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Cidadania

Educação e Cidadania

RESUMO

"A educação para a cidadania constitui um conjunto complexo que abraça, ao mesmo tempo, a adesão a valores, a aquisição de conhecimentos e a aprendizagem de práticas na vida pública. Não pode, pois, ser considerada como neutra do ponto de vista ideológico". Delors

A formação do ser humano começa na família. Ali, tem início um processo de humanização e libertação, valores morais e éticos; é um caminho que busca fazer da criança um ser civilizado, e bem cedo à escola participa desse processo. A educação formal e informal, movimentos sociais, entidades públicas, abordando aspetos tais como a educação das crianças, jovens e adultos para uma nova cultura dos direitos humanos e da paz e a reflexão e sistematização da prática educativa em direitos humanos.

1-INTRODUÇÃO

Nessa sociedade em rápida transformação, cidadania depende cada vez mais da educação moral e ética. No atual contexto tecnológico, de consumo e da mundialização da economia e da cultura, os indivíduos são seduzidos a viver os valores das grandes elites econômicas nos mais diversos aspectos da vida social.

Por isso a cidadania necessita de um elevado nível de socialização do saber científico. Do contrário, seremos apenas consumidores ou não, dependendo da nossa condição socioeconômica e dos nossos valores.

A educação é um meio de construção e reconstrução de valores e normas que dignificam as pessoas e as tornam mais humanas. "Numa educação ética, é preciso resgatar e incorporar os valores solidariedade, de fraternidade, de respeito às diferenças de crenças, culturas e conhecimentos, de respeito ao meio ambiente e aos direitos humanos." (Siegel. 2005.p 41).

Ser cidadão é perceber que fazemos parte do mundo. Nossas escolhas e posturas diante da vida afetam não apenas a nós mesmos, mas também a vida de outras pessoas, da comunidade. Assim como as atitudes das outras pessoas também nos afetam. Ao invés de só reclamarmos poder agir e transformar as coisas. É verdade que sozinhos não podemos mudar tudo, mesmo por que cada um de nós tem um ponto de vista diferente do que e de como mudarmos as coisas. Ter como princípio a valorização do humano, do ser e não apenas do ter material, já é um bom começo. Em nossas comunidades, escola, clube, prédio, rua, etc. Sempre há pessoas que se uniu para lutar por algo que acredita. Conheça melhor a sua comunidade e experimente participar dela mais ativamente!

Uma idéia é a participação de projetos que visem à melhoria da qualidade da educação.

"A preocupação com a educação para a cidadania, no Brasil, remonta à Constituição de 1823. Parece curioso que em pleno Império já se fizesse presente entre nós um conjunto de idéias em torno da universalização dos direitos, influenciada pelo coetâneo movimento da ilustração francesa. Embora esse avançado ideário tenha alcançado seu lugar na letra da lei, na realidade ainda predominava entre nós a configuração de uma sociedade escravocrata e excludente, na qual apenas os homens livres e proprietários desfrutavam de direitos devido ao sistema censitário imperial. Esse sistema vigorou durante o Segundo Reinado e tinha sido definido pela Constituição de 1824, a qual assegurava o direito de votar e ser votado, participar da Câmara e do Senado, apenas àqueles cidadãos que se enquadrasse em determinados níveis de renda. Não obstante, tanto os constituintes de 1823, quanto os de 1824 preconizavam a disseminação de escolas, ginásios e universidades, bem como a garantia da gratuidade do ensino público – apesar de omissos no que respeita à matéria obrigatoriedade." (BOTO 1999, p. 2).

A questão da defesa da ampliação do acesso à escola referia-se à desigualdade social, a qual se supunha, poderia ser compreendida a partir dos parâmetros de capacidades e talentos individuais. A elite econômica esta passando a ser destinada a tornar-se elite cultural, uma vez que a universalização do acesso à educação formal não se efetivou, permanecendo privilégio de uns poucos considerados talentosos e mais capazes em relação aos filhos do povo, destinados à execução de tarefas de somenos importância do ponto de vista da vida econômica, política e social. Até o nascimento do partido Republicano, em 1870, não foram verificadas grandes mudanças na área da educação, embora houvesse a crença de que a escolarização era indispensável ao progresso do país, o que, por conseqüência, exigia a transformação dos súditos em cidadãos.

1- ÉTICA E EDUCAÇÃO

A ética se refere aos princípios e normas enquanto tais e, mais especificamente, à ciência ou à parte da filosofia que estuda esses princípios e normas buscando distinguir entre o bem e o mal; enquanto que a moral corresponde à retidão dos costumes que conduzem as ações consideradas corretas e meritórias no seio de uma determinada comunidade que compartilha um mesmo sistema de valores.

Os valores indicam as expectativas, as aspirações que caracterizam o homem em seu esforço de transcender-se a si mesmo e à sua situação histórica; como tal, marcam aquilo que deve ser em contraposição àquilo que é. A valoração é o próprio esforço do homem em transformar o que é naquilo que deve ser. Essa distância entre o que é e o que deve ser constitui o próprio espaço vital da existência humana; com efeito, a coincidência total entre o ser e o dever ser, bem como a impossibilidade total dessa coincidência, seriam igualmente fatais para o homem.

Valores e valoração estão intimamente relacionados: sem valores a valoração seria destituída de sentido; sem a valoração, os valores não existiriam.

Podemos considerar que, sendo a educação a formação do homem, entendida em seu conceito amplo, ela não é outra coisa senão o próprio processo de produção da realidade humana em seu conjunto. De outro lado, considerando-se que a natureza humana não é dada ao homem, mas é por ele produzida sobre a base da natureza biofísica, a educação, em termos estritos, isto é, a educação enquanto atividade intencional consiste no ato de produzir, direta e intencionalmente, em cada indivíduo singular, a humanidade que é produzida histórica e coletivamente pelo conjunto dos homens. A ética pertence, portanto, ao segundo campo dos valores referidos anteriormente, a saber, o domínio pessoal onde se coloca a questão das relações entre os homens as quais, como foi assinalado, não pode ser do tipo vertical ou de dominação, mas horizontal ou de colaboração.

Ora, o aspecto pessoal da estrutura do homem põe em evidencia que o homem é capaz de dominar a situação, de se afastar ou intervir, de decidir, escolher, arriscar, mas também de assumir as suas escolhas, engajar-se por elas, responsabilizar-se. Vê-se, assim, que o referido aspecto pessoal articula, de forma indissociável, os momentos da liberdade e da responsabilidade, os quais devem ser levados em conta pela educação.

Entretanto, a educação tem tratado o problema em termos divididos; Assim, quando o destaque é no pólo da responsabilidade, isto é, da vontade, tem-se a educação moral que irá enfatizar a força de vontade, o querer é poder, a formação do caráter. E quando for destaque no pólo da liberdade, têm-se a educação liberal que ira enfatizar a autonomia do sujeito, a liberdade de escolha e a franca competição entre os indivíduos. Portanto, que a educação moral deve levar em conta o aspecto pessoal do homem em seus dois momentos pressupondo, em conseqüência, o elo entre liberdade e responsabilidade. Com efeito, a capacidade de decidir, de optar, de querer ou não querer, de aceitar ou rejeitar, é algo de pessoal e intransferível. E é esse caráter, respaldado na liberdade, que determina a responsabilidade. O sujeito assume as suas decisões, engaja-se por elas, assumindo também as conseqüências e implicações dessas suas decisões e de seu engajamento.

2- EDUCAÇÃO PARA A CIDADANIA

"A democracia surgiu quando, devido ao fato de que todos são iguais em certo sentido, acreditou-se que todos fossem absolutamente iguais entre si."Aristóteles

A educação para a cidadania pretende fazer de cada pessoa um agente de transformação. Isso exige uma reflexão que possibilite compreender as raízes históricas da situação de miséria e exclusão em que vive boa parte da população. A formação política, que tem no universo escolar um espaço privilegiado, deve propor caminhos para mudar as situações de opressão.

Muito embora outros segmentos participem dessa formação, como a família ou os meios de comunicação, não haverá democracia substancial se inexistir essa responsabilidade propiciada, sobretudo, pelo ambiente escolar. A idéia de educação deve estar intimamente ligada às de liberdade, democracia e cidadania. A educação não pode preparar nada para a democracia a não ser que também seja democrática.

"A democracia não se refere só à ordem do poder público do Estado, mas devem existir em todas as relações sociais, econômicas, políticas e culturais. Começa na relação interindividual, passa pela família, a escola e culmina no Estado. Uma sociedade democrática é aquela que vai conseguindo democratizar todas as suas instituições e práticas". Bóbbio (2002)

A adesão aos valores democráticos liberdade, pluralismo, resolução pacífica dos conflitos, eleições etc., e a participação política estão diretamente relacionados ao nível de escolaridade. O que afasta a maioria dos indivíduos da participação política são os valores neoliberais.

Nesta reinante concepção econômica e social o indivíduo tem valor de acordo com a sua capacidade de consumo. Somos tratados como consumidores e não como cidadãos. Ser cidadão significa lutar por seus direitos em todos os espaços. Assumir o valor da cidadania significa reafirmar o valor da solidariedade contra o individualismo, da cooperação contra o valor da competição.

De acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais, os PCNS, outra maneira de se trabalhar com os alunos os seus direitos de cidadão é utilizando a cultura.

Através disto, os alunos podem descobrir dentro dos esportes, música, teatro, leituras, pesquisa, das brincadeiras e dos jogos, conhecimentos necessários para que se possa fazer uma crítica dos valores sociais, que nos dias de hoje, estão cada vez mais voltados para os interesses de pessoas que possuem mais poder dentro da sociedade.

Na tentativa de propor uma educação comprometida com a cidadania, elegeram, com base em textos constitucionais, princípios pelos quais pode ser orientada a educação escolar, e que estão descritos no PCN-Temas Transversais / Ética a seguir:

Dignidade da pessoa humana, que implica no respeito aos direitos humanos, repúdio à discriminação de qualquer tipo, acesso a condições de uma vida digna, respeito mútuo nas relações interpessoais, públicas e privadas.

Igualdade de direitos que refere-se à necessidade de garantir que todos tenham a mesma dignidade e possibilidade de exercício da cidadania. Para tanto há que se considerar o princípio da eqüidade, isto é, que existam diferenças (éticas, culturais, regionais, de gênero, etárias, religiosas, etc.) e desigualdades (socioeconômicas) que necessitam ser levadas em conta para que a igualdade seja efetivamente alcançada.

Participação, que como princípio democrático, traz a noção de cidadania ativa, isto é, da complementaridade entre a representação política tradicional e a participação popular no espaço público, compreendendo que não se trata de uma sociedade homogênea e sim marcada por diferenças de classe, étnicas, religiosas, etc.

Co-responsabilidade pela vida social, que implica em partilhar com os poderes públicos e diferentes grupos sociais, organizados ou não, a responsabilidade pelos destinos da vida coletiva.

São estes pontos que o professor necessita para trabalhar o conceito de igualdade e democracia dentro do âmbito escolar. A educação escolar resulta ser um instrumento básico para o exercício da cidadania. Ela, entretanto, não constitui a cidadania, mas sim uma condição indispensável para que a cidadania se constitua. O exercício da cidadania nos mais diferente organismo sindicatos, partidos, etc. não se dão de modo cabal sem o preenchimento do requisito de acesso à cultura letrada e domínio do saber sistematizado que constituem a razão de ser da escola.

CONCLUSÃO

Não se pode, pois, dizer, que a sociedade atual carece de ética, de educação e de cidadania. O que ocorre é que ela tem uma ética, uma educação e uma cidadania que lhe são próprias e estão referidas a alguns princípios gerais e abstratos, subsumem, entretanto, valores concretos que consubstanciam a forma de vida própria da sociedade. Assim, os princípios da liberdade, igualdade, democracia e solidariedade humana são subsumidos pelos valores do individualismo, da competição, da busca do lucro e acumulação de bens os quais configuram a moral.E a educação é chamada, na sociedade para realizar a mediação entre ética e cidadania, formando os indivíduos de acordo com os valores requeridos por esse tipo de sociedade. Assim, pela mediação da educação, se buscará instituir, em cada indivíduo singular, o cidadão ético correspondente ao lugar a ele atribuído na escala social.

Uma nova cidadania acontece por intermédio dos currículos oficiais e, para isso, é necessário que os currículos sejam revistos. Acontece também em todos os demais espaços escolares e tudo necessita de um olhar novo para que saiamos do quadro de fracasso da instituição escolar no qual, sabemos, o país está imerso.

É necessário ensinar às nossas crianças e jovens não apenas a ler e a escrever, mas a olhar o mundo a partir de novas perspectivas. Ensinar a ouvir, falar e escutar, a desenvolver atitudes de solidariedade, a aprender dizer não ao consumismo imposto pela mídia, a dizer não ao individualismo e sim à paz.

Educar para a cidadania é adotar uma postura, é fazer escolhas. É despertar para as consciências dos direitos e deveres, é lutar pela justiça e não servir a interesses seculares. É uma urgência que grita e que deveria ecoar nos corações humanos e não nos alarmes das propriedades que tentam proteger a vergonha do que a civilização humana construiu. Para alcançarmos isso, não podemos ficar somente no ensinar para a cidadania. É preciso construir o espaço de se educar na cidadania. E nesse sentido, não é somente a preposição que muda. Muda a postura do professor que de cidadão que somente exige seus direitos passa a lembrar também dos seus deveres.

"É preciso plantar a semente da educação para colher os frutos da cidadania". Paulo Freire

Márcia Regina Cabral

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BOBBIO, Norberto. Teoria geral da política. Rio de Janeiro: Campus, 2002.
BOTO, C. A escola primária como tema do debate político às vésperas da República. Revista Brasileira de História. v. 19, n. 38, São Paulo, 1999.
BRASIL.Secretaria de Educação Fundamental.Parâmetros Curriculares Nacionais: Apresentação dos Temas Transversais,Ética.vol. 10. Brasília: MEC/SEF, 1997, 146pag.
DELORS, Jacques. Pensamentos .Acessado em:http://novospensamentos.blogs.sapo.pt/.Em 12 de outubro de 2008.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: Saberes Necessários à prática pedagógica. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997.
SIEGEL,Norberto. Fundamentos da Educação:Temas Transversais e Ética. Associação Educacional Leonardo da Vinci (ASSELVI).Indaial:Ed.ASSELVI,2005.119p

Fonte: artigos.netsaber.com.br

Cidadania

Educação, cidadania, exclusão

É preciso plantar a semente da educação para colher os frutos da cidadania. Paulo Freire

O lema da moda é educar para a cidadania. Slogan presente em todos os discursos oficiais e não-oficiais. Seria uma irresponsabilidade nos colocarmos contra esse princípio, que vem sendo defendido, não só no Brasil, mas em todas as nações, como um imperativo para que, pela educação, conquistemos melhoras na condição de vida de milhares de excluídos que vivem à margem da sociedade.

Essa observação inicial é para que fique bem claro que não estamos contra a proposta, muito pelo contrário. É por nos afinarmos com esse discurso que queremos discuti-lo.

Para isso, pretendemos fazer uma breve reflexão, articulando três termos: educação, cidadania e exclusão.

Educação é um conceito muito mais amplo que educação escolar. Mas aqui vamos nos restringir ao sentido de educação escolarizada, por entendermos que o momento brasileiro prioriza a articulação entre educação e cidadania nos discursos oficiais das políticas públicas e os sistemas educacionais formais são, muitas vezes, privilegiados nesses discursos. Fazemos, no entanto, um aparte, pois entendemos que outros espaços podem e, por vezes, atuam com maior eficiência na educação para a cidadania.

Mas, se escolhemos a educação formal como cumes dessa reflexão, para fazer eco aos discursos que consideram que é atribuição da educação formar cidadãos, de que cidadania estamos falando?

Cidadania se conjuga com democracia e talvez, uma viagem à Antiguidade Clássica possa nos ajudar a entender melhor o termo. Na Grécia antiga, cidadania se referia ao direito e também ao dever de determinados atores em participar das decisões da polis. O melhor cidadão era aquele que atuava para o bem-comum. O poder social era partilhado por todos, igualmente - deixando de lado o contexto e as considerações de que nem todos eram considerados cidadãos. Na modernidade, segundo o artigo de Lílian do Valle, professora da pós-graduação da UERJ e que fala em acordo com Walter Benjamim, o liberalismo acaba por descartar a igualdade e valorizar a liberdade. Assim, a ideia de liberdade vai se diferenciando da ideia de liberdade da Antiguidade.

Na modernidade, liberdade se identifica com a possibilidade de segurança dos direitos do indivíduo nas questões privadas. Essa diferença, que acentua os direitos e não mais os deveres, se faz necessária para ressaltarmos a ideia de cidadania como um argumento de controle social. E ressaltamos, para deixar claro, que não é o sentido que queremos trazer para essa reflexão.

Ser cidadão não é somente gozar de direitos políticos. É assumir a dimensão política do ser humano e participar da sociedade ativamente.

Mas como fazer isso preso ao mundo das necessidades básicas que restringem grande parte da humanidade?

Essa restrição tem, aqui, um duplo sentido: quantitativo e qualitativo. No sentido quantitativo porque são muitos os que se encontram presos à mera sobrevivência e qualitativo, porque não atuam politicamente, o que significa ter sua humanidade tolhida.

Passamos, então, a conjugar os termos educação e cidadania, num sentido político da educação, no qual formar o cidadão para a cidadania não é suficiente sem antes instituir o que seja essa cidadania e assumir a impossibilidade de muitos de exercê-la.

Chegamos, assim, ao terceiro termo que queremos analisar: a exclusão.

O conceito ganha força a partir da década de 1990, juntamente com a sua antítese, a inclusão. Educação, cidadania e inclusão passam a ser imperativos necessários a qualquer país na era planetária. A localização temporal do uso dos termos é proposital para chamar a atenção para o fato de que, a década anterior foi fortemente marcada pelo discurso de redemocratização, denunciador dos interesses econômicos que se opunham aos interesses sociais.

Esse discurso se dava por intermédio de palavras como desigualdade e pobreza, mas com a hegemonia do discurso neoliberal, os termos passam a ser substituídos por novos, como foi denunciado por Roberto Carneiro: "o novo nome da pobreza é a exclusão".

Mas será, simplesmente, uma troca de palavras para falarmos de velhos problemas, ou a linguagem indica mudanças de concepção e de abordagem? A doutora em educação Eneida Shiroma, que atua na Universidade de Santa Catarina, considera que a substituição é um deslocamento do foco de responsabilidade do estado para o indivíduo. Inclusão apela para a solidariedade, caridade, voluntarismo (trabalho não-remunerado). Ela cita Gray. J. que defende que a inclusão nada tem a ver com igualdade ou redistribuição e sim, significa elevar os pobres acima do limite de padrão mínimo.

Na verdade, a sociedade da informação não assistiu à melhoria das condições de vida da humanidade a partir dos avanços tecnológicos, ao contrário, bolsões de pobreza em todo o mundo alimentam e envergonham as nações ricas. Os excluídos são uma ameaça e, por isso, a unanimidade do conceito de inclusão. Mas como viabilizá-la?

A resposta é: pela educação. É isso que se espera na conjugação dos termos educação, cidadania e exclusão. Exclusão é o oposto de cidadania. E o sistema educacional é chamado a participar.

A partir daí surge o tema que nos é tão repetido: educar para a cidadania.

O perigo que a moda carrega é utilizar a ideia de cidadania no seu sentido de moldagem do indivíduo para a reprodução de um desempenho social absolutamente nefasto. Precisamos estar sempre atentos para o papel da educação formal que age, enquanto processo de ensino-aprendizagem e aquisição de cultura, muitas vezes (e por que não dizer, na maioria das vezes), como um grande sistema de reprodução cultural.

Educar para a cidadania pode ser: educar um sujeito "participativo", no sentido de colaborador do sistema, que ensina a passividade, ou educar para ser um sujeito crítico. Essa é a educação para uma nova cidadania.

A comissão Internacional para a Educação no séc. XXI, no relatório organizado por Delors, indica quatro pilares para a educação do futuro: aprender a conhecer, a fazer, a ser e a viver juntos.

Nessa nova missão da escola, a ideia de cidadania necessita renascer, não como um conceito que é aprendido. Cidadania não é uma lição a ser ensinada. È uma postura que precisa ser estimulada. Postura essa que possa fazer nascer em cada um, o sentimento do que é viver em prol do bem-comum. O conceito se refere sim a direitos e deveres civis e políticos, mas não podemos nos esquecer de que é necessário que esses direitos sejam pensados por meio de valores éticos. É necessário conjugar cidadania com diversidade, justiça, dignidade.

Não é uma opção ser cidadão. É uma possibilidade que dependerá de acessos econômicos, culturais e sociais. É ter acesso à saúde, lazer, educação de qualidade.

Cidadania é um espaço de construção compartilhado. E, aí, precisamos sair dos muros da escola, ainda que a escola ocupe um local, potencialmente, privilegiado na construção de uma postura crítica para essa construção. Mas precisamos estar atentos, a todo o momento, para o papel seletivo da educação, pois as oportunidades educacionais não são as mesmas para todos. Se a educação pode estar a serviço de um desenvolvimento humano que favoreça a inclusão, também pode estar reforçando a exclusão pela heterogeneidade de possibilidades que sabemos que acontecem na sociedade.

A educação para a nova cidadania acontece por intermédio dos currículos oficiais e, para isso, é necessário que os currículos sejam revistos. Acontece também em todos os demais espaços escolares e tudo necessita de um olhar novo para que saiamos do quadro de fracasso da instituição escolar no qual, sabemos, o país está imerso.

É necessário ensinar às nossas crianças e jovens não apenas a ler e a escrever, mas a olhar o mundo a partir de novas perspectivas. Ensinar a ouvir, falar e escutar, a desenvolver atitudes de solidariedade, a aprender dizer não ao consumismo imposto pela mídia, a dizer não ao individualismo e sim à paz.

Educar para a cidadania é adotar uma postura, é fazer escolhas. É despertar para as consciências dos direitos e deveres, é lutar pela justiça e não servir a interesses seculares. É uma urgência que grita e que deveria ecoar nos corações humanos e não nos alarmes das propriedades que tentam proteger a vergonha do que a civilização humana construiu. È ter no horizonte a consciência de que incluir, educar para a cidadania é muito mais do que transformar todos em consumidores eficazes. Essa é a armadilha neoliberal presente não somente no mundo da economia. A escola não pode ser a "fábrica" a esse serviço.

Como alerta Jurgo Torres Santomé:

"a escola se tornou um dos principais espaços por meio do qual os neoliberais e neoconservadores tratam de construir as novas subjetividades econômicas, individualistas e conservadoras que ajudarão a transformar cidadãos em consumidores".

Acredito que educar para a nova cidadania é a utopia dos que tem na educação a sua trincheira, mas talvez isso só seja possível quando a utopia for assumida por todos e, assim, possamos fazer um projeto de escola que valorize a pessoa humana, a dignidade necessária para todos.

Para alcançarmos isso, não podemos ficar somente no ensinar para a cidadania. É preciso construir o espaço de se educar na cidadania. E nesse sentido, não é somente a preposição que muda. Muda a postura do professor que de cidadão que somente exige seus direitos passa a lembrar também dos seus deveres. Que não se contenta com "fingem que me pagam e eu finjo que trabalho". Que se posiciona na luta. Que recupera a figura importante - que é - na formação de uma sociedade mais justa. Que saiba que ser cidadão é alcançar a dimensão política do homem, ser cidadão é condição fundamental para exercermos nossa humanidade. E isso não se alcança sem um posicionamento claro e atuante. Posicionamento que deve ser exposto tanto na sala de aula, como reflexo de um planejamento sério e comprometido, mas também nas conversas com os colegas durante os intervalos. Nas reuniões das entidades que decidem por nós e decidem com quoruns baixíssimos. É conjugar nossos direitos e fazer com que aconteçam, com que se ampliem, e que isso possa ser pensado não a partir dos benefícios individuais, mas também no bem-comum de toda a comunidade.

A educação para a cidadania constitui um conjunto complexo que abraça, ao mesmo tempo, a adesão a valores, a aquisição de conhecimentos e a aprendizagem de práticas na vida pública. Não pode, pois ser considerada como neutra do ponto de vista ideológico".

Giovânia Costa

Referências Bibliográficas

VALLE, Lílian. Modelos de cidadania e discursos sobre a educação. TEIAS: Revista da faculdade de educação/UERJ- n- 3( jun.2001)
SHIROMA, Otto Eneida. A outra face da Inclusão.TEIAS: Revista da faculdade de educação/UERJ - n.3 (jun. 2001).
GRAY, J. After social democracy. In: A outra face da inclusão.
SANTOMÉ, Torres Jurgo. A instituição escolar em tempos de intolerância.TEIAS: Revista da faculdade de educação/UERJ- n.3 (jun. 2001).

Fonte: www.educacaopublica.rj.gov.br

Cidadania

Cidadania como elemento integrante na Educação Física para o Ensino Médio

Introdução

O objetivo da Educação Básica, de acordo com a legislação educacional vigente, é assegurar a todos os alunos a formação comum indispensável para o exercício da cidadania e fornecer-lhes os meios para progredir no trabalho e em estudos posteriores.

De acordo com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), é na educação que devemos abranger os processos formativos que se desenvolvem na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais.

Observamos também, como princípios e fins da Educação Nacional, o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho, porém essa “cidadania” não pode ser outorgada ou cedida, ela deve ser uma conquista. Nestas tarefas os educadores possuem um papel muito importante que é o de provocar os alunos a conquistá-la.

A cidadania é nos dias de hoje uma questão bastante discutida na educação, mas sua concepção traz o perigo de uma abstração do seu conceito.

Ao analisarmos a história da cidadania percebemos que é uma grande conquista atualmente, podermos discutir e ampliar assuntos relevantes para a formação dos alunos, visto que já tivemos muitos fatos de violação à dignidade humana, e que ainda acontecem por falta de conscientização do próprio cidadão em relação aos seus direitos e principalmente, aos seus deveres. Mas será que realmente sabemos o significado dessa conquista? Será que os professores apresentam em seu planejamento, preocupação com o desenvolvimento desse assunto em suas aulas? Para pensarmos em como educar para a cidadania, precisamos entender primeiro o seu conceito e o porquê de sua importância.

A cidadania efetiva a participação da sociedade nas questões políticas, econômicas e principalmente sociais do país, logo ela deve ter lugar privilegiado na educação.

Superando a visão histórica que limitava a Educação Física na preocupação dos aspectos fisiológicos e técnicos, hoje se considera também as dimensões culturais, sociais, políticas e afetivas do aluno enquanto cidadão.

Essa visão enfatizou-se a partir dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), que indica uma nova condição: a de trabalhar na perspectiva da cultura corporal, ampliando a contribuição da Educação Física para o exercício da cidadania.

A Educação Física, sendo componente curricular obrigatório na escola, deve integrar o aluno na esfera da cultura corporal de movimento, formando cidadãos conscientes e capazes de transformar a sociedade.

Deste modo, é também dever da Educação Física apontar perspectivas metodológicas de ensino e aprendizagem que busquem o desenvolvimento da autonomia, da cooperação, da participação social e da afirmação de valores.

O papel do professor de Educação Física escolar, portanto, ao contrário do que muitos pensam, é desenvolver não só as capacidades físicas dos alunos, preocupando-se apenas com o aspecto motor, mas também preparar cidadãos críticos, comprometidos com a valorização da diversidade cultural, da cidadania e capazes de se inserirem num mundo global e plural.

Todos nós profissionais da área de Educação Física sabemos que não é apenas através do esporte que podemos construir um indivíduo de forma integral. De acordo com autores que estudam a respeito, devemos contextualizar o ensino dos esportes ou utilizar conteúdos interdisciplinares. Devemos também fazer uso dos elementos da Educação Física atual (esportes, danças, jogos e ginástica) e dessa forma explorar a cultura corporal do movimento, desenvolvendo não somente habilidades motoras, como também cognitivas e sócio-afetivas dos nossos alunos para alcançarmos efetivamente sua formação integral.

Diante da discussão acima, este estudo de revisão bibliográfica tem o objetivo de evidenciar a importância de se desenvolver a cidadania nas aulas de Educação Física do Ensino Médio. Acreditamos que este atributo auxiliará o professor a instigar o aluno a enfrentar o mundo atual como cidadão participativo, reflexivo e autônomo, conhecedor de seus direitos e deveres.

Por se esperar do Ensino Médio a formação da pessoa humana, do cidadão, do trabalhador e do futuro universitário e, por ser a cidadania qualidade essencial para o exercício dessas práticas, voltamos nossa pesquisa para esse nível de ensino, o qual consolida a Educação Básica.

O ensino médio, de acordo com a LDB, é voltado para a preparação básica para o trabalho e a cidadania do educando, para que continue aprendendo, de modo a ser capaz de se adaptar com flexibilidade a novas condições de ocupação ou aperfeiçoamentos posteriores.

Entendemos que a escola é um espaço fundamental para a formação da cidadania principalmente no ensino médio, e que a Educação Física, como todas as demais disciplinas, devem propiciar ações com funções de desenvolvê-la em seus alunos.

Educação para a Cidadania

Segundo Pinsky e Pinsky (2003), ser cidadão é ter direitos civis, políticos e sociais. O direito à vida, à liberdade, à propriedade, à igualdade perante a lei são exemplos de direitos civis. Os direitos políticos são os que defendem a participação do cidadão no destino da sociedade, como votar e ser votado. E os direitos sociais são aqueles que garantem a participação dos indivíduos na participação coletiva, ou seja, direito a educação, ao trabalho e salário justo, a saúde, a uma velhice tranqüila e etc.

    “Cidadão é o indivíduo que tem consciência de seus direitos e deveres e participa ativamente de todas as questões da sociedade. Tudo o que acontece no mundo, acontece comigo. Então eu preciso participar das decisões que interferem na minha vida. Um cidadão com um sentimento ético forte e consciência da cidadania não deixa passar nada, não abre mão desse poder de participação (...). A idéia de cidadania ativa é ser alguém que cobra, propõe e pressiona o tempo todo. O cidadão precisa ter consciência de seu poder”. (BETINHO apud MATTA, 2007, p. 11)

Quando procuramos pela palavra cidadania no novo dicionário Aurélio, Ferreira (1995) encontramos essa como “qualidade ou estado de cidadão” sendo cidadão o “indivíduo no gozo dos direitos civis e políticos de um Estado, ou no desempenho dos seus deveres para com este” (p.150 ).

De acordo com Silva (1997/1998) sobre a cidadania, a

    [...] escola é um espaço privilegiado desse processo de conscientização ao trabalhar com o conhecimento, valores, atitudes e formação de hábitos. Entendemos que a educação para formação da cidadania não pode ser vista como solução para todos os males da sociedade, pois a educação engendra-se no conjunto da sociedade e, conseqüentemente, reflete o modelo que a mesma se estrutura. Por outro lado, a educação para cidadania é um sonho possível, sim, se acreditarmos que a historia é feita pelos homens e que, portanto, está em permanente modificação e reconstrução (p. 220).

Segundo Cabral (2008) a educação é um instrumento básico e indispensável para o exercício da cidadania, afinal a sociedade utiliza a educação para mediar a ética e a cidadania, a fim de formar indivíduos de acordo com os padrões estabelecidos por aquela sociedade.

Pensando nisso, de acordo com Brasil (1997) o governo federal, através do Ministério da Educação e do Desporto, criou os Parâmetros Curriculares Nacionais - PCN’s, diretrizes que não apenas orientam a educação no Brasil, mas que através da interdisciplinaridade proposta pelos temas transversais buscam a construção da cidadania, a capacidade universal de agir civil e politicamente em liberdade, na plenitude do seu significado, e que se tornou uma conquista realizada em tempo histórico pelos seres humanos, ao mesmo tempo em que adquire o sentido de uma libertação. Libertação de tudo o que política e socialmente contrarie a afirmação da dignidade de cada pessoa cidadã considerada como sujeito de direitos, e da sociedade.

Nos Parâmetros Curriculares Nacionais, documento que busca auxiliar o professor na tarefa de assumir, como profissional, o lugar que lhe cabe pela responsabilidade e importância no processo de formação, encontramos a cidadania, também como parte integrante das discussões sobre questões importantes da sociedade, presentes na vida cotidiana.

Esses documentos complementam as orientações para a escola e professores e chamam-se: Temas Transversais.

Os objetivos e conteúdos dos Temas Transversais devem ser incorporados nas áreas já existentes e no trabalho educativo da escola, e esses apresentam questões que discutem a Ética, a Pluralidade Cultural, o Meio Ambiente, a Saúde, o Trabalho e Consumo e a Orientação Sexual.

O objetivo do tema Ética é o de propor atividades que levem o aluno a pensar sobre sua conduta e a dos outros a partir de princípios, e não de receitas prontas, é o de realmente afirmar a “educação moral”, expressão clássica na área de educação, isto é, trata de valores e normas do homem em sociedade. (BRASIL, 1997)

Como registra Grilo (2008) a cidadania, na sua prática, implica de cada indivíduo e do mundo que o rodeia uma tomada de consciência em contínua evolução, ou seja, acompanha as mudanças da temporalidade. Essas mudanças, bem como a tomada de consciência, se dá através da educação, onde, a cidadania assume um papel insubstituível na formação de cidadãos, fazendo com que cada pessoa se torne um agente de transformação.

Constatamos, portanto, que a cidadania é conteúdo de todos os temas transversais, porém pode ser observada de uma forma mais explicita no tema transversal “Ética”, que segundo os PCN’s é a reflexão sobre as condutas humanas para consigo mesmo e para com o próximo.

Esse tema se divide em quatro blocos de conteúdo: respeito mútuo, justiça, diálogo e solidariedade, os quais devem ser trabalhados em todas as disciplinas tendo um objetivo comum, a construção da cidadania através da educação.

Para Puig apud Marcílio (2007) a educação é resultado de duas linhas inseparáveis: instrução e formação, onde, instrução é a preparação dos jovens para a melhora do mundo dos saberes científicos, culturais e etc. e formação é a preparação dos jovens para se relacionar da melhor forma possível consigo mesmo, com os outros seres humanos e com as regras e normas que norteiam a vida social. ”Educar para a cidadania implica, portanto, a instrução e formação de um cidadão participativo” (p.89), levando em consideração o tempo e o lugar em que se vive com um apelo constante de conscientização e responsabilidade relativas também aos deveres de cidadão.

    Educar para cidadania é adotar uma postura, é fazer escolhas. È despertar para as consciências dos direitos e deveres é lutar pela justiça e não servir a interesses seculares. È uma urgência que grita e que deveria ecoar nos corações humanos e não nos alarmes das propriedades que tentam proteger a vergonha do que a civilização humana construiu. Para alcançarmos isso, não podemos ficar somente no ensinar para cidadania. È preciso construir o espaço de se educar na cidadania. E nesse sentido, não é somente a preposição que muda. Muda a postura do professor que de cidadão que somente exige seus direitos passa a lembrar também dos seus deveres. (CABRAL, 2008, p.5 ).

Por meio desta citação observamos a importância do professor no processo de formação de cidadania dos alunos. Como afirma Coll apud Guimarães et al. (2001) pessoas como os professores, os quais exercem um processo de influência social, são considerados significativos para aqueles influenciados, no caso, os alunos.

Deste modo a Educação Física, assim como as outras disciplinas, é responsável pela formação de atitudes e valores, que o professor deve desenvolver proporcionando aos seus educandos autonomia, questionamento do conjunto de regras e normas e consciência de uma série de comportamentos adequados para viver em sociedade (GUIMARÃES et al. 2001).

A discussão em torno do papel da escola na formação do cidadão, como registra Marcílio (2007) envolve diferentes opiniões, portanto o professor deve realmente entender o significado e a importância do seu trabalho, que em um primeiro momento visa a transmissão de conhecimento, mas que num segundo momento não pode negligenciar sua função como agente transformador e criador de uma consciência verdadeiramente cidadã em seus alunos.

Segundo Demo apud Pirolo (2005) a

    [...] educação é essencialmente auto-educação, ou seja, não é tanto obra de arte do educador, mas do educando. Além disso, a obra de arte do educador não será jamais fabricar o educando, o discípulo, o assecla, mas motivar magicamente as capacidades do educando, para que ele também seja educador (p.16).

Constatamos nas palavras de Demo que ao mesmo tempo em que nosso auxilio na formação do aluno é essencial, não é fator único e primordial para o desenvolvimento integral do mesmo.

Segundo Zimbres (2001) “devemos adotar uma política, na construção dos nossos conteúdos, que garanta simultaneamente a aquisição de conhecimentos básicos para o mundo de hoje e a formação da cidadania” (p.2). Afinal como afirmam os PCN’s “O compromisso com a construção da cidadania pede necessariamente uma prática educacional voltada para compreensão da realidade social e dos direitos e responsabilidades em relação à vida social e dos direitos e responsabilidades em relação à vida pessoal, coletiva e ambiental”. (BRASIL, 1997, p. 12).

Estamos vivendo um momento especial para a educação formal, a LDB de 1996 e os Parâmetros Curriculares Nacionais trouxeram grandes mudanças para a educação no Brasil. Dessas, umas das principais está na própria justificativa para a elaboração dos PCNs, que é a de “eleger a cidadania como eixo vertebrador da educação escolar” (BRASIL, 1997, p. 25), isto é, preocupar-se, durante todo o processo de formação do educando, com o desenvolvimento de princípios e valores e também de conhecimentos que propiciem a construção da cidadania para uma participação social ativa.

Para tanto, é necessário que o professor esteja bem preparado e consciente do seu papel neste processo, como bem registrado por Gouveia apud Silva (1998), quando apresentam que é importante que surjam cursos universitários, estudos e textos que discutam essas questões humanísticas.

A educação é o principal instrumento social para a formação da cidadania, é através da prática pedagógica que o professor deve possibilitar, ao educando, a transposição de um senso comum a um pensamento crítico e comprometido pelo projeto de sociedade na qual está inserida.

De acordo com Silva (1998), isto só é possível se a educação sensibilizar, promover a percepção e a reflexão que provoquem nos educandos a conscientização de sua cidadania. “O educador na sua prática, quer queira quer não, é um veiculador de valores. É nesse sentido que reside a ligação da forma de ensino com seu conteúdo” (BRACHT, apud GUIMARÃES et al., p. 19).

    “Ensinar o aluno a ser cidadão e cidadã é, exatamente, entre outras coisas, orientá-lo a agir com autonomia moral e capacidade de analisar e eleger valores para si, conscientemente e livremente. É orientá-lo, por exemplo, a ser responsável por sua própria eficácia, por sua felicidade, proatividade, a ser parte das soluções e não dos problemas, a ter senso de humor, ter caráter, integridade, maturidade, uma programação de vida, enfim, a reconhecer o próprio valor e sua dignidade como Ser, numa cultura espiritual mais elevada”. (PINHEIRO, 2009, p. 11)

Reconhecendo o aluno do Ensino Médio

Para que se alcance o objetivo de nossos esforços em promover a construção da cidadania, é preciso que estes esforços (estratégias de ensino) sejam cuidadosamente pensados para que possam ir ao encontro das reais necessidades da juventude atual, no nosso caso, os adolescentes do Ensino Médio.

Para tanto, se faz necessário reconhecer as características dos alunos deste nível de ensino, suas realidades e ideais que transparecerão em suas atitudes. Essa identificação dá suporte para que o professor selecione os caminhos ou situações de ensino que mais contribuirão para a aprendizagem significativa do aluno.

A utilização do verbo reconhecer, no parágrafo acima, justifica-se, pois de acordo com as Orientações Curriculares para o Ensino Médio, Brasil (2006), há a necessidade, principalmente dos educadores, de superar a visão estereotipada que se tem sobre os alunos, e partir para uma compreensão mais profunda, ou seja, entender os jovens como seres sócio-culturais, que possuem diferentes visões de mundo, valores, sentimentos, emoções, comportamentos e muitas outras peculiaridades.

Iniciaremos nosso aprofundamento discutindo sobre os termos adolescência e juventude que, ora são entendidos como sinônimos, ora como termos distintos, mas que se complementam.

A adolescência, no latim “Adolescere”, significa segundo Pfromm Netto (1976) a fase de crescimento e desenvolvimento. Para a Organização Mundial de Saúde a adolescência representa um processo fundamentalmente biológico, no qual ocorrem mudanças no desenvolvimento cognitivo, psicológico e físico, abrangendo as idades de 10 a 19 anos, divididas nas etapas de pré-adolescência (dos 10 aos 14 anos) e de adolescência propriamente dita (de 15 a 19 anos) (OMS/OPS, 1985 apud SILVA e LOPES, 2009).

O autor Pfromm Netto (1976) destaca alguns critérios utilizados com a finalidade de melhor entender a adolescência. O primeiro é o critério cronológico, no qual adolescência é um período da vida humana que se estende dos 10-12 anos aos 20-21, aproximadamente. Subdividi-se em pré-adolescência (10-12 anos), adolescência inicial (13-16) e adolescência final (17-21 anos). (p. 3).

O segundo critério, denominado desenvolvimento físico, é definido pela “etapa da vida compreendida entre a puberdade e a idade viril” (PFROMM NETTO, 1976, p. 3). Neste, a adolescência começa no início da puberdade e termina por volta dos vinte anos, quando o desenvolvimento físico está quase concluído.

No terceiro critério que é caracterizado pelo sociológico, o autor apresenta que a adolescência é definida como o período da vida em que muda o tratamento recebido por um indivíduo pela sociedade, pois ela deixa de encará-lo como criança, mas também ainda não o enxerga como adulto.

Já no critério psicológico, o autor registra que a adolescência é um período de extensa reorganização da personalidade, que resulta de mudanças no status biossocial entre a infância e a idade adulta.

O estudo da adolescência tem um passado longo, mas uma história breve, como consta na obra de Pfromm Netto, (1976), e registramos a seguir:

    “O longo passado começa com as cerimônias de iniciação dos primitivos e prossegue com especulações filosóficas e textos literário redigidos desde séculos anteriores a Cristo até o fim do século dezenove, nos quais, antes de se converter em objeto de pesquisas científicas, o adolescente é personagem ou tema de obras filosóficas, romances, poesias, novelas, biografias, peças teatrais. A curta história, isto é, a história do estudo científico da adolescência, pertence praticamente ao século vinte”. (p.12)

Percebemos que o estudo mais aprofundado sobre esta fase da vida é recente, mas encontramos na Grécia antiga, uma das primeiras tentativas de definição da adolescência, na qual o filósofo Aristóteles, através de suas obras:

“Retórica e na História dos animais”, descreve alguns traços psicológicos referindo-se aos adolescentes:

    “(1) Os adolescentes são concupiscentes e inclinados a fazer o que desejam”. (2) São especialmente atraídos e dominados pelos prazeres amorosos. (3) São mutáveis e facilmente fartáveis nas paixões. (4) Impetuosos, mas de pronto se acalmam, impulsivos que são, mas irresistentes (como a sede e a fome dos enfermos). (5) Ardorosos e irascíveis, deixam se conduzir pela cólera. (...) (PFROMM NETTO, 1976, p. 12)

Alguns autores classificam os adolescentes em tipos diferentes para tentar resolver o antagonismo existente entre a concepção de que esta é uma fase marcada por perturbações e crises e a de que pode ser uma fase de “desenvolvimento gradual, harmonioso, não conflitivo” (PFROMM NETTO, 1976, p. 9).

Conforme registro do autor, existem três padrões principais de desenvolvimento na adolescência.

No primeiro acontece uma verdadeira mudança de personalidade, advinda de uma fase denominada novo nascimento, repleta de crises e conflitos: “o adolescente ao atingir a maturidade, vê-se a si mesmo como outra pessoa” (p. 9). O segundo é caracterizado por um processo “lento e gradual”, não acontecem muitas mudanças na personalidade. No terceiro, o “adolescente participa de modo consciente e ativo”, este padrão é caracterizado pelo autocontrole e autodisciplina. (p.9).

Segundo Erikson (1976) apud Silva e Lopes (2009) outras teorias psicológicas definem a adolescência como uma fase da vida pouco valorizada. A teoria psicanalítica é uma delas, pois para ela a adolescência resulta do desenvolvimento que ocorre na puberdade e que altera o equilíbrio psíquico, produzindo uma vulnerabilidade da personalidade. Essas alterações podem levar a uma desvinculação da família e a um comportamento de oposição às normas/regras, engendrando novas relações sociais importantes à construção de uma identidade e, conseqüentemente, para a crise de identidade.

Ao analisarmos a adolescência em seu aspecto físico, contamos com a enorme colaboração de Gallahue e Ozmun (2005) importantes pesquisadores do desenvolvimento humano.

Para os autores, esta fase da vida sofre influência, tanto pela biologia como pela cultura. Da biologia, registra-se que este período é marcado pelo início da maturação sexual e pela cultura, porque acontece a busca pela independência financeira e emocional da família.

A adolescência como etapa do desenvolvimento humano, de acordo com Gallahue e Ozmun (2005) contemplava apenas pessoas entre os 13 e os 18 anos, mas atualmente inicia-se mais cedo, por volta dos oito anos e não termina até aproximadamente a idade de 20 ou mais. Eles explicam esse aumento do período da adolescência como uma função dos efeitos combinados da biologia e da cultura.

O início da adolescência é marcado por um aumento acelerado, tanto no peso como na estatura, mas devido à individualidade biológica, a idade do aparecimento desse surto de crescimento, bem como a duração e a intensidade variam consideravelmente de indivíduo para indivíduo.

O genótipo compreendido como o potencial de crescimento, estabelece os limites para o crescimento de um determinado organismo, já o fenótipo que é as condições ambientais, “possui influência marcante no alcance desse potencial de treinamento” (GALLAHUE e OZMUN, 2005, p.410).

Ainda conforme os autores, o genótipo atua nas medidas corporais lineares, maturação esquelética, maturação sexual e no tipo de corpo, ele é o responsável pela estatura adulta ereta final e o comprimento do tronco, braços e pernas. Também é de fator genótipo a ossificação, o início da puberdade e a forma como a gordura é distribuída pelo corpo. “Certas condições como peso corporal, dobras cutâneas e perímetros estão sujeitas à significativa modificação” (p. 410 )

Quanto à estatura, Gallahue e Ozmun (2005) apresentam que no final da infância, acontece um período de crescimento acelerado que recebe variados nomes como: surto de crescimento adolescente, período de aceleração pré-adolescente ou período circumpúbere, o que em termo mais popular é chamado de “estirão de crescimento”.

Os autores utilizam, em sua obra, o termo surto de crescimento adolescente e o conceitua como o primeiro indicador visual do aparecimento da puberdade. É um período que dura aproximadamente quatro anos e meio.

Para os meninos, esse surto inicia-se por volta dos 11 anos de idade, alcançam sua velocidade de chegada ao pico de altura (ritmo anual máximo de crescimento) por volta dos 13 anos e estabilizam-se aproximadamente aos 15 anos. Já para as meninas esse surto inicia-se dois anos antes, por volta dos 9 anos de idade, atingindo velocidade de chegada ao pico de altura aos 11anos e estabilizando-se por volta dos 13 anos de idade. (MALINA e BOUCHARD, 1991 apud GALLAHUE E OZMUN, 2005, p. 350).

Para Moreno e Del Barrio apud Leon (2005) a adolescência no ponto de vista cognitivo ou intelectual é caracterizada por profundas mudanças qualitativas na estrutura do pensamento. Piaget apud Leon (2005) apresenta que esse processo é denominado o período das operações formais “onde a atuação intelectual do adolescente se aproxima cada vez mais do modelo do tipo científico e lógico” (p.11).

Inicia-se também um pensamento social, em que o adolescente preocupa-se com sua identidade individual, coletiva e social, que contribuem para a compreensão de si mesmo e dos outros, desenvolvendo habilidades sociais, questionamentos sobre os princípios de ordem social e da aprendizagem moral (MORENO e DEL BARRIO, apud LEON, 2005).

Nesta fase ainda, ocorrem modificações no pensamento do adolescente, identificada por uma maior autonomia e rigor em seu raciocínio. Piaget de acordo com Barni e Schneider (2003) registram que é neste período que os adolescentes passam para o nível mais alto do desenvolvimento cognitivo que, conforme já citado, é a fase das operações formais, quando desenvolvem a capacidade do pensamento abstrato ou teórico. Essas abstrações ou teorias o fazem pensar por hipóteses, começando a refletir no futuro, a planejar seu trabalho no presente e futuro e a projetar o mundo para tornar possível a realização de seus sonhos e aspirações.

Outro fator importante da adolescência, de acordo com Barni e Schneider (2003)

    “é a formação da identidade, a construção da personalidade. Vários questionamentos surgem com relação ao seu corpo, aos valores existentes, às escolhas que deve fazer, ao que se exige dele, ao seu lugar na sociedade. E na solução dos questionamentos que aparecem neste período do desenvolvimento humano, três grupos sociais influenciam o adolescente na construção da sua identidade: a família, o grupo de amigos e a escola”. (p.9)

Os autores Marcos e Neira (2000) supõem uma homogeneidade no aspecto cognitivo, porém esclarecem que características individuais como experiências de vida e fatores regionais podem diferenciar o desenvolvimento cognitivo do adolescente.

Para Leon (2005) a responsabilidade de se compreender a adolescência tem sido atribuída à disciplina de psicologia, que parte da análise do sujeito em particular e que é considerada a maior colaboradora para compreensão desta fase da vida, como vimos anteriormente.

Segundo o autor, já a categoria juventude é de responsabilidade das ciências sociais e também humanas, em especial à sociologia, antropologia cultural e social, história, educação, estudos culturais, comunicação, entre outras. Mas ainda são encontradas muitas situações dentro da psicologia geral em que os termos, adolescência e juventude, são utilizadas como sinônimos, o que não acontece com tanta freqüência nas ciências sociais.

O conceito de juventude, de acordo com Leon (2005), foi construído ao longo da história, tendo colaboração dos contextos: social e cultural, e em permanente evolução, representou vários conceitos durante essa construção, dentre eles o de que “a juventude é concebida como uma categoria etária (categoria sociodemográfica), como etapa de amadurecimento (áreas sexual, afetiva, social, intelectual e físico/motora) e como sub-cultura (SANDOVAL, 2002 apud LEON, 2005 p. 12)”

Mas a adolescência também é delimitada por uma categoria etária, o que nos provoca a refletir sobre o que realmente diferencia e delimita estes dois termos.

De acordo com Leon (2005), geralmente tem-se utilizado para classificar a adolescência, a faixa etária entre os 12 e 18 anos, e para juventude, entre os 15 e 29 anos de idade. Para a Organização Mundial de Saúde (1985) apud Silva e Lopes (2009), a juventude estende-se no período etário dos 15 aos 24 anos, resumindo-se em uma categoria sociológica, um período de preparação no qual os indivíduos passam a assumir o papel de adulto na sociedade.

Assim, os termos se complementam, pois se pode entender que a juventude representa o momento em que o adolescente desenvolve efetivamente a preocupação social e enxerga-se como cidadão inserido em uma sociedade e não a parte dela, dispondo de direitos e deveres, e muito mais que isso, passa a ter o desejo de transformar, agora concretamente, sua realidade.

Por ser o termo juventude uma construção histórica, não podemos aqui generalizar esse significado a todas as pessoas, bem como, nossa intenção não é a de promover uma única definição, mas levantar a importância do entendimento desses conceitos para o objetivo do professor de Educação Física do Ensino Médio, reafirmando assim a necessidade de uma educação ética e moral para que o adolescente goze de sua juventude consciente de seu papel na sociedade, consciência esta que idealmente, precisaria ser construída através de orientações da família, do educando e do professor.

Desta forma, podemos verificar que a Educação Física, como componente curricular integrante da escola, tem a sua colaboração na construção do ser humano em desenvolvimento. Este aluno que freqüenta o ensino médio necessita de uma Educação Física que, por meio de seus conteúdos e das atividades desenvolvidas, possa colaborar na formação de sua personalidade e de sua participação ativa na sociedade.

Educação Física Escolar e o Ensino Médio

Sendo a escola um dos principais locais que contribuem para formação dos cidadãos, a mesma deve segundo Brasil (1997), desenvolver conteúdos que estejam de acordo com as questões sociais emergentes, para assim intervir efetivamente na formação de alunos capazes de exercer seus deveres e exigir seus direitos. Portanto, cabe à escola propor uma prática educativa adequada, que proporcione ao educando conhecimentos que possibilitem sua formação como cidadão autônomo, crítico e participativo capaz de atuar com competência e responsabilidade na sociedade em que vive.

Ao citarmos a escola, dentre os níveis de ensino da educação básica, focamos o ensino médio que segundo Mello (1999) deve formar um novo aluno, capaz de se adequar à condições de estudos posteriores e trabalho, que para muitos já se faz presente numa jornada dupla (trabalho e ensino médio), onde a maioria desses educandos já possuem grande responsabilidade para com a sociedade e mesmo para com a família que, em muitos casos, é menos instruída do que ele.

Deste modo todas as disciplinas têm o dever de desenvolver a cidadania com seus alunos, incluindo a Educação Física que:

    [...] constitui sua área de trabalho fundamentada nas concepções de corpo e movimento. Esta visão permitiu a superação de sua condição histórica limitadora que se restringia aos aspectos fisiológicos e técnicos. Hoje se considera as dimensões culturais, sociais, políticas e afetivas que constituem o corpus cidadão. Assim a Educação Física, a partir dos Parâmetros Curriculares Nacionais, assumiu uma nova condição: a de trabalhar numa perspectiva de cultura corporal, o que amplia a contribuição da Educação Física Escolar para o exercício da cidadania. (AHLERT, 2006, p.13)

A Educação Física escolar deve dar oportunidades a todos os alunos para que desenvolvam suas potencialidades, de forma democrática, objetivando aprimorá-los como seres humanos, em todas as suas dimensões. É nesse princípio de inclusão, que o processo ensino e aprendizagem deve buscar o desenvolvimento da autonomia, a cooperação, a participação social e a afirmação de valores. Uma vez que a linguagem do corpo não pode ser reduzida a um simples veículo de transmissão de informações e mensagens “de um ensinar e de um receber, porém objetiva firmar-se como espaço de interlocução e construção de cidadania”. (BRASIL, 2002, p.145)

De acordo com Santin citado por Barni e Schueider (2003) a Educação Física deve propor atividades que possibilitem eliminar as tensões físicas e psíquicas e também recuperar o equilíbrio afetado por atividades e posturas monótonas, produzidas pelas especialidades profissionais surgidas em função do desenvolvimento científico e tecnológico.

Verifica-se também que as práticas pedagógicas empregadas na Educação Física são decorrentes do processo histórico que ela passou para chegar a ser considerada componente curricular. No Ensino Médio, as práticas pedagógicas adotadas nas aulas de Educação Física, ainda focam a aptidão física e o rendimento, que são enaltecidos através da grande utilização do ensino dos esportes. (BARNI e SCHUEIDER, 2003)

Atualmente têm se levantado muitos questionamentos a respeito do verdadeiro papel da Educação Física escolar, afinal nas décadas passadas, segundo autores que estudam a respeito, a mesma já assumiu características higienistas, militaristas, eugenistas, de alto rendimento esportivo, dentre outras. Diante de tantas mudanças em seus objetivos, qual seria sua função hoje?

O que temos hoje, segundo Mattos e Neira (2000) é uma prática pedagógica que em pouco tem contribuído para o desenvolvimento da habilidade de aprender em nossos alunos, muito menos proporcionando formação ética.

Baseados na citação de Betti e Zuliani segundo Oliveira et al. (2010), podemos afirmar que o dever da Educação Física escolar é

    [...] “introduzir e integrar o aluno na cultura corporal de movimento, formando o cidadão que vai produzi-la, reproduzi-la e transformá-la, instrumentalizando-o para usufruir do jogo, do esporte, das atividades rítmicas e dança, das ginásticas e práticas de aptidão física, em benefício da qualidade da vida” (p 6).

Sendo nosso estudo voltado para o ensino médio que, conforme apresentado anteriormente, tem a função de preparar o educando para exercício da cidadania e deixá-lo apto para aprendizagens posteriores, deve a aula de Educação Física escolar proporcionar o maior número possível de vivências de práticas corporais, tanto de forma prática quanto teórica, formando assim um indivíduo que de acordo com Mattos e Neira (2000) deve adquirir uma ampla [...] “bagagem de conhecimentos que lhe permita atuar de forma eficaz sobre a manutenção de sua saúde, a gerência de seus momentos de lazer e a aquisição de um vocabulário motor que possibilite um diálogo social diversificado”. (p.10).

Deste modo, esses mesmos autores propõem que os conteúdos trabalhados neste nível de ensino sejam: o conhecimento corporal, aptidão física, saúde, ginástica, esportes, jogos, lutas e as atividades rítmicas e expressivas, ou seja, toda a gama de conhecimentos próprios da Educação Física atual. A Educação Física através destes conteúdos, que fazem parte da cultura corporal historicamente produzida, pode oferecer aos alunos “experiências que lhes façam adquirir um código ético, dentro de uma vivência da responsabilidade de suas ações diante do outro que lhe está próximo, e diante da realidade social como um todo” (GONÇALVES, apud BARNI e SCHUEIDER, 2003, p.9).

Mattos e Neira citado por Oliveira et al. (2010) afirmam ainda que é dever do professor de Educação Física recuperar o respeito perdido pela disciplina nas últimas décadas, participando efetivamente nos planejamentos escolares e colocando nossa disciplina no mesmo patamar das outras.

Afinal, mesmo após a criação dos PCN’s, a Educação Física Escolar, de acordo com Barni e Schudeider (2003) “em especial o Ensino Médio, é um componente que em grande parte das vezes, é marginalizado, discriminado, desconsiderado, chegando até por vezes a ser excluído dos projetos políticos pedagógicos de algumas escolas” (p. 2).

Por esse motivo o professor de Educação Física deve estar comprometido com sua atuação na escola e dominar diversos conhecimentos de sua área, desenvolvendo-os de forma organizada, uma vez que, segundo Barni e Schudeider (2003) “no ensino médio, as práticas pedagógicas mais observadas nas aulas de Educação Física, ainda são aquelas em que a aptidão física e o rendimento são enaltecidos através da grande utilização do ensino do desporto” (p.6).

Necessitamos tomar consciência do nosso dever perante a sociedade, principalmente para com nossos alunos, afinal no ensino médio talvez seja a última vez que os mesmos tenham a oportunidade de realizar atividades físicas orientadas ou mesmo supervisionadas por um profissional com nível superior. Felizmente, ainda que em alguns poucos casos, já vemos essa tomada de consciência em vigor, como citado por Barni e Schudeider (2003)

    “Podemos observar que novas propostas de prática pedagógica para Educação Física já se fazem presente no cenário nacional, porém de forma ainda restrita. Para que a Educação Física no Ensino Médio se torne reconhecida como um componente curricular relevante à formação integral do aluno, é necessário que o profissional da Educação Física tenha o domínio do conhecimento cientifico nas suas ações pedagógicas para substanciar junto aos demais saberes escolares, o valor da prática da Educação Física para a construção de novos cidadãos” (p.8).

De acordo com os registros apresentados pelos autores, constata-se que a disciplina de Educação Física, como parte integrante da escola, deve colaborar com a construção do ser humano em desenvolvimento. Neste contexto a Educação Física no Ensino Médio necessita, por meio dos conteúdos desenvolvidos, colaborar na formação da personalidade e da participação ativa desses adolescentes na sociedade.

É importante registrar também que a participação do professor de Educação Física é muito importante, porque no momento de sua prática pedagógica ele pode construir uma cidadania que tenha como alvo, a participação, a solidariedade, a cooperação, o diálogo e o questionamento tendo em vista a transformação da sociedade através da formação de cidadãos conscientes e críticos. (MARQUES et al, 2009)

    “A Educação Física no Ensino Médio precisa fazer o adolescente entender e conhecer o seu corpo como um todo, não só como um conjunto de ossos e músculos a serem treinados, mas como a totalidade do indivíduo que se expressa através do movimento, sentimentos e atuações no mundo”. (DAÓLIO apud MATTOS e NEIRA, 2000, p.94).

Diante disso, a principal luta da Educação Física no Ensino Médio, como registra Barni e Schueider (2003), deve ser a de torná-la um componente curricular relevante para o adolescente, onde ele possa perceber o mundo que o cerca, e qual o seu papel na construção de uma sociedade justa e igualitária.

Considerações finais

Percebemos na legislação vigente referente à educação básica, que a formação para a cidadania aparece como um dos principais elementos a serem trabalhados com os educandos em todas as disciplinas curriculares.

Na prática, no entanto, há uma grande dificuldade por parte dos professores de Educação Física em trabalhar esse conteúdo nas aulas, devido ao fato da disciplina ter assumido ao longo da história, características limitadas apenas ao aspecto motor e fisiológico, o que atualmente, vemos como possível resultado a má formação dos professores.

Hoje os professores já encontram subsídios para melhor desenvolver a construção da cidadania na escola, mas é necessário que os mesmos tenham o interesse de se comprometer com essa formação cidadã. O tema transversal ética colabora com a idéia de que esta é uma prática de responsabilidade de todos os educadores, e se apresenta como importante instrumento para essa formação que se faz imprescindível quando falamos em ensino médio.

Como vimos, a faixa etária compreendida pelo ensino médio corresponde, em sua maioria, aos adolescentes de 15 a 17 anos, período que necessita de especial atenção por parte dos educadores para efetivamente formar indivíduos aptos a atuar na sociedade de forma autônoma e participativa.

Podemos registrar ainda que, mesmo diante das dificuldades, se o professor estiver atento aos seus compromissos como educador e aos seus alunos e situações de aula, é possível uma Educação Física voltada para a formação de pessoas mais solidárias, críticas e participativas.

Deste modo cabe ao Professor de Educação Física sensibilizar-se com o verdadeiro papel de educador, contribuindo com o jovem e a sociedade por meio de sua prática pedagógica, formando cidadãos através da cultura corporal do movimento.

Diego Andrade da Silva

Paula Gomes da Crus

Solange de Oliveira Freitas Borragine

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Fonte: www.efdeportes.com

Cidadania

Cidadania na Escola

Escola é lugar de aprender, se divertir, encontrar os amigos e se preparar para o futuro. Passamos tanto tempo na escola que ela é como a nossa segunda casa. E como toda casa, a escola também deve ser bem cuidada. Não tem sentido sujar o chão, riscar as paredes ou quebrar as coisas que você e seus colegas vão usar o ano inteiro. Na escola existe um monte de coisas que se pode e que não se pode fazer. É um pouco difícil se acostumar a não conversar durante as aulas, a não riscar a carteira, a não gritar no corredor. Mas só se houver respeito a essas regras é que a escola poderá funcionar.

Além disso, as regras valem para todo mundo: os professores também têm horário para chegar, não podem faltar nem fazer bagunça. A escola é também como uma pequena comunidade: tem gente de todas as raças, idades, religiões e profissões. Saber respeitar e conviver bem com todos é uma arte, sejam alunos, professores ou funcionários. A escola é um mundo diferente daquele em que vivemos em casa, no clube ou na praia. Além de ser como a nossa segunda casa, a vida que levamos na escola é como uma segunda vida, cheia de descobertas e desafios. E um dos maiores desafios da vida é descobrir como viver com responsabilidade e respeito aos outros.

Viva a diferença

Todos os dias convivemos com pessoas muito diferentes de nós mesmos. Algumas são mais velhas, outras mais novas. Existem pessoas mais ricas e mais pobres, pessoas de raças diferentes (negros, mestiços, índios, orientais, brancos), de crenças diferentes (católicos, judeus, muçulmanos, budistas, etc.). Tem gente cabeluda e gente careca, alta e baixa, gorda e magra, de olhos claros e escuros, de nariz grande e pequeno. É gente de todo tipo!

E com toda essa diferença, veja só: todo mundo é igual. Não só por sermos todos seres humanos, mas iguais também perante a lei, segundo a Constituição do Brasil.

A atual Constituição foi elaborada em 1988 e é um conjunto de leis e normas que todos os cidadãos do país devem seguir. De acordo com essas leis, todos devem ser tratados da mesma maneira, sem discriminação, ou seja, sem levar em conta as diferenças de cada um. Bem, a igualdade de todos perante a lei está lá na Constituição. Mas na prática... quanta diferença! Existem uma coisa muito ruim chamada preconceito! Você sabe o que é?

FORA PRECONCEITO! Muitas pessoas sofrem com uma praga chamada preconceito.

O preconceito é irmão da discriminação, e quer dizer: a falta de tolerância ao diferente. Combater preconceitos e desigualdades sociais significa lutar pela cidadania. O quê? Você já quer sair por aí com sua capa de super-herói, em defesa dos fracos e oprimidos? Ah, saiba que existem maneiras mais práticas e eficientes de defender direitos iguais para todos.

Antes de tudo, por meio de atitudes pessoais, no dia-a-dia, com as pessoas com quem você convive: tratando a todos com respeito, sem se importar com a cor, a idade, a aparência, a condição social, a religião...

Fique ligado: às vezes a gente tem preconceitos que nem percebe... A UNIÃO FAZ A FORÇA! Outra maneira de fazer alguma coisa contra a desigualdade é se unir a mais gente que pensa da mesma forma. Algumas pessoas tiveram idéias ótimas para ajudar aqueles que sofrem algum tipo de preconceito, que são pobres, que passam fome, que não têm condições de estudar, que são vítimas de alguma doença e da discriminação que ela carrega (como a AIDS, por exemplo) , ou convivem com uma deficiência física. As ações comunitárias reúnem pessoas para ajudar aquelas que enfrentam dificuldades. Na maior parte das vezes esse trabalho é voluntário, ou seja, ninguém recebe dinheiro por estar lá ajudando. Muitas vezes os voluntários se reúnem e criam uma ONG (Organização Não Governamental), que é um tipo de empresa sem fins lucrativos. De um jeito ou de outro, essas pessoas se organizam para fazer da cidadania não mais uma palavra bonita no dicionário, mas uma maneira de construir um mundo melhor.

A Carta Magna

UMA CARTA CHAMADA CONSTITUIÇÃO A Constituição também tem outros nomes: Carta Magna, Carta Constitucional, Carta Política. Ela é a lei maior da nação. Nela estão escritas as normas que devem ser seguidas por todas as pessoas que vivem em um país. Regula desde a forma de governo até o funcionamento de empresas particulares, diz as responsabilidades e objetivos de cada um, os direitos e deveres do cidadão, enfim, fica de olho em tudo o que todos fazem.

A primeira Constituição do Brasil foi a de 25 de março de 1824, e o responsável por ela foi Dom Pedro I, que na época era o imperador. Essa Constituição não foi discutida nem votada e, de acordo com ela, praticamente todo o poder estava nas mãos do próprio Dom Pedro. Muitas coisas que eram impostas por lei nessa Carta, com o tempo, deixaram de ser.

Por exemplo, uma religião oficial para todos: o catolicismo. Depois vieram outras Constituições, cada uma reformulada de acordo com o momento político por que passava o Brasil e com as exigências da população, isto é, quando era possível exigir, pois nosso povo já passou por maus bocados.

Fonte: www.canalkids.com.br

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