XIX, foram criadas na região inúmeras capelas, curatos e freguesias, nomenclaturas religiosas que substituíam/conviviam — tal a íntima ligação entre a Igreja e o Estado na época — com as de origem civil como povoado, vilas, cidades e comarcas.

Durante o período cafeeiro, algumas prosperaram e outras perderam importância ou desapareceram, sobretudo aquelas existentes nos caminhos de passagem das tropas de mulas, substituídas pela instalação das primeiras ferrovias, e aquelas que abrigavam os portos que recebiam as mencionadas tropas. Alguns destes, marítimos ou fluviais, eram de grande movimento, tanto no litoral paulista como no fluminense, como, por exemplo: São Sebastião, Ubatuba, Mambucaba, Itanema, Ariró, Jurumirim, Angra dos Reis, Mangaratiba, Iguaçu Velho, Pilar, Estrela, Porto das Caixas e Barra de São João, entre outros.

Para citar as maiores e mais expressivas vilas e cidades do café, não se pode esquecer de mencionar, no Rio de Janeiro, a pioneira Resende, a Valença “dos marqueses” e, principalmente, Vassouras, a mais importante cidade de todo o Vale-paraibano, além de Cantagalo, no norte da província. Em São Paulo, indiscutivelmente, sobressaiu-se Bananal, no fundo do Vale (rival de Vassouras em importância), além de Taubaté, Pindamonhangaba e Lorena. Em Minas Gerais, Juiz de Fora, que, após a metade do século XIX foi o principal pólo, coadjuvada por Leopoldina, Mar de Espanha, Rio Novo e Ubá.

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Cidade de São João Marcos. Rio Claro, RJ. Arquivo Central do IPHAN.

“Grande distrito cafeeiro do período imperial, São João Marcos surgiu quando João Machado Pereira, vindo de Resende, ali instalou uma fazenda, em 1733. Logo em seguida abriu-se uma estrada pela qual pudessem transitar, com segurança, os quintos de ouro com destino ao Rio de Janeiro. Elevada à categoria de Vila em 1811, São João Marcos tornou-se, como Resende, Valença, Vassouras e Paraíba do Sul, um dos principais centros cafeeiros do Brasil, sendo o maior produtor o Comendador Breves, que possuía várias fazendas e escravos e uma enorme quantidade de arrobas de café, armazenados em trapiches em Mangaratiba. Hoje, no vale formado pela confluência dos antigos rios Araras e Panelas, encontram-se as ruínas remanescentes do núcleo histórico, cujo casario foi mandado demolir, na década de 1940, para represamento das águas de Ribeirão das Lages para fornecimento de energia”.

(Patrimônio Cultural - Guia dos Bens Tombados pelo Estado do Rio de Janeiro, 1965 - 2005, INEPAC).

As edificações da fazenda cafeeira

Além da casa-sede, moradia da família do proprietário, as principais edificações que compunham, sob o aspecto operacional, uma “empresa” agrícola do café eram:

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Casa-sede.

(não identificada) Marc Ferrez. Coleção Gilberto Ferrez. IMS.

O lavador de café; O(s) terreiro(s) para a sua secagem, de terra ou calçado; O engenho para beneficiamento dos grãos (engenho de café); As tulhas para armazenagem do café seco a ser beneficiado; E, ainda, a senzala, que abrigava a escravaria, a mão-de-obra envolvida em todo o processo produtivo e que fazia funcionar, realmente, a empresa agrícola do café e, por isso, também considerada no conjunto das cinco edificações, diretamente ligada à “atividade fim” da fazenda.

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Fazenda Santo Antônio do Paiol.

Valença, RJ. Antiga propriedade dos herdeiros de Manoel Antônio Esteves. Somente parte do conjunto resistiu ao tempo.

Marc Ferrez. Coleção Gilberto Ferrez. IMS.

Variando de acordo com o porte da fazenda —- em terras, produção e recursos financeiros e da sua capacidade e/ou interesse em ser, parcial ou totalmente, auto-suficiente — podiam existir ou não, em porte menor ou maior, outras edificações e áreas de trabalho vinculadas s “atividades meio” do empreendimento.

Seriam elas:

O engenho de açúcar e aguardente, o de “serra” e os que beneficiavam outros cereais, como os moinhos de fubá, de farinha de mandioca e de arroz; Os depósitos de ferramentas e utensílios; As oficinas, principalmente, de carpintaria e forjaria; A enfermaria para os escravos, que em algumas fazendas eram verdadeiros “hospitais”, com, farmácia e consultório para o “médico de partido” ; As demais moradias, casas para o pessoal da “administração”, entre outros, os temidos e geralmente mal vistos feitores; e para o capelão e o boticário, quando permanentes; Os paióis para os cereais, ventilados e alteados do chão para fugir ao ataque dos roedores; A olaria para a confecção de telhas e adobes; Os ranchos para os animais da tropa, mais presentes até o advento da ferrovia, e para os carros da fazenda, de passeio da família ou de trabalho, como os puxados por bois; As baias para os animais de montaria; as pocilgas; os galinheiros; os currais; Além de áreas de trabalho não cobertas, como os pomares e as hortas.

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Fazenda Campo Alegre.

Valença, RJ. Propriedade, a época da foto do Barão de Vista Alegre.

Parte do conjunto ainda existe.

Marc Ferrez. Coleção Gilberto Ferrez. IMS

Algumas fazendas mantinham “vendas” que atendiam, em especial, aos próprios escravos e onde, além das compras, eles podiam se encontrar, conversar e beber, aos domingos, sob o olhar vigilante do fazendeiro.

Na decisão quanto à escolha do local para implantação das edificações que integravam o complexo, era fundamental a aguada para garantir o provimento da força motriz que fazia girar todas as engrenagens da propriedade. Tirada em nível, normalmente de açudes ou diretamente de barragens em cursos d’água, corriam por canaletas a céu aberto, as indefectíveis banquetas, movendo as rodas-d’água, uma ou mais, dos principais engenhos, para a lavagem do café e para os mais diversos usos agrícolas e domésticos da fazenda.

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Fazenda Paraíso. Rio das Flores, RJ. Arquivo Geral do IPHAN.

Foto: Edgar Jacinto.

O conjunto de edificações, notadamente a casa-sede, a senzala, o engenho de café e a tulha, formavam usualmente um “quadrado funcional”, denominação dada à forma de implantação das mesmas no sítio natural, tendo o terreiro de café, ao centro, como referência. Esta disposição por vezes era modificada ou se ajustava ao porte da propriedade quando, por exemplo, existiam mais de um terreiro ou a topografia do sítio apresentava desníveis.

A senzala era uma construção simples desprovida de janelas, cobertura em telha-vã e, comumente, possuía uma varanda fronteira, em toda a sua extensão, para evitar que o escravo tomasse chuva e se “constipasse” e, geralmente, com piso de terra batida. Subdividia-se em cubículos ou celas, denominadas lances, cuja quantidade e dimensões variavam em função do número de escravos.

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Fazenda Santo Antônio do Paiol. (detalhe) Valença, RJ. Marc Ferrez. Coleção Gilberto Ferrez. IMS.

A sua disposição mais comum no terreno era em fila ou em quadra, acompanhando a forma de implantação das demais edificações. O desenho tradicional, onde as portas da senzala eram voltadas para o interior do pátio, atendia aos quesitos de segurança e controle da mão-de-obra escrava e facilitava a administração visual das principais atividades, em especial as desenvolvidas no terreiro de café.

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Fazenda do Pocinho. Vassouras (arruinada), RJ. Arquivo Central do IPHAN. Foto: Hess.

Os programas arquitetônicos que caracterizavam as plantas das casas-sede, prevalecendo como forma de expressão e dando seqüência a um padrão histórico — independente de a construção adotar um “estilo” arquitetônico mais conservador, trazido pelos paulistas ou pelos mineiros, ou mais requintado, influenciado pela linguagem do neoclássico, que impregnou o nosso século XIX — eram marcados pela preocupação de separar as dependências em blocos distintos, refletindo, na organização de seus ambientes, as regras e normas sociais vigentes.

Em um bloco eram contemplados os espaços necessários à convivência social da família, especialmente visando “proteger” a intimidade das mulheres da casa, onde se localizavam os quartos de dormir, as salas de refeição, jantar e almoço, e as dependências de serviços, como a cozinha. No outro bloco ficavam as dependências de recepção dos hóspedes e dos visitantes que vinham tratar de negócios, com suas salas e alcovas separadas da área familiar por ambientes cujas portas eram mantidas sempre fechadas.

Com o passar do tempo e as mudanças na dinâmica social ocorrida nas últimas décadas do XIX, o isolamento dos membros da família — em especial das mulheres — foi-se atenuando e as soluções internas foram eliminando as dependências que possuíam a função básica de “separar” os blocos, dando mais leveza e funcionalidade às plantas das casas rurais.

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Fazenda Santa Cecília. Barra do Piraí(inexistente), RJ.

A. Malta, 1917. MIS

 

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