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Civilização Árabe

 

 

CIVILIZAÇÃO ÁRABE, ESSA DESCONHECIDA

Parece incrível, mas na era da "aldeia global", da internet, da globalização, das comunicações instantâneas, nós, povos ocidentais, continuamos quase tão ignorantes acerca da civilização árabe quanto éramos antes de tudo isto.

Se levarmos em conta que a religião está intimamente ligada àquela cultura, veremos que conhecer a crença muçulmana é mais do que meio caminho andado para se entender o modo de vida dos povos do Oriente Médio.

Seria mais do que pretensão da minha parte, seria ridículo, se declarasse que conheci a cultura islâmica nestes vinte e poucos dias em que estive na Turquia e no Egito, além da Grécia. Mas não é menos verdade que pelo menos tive com ela um contato superficial que eliminou algumas dúvidas e perplexidades.

Quando estive no Marrocos em 1991 fiquei chocado ao deparar, em Casablanca, com ostensiva prostituição. É bem verdade que isto sucedeu apenas em Casablanca, mas mesmo assim foi uma surpresa e tanto encontrar-me com a mais velha e também a mais indigna das profissões numa cidade islâmica.

A chamada "dança do ventre", uma coreografia sensualíssima, uma quase rival do nosso samba saracoteado nos desfiles carnavalescos, também me intrigava, porque achava no mínimo uma incoerência; um contraste sem explicação, a permissão para aquele espetáculo e a exigência de que as outras mulheres se cobrissem dos pés à cabeça, incluindo a própria face. Bem, nestes aspectos ainda continuo com algumas dúvidas apesar das explicações pouco convincentes de Faruck – o nosso Guia egípcio.

Todavia, os aspectos fundamentais do maometismo pude entender, pelo menos superficialmente, e penso que podem ser resumidos nos seguintes postulados:

Não existe outro Deus, exceto Allah, sendo Maomé o seu Profeta e último representante na Terra;
Todo muçulmano é obrigado a orar pelo menos cinco vezes durante o dia, em horários preestabelecidos;
Praticar a caridade através da distribuição anual de algum bem e dar esmolas aos menos favorecidos;
Jejuar desde o amanhecer até o pôr do Sol durante o mês sagrado do Ramadan;
Peregrinar a Meca – terra natal do Poeta Maomé – pelo menos uma vez na vida.

De acordo com as informações que obtivemos, a mulher muçulmana seria muito mais valorizada do que aquilo que se presume aqui no ocidente.

No Marrocos é vedada a entrada de "infiéis" em Mesquitas.

No Cairo visitamos duas delas: a de Mouhamed Ali e a do Sultan Hassan. Nesta última o nosso Guia nos repassou várias outras informações sobre sua religião que, pelo menos para mim, foram surpreendentes. Estávamos todos descalços, e as mulheres, além disto, com a cabeça e o colo protegidos (ou escondidos) por um véu. Ficamos sentados no chão, formando um semicírculo. Ele falou que um homem muçulmano poderia ter tantas mulheres quantas quisesse; haveria entretanto, segundo ele, duas condições.

A primeira delas, apesar de humilhante, sob o meu ponto de vista, seria razoável e exeqüível para os padrões da cultura islâmica: que o marido detivesse condições econômicas e financeiras a fim de alimentar a todas, bem como aos seus filhos.

Já a segunda pareceu-me um pouco uma espécie de "barra forçada": que a (as) outra(s) mulher (es) concordasse(m) com tudo isto uma vez que o marido é obrigado por lei a tratar muito bem a todas as suas esposas. Será que haveria alguma delas suficientemente corajosa a fim de vetar a poligamia do parceiro?

Outra "regalia" que, segundo Faruck, seria dispensada à mulher é, no mínimo, curiosa. O marido supostamente traído por qualquer uma das suas concubinas poderia repudiá-la sumariamente sem um "tchau" e sem um centavo de pensão alimentícia. Mas para isto ele deveria apresentar perante o Ulemá (o juiz), no mínimo três testemunhas que garantissem ter visto a mulher em pleno coito com o estranho. Fez questão de insistir que não adiantava presenciar o homem em cima da mulher, mas seria compulsório jurar perante Allah, ter visto com os próprios olhos que a terra haverá de comer, a efetiva penetração.

Há mais: em caso de falso testemunho, o coitado daquele misto de detetive, mágico, ginecologista e homem invisível, seria sumariamente executado. Para não perder o meu amigo, digo, o meu guia, fingi acreditar.

Quanto aos outros aspectos sociais, as mulheres muçulmanas deteriam os mesmo direitos dos homens no que se refere à educação, propriedade privada, escolha da profissão e participação na administração pública.

A fim de corroborar a veracidade desta informação, devo declarar que quando estive em Paris em Julho de 1989 durante os festejos do Bicentenário da Revolução, vi pessoalmente a primeira ministra paquistanesa Benazir Bhutto. Aquelas sociedades que oprimem e discriminam as suas mulheres não parecem proceder assim pelo fato de adotarem a religião islâmica, mas, "apesar disto".

Homens e mulheres se vestem com simplicidade, sem nenhum luxo e destituídos da sofisticada moda burguesa que caracteriza a civilização ocidental. Este último aspecto não precisava ser relatado. Qualquer estrangeiro poderá comprovar isto pessoalmente. Basta olhar ao seu redor.

Fonte: www.raymundosilveira.hpg.ig.com.br

Civilização Árabe

A conquista árabe conheceu 3 estágios.

O primeiro foi militar e político, com o avanço dos exércitos árabes no primeiro século.

O segundo foi religioso, tendo principiado com o segundo século do Islã. Durante este período, a maior parte da população do império se converteu ao Islã. O terceiro estágio foi lingüístico, a vitória da língua árabe.

Em 830, a famosa “Casa da Sabedoria” se estabeleceu em Bagdá, era uma combinação de biblioteca, academia e centro de traduções, que foi sob vários aspectos a instituição educacional mais importante desde a fundação do Museu de Alexandria, no Egito, no Século III a.C. Todos os trabalhos dos filósofos gregos Aristóteles, Hipócrates, Galeno e Platão eram, graças às traduções, acessíveis ao leitor árabe.

Os árabes assimilaram a cultura grega e antiga e fizeram uma harmonização do pensamento grego com os ideais islâmicos. Os árabes produziam na medicina, astronomia e na alquimia. Os médicos árabes costumavam visitar diariamente as prisões para controlar a higiene pública. O primeiro hospital do Islã foi estabelecido no Século IX. As clínicas ambulantes apareceram no Século XI. Os hospitais tinham cada um seu próprio dispensário. Alguns eram equipados com bibliotecas médicas e davam cursos de medicina.

Al Razi, médico árabe do Século X, foi, até o Século XV, a fonte principal do conhecimento químico na Europa. A Enciclopédia Médica de Avicena, médico e filósofo árabe, foi a “bíblia” para a educação médica nas escolas da Europa até o Século XVII. Os árabes fundaram a mais antiga escola de farmácia. Já no Século IX, os farmacêuticos tinham de passar por um exame, e os médicos, de se submeter a provas.

A astronomia se desenvolveu para posicionar as mesquitas na direção de Meca.

O pai da alquimia árabe foi Jabir Ibn Hayyan, que deu seu nome – Al Jabir - à álgebra.

Contribuições Feitas ao Ocidente

Os portais das instituições educativas da Espanha muçulmana, à partir do Século VIII, ostentavam a famosa inscrição: “O mundo é sustentado por quatro coisas apenas: a sabedoria do sábio, a justiça do grande, as preces do justo e a coragem do bravo”. É significativo que a sabedoria venha em primeiro lugar nesta declaração européia dos ideais muçulmanos.

A sabedoria muçulmana penetrou no pensamento europeu. A Espanha maometana escreveu um dos capítulos mais brilhantes na história intelectual da Europa Medieval. Entre a metade do Século VIII e o início do Século XIII, os povos que falavam árabe eram, por todo o mundo, os principais portadores da tocha da cultura e da civilização. Os agentes da ciência e da filosofia antigas, que foram por eles recobradas, desenvolvidas e transmitidas, possibilitando assim o Renascimento na Europa ocidental. Os árabes marcaram a Espanha na poesia, na literatura, na música, na arquitetura, nas ciências, na astronomia e na medicina.

Várias das cidades espanholas possuíam o que podiam ser chamadas de universidades, das quais as principais eram as de Córdoba, Sevilha, Málaga e Granada.

Ao lado das universidades floresceram as bibliotecas. Este acúmulo de livros na Andaluzia (Espanha) não teria sido possível se não houvesse a fabricação local de papel de escrever, uma das mais benéficas contribuições do Islã à Europa. Esta indústria de papel passou à Espanha no Século XII (palha de trigo).

Também um dos termos matemáticos mais interessantes tomados do árabe é o “zero”. Eles ensinaram aos ocidentais o emprego desta tão útil convenção.

Arquitetura

A suprema expressão da arte mulçumana foi a sua arquitetura religiosa, só dois monumentos arquitetônicos das mais nobres estruturas do Islã existem até hoje, que são: A mesquita Omíada de Damasco e a Cúpula do Rochedo de Jerusalém.

Os arquitetos árabes desenvolveram um plano de construção simples e capaz de expressar o espírito da nova religião. Assim temos na Mesquita (nome derivado de masjid, que quer dizer um lugar em que se prostra) um epítome da história do desenvolvimento da civilização islamítica nas suas relações interraciais e internacionais.

A mesquita simples de Maomé consistia de um pátio descoberto, cercado por paredes de argila endurecida pelo sol. O teto era formado por troncos de palmeiras que eram usados como colunas, as quais sustentavam na cobertura de folhas de palmeira e barro. Um tronco também de palmeira enterrado no solo, no começo servia como o púlpito de onde o profeta se dirigia a congregação. Mais tarde, foi substituído por uma pequena plataforma de madeira com três degraus, copiada das que se vêem nas igrejas cristãs na Síria.

A arquitetura da casa é bem especial. A porta de entrada de cada casa dava da rua, para um pátio, do qual no centro se encontravam um grande tanque de água dotado de um jato fluente que lançava periodicamente um borrifo como se fosse um véu. Uma laranjeira ou uma cidreira estavam plantadas perto do tanque. Os quartos rodeavam o pátio , que nas maiores casas eram dotado de um peristilo. A peça mais importante da mobília do lar passou a ser o divã, um sofá que se estendia ao longo de três lados da sala, com almofadas colocadas sobre colchões. Os tapetes tecidos a mão são os principais na decoração.

No Século X Bagdá jactava-se de ter cerca de 21.000 casas de banhos públicos, servidos de água corrente quente e fria, os banhos tinham-se tornados populares para homens. As mulheres usavam os banheiros públicos em dias reservados.

Uma tradição profética dizia “A limpeza é uma parte da fé”. A limpeza e as boas maneiras eram coisas importantes numa pessoa.

Um autor árabe do século IX escreveu sobre as maneiras de um homem culto, um cavalheiro daquele período: “Era um homem que se fazia notar pelo comportamento cortês, honra máscula e maneiras elegantes, que se abstinha de gracejar, que era amigo das pessoas bem consideradas dotado de altos padrões de veracidade, escrupuloso no cumprimento de promessas e capaz de guardar segredos que lhe fossem confiados. Não vestia roupas sujas ou remendadas e ao comer não enchia a boca com alimentos, conversava ou ria pouco, mastigava sua comida devagar, não lambia os dedos, evitava o alho e abstinha-se de palitar os dentes nos toucadores, casas de banho, encontros públicos ou nas ruas.”

Na arte, os teólogos mulçumanos eram hostis a todas as formas de arte representativa, proibidas pelo Alcorão.

No Islã, a pintura pôs-se a serviço da religião. A pintura mulçumana de caráter religioso só aparece realmente nos princípios do século XIV, influenciada pela arte das igrejas cristãs orientais, como base de seu desenvolvimento a decoração de livros.

Os caracteres do alfabeto arábico prestavam-se aos desenhos decorativos e passaram a ser um importante motivo na arte islamítica. A caligrafia seja talvez a única arte árabe que se tem atualmente representantes cristãos e mulçumanos em Constantinopla, Cairo, Beirute e Damasco. E suas produções excedem em elegância e beleza a qualquer das obras primas que os antigos produziram.

Um ditado antigo mostra a importância da língua escrita e falada para os povos árabes: “A sabedoria desceu a três coisas, O cérebro dos francos (europeus), as mãos dos chineses e a língua dos árabes.”

Clima e terreno

Região de clima seco e quente.

O Império Árabe começou em Medina, na Península Arábica, no que hoje é conhecido como a Arábia Saudita.

O interior é geralmente inóspito deserto - árido, arenoso e quente, com temperaturas de verão chegando a 130 graus F. Medina e Meca ocupam as regiões costeiras mais férteis ao longo do Mar Vermelho.

A CIVILIZAÇÃO ÁRABE E SUA INFLUÊNCIA NA CIVILIZAÇÃO OCIDENTAL

Porque falar do Mundo Árabe?

O Mundo Árabe é uma região rica em cultura e em tradições, participou muito do desenvolvimento da Europa na Idade Média até o Século XV e também influenciou indiretamente a América Latina através das culturas portuguesa e espanhola, que se espalharam nesta parte do mundo.

O que é o Mundo Árabe?

O Mundo Árabe é hoje um conjunto de países, da Península Arábica, do Oriente Médio e do norte da África. Os legítimos árabes são da Península Arábica. Os países do Oriente Médio descendentes dos povos cananeu e fenício, que se misturaram com os árabes. Os países do norte da África tem mais a influência africana com os povos berberes, originários da região. Todos esses países têm a língua árabe clássica em comum e fazem parte da Liga dos Países Árabes, cuja sede é no Egito.

Foi na Península Arábica que surgiu a religião muçulmana, no Século VII. Essa área era conhecida como um deserto habitado por beduínos.

Quando falamos do Islã, não devemos nos esquecer que há também cristãos em países árabes, como a Síria, o Líbano, o Egito, o Iraque, sendo que neles os islâmicos são a maioria.

Na cidade de Meca, hoje um lugar de peregrinação dos muçulmanos, havia uma divindade chamada Alá, que não era a única cultuada ali. O nome Alá é antigo. O povo de Meca acreditava que Alá era o criador, o provedor supremo, o deus que devia ser invocado por ocasião dos maiores perigos.

Não tardaria a soar dos lábios de um homem de Meca a maior frase da língua árabe, que galvanizaria o povo do deserto: “La ilaha illa lah” (Só há um Deus, que é Alá).

O Islamismo

Os muçulmanos denominam a época anterior ao aparecimento de Maomé de período Jahiliya – “era da ignorância” (de Deus). Nessa época, enquanto as estátuas e a arquitetura gregas eram glorificadas, os árabes se glorificaram na literatura e na expressão refinada.

Um adágio peninsular diz: “a beleza do homem reside na eloqüência de sua língua”.

O triunfo do Islamismo foi, até certo ponto, o triunfo de uma língua ou, mais precisamente, de um livro: o Alcorão. Não há no mundo povo algum, como o árabe, que tenha cultivado uma admiração tão entusiástica pela expressão literária e pela palavra, falada ou escrita. Os árabes antigos não criaram nem desenvolveram qualquer grande arte como a oratória.

O profeta Maomé nasceu por volta do ano 571, na cidade de Meca, na Arábia Saudita. Aos 25 anos de idade se casou com Khadija, viúva de um rico mercador com quem teve 4 filhos. Aos 40 anos, Maomé recebeu a revelação de Deus, que lhe foi trazida pelo Anjo Gabriel, e mais tarde transcrita no Alcorão, que significa “recitação”. Grande parte da força do Alcorão se consubstancia em suas rimas, em sua retórica, em sua cadência e em seu ritmo, que se perdem em suas traduções para outros idiomas.

Maomé conseguiu erigir uma organização social usando a religião como base, ao invés dos laços de sangue. Assim, o laço mais vital das relações árabes até então – o laço consangüíneo ou tribal – foi substituído por um novo, o da fé.

O Alcorão contém, além das leis religiosas reguladoras do jejum, das esmolas e das preces, normas sociais e políticas relativas ao casamento e ao divórcio, ao tratamento dos escravos, prisioneiros de guerra e inimigos.

No Islã, existem 5 deveres ou pilares que o muçulmano deve respeitar: a profissão da fé, a prece, as esmolas, o jejum e as peregrinações.

Os califas que vieram depois da morte de Maomé unificaram os povos da região ao redor do Alcorão e começaram a se espalhar até chegar à Espanha no Século XIII, e até o Afeganistão.

Os árabes não construíram apenas um império, mas criaram uma cultura. Herdeiros da civilização antiga que floresceu às margens dos Rios Tigre e Eufrates (no Iraque), das terras do Nilo - dos egípcios e dos faraós, e das praias orientais do Mediterrâneo, com os fenícios que também assimilaram e absorveram os traços principais da cultura greco-romana.

Assim, serviram como intermediários, transmitindo à Europa Medieval muitas das influências intelectuais que despertaram o mundo ocidental e lhe indicaram o caminho da renascença moderna.

Quando o Islamismo surgiu, se propagou muito rápido, e em apenas dois séculos igualou o esplendor do seu cenário ao do Império Romano.

O deserto não é uma condição geográfica simples, e uma religião, para que triunfasse na Arábia, deveria estar de acordo com o espírito de aventura, a inclinação pela luta e o personalismo exagerado que estigmatizam o árabe, caracteres esses impostos pelo seu meio físico.

O Alcorão, onde está contida toda a religião islâmica, é o reflexo das virtudes e dos vícios, paixões e sentimentos dos árabes, ou melhor, de seu fundador.

Maomé, como acentua Herder, representa bem a expressão árabe; o autor diz de Maomé: “uma mistura de tudo o que poderia produzir sua nação, sua tribo, seu país do seu tempo: mercador, profeta, orador, poeta, herói, legislador, sob cada forma, sempre fiel ao tipo árabe.” (Johann Gottfried Herder – “Idées sur la Philosophie de l’Humanité”).

Outras religiões tentaram penetrar na Arábia, como o Judaísmo e o Cristianismo, sem conseguir resultados. “A moral tão pura do Evangelho, fundada sobre a abstração, não podia satisfazer a um povo demais dócil à voz das paixões materiais”. A simplicidade em que aparece envolta a religião de Maomé é acessível à mentalidade de seu povo.

A organização política da Arábia - inúmeras tribos nômades ou sedentárias - fez com que a finalidade do Islamismo fosse constituir um estado teocrático e militar, sendo seus membros soldados e sacerdotes, não existindo hierarquia religiosa.

Quando Maomé surgiu, já havia a decadência das antigas crenças, como acontecera no Império Romano no tempo em que surgiu o Cristianismo. A Kaaba, verdadeira confederação religiosa onde havia ídolos de todas as tribos, facilitava a unidade religiosa, a adoração de um só Deus, porque todas as tribos, mesmo envoltas no paganismo, adoravam Allah, o Deus de Abraão, antepassado dos árabes, e foi Allah que Maomé reconheceu como o único deus.

O meio árabe já estava preparado quando Maomé surgiu, e ele participou apenas com seu talento e sua inteligência, adaptados às circunstâncias, no desenvolvimento do seu povo. Quando o profeta morreu, quase toda a Península Arábica estava unificada (ano 632).

Os árabes são portadores de uma cultura interessante, que é resultante da assimilação de elementos culturais dos povos vencidos ou com os quais mantinham relações, como os egípcios, os fenícios, os persas, os gregos, os hindus e até os chineses, povos esses detentores da herança cultural da Antigüidade.

A influência árabe é muito grande na Europa. Quando os árabes chegaram à Península Ibérica, influenciaram as letras, as artes, a filosofia e as ciências. As relações comerciais e os casamentos mistos promoveram o contato entre cristãos e muçulmanos.

Os casamentos foram numerosos e os encontramos na própria aristocracia: governadores árabes se casaram com nobres cristãs, reis mouros se casaram com princesas espanholas e reis cristãos se casaram com filhas de emires árabes.

Grande era a influência da poesia árabe na poesia medieval provençal européia, não só na matéria e na forma poética, mas também no ritmo. Chamara essa poesia de “poesia andaluza” (Andaluz: como a Espanha era chamada pelos árabes). Guilherme Poitiers, o mais antigo trovador provençal, que viveu no Século XI, foi influenciado pelas “cacidas” árabes.

A Divina Comédia de Dante se inspirou no livro de um poeta místico Ibn Elarabi (p. 39).

Muitos livros exerceram grande influência na poesia e nas letras européias: o Alcorão, As Mil e Uma Noites, O Romance de Antar, Calila e Dimna, Ibn Khaldun e seu Livro dos Exemplos.

Fonte: www.conhecimentosgerais.com.br

Civilização Árabe

Civilização Árabe - Islâmica

Civilizaçãoque surgiue se formou na região do Oriente Médio,em especialna península arábica, região com clima árido, com desertos de areia na sua parte interior, porém com regiões férteis e prósperas próximas ao litoral e em planícies banhadas por rios.

Inicialmente os árabes caracterizavam-se pelo nomadismo, pelo politeísmoe por uma grande diversidade cultural. Tendo o comércio em algumas cidades como um grande ponto de encontro entreas diferentes culturas e uma importante atividade econômica.Das tribos nômades do Oriente Médio podemos destacar os Beduínos, que vivem há muitas gerações no deserto e tem como principal modo de vida o nomadismo e o comércio especialmente do camelô e de especiarias.Eles se abrigam em tendas que montam no deserto.Com os deslocamentos, as caravanas árabes entravam em contato com as rotas comerciais que ligavam o Oriente e o Ocidente. Antes do surgimento do Islã, o comércio esta ligado à religião politeísta. Santuários, culto e adoração localizavam-se próximo a feiras e rotas comerciais, em especial em Meca, onde estava a Kaaba(pedra sagrada).Já as tribos coraixitas, habitavam a região litorânea e viviam do comércio fixo

Porém a história árabe começa a mudar a partir de um profeta, o famoso Mohammed ou Maomé, ele foi o fundador doIslamismo, religião que serviu de unificador dos povos árabes.O Islamismo teve sua origem no nono mês do calendário islâmico, mês do Ramadã. De acordo com a tradição religiosa,ele corresponde ao período em que, no ano de 622,Maomérecebeu a revelação de Alá, por meio das mensagens do anjo Gabriel. Como logo em seguida passou a pregar o monoteísmo e a condenar a idolatria, precisou fugir de Meca, por causa da perseguição dos coraixitas (tribo que controlava o comércio e lucrava com o politeísmo). Esse fato, que ficou conhecido como hégira(palavra que significa “fuga”) foi o marco de fundação do islamismo e do calendário islâmico.Para os muçulmanos, o Ramadã é uma das fases mais importantes do ano, porque é destinada à renovação da fé e ao jejum para purificação. Esse jejum, obrigatório para homens e mulheres a partir da puberdade (exceto para doentes, idosos, gestantes e trabalhadores cuja função exija força), é um dos pilares do islamismo.

Os outros são: a profissão de fé ou aceitação das crenças (Shahada), as cinco orações diárias (Salat), a prática da caridade (Zakat) e a peregrinação a Meca (Hajj).

A orientação para essa fase especial está indicada até mesmo noAlcorão(livro sagrado).

Maomé foi à figura central na história da religião islâmica, ele viveu entre 567-632 d.C. Ele nasceu em Meca, cidade turística e sagrada, cujos santuários atraíam fiéis e peregrinos árabes. Ele foi criado pelo avô, guardião do conjunto da Kaaba. Com 12 anos, após a morte do avô, Maomé começou a participar das caravanas com o tio. Com isso teve contato com as religiões monoteístas (judaísmo e cristianismo). Já casado e com 40 anos, teve uma visão –de acordo com a crença islâmica –envolvendo o anjo Gabriel e daí teve a revelação que foi o início de uma nova religião, o Islã. A crença que Maomé professava era monoteísta, indo contra o politeísmo vigente em sua época. Ele também era contra a adoração de imagens. Suas ações começaram a afetar os negócios de comerciantes e sacerdotes de Meca, ele passa então a ser perseguido e obrigou-se a fugir para Yatrib (mais tarde cidade de Medina), essa fuga ficou conhecida como hégira (migração) e marca o início do calendário islâmico.

Maomé continuou sua pregação defendendo a ideia que Alah seria o Deus único e ele o seu profeta. Ele também pregava a ideia de que o destino das pessoas já tinha sido traçado por Deus(crença da predestinação),que elas deveriam entregar-se à vontade divina (islam = entrega, submissão). A entrega preconiza também entregar-se à tarefa de difundir e espalhar os preceitos do islã. A morte de uma pessoa em nome da religião seria recompensada com o paraíso, ou seja, todo esforço era válido para propagar a religião. Entretanto, tais ideias foram erroneamente interpretadas, como se os islâmicos tivessem que promover uma Guerra Santa (Jihad)em nome do Islã. Dez anos depois da hégira, Maomé voltou à Meca, acabando com os símbolos de idolatria. A religião islâmica espalhou-se, ultrapassando os limites da Península Arábica.

Foi após a morte do profeta, em 632, que a Arábia foi unificada. A partir desta união, impulsionada pela doutrina religiosa islamita, foi iniciada a expansão do império árabe.Os árabes foram liderados por um califa, espécie de chefe político, militar e religioso.Os seguidores do alcorão, livro sagrado,acreditavam que deveriam converter todos ao islamismo através da Guerra Santa. Firmes nesta crença, eles expandiram sua religião ao Iêmen, Pérsia,Síria, Omã,Egitoe Palestina.

Em 711, dominaram grande parte da península ibérica, espalhando sua cultura pela região daEspanhaePortugal. Em 732, foram vencidos pelos francos, que barraram a expansão deste povo pelo norte da Europa. Aos poucos, novas dinastias foram surgindo e o império foi perdendo grande parte de seu poder e força.

LEGADOS DA CIVILIZAÇÃO ÁRABE MULÇUMANA:

Dentre os legados podemos destacar:

Conhecimentos astronômicos: bússola, astrolábio;

Na medicina com: anestesias, procedimentos cirúrgicos;

Na matemática eles foram os inventores dos algarismos arábicos (números, 1,2, 3...)

Trouxeram da China e Índia contribuições como o papel e a pólvora;

Na nossa língua também há contribuições de vários termos como alfândega, alambique, álcool, laranjeira, limoeiro entre outras coisas;

Influenciaram na química, em aspectos administrativos (cheques, cartas de câmbios);

Contribuíram na literatura com obras como as “Mil e uma noites”, na arquitetura com os arabescos, azulejos;

Crenças e costumes da religião Islâmica.

SOBRE O ISLAMISMO(IMPORTANTE):

Religião monoteísta que prega a submissão total do homem à vontade de Alá;

O livro sagrado dessa religião e que contém as revelações a Maomé é o Alcorãoou Corão;

Além de orientações puramente religiosas, o Alcorão também tem instruções que contribuem para a ordem social e o interesse dos grandes comerciantes.

Sobre as Mesquitas: templos sagrados para orações e rituais da religião islâmica.

Sobre a Kaaba: A tradição islâmica afirma queAbraão e Ismael construíram a Kaaba como uma cópia da casa de Deus no céu. Com formato de cubo, ela tem aproximadamente 15 m de altura e é feita de pedrase mármore. Quando chega, o peregrino tem de andar sete vezes em volta da Caaba pedindo perdão e, se possível, fazer isso tocando e beijando a Pedra Negra que fica em uma das paredes do santuário. De acordo com as crenças islâmicas, essa pedra foi dada a Adão depois de sua expulsão do Paraíso,para que ele obtivesse perdão de seus pecados. Diz-se que a pedra era originalmente branca, mas, ao absorver os pecados de milhões de peregrinos, ficou preta.

ÁRABE: pessoa que nasce ou vive na península arábica.
MULÇUMANO:
seguidor ou fiel da religião islâmica.

Portanto árabe e mulçumano não são sinônimos.

EDUARDO C. FERREIRA

Fonte: www.lasalle.edu.br

Civilização Árabe

A Civilização Árabe-Muçulmana

ORIGENS

Estado Árabe

Foi na Península arábica, onde 5/6 do território equivale a áreas desérticas, que a civilização islâmica teve suas origens. O clima é extremamente quente e seco.

Seus habitantes são de origem semita, viviam em tribos, mas estas não eram unidas politicamente. Eram aproximadamente 300 tribos divididas entre beduíno e tribos urbanas.

Tribo beduínos: eram seminômades que vagavam pelo deserto em busca de um oásis para seus animais. Viviam em constantes guerras, fazendo dos saques um dos recursos de sua sobrevivência.

Tribo urbana: estabeleceram-se na faixa costeira do Mar Vermelho e sul da Península, onde o clima era mais favorável para sobreviverem. Dedicavam-se ao comércio e tinham as  caravanas de camelos, que transportavam produtos do Oriente para regiões do Mar Mediterrâneo.

A união árabe , começou a partir do século VII, a base desta união foi a religião. Onde Maomé fundou o Islamismo, no qual usava as guerras santas para expandir as fronteiras do império.

Podemos dividir a história árabe em 2 etapas:

Arábia pré- islâmica: época antes do islamismo.
Arábia islâmica:
época durante o islamismo.

PERÍODO PRÉ-ISLÂMICO

Foi nessa época que habitavam na península arábica, tanto os árabes beduínos como os árabes urbanos.

Na região dos árabes urbanos, surgiram cidades como MECA e IATREB(MEDINA), que se tornaram grandes centros comerciais. Até o século VII, os árabes não eram unidos politicamente, mas tinham pontos em comum.

Por exemplo: o idioma árabe e as crenças religiosas. Nesse período eles eram politeístas, tendo umas 360 divindades.

Mas para unir as várias tribos , em Meca foi construído um templo religioso, a Caaba ( casa de Deus), com as principais divindades.

Na Caaba, encontrava-se a pedra negra, que de acordo com a crença, veio do céu pelas mãos do anjo Gabriel.

Com todas essas atrações , estas cidades prosperam rápido.

PERÍODO ISLÂMICO

Começou com Maomé(570-632), fundador do islamismo,ou religião mulçumana ou maometana.

Maomé era membro da tribo coraixita ,de família pobre, nasceu em Meca e desde jovem participava nas caravanas comerciais pelo deserto, com tudo isso, ele teve contato com as várias crenças religiosas da região além do judaísmo e do cristianismo, ambas monoteístas.

Em suas pregações, Maomé condenou os ídolos da Caaba, pois havia somente um único deus . claro que isso não agradou nenhum pouco os sacerdotes da Caaba, que logo trataram de persegui-lo, obrigando Maomé fugir para Iatreb ( Medina), em 622.

Essa fuga ficou conhecida como hégira, e marca o início do calendário mulçumano.

Em Iatreb ( Medina) Maomé se popularizou e organizou um exército que conquistou Meca e destruiu os ídolos da Caaba, em 630.

A Caaba foi convertida em centro de orações e a crença politeísta foi proibida.

Depois disso , Maomé, espalhou o Islamismo por toda a Arábia, unificando as tribos pela religião.

FÉ ISLÂMICA

Esse termo , islamismo, quer dizer ‘’submissão a Alá’’. Tem por base o alcorão, livro sagrado dos mulçumanos.

As doutrinas básicas são:

Crença em Alá, como o único deus e em Maomé com seu profeta.
Fazer cinco orações diárias.
Mostrar generosidade para com os pobres e dar esmolas.
Fazer o jejum religioso no mês do Ramada, ( mês do jejum)
Fazer peregrinação pelo menos uma vez na vida para Meca.

NOTA:

ALCORÃO ( A LEITURA)

O LIVRO SAGRADO DOS MULÇUMANOS. ABRIGA AS REVELAÇÕES FEITAS POR ALÁ A MAOMÉ REUNIDAS POR SEUS DISCÍPULOS. CONTÉM INSTRUÇÕES PARA A PRESERVAÇÃO DA ORDEM SOCIAL . HÁ PROIBIÇÕES, COMO: COMER CARNE DE PORCO, PRATICAR JOGOS DE AZAR . MAS A POLIGAMIA E A ESCRAVIDÃO SÃO PERMITIDAS.

Após a morte de Maomé, a religião sofreu algumas divisões.

As mais destacadas são:

SUNITAS: para eles o Califa deve ter virtudes morais com honra, respeito, trabalho, mas também deve reconhecer suas falhas em ações. Aceitam o Alcorão como livro sagrado e também as Sunas, livros de tradições recolhidas com os companheiros de Maomé.
XIITAS:
para eles a chefia do estado só pode ser ocupada por um descendente legítimo de Maomé. Para eles o chefe da comunidade islâmica, Imã, é inspirado diretamente por Alá, logo ele é infalível.

Os fieis devem obediência ao Imã. Aceitam somente a Alcorão como base de seus ensinos.

Hoje, os seguidores xiitas habitam principalmente no Irã e no Iemem. Os sunitas predominam nas demais regiões.

EXPANSÃO E DECADÊNCIA MULÇUMANA

Maomé com a criação do Estado mulçumano, fez um estado de governo teocrático, ou seja , com se fosse governado por inspiração divina. Este governo foi ampliado pelas conquistas militares.

Os califas, começaram a governar após a morte de Maomé,em 632. estes passaram a terem poderes religioso,político e militar.

A expansão árabe teve algumas fases:

1ª FASE( 632-661)

Os califas eleitos, que sucederam Maomé, conquistaram a Pérsia, Síria, Palestina e Egito.

2ª FASE( 661-750)

Nessa etapa os califas Omídas, tomaram conta da política. A chefia tornou-se uma monarquia hereditária, com sede em Damasco.

As conquistas foram desde o noroeste da China, passando pelo norte da áfrica indo até quase toda península Ibérica.

Mas devido alguns atritos sociais e econômicos, gerou-se uma crise na dinastia Omíada.

3ª ETAPA( 750- 1258)

Nessa etapa, aparece a dinastia Abássidas, marcada pela invasão Persa ao mundo islâmico. A cidade de Bagdá tornou-se a sede.

O califa tinha poderes religiosos e a direção do governo ficou a cargo do Vizir.

Com eles as conquistas avançaram pela Europa e sul da península itálica. Mas devido as crises internas e externas acabou havendo a formação de estados independentes, como Córdoba ( Espanha) e Cairo ( Egito).

Uma coisa que talvez deve ter sido o motivo do fim de tantos impérios, e que no islâmico não deve ter sido diferente foi as disputas de poder entre seus governantes, desde o século VIII, as rivalidades dos califas levaram à divisão do império, com formação de estados independentes.

Também houve os fatores externos. Os povos conquistados começaram a reagir contra a dominação árabe.

ECONOMIA

O comércio teve maior destaque nas cidades . os mulçumanos criaram meios jurídicos para o comércio, como cheques, letras de câmbio e recibos. Realizaram negócios em várias regiões do mundo. Tanto pelo Mar como por terra.

Na agricultura, os mulçumanos desenvolveram uma variada produção agrícola em diversas regiões do país. As terras foram melhoradas devido as grandes obras de irrigação.

As lavouras mais destacadas foram: açúcar, trigo, algodão, arroz, cana-de-açúcar, entre outros.

Na criação de animais tem-se: cavalos, carneiros e camelos.

CIÊNCIA

Nos principais centros do império, havia cientistas e filósofos que desenvolveram estudos de grande importância nos campos da matemática, física, química, com o descobrimento de substâncias como o álcool, na medicina, com novas técnicas cirúrgicas e causas de moléstias como o sarampo, e na filosofia, com os estudos das obras de Aristóteles.

Fonte: juliobattisti.com

Civilização Árabe

Al-Khat e A Palavra na Arte Árabe-Islâmica

A sacralidade da língua árabe, como meio de propagação da Palavra, dá-se inicialmente na escrita, enquanto a língua oral permite uma manifestação no tempo do Texto Eterno.

O próprio Alcorão confere à escrita e à caligrafia (em árabe expressas significativamente pela mesma e única palavra khat) a máxima dimensão hierática, sobrelevando o cálamo que as produz, como em 96, 3-5: "Recita! Teu Senhor é o Generosíssimo que ensinou o uso do cálamo, ensinou ao homem o que ele não sabia".

Por manter viva a Palavra, é o cálamo o instrumento de Deus, e como tal, convoca a máxima reverência.

Assim se inicia a sura denominada O Cálamo (68,1), em que Deus jura pelo cálamo: "Pelo cálamo e pelo que escrevem!"

A Caligrafia define-se por um dinamismo grafofônico, na medida em que é escrita para ser ouvida no silêncio da fé que leva ao Islam. E é poesia para ser vista, contemplada, pela harmoniosa concepção do signo como unidade estética. Capaz de abarcar pelo conteúdo e pela forma, a mensagem enviada por Deus, encontra, na mesquita, seu lugar natural.

"A mesquita - não há altares, não há imagens, mas há letras árabes em toda parte. Esses sinais, curiosamente revoltos e cursivos aparecem pintados e esculpidos nas paredes, tecidos nos tapetes e nos medalhões que pendem do teto. A letra árabe é a razão de ser da mesquita. Por ser uma casa da escrita, é a mesquita uma casa de Deus. A mesquita é uma casa de leitura, porque leitura é prece".

Expandindo ao fiel o caminho da ascese, a caligrafia da Palavra convoca-o pela fé, pela razão e pela emoção, permitindo-lhe o encantamento e quiçá, o encalço paroxístico do Absoluto.

Exercendo as funções iconográfica e ornamental, a Caligrafia busca - pelo ritmo e pela cadência; pelo sentido e pela forma hierática - conferir ao ambiente sagrado do muçulmano, uma dimensão imponente de inteligência e beleza, adequada ao encontro com Deus.

Civilização Árabe
Estilo kûfi ortogonal (Samarkanda): "Não há deus senão Deus e Muhammad é o mensageiro de Deus" (profissão de fé muçulmana)

Ritmo e cadência provêm da repetição das letras, das palavras, das frases; da repetição que é o arabesco, muitas vezes associado à escrita.

Pertinente, aqui, a palavra de Jamil A. Haddad que nos recorda "o dhikr, a repetição ininterrupta pelos tempos infinitos do nome de Allah em que o crente se anestesia apenas com a repetição do nome de Deus que leva ao êxtase, o que, em definição rápida, é o contacto direto, imediato com Deus, dispensando intermediários".

Ao contrário da arte ocidental, fundada na poli-idealização, a arte árabe revela-se essencialista, expressando-se por uma forma decorativa não-figurativa, alicerçada fortemente na caligrafia do pensamento alcorânico.

Civilização Árabe

Não será a bondade a recompensa da bondade? (Alcorão LV, 60)

(Caligrafia de Hassan Massoudy)

A Civilização Árabe, tendo se constituído e desenvolvido sob a proteção do Islão, foi uma das maiores civilizações da escrita que o mundo conheceu. Na verdade, a palavra contida no Alcorão, escrita, ouvida e recitada - o Alcorão é não só a Leitura, mas também o Dhikr por excelência - é para o árabe, fundamento de vida.

O Alcorão, palavra incriada e eterna de Deus, texto maior do muçulmano, é considerado, assim, o Signo-fonte que manterá com todas as outras escrituras determinadas pela cultura que embasa, um elo orgânico. A escrita - e sobretudo a caligrafia árabe - é considerada uma das formas mais proeminentes de inserção do Signo na realidade e na memória dos homens, pois fixa a língua que se tornou o veículo da Revelação.

Se o pensamento alcorânico é total e sua língua, perfeita, é porque se trata do Verbo do Altíssimo que desceu à terra. Verbo que se fez escrita. Escrita que se materializou na Caligrafia. Caligrafia que representa o corpo visível da divina palavra.

Para o muçulmano, o nome sagrado de Deus e o Alcorão equivalem à Encarnação para o cristão: o mesmo senso de devoção que o cristão nutre por Jesus (Verbo Encarnado) é o que o muçulmano nutre pela escrita da palavra divina e pelo Alcorão que a acolhe.

Das artes visuais do Islão, é a Caligrafia a mais nobre. E a de fundamento e concepção mais peculiares. Está longe de ser uma arte em substituição à imagem, esta, mal vista por um Islão em que o combate ao politeísmo e ao totemismo é um ponto fulcral de doutrina. A Caligrafia é antes uma arte em que a letra - o signo - se faz imagem.

Construída sobre o credo monoteísta que impede a pesquisa e experimentação de vários modelos, a arte muçulmana levou a extremos a reserva quanto à imagem, quase negando a arte figurativa, ao menos vendo-a com precaução e desprezo, o que, de certa maneira, já estava prescrito nas grandes religiões monoteístas anteriores.

Para o cristão, há sensivelmente uma gradação na conceituação da imagem: não se deve adorar, mas reverenciar a imagem da Virgem, de Jesus e dos Santos.

Para o cristão oriental, as regras de preservação da sacralidade são mais rígidas e o temor da idolatria, ainda maior, o que exclui a tridimensionalidade da imagem talhada, a estátua esculpida, admitindo-se apenas os ícones, estes, sim, podendo ser respeitados, por serem apenas imagens pintadas em superfícies planas. E, para o protestante, o aniconismo é marcante em todas os momentos do exercício da fé.

O iconoclasmo muçulmano aproxima-se do bizantino, participando também da resistência do protestantismo à reprodução e, em certo sentido, é o herdeiro do lastro iconoclasta dos antigos semitas.

Se nos reportarmos ao texto alcorânico, porém, veremos que nele não há interdição clara da imagem ou da arte em geral. É evidente, entretanto, a condenação na direção da idolatria, uma vez que "será proscrito todo objeto de arte que se torne cultuado".

Tal condenação explicita-se de modo definitivo quando é execrada a prática idólatra do período pré-islâmico, consubstanciada aqui, particularmente, na adoração das estatuetas Al-lât, Al-Ozza e Manat.

Já nos hadiths, verifica-se que em suas declarações, está contida a hostilidade à arte em geral e, de modo especial, à figurativa.

Verifica-se, ainda, que a condenação surge com maior veemência contra o artista do que contra sua obra, conforme um de seus mais reconhecidos aforismos: "Os artistas que fazem imagem, serão punidos no Dia do Juízo por um julgamento de Deus que lhes determinará a impossível tarefa de ressuscitar suas obras".

Outra razão implícita da condenação do artista e da imagem que produz, escuda-se no fato de que a mensagem teológica central do Alcorão consiste em afirmar a unicidade e o total poder de Deus. A relação dos Atributos de Deus (Asma ‘Allah al Husna) mostra que um de Seus qualificativos é Al-Mussawwir (o criador de formas), o mesmo termo utilizado para pintor. A partir daí, todo artista seria um rival de Deus no exercício de Suas atribuições principais.

Ainda com relação à imagem, se tomarmos como referência a arte hindu e a chinesa por um lado e a cristã por outro, configurando, portanto, um paralelismo Oriente/Ocidente, veremos que a arte islâmica delas diverge não tanto em princípios fundamentais, como em interpretação literal. Como vimos, o espírito da interdição islâmica em face da representação de formas é que, teoricamente, no Dia do Juízo, as imagens deverão ser ressuscitadas por seu autor. No que concerne ao conceito hindu, "o elemento formal na Arte representa uma atividade puramente mental", não cabendo a preocupação em dotá-lo de vida.

Por outro lado, a imagem, o ícone cristão não são movidos por nada que não seja apenas sua forma: "cada um, no seu sentido estrito, é visto como uma espécie de diagrama, expressando certas idéias e não como semelhança (likeness) de algo na terra".

O muçulmano vê a representação como blasfêmia, pois só Deus tem o poder criador da vida.

Na visão asiática e na cristã, a arte figurativa representa um modo de falar de Deus e da Natureza e não de imitá-los: a natureza e a arte são parecidas somente em idéia; do contrário, são irreconciliáveis.

A amplitude da questão da imagem convocou figuras eminentes do mundo islâmico através dos tempos. Dentre elas, a de Algazali, em sua obra Ihya’ Ulum Al-Din (Vivificação das Ciências da Religião) em que, ao enumerar o cortejo de vícios que acompanha os banhos bizantinos, situa, em primeiro lugar, "os afrescos representando seres humanos e animais", não tolerando senão "os que representam árvores, isto é, seres inanimados".

Na verdade, seres inanimados, figuração de animais e até de seres humanos acabarão por integrar o universo árabe-islâmico, a partir já de meados do século VIII.

Algumas considerações impõem-se aqui, que permitam esclarecer o aparente paradoxo.

A reflexão sobre Arte (como, de resto, sobre qualquer segmento da Cultura Árabe) deve tomar em conta o conjunto de fatores e relações estabelecidos a partir do encontro dos muçulmanos com outros povos, no formidável processo de expansão que o Islão conheceu.

Tendo início em 622, a formação da almejada "nação árabe" (‘umma) adquiriu seus contornos maiores com a chegada dos muçulmanos à Península Ibérica em 711.

O processo de implantação da língua árabe e da religião islâmica (implicando naturalmente o enraizamento cultural árabe) gerou uma realidade bastante complexa, determinada basicamente pela união de várias etnias, culturas e filosofias, sob a égide do Islão. Na verdade, o grau de islamização de cada região, país ou grupo social foi extremamente diversificado, não só porque o momento histórico em que ocorreu era outro, mas - e sobretudo - em virtude do maior ou menor arraigamento das populações conquistadas a seus valores originais; populações detentoras, muitas vezes, de ricos patrimônios ar-tísticos e tradições plásticas.

Para exemplo, tomemos a Pérsia, à época da arabização, região das mais florescentes sob todos os aspectos, que manteve com a incorporação dos valores árabes e islâmicos, muita autonomia na condução de seu desenvolvimento cultural. Pelas mesmas razões, foi análogo o caso da antiga Síria, acrescendo-se o fato de que parte de sua população resistiu à islamização, chegando a preservar um importante núcleo cristão no Oriente Médio e grande liberdade na determinação de seu perfil cultural.

A Civilização Árabe não uniformizou totalmente os povos convertidos. A tolerância dos conquistadores (registrada pelos historiadores mais divergentes entre si) permitiu o exercício dos diversos particularismos dos conquistados, ao mesmos tempo em que os engajou na perspectiva universalista do projeto da Nação Árabe.

Abalançando-se entre o geral e o particular, o comum e o específico, os árabes nunca perderam de vista o objetivo maior, a consolidação da entidade unitária representada pela ‘Umma. À medida que o Islão se expandia; que, cada vez mais, se distanciava do ambiete idólatra que o antecedera; que se intensificava o contacto com a arte dos conquistados, foi se alterando a ordem inicial do iconoclasmo e do aniconismo muçulmanos. Nesse sentido, são acentuadas as influências bizantina e sassânida.

Sob a dinastia dos omíadas (660 a 750), com capital em Damasco, na Síria, o desenvolvimento artístico árabe efetuou-se muito próximo do mundo helenístico e da cultura bizantina. Surgiram, entre os árabes, nessa época, as primeiras reproduções de realidades inanimadas como árvores, flores, conjuntos arquitetônicos... Além do mais, artistas bizantinos foram solicitados - em virtude do brilho e da superioridade técnica, digamos assim, que os muçulmanos também lhes conferiam - a colaborar na construção e decoração das grandes mesquitas omíadas do Oriente.

O período subseqüente (750 - 1258) tem início com a tomada do poder pelos abássidas, que transferiram a capital do Império para Bagdad, de domínio persa.

Foi, sem dúvida, o período que aglutinou um maior número de convertidos não-árabes e foi, justamente por isso, o período que mais propiciou a incorporação de valores específicos dos grupos assimilados. No século IX, entretanto, surge em Samarra o arabesco, um tipo de ornamentação especificamente islâmica, cuja dinâmica é dada por um ritmo contínuo. Está presente circundando frases, marcando início de capítulos (sobretudo do Alcorão). "Dialética do ornamento", para usar a expressão de Burckhardt, o arabesco apresenta em sua estrutura, variações infinitas determinadas principalmente pelo entrelaçamento de planos e linhas que redundam em motivos geométricos e motivos florais e vegetais. De policromia suntuosa, transpõe os mesmos motivos a todos os materiais, mas encontra no livro, lugar de destaque. Os tons de ouro e prata parecem acentuar o lado espiritual, sagrado. Em combinação com as demais cores (verde, azul, amarelo, vermelho...) chegam a provocar a ilusão de um vitral iluminado... Quando utilizadas as cores complementares do arco-íris, elas o são sempre na tonalidade original.

Lentamente, tomou lugar a representação de seres vivos: animais, de início, e mais tarde, esparsamente, a figura humana, localizando-se a primeira, ainda em meados do século VIII, nas paredes do Qusayr Amrah, edificação das estepes desérticas da Transjordânia.

Merecem citação também, as pinturas de Samarra no Iraque e o manuscrito ilustrado do Kitab al-Aghâni de Abu al-Faraj al-Ispahâni, entre outros exemplos conhecidos.

Por volta do século XIII, fruto de diversos aportes e da devida assimilação dos mesmos, os árabes muçulmanos chegam a uma manifestação artística bastante autêntica, propondo um estilo próprio que se concretiza na chamada "Arte do Livro". Esta compreende a Iluminura, processo consagrado pela ornamentação das páginas e das capas do Alcorão, sobretudo frontispícios e posfácios com elementos sem figuração alguma, bastante complexos pelo ritmo e pelo nível de entrelaçamento de motivos. São freqüentes as rosáceas, separando versículos e os inícios de capítulo assinalados por enquadramento decorativo. Há o uso abusivo da douração, o que acentua o caráter sagrado do texto alcorânico e torna a página mais luminosa; daí o termo que a caracteriza - iluminura. A Arte do Livro compreende também a ilustração de manuscritos, através da Miniatura de imagens.

A miniatura será a mais notável arte figurativa árabe. De acentuada influência persa, seu apogeu coincide com o apogeu da Civilização Árabe e seu declínio acompanha a trajetória dos árabes, a partir da chegada dos mongóis a seus domínios (1.258). As obras mais representativas desta arte são dois exemplares das Maqâmât de Al-Hariri. O primeiro data de 1.225 - 1.235 e o segundo, de 1.237. Atribui-se o primeiro a um desconhecido; o segundo consagrou definitivamente Al-Wasiti, calígrafo e pintor que o copiou e ilustrou.

A fascinação destas pinturas (mais freqüente entre os shiitas que entre os sunitas), reside no poder de evocar - detalhando-os - aspectos contemporâneos da vida árabe, seja um povoado, uma caravana, uma procissão de peregrinos, uma barcaça no Eufrates, ou um navio no Golfo Pérsico...

Portanto, além da beleza plástica, encerram um valor adicional: têm um caráter documental do modus vivendi da época, realmente importante.

Ao analisar as múltiplas influências culturais incidentes particularmente na Arte Árabe, verifica-se que a supremacia persa é incontestável. Entretanto, é de suma relevância a influência generalizada pelo Império Árabe (seja no Oriente, seja no Ocidente), de uma visão cristã marcada pela iconografia de povos evangelizados.

Muito embora tenha se realizado de alguma maneira, a conquista da arte figurativa e seu conseqüente desenvolvimento até o presente, entre os árabes muçulmanos, nunca teve um percurso tranqüilo, ainda que se verificasse sempre no âmbito profano. Suscitou sempre acirradas polêmicas e acaloradas discussões acerca de interpretações dogmáticas.

Houve, evidentemente, níveis diferentes de aceitação e de restrição à imagem ao longo do tempo: a região da Pérsia, por exemplo, mostrou-se mais liberal que as regiões de substrato semítico; houve uma atitude marcadamente moralizadora nos primeiros tempos do Islão, com vistas a extirpar de seu universo, a idolatria, contrastando com a abertura maior do século XII. E - retomando Grabar - "a heterodoxia shiita mostrou-se mais permissiva que a ortodoxia sunita". Contudo, pairou sempre sobre a mão do artista - ainda que de modo não canonicamente explícito - certo desprezo pela imagem.

Uma análise porém, ainda que superficial do âmbito da Arte, dá-nos a certeza de que há uma unanimidade, uma horizontalidade que atravessa a globalidade árabe: a importância do signo, da escrita como o veículo máximo da simbologia islâmica.

Civilização Árabe

Não será a bondade a recompensa da bondade? (Alcorão LV, 60)

(Caligrafia de Hassan Massoudy)

Como corpo da Revelação, a Caligrafia (khat) é a própria identidade do Islão, exercendo-se como elo entre a Natureza e o Alcorão - os dois livros de Deus - ao plasmar os sinais divinos em seu duplo sentido: sendo abstrata é, em certa medida, figurativa, visto ser a própria encarnação do Verbo; sendo visível presença da divina palavra, remete ao Invisível (Ghayb).

Aida R. Hanania

Fonte: www.hottopos.com

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