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Cirrose Hepática

DEFINIÇÃO E ETIOLOGIA

A cirrose hepática pode ser definida anatomicamente como um processo difuso de fibrose e formação de nódulos, acompanhando-se freqüentemente de necrose hepatocelular. Apesar das causas variarem, todas resultam no mesmo processo.

As manifestações clínicas das hepatopatias são diversas, variando de alterações laboratoriais isoladas e silentes até uma falência hepática dramática e rapidamente progressiva. Esse espectro amplo reflete em parte um grande número de processos fisiopatológicos que podem lesar o fígado, e em parte a grande capacidade de reserva do órgão.

Estima-se que aproximadamente 40% dos pacientes com cirrose são assintomáticos. Uma vez que os sintomas se manifestam, no entanto, o prognóstico é severo e os custos econômicos e humanos são altos. A cirrose contabiliza cerca de 26.000 mortes por ano nos E.U.A., e mais de 228.145 anos potenciais de vida perdidos. O paciente com cirrose alcoólica perde em média 12 anos de vida produtiva, muito mais que a cardiopatia ( 2 anos ) e o câncer ( 4 anos ). Esses dados só reforçam a necessidade deum diagnóstico precoce.

Fígado com cirrose visto por laparoscopia
Fígado com cirrose visto por laparoscopia

A cirrose pode ser suspeitada quando há achados clínicos ou laboratoriais sugerindo insuficiência hepatocítica. Esses podem ser sutis como fadiga ou hipoalbuminemia ou severos como hemorragia por varizes. De qualquer modo, a evidência de insuficiência hepatocítica requer atitude imediata pelos benefícios potenciais do tratamento e pelo prognóstico reservado da cirrose estabelecida. Conseqüentemente, a investigação etiológica deve proceder paralela ao tratamento, pois o diagnóstico não é encontrado em mais de 30% dos casos.

Os diversos processos patogênicos que podem levar mais freqüentemente à cirrose podem ser vistos na tabela I.

Tabela I

Causas de Cirrose
Hepatite autoimune
Lesão hepátia induzida por drogas ou toxinas
Lesão hepática induzida pelo álcool
Hepatite viral B, C, D ou não-B não-C

Doenças metabólicas

Deficiência de a 1-antitripsina

Doença de Wilson

Hemocromatose

Distúrbios vasculares

Insuficiência cardíaca direita crônica

Síndrome de Budd-Chiari

Cirrose biliar

Cirrose biliar primária

Cirrose biliar secundária a obstrução crônica

Colangite esclerosante primária

Atresia biliar

Insuficiência congênita de ductos intra-hepáticos ( S. Alagille )

Cirrose criptogênica

História clínica

Fatores de Risco

Sexo

Homens: acima de 55 anos estão mais sujeitos a cirrose, doenças biliares e neoplasias hepatobiliares.

Mulheres: são mais sujeitas a hepatite autoimune quando jovens e na meia-idade, ou cirrose biliar primária acima dos 40 anos ( a última é 9 vezes mais freqüente em mulheres do que em homens ).

História familiar

A hemocromatose envolve mais homens que mulheres e é associado a diabetes, cardiopatia e pigmentação de pele. A deficiência de a 1- antitripsina é associada a doença pulmonar e aparecimento em pacientes mais jovens. A doença de Wilson é sugerida pela coincidência de anormalidades neurológicas e faixa etária mais jovem.

Fígado cirrótico
Fígado cirrótico

Hábitos pessoais e exposições: dentre todos os fatores, o etilismo merece ênfase especial devido à sua prevalência. Em homens, estima-se que o consumo de 60-80 gramas de álcool por dia por 10 anos estabelece risco para o desenvolvimento de cirrose ( em mulheres, 40-60 g ).

Antecedentes pessoais: episódios pregressos de hepatite, uso de drogas endovenosas, icterícia ou transfusões sangüíneas aumentam o risco de hepatites virais. Episódios prévios de pancreatite ou hepatite alcoólicas indicam consumo suficiente de álcool para desenvolver cirrose alcoólica. Colecistectomia e cirurgia biliar prévias representam maior risco para desenvolvimento de estenoses biliares e cirrose biliar secundária.

Tabela II

Fatores de Risco Doenças Hepáticas Associadas
História familiar Hemocromatose, doença de Wilson, deficiência de a 1-antitripsina, fibrose cística, talassemia
Etilismo ( geralmente > 50g/dia ) Cirrose alcoólica, esteatose hepática, hepatite alcoólica
Hiperlipidemia, diabetes, obesidade Esteatose hepática
Transfusão sangüínea Hepatites B e C
Doenças autoimunes Hepatite autoimune, cirrose biliar primária
Medicações Hepatopatias induzidas por drogas
Exposições parenterais ( drogadição, profissionais de saúde ) Hepatites B e C
Homossexualismo masculino Hepatite B
Colite ulcerativa Colangite esclerosante primária
História de icterícia ou hepatite Hepatites virais crônicas ou autoimune, cirrose
Cirurgia hepatobiliar Estenose dos ductos biliares

Sinais e Sintomas

Inespecíficos:

Fraqueza, adinamia, fadiga, anorexia

Caquexia: por (1) anorexia, (2) má- absorção de nutrientes por diminuição do fluxo de bile e do edema intestinal, (3) redução do estoque hepático de vitaminas hidrossolúveis e micronutrientes, (4) redução do metabolismo hepático e muscular pelo aumento das citocinas e (5) balanço alterado de hormônios que mantém a homeostase metabólica ( insulina, glucagon e hormônios tireoidianos ).

Equimoses e sangramentos espontâneos

Feminilização: por acúmulo de androstenediona, pode haver ginecomastia, atrofia testicular, eritema palmar e spiders ( abaixo )

Spider
Spider

Irregularidade menstrual, incluindo amenorréia

Encefalopatia

Hipertensão portal: retenção de sódio e água ( ascite e edema ), hiperesplenismo ( trombocitopenia ), shunts portossistêmicos ( hemorróidas e dilatação venosa em abdome ) e varizes esofágicas

Ascite
Ascite

Neuropatia autonômica

Específicos:

Etilismo: contraturas de Dupuytren, atrofia dos músculos proximais e neuropatia periférica;

Doença de Wilson: pode causar insuficiência hepática aguda com anemia hemolítica; pode se manifestar como cirrose associada a achados neurológicos por envolvimento dos gânglios basais ( distúrbios de movimento, tremores, espasticidade, rigidez, coréia e disartria ) e anéis de Kayser-Fleisher ( por deposição de cobre na membrana de Descemet )

Anéis de Kayser-Fleisher
Anéis de Kayser-Fleisher

Hemocromatose: pigmentação cinza metálica em áreas expostas ao sol, genitais e cicatrizes; artropatia das pequenas articulações das mãos, particularmente 2ª e 3ª metacarpofalangeanas;

Exames laboratoriais

Aminotransferases: lesão hepatocelular

Razão AST/ALT > 2 e AST < 300 UI/L: sugere lesão por álcool

AST e ALT equivalentes, altas em níveis maiores: hepatites virais, isquemia e outros

Elevação isolada de AST: investigar coração, músculos, rins, cérebro, pâncreas e eritrócitos

AST e ALT > 1000: necrose severa ( hepatites virais, toxinas e isquemia )

Fosfatase alcalina e g -glutamil transpeptidase: lesão ductal e colestase

FA > 4 vezes: altamente sugestiva de lesão ductal

Elevação isolada de FA: investigar ossos, córtex adrenal, placenta, intestino, rins e pulmões

GGT: eleva-se com o uso de álcool, barbitúricos e outras drogas

Bilirrubinas: colestase

Elevação de BD: colestase

Elevação isolada de BI: síndrome de Gilbert e hemólise

Albumina e tempo de protrombina: função sintética do fígado

Albumina ( ½ vida 28 d ): a redução sustentada para menos de 3 mg/dL sugere hepatopatia

Hipoalbuminemia: investigar enteropatia perdedora de proteínas, nefrose e desnutrição

Tempo de protrombina: prolongado mais que 3 segundos sugere hepatopatia

HEPATITES AUTOIMUNES

É uma inflamação hepatocelular de causa desconhecida que se caracteriza pela presença de hepatite periportal ( necrose em saca-bocado ) ao exame histológico, auto-anticorpos séricos relacionados ao fígado e hipergamaglobulinemia. Cirrose biliar primária, colangite esclerosante primária, colangite autoimune e outras hepatopatias crônicas que têm bases imunológicas, pelas suas manifestações colestáticas e pela resposta insatisfatória à corticoterapia, estão excluídas dessa entidade.

CRITÉRIOS DIAGNÓSTICOS

Segundo o Grupo Internacional de Hepatite Autoimune, esta é definida como " uma hepatite predominantemente periportal, usualmente com hipergamaglobulinemia e auto-anticorpos tissulares, que geralmente responde à terapia imunossupressora ". Esta é, portanto, uma definição muito imprecisa, uma vez que os mecanismos exatos da doença ainda não estão estabelecidos.

Abaixo, um guia auxiliar para o diagnóstico1 ( tabela III ):

Tabela III

Diagnóstico Definitivo Diagnóstico Provável
Níveis séricos normais de a 1-antitripsina, cobre e ceruloplasmina Níveis séricos anormais de cobre ou ceruloplasmina, mas doença de Wilson descartada
Sorologia negativa para IgM anti-HAV, HBsAg, IgM anti HBc e anti-HCV Anti-HCV pode estar presente, mas sem infecção ativa
Sorologia negativa para CMV e EBV Idem
Ausência de hemotransfusão Idem
Ingestão etílica < 35 g/d para homens e 25 g para mulheres Ingestão etílica < 50 g/d para homens e 40 g para mulheres
Sem uso recente de drogas hepatotóxicas Uso recente, mas com doença ativa após suspensão da medicação
Quaisquer alterações de transaminases ( mas com níveis maiores que a fosfatase alcalina ) Idem
Gamaglobulina, IgG ou globulinas totais > 1,5 vezes o normal Qualquer elevação
SMA, ANA ou anti-LKM1 > 1:80 em adultos ou 1:20 em crianças Títulos > 1:40 em adultos e 1:10 em crianças
Histologia hepática mostrando necrose em saca-bocado de moderada a severa com ou sem hepatite lobular ou necrose centro-portal em ponte Seronegatividade aceitável se os demais auto-anticorpos hepáticos estiverem presentes
Ausência de lesões biliares, granulomas, deposição de cobre ou outros achados sugerindo outros diagnósticos Idem

Um escore para o diagnóstico da hepatite autoimune está resumido na tabela IV. Nele, podemos separar os pacientes em duas categorias: a dos pacientes ainda não tratados e outra na qual estes já receberam terapia imunossupressora. Como aspecto primordial na definição da doença, a resposta ao tratamento ( ou a presença de episódios de recaídas, característicos ), são importantes no diagnóstico. Apenas 2 % dos pacientes com outras hepatopatias crônicas apresentam score suficiente para o diagnóstico definitivo de doença autoimune, mas 32 % alcançam score de doença provável.

Tabela IV

Critérios diagnósticos
Gênero   Consumo de álcool  
Feminino +2 < 25 g/d +2
Fosfatase alcalina / AST   > 60 g/d -2
> 3 vezes -2 Outra doença autoimune  
< 3 vezes +2 Paciente ou parente +1
Gamaglobulina ou IgG   Achados histopatológicos  
> 2,0 vezes +3 Hepatite lobular e necrose em ponte +3
1,5 - 2,0 vezes +2 Necrose em ponte +2
1,0 - 1,5 vezes +1 Rosetas +1
< 1,0 vezes 0 Infiltrado plasmocitário intenso +1
ANA, SMA ou anti-LKM1   Alterações biliares -1
> 1:80 +3 Alt. sugest. de outra patologia -3
1:80 +2 Fenótipos HLA  
1:40 +1 B8-DR3 ou DR4 +1
< 1:20 0 Resposta ao tratamento  
Anticorpo antimitocôndria   Completa +2
Positivo -2 Parcial 0
Marcadores virais   Falência 0
IgM anti-HAV ou HBsAg -3 Sem resposta -2
HCV RNA -3 Recaídas +3
Anti-HCV / RIBA -2    
Todos negativos +3 Score Diagnóstico  
Drogas   Pré-tratamento  
Sim -2 Definitivo > 15
Não +1 Provável 10-15
Hemotransfusão   Pós-tratamento  
Sim -2 Definitivo > 17
Não +1 Provável 12-17

HEMOCROMATOSE HEREDITÁRIA

É hoje considerada uma das doenças autossômicas recessivas mais comuns, acometendo uma em cada 300 pessoas na população branca nos E.U.A. O locus da doença está localizado no cromossomo 6, mas sua ação ainda está sendo investigada. Ocorre um aumento na absorção intestinal de ferro, com acúmulo deste e dano oxidativo dos órgãos parenquimatosos.

As aminotransferases ( AST e ALT ) estão pouco aumentados ( < 100 ) em 65% dos pacientes. O aumento dos níveis séricos de ferritina e transferrina, em pacientes com história familiar de hemocromatose, apresenta sensibilidade de 94% e especificidade de 86%. Elevações extremas de ferritina ( >100.000 ) podem ser encontradas na histiocitose maligna. Algumas patologias que costumam causar aumento da ferritina sérica podem ser vistas na tabela VI.

Tabela VI

DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL

1. Desordens do metabolismo de carboidratos:

a) desordens da estocagem de glicogênio;
b) galactosemia;
c) intolerância hereditária a frutose.

2. Desordens do metabolismo de proteínas ou aminoácidos:

a) tirosinemia
b) defeitos do ciclo da uréia.

3. Desordens da oxidação de ácidos graxos.

4. Desordens do metabolismo de bilirrubinas e ácidos biliares:

a) Crigler Najjar tipos I e II;
b) defeitos da síntese de ácidos biliares.

5. Desordens de estoque:

a) deficiência de a 1-antitripsina;
b) estoque lisossomal.

6. Desordens do transporte de íons:

a) fibrose cística;
b) doença de Wilson.

7. Desordens metabólicas idiopáticas:

a) hemocromatose neonatal;
b) síndrome de Reye.

O padrão ouro para o diagnóstico da hemocromatose hereditária é a biópsia com demonstração da deposição de ferro através de espectrofotometria. Em um estágio avançado, pode haver fibrose portal, cirrose, deposição ductal de ferro e carcinoma hepatocelular. Este último porque os focos de ferro livre parecem ser lesões pré-malignas.

DOENÇA DE WILSON

A Doença de Wilson, ou degeneração hepatolenticular, é um distúrbio autossômico recessivo do metabolismo do cobre, com uma prevalência de 1:30.000. Esses pacientes acumulam progressivamente o cobre da dieta, que eventualmente se torna tóxica ao fígado, cérebro, rins e outros órgãos.

Vários exames laboratoriais auxiliam o diagnóstico. A excreção urinária de cobre é maior que 1,6 m mol ( 100 m g ) em 24 horas na maioria dos pacientes. Os níveis séricos de ceruloplasmina, uma proteína carreadora de cobre, é tipicamente baixa ( < 200 mg/L ). Como a doença pode apresentar-se como uma anemia hemolítica, o teste de Coombs negativo pode sugerí-la. Ocorre também hiperuricemia, associada a um defeito tubular renal. Há elevação apenas discreta de AST e ALT, com predomínio de AST e aumento leve de fosfatase alcalina em relação ao de bilirrubinas. O padrão ouro no diagnóstico é a biópsia hepática, com determinação da concentração de cobre por espectrofotometria.

Fonte: www.hepcentro.com.br

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